FACULDADE DE PSICOLOGIA E CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO Ciências sociais Primeiro semestre Inês Pinho Ciências sociais -Primeira aula Conceitos centrais: Ciência – corpo de conhecimentos obtidos por métodos baseados na observação sistemática e, por isso, no recurso ao método científico. Método científico é o modo como levamos a cabo uma acção estruturada. Ciências naturais ou exactas- são as que estudam as características físicas da natureza e das maneiras como elas interagem e se transformam; Exemplos: biologia, astronomia, química… Ciências sociais ou humanas- Para Piaget estas são apenas uma parte de um conjunto maior de ciências sobre o homem; Estas ciências têm um enfoque no comportamento social das pessoas, mesmo que cada uma delas tenha uma orientação particular. Entre todas as ciências sociais ou humanas não existem fronteiras mas sim zonas de sobreposição, ou seja, influências múltiplas – Interdisciplinaridade; Cada uma das ciências sociais tem as suas tradições intelectuais e temas preferenciais mas todas contribuem para uma só realidade social; Exemplos: Antropologia social, economia, psicologia social, história social… A realidade social é o objecto de estudo da sociologia, uma das demais ciências sociais. A sociologia é a disciplina científica que estuda as relações sociais e humanas ou a vida em grupo; Giddens disse que a sociologia “é uma ciência na medida em que envolve métodos sistemáticos de investigação e avaliação de teorias á luz da evidência e da argumentação lógica”. A sociologia pode definir-se: Pelo objecto- ciência que estuda a sociedade e analisa os fenómenos sociais Pelo método- investiga a realidade social seguindo procedimentos científicos Contributos da sociologia no estudo das ciências sociais: Reconhecimento das diferenças culturais Avaliar os efeitos das políticas Autoconhecimento e auto-reconhecimento Perspectiva sociológica - Cabe aos sociólogos examinar as formas pelas quais a estrutura social e as instituições tais como a classe, família, escola, comunidade influenciam a sociedade. Deste modo é necessário ir para além das coisas que achamos naturais e tentar perceber a forma como a nossa vida individual e afectada pela realidade social. Este facto leva-nos ao conceito de “Imaginação sociológica” (Mills 1959). A imaginação sociológica permite-nos ver que muitos dos fenómenos que parecem dizer respeito somente ao individuo, reflectem na verdade questões mais amplas, como ficou provado com Durkheim num estudo que este fez em relação ao suicídio. È ainda a capacidade de ver o impacto das forças sociais na nossa vida privada – consciência que as nossas vidas são influenciadas pela realidades social e vice-versa. A sociologia e os sociólogos: Para os sociólogos cada informação deve ser testada e registada e depois analisada em relação com outras situações. Eles baseiam-se em estudos científicos para descrever e compreender o mundo social. As vezes as suas descobertas podem parecer “simples senso comum” porque lidam com a vida diária de cada um de nós. 1 Ciências Sociais- Segunda e terceira aula Os contributos da Sociologia “A maior parte de nós, vê o mundo em termos das características das nossas próprias vidas, com as quais estamos familiarizadas. A sociologia mostra que é necessário adoptar uma perspectiva mais abrangente do modo como somos e das razões pelas quais agimos (…) compreender as maneiras ao mesmo tempo subtis, complexas e profundos, pelas quais as nossas vidas individuais reflectem os contextos da nossa experiencia social é essencial á perspectiva sociológica” As ciências sociais estudam o homem em sociedade Compete á sociologia estudar o homem como um todo A sociologia analisa as inter-relações entre os diversos fenómenos socias A sociologia nunca foi uma daquelas com um corpo de ideias minimamente aceites como válidas A sociologia debruça-se sobre as nossas próprias vidas o que se torna uma tarefa mais complexa - Os seres humanos sempre sentiram necessidade de descobrir as razões do seu próprio comportamento - Há muito tempo atras, as ideias que revelam tentativas de nos entendermos, eram expressas frequentemente em termos religiosos – crenças, superstições e crenças; “O estudo sistemático da sociedade e do comportamento humano é uma coisa relativamente recente, cujo início remontam aos finais do século XVIII” Um desenvolvimento chave foi o uso da ciência para se compreender o mundo- A emergência de uma abordagem científica teve como consequência uma mudança radical na forma de ver e entender as coisas O contexto social: a sociologia e a mudança social Tecnologia industrial: os trabalhadores começaram a tornar-se parte de uma larga força de trabalho anonima Com a revolução industrial deu-se o crescimento das cidades: o desenvolvimento de novos problemas como a poluição, crime, sem abrigo … Mudanças políticas: revoluções, ideias de liberdade individual e direitos individuais (revolução francesa) A sociologia como ciência da modernidade As sociedades modernas já não são explicáveis com base em deduções teológicas em conhecimentos filosóficos Procura analisar e explicar a realidade A sociedade é considerada como modificável e passível de ser construída Origem da sociologia- Auguste Comte 2 A primeira definição de sociologia foi apresentada por este filósofo francês que definiu sociologia como: “O estudo positivo do conjunto de leis fundamentais próprias dos fenómenos sociais” Em 1838, Comte criou o tema “sociologia” para descrever a sua visão de uma nova ciência que deveria descobrir leis da sociedade humana semelhantes as leis da natureza adoptando os métodos da investigação factorial que tinham sido bemsucedidos nas ciências físicas A sociologia encontra-se, nesta época, em estática social (Teoria da ordem) e dinâmica social (Teoria do progresso) Comte acreditava que este novo campo podia produzir conhecimentos sobre a sociedade baseado na evidência científica Desvendar as leis que governavam a sociedade humana podia-nos ajudar a configurar o nosso destino e a melhorar o bem-estar da humanidade Comte acreditava que a sociedade se submete a leis invariáveis (como se sucede no mundo físico) Viu a sociologia como uma ciência positiva – Positivismo Defende a ciência deve preocupar-se apenas com os factos observáveis que resultam directamente da experiencia; A abordagem positivista da sociologia acreditava na produção de conhecimento acerca da sociedade com base em provas empíricas retiradas da observação da comparação e da experimentação A lei dos três estádios de Comte postula que as tentativas humanas, para compreender o mundo passa, por estádios Estádio teológico: as ideias religiosas e a crença que a sociedade era uma expressão da vontade de Deus; Estádio Metafísico: afirma-se pela época do renascimento; A sociedade começou a ser vista em termos naturais e não sobrenaturais Estádio positivo: desencadeado pelas descobertas de Copérnico, Galileu e Newton; Encorajou a aplicação de técnicas científicas ao mundo social Comte considerava a sociologia como a ultima ciência a desenvolver-se mas que seria também a mais significativa e complexa de todas as ciências; A sociologia deveria contribuir para o bem-estar da humanidade em geral, pela utilização da ciência para compreender e assim prever e controlar o comportamento humano; Origem da Sociologia Émile Durkheim 3 Embora apoiando-se em Comte, considerava muitas das ideias deste autor demasiado especulativas e vagas e achava que ele não tinha levado a efeito a tarefa de estabelecer a sociologia com bases cientificas Acreditava que a sociologia deveria estudar os factos socias como coisas, o que significa que eles poderiam ser analisados com o mesmo rigor que outros objectos Acreditava eram produto de forças sociais complexas e não poderiam ser considerados fora do contexto da sociedade na qual viveu Utilizou o conceito de consciência colectiva para descrever as condições de uma sociedade particular É totalmente separado das consciências individuais; estas em conjunto formam a consciência colectiva Os factos sociais “Maneiras de agir, de pensar e de sentir que são exteriores ao individuo e que são dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõe” São difíceis de estudar pois não pode ser observado de forma directa dado serem invisíveis e intocáveis As suas propriedades só podem ser reveladas indirectamente através da analise dos seus efeitos ou tendo em consideração tentativas feitas para as expressar como leis, textos religiosos ou regras de conduta estabelecidas O estudo de Durkheim tem um importante valor Heurístico: Mostra como o indicador estatístico, convenientemente concebido e utilizado, pode ser revelador de um conjunto complexo de regularidades sociais Toma como indicador um tipo de acontecimentos a que seriamos tentados a atribuir espontaneamente razoes de estrito foro pessoal Assim, Durkheim, constitui uma teoria da sociedade cuja aplicação ao fenómeno em causa permite formular hipóteses explicativas para regularidades sociais observadas Construir explicações para os fenómenos sociais A divisão do trabalho social (1893) A análise da mudança social, por parte de Durkheim, baseava-se no desenvolvimento da divisão do trabalho (o crescimento das distinções entre diferentes ocupações) A divisão do trabalho foi substituindo a religião como base da coesão social Com a divisão do trabalho as pessoas tornavam-se cada vez mais dependentes entre si De acordo com este autor, as mudanças do mundo moderno eram tão rápidas e intensas que davam azo a dificuldades sociais que ele ligava á anomia 4 Um sentimento de desespero e de falta de apoio devido á substituição da religião como factor de coesão social que fez com que muitas pessoas sentissem que a vida não fazia sentido As regas do método sociológico Primeira: “Os factos sociais devem ser tratados como coisas” Segunda: “Um facto social deve ser explicado por outro facto social” O suicídio (1897) O autor mostrou que o suicídio não é um acto estritamente social mas sim que é extremamente influenciado por factores socias como a anomia As taxas de suicídio mostram regularidades de ano para ano e isso deve ser explicado sociologicamente Demostrou a variação nas formas de solidariedade social em diferentes grupos: 1. Os que estão fracamente integrados em grupos tem maior propensão ao suicídio 2. À medida que o nível de solidariedade social aumenta, a taxa de suicídio diminui mas para além de um certo ponto a taxa volta de novo a crescer Nota: Solidariedade social: Grau em que os membros de um dado grupo partilham valores e crenças Frequência e intensidade da interacção Tipologia do suicídio 1. Suicídio anómico: ocorre quando os laços de solidariedade são escassos e quando as normas de conduta são definidas de forma vaga 2. Suicídio egoísta: Resulta de uma falta de integração dos indivíduos na sociedade devido aos laços sociais fracos que os liga aos outros 3. Suicídio altruísta: ocorre em contextos de solidariedade social elevada quando as normas orientam fortemente os comportamentos Anónimo Altruísta Alto Baixo Solidariedade social Alto 5 Implicações do estudo do suicídio – contributo de Durkheim para o pensamento sociológico As forças sociais são exteriores ao individuo e constrangem o comportamento individual “ A sociedade é um conjunto de pessoas, mas não uma soma delas- antes de uma realidade sui generis, um ser ontologicamente distinto” “ Os estudos individuais não explicam os factos sociais mas os factos sociais explicam, em grande parte, os estudos individuais” Karl Marx As ideias de Karl Marx contrastam radicalmente com as de Comte e Durkheim, embora tal como eles, também Marx tenha tentado explicar as mudanças que ocorriam na época da Revolução Industrial Marx concentrou-se na mudança nos tempos modernos. Para ele as mudanças mais importantes estavam ligadas ao desenvolvimento do capitalismo - Sistema de produção que contrasta com sistemas económicos anteriores; - Implica a produção de bens e serviços para serem vendidos a uma grande massa de consumidores ; Marx identificou dois elementos essenciais nas empresas capitalistas: Capital: qualquer activo, incluindo dinheiro, máquinas, ou mesmo fábricas, que possa ser usado ou investido para realizar futuros bens; Trabalho, assalariado: o conjunto de trabalhadores que não detém a propriedade dos meios de produção, mas que tem de procurar emprego, fornecidos pelos que detêm o capital. Marx acreditava que o indivíduo é um produto da sociedade na qual vive e que a sociedade é composta de duas classes: Burguesia: detentores dos meios de produção Proletariado: trabalhadores que não têm a posse dos meios de produção Estas duas classes, de acordo com Marx, tinham que estar em conflito uma com a outra Este conflito seria resolvido pela evolução natural da sociedade capitalista para uma utopia comunista na qual todas as pessoas partilhavam a posse dos meios de produção Marx acreditava que o conflito de classe em torno dos recursos económicos se iria acentuar com a passagem do tempo 6 Para ele, não se encontram nas ideias ou nos valores humanos as principais fontes de mudança social- a mudança social é promovida acima de tudo por factores económicos; O ponto de vista de Marx assentava naquilo que ele designava por concepção materialista da história Os conflitos entre as classes – os ricos contra os pobres –fornecem a motivação para o desenvolvimento histórico Assim, de acordo com Marx: “toda a história até agora é a história da luta de classes”. Contributo de Marx para o desenvolvimento da Sociologia Salientou que as relações sociais decorrem dos modos de produção (factor transformador da sociedade) Procurou elaborar uma teoria sistemática da estrutura e das transformações sociais Desconhecendo-se a si próprio como sociólogo, foi colocando-se do ponto de vista relacional e globalizante que ele transformou a história e a economia, insistindo em que o que importa é analisar as relações sociais entre os homens a todos os níveis de acção, económico, político, ideológico. Max Weber Economista e sociólogo alemão, é considerado um dos fundadores do pensamento sociológico moderno Para weber, para explicar a mudança social era necessário atender não só aos factores económicos mas também às ideias e aos valores Foi influenciado por Marx mas rejeitou a concepção materialista da história proposta por Marx e considerava o conflito de classes menos importante do que para ele Weber defendeu que a Sociologia devia centrar-se na acção social e não nas estruturas; • Ao contrário de Durkheim ou Marx, Weber não acreditava que as estruturas existiam externamente aos indivíduos ou que eram independentes destes mas sim que as estruturas das sociedades eram formadas por uma complexa rede de acções recíprocas. O objecto de estudo da Sociologia é compreender o sentido da acção social • 7 “A acção (humana) é social na medida em que, em função da significação subjectiva que o indivíduo ou os indivíduos que agem lhe atribuem, toma em consideração o comportamento dos outros e/ou é por ele afectada no seu curso.” Segundo Weber, o capitalismo é apenas um entre vários factores que modelam o desenvolvimento social. Mas por detrás do capitalismo (e por vezes mais fundamental do que ele) está o impacto da ciência e da burocracia. Na “Ética protestante e o espírito do capitalismo” Weber explorou a influência da ética e da religião sobre o desenvolvimento do capitalismo Conclui que as crenças cristãs, designadamente a ética protestante, influenciaram o aparecimento do capitalismo Um conceito muito importante na perspectiva sociológica de Max Weber, é o conceito de tipo ideal Modelos conceptuais ou analíticos que podem ser usados para compreendermos o mundo; Para Weber, a ciência moldou a tecnologia moderna e continuará a fazê-lo no futuro O desenvolvimento conjunto da ciência, da tecnologia moderna e da burocracia foi descrito por Weber como racionalização A organização da vida social e económica de acordo com princípios de eficiência e na base de conhecimentos tecnológicos; De acordo com o autor, a Revolução Industrial e o Capitalismo eram provas de uma tendência maior no sentido da racionalização O capitalismo era dominado pelo avanço da ciência e da burocracia única forma de organizar eficientemente um grande número de pessoas de forma eficaz e, deste modo, expandiu-se com o crescimento económico e político O autor utilizou o termo desencantamento Para descrever a forma pela qual o pensamento científico no mundo moderno fez desaparecer as forças sentimentais do passado Resumo: Comte, Durkheim, Marx, ou Weber utilizaram abordagens muito diferentes entre si nos estudos do mundo social; Enquanto Durkheim e Marx centraram-se no poder de forças externas aos indivíduos, Weber adoptou como ponto de partida a capacidade que os indivíduos têm de agir de forma criativa sobre o mundo exterior Enquanto Marx privilegiava as questões económicas, Weber considerava um leque muito mais vasto de factores que considerou significantes 8 A Sociologia não é uma disciplina com um corpo de ideias unanimemente aceites como válidas, isto é, possui uma diversidade de abordagens A Sociologia engloba uma variedade de perspectivas teóricas Ciências sociais- quarta aula Breve sistematização de ideias sobre os autores clássicos Os primeiros autores (Comte, Durkheim, Weber, Marx): Partilham o desejo de conferir sentido á sociedade em mudança em que viviam Tinham a intenção de interpretar os acontecimentos do seu tempo Procuraram desenvolver formas de estudar o mundo social que pudessem explicar o funcionamento das sociedades Propuseram esquemas científicos gerais/teóricos para a compreensão do comportamento humano Nem todos se concentravam nas causas da disfuncionalidade da sociedade (Marx propôs soluções para o problema social) Comte: Fundador do positivismo Sistema filosófico que defende que nada se pode conhecer com exactidão senão as verdades verificadas pela observação ou pela experiencia; Durkheim: Funda a sociologia como ciência: - Na definição de um objecto específico: estudo dos factos eminentemente sociais - Na criação de um método: tentativa de lhes dar uma explicação sociológica Marx: Os valores éticos e religiosos também exerceram uma influencia significativa sobre o desenvolvimento do capitalismo Papel da acção social criativa na sociedade Estes autores, mesmo quando estão de acordo em relação ao objecto de análise, a investigação sociológica é feita a partir de perspectivas e técnicas diferentes Esta diversidade deve ser encarada como um aspecto positivo A sociologia emergiu com o desenvolvimento das sociedades modernas Crescentemente os sociólogos estão interessados num leque mais vasto de assuntos acerca da natureza da interacção social e das sociedades humanas em geral Olhares sociológicos mais recentes Estrutural- Funcionalismo Níveis de análise sociológica Nível de análise macro: É a análise de padrões globais da sociedade e de grandes organizações e instituições; Analisa também as forças sociais que afectam as sociedades e os grupos; 9 Nível de análise micro: É a analise da interacção social, da interacção entre indivíduos, das relações de tocas pessoais; inclui interacções pessoais através de linguagem gestual das percepções e das interpretações dos indivíduos Teorias ou perspectivas da sociologia Uma teoria é uma afirmação sobre a forma e o porque de determinados factos estarem relacionados. Baseiam-se em paradigmas teóricos- conjuntos de princípios base que guiam o pensamento e a investigação Por exemplo, Durkheim teorizou sobre a relação entre o suicídio e a integração social 1. Teoria estrutural funcionalista É considerada a teoria do consenso e da ordem Baseia-se no pressuposto de que a sociedade é um sistema complexo cujas partes trabalham em conjunto para promover a estabilidade social Afirma que a sociedade é composta por uma estrutura social – padrões relativamente estáveis de comportamento social Toda a estrutura social tem funções sociais ou consequências para a operação da sociedade como um todo Autores mais importantes deste paradigma: Durkheim, Comte, Spencer A sociedade funciona como uma coisa real no sentido em que tem necessidade (ou funções) que necessitam de ser satisfeitas Existe um forte consenso entre os indivíduos da sociedade a respeito da existência e da importância relativa destas funções necessárias A sociedade como um todo estabelece um sistema de papéis de modo a assegurar que as funções são satisfeitas A sociedade também cria um sistema de recompensas desiguais de modo a assegurar que os papéis mais importantes são desempenhados pelos mais qualificados Aos módulos de organização social são predominantemente pelas necessidades do sistema global, ou seja, o sistema social tem necessidades que precisam de ser realizadas As estruturas sociais formam um todo integrado caracterizado pela tendência para o equilíbrio ou estabilidade Padrões de comportamento que poem em causa a estabilidade do sistema sociais são consideradas como “disfuncionais” Padrões de comportamento que servem para a manutenção da estabilidade da sociedade são chamados de “funcionais” Desenvolve-se o “mecanismo de equilíbrio” em resposta a modelos disfuncionais de modo a restaurar a estabilidade dos sistemas sociais Durante um longo período de tempo, o pensamento funcionalista foi provavelmente a principal corrente teórica da sociologia Isto acontece nos EUA graças a: Talcott Parsons e Robert Merton- Estes dois inspiramse na obra de Durkheim Nos anos mais recentes a popularidade da corrente funcionalista decresceu, fruto de uma grande medida ao facto de se realçar excessivamente o papel dos factores que conduzem a coesão social, em detrimento dos factores que conduzem á divisão e ao conflito 10 Teorias Sociológicas – Interacionismo simbólico Esta corrente de pensamento nasce de uma reação contra o positivismo de uma concepção das ciências sociais ainda muito ligada ao modelo das ciências naturais, que levaria a considerar “os fatos sociais como coisas” Postula-se, diferentemente, que qualquer tentativa de explicação deve necessariamente partir do indivíduo, considerado como a unidade de base da análise sociológica Este paradigma propõe analisar a ação dos atores como constitutivos desses mesmos fatos Deste modo, instituições como a empresa, a família, a escola e a igreja podem surgir como tantos determinantes da ação social, podem ser também encaradas como o fruto da ação ou da interação entre os homens Baseia-se no pressuposto de que a sociedade é o produto das interações quotidianas entre os indivíduos; A sociedade é composta de símbolos que os indivíduos utilizam para estabelecer significados, desenvolver as suas atitudes e crenças e para comunicar; O acordo sobre os símbolos nunca é completo- Quando interagimos com outros tentamos constantemente interpretar o que eles querem dizer e qual o seu objetivo; O comportamento humano é determinado pelo significado subjetivo que as pessoas atribuem a uma determinada situação. • Cabe à sociologia compreender o sentido que cada ator dá à sua ação A teoria assenta em três princípios básicos: • Significado: Afirma que os indivíduos agem em relação a outros indivíduos e aos objectos de acordo com o significado que atribuem a essas pessoas e objectos – a atribuição de significado é o aspecto central do comportamento humano • Linguagem: Constitui um meio que permite aos indivíduos negociar o significado através de símbolos. Os indivíduos identificam o significado nos actos da fala com outros • Pensamento: Modifica cada interpretação individual dos símbolos. É uma conversação mental que requer diferentes pontos de vista • Análise dos detalhes da interação interpessoal e da forma como esses detalhes são usados para conferir sentido ao que os outros dizem e fazem. • Interesse na interação face-a-face e nos contextos da vida quotidiana. • Ênfase no papel das interações na criação da sociedade e das suas instituições. O subjectivismo na análise sociológica Nos anos 50/60 começou a ser posta em causa a criação de um método modelado nas ciências naturais É nesta altura que se consolida a oposição central entre aqueles que concideram que a sociologia deve optar por uma abordagem subjectiva e aqueles que consideram o contrario (objectiva). 11 Surgem algumas duvidas sobre se o metodo das ciencias naturais é apropriado ás ciencias sociais - SURGE O DEBATE DA RACIONALIDADE A agitação criada na sociologia foi tambem impulsionada pelo trabalhos das escolas americanas . Estas ganaharam folego nos anos 60 e designam-se: Interaccionismo simbólico (origem na obra de George H. Mead e escola de chicago) e etnometodologia Interaccionismo simbolico e a escola de chicago: Estudo de terreno sobre fenomenos da vida urbana Robert park (fundador da escola de chicago),Thomas (primeiro grande teorizador da escola de chicago) Burgess, goffman, Becker.. Autores como estes publicaram sobre imigração, urbanização,comunidades etnicas e das suas relações O conjunto destas analises encontra-se por vezes reunido sob o tema de análise ecológica – poem em relação as formas de comportamento sociais especificas com um modo de ocupação de espaço A etnometedologia e a universidade da california Vai ao encontro da obra do autor alemão Alfred Schutz Harold Garfinkle – publicou o livro “studies in etnhnomethology” que revolucionou a sociologia e tambem criou o termo “actor social” Ambas a escolas debruçaram-se sobre as questões em tormo do significado e da racionalidade Ambas concideram que para perceber o caracter racional das acções é precido olhar para as conndições particulares em que estas se desenrolam, situalas em determinados contextos e tentar perceber os significados que os individuos atribuem as suas acções Ambas tinham o objectivo de propor hipoteses pertinentes para compreender o mundo social Howard Becker (n. 1928-) Sociólogo norte-americano Contributos importantes, nomeadamente: na sociologia do desvio _ Outsiders: Studies in Sociology of Deviance (1973) - na sociologia da arte _ Art Worlds (1982) - na sociologia em geral _ Uma Teoria da Ação Coletiva (1977) e Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais (1993) - Estudo famoso sobre os músicos de jazz Rober Park (n. 1864-1944) Sociólogo norte-americano Park escreveu um ensaio sobre a cidade, encarando-a como um laboratório para a investigação da vida social Ideia central sobre a história do mundo: "hoje, o mundo inteiro ou vive na cidade ou está a caminho da cidade. Então, se estudarmos ascidades, poderemos compreender o que se passa no mundo”. Erving Goffman(n. 1922-1982) Sociólogo norte-americano 12 Estudo etnográfico de certos aspetos particulares da vida social dos doentes mentais “Os sociólogos devem falar do ponto de vista das pessoas que eles estudam, porque é após esta perspectiva que se constrói o mundo que eles analisam”. Níveis de análise sociológica Os setores “respeitáveis” da sociedade: Inclui-se a igreja, a escola, etc.. Pertencem à “América oficial”. Os setores “não-respeitáveis” da sociedade: Os que se afastam da classe média voluntária ou involuntariamente e que correspondem à outra “América”, que é caraterizada por aqueles que têm uma linguagem agressiva e atitudes que chocam com aquilo que seria socialmente desejável, pelo estado de espírito que questiona as ideologias oficiais. A prioridade ao empirismo Os fundadores da “Escola de Chicago”, e.g. do interacionismo simbólico são defensores de uma metodologia qualitativa. Privilegiam os estudos de caso e recorrem às técnicas de observação participante e histórias de vida, inspirados pela antropologia. Várias investigações começaram a aparecer, na década de 20, em resposta a algumas das questões levantadas por Park e que eram, todas elas, monografias pormenorizadas de facetas particulares da vida urbana de Chicago e focadas nos desfavorecidos, nos desprotegidos e naqueles que não se fixavam: Um estudo sobre mulheres que dançavam com homens a troco de pagamento e dos homens que deste modo compravam a companhia de mulheres. A necessidade de repensar o pensamento sociológico? Tanto o interacionismo simbólico como a etnometodologia colocaram em questão a possibilidade de uma concepção metodológica da sociologia assente numa concepção da racionalidade generalista, abstrata e a priori, admitindo que esta apenas poderá conduzir o sociólogo a um sub-compreensão e/ou a uma sub-descrição da vida social. Para os autores destas correntes teóricas, é necessário ir ao encontro de uma teoria geral de um modo diferente ou mesmo abandonar a procura incessante de uma “grande teoria”. Multiplicidade de abordagens teóricas Existem várias abordagens teóricas em Sociologia Dado o caráter complexo e multifacetado do comportamento humano, dificilmente uma única perspectiva teórica poderia cobrir todas as suas características Uma “boa teoria” deve ser contra-intuitiva- romper com o senso comum- deve ser frutuosa- ser capaz de gerar novas ideias e estimular investigações posteriores Dilemas teóricos básicos da Sociologia Algumas questões gerais relativas à forma como interpretamos as atividades humanas e as instituições sociais continuam a levantar alguns dilemas teóricos: Estrutura e ação • O peso dos constrangimentos sociais exercidos sobre as nossas ações pelas sociedades em que estamos inseridos. • Remonta a E. Durkheim: 13 - a sociedade tem primazia sobre o indivíduo; - a estrutura social constrange as nossas atividades de modo semelhante, estabelecendo limites ao que podemos fazer como indivíduos. • Perspectiva que teve/tem alguns seguidores mas que também foi criticada. • Este é um debate que não se confina à Sociologia, mas que se estende a todas as áreas das Ciências Sociais. • A perspetiva de síntese de A. Giddens consiste em reconhecer que o extremar de ambas as posições é exagerado: - As instituições sociais precedem a existência de qualquer indivíduo e colocam restrições e constrangimentos. Porém, estes não determinam o que fazemos. - Como seres humanos fazemos escolhas e não reagimos passivamente aos acontecimentos que nos rodeiam. • De acordo com o autor, a forma de ultrapassar a diferença entre a abordagem “estrutural” e a centrada na “ação” consiste em reconhecer que construímos e reconstruímos ativamente a estrutura social no decurso das nossas atividades diárias. • Conceito de “estruturação” (Giddens) _ enfatiza/reconhece a relação entre estrutura e ação. • “As sociedades, comunidades ou grupos apenas têm uma estrutura na medida em que as pessoas agem de um modo regular e previsível. Por outro lado, a ação apenas é possível na medida em que cada um de nós, como indivíduo, possui uma enorme quantidade de conhecimento socialmente estruturado” (Giddens, 2004: 670) Consenso e conflito • Para Durkheim, as sociedades são vistas como um conjunto formado por partes interdependentes. • A continuidade de uma sociedade depende da cooperação, e esta pressupõe um consenso geral, ou acordo, entre os seus membros sobre valores fundamentais. • Diferente é a perspetiva dos autores que se centram no conflito. Segundo Marx, as sociedades estão divididas em classes com recursos desiguais. • Quaisquer que sejam os grupos conflituosos mais destacados pela análise, a sociedade é vista como estando essencialmente carregada de tensão. Visão/proposta de Giddens: - As duas posições não são totalmente incompatíveis. Todas as sociedades envolvem provavelmente um certo tipo de acordo geral sobre valores e certamente todas implicam conflitos. - Como regra geral da análise sociológica, temos de examinar as relações entre o consenso e o conflito nos sistemas sociais. Teorias recentes da Sociologia A(s) teoria(s) pós-moderna(s) Para alguns autores contemporâneos é necessário abandonar as interpretações globais da mudança social. “Não existe uma noção geral de progresso que possa ser defendida, tão pouco existe algo como a história”. “A sociedade pós-moderna é muito pluralista e diversificada. Circulam imagens por todo o mundo em inúmeros filmes, vídeos, programas de televisão e websites. Entramos em contato com muitas ideias e valores, mas estes têm pouca relação com a história das zonas onde habitamos, ou sequer, com as nossas histórias pessoais. Tudo parece estar num fluxo constante” (Giddens, 2004: 676). Ideia pós-moderna- Se admitirmos que as sociedades são, cada vez mais, fragmentadas e diversificadas, então, somos também levados a reconhecer que as generalizações sociológicas são cada vez mais difíceis de obter. Muitos dos teóricos 14 sociais contemporâneos consideram que as tecnologias da informação e os novos sistemas de comunicação, em conjunto com outras mudanças tecnológicas, estão a produzir mudanças sociais importantes. Mudanças importantes nas sociedades de hoje Família . Incerteza nas relações amorosas. . Novas, diversas formas de família. . Decisão e controlo sobre o n.º de filhos que se deseja e o respectivo sexo. Lazer&tempos livres . Interacção crescente com os ecrãs de TV e os monitores de computador. . Comunicação on line em detrimento da comunicação presencial. . Novas e crescentes formas de turismo (e.g. por motivos religiosos, de saúde). . Novas práticas culturais e lúdicas (e.g. cinema, ginásios, ir a restaurantes). Trabalho . Empregos de curta duração, flexíveis. Desaparecimento do trabalho para a vida inteira. . Reconversão dos sectores económicos (recuo da indústria, aumento do peso dos serviços). . Aumento do desemprego (e.g. DLD) e dos “trabalhadores pobres”. . Percursos fragmentados, diversificados. . Feminização do mercado de trabalho. Mudanças na vida quotidiana. Algumas tendências Alterações das identidades pessoais Novos dilemas éticos Mudanças nos valores Maior liberdade (de pensamento, ação) Individualismo e desconfiança Interdependência crescente e relações sociais a nível mundial Alterações nos padrões de migração global Diversidade de culturas e novos gostos culturais Ritmo acelerado da mudança e novos riscos sociais Compressão do tempo e do espaço. Aumento e diversificação das desigualdades e das divisões sociais Mudanças importantes na ciência Encontramo-nos, hoje, numa fase de (re)questionamento e/ou perplexidade no que concerne: as relações entre a ciência e a virtude; o valor do conhecimento dito vulgar que nós, sujeitos individuais ou coletivos, criamos e usamos para dar sentido às nossas práticas e que a ciência teima em considerar irrelevante, ilusório e falso; - o contributo positivo ou negativo da ciência para a nossa felicidade. Têm, hoje, lugar transformações nas ciências, nos conhecimentos;alterações na forma de conceber a vida, o corpo, etc.. Está em curso um processo de mudança que cria um mundo diferente do que existia até aqui e que nós ainda não sabemos total e exatamente como será. Transição pós-moderna: processo de transformação social intenso que aponta para algo diferente do que nós chamávamos “modernidade”. 15 A teoria pós-moderna. As ideias de Jean-Baudillard e Foucault Autores que rejeitam a existência de grandes narrativas, interpretações globais acerca da sociedade. Jean-Baudillard (1929-2007) - O mundo pós-moderno está dominado pelos novos media. Papel central da televisão na transformação da natureza das nossas vidas. - A vida social é influenciada por signos e imagens. Os significados são criados pelo fluxo das imagens. - Universo do “faz-de-conta”. Existência de uma nova realidade, uma “hiper-realidade”, em que se mistura o comportamento das pessoas com as imagens dos media. Michel Foucalt (1926-1984) - Debruçou-se sobre as mudanças de entendimento acerca do nosso mundo e o pensamento dos tempos mais antigos. - Analisou a emergência de instituições modernas (e.g. prisões, hospitais, escolas) - Desenvolveu ideias importantes sobre a relação entre o poder, a ideologia e o discurso com os sistemas organizacionais modernos. Teorias gerais do mundo social. As propostas de Beck, Giddens e Castells Segundo outros pontos de vista, devemos, mais do que nunca, desenvolver teorias gerais. Ulrich Beck - Rejeita o pós-modernismo. - Estamos a dirigirmos para uma nova fase, a da “segunda modernidade” ou “modernidade reflexiva”. - Nesta nova fase, “as instituições tornam-se globais e a vida quotidiana está a libertar-se do jugo da tradição e dos costumes”. - A sociedade industrial é, progressivamente, substituída pela “sociedade de risco global” (Beck, 1992). - A natureza dos riscos que enfrentamos está em transformação. - A gestão pelo risco cabe a todos (e.g. políticos, cientistas, cidadãos em geral). - Análise do impacto dos media e das tecnologias da comunicação nas sociedades. - “A sociedade da informação” ou “sociedade em rede” é marcada pelo surgimento das redes e da economia em rede. - O controlo do mundo pelas máquinas é um perigo real. Este pode ser combatido graças ao papel das organizações internacionais e dos países que têm interesses comuns na regulação do capitalismo internacional. - Importa gerir/saber utilizar a tecnologia da informação de forma positiva. Anthony Giddens - Vivemos num “mundo em fuga”, marcado por novos riscos e incertezas. - Vivemos numa sociedade mais global. - Temos uma necessidade constante de refletir – “reflexividade social” - sobre as circunstâncias em que vivemos as nossas vidas. - Os séculos XX e XXI são marcados por rupturas com o passado. O mundo em que vivemos é cada vez mais um mundo global. - Teoria da estruturação, uma análise da agência e da estrutura. 16