Departamento de Filosofia A ALEGORIA DA CAVERNA E O MITO DE ECO Aluno: Luís Paulo Pinho Bueno de Carvalho Orientadora: Luisa Severo Buarque de Holanda Introdução A falsidade, ponto crucial na filosofia platônica, é elucidada, muitas vezes e em diversos contextos, por meio de metáforas visuais. No diálogo Filebo (38c-e), por exemplo, a personagem Sócrates utiliza elementos imagéticos e visuais para discorrer sobre a formação da opinião. Isto acontece por meio da apresentação de um experimento de pensamento no qual um observador avista um objeto e, por ter este a forma humana, conclui imediatamente tratar-se de fato de um ser humano. “S:‘O que será aquilo que está aparecendo lá junto à pedra, debaixo da árvore?’ Não te parece que alguém dizer a si mesmo essas coisas, depois de ter percebido esse tipo de aparição? P: Sim, e daí? S: Depois disso, essa pessoa bem poderia dizer, como se respondesse a si mesmo: ‘é um ser humano’. Falando assim, teria ele acertado o alvo? P: Certamente S: Mas, talvez, pode ser que alguém não acerte o alvo e declare que o que viu é a obra de pastores: ‘é uma estátua’.” Como fica claro na proposta socrática, o homem que vê pode acertar mas também pode errar e, ao invés de reconhecer a forma humana, confundi-la com uma estátua. Trata-se, portanto, de alguém que possui a capacidade visual e que efetiva a sua capacidade vendo de fato algum objeto. Porém, que ora acerta no reconhecimento do objeto visto, ora erra, confundindo-se com outra coisa e enganando-se. Esse tipo de descrição do erro e do engano está presente, de modos variados e particulares, em diversas outras obras platônicas, da juventude à maturidade. Nos famosos capítulos centrais da República, os livros VI e VII, como se sabe, ocorre algo similar. Ali, os elementos apresentados por Platão para estabelecer a metáfora do conhecimento e da verdade são a visão, a luz e o objeto visto. A ignorância e a opinião falsa serão caracterizadas a partir dessa mesma metáfora. Trata-se de ver ou não ver bem, isto é, de ter ou não ter tanto a faculdade visual quanto objetos para serem vistos e a luz para iluminá-los, efetivando ou não a visão. Entretanto, numa leitura atenta do célebre Mito da Caverna, nota-se a presença também de metáforas auditivas – vozes e ecos. Essas metáforas servem, igualmente, para estabelecer a existência de um tipo de engano. Nosso objetivo neste trabalho é destacar a presença dessas metáforas auditivas e instigar os leitores a empreender análises e formular possíveis hermenêuticas sobre a função desses elementos – em conjunto com os aspectos visuais – na imagem alegórica construída pelo filósofo ateniense. A República: alegoria da caverna Iremos citar trechos referentes a tal passagem, analisando e comentando cada um, familiarizando, por conseguinte, com mais eficácia, o leitor com a alegoria construída por Platão, o que é necessário para uma melhor compreensão, e para prosseguimos a nossa análise da questão proposta. “– Agora – continuei – representa da seguinte forma o estado de nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens em morada subterrânea, em forma de caverna, que tenha Departamento de Filosofia em toda largura uma entrada aberta para a luz; estes homens aí se encontram desde a infância, com as pernas e o pescoço acorrentados, de sorte que não podem mexer-se nem ver alhures exceto diante deles, pois a corrente os impede de virar a cabeça; a luz lhes vem de um fogo e os prisioneiros passa um caminho elevado; imagina que, ao longo deste caminho, ergue-se um pequeno muro, semelhante aos tabiques que os exibidores de fantoches erigem entre eles e o público e por cima dos quais exibem as suas maravilhas. – Vejo tudo isso – disse ele. – Figura, agora, ao longo deste pequeno muro homens a transportar objetos de todo gênero, que ultrapassam a altura do muro, bem como estatuetas de homens e figuras de animais, de pedra ou de madeira, bem como objetos de toda espécie de matéria; naturalmente, entre estes portadores, uns falam e outros se calam. – Eis– exclamou – um estranho quadro e estranhos prisioneiros”[1] O autor nos informa por meio da imagem, ainda estática, o ambiente e a condição nos quais os prisioneiros se encontram: presos desde a infância, numa gruta subterrânea, estão impedidos de se mexer e/ou virar a cabeça, permanecendo imóveis, e portanto, contemplam apenas o fundo da caverna. Os homens, que passam entre o muro e a fogueira, curiosamente, não são vistos, pois as sombras projetadas são unicamente dos objetos carregados por eles, e o que os prisioneiros apreendem de tais pessoas são apenas suas vozes, como será mostrado mais adiante. “– Eles nos assemelham¹ – repliquei – mas, primeiro, pensas que em tal situação jamais hajam visto algo de si próprio e de seus vizinhos, afora as sombras projetadas pelo fogo sobre a parede da caverna que está à sua frente? – E como poderiam? – observou – se são forçados a permanecer a vida toda a cabeça imóvel. – E com os objetos que desfilam, não acontece o mesmo? – Incontestavelmente. – Se, portanto, conseguissem conversar entre si não julgas que tornariam por objetos reais as sombras que avistassem? – Necessariamente”[2] O personagem Sócrates, nessa etapa do diálogo, afirma que a condição dos cativos no interior da caverna subterrânea, que consideram as sombras – aparências – como reais, caracteriza o estado de ignorância dos homens comuns, visto que eles estão habituados a contempla-las desde a infância. O desconhecimento a respeito de si e de seus companheiros de cativeiro é expressa nitidamente nessa passagem, e remete, possivelmente, ao preceito gnôthis’eautón (conhece-te a ti mesmo), o qual está, intimamente, relacionado ao conceito de ѷβρις (hýbris). Conforme o exposto anteriormente, é por meio de uma comparação visual – ver as sombras dos objetos e tomá-las pelos próprios objetos - que se expressa a ignorância e o engano dos prisioneiros. Todavia, conforme mostra a passagem abaixo, esse mesmo engano será expresso também por meio do sentido auditivo: “– E se a parede do fundo da prisão tivesse eco, cada vez que um dos portadores falasse, não achas que eles só poderiam atribuir a voz às sombras em desfile? – Sim, por Zeus – disse ele. – Seguramente – prossegui – tais homens só atribuirão realidade às sombras dos objetos fabricados². 1 P LA T Ã O . A R e p ú b l i c a . J . Gu i n s b u r g ( o r g . e t r a d . ) . C o l e ç ã o t e xt o s . 1 ª e d i ç ã o . Pa u lo : Pe s p e c t iv a , 2010.p . 263 São 2 P LA T Ã O . A R e p ú b l i c a . J . Gu i n s b u r g ( o r g . e t r a d . ) . C o l e ç ã o t e xt o s . 1 ª e d i ç ã o . Pa u lo : Pe s p e c t iv a , 2010.p . 264 São Departamento de Filosofia – É inteiramente necessário, respondeu.”[3] Os elementos auditivos, ecos tomados por vozes, aparecem nessa parte, juntamente, com as habituais metáforas visuais presentes na obra platônica. Portanto, essa passagem se torna crucial, pois observaremos dois erros efetuados involuntariamente por parte dos prisioneiros: 1. Falsa crença na realidade das sombras 2. Falsa conexão de causa e efeito entre as vozes e as sombras A ignorância, portanto, se traduziria no desconhecimento de si mesmo – citado anteriormente – somados aos dois equívocos acima citados, quando, na realidade, os objetos carregados teriam um grau ontológico superior às sombras e a causa dos ecos não seriam as sombras, porém os transeuntes atrás do muro. Ao engano visual, por conseguinte, soma-se o engano auditivo. Entende-se o conceito de graus ontológicos como sendo a gradação de realidade que os entes tem entre si, por exemplo, supondo que várias pessoas estejam tomando banho de sol, as suas respectivas sombras, terão um grau inferior em relação a elas, visto que as sombras dependem, nesse caso, das pessoas, e também, da luz solar. Porém, talvez não se trate de mera soma ou acréscimo. Pode ser que o elemento auditivo de fato nos dê informações exclusivas a respeito desse engano. Informações complementares àquelas fornecidas pelos elementos visuais, mas específicas da audição. Para conferir se essa desconfiança faz algum sentido, iremos realizar dois procedimentos: 1) a análise dos elementos auditivos na filosofia anterior a Platão, a saber, em Heráclito de Éfeso – filósofo que trabalhou abundantemente com o tema da escuta e que muito influenciou Platão – e 2) a análise do mito Eco, pelo fato de que o filósofo usa o termo na passagem citada para construir sua imagem de engano auditivo. É possível que a investigação desses dois caminhos nos forneçam pistas relevantes para uma interpretação mais aprofundada da passagem platônica em questão. Heráclito e a audição do logos Heráclito de Éfeso influenciou com sua doutrina filosófica, juntamente com Parmênides e Sócrates, a constituição do pensamento do jovem Arístocles, mais conhecido como Platão. No entanto, da obra heraclítica, apenas restaram pequenos fragmentos. Conscientes de sua influência na obra platônica, e da presença predominante de elementos referentes ao canal auditivo nos fragmentos que nos restaram do filósofo de Éfeso, selecionamos para análise um conjunto de passagens, com intuito de pensar intertextualmente a questão dos ecos na caverna. Antes de começarmos a análise, será imprescindível esclarecer a significação da palavra grega physis, intimamente ligada ao termo Logos do qual Heráclito se utiliza em sua obra. O conceito de physis, muitas vezes traduzido por natureza, é muito mais abrangente que a conceituação contemporânea daquilo que é natural, visto que o âmbito psíquico, para os gregos, também pertence à sua conceituação, portanto, ela governa a totalidade de tudo o que existe. A physis pode ser caracterizada, na obra dos pensadores pré-socráticos, como uma espécie de força de geração e de crescimento, sempre dinâmica. Daí sua firme conexão com a psykhé, a alma, isto é, força auto-motora presente em tudo que vive e se move, se nutre, gera e cresce. Esse termo pode ser compreendido nos escritos pré-socráticos em conexão com diversos vocábulos, como salienta o organizador dos fragmentos de Heráclito Gerd A. Bornheim. 3 P LA T Ã O . A R e p ú b l i c a . J . Gu i n s b u r g ( o r g . e t r a d . ) . C o l e ç ã o t e xt o s . 1 ª e d i ç ã o . S ã o Pa u lo : Pe s p e c t iv a , 2010.p . 264 Departamento de Filosofia “(...)À physis pertence, portanto, um princípio inteligente, que é reconhecido através de suas manifestações e ao qual se emprestam os mais variados nomes: Espírito, Pensamento, Inteligência, Logos, etc.”[4] De modo que não podemos perder de vista a compreensão heraclítica de physis ao lermos o fragmento abaixo: 1- “Esse Logos, os homens, antes ou depois de o haverem ouvido, jamais o compreendem. Ainda que tudo aconteça conforme este Logos, parece não terem experiência experimentando-se em tais palavras e obras, como eu as exponho, distinguindo e explicando a natureza de cada coisa. Os outros homens ignoram o que fazem em estado de vigília, assim como esquecem o que fazem durante o sono.”[5] O Logos, princípio ordenador da physis, de vê ser, segundo Heráclito, ouvido, auscultado. No entanto, como indica o trecho, simplesmente ter contato auditivo com palavras sábias não torna sábios os homens. Escutar não quer dizer ouvir. Como em Platão, é possível escutar ecos e atribuí-los à fonte errada, é possível escutar e não compreender (assim como é possível olhar e não ver, ou ver mal, enganar-se no reconhecimento dos estímulos visuais). Ao que parece, entretanto, não é possível compreender sem ouvir. Ouvir é preciso, mas mais do que isso, ouvir corretamente é preciso. No fragmento número 1, Heráclito afirma que o Logos ordena a totalidade do que existe. O Logos é comum a todos, conforme o próximo trecho, porém cada um vive como se tivesse um entendimento particular: 2- “Por isso, o comum deve ser seguido. Mas, a despeito de o Logos ser comum a todos, o vulgo vive como se cada um tivesse um entendimento particular” Entretanto, cabe fazer a seguinte pergunta: se ele é comum, por que cada um possui um entendimento particular? Talvez seja possível responder a essa pergunta por meio das observações feitas anteriormente: porque, embora escutem, os homens geralmente não ouvem o logos. Escutam apenas o que desejam, cada qual segundo seu entendimento particular. Os trechos 34 e 107 apresentam, novamente, essa mesma ideia, incluindo a noção dos elementos contrários, e por sua vez, complementares. 34- “Também quando ouvem não compreendem, são como mudos. Justificam o provérbio: presentes, estão ausentes.” 107 – Maus testemunhos para os homens são os olhos e os ouvidos se suas almas são bárbaras. Como vimos, escutar é condição necessária, mas não suficiente do ouvir, assim como estar de corpo presente é condição necessária, mas não suficiente para estar verdadeiramente presente, e também assim como olhar é condição necessária, mas não suficiente, para ver. Ademais, ouvir mas não ser capaz de compreender é como não ouvir, e não ouvir é não saber falar: 19- Homens que não sabem nem escutar nem falar 4 P R É- S O C R Á T I C O S . O s f i l ó s o f o s p r é - s o c r á t i c o s . Ge r d A . B O R N H EI M , ( o r g . ) . 1 6 ª e d i ç ã o . S ã o P a u l o : Ed i t o r a C u l t r i x, 2 0 1 1 . p . 1 3 . [ 5] P R É- S O C R Á T I C O S . O s f i l ó s o f o s p r é - s o c r á t i c o s . Ge r d A . B O R N H E I M , ( o r g . ) . 1 6 ª e d i ç ã o . S ã o P a u l o : Ed i t o r a C u l t r i x, 2 0 1 1 . p . 3 6 Departamento de Filosofia Tomando o ouvir, aqui, como compreender, e o falar como falar sabiamente, nota-se uma firme conexão entre a audição, ou melhor, a verdadeira audição e a sabedoria. Reforçando os anteriores, os fragmentos seguintes afirmam ser o critério da verdade o que é comum a todos, e afirmam que a verdadeira sabedoria consiste em conhecer tal “Pensamento”, e a ignorância, portanto, o seu contrário. 50- É sábio que os que ouviram, não a mim, mas as minhas palavras (logos), reconheçam que todas as coisas são um. 41- “Só uma coisa é sábia: conhecer o pensamento que governa tudo através de tudo.” 112- “O bem pensar é a mais alta virtude; e a sabedoria consiste em dizer a verdade e em agir conforme a natureza, ouvindo sua voz.” Mais uma vez, o conjunto de fragmentos confirma a importância da audição para Heráclito, bem como a promove ao meio possível para se obter sabedoria. Sempre frisando, contudo, que é uma audição muito particular: ouvir a voz da natureza. Só isso é capaz de proporcionar o bem pensar heraclítico. Contudo, seria o caso de nos perguntarmos também: o que é afinal que deve ser ouvido? Em que consiste essa voz da physis? Talvez os seguintes fragmentos possam nos fornecer algumas pistas: 54 – A harmonia invisível é mais forte que a visível. 56 – Os homens se enganam no conhecimento das coisas visíveis como Homero, o mais sábio dos helenos. Pois também àquele enganavam os jovens, quando catavam piolhos e diziam: tudo o que vimos e pegamos, nós abandonamos; tudo o que não vimos nem pegamos, levamos conosco. 123 – A natureza ama se esconder. A voz da physis não é o que ouvimos de imediato, em um primeiro momento, assim como a harmonia visível, a primeira que vemos, não é a mais forte das harmonias. Há algo na natureza que ama esconder-se e é precisamente isso que o sábio procura ouvir para poder compreender. É claro, que, como em Platão, a tensão entre o que se vê e o que não se vê está aqui presente. Entretanto, o interessante é notar que o ouvir aparece como alternativa para uma visão imediata, da harmonia visível. O verdadeiro ouvir parece ser uma maneira de contornar o brilho visível que possivelmente ofusca o brilho invisível, embora este seja mais forte do que aquele. Ora, tendo feito um levantamento amplo de elementos auditivos presentes nos fragmentos heraclítos, é o momento de analisar mais uma vez o trecho do Mito da Caverna, citado logo acima, onde os carregadores de objetos da caverna são invisíveis para os prisioneiros, visto que eles passam por detrás do muro, mas estes escutam as suas vozes por meio dos ecos produzido, e, ademais, atribuem tais ecos às sombras dos objetos que esses mesmos carregadores levam nos braços. Além de utilizar metáforas visuais para explicar conceitos como conhecimento e ignorância, Platão utiliza, na República, uma metáfora auditiva, explicitando, por conseguinte, um engano auditivo, relacionado com o canal visual, portanto, tal detalhe possivelmente oferece informações complementares aquelas fornecidas pela visão. O logos heraclítico abarcaria a totalidade do real, presente em tudo e em todos, entretanto, a maioria dos indivíduos, por não ouvir o Logos, escutariam apenas o que desejam, logo possuiriam um entendimento particular, portanto, ouvir é condição necessária, porém não é suficiente para compreender, sendo essa compreensão a verdadeira sabedoria,e ocritério para alcança-la, é o comum a todos. Conclusão: a audição em Heráclito e a audição na República A audição, em cada um dos autores, possui nuances interpretativos diferentes. Enquanto na obra heraclítica, quem escuta pode compreender acertadamente ou não aquilo que foi Departamento de Filosofia auscultado, na alegoria platônica, a compreensão auditiva seria relativa a uma ligação correta ou não desses elementos com os aspectos visuais. Na caverna, os prisioneiros escutam as vozes e as atribuem às sombras, no entanto, elas não tem sua origem nelas, porém, nas pessoas que passam atrás do muro. Tal temática é importante na República, visto que o autor faz a distinção entre ignorância e opinião incorreta no livro V. A ignorância consistiria na total ausência de saber e na incapacidade de produzir discursos, o portador da opinião incorreta, no entanto, seria aquele que pensa saber algo, e capaz de emitir uma opinião, entretanto, o seu conteúdo não corresponderia a realidade da coisa opinada. Esses dois conceitos fundamentam a possibilidade do erro e da falsidade nos discursos, pois se somente houvesse ignorância e sabedoria, apenas haveria duas alternativas, ou as pessoas não emitiriam discursos, ou qualquer discurso, independente da temática, seria necessariamente verdadeiro,(.) e tal problemática que o autor se defrontou em sua época. O “Eco” presente na alegoria de Platão será, portanto, analisado nas páginas seguinte visto a sua grande importância na compreensão do procedimento platônico no trecho em destaque. Mito de Eco e Narciso Passemos agora para a segunda parte do trabalho, a saber, a análise do mito de Eco e Narciso, tal como recriada pelos dicionários de mitologia, haja vista que alguns trechos antigos com a sua história nos foram legados. A versão mais completa que temos é a de Ovídio, escrita em XXX, e os dicionários tomam-na muito frequentemente como base, apesar de citar duas variantes a cerca da “paixão” e morte do mais belo dos mortais, em Pausânias, o jovem teria uma irmã gêmea, e após a morte dela, ele ao ver seu reflexo pensa ver a irmã, já na versão tebana, um jovem teria se apaixonado e se suicidado por causa dele. Ainda assim, podemos supor que o mito, em uma de suas variantes, está pressuposto por Platão no trecho que intentamos analisar, de modo que é fundamental termos em mente, em linhas gerais, do que se trata. Narciso, filho do rio Cefiso e da ninfa Liríope, era possuidor de uma beleza fora do comum, que mais tarde, na juventude, faria mortais e imortais se apaixonarem por ele, e também, vale ressaltar, que apesar das belas formas, era um rapaz soberbo. Quando criança, sua mãe preocupada com tamanha beleza – visto que, para os gregos, tal característica facilmente arrastava o mortal para o descomedimento (hýbris) – resolve consultar o velho cego Tirésias, possuidor do dom da adivinhação, para saber por quanto tempo o jovem viveria, e o ancião afirma que o jovem viveria muitos anos, porém, ele não poderia se ver em hipótese alguma. Eco, por sua vez, era uma ninfa tagarela, que, pelo que nos conta o autor, não ouvia o seu interlocutor, pois falando em demasia, aparentemente, não deixava os outros falarem. Ele a descreve da seguinte maneira: “Viu-o alçando as redes com os cervos trêmulos, ninfa loquaz , que ao ouvir não fica calada, nem fala antes de alguém, a ressoante Eco.”[6] A ninfa tagarela ajudava Zeus nas suas infidelidades com as outras ninfas. Certa vez, Hera descobriu que estava sendo ludibriada pela ninfa, e lançou lhe uma maldição, obrigando, por conseguinte, Eco a repetir somente o final das frase que ela escutava. Observa-se que antes da maldição ela não escutava o que o seus interlocutores falavam, após a condenação, além de ser [6]NASÃO, Públio Ovídio. Metamorfoses, 3, 356-358. Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (trad). Disponível em:http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidioraimundocarvalho.pdf Departamento de Filosofia obrigada a repetir as últimas palavras dos outros, sem produzir nenhum discurso com coerência, ela, implicitamente, seria obrigada a escutar o que os outros falavam. O mais belo dos mortais se perde dos amigos durante uma caçada nos campos, e a ninfa o vendo pela primeira vez, arde de amor. O rapaz, ao gritar à procura dos amigos, escuta as últimas palavras sendo repetidas por alguém, e não vendo quem havia falado, grita mais uma vez, chamando e tentando encontrar a pessoa, e Eco, novamente, repete o final da frase. A ninfa incapaz de comunicar seu próprio pensamento – e sentimento – num determinado momento, salta por detrás dos arbustos, e abraça Narciso que a rejeita com total frieza, fazendo ela se sentir magoada e desprezada. Consequentemente, ela se esconde na selva, vivendo em grutas ermas, e devido a tamanha tristeza, ela emagrece, seu corpo se desfaz, seus ossos viram pedra, restando unicamente a sua voz. Um dos jovens rejeitados pelo filho de Liríope roga a Nêmesis – a justiça distribuidora – que Narciso ame um amor que ele não possa ter, e portanto, a profecia se concretiza, o belo jovem se dirige para beber água numa límpida fonte, e assim contempla o seu reflexo, e se apaixona, e por não conseguir satisfazer seus desejo, falece. No local onde ele foi visto pela última vez, nasceu uma flor que leva o seu nome: o narciso. Narciso: uma análise da personagem A palavra Νάρκισσς (Nárkissos), como o autor da série mitologia grega (Junito de Souza Brandão) afirma, não é originalmente uma palavra grega, porém se trata de uma aproximação do termo νάρκη (nárke), que, em grego, significa “entorpecimento, torpor”. A palavra narcótico, e todas as outras da sua família, possui nela sua base etimológica. Assim como o mais belo dos mortais, a flor que é o seu homônimo possui uma bela aparência e um “perfume soporífero”. Apesar disso, é inútil e venenosa, e fenece após uma breve vida. O jovem Narciso, portanto, seria a personificação daquilo que é atraente para os sentidos, em especial, a visão, porém aquele que o considera como um bem, possui uma opinião falsa a seu respeito, pois, em realidade, ele faz mal, entorpecendo e envenenando, e também, se acrescenta a sua caracterização o fato de ser algo impossível de ser retido definitivamente, pois se esvai com facilidade. “Quando, então, viu Narciso errando pelos campos, arde de amor por ele e a furto os passos segue-lhe; e quanto mais o segue, mais a chama arde, tal, quando se unta a extremidade de uma tocha, o vivo enxofre inflama-se perto da chama.”[7] Pode-se observar no seguinte trecho do poema – Metamorfoses de Ovídio – no qual o belo rapaz repele friamente a ninfa Eco, a impossibilidade de se reter tal coisa. “Seguindo suas próprias palavras, da selva sai e vai abraçar-se ao pescoço do amado. Ele fugindo, diz: ‘tira as mãos, não me abraces, morrerei antes que tu possas me reter!’”[8] [7]NASÃO, Públio Ovídio. Metamorfoses, 3, 370-375. Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (trad). Disponível em:http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidioraimundocarvalho.pdf [8]NASÃO, Públio Ovídio. Metamorfoses, 3, 388-391. Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (trad). Disponível em:http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidioraimundocarvalho.pdf Departamento de Filosofia Na parte da história em que Narciso, literalmente, prova do seu próprio veneno, se observa uma série de aspectos que se assemelham ao pensamento platônico contido em A República e até em outros textos platônicos, como ficará claro logo abaixo. a) Considerar a imagem como realidade O jovem, num primeiro momento, considera sua própria imagem como sendo outro indivíduo, o que possui muita semelhança com a passagem da alegoria da caverna na qual os prisioneiros consideram como realidade as sombras projetadas no fundo da morada subterrânea. Não é nada implausível que a ideia do reflexo tomado pela própria tenha constituído um ponto de partida para Platão ao imaginar sombras confundidas com os objetos que as provocam. Quantas vezes querendo abraçar a visão, na água os braços mergulhava achando nada! Não sabe o que está vendo; mas ao ver se abrasa, e o que ilude os seus olhos mais o incita ao erro. Por que, em vão, simulacro fugaz buscas, crédulo? O que amas não há; se te afastas, desfaz-se. Isto que vês reflexo é sombra, tua imagem; nada tem de si; vem contigo e se estás fica; se partes, caso o possa, partia contigo.[9] O trecho supracitado possui semelhanças com a passagem da caverna, especialmente, com as condições dos prisioneiros, pois assim como Narciso quis reter – abraçar – a imagem refletida, apesar de não conseguir, do mesmo modo, os prisioneiros são incapazes de reter as sombras, apesar de não o tentarem. O jovem reconhece que ao observar seu reflexo na água, se abrasa, e percebe que tal ilusão, paradoxalmente, o inclina a acreditar na realidade da imagem, possivelmente, por causa do ardor que ela provoca, sendo assim, se percebe um conflito entre a faculdade da razão que indica se tratar apenas de uma imagem, e a experiência sensível que o inclina a toma-la como realidade. O final do trecho citado acima, precisamente, nos quatros últimos versos, possui relação, novamente, com a alegoria platônica, visto que é citado a ideia de imagem refletida, cuja existência não se deve a ela mesma, porém ao ente que ela reflete, sendo assim, remete ao conceito de grau ontológico – anteriormente explicado – presente na alegoria, como sombra e objeto. b) Conscientização do engano cometido A tomada de consciência da confusão entre a imagem e um objeto real se torna completa por parte do rapaz, quando ele percebe que a imagem movimenta os lábios, porém não se ouvem as palavras pronunciadas, apesar da imagem retribuir os seus gestos e ações. Portanto, aparentemente, é a dissociação entre o canal visual e auditivo que colabora para um lampejo de lucidez no jovem mortal. Esperança me dás com teu semblante amigo; quando te estendo os braços, teus braços me estendes; quando rio, sorris; sempre vejo em ti lágrimas, [9]NASÃO, Públio Ovídio. Metamorfoses, 3, 428-436. Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (trad). Disponível em:http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidioraimundocarvalho.pdf Departamento de Filosofia se lacrimejo, e ao meu aceno tu assentes; e, pelo movimento de teus belos lábios, colho palavras que aos ouvidos não me vêm. Esse sou eu! Sinto; não me ilude a imagem dúbia. Ardo de amor por mim, faço o fogo que sofro.[10] Nos versos precedentes ao trecho supracitado, o poeta descreve a contemplação de Narciso em terceira pessoa, e ao lermos os versos, não fica claro o grau de lucidez do jovem em relação a imagem, pois se percebe uma dúvida pairando no ar. Nota-se, ao longo da leitura, até o trecho citado, a ocorrência de uma espécie de processo de “desilusão” por parte de Narciso, cujo ápice é alcançado quando ocorre a dissociação entre audição e visão, sendo assim, se verifica que o poeta, nessa parte do poema, utiliza a primeira pessoa, e coloca na boca do jovem, a afirmação e o reconhecimento que se trata de uma imagem dele mesmo. c) Escolha equivocada do objeto amoroso (Eros) O desejo de Narciso é direcionado a uma imagem. Sendo o desejo (Eros) a ânsia de reter um bem eternamente, e as imagens, por natureza, serem ontologicamente inferiores, tal direcionamento não produzirá plenitude ao sujeito, tornando-o insaciável. Portanto, como visto na história, ela pode levar a dor, ao desespero e a morte, na impossibilidade de satisfazer o(s) impulso(s) desenfreado(s). Eco: uma análise da personagem Na análise da figura da ninfa tagarela, novamente, será exposto sua etimologia, assim como foi feito com a personagem do jovem Narciso, contida no dicionário mítico-etimológico, de autoria do professor Junito de Souza Brandão. “ECO – Paralelamente a ὴχή (ékhe), ‘barulho, ruído, som de instrumento’, existem nomes com sufixo –oi -, atestados sobretudo em nomes de mulheres, como ᾿Ηχώ(Ekho), Eco, aliás personificada como ninfa (v.) ou deusa desde a época pré-clássica. Como substantivo comum, ὴχώ (eckho) designa eco. Já que se trata de um grupo expressivo (ekhe e ekho), não existem correspondentes exatos em outras línguas indo-europeias, mas palavra que ‘se assemelham’, como no latim uagère, ‘vagir, retumbar’, lituano svagiù, -éti, ‘ressoar’, anglo-saxão swogan, ‘reboar, retumbar’, DELG, p.418.” Eco, inicialmente, tinha corpo, portanto, podia ser vista, como se observa na passagem em que ela repete as frases que Narciso pronunciava,(.) e o jovem ao ouvi-las, e não vendo ninguém, tem por reação natural e espontânea procurar apreender visualmente quem estava falando com ele. “Eco tinha, então, corpo, não só voz; porém, igual agora, a boca repetia, gárrula, entre tantas, somente as últimas palavras.(...)”[11] “Queda-se atônito, dirige o olhar a toda parte, [10]NASÃO, Públio Ovídio. Metamorfoses, 3, 457-464. Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (trad). Disponível em:http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidioraimundocarvalho.pdf [11]NASÃO, Públio Ovídio. Metamorfoses, 3, 359-361. Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (trad). Disponível em:http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidioraimundocarvalho.pdf Departamento de Filosofia alça a voz e diz: ‘vem!’; ela chama quem chama. Volve o olhar e não vendo ninguém diz: ‘Por que foges de mim’ e ouve de volta a mesma frase. Detém-se e, iludido por voz replicante, fala: ‘aqui nos juntemos!’, e Eco, com volúpia nunca experimentada, devolveu: ‘juntemos!’”[12] Conclusão: Eco na República Dar-se-á um exemplo para esclarecer a relação entre visão e audição, visto que ambos desempenham um papel central na aprendizagem como um todo. Imagine uma pessoa realizando um passeio vespertino – interseção entre o dia e a noite –e logo, percebe um animal que acabou de passar voando, e devido à baixa luminosidade. Não sabe se se trata de um morcego ou de um pássaro, possibilitando, por conseguinte, uma confusão, se ela se guiar exclusivamente pela visão. Porém, se ela puder ouvir o ruído emitido por ele, e o som estiver conectado com o conceito de determinado animal, e presente na memória da pessoa, ela poderá dissipar a confusão, e reconhecer de qual animal se trata. A dissociação entre audição e visão está nitidamente presente tanto no mito de Narciso, quanto no exemplo do animal voador, portanto, cabe a seguinte indagação: será que a dissociação entreos dois canais sensoriais são efetivamente tanto a causa da possível confusão de entes semelhantes quanto o meio adequado de eliminá- la? Notam-se outros nuances: quando Narciso tinha uma opinião falsa a respeito da imagem, ou seja, a julgava real, ele tinha a expectativa de satisfação do seu desejo. Entretanto, após perceber que o que ele via era apenas um reflexo, ele não alimenta mais, por conseguinte, essa expectativa. A reação do jovem se deve, provavelmente, ao fato de ele considerar as palavras ouvidas como sendo outra pessoa falando, porém, no caso dos prisioneiros da caverna, na alegoria de Platão, embora haja a impossibilidade de empreender uma pesquisa visual devido às amarras, a conexão entre os elementos auditivos e visuais não se deve intrinsecamente ao sentidos, porém, possivelmente, se deve ao intelecto. Os carregadores de objetos se assemelham a Eco, tanto na passagem supracitada, quanto no trecho em que ela perde seu próprio corpo, sobrando apenas a sua voz, pois ambos não podem ser vistos, apenas escutados, visto que os carregadores estão atrás de um pequeno muro, e a ninfa tagarela está escondida, num momento, e no outro, não possui mais corpo. “Desdenhada, se esconde em selva e de vergonha e ramos cobre o rosto e vive em grutas ermas. No entanto, arde o amor e cresce com a dor; a insônia lhe consome o corpo miserável, a magreza lhe enruga a pele e no ar se esvai o suco corporal. Restam só voz e ossos. A voz vive; viraram pedra os ossos, dizem. Assim, se esconde em selva e em monte nunca é vista. Todos ouvem-na; é som o que nela vive”[13] [12]NASÃO, Públio Ovídio. Metamorfoses, 3, 381-387. Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (trad). Disponível em:http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidioraimundocarvalho.pdf 13 NASÃO, Públio Ovídio. Metamorfoses, 3, 393-401. Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (trad). Disponível em:http://www.usp.br/verve/coordenadores/raimundocarvalho/rascunhos/metamorfosesovidioraimundocarvalho.pdf Departamento de Filosofia Nota-se, também, a importância do aprofundamento do conhecimento relacionado aos antecessores de Platão, assim como da mitologia grega como um todo, com o intuito de executar uma interpretação mais segura e fidedigna da obra platônica, visto que o filosofo ateniense, versado em tais informações, as utiliza como matéria-prima para a construção de seu pensamento filosófico. Bibliografia 1- BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega, vol. I. 26.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015. 2. Mitologia grega, vol. II. 23.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015. 3. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. 2ª edição. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. 4- PLATÃO. A República. J.Guinsburg (org. e trad.). Coleção textos. 1ªedição. São Paulo: Pespectiva, 2010. 5. A República. Maria Helena da Rocha Pereira (org.). Coleção textos clássicos. 14ªEdição. Lisboa: CalousteGulbenkian, 2014. 6. A República. Ana Lia Amaral de Almeida Prado (trad.). 1ªedição. Editora Martins Fontes, 2014. 7. Filebo. Fernando Muniz (trad.). Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2012. 8- PRÉ-SOCRÁTICOS. Os filósofos pré-socráticos. Gerd A. BORNHEIM, (org.). 16ª edição. São Paulo: Editora Cultrix, 2011.