psicoterapeuta?

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SERVIÇO SAÚDE
Como escolher um
psicoterapeuta?
Especialistas
defendem que,
como em
qualquer serviço,
transparência
e afinidade entre
o profissional
e o cliente são
fundamentais
30 • Fevereiro 2014 • REVISTA DO IDEC
P
roblemas familiares, dificuldades de relacionamento e traumas são algumas das razões que
levam as pessoas a procurar ajuda psicoterapêutica. “O terapeuta é o profissional qualificado para ajudar o indivíduo a processar o sofrimento”, define o
médico e psicanalista Francisco Daudt,
do Rio de Janeiro (RJ).
Mas onde e como escolher um especialista? Sem saber por onde começar,
a dentista Helen Stocco, de São Paulo
(SP), apelou para a internet. Ela pesquisou profissionais de seu bairro e
achou um site com indicação de vários
terapeutas. “Selecionei alguns perto da
minha casa e enviei e-mails pergun-
tando o valor da sessão e como era o
trabalho deles. O segundo passo foi
telefonar para os que me responderam”, conta Helen.
Luísa Habigzang, doutora em psicologia pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS) e uma
das diretoras da Sociedade Brasileira
de Psicologia, defende a internet como
uma boa ferramenta para descobrir
informações importantes sobre profissional. “Pesquise onde o profissional
se formou, se ele tem pós-graduação e/
ou especialização, se pertence a alguma
sociedade de classe, se participa de
congressos, se tem artigos publicados
etc.”, recomenda.
Shutterstock
Pedir indicação a amigos ou parentes
também pode ser uma boa alternativa,
embora alguns especialistas não recomendem que pessoas próximas “compartilhem”
o mesmo terapeuta. Outra forma é sugerida por Daudt: entrar em contato com um
terapeuta que escreveu um livro, um artigo
ou concedeu uma entrevista que você
tenha lido e gostado.
Um dos critérios para escolher o terapeuta também pode ser a linha teórica
que ele segue: psicanálise, terapia comportamental etc. (saiba a diferença entre
as principais linhas no rodapé das páginas 32 e 33). De acordo com Luísa, que
segue a teoria cognitiva-comportamental,
todas as abordagens podem ser efetivas
se o profissional for competente. “O mais
importante é a aliança terapêutica, pois
o resultado depende do vínculo positivo
entre o paciente e o profissional”, defende.
“A pessoa precisa sair da primeira sessão
sentindo-se compreendida e com vontade
de voltar”, completa.
A falta de afinidade com a primeira
psicóloga com quem marcou consulta fez
Helen perceber, ainda durante a entrevista,
que não queria uma nova sessão. Foi só
na segunda tentativa que ela encontrou
o que buscava. “Minha atual terapeuta é
exatamente como eu imaginava. Com ela,
eu consegui me abrir e saí de lá ansiosa
para o próximo encontro”, relata.
A psicanalista Magda Khouri,
membro da Sociedade Brasileira de
Psicanálise de São Paulo (SBPSP),
pondera, no entanto, que às vezes
o paciente desiste rápido demais.
Por exemplo, porque o analista falou
pouco no primeiro encontro. “Em
alguns casos, a ansiedade por respostas às suas angústias não permitem
conhecer o trabalho daquele profissional. Por isso, o mais importante
é perceber se o terapeuta disse algo
que lhe fez sentido. Se a pessoa se
TERAPIA NA TELINHA
Filmes
Freud, Além da Alma, dirigido por John Huston (EUA/1962)
Jornada da Alma, dirigido por Roberto Faenza (Reino
Unido, França e Itália/2002)
l Um Método Perigoso, dirigido por David Cronenberg
(Reino Unido, Alemanha, Canadá e Suíça/2012)
l
l
Séries
l Sessão de Terapia, do canal pago GNT. A terceira temporada da série foi confirmada, mas ainda não há previsão de
estreia. Mais informações: gnt.globo.com/sessao-de-terapia/
l Em Terapia, série americana da HBO exibida no Brasil, foi
encerrada em 2011 após três temporadas. Mais informações:
www.hbo.com/#/in-treatment (em inglês).
sentir escutada e compreendida, já é um bom começo”, opina.
Daudt lembra, ainda, que o psicanalista também pode
recusar um cliente se achar que não tem competência para
lidar com o problema dele ou se não houver empatia. “Quando
sentimos simpatia por alguém, temos afinidade com o seu
sofrimento. Se eu não simpatizo, não consigo ajudá-lo. Pode
parecer arrogância, mas tanto o paciente quanto o terapeuta se
beneficiam de uma recusa”.
O psicanalista carioca compara a primeira sessão a um test
drive: “Como tal, ela não é cobrada, porque eu não sei se vou
vender o meu serviço e a pessoa não sabe se vai comprar”,
explica. Mas, atenção: embora a maioria dos terapeutas não
cobre pela entrevista (como é chamada a primeira sessão), nem
sempre ela é gratuita, portanto, lembre-se de questionar esse
ponto quando fizer contato por telefone ou e-mail.
PSICÓLOGO, PSICANALISTA OU PSIQUIATRA?
Essa costuma ser a primeira dúvida de quem decide fazer
terapia. Entender as diferenças entre esses profissionais pode
ajudar na escolha.
O psicólogo é formado em psicologia e capacitado para tratar de problemas psicológicos e comportamentais em clínicas
particulares, empresas, escolas e hospitais.
O psicanalista é formado em psicanálise (para fazer o curso, é
obrigatório ter um diploma de ensino superior, mas não necessariamente em psicologia) e tem como base de estudo a teoria
de Sigmund Freud e de seus “seguidores”. Para se tornarem
clínicos, os psicanalistas também fazem análise e contam com
a orientação de um supervisor, que acompanha os seus casos.
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Fevereiro 2014 • 31
SERVIÇO SAÚDE
Como a psicanálise não é uma profissão regulamentada,
é importante saber se o terapeuta é filiado a alguma organização que ateste a sua formação, como a Federação Brasileira
de Psicanálise (Febrapsi) e a Associação Internacional de
Psicanálise (IPA, na sigla em inglês).
O psiquiatra é formado em medicina e, portanto, pode
prescrever medicamentos. Dependência química, transtorno
obsessivo compulsivo (TOC), bipolaridade, depressão e ansiedade são alguns dos transtornos que podem ensejar um tratamento psiquiátrico. O encaminhamento para esse profissional
pode ser feito por um psicólogo ou psicanalista que detecta,
durante as sessões de terapia, a necessidade do uso de medicamentos para aliviar os sintomas de um transtorno, ou até
para facilitar o processo terapêutico. “Dependendo do grau do
sofrimento, a pessoa precisa de acompanhamento psiquiátrico, porque só as palavras não curam”, argumenta Daudt. Em
muitos casos, o tratamento com um psicólogo ou psicanalista
também é realizado paralelamente ao do psiquiatra.
REGRAS CLARAS
A terapia é um serviço e o paciente, um consumidor.
E, como tal, o cliente tem direitos, como por exemplo, à
informação clara e adequada, conforme prevê o artigo 6º do
Código de Defesa do Consumidor. “Quanto mais transparente
for a relação entre paciente e terapeuta, melhor. A pessoa precisa saber o que ela está comprando”, afirma Daudt.
Se o terapeuta não informar espontaneamente, o paciente
deve perguntar a ele quais são as formas de pagamento, como
funcionam as férias (as suas e as dele), o cancelamento de
Para fazer uma boa escolha
l Pesquise na internet a formação do terapeuta:
em qual instituição se graduou, se tem pós-graduação, se é ligado a alguma sociedade, federação
ou conselho de classe, se costuma participar de
congressos, se tem livros e/ou artigos publicados.
l Sentir-se confortável no ambiente em que o
terapeuta atende é fundamental, assim como a
afinidade com ele.
Entender o que o terapeuta fala é importante. Se
ele “falar difícil”, talvez seja melhor procurar outro.
l
Se achar importante, pergunte ao profissional,
na primeira sessão ou mesmo por telefone, qual
linha terapêutica ele segue, há quanto tempo atua,
se tem experiência em casos como o seu etc.
l
sessão, atrasos, fornecimento de recibo etc.
Essas regras precisam ficar bem claras para
evitar que eventuais desentendimentos atrapalhem o andamento da terapia. Em geral,
elas são estabelecidas num acordo verbal,
mas nada impede que seja formalizado. “É
sempre recomendável que o cliente peça um
contrato”, afirma a advogada do Idec Joana
Cruz. Além disso, o serviço costuma ser caro;
portanto, nada mais justo que os aspectos
que caracterizam a relação de consumo
sejam bem definidos.
Tipos de terapia
Terapia comportamental
Pioneiro: B. F. Skinner (19041990), psicólogo americano
Baseada na filosofia Behaviorista,
que considera o ambiente o principal
responsável pela aquisição, manutenção e modificação do comportamento
humano, os terapeutas comportamentais auxiliam o paciente a identificar os
fatores que o levam a adotar determinados comportamentos e a mudá-los,
a fim de alcançar melhor qualidade de
vida e atingir suas metas.
l
Terapia cognitiva
Criador: Aaron Beck (1921), psicólogo americano
De acordo com essa linha teórica, os transtornos emocionais estão
relacionados às interpretações e aos
pensamentos disfuncionais que o indivíduo pode desenvolver sobre os fatos.
O tratamento consiste em permitir que
o paciente identifique esses pensamentos, altere seu comportamento e
aprenda a resolver problemas de forma
efetiva e mais realista.
l
Fonte: Francisco Daudt, Luísa Habigzang (SBP) e Magda Khouri (SBPSP)
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Psicanálise
Criador: Sigmund Fred (18561939), médico austríaco
Essa escola terapêutica acredita
que as dificuldades emocionais estão
ligadas a conflitos inconscientes que se
originaram principalmente na infância.
Nas sessões de análise, o paciente
é convidado a falar o que lhe vem à
cabeça, com o objetivo de se ouvir e,
desse modo, decifrar as questões que
o atormentam. O papel do analista é
prestar atenção ao relato, aos esque-
l
Embora a terapia seja mesmo cara, há
opções para quem tem o orçamento apertado. Geralmente, os valores informados pelos
terapeutas são negociáveis. É comum eles
perguntarem “quanto você pode pagar?” a
quem diz que o preço cobrado é muito alto.
No caso de psicólogos, dá para consultar a
tabela do Conselho Federal de Psicologia
para ter uma ideia de valores. Confira no
link: goo.gl/6184nt.
Algumas universidades e instituições
oferecem atendimento psicoterapêutico de
graça ou por um “preço simbólico”, combinado com o paciente. Algumas dão preferência à população carente e têm lista de espera.
Confira algumas opções que selecionamos
em sete capitais (Belo Horizonte, Brasília,
Curitiba, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro
e São Paulo). Acesse: goo.gl/xsBJHv.
MEU PLANO COBRE?
A cobertura de psicoterapia é obrigatória pelos planos de saúde, mas a Agência
Nacional de Saúde Suplementar (ANS) estabelece algumas diretrizes para definir quais
usuários têm direito a atendimento por psicólogos ou terapeutas ocupacionais. Por isso,
muitas operadoras exigem que o usuário
tenha uma indicação de um médico para
cimentos e atos falhos e fazer apontamentos. No campo da psicanálise,
há, ainda, linhas diferentes, como a
“freudiana” e a “lacaniana”.
poder agendar uma sessão com um psicólogo da rede do plano.
Além disso, em geral, as operadoras só costumam cobrir o
número mínimo de sessões previstos no rol de procedimentos
fixados pela ANS. Atualmente, o rol prevê a cobertura de 12
sessões com psicólogos ou terapeutas ocupacionais. No fim
de 2013, a lista foi atualizada, mas houve apenas a ampliação
de diretrizes para a utilização da psicoterapia pela rede suplementar (como para pacientes interessados em realizar cirurgia
bariátrica, vasectomia ou laqueadura, por exemplo), mas o
número de sessões foi mantido. Apenas para situações mais
graves, como casos de esquizofrenia e transtornos da alimentação, são garantidas 30 sessões por ano.
O Idec é contra qualquer limitação pelos planos de saúde.
“O rol não pode ser visto como uma lista exaustiva. O paciente
deve receber tratamento, psicológico ou de qualquer tipo, pelo
tempo necessário para o restabelecimento de sua saúde”, afirma
Joana. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) considera o
número de sessões obrigatórias insuficiente e afirma que, da
forma como vêm atuando, os planos não oferecem atenção integral ou cuidado qualificado com o usuário. “Ao limitar o número de sessões, os planos não reconhecem a individualidade de
cada pessoa e as diversas maneiras que cada transtorno pode
assumir, dependendo do contexto que ocorrem”, diz Monalisa
Barros, conselheira do CFP.
Caso o usuário necessite de mais sessões que o mínimo
previsto no rol e a operadora se recuse a cobrir, a saída é
recorrer à Justiça. “O Judiciário tem entendimento majoritariamente favorável ao consumidor nessa questão”, informa a
advogada do Idec.
Psicoterapia analítica
Criador: Carl Jung (1875-1961),
discípulo de Freud que rompeu com ele
Essa linha teórica acredita que,
além do inconsciente individual, há
o inconsciente coletivo, que seria o
conjunto de experiências de nossos
ancestrais. O analista presta atenção
aos símbolos presentes nos relatos dos
pacientes, à relação com os padrões
psíquicos universais, expressados
pelo inconsciente, e também aos
sintomas físicos.
l
Psicodrama
Criador: Jacob Levy Moreno, médico
romeno (1889-1974)
Nessa linha, o paciente dramatiza situações passadas, atuais ou futuras para
vivenciar cenas de conflito. As técnicas
psicodramáticas, como, por exemplo,
a inversão de papéis, permitem que a
pessoa tenha mais clareza sobre os seus
sentimentos e os de outras pessoas envolvidas e reflita sobre as suas atitudes.
As sessões de psicodrama podem ser
individuais ou em grupo.
l
REVISTA DO IDEC •
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