JC Relations - Jewish

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Jewish-Christian Relations
Insights and Issues in the ongoing Jewish-Christian Dialogue
Phan, Peter C. | 01.01.2006
Se os judeus são salvos pela sua Aliança Eterna,
Como estão os Cristãos para Entender Jesus como Salvador
Universal?
Uma perspectiva Romano-Católica
Peter C. Phan
Universidade de Georgetown
Nos anos recentes, não poucos teólogos cristãos, recordando o ensinamento de Paulo de que a
aliança de Deus com Israel permanece eterna (Romanos 11,29), afirmaram que o poder redentivo de
Deus está ainda trabalhando em e através do Judaísmo.1
… Um documento recente e significante da Comissão Bíblica Pontifical O Povo Judaico e as
Escrituras Sagradas Dele na Bíblia Cristã (24 de maio de 2001) faz uma afirmação nuançada
da validade contínua da aliança judaica ( parte II, § 46) “Israel continua estar numa relação
de aliança com Deus, porque a promissão da aliança é definitiva, não podendo ser abolida. …
Esse reconhecimento de que o Judaísmo continua a funcionar num modo de salvação, pelo menos
para os judeus, põe desafios sérios aos romano-católicos, desde que parece, a primeira vista,
contradizer ao ensino duplo existindo faz muito tempo de que Jesus é o salvador único, universal e
absoluto, e que fora da Igreja não há salvação. Daí, a afirmação da validade continuando da aliança
de Deus com Israel exige uma re-examinação desses dois ensinamentos tradicionais, especialmente
do primeiro. Este ensaio breve procura delinear, a partir da perspectiva romano-católica, a teologia
de religiões e o papel de Cristo como salvador que fica tanto harmonioso com a fé cristão em Jesus
como salvador de toda a humanidade e receptivo para o reconhecimento do Judaísmo como ainda
caminho válido de salvação.
O Concílio Vaticano Segundo (1962-1965)
Qualquer interpretação da doutrina da universalidade e unicidade de Jesus como salvador dentro da
teologia romano-católica deve tomar em conta o ensinamento do Concílio Vaticano Segundo sobre a
possibilidade de salvação para não-cristãos e sobre a existência de “elementos de verdade e graça”
dentro das religiões não-cristãs. A respeito da salvação de não-cristãos, o Vaticano II, invertendo a
condenação de muitos séculos da Igreja de não-cristãos ao inferno2 afirma que “aqueles que não
receberam o Evangelho estão relacionados ao Povo de Deus em modos vários”3.
Veja, por exemplo, o decreto do Concílio de Florença aos jacobitas (1442): “(A Santa Igreja
Romana) … crê, confessa e prega firmemente que ‘ninguém ficando fora da Igreja Católica,
não só pagãos, mas também heréticos e cismáticos, poderão chegar a ser participantes da
vida eterna, mas irão para o fogo eterno preparado para o diabo e os seus anjos (Mateus
25,41), senão, antes do fim da sua vida, forem ligados a ela.’ …
Entre essas pessoas, o concílio menciona explicitamente cinco grupos: judeus, moslins, aqueles que
procuram o Deus desconhecido nas sobras e imagens através das suas religiões, aqueles que não
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praticam qualquer religião específica, mas procuram Deus sinceramente e aqueles que sem
qualquer culpa por sua parte, ainda não chagaram ao conhecimento explícito de Deus (p. ex.
ateístas). Todas essas pessoas, o concílio diz, “podem alcançar salvação eterna”, embora não sem a
graça de Cristo.4
… Na sua constituição dogmática sobre a Igreja no Mundo Moderno Gaudium et spes, o
Vaticano II explica como a possibilidade de salvação para não-cristãos está sendo realizada:
“Porque Cristo morreu para qualquer um, desde que todos são de fato chamados para o
destino único e mesmo, o qual é divino, precisamos manter que o Espírito Santo oferece a
todos a possibilidade de serem feitos parceiros, num modo conhecido por Deus, no mistério
pascal” (nº 22).
Com respeito a religiões não-cristãs, o Vaticano II reconhece que os “ritos e costumes das pessoas”,
inclusive as suas religiões, devem ser “salvos de destruição” e “purificados e elevados e
aperfeiçoados para a glória de Deus” [Lúmen Gentium, nº3]. No seu Decreto sobre a Atividade
Missionária da Igreja (Ad Gentes), o concílio afirma que esses elementos “podem levar alguém ao
Deus verdadeiro e ser preparação para o evangelho” [Ad Gentes, nº 9]. Esses “elementos de
verdade e graça” são a presença segreda de Deus” [Ad Gentes, nº 3] e “as sementes da palavra”
[Ad Gentes, nº 11]. Na sua declaração sobre a relação da Igreja a religiões não-cristãs (Nostra
Aetate), o Vaticano II menciona as religiões primitivas, hinduismo, budismo, Islame e Judaísmo. A
Igreja Católica não rejeita nada do que é verdadeiro e santo nessas religiões. Tem alto respeito pelo
modo de vida e conduta, os preceitos e doutrinas as quais, embora diferindo em muitos modos do
ensino próprio, não obstante, refletem muitas vezes um raio daquela verdade que ilumina todos os
homens e mulheres” [Ad Gentes, nº 2].
A respeito do Judaísmo em particular, o concílio reconhece o “espiritual que liga o povo da nova
aliança ao estoque de Abraão” e disse que “a Igreja de Cristo reconhece que no plano de Deus de
salvação, os começos da sua fé e eleição estão para serem encontrados nos patriarcas, Moises e
profetas” [Nostra Aetate, nº 4]. Relembra o ensino de Paulo de que “os judeus permanecem muito
queridos a Deus, por causa dos patriarcas, desde que Deus não toma de volta os dons que conferiu
ou a escolha que fez”.
O concílio continua dizendo: “Ainda que as autoridades judaicas e aqueles que seguiram o
comando delas pressionaram pela morte de Cristo (veja João 19,6), nem todos os judeus
indiscriminadamente naquele tempo, nem os judeus de hoje, podem ser incriminados com os
crimes cometidos durante a paixão. É verdade que a Igreja é o povo novo de Deus, mas os
judeus não devem ser falados como rejeitados ou acusados como se isso se resultaria das
escrituras.” O concílio “deplora todos os ódio, todas as perseguições, exibições de antisemitismo apontado em qualquer tempo ou qualquer fonte contra os judeus [Nostra Aetate,
nº 4].
Uma teologia cristã de pluralismo religioso
Apesar da avaliação positiva das religiões não-cristãs em geral e do Judaísmo em particular, o
Vaticano II auto-conscientemente se abstém de afirmar que essas religiões como tais funcionem
como “modos de salvação” numa maneira análoga, sem falar em paralela, à Cristandade. Nas
últimas três décadas, no entanto, reflexões extensivas foram feitas sobre o relacionamento entre
Cristandade, e por implicação, Jesus Cristo, sobre, de um lado, as religiões não-cristãs, e
especialmente Judaísmo de outro. Uma teologia nova de religiões re-avaliou o papel de Cristo como
o salvador único e universal e a função de religiões não-cristãs mesmas dentro do plano de Deus
para a salvação.
Numa obra recente, o teólogo católico Paul F. Knitter, que escreveu extensivamente sobre
pluralismo religioso, categorizou utilmente teologias contemporâneas de religiões em quatro tipos
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básicos que denomina de modelos de “substituição”, “cumprimento”, “mutualidade” e “aceitação”.12
1. Substituiçãoafirma a Cristandade é a única religião verdadeira e que vai substituir, total ou
parcialmente, todas as outras religiões, as quais estão sendo consideradas como
basicamente tentativas pecaminosas da humanidade de auto-salvação.
2. Cumprimento, enquanto afirmando que a Cristandade como a única religião verdadeira,
reconhece a presença de elementos de verdade e graça em outras religiões, advogando a
complementariedade mútua, embora não igual, entre a Cristandade e outras religiões
através diálogo.
3. Mutualidade considera há muitas religiões verdadeiras, não necessariamente superiores às
outras, as quais todas chamam para dialogar e colaborar uma com outra, especialmente em
projetos de liberação, a fim de realizar a sua verdadeira natureza.
4. Aceitação enfatiza a diversidade de religiões duma outra, recusando procurar um fundo
comum entre elas, antes urge que cada religião promova os seus fins e práticas próprios.
Jesus como o salvador “universal”, “único” e “absoluto”
Desnecessário dizer que cada uma dessas quatro teologias de religiões vê o papel de Cristo como
salvador e os três adjetivos que a caracterizam (isso é “universal”, “único” e “absoluto”) muito
diferentemente. O modelo primeiro toma literalmente a afirmação do Novo Testamento de que Jesus
é o único e exclusivo revelador e salvador da humanidade (João 14,6; Atos 4,12; 1 Coríntios 3,11; 1
Timóteo 2,5; 1 João 5,12), sendo uma fé explícita em Jesus absolutamente necessária para a
salvação (João 3,36). O modelo quarto também professa que Jesus é o salvador único, universal e
absoluto, como tradicionalmente confessado pela fé da Igreja, mas deixa a possibilidade de outras
“figuras salvadoras” e “modos de salvação” nem afirmadas nem negadas, pleiteando sobre o último
simplesmente ignorância. O modelo terceiro toma as passagens do Novo Testamento citadas acima
e os três adjetivos que descrevem Jesus o salvador não como prosa literal, racional, mas sim como
afirmação poética da especialidade, mas não exclusividade de Jesus. Em outras palavras, Jesus
é totus Deus – completamente Deus, enquanto inteiramente responde ao amor de Deus no Espírito –
mas não totum Dei – tudo de Deus ou do divino, entendido num sentido metafísico.
Antes de tentar uma teologia de Jesus que seja consoante com a tradição romano-católica e que ao
mesmo tempo reconheça que o poder redentor de Deus está operando na tradição judaica, será
necessário relembrar, embora brevemente, o ensino da declaração Dominus Iesus da Congregação
para a Doutrina da Fé (6 de agosto de 2000) sobre Jesus como salvador.13Preocupada com que o
pluralismo religioso possa levar a relativismo, a declaração re-afirma certas doutrinas cristãs, as
quais alega terem sido negadas pelos pluralistas, tais como a “plenitude e definitividade da
revelação de Jesus Cristo”, a unidade entre a obra salvadora do Verbo encarnado e daquela do
Espírito Santo, a “unicidade e universalidade do mistério salvífico de Jesus Cristo”, a “unicidade e
unidade da Igreja” e a unidade entre o reino de Deus e a Igreja.14 De interesse do nosso assunto são
as declarações do manifesto sobre Jesus como o salvador único e universal e sobre a relação entre a
Cristandade e outras religiões.
Com respeito a Jesus, Dominus Iesus afirma que “no mistério de Jesus Cristo, o Filho de Deus
Encarnado … a revelação plena da verdade divina está dada” (nº 5), rejeitando a “teoria de caráter
limitado, incompleto ou imperfeito da revelação de Jesus Cristo, que seria complementar àquela
encontrada em outras religiões” (nº 6). A respeito de Jesus como salvador, Dominus Iesus declara
que “Jesus Cristo tem significância e valor para a raça humana e a história desta, que são únicas e
singulares, próprias somente a ele mesmo, exclusivas, universais e absolutas” (nº 15). No que se
refere ao relacionamento entre Cristandade e outras religiões, Dominus Iesus condena a visão de
que a Igreja seria “um modo de salvação ao longo daqueles constituídos por outras religiões, vistas
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como complementarias à Igreja ou substancialmente equivalentes a ela, mesmo se essas fossem
ditas sendo convertendo com a Igreja ao reinado escatológico de Deus” 21. Daí, diz que, mesmo se
“os seguidores de outras religiões possam receber graça divina, está também certo que
objetivamente falando estão numa deficiência gravemente deficiente em comparação com aqueles
que, na Igreja, têm a plenitude de meios de salvação” (nº 22).
Cristo e Cristandade em Vista da Validade Continuada da Aliança Judaica
Na esteira da tempestade de protesto inesperada contra Dominus Iesus por muitos cristãos bem
como teólogos não-cristãos, alguns oficiais do Vaticano insinuaram que o Judaísmo não está sendo
alvejado pelo julgamento negativo da declaração sobre religiões não-cristãs (embora o Judaísmo não
está explicitamente isentado pela declaração). Enquanto é verdade que a Igreja Católica sempre
reconhecia o status especial do judaísmo na sua conexão histórica e teológica com a Cristandade,
todavia, a reivindicação de que “os judeus que não compartilham a nossa fé em Cristo, estão em
aliança salvadora com Deus”, se alguma coisa, exacerba os problemas postas pelo pluralismo
religioso, desde que está sendo reivindicado que, pelo menos, uma religião não-cristã, a saber, o
Judaísmo, é um modo de salvação (“uma aliança salvadora com Deus) à parte, pelo menos a
primeira vista, de Cristo e Cristandade”.
O desafio para teólogos romano-católicos, então, é articular uma cristologia e soteriologia (teologia
de salvação) coerentes e credíveis, que honrem a fé cristã em Jesus como o salvador de toda a
humanidade e que, ao mesmo tempo, incluía a afirmação de que o Judaísmo está e permanece
eternamente uma “aliança com Deus”. Com outras palavras, o que se precisa é que aquela que tem
sido chamada uma cristologia não- ou pós-supersessionista, o mais geralmente, uma cristologia
inclusivista-pluralista. Tem de ser notado aqui que o intento dessa espécie de cristologia não é tanto
elaborar uma cristologia do Judaísmo como tal (o qual pode ou não pode ser interessado no ter a sua
fé validada por cristãos) quanto para refletir sobre como os cristãos devam entender a si
mesmos em referência ao Judaísmo e, por extensão, a outras religiões.
1. O elemento mais fundamental duma cristologia pós-supersessionista é uma rejeição da idéia
de que, desde que Cristo é o “cumprimento”e “plenitude” e “definitividade” da revelação
divina, a auto-dação a Israel e a aliança com Israel tenham sido abolidas, ou por causa da
culpa de Israel no rejeitar e matar Jesus (como implicado na acusação da falta de fé e
deicídio contra os judeus), ou por causa da superioridade intrínseca do ministério de Jesus da
Cristandade (a “Nova” Aliança suplantando a Aliança “Antiga”). Antes, os dois povos
aliançados de Deus, Israel e a Igreja, têm permissão de Deus para existirem lado a lado, a
fim de instruir e encorajar um ao outro “para agir justamente, amar graça e andar
humildemente” com o seu Deus comum (Mq 6,8).
2. Em seguida, deve haver recuperação da noção antiga de alianças múltiplas. Como santo
Ireneu, o bispo de Lyon do século segundo, o pôs: Deus tem feito várias alianças sob Adão,
sob Noé, sob a Lei e sob o Evangelho [Veja Ireneu, Contra Heresias, III, 11,8]. Daí, Deus não
está aliado, não só com Israel (sob a Lei) e os cristãos (sob o Evangelho), mas também com a
humanidade como um todo (sob Adão) e até com o universo inteiro (sob Noé). Mesmo
embora essas três alianças primeiras, para usar a expressão de Ireneu, “recapituladas” no
quarto, isto é levadas sob Cristo como a sua cabeça, não perderam a sua identidade e
integridade próprias. Ao contrário, precisamente porque foram recapituladas em Cristo,
alcançaram e mantêm a sua identidade e integridade plena, ainda hoje. Portanto, qualquer
fala sobre a “nova” aliança em Jesus precisa manter em mente a significância e validade
contínuas das três outras alianças.
3. A tarefa mais desafiante duma cristologia pós-supersessionista consiste em prover
explicação para como seja teologicamente possível reconhecer tanto a validade contínua da
aliança de Deus com Israel, mantendo a fé em Jesus como a pessoa como a pessoa em quem
Deus agiu para salvar a humanidade. Há duas dimensões nessa explanação, uma a respeito
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das atividades do Logos(Palavra) de Deus em Jesus (cristologicamente) e a outra, a respeito
das atividades do Espírito Santo (pneumatologicamente). Segundo a fé cristã, o Logos, o
Filho do Deus Pai, assumiu carne como judeu, isso é, em Jesus de Nazaré, desde que Jesus
era espacial e temporalmente limitado e, daí, não podia expressar exaustivamente o poder
divino, infinito de salvar nas suas palavras e atos humanos. Isso faz parte daquilo que se
quer dizer dizendo que o Logos “se esvaziou a si mesmo” no homem Jesus, sendo sujeito a
limitações humanas (embora não pecado). Há, portanto, “distinção-em-identidade” ou
“identidade-em-distinção” entre o Logos “não-encarnado” eterno e o judeu Jesus, em quem o
Logos chegou a ser carne no tempo e com quem está idêntico. Daí, as atividades do Logos,
embora inseparável daquelas de Jesus, estão também distintas de Jesus e vão além das
atividades históricas de Jesus, tanto antes quanto depois da Encarnação.
Além disso, o Espírito Santo, embora intimamente unido com o Logos, é distinto deste,
operando salvificamente fora e além dele, antes durante e depois do ministério de Jesus. O
Espírito Santo “sopra onde quer” (João 3,8). Para usar a metáfora colorida de Ireneu, o Logos
e o Espírito Santo são as duas “mãos” de Deus, com as quais Deus age no mundo, não
independentemente (muito menos em oposição) uma da outra naturalmente, mas distinta e
diversamente nem por isso – ainda que sempre em conjunção uma com a outra. Assim, A
presença salvadora de Deus por Palavra e Espírito não está limitada à aliança cristã, mas era
ativa e continua ser isso na história de Israel e, se pode acrescentar, está estendida ao todo
da história humana, especialmente nos livros, rituais, ensinamentos morais e práticas
espirituais sagrados de todas as religiões. Nesse modo, o que o Espírito Santo diz e faz e o
que o Logos e o Espírito fazem e dizem em Israel e em religiões não-cristãs possa ser
verdadeiramente diferente, embora não contraditório àquilo que Jesus e o Espírito fazem
entre os cristãos.
O pluralismo religioso, então não é justamente uma coisa de fato, mas também coisa de
princípio. Isso é dizer que o Judaísmo e outras religiões não-cristãs devem ser vistas como
parte do plano da Providência e dotados com um papel particular na história da salvação.
Não são meramente “preparação” para, “trampolins” em direção a, ou “sementes” da
Cristandade e destinadas a serem “cumpridas” por esta. Antes, têm a sua própria autonomia
e o seu papel próprio como modos de salvação, pelo menos para os seus adeptos.
à luz daquilo que foi dito acima, alguém poderá questionar a utilidade de palavras como
‘único’, ‘absoluto’ e até ‘universal’ para descrever o papel do salvador. Palavras estão
inevitavelmente embutidas em contextos sócio-políticos e culturais, sendo os contextos, em
que essas palavras eram usadas, marcados de conquista colonial, exploração econômica,
dominação política e marginalização religiosa. Não importa como estão sendo
teologicamente qualificadas: palavras tais como unicidade, absoluto e universalidade não
são os meios mais efetivos para levar a mensagem de Cristo de serviço humilde de amor
compassivo especialmente a vítimas de perseguição política, econômica e religiosa. Em
particular, na era do Holocausto, devem ser alijadas e substituídas por outras equivalentes. A
unicidade de Cristo, seja ela entendida como for, não é exclusiva ou absoluta mas, para usar
expressões de Jaques Dupuis, “constitutiva” e “relacional”16. Isso é dizer, porque o evento de
Cristo pertence ao clímax do plano de Deus da salvação, sendo esse clímax, Cristo é
constitutivo da salvação numa maneira muito especial. Nele, Deus realizou a salvação para
toda a humanidade de maneira mais efetiva e intensiva. Além disso, porque o Judaísmo e as
outras religiões não-cristãs mesmos fazem parte do plano de Deus da salvação da qual Cristo
pé o ponto culminante, Cristo está relacionado a essas religiões, especialmente ao Judaísmo,
e vice versa. Ainda, porque as religiões não cristãs possuem uma função autônoma na
história da salvação, diferente daquela da Cristandade, elas e a Cristandade, embora
mutuamente relacionadas, não podem ser reduzidas uma à outra. Autonomia e ser
relacionada não são mutuamente contraditórios.
Há, então, um relacionamento recíproco entre a Cristandade e o Judaísmo e as outras
religiões. Não só são religiões não-cristãs complementadas pela Cristandade, mas também a
Cristandade está sendo complementada por outras religiões. Em outras palavras, o processo
de complementação, enriquecimento e até correção e de duas direções ou recíproco. A
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reciprocidade não põe em perigo de modo nenhum a confissão fé de que a Igreja recebeu de
Cristo a plenitude da revelação, desde que é uma coisa receber um dom perfeito e nãosobrepujável, e completamente outra compreendê-lo inteiramente e o viver completamente.
Será, portanto, somente no diálogo com outras religiões que a Cristandade possa chegar a
uma realização mais plena da sua própria identidade e missão e a um entendimento melhor
da revelação única que recebeu de Cristo, e vice versa, outras religiões podem alcançar o
seu potencial pleno somente em diálogo uma com a outra e com a Cristandade.
8. Ainda, apesar do fato de que a fé cristã proclama que Jesus cristo é a plenitude da revelação
e o salvador único e universal, há também um relacionamento recíproco entre ele e outras
“figuras de salvador” e religiões não-cristãs, desde que a unicidade de Jesus não é absoluta,
mas relacional. Nesse sentido, a revelação e salvação de Jesus são também
“complementadas” pela auto-revelação e redenção de Deus manifestada em outras figuras
salvadoras e religiões não-cristãs. Nesse contexto, será útil relembrar que Jesus não revelou
e não pôde revelar qualquer coisa aos seus discípulos, e que é o Espírito Santo que os
conduzirá “à verdade completa” (João 16,12-13). Não há nada para impedir que pense que o
Espírito Santo conduza a Igreja à verdade completa através do diálogo com outras religiões,
nas quais ele está ativamente presente.
9. Finalmente, uma das verdades fundamentais da fé cristã é a assim chamada Segunda Vinda
de Cristo. Os cristãos estão ainda esperando na esperança para a vinda de Cristo como o
Messias e Senhor glorioso para julgar os vivos e os mortos. O documento importante da
Comissão Pontifical Bíblica, O Povo Judaico e as Sagradas Escrituras Dele na Bíblia Cristão,
assevera que, quando o Messias Judaico aparecer, terá alguns traços de Cristo, e que os
cristãos vão reconhecer os tratos de Jesus nele.
O Povo Judaico e as Escrituras Sagradas Dele na Bíblia Cristã, parte I, § 21: “O que
tem sido efetuado em Cristo deve ainda ser efetuado em nós e no mundo. O
cumprimento definitivo será no fim com a ressurreição dos mortos, o céu novo e a
terra nova. A expectativa messiânica judaica não está em vão. Pode chegar a ser,
para nós cristãos, um estimulante poderoso para manter viva a dimensão
escatológica da nossa fé. Como eles, nós também temos expectativa. A diferença é
que, para nós, o Único que está por vir terá os traços de Jesus, que já veio e está já
presente e ativo entra nós.”
Se isso for verdadeiro, então está sendo reconhecido que haja dois caminhos de entender a
significância universal do evento de Cristo, um através dos símbolos cristológicos da fé cristã, outro
através dos símbolos do Judaísmo. Esses dois caminhos não contradizem um ao outro, mais
permanecem distintos. Como vão ultimamente convergir no fim do tempo é assunto de fé e
esperança. Entrementes, cristãos e judeus devem juntar as suas ações e corações, em perdão e
amor mútuos, assim que a união possa ser realizada tanto quanto possível já agora.
Notas: Veja no texto inglês!
Texto inglês
Tradução: Pedro von Werden SJ – Rua Padre Remeter, 108 – Bairro Baú - 78008-150 Cuiabá-MT –
BRASIL – [email protected]
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