Richard David Precht

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Richard David Precht
QUEM SOU EU
E, SE SOU, QUANTOS?
Uma viagem filosófica
Tradução de
Luís Covas
Índice
Introdução...........................................................................................
13
O que posso saber?
Animais inteligentes no universo
O que é a verdade? ........................................................................
25
Lucy in the Sky
De onde viemos? ...........................................................................
34
O cosmos da mente
Como funciona o meu cérebro? .................................................
45
Uma noite de Inverno durante a Guerra dos Trinta Anos
Como sei quem sou?.....................................................................
56
A experiência de Mach
Quem é o «eu»?..............................................................................
67
Mr. Spock ama
O que são sentimentos? ...............................................................
78
Sem autoridade na própria casa
O que é o meu subconsciente?....................................................
89
Deve ter sido…
O que é a memória? ...................................................................... 100
A mosca no frasco
O que é a linguagem? ................................................................... 111
O que devo fazer?
O erro de Rousseau
Precisamos nós dos outros?......................................................... 127
9
Índice
A espada do caçador de dragões
Porque ajudamos os outros? .......................................................
A lei em mim
Porque devo ser bom? ..................................................................
A experiência de Libet
Posso eu querer o que quero? .....................................................
O caso Gage
Existe moral no cérebro? .............................................................
Sinto algo que tu também sentes
Vale a pena ser bom?.....................................................................
O homem sobre a ponte
É a moral inata? .............................................................................
Que viva a tia Bertha
Podemos matar pessoas? .............................................................
O despontar da dignidade
É o aborto moral?..........................................................................
O fim dos tempos
Deve permitir-se a eutanásia? .....................................................
Para além da salsicha e do queijo
Podemos comer animais? ............................................................
O macaco na selva da cultura
Como devemos agir perante os hominídeos?...........................
O suplício das baleias
Porque devemos proteger a natureza?.......................................
Perspectivas de um clone
É permitido copiar seres humanos?...........................................
Crianças por medida
Onde conduz a medicina reprodutiva? .....................................
A ponte para o império da mente
O que é permitido à neurociência? ............................................
133
139
147
158
163
170
178
185
198
210
222
232
241
251
264
O que me é permitido esperar?
A maior de todas as ideias
Deus existe? ................................................................................... 277
O relógio do arcediago
Tem a natureza um sentido?........................................................ 288
10
Índice
Uma normalíssima improbabilidade
O que é o amor?.............................................................................
Do be do be do
O que é a liberdade? .....................................................................
O óleo usado de Robinson
Precisamos da propriedade? .......................................................
O jogo de Rawls
O que é justo? ................................................................................
Ilhas da bem-aventurança
O que é uma vida feliz?.................................................................
O jardim longínquo
Pode a felicidade aprender-se? ...................................................
A máquina Matrix
Tem a vida um sentido? ................................................................
300
313
326
335
347
359
368
Apêndice.............................................................................................. 379
Índice onomástico.............................................................................. 395
11
Introdução
A ilha grega de Naxos é a maior das Cíclades no mar Egeu.
No centro da ilha a cadeia montanhosa do Zás eleva-se até aos
1000 m, e nos seus campos aromaticamente perfumados pastam
cabras e ovelhas, crescem videiras e hortaliças. Na década de 1980
Naxos possuía ainda uma praia legendária perto de Agia Ana,
com dunas de areia que se estendiam por quilómetros, sobre
as quais alguns poucos turistas haviam construído cabanas de
bambu e passavam o tempo a dormitar indolentes pelas sombras. No Verão de 1985 dois rapazes de 20 anos descansavam
debaixo da ponta de um rochedo. Um chamava-se Jürgen e era de
Düsseldorf, o outro era eu. Tínhamo-nos conhecido na praia
havia poucos dias, e discutíamos sobre um livro da biblioteca do
meu pai que eu tinha levado comigo para as férias: um livro de
bolso já bastante maltratado, debotado pelo sol e com um templo grego na capa, onde se viam dois homens em trajes também
gregos. Platão e Sócrates em diálogo.
A atmosfera na qual tinha lugar a nossa apaixonada troca de
ideias ficou-me tão profundamente marcada como o sol na pele.
À noite, por entre queijo, vinho e melão, isolávamo-nos um pouco
dos demais e continuávamos a discutir. Sobretudo dava-nos que
pensar a apologia que Sócrates, segundo Platão, terá proferido por
ocasião da sua condenação à morte, por corrupção da juventude.
A mim tirou-me – por algum tempo – o medo da morte, um
tema que me inquietava profundamente; Jürgen não estava tão
convencido.
13
Introdução
O rosto de Jürgen apagou-se da minha memória. Não mais o
voltei a encontrar e hoje, se o visse na rua, seguramente não o reconheceria. E a praia de Agia Ana, à qual também não regressei,
é segundo uma fonte segura um paraíso turístico com hotéis,
vedações, chapéus-de-sol e cadeiras de praia para alugar. Pelo
contrário, passagens inteiras da Apologia de Sócrates permaneceram na minha cabeça e acompanhar-me-ão certamente até ao
lar de idosos; veremos se ainda terão o poder de me sossegar.
Não mais perdi o interesse apaixonado pela filosofia. Perdura
desde os dias de Agia Ana. Após regressar de Naxos, prestei um
serviço civil pouco agradável. Era uma época bastante moral;
a dupla resolução da Nato e o movimento pacifista agitavam os
espíritos, ao que haveria a juntar planos aventureiros dos Estados
Unidos para uma guerra atómica limitada na Europa, coisa que
hoje nem sequer podemos imaginar sem abanar a cabeça. O meu
serviço civil como auxiliar numa comunidade religiosa não dava
claramente azo a pensamentos ousados; depois de ter visto a
Igreja protestante por dentro, passei a gostar do catolicismo.
O que ficou foi a busca da forma correcta de vida e de respostas
convincentes para as questões fundamentais da existência.
Decidi estudar filosofia.
O curso em Colónia, porém, começou com uma desilusão.
Até então tinha imaginado os filósofos como personalidades interessantes que viviam de modo tão empolgante e consequente
quanto pensavam. Pessoas fascinantes como Theodor W. Adorno,
Ernst Bloch ou Jean-Paul Sartre. Mas a visão da unidade de pensamentos ousados com uma vida ousada dissipou-se imediatamente à vista dos meus futuros professores: homens com uma
certa idade e aborrecidos, vestindo fatos castanhos ou azuis à
condutor de autocarro. Pensei no poeta Robert Musil, o qual se
havia admirado que os modernos e avançados engenheiros do
início do século, que conquistaram o mundo por terra, por mar
e pelo ar, usassem simultaneamente barbas, casacos e relógios
de bolso tão antiquados. De igual forma, parecia-me que os filó-
14
Introdução
sofos de Colónia não aplicavam a sua liberdade espiritual interior
às suas próprias vidas. Um deles, pelo menos, acabou mesmo
por me ensinar a pensar. Ensinou-me a perguntar pelo porquê
e a não me contentar com respostas simplistas. E inculcou-me
que os meus raciocínios e as minhas argumentações deveriam
ser isentos de lacunas, de maneira que cada passo se apoiasse
tão exactamente quanto possível no anterior.
Os anos de estudante foram fantásticos. Na minha lembrança,
eles misturaram-se numa série única formada por leituras empolgantes, cozinhados não planeados, conversas à mesa a acompanhar pratos de massas, vinho tinto de má qualidade, discussões
acesas nos seminários, e infindáveis conversas à mesa do café na
cantina, inclusive amostras das nossas leituras filosóficas: sobre
conhecimento e erro, a forma correcta de vida, sobre futebol e,
é claro, sobre o porquê de homens e mulheres não serem compatíveis – como diz Loriot. O que é belo na filosofia é ela não
ser uma disciplina que se possa estudar até ao fim. Na realidade,
ela nem sequer é uma disciplina. Teria feito sentido, por isso,
permanecer na universidade. Mas a vida que os meus professores
levavam parecia-me, como disse, terrivelmente monótona. Para
além disso, afligia-me o quanto a filosofia académica era ineficaz. Os artigos e os livros eram lidos apenas pelos colegas, e isto,
na maior parte das vezes, com o único propósito de deles se demarcarem. Os simpósios e congressos em que participei enquanto
doutorando também me desiludiram totalmente acerca da vontade que os seus participantes tinham de se entenderem.
Só as perguntas e os livros continuaram a acompanhar-me ao
longo da vida. Há um ano dei-me conta de que existem poucas
obras de introdução à filosofia satisfatórias. Naturalmente existem muitos livros mais ou menos divertidos que tratam de curiosidades e questões bicudas do pensamento, mas não são esses que
tenho em mente. Também não são os livros inteligentes e úteis,
que descrevem a vida e as ideias de determinados filósofos ou
proporcionam uma introdução às respectivas obras. Aquilo de
15
Introdução
que sinto a falta é o interesse sistemático pelas questões fundamentais e mais abrangentes. O que pretende ser uma introdução
sistemática apresenta as mais das vezes uma série de correntes
do pensamento e de ismos, frequentemente com um interesse
demasiado histórico, de dimensões desproporcionadas e com
uma escrita demasiado seca.
A causa de tal indigesta leitura é simples: as universidades
não incentivam necessariamente o estilo próprio. No ensino
universitário continua ainda quase sempre a dar-se mais importância a uma exposição exacta do que à criatividade intelectual
dos estudantes. Especialmente perturbantes na ideia da filosofia
como «disciplina» são as suas delimitações totalmente contranatura. Enquanto os meus professores explicavam a consciência
humana por meio das teorias de Kant e Hegel, os seus colegas
da faculdade de medicina, distante escassos 800 m, faziam as experiências mais conclusivas com pacientes portadores de lesões
cerebrais. Numa universidade, 800 m representam um espaço
muito grande. Pois os professores viviam em dois planetas completamente diferentes e não conheciam sequer os nomes dos
seus colegas.
Como é que os conhecimentos filosóficos, psicológicos e neurobiológicos sobre a consciência se relacionam mutuamente?
Colidem uns com os outros ou completam-se? Existe um «eu»?
O que são sentimentos? O que é a memória? As questões mais
fascinantes não figuravam sequer no curriculum académico da
filosofia e, segundo me parece, até hoje pouca coisa mudou quanto
a isso.
A filosofia não é uma ciência histórica. Evidentemente, é um
dever preservar a herança do passado e visitar constantemente
os antigos edifícios no domínio da vida do espírito, renovando-os
até, se for caso disso. Contudo, no meio académico a filosofia tradicionalista continua ainda a dominar excessivamente sobre a que
tem os olhos postos no presente. De mais a mais, haveria que considerar que a filosofia não está assim tão seguramente erigida
16
Introdução
sobre o firme fundamento do seu passado como alguns pensam.
A história da filosofia é em grande medida também uma história de modas e de correntes comprometidas com o espírito do
tempo, de saber esquecido ou recalcado, e de numerosos recomeços que apenas pareceram tão inovadores, porque muito do
que fora pensado anteriormente havia sido desprezado. Ora a
vida raramente constrói algo cujo material não vá buscar a outro
lado. A maior parte dos filósofos erigiu os seus edifícios conceptuais sobre os destroços dos seus antecessores, embora não,
como muitas vezes pensavam, sobre as ruínas da inteira história
da filosofia. Mas não só muitas ideias e perspectivas inteligentes
se perderam constantemente, como muito de estranho e alheio
à realidade foi sendo repensado e reavivado. E esta ambivalência entre inteligência e ressentimento revela-se igualmente nos
próprios filósofos. O escocês David Hume, no século XVIII, por
exemplo, foi em diversos aspectos um pensador incrivelmente
moderno. Mas a sua visão acerca de outros povos, sobretudo dos
africanos, era chauvinista e racista. Friedrich Nietzsche, no século XIX, foi um dos críticos mais perspicazes da filosofia, mas
os seus próprios ideais do Homem eram de mau gosto, pretensiosos e ridículos.
Do mesmo modo, a influência de um pensador não depende
necessariamente do facto de as suas ideias serem realmente correctas. O mesmo Nietzsche teve uma influência tremenda na
filosofia, embora a maior parte do que ele havia dito não fosse
tão novo e original como parecia. Sigmund Freud foi merecidamente um homem importante, um dos maiores criadores de
ideias de todos os tempos. Que na psicanálise, vista em detalhe,
houvesse muito de incorrecto, é uma coisa distinta. E também a
enorme influência filosófica e política de Georg Wilhelm Friedrich
Hegel se encontra num interessante desacordo com as numerosas imprecisões da sua especulação.
Quando se olha para a história da filosofia ocidental no seu
conjunto, salta à vista que a maior parte das escaramuças se re-
17
Introdução
gista ao longo de umas poucas e bem definidas frentes de amizade e inimizade: a contenda entre materialistas e idealistas (ou,
segundo a terminologia mais comum em inglês: empiristas e
racionalistas). Na realidade estas formas de pensar surgem em
todas as combinações imagináveis e em roupagens sempre novas,
mas repetem-se. O materialismo, quer dizer, a crença que nada
há fora da natureza experienciável, nenhum Deus e nenhuma
espécie de ideais, tornou-se moda pela primeira vez no século XVIII
com o Iluminismo francês. Uma segunda vez, surge-nos largamente espalhado como reacção aos sucessos da biologia e à
teoria da evolução de Darwin na segunda metade do século XIX.
E actualmente celebra o seu terceiro grande período, ligado às
descobertas da moderna neurociência. De permeio, porém, houve
fases nas quais dominou o idealismo em todas as variantes possíveis. Ao contrário do materialismo, o idealismo confia muito
pouco no conhecimento do mundo sensível e apela ao poder
iminentemente autónomo da razão e respectivas ideias. Naturalmente, por detrás destes dois rótulos da história da filosofia escondem-se ocasionalmente, entre os filósofos em causa, motivos
e modelos de significação bem diversos. Um idealista como Platão
não pensava, de todo, o mesmo que o idealista Immanuel Kant.
E, por isso, não é efectivamente possível escrever uma história
da filosofia «honesta»: nem como uma continuidade lógica na
sucessão temporal dos grandes filósofos nem como história das
correntes filosóficas. Seria inevitável omitir muitas coisas que,
no entanto, são as que dão verosimilhança e forma à realidade.
A presente introdução às questões filosóficas da existência e
da humanidade não segue um critério histórico. Não é uma história da filosofia. Immanuel Kant dividiu as grandes questões
da humanidade nas perguntas: «O que posso saber? O que devo
fazer? O que me é permitido esperar? O que é o homem?» Elas
também proporcionam um belo fio condutor para a organização
deste livro, sendo que a última pergunta parece bastante bem
explicada através das primeiras três, de maneira que creio poder
de boa consciência deixá-la aqui de parte.
18
Introdução
A questão acerca daquilo que podemos saber de nós mesmos,
ou seja, a questão clássica da teoria do conhecimento, é hoje
só muito parcialmente uma questão filosófica. Ela é sobretudo
um tema da neurociência, a qual nos explica os fundamentos
do nosso aparelho cognitivo, bem como as suas possibilidades.
Aqui, a filosofia assume antes o papel de uma conselheira que
ajuda num ou noutro caso a neurociência a compreender-se melhor a si própria. O que ela, contudo, tinha de frutuoso para contribuir em favor destas questões fundamentais, vou mostrá-lo,
com base numa escolha muito pessoal, através da experiência
de uma geração que foi marcada por uma tremenda renovação
e que preparou a modernidade de forma decisiva. O físico Ernst
Mach nasceu em 1838, o filósofo Friedrich Nietzsche em 1844,
o neurocientista Santiago Ramón y Cajal em 1852 e o psicanalista Sigmund Freud em 1856. Apenas 16 anos separam estes
precursores do pensamento moderno, cuja influência dificilmente pode ser exagerada.
A segunda parte do livro ocupa-se da pergunta «O que devo
fazer?», portanto, da ética e da moral. Trata-se também aí primeiramente de esclarecer os fundamentos. Porque é que os seres
humanos estão de todo em condições de agir moralmente? Em
que medida ser bom ou mau corresponde à natureza humana?
Também aqui a filosofia não se acha mais sozinha perante o púlpito vazio. A neurociência, a psicologia e a etologia têm entretanto uma importante palavra a dizer, e devem efectivamente
fazê-lo. Depois, uma vez descrito o homem como animal capaz
de agir de modo moral, o que inclui os estímulos compensatórios ao nível do cérebro, as ciências naturais passam a segundo
plano. É que as numerosas questões práticas que hoje preocupam a nossa sociedade esperam, de facto, uma resposta filosófica. No tocante ao aborto e à eutanásia, à genética e à medicina
reprodutiva, ao ambiente e à ética animal: em toda a parte se
discutem normas e ponderações, argumentos plausíveis ou menos
plausíveis – o terreno ideal para discussões e ponderações filosóficas.
19
Introdução
Na terceira parte, «O que me é permitido esperar?», trata-se
algumas questões centrais que preocupam a maioria das pessoas
ao longo da sua vida. Questões como a da felicidade, da liberdade, o amor, Deus e o sentido da vida. Questões que não são
fáceis de responder, mas que são tão importantes para nós que
vale absolutamente a pena reflectir atentamente sobre elas.
As teorias e ideias que neste livro frequentemente são postas
em relação com bastante ligeireza encontram-se por vezes, na
prática das ciências, em dossiers bem diferentes e em prateleiras
bem distantes umas das outras. Creio, no entanto, que faz sentido relacioná-las desta maneira, ainda que em pormenor isso
levante por vezes muitos problemas intrincados que valeria a
pena discutir. Para além disso, encontram-se relacionadas no
âmbito de uma pequena volta ao mundo através dos lugares-chave. De Ulm, onde numa câmara rústica Descartes fundou a
filosofia moderna, até Königsberg, onde viveu Immanuel Kant,
até Vanuatu, onde se diz que vivem os mais felizes dos homens,
etc. Neste particular, eu próprio tive a oportunidade de conhecer alguns dos actores apresentados no livro, os neurocientistas
Eric Kandel, Robert White e Benjamin Libet, bem como os filósofos John Rawls e Peter Singer. A uns, foi-me dado escutá-los
e com os outros pude discutir e aprender muitas coisas. Creio
ter compreendido que as vantagens de uma ou outra teoria não
se revelam necessariamente numa comparação abstracta das
teorias, mas sim através dos frutos que podemos colher delas.
Fazer perguntas é uma capacidade que nunca deveríamos
perder. Pois aprender e desfrutar são o segredo de uma vida realizada. Aprender sem desfrutar amargura, desfrutar sem aprender estupidifica. Se este livro conseguisse despertar no leitor o
prazer de pensar e treiná-lo nesse prazer, a sua meta estaria alcançada. Que melhor sucesso pode haver do que uma vida mais
consciente, alcançada através de um crescente autoconhecimento,
do que, portanto, tornar-se encenador dos seus próprios impulsos vitais, ou, como Friedrich Nietzsche (para si próprio, em vão)
20
Introdução
esperava, «poeta» da sua própria vida: «É uma boa capacidade
poder ver o próprio estado com um olho artístico, mesmo no
sofrimento e na dor que nos atingem, no desconforto e em aflições do género.»
A propósito de poeta… Esta introdução não estaria completa
sem uma palavra sobre o título do livro. Trata-se das palavras de
um grande filósofo, mais exactamente, do meu amigo, o escritor
Guy Helminger. Costumávamos (e costumamos) sair juntos.
Uma noite em que tínhamos bebido demasiado, estava já preocupado com ele – apesar de ele, seguramente, aguentar mais do
que eu. Quando ele se achava no meio da estrada a proferir um
discurso, perguntei-lhe se estava bem. «Quem sou eu e, se sou,
quantos?», respondeu ele de olhos bem abertos, entre bruscos
movimentos de cabeça e com voz rouca. Foi assim que eu soube
que ele estava ainda em condições de oferecer um espectáculo
teatral bastante razoável e que estava suficientemente bem para
encontrar o caminho de casa. Na mente, porém, ficou-me a sua
pergunta, como se fora um lema colocado ante a filosofia e a
neurociência em tempos de dúvidas fundamentais sobre o «eu»
e a continuidade da vida. A poucos devo tanto como a Guy – decerto, não somente esta frase, mas muito particularmente o facto
de ter através dele conhecido a minha mulher, sem a qual a minha
vida não seria a vida feliz que é.
Ville de Luxembourg
Richard David Precht, em Março de 2007
21
SILS MARIA
Animais inteligentes no universo
O que é a verdade?
«Num qualquer canto remoto do universo, espalhado no brilho de um sem-número de sistemas solares, existiu uma vez um
astro no qual animais inteligentes inventaram o conhecimento.
Foi o minuto mais arrogante e hipócrita da “história universal”:
mas foi realmente apenas um minuto. Após uns poucos suspiros
da natureza, o astro gelou e os animais inteligentes inexoravelmente morreram. – Assim poderia alguém inventar uma fábula,
e não teria ainda ilustrado suficientemente quão miserável, sombrio e efémero, quão inútil e arbitrário é o intelecto humano
no seio da natureza; houve eternidades em que ele não existiu;
quando ele tiver novamente passado, nada terá ocorrido. Pois
para aquele intelecto não há qualquer missão que exceda a vida
humana. Pois humano é o que ele é, e só o seu possuidor e produtor o toma tão pateticamente como se os gonzos do mundo
girassem à sua volta. Se pudéssemos, porém, entender a mosca,
ouviríamos que também ela esvoaça com este pathos através do
ar e sente ser ela o centro alado deste mundo.»
O homem é um animal inteligente que, ao mesmo tempo,
exagera completamente o seu valor. Pois o seu entendimento
não foi feito para a grande verdade, mas sim para as pequenas
coisas da vida. Poucos textos ao longo da história da filosofia lograram desta forma, tão poética quanto impiedosa, colocar o
homem diante da sua própria verdade. Este que é talvez o mais
belo começo de um livro filosófico foi escrito no ano de 1873
25
Quem sou eu e, se sou, quantos?
sob o título: Acerca da Verdade e da Mentira em Sentido Extramoral.
E o seu autor era um jovem professor de Filologia Clássica na
Universidade de Basileia, de apenas 29 anos.
Mas Friedrich Nietzsche não publicou o seu texto sobre os
animais inteligentes e arrogantes. Havia bem pouco, tinha sido
bastante maltratado, por ter escrito um livro sobre os fundamentos da cultura grega. Os seus críticos desmascararam a obra
como não-científica e especulação destituída de sentido, o que
em grande medida ela realmente é. Falou-se de um menino-prodígio fracassado, e a sua fama como filólogo clássico ficou
arruinada.
E tudo tinha começado tão bem. O pequeno Fritz, que nascera em Röcken, uma aldeia da Saxónia, no ano de 1844 e crescera em Naumburg, nas margens do rio Saale, era tido como um
estudante bastante dotado e com enorme facilidade de aprendizagem. O seu pai era um pastor luterano e a mãe era igualmente bastante religiosa. Quando o menino tinha quatro anos,
morre o pai e, pouco tempo depois, o irmão mais novo. A família
vai viver para Naumburg, onde Fritz cresce num lar inteiramente
feminino. Na escola primária e, posteriormente, no liceu, o seu
talento chama a atenção. Nietzsche frequenta o bem cotado colégio Schulpforta e em 1864 matricula-se em Filologia Clássica
na Universidade de Bona. O curso de Teologia, começado simultaneamente, é abandonado logo ao cabo do primeiro semestre.
Bem teria gostado de fazer a vontade à mãe, tornando-se um bom
padre – simplesmente falta-lhe a fé. O «pequeno pastor», tal como
o piedoso filho do padre era outrora chamado por troça em
Naumburg, havia perdido a fé. A mãe, a casa paroquial e a fé são
uma prisão da qual se liberta, mas este câmbio vai persegui-lo a
vida inteira. Após um ano, Nietzsche muda-se juntamente com
o seu professor para Leipzig. O seu mentor aprecia-o de tal forma,
que o recomenda à Universidade de Basileia como professor. Em
1869 este jovem de 25 anos torna-se professor extraordinário.
As provas que lhe faltam, doutoramento e habilitação, são-lhe
26
O que posso saber?
atribuídas sem mais pela universidade. Na Suíça, Nietzsche trava
conhecimento com os intelectuais e os artistas do tempo, entre
eles Richard Wagner e a sua mulher Cosima, com os quais se
havia já cruzado em Leipzig. O entusiasmo de Nietzsche por
Wagner é tal, que em 1872 se deixa arrastar pelo estilo patético
deste para o seu não menos patético fracasso A Origem da Tragédia
a partir do Espírito da Música.
O livro de Nietzsche foi rapidamente posto de parte. A dicotomia do pretensamente «dionisíaco» da música e o pretensamente «apolíneo» das artes plásticas era conhecida já desde o
primeiro romantismo e trata-se, à luz da verdade histórica, de
uma especulação desenfreada. Além disso, os intelectuais europeus estavam preocupados com uma tragédia bem mais importante. Um ano antes, o teólogo e renomado botânico inglês
Charles Darwin publicara o seu livro A Origem do Homem a partir
de observações do reino animal. Embora a ideia de que o homem
se pudesse ter desenvolvido a partir de formas anteriores mais
primitivas já pairasse no ar há pelo menos 12 anos – o próprio
Darwin anunciou no seu livro A Origem das Espécies que este projectaria também sobre o homem uma luz reveladora –, o livro
foi um estrondo. Na década de 1860 numerosos investigadores
tinham tirado a mesma conclusão e colocado o homem no reino
animal, próximo do gorila, que acabara de ser descoberto. A Igreja,
sobretudo na Alemanha, combateu Darwin e os seus adeptos
até à Primeira Guerra Mundial. Contudo, desde o início era evidente que um regresso voluntário à anterior visão do mundo
não mais seria possível. Deus, enquanto criador e guia pessoal
do homem, estava morto. E as ciências da natureza celebravam
a sua marcha vitoriosa com uma imagem nova e muito sóbria do
homem. O interesse pelos macacos tornou-se maior do que o
interesse por Deus. E a verdade sublime do homem como uma
criatura análoga a Deus desfez-se em duas partes: o sublime,
entretanto destituído de credibilidade, e o homem na sua pura
verdade de animal inteligente.
27
Quem sou eu e, se sou, quantos?
O entusiasmo de Nietzsche por esta nova visão do mundo é
grande. «Tudo o que precisamos», escreve ele mais tarde, «é de
uma química das ideias e sensações morais, religiosas, estéticas,
bem como de todas aquelas emoções que experimentamos
no grande como no pequeno trânsito cultural da sociedade,
e, sim, também em nós, na solidão.» Precisamente em vista daquela «química» trabalham numerosos cientistas e filósofos no
último terço do século XIX: uma teoria biológica da existência
sem Deus. Mas o próprio Nietzsche não participa minimamente
nisso. A questão que o preocupa é bem diversa: Que significado
tem a visão sóbria da ciência para a compreensão que o homem
tem de si mesmo? Engrandece ela o homem ou torna-o mais pequeno? Perdeu ele tudo ou ganhou alguma coisa devido ao facto
de agora se ver a si mesmo de forma mais clara? Foi nesta situação que escreveu o opúsculo Acerca da Verdade e da Mentira, talvez
o mais belo dos seus textos.
À pergunta sobre se o homem tinha ficado engrandecido ou
diminuído respondia Nietzsche de acordo com o seu presente
estado de espírito e de humor. Quando não estava bem – e frequentemente não estava bem –, encontrava-se deprimido e destroçado, pelo que pregava um evangelho da imundície. Se, pelo
contrário, se encontrava bem-disposto, arrebatava-o um pathos
orgulhoso que o fazia sonhar com o super-homem. As suas fantasias vertiginosas e a flamejante autoconfiança dos seus livros
achavam-se, não obstante, em arrepiante contraste com a sua
figura: um homem pequeno, gordito e efeminado. Um bigode
teimoso, uma autêntica escova, deveria compor o seu rosto efeminado e torná-lo mais masculino, mas as muitas doenças, logo
desde os seus dias de criança, faziam-no parecer e sentir-se fraco.
Era bastante míope, sofria de problemas de estômago e fortes
ataques de enxaquecas. Com apenas 35 anos, sentia-se já um
farrapo e pôs fim à sua docência em Basileia. Uma infecção supostamente provocada pela sífilis encarregou-se, segundo parece,
do resto. No Verão de 1881, dois anos após se ter despedido da
28
O que posso saber?
universidade, Nietzsche descobriu, por completo acaso, o seu
paraíso muito pessoal: um pequeno lugar chamado Sils Maria
na região suíça de Oberengadin. Uma paisagem fantástica que
imediatamente o entusiasmou e inspirou. Nos anos seguintes,
voltou lá repetidas vezes, fez caminhadas longas e solitárias,
e forjou novos pensamentos patéticos. Muitos deles passou para
o papel no Inverno em Rapallo e, na costa mediterrânica, em
Génova e em Nice. A maior parte revela Nietzsche como um crítico inteligente, literariamente exigente e impiedoso, que põe
o dedo nas feridas da filosofia ocidental. Quanto às suas próprias
propostas para uma nova teoria do conhecimento e uma nova
moral, pelo contrário, entusiasma-se por um darwinismo social
pouco amadurecido e refugia-se com frequência em nebulosas
tiradas de mau gosto. Quanto mais vigorosos os seus textos se
apresentam, mais clamorosamente erram o alvo. «Deus morreu»
– escreve uma e outra vez –, mas isso já os seus contemporâneos
sabem desde Darwin e outros.
Em 1887 Nietzsche contempla pela penúltima vez os cumes
cobertos de neve de Sils Maria e redescobre o tema dos animais
inteligentes do seu velho opúsculo – o problema da limitação
do conhecimento dos animais humanos. A sua obra polémica
Sobre a Genealogia da Moral começa com as palavras: «Somos desconhecidos de nós mesmos, nós os sujeitos do conhecimento,
nós mesmos para nós mesmos: Isso tem uma boa razão. Nunca nos
procurámos – como nos haveríamos de encontrar um dia?» Como
tantas outras vezes, fala de si mesmo no plural, como que de uma
espécie animal muito especial, a qual é o primeiro a descrever:
«O nosso tesouro acha-se onde estão as colmeias do nosso conhecimento. Encontramo-nos sempre a caminho, enquanto insectos
natos e recolectores do mel do espírito, só nos preocupamos realmente com uma coisa – “trazer algo para casa”.» Para tal não lhe
resta já muito tempo. Dois anos depois, Nietzsche sofre um colapso em Turim. A sua mãe vai a Itália buscar o filho, de 44 anos,
e leva-o para uma clínica em Iena. Posteriormente, Nietzsche
29
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