Anais XVI Encontro Nacional dos Geógrafos Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças - Espaço de Socialização de Coletivos – MAPA MENTAL E EXPERIÊNCIA: UM OLHAR SOBRE AS POSSIBILIDADES1 DE PAULA, Luiz Tiago Instituto de Geociências – Unicamp [email protected] INTRODUÇÃO “How do different people experience nature and the physical environment?” (SEAMON, 1980, p. 150). “How do we measure geographic preferences?” (GOULD e WHITE, 1974, p.51). Essas são duas das questões chaves que guiam as indagações de geógrafos há décadas, envolvendo uma série de questões relacionadas ao corpo formal do conhecimento que designamos como Geografia. Questões dessa natureza se inserem no germe da relação homem-espaço, envolvendo planos, projeções, imagem, imaginação, experiência, percepção e avaliação individual e coletiva do ambiente (SEEMANN, 2003; TUAN, 1975). Como processos psicológicos se combinam com elementos culturais de costumes socialmente estabelecidos? Pensar indagações como esta só se torna possível quando não perdemos de vista o papel da percepção, desempenhada pelos aparelhos fisiológicos (OLIVEIRA, 1977), pela memória – lembranças e esquecimentos (RICCUER, 2007) – e a capacidade de pensar e estruturar de maneira própria as informações dadas (cognição) (AGUIRRE, 1999). No entanto, partiremos de indagações simples para não generalizar qualquer ato comportamental. Mas nos esforçaremos a conectar diferentes abordagens disciplinares sobre um mesmo fenômeno – mapas mentais – para desvelar a potencialidade desses mapas como ferramenta metodológica para pensar as relações entre indivíduos e lugares. Um dos desafios para a Geografia Humanista é o uso de mapas que não sejam elaborados ou presos à lógica euclidiana. Os mapas mentais são talvez a matéria prima bruta de uma primeira análise daquilo que viria a ser uma ‘cartografia fenomenológica’, 1 Trabalho apresentado no Espaço de Socialização de Coletivos “Perspectivas fenomenológicas da geosofia”, durante o XVI Encontro Nacional de Geógrafos, realizado em Porto Alegre, Julho 2010. 1 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. 978-85-99907-02-3 Anais XVI Encontro Nacional dos Geógrafos Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças - Espaço de Socialização de Coletivos – a qual estaria preocupada com os sentidos e significados dos elementos de uma experiência espacial. No presente trabalho, traremos alguns conceitos (como percepção e cognição) que são discutidos sobre a aplicação desses mapas. Em seguida, trataremos de algumas questões relacionadas à questão gráfica desses mapas. Por fim discutimos quais seriam as possibilidades e intenções essenciais, em relação aos mapas mentais, que estariam sob a vista de uma perspectiva humanista da Geografia. PERCEPÇÃO E A PREFERÊNCIA SOBRE OS LUGARES Preferências sobre lugares podem ter naturezas múltiplas, nem sempre facilmente sistematizáveis. A origem dessas preferências é polissêmica, envolvendo todas as esferas da vida do indivíduo e as mediações que permeiam a sua relação com ambiente. Uma das tentativas mais conhecidas e que talvez tenha polemizado o suficiente para discutir e pensar a natureza desses fenômenos espaciais e comportamentais foi com a psicologia ambiental (spatial behavior) no início da segunda metade do século XX. Com a tentativa de reproduzir os métodos das ciências naturais, behavioristas geralmente restringiam suas investigações de maneira a observar comportamentos que poderiam ser verificados apenas em algumas formas de mensuração e resultados empíricos (SEEMANN, 2003). Essas medições eram contextualizadas em sistemas e modelos causais de estímulo-resposta, enfatizando o papel dos atributos físicos do ambiente e negligenciando os processos psicológicos, como cognição, emoção e memória (SEAMON, 1980). A envergadura que se dá a ideia de percepção (enquanto conceito científico) vem ganhando um corpo mais robusto, tanto da perspectiva teórica quanto da metodológica, ao longo do século XX. Na primeira metade deste, antes mesmo do surgimento da psicologia ambiental, Merleau-Ponty (2006) pensou em uma fenomenologia da percepção, complexificando a idéia desse conceito. Os “prejuízos clássicos”, ao que o autor se refere, estão justamente ligados às categorias científicas, que se tornam abstratas e segmentadas diante do “jogo” perceptivo. A percepção a partir de então se diferiria da sensação, a qual tem relação com os sentidos – órgãos fisiológicos capazes de receber estímulos físicos proporcionados pelo ambiente – e incorpora tanto os processos fisiológicos quanto psicológicos. 2 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. 978-85-99907-02-3 Anais XVI Encontro Nacional dos Geógrafos Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças - Espaço de Socialização de Coletivos – Essa base fenomenológica desenvolvida por Merleau-Ponty (2006) e outros autores (HURSSEL, 1986) influenciará tanto áreas específicas da Psicologia quanto de outras Ciências Humanas e Sociais. Algumas linhas críticas às teorias comportamentais (modelos estímulo-resposta) agregaram mais elementos à percepção: de uma mecânica apreensão da realidade sensível, o conceito de percepção incorporou os significados dos sentidos, que estariam conectados diretamente a experiência do mundo vivido (MERLEAU-PONTY, 2006; OLIVEIRA, 1977). Esta experiência envolveria a associação e a projeção de recordações (memória) em nossas atitudes (RICCUER, 2007), atrelado às condicionantes socioculturais que filtram nossa maneira de ver o mundo (SCHIFF, 1973). Esse esforço para compreender o fenômeno da percepção ainda é um obstáculo a ser superado por diversas áreas do conhecimento, as quais aos poucos tentam convergir para um entendimento multidisciplinar sobre o assunto. Para a Geografia, a busca de um corpo teórico-metodológico que envolvesse de forma abrangente o conceito de percepção espacial tem em primeiro plano o pressuposto de que: a maneira de como pessoas percebem o ambiente pode revelar as decisões e condutas que elas têm sobre esse meio. A percepção, portanto, geralmente é interpretada como a ‘chave’ para entender a relação que indivíduos têm com os espaços de seu cotidiano, sendo capaz de ligar todos os processos interiorizados da mente aos fatores do ambiente. Essa espécie de legitimação da percepção não deixará de gerar consequências, uma vez que entre o ‘sentir’, o ‘perceber’ e o ‘juizo’, a experiência imediata estabelece uma diferença bem clara, como atenta Merleau-Ponty (2006, p. 62-63): [...] o juízo para ela [percepção] é uma tomada de posição, ele visa conhecer algo de válido para mim mesmo em todos os momentos da minha vida e para os outros espíritos existentes ou possíveis; sentir, ao contrário, é remeter-se à aparência sem procurar possuí-la ou saber sua verdade. [...] Ora, se se vê aquilo que se julga, como distinguir a percepção verdadeira da percepção falsa? [...] (p. 62-63, grifo meu) Mas essa preocupação sobre a autenticidade da percepção como meio genuíno da avaliação do ambiente é uma discussão por vir dentro da Geografia, mesmo sendo plenamente discutida na psicologia e fenomenologia (MERLEAU-PONTY- 2006). Na década de 1970, parte da Geografia começa a receber influências da filosofia 3 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. 978-85-99907-02-3 Anais XVI Encontro Nacional dos Geógrafos Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças - Espaço de Socialização de Coletivos – fenomenológica (RELPH, 1979; ENTRIKIN, 1980; HUSSERL, 1986). David Seamon, quando investiga as preferências espaciais pessoais e tenta entender o balé-do-lugar (place-ballet), faz uma forte crítica às teorias cognitivas e behaviouristas: “a major weakness, phenomenologically, of both the cognitive and behavorist approaches is their insistence on explaining spatial behavior through an imposed a priori theory” (SEAMON, 1980, p.151). Por mais que haja esforços no sentido de romper as fronteiras disciplinares, ainda há uma postura tradicionalista que tendem a explicar as relações homem-meio com o intuito de criar modelos teóricos. Modelos normativos podem partir de observações simples e nos ajudar a pensar fenômenos de escalas coletivas, generalizando e simplificando alguns elementos, a traçar uma série de limitações impostas pela lógica científica a serem consideradas. Gould e White (1974), em Mental Maps, partem de questões simples para explicar valores e preferências espaciais manifestadas por alguns grupos nos Estados Unidos e Inglaterra. Eles fazem uma discussão sobre a percepção do espaço, a partir das escalas de observação de mapas mentais pessoais, a construir cartografias que simbolizassem preferências espaciais percebidos nos bairros (escala local) e preferências observadas nos países (escala nacional). Todas as discussões feitas por Gould e White (1974) sobre imagens mentais e o caráter subjetivo das informações obtidas foram cuidadosamente exploradas. A maior dificuldade deles foi sistematizar essas informações. Os autores criaram conceitos como population potential, em que tentam medir a acessibilidade de indivíduos, através de pontos (pessoas) e isolinhas de níveis de acessibilidade, baseados em uma equação matemática, que liga coeficientes de correlação e gráficos de mensuração. O problema, assumido por ambos, está associado ao fato de que as questões envolvidas são mais complexas do que imaginavam, a envolver outras variáveis, como as características espaço-temporais dos lugares, difíceis de ser cartografadas. Fatores que são conscientemente fáceis de ser explicados, quase óbvios, podem se tornar difíceis quando se tenta quantificá-los. Nota-se, portanto, que as questões sobre dados espaciais, cognitivos e psicológicos não têm seus problemas assentados apenas sobre a natureza subjetiva dessas informações (a mente), mas na própria forma de como eles são sistematizados. A sistematização 4 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. 978-85-99907-02-3 Anais XVI Encontro Nacional dos Geógrafos Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças - Espaço de Socialização de Coletivos – envolve o uso de métodos e enquadramento de informações em classes, categorias e subcategorias. Essa prática metódica, de influência cartesiana, deve ser utilizada com atenção, sendo o mais flexível possível a fim de não recortar grandes parcelas daquilo que entendemos como realidade. O PODER DO MAPA MENTAL A PARTIR DA EXPERIÊNCIA GEOGRÁFICA Os elementos selecionados para um mapa mental pode tomar forma e tamanho, segundo a importância simbólica e material que eles representem para o indivíduo. Essas formas estão diretamente ligadas a um conhecimento espacial interiorizado, capaz de formar uma imagem, chamados de mapas cognitivos por Aguirre (1999). Esta imagem pode ser evocada a partir da memória, da experiência individual ou de informações previamente dadas. O aumento do fluxo de informações proporcionado pelos meios técnicos de comunicação e informação (principalmente a internet e a televisão) ampliou a noção que temos sobre diferentes lugares do mundo. Essa ampliação não significou necessariamente a densidade da concepção que temos dele, pois essas informações, das quais somos submetidos todos os dias, chegam a nós de forma fragmentada e parcial. Os lugares, segundo sua paisagem, podem se misturar, até mesmo confundir-nos em relação a suas localizações e características físicas e simbólicas. Essa discussão sobre o papel dos agentes mediadores sobre a construção imagética dos lugares não é nova, ela tem a ver com o próprio poder de evocação da imagem. A imagem se processa por meio de um desencadeamento da resignificação do espaço evocado. Ela pode ser causa ou consequência da imaginação (TUAN, 1975). A imagem é algo que vimos quando o estímulo ambiental não parece justificá-lo, ela é por excelência espacial e consiste de um aparato interno que, a partir de informações específicas (visuais ou verbais), alimenta uma estrutura mental capaz de construir uma projeção visual, como se o indivíduo estivesse a olhar uma tela de pintura. Tuan (1975) a denomina como imagem eidética, a qual se divide em dois tipos: a imagem-memória e a imagem-imaginação. A primeira é arbitrária e frequentemente tem necessidade de se firmar em um contexto, que busca a aproximação máxima à realidade das lembranças individuais. Os elementos são postos justamente em função daquilo que não seria 5 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. 978-85-99907-02-3 Anais XVI Encontro Nacional dos Geógrafos Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças - Espaço de Socialização de Coletivos – imaginativo, fantasioso. A segunda expande-se naturalmente a fim de tornar as lembranças mais ou menos agradáveis. Ela não tem um compromisso selado com o real, mas se constituí a partir dos anseios e desejos individuais e coletivos. A respeito de todo esse ‘jogo’ perceptivo, podemos distinguir, a priori, duas áreas que têm interessado os estudos cognitivos sobre avaliação ambiental e mapas mentais. Uma diz respeito às áreas do conhecimento relacionadas às ciências cognitivas, preocupadas em desvendar os mistérios ocultos de nossa mente. Essa corrente centraliza o foco de suas reflexões sobre a existência de uma estrutura hierárquica, onde estão presentes diversos níveis de apreensão perceptivo-fisiológica, em que a região cerebral do hipocampo é o topo da cadeia receptadora dos estímulos ambientais, estando fortemente vinculada aos processos de memória e de subsistemas visuais, localizacional e de reconhecimento (KAPLAN e KAPLAN apud SOUZA, 1996). A outra, que se aproxima mais do arcabouço teórico-epistemológico do pensamento geográfico, diz respeito aos elementos próprios do ambiente, como forma, dimensão, escala e experiência. Não se trata de uma abordagem gestaltiana, que priorize a forma do objeto sobre os processos psicogenéticos (PIAGET apud MACHADO e OLIVEIRA, 1980), porém de um interesse que condiga com a própria experiência geográfica do indivíduo, seu modo de vida, suas práticas e relações socioculturais com as pessoas e os lugares. Sobre essa última perspectiva, o primeiro autor a dar atenção necessária à representação mental do ambiente foi Kevin Lynch, na década de 1960, com seu clássico estudo sobre a imagem das cidades. Ele conseguiu aglutinar as conjeturas que se referem à dimensão espacial das cidades – forma e escala – aos elementos estruturadores da experiência e percepção individual daqueles que as vivem (LYNCH, 1982). Suas intenções eram explicitamente vincular suas abordagens metodológicas às praticas de projeto e de planejamento urbano. Ou seja, o autor mostraria como a imagem que pessoas fazem de sua cidade poderia ajudar esta se tornar um espaço menos estressante e de vivências coletivas mais harmoniosas. Mas o que Lynch (1982) indiretamente revelaria é a relação que se constrói entre a escala da dimensão vivida e a escala espacial (material e concreta da forma) da cidade. Em outras palavras, apontaria que, apesar de todas as fontes de informações secundárias que dispomos, nós não conhecemos os espaços que não são experiencialmente vividos. 6 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. 978-85-99907-02-3 Anais XVI Encontro Nacional dos Geógrafos Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças - Espaço de Socialização de Coletivos – Isto é, em uma reinterpretação de seus estudos: por mais acuidade que os sistemas tecnológicos e informacionais tenham, o homem precisa de seus órgãos dos sentidos, necessita movimentar-se, deslocar-se, coordenar e associar as imagens e construir mentalmente representações ligadas aos itinerários percorridos diariamente (CUENIN apud OLIVEIRA, 2006). Nesse sentido, há uma tendência em entender que mapas mentais se tornam mais densos e ricos quando os aproximamos dos espaços de intimidade da pessoa. Os lugares de vivência possuem elementos, resguardados pela experiência e memória, suficientemente claros para classificar uma variabilidade de termos relacionados ao ambiente em questão. Pinheiro (2006) estudou a relação entre mapas cognitivos de mundo e o tempo da experiência. Sua pesquisa mostra como jovens realmente tem dificuldade para representar os continentes do globo terrestre, e que suas representações estão fortemente atreladas à projeção cartográfica de Mercator, instruídas pelas instituições pedagógicas. O autor argumenta que a maneira como representamos os ambientes depende, em grande parte, de como os experienciamos. Da perspectiva da experiência, ambientes pequenos, como a casa ou o bairro, são diferentes de ambientes grandes, como a cidade, a região ou o país. À medida que a extensão territorial se expande, cresce também o papel exercido pelas fontes secundárias de informação. O geógrafo Armand Frémont discutiu a relação entre a experiência geográfica dos fenômenos e as diferentes escalas do espaço vivido (Figura 1). Figura 1: As conchas do Homem (segundo Moles e Rohmer) – Fonte: Frémont (1980) 7 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. 978-85-99907-02-3 Anais XVI Encontro Nacional dos Geógrafos Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças - Espaço de Socialização de Coletivos – A diferença que o autor indica não contrapõe a experiência imediata às informações secundárias sobre os lugares. Mas pensa a relação homem-espaço, segundo uma abordagem espaço-temporal da experiência. Ele trabalha com as conchas psicológicas de Moles e Romer para explicar a relação entre as escalas das distâncias e proximidades do espaço vivido – o corpo e o gesto imediato, a divisão interna do apartamento, a casa, o bairro, o centro da cidade, a região e o vasto mundo – aos ritmos temporais a que se referem essas experiências geográficas – o cotidiano, o semanal, o mensal e o excepcional (Figura 1). Não se sabe até que ponto as informações de segunda ordem interferem nas relações, ações e avaliações individuais e coletivas sobre o ambiente. Mas entendemos que a utilização de mapas mentais ganha força, na medida em que balizamos seus propósitos à escala da experiência de um espaço construído no dia-a-dia. A suas formas de atribuição estão mais atreladas a uma inferência qualitativa de análise, que demande detalhe, tempo e amadurecimento das informações vindas da experiência geográfica pessoal. A QUESTÃO SOBRE A DESCRIÇÃO GRÁFICA DOS MAPAS METAIS O grande debate sobre mapas mentais diz respeito a uma busca rígida do conceito ou definição desses mapas e quais seriam seus objetivos para fins analíticos. Alguns teóricos têm discutido a forma de elaboração e a sua dimensão gráfica (OLIVEIRA, 2006). A grafia bidimensional no plano – o “olhar de cima” – permite organizar os elementos, segundo os pontos cardeais, e traçar relações topológicas (Figura 2). É como projetar a própria vista de um ponto mais alto (de um avião, p.e.) e orientar as vias e os pontos de maior importância para aquilo que se quer representar. Esse tipo de representação é normalmente utilizado para elaboração de croquis e diagramas esquemáticos, permitindo estruturar as imagens em um plano. Mas, será que imagens representadas a partir de uma perspectiva oblíqua da paisagem, com profundidade e altura, poderiam ser chamadas de mapas também? O desenho de uma casa no campo, ou de ruas e prédios? (Figura 3) 8 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. 978-85-99907-02-3 Anais XVI Encontro Nacional dos Geógrafos Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças - Espaço de Socialização de Coletivos – Figura 2: Mapa mental bidimensional Figura 3: Mapa mental oblíquo Ambas as representações possuem suas vantagens e desvantagens. Um mapa mental bidimensional é orientador, pois enquadra o indivíduo em um sistema de direções (direita, esquerda, frente e atrás), porém perde espaço para a possibilidade de se desenvolver imagens relacionadas, como por exemplo, à topografia. A representação oblíqua, a partir de um skyline, apesar de diminuir a clareza de relações espaciais euclidianas entre direções e distâncias, permite que o indivíduo desenhe os elementos conforme seu tamanho e forma, pois é dessa perspectiva que geralmente vemos o mundo. Não há nenhuma restrição quanto à forma de representação, cabe a cada metodologia e objeto de investigação traçarem as maneiras próprias e mais ideal à utilização das informações do mapa. Parece que os problemas quanto aos mapas mentais se concentram, em parte, no momento posterior à aquisição do material – a análise dos dados. O MAPA MENTAL E A ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA Grande número de pesquisas que vem sendo realizado nas áreas de urbanismo, geografia e psicologia ambiental, tem girado em torno da metodologia de sketch maps (SOUZA, 1996). Nesta técnica, pede-se aos indivíduos entrevistados para que façam rápidas representações gráficas do ambiente, a partir de sua memória espacial sobre o lugar de estudo. Sketch maps passou a ser utilizada principalmente a partir da obra de Lynch (1982), do início da década de 1960. Apesar de apresentar inúmeros avanços sobre os métodos desse aspecto, seu trabalho foi alvo de duras críticas. Essas eram baseadas sobre o 9 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. 978-85-99907-02-3 Anais XVI Encontro Nacional dos Geógrafos Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças - Espaço de Socialização de Coletivos – caráter estático dessas representações, que reduziriam os mapas mentais a retratos momentâneos da imagem mental do indivíduo (SOUZA, 1996).2 No Brasil, uma série de trabalhos, principalmente na década de 1990, tem se utilizado de mapas mentais de maneira ‘retaliada’. Há uma excessiva análise comparativa dos aspectos gráficos, classificando os mapas mentais de indivíduos em ricos ou pobres através do número ou qualidade de elementos representados na folha. A sensibilidade que devemos ter, enquanto pesquisadores, é que existem, como Tuan (1975) ressalta, pessoas com habilidades visuais (gráficas) e outras com habilidades verbais (texto ou discurso). Até mesmo entre as áreas do conhecimento, podemos distinguir essas pessoas entre arquitetos, literários, geógrafos, biólogos e engenheiros. O fato de não conseguir representar graficamente o ambiente onde vive, em um papel, não significa necessariamente que o indivíduo não estabeleça relações de envolvimento com esse espaço. As análises de um mapa mental nunca deve se prender apenas à sua dimensão gráfica, mas devem ser acompanhadas dos discursos, gestos corporais e impressões verbais que o indivíduo faz do ambiente. Nesse sentido, a abordagem fenomenológica pode contribuir para uma perspectiva que envolva essas duas formas de experiência de um espaço representado – a gráfica (ou seja, mapa mental material) e a fala, gestos, esquecimentos, que também se compõem como elementos essenciais desse mapa mental. Entendemos que as técnicas de sketch maps devem ser aplicadas, sempre que possível, junto a outras metodologias de inferência – como trajetória biográfica, história oral, memória coletiva, entre outras – no sentido de abarcar todos os elementos sutilmente possíveis de serem capitados durante a conversa, para enriquecer aquilo que não conseguiu transpor a barreira do imaterial (mental) para o material (gráfico). REFERÊNCIAS 2 Lynch (1982), na verdade, estava interessado na construção imagética da cidade, enquanto um conjunto de formas e marcos referenciais. Seu estudo era pontual e visava a imagem da cidade coletiva da cidade, para utilização em projetos e planejamentos urbanos. Por isso em suas notas metodológicas, nesta mesma obra, discute o problema do espaço amostral das entrevistas, para as análises comparativas das imagens individuais. 10 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. 978-85-99907-02-3 Anais XVI Encontro Nacional dos Geógrafos Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças - Espaço de Socialização de Coletivos – AGUIRRE, Constancio de Castro. Mapas cognitivos. Que son y cómo explorarlos. Scripta Nova: Barcelona, n. 33, fev. 1999. (Acessado em: 10/12/2009. Disponível em: http://www.ub.es/geocrit/sn-33.htm) ENTRIKIN, J. Nicholas. O humanismo contemporâneo em Geografia. Boletim de Geografia Teorética, Rio Claro, v. 10, n. 19, p. 5-30, 1980. FRÉMONT, Armand. A região, espaço vivido. (tradução: António Gonçalves) Coimbra: Almedina, 1980. 275 p. GOULD, Peter; WHITE, Rodney. Mental Maps. Middlesex: Penguim Books, 1974. 203 p. HUSSERL, Edmund. A ideia da fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 1986[1913]. 133p. 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