O MOVIMENTO DAS CRUZADAS - Augusto Bello de Souza Filho

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O MOVIMENTO DAS CRUZADAS - Augusto Bello de Souza
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O MOVIMENTO DAS CRUZADAS (1095 e 1270)
O movimento das cruzadas tinham como objetivos derrotar os
mulçumanos que ameaçavam Constantinopola; salvar o Império do Oriente; unir de
novo a cristandade; reconquistar a Terra Santa; e após todas estas realizações ganhar
o céu. As cruzadas realizaram em parte os seus sonhos, contudo, por diversas razões
eles não se consolidaram definitivamente. Os mulçumanos foram derrotados na
primeira cruzada e mais tarde se uniram e expulsaram os cruzados. Constantinópola
pode respirar aliviada, e a sombra do seu Império, manteve a sua existência até o
século XV, mas a longo prazo caíram sob o domínio dos turcos otomanos. As igrejas
latinas e gregas se uniram por pouco tempo em face da aplicação da força por ocasião
da quarta cruzada. Contudo, em face desta união forçada se acentuou o ódio dos
gregos pelos latinos. A Terra Santa por sua vez esteve em poder dos cristãos por
mais ou menos um século, e depois caiu novamente em poder dos mulçumanos.
A partir do século IV as peregrinações a Terra Santa ficaram cada vez
mais populares. Havia também o hábito dos cristãos visitarem os túmulos dos
mártires no aniversário de sua morte. Com o advento do Império cristão, era possível
fazer peregrinações mais longas, até a Terra Santa ou Roma, onde descansavam os
restos mortais de São Pedro e São Paulo. Helena, mãe do Imperador Constantino
esteve visitando Jerusalém e creu que havia descoberto os restos da cruz em que
Jesus foi crucificado. A partir daí a sua pretensa descoberta e as basílicas que ela e
vários imperadores mandaram construir, aumentaram a fascinação dos cristãos pela
Terra Santa.
As peregrinações a Jerusalém cresceram muito e passaram a ser aplicadas
como uma forma de penitência adequada para certos pecados. Isto foi visto em
documentos do século VII entre as penitências que eram aplicadas a um pecador.
Entre todos os lugares de peregrinação a Terra Santa era o mais buscado pelos
cristãos em face de sua importância histórica.
Quando os árabes tomaram os lugares sagrados do cristianismo, muitos
cristãos passaram a acreditar que as peregrinações à Terra Santa seriam dificultadas,
contudo até certo ponto os árabes foram considerados benevolentes para com os
peregrinos cristãos, que continuaram visitando Jerusalém e os lugares santos.
Os peregrinos encontravam muitas dificuldades para chegar até
Jerusalém. Nos mares havia insegurança em face da pirataria, deste modo a rota mais
comum dos peregrinos do Ocidente os levava até Constantinopola e daí por terra,
através de Anatólia e da Síria, chegavam a Terra Santa. A reforma do século XI deu
grande importância as peregrinações, que nesta época ficaram muito mais fáceis e
comuns porque a pirataria tinha sido quase que totalmente extinta do Mediterrâneo.
Algum tempo depois estas viagens passaram a ser confusas e perigosas. Cada cidade
por onde passavam parecia ter o seu próprio governo. Haviam fortes bandos de
ladrões por toda à parte. Diante destes fatos muitos dos peregrinos tinham
dificuldades de voltar para as suas origens, passando a pensar na Terra Santa como
o lugar da última peregrinação. Muitos esperavam morrer em Jerusalém ou a
caminho. Os que conseguiam regressar se sentiam decepcionados, achando que
melhor seria terem morrido em sua peregrinação penitente. Muitos achavam que a
morte em peregrinação à terra Santa veio a ser a suprema eleição divina, como a
morte nas mãos do Império o tinha sido para os mártires de antigamente.
Muitas das raízes das cruzadas foram encontradas nos grupos que se
armavam para irem a peregrinação, se constituindo em verdadeiros pequenos
exércitos, para se defenderem dos bandos de ladrões.
Outra forte razão para a conclamação das cruzadas foi que os cristãos já
não tinham a crença básica de que não podia ser um soldado, como ocorreu entre os
soldados cristãos no Império Romano. As referências mais fortes foram a de que
Constantino havia lutado com a ajuda de Deus, bem como os textos do Antigo
Testamento, onde o povo de Deus guerreava contra os seus inimigos. Além dos
envolvimentos de muitos papas em conflitos, como foi o caso do papa Leão IX que
deu o exemplo, ao marchar à frente das tropas com que esperava derrotar os
normandos. Na Espanha os cristãos lutaram para expulsar os mouros. Nestas
embaixadas os cristãos contavam sempre com o apoio da igreja e com a benção do
papa.
Dentro deste contexto histórico surgiu a primeira cruzada em meio a um
tempo de fome e pestes que assolavam a Europa. O papa Urbano teve no Concílio
de Clemont, na França, e conclamou o povo para a primeira grande cruzada. O papa
ressaltou em seu discurso os horrores pelos quais passavam os peregrinos e a
profanação dos lugares sagrados, e a imperiosa necessidade de acudir-se os irmãos
gregos. O povo o aclamou dando prova de sua aprovação. Urbano ofereceu
indulgências plena a todos que morressem no empreendimento. Todos os pecados
seriam perdoados e o pecador iria diretamente para o paraíso. Quando o papa
terminou o seu discurso o povo começou a gritar: “Deus o quer! Deus o quer! Deus
o quer! Deus o quer!”. A partir daí o que se viu foi uma euforia total. Dentre os
cristãos surgiram todo o tipo de profecias e visões. “Jerusalém, descia do céu e estava
apensa no Oriente”, esta é uma dentre muitas outras. Na primeira cruzada houve
muitas dificuldades principalmente de alimentos, motivo pelo qual os cruzados iam
saqueando as cidades por onde passavam. Nesta empreitada desastrada eles
chegaram a lutar com outros cristãos por onde passavam. Outros grupos de cruzados
se dedicaram a matar judeus, já que iam para terras distantes lutar contra os infiéis,
então porque não começar logo pelos judeus, e assim foi.
Na primeira cruzada conquistaram a Terra Santa, o principado de
Antioquia, e os condados de Trípoli e Edessa, ficando estes praticamente
independentes do rei de Jerusalém. Nas cidades mais importantes surgiram centros
comerciais italianos. O país ficou dividido em quatro arcebispados, sob um patriarca
do rito latino, com sede em Jerusalém. E se estabeleceram numerosos mosteiros.
Na Segunda Cruzada não houve aquele calor ardente nem o empenho da
primeira, como conseqüência suas forças pereceram na Ásia Menor e as que
alcançaram a Palestina sofreram grave derrota em 1148, quando intentavam tomar
Damasco. Foi um desastre total deixando profundo ressentimento no Ocidente
contra o Império do Oriente em face do insucesso.
Na Terceira Cruzada três grandes exércitos foram chefiados pelo
Imperador Frederico Barba Ruiva, considerado o maior soldado da época. Pelo Rei
Filipe Augusto, da França, e pelo Rei Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra.
Frederico morreu afogado acidentalmente na Cilícia e seu exército, sem a sua
vigorosa direção tornou-se ineficaz. As questões entre o Reino da França e da
Inglaterra se encarregaram de esvaziar a expedição que se tornou um fracasso.
Mesmo assim Acre foi recuperada e Jerusalém caiu na posse dos maometanos.
A Quarta Cruzada teve grandes conseqüências políticas e religiosas. Em
vez de se dirigirem para a Terra Santa que era o ponto crucial do conflito entre
cristãos e mulçumanos, resolveu se deslocar na direção de Constantinopola. O papa
Inocêncio III não gostou desta idéia e proibiu este desvio do propósito inicial, que
tinha como meta derrubar o Imperador Aleixo III. Tudo isto por causa da promessa
de Aleixo, filho do deposto Isaque II, que prometeu aos cruzados bom pagamento
pelo auxílio para que assumisse o Império. O imperador foi derrubado, mas Aleixo
não conseguiu cumprir suas promessas, motivo pelo qual os cruzados tomaram
Constantinopola em 1204 e saquearam seus tesouros. As relíquias das igrejas foram
as mais visadas. O Império Oriental foi dividido. Balduíno de Flandres foi feito
imperador e um patriarca latino foi nomeado papa. Esta conquista latina tornou-se
um desastre porque enfraqueceu o Império Oriental e agravou o ódio entre a
cristandade grega e latina.
Em 1212 foi feita uma expedição de crianças que ficou conhecida como
a “Cruzada das Crianças”, sob o comando de um pastor francês chamado Estêvão e
um alemão de Colônia, chamado Nicolau, que reuniu milhares de crianças. Quando
atravessavam a Itália grande número delas foi vendido como escravos para o Egito.
Em seguida organizaram a Quinta Cruzada contra o Egito que no início
alcançou êxito, mas terminou em fracasso.
A Sexta Cruzada teve como líder o Imperador Frederico II que partiu em
1227, adoeceu e retornou. Ao chegar o Papa Gregório IX o considerou desertor e,
tendo outros motivos para hostilizá-lo, o excomungou. Em 1228 partiu novamente e
no ano seguinte, assinou um tratado feito com o sultão do Egito, obteve a posse de
Jerusalém, Belém, Nazaré e um ponto da costa. Jerusalém ficou em poder dos
cristãos novamente. Mas, em 1244 foi definitivamente perdida mais uma vez.
Quando o espírito das Cruzadas estava morrendo o Rei Francês Luís IX, levou uma
expedição desastrosa contra o Egito. Foi preso e num ataque em Túnis em 1270 foi
morto.
A última tentativa partiu do Príncipe Eduardo da Inglaterra. A última
possessão latina na Palestina foi perdida em 1291. Haviam terminado as Cruzadas.
Considerando pelos objetivos as cruzadas foram um fracasso. Não
conquistaram de modo permanente a Terra Santa. Não se tem certeza de ter evitado
o avanço do Islamismo. O seu custo foi muito caro em vidas e em bens. Acredita-se
que as cruzadas motivaram o crescimento da Europa, principalmente no comércio
das cidades ao Norte da Itália e a grande rota comercial dos Alpes e do Reno
cresceram de importância. A rica civilização do Oriente contribuiu para o
enriquecimento da cultura européia. Por toda a Europa houve melhora do
desenvolvimento intelectual. O desenvolvimento teológico através do escolaticismo
se desenvolveu. A Igreja presenciou muitos movimentos religiosos populares. As
universidades se desenvolveram. Grande desenvolvimento na literatura vernácula e
artística. A Europa no período das Cruzadas despertou-se e iluminou-se se
comparada com séculos anteriores.
Augusto Bello de Souza Filho
Bacharel em Teologia
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