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Ricardo TAVARES, O misterioso Agnus Dei judaico-cristão de Carção
Revista Almocreve 2015, 46-59
A jóia do marranismo em Portugal
O misterioso Agnus Dei judaico-cristão de Carção
Na sua exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, o Papa Bento XVI
sublinha «o vínculo peculiar» existente «entre cristãos e judeus, um vínculo que
não deveria jamais ser esquecido» (43). A comunicação do Deus de Jesus Cristo
realizou-se especialmente através do povo judaico, descendente de Isaac, filho de
Abraão, daí que os judeus sejam tratados, com toda a verdade, de «irmãos
predilectos». Como afirma São Paulo, os judeus, quanto à escolha divina, são
amados por causa dos Patriarcas, pois os dons e o chamamento de Deus são
irrevogáveis (Ro 11:28s), sendo que a Igreja dos gentios não passa de uma «estaca
de oliveira brava» enxertada na «oliveira boa» do Povo Judaico (cf. Ro 11:17-24).
Dessas premissas se infere que cristãos e judeus se alimentam das «mesmas raízes
espirituais», pelo que juntos podemos fazer muito pela paz, pela justiça e por um
mundo mais fraterno e mais humano (São João Paulo II, 23.03.2000). Essa
colaboração é esperada inclusivamente no estudo das Sagradas Escrituras, e
especialmente do Antigo Testamento (VD 43).
Apesar dessa paternidade espiritual, nem sempre a Igreja de Cristo se comportou
com a dignidade de descendente na fé do Povo de Abraão. Em 1998, às portas do
terceiro milénio, o Papa João Paulo II afirmou que era justo que a Igreja assumisse
«com maior consciência o peso do pecado dos seus filhos, recordando todas
aquelas circunstâncias em que, no arco da história, eles se afastaram do espírito de
Cristo e do seu Evangelho, oferecendo ao mundo, em vez do testemunho de uma
vida inspirada nos valores da fé, o espectáculo de modos de pensar e agir que eram
verdadeiras formas de antitestemunho e de escândalo» (Tertio Millennio Adveniente
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33). A Igreja está arrependida da «condescendência manifestada, especialmente
nalguns séculos, perante métodos de intolerância ou até mesmo de violência no
serviço à verdade» por parte de tantos filhos seus, que não seguiram o
mandamento do amor, deturpando o rosto da Igreja, «impedindo-a de reflectir
plenamente a imagem do seu Senhor crucificado, testemunha insuperável de amor
paciente e de humilde mansidão» (TMA 35).
A 12.03.2000, o Dia do Perdão do Jubileu, João Paulo II afirmou solenemente: «Pela
parte que cada um de nós, com os seus comportamentos, teve nestes males,
contribuindo para deturpar o rosto da Igreja, pedimos humildemente perdão.» Em
24.11.2014, o Papa Francisco, na carta apostólica «Alegria do Evangelho», notava
que é preciso que «todos aprendam a descalçar sempre as sandálias diante da terra
sagrada do outro (cf. Ex 3:5)» (169). Esta doutrina baseia-se no respeito pela
liberdade religiosa, que «se funda realmente na própria dignidade da pessoa
humana, como a palavra revelada de Deus e a própria razão a dão a conhecer»
(Vaticano II, Dignitatis Humanæ 2) É nesse Espírito de Temor do Senhor (Is 11:2)
que vamos estudar a história e a simbologia do medalhão judaico-cristão de
Carção.
1. Carção, a nação do marranismo
Carção considera-se a capital do «marranismo», tal como insinuado no brasão de
armas da aldeia, que ostenta três elementos de origem judaica: um umbral (a
mezuzá), que também pode ser visto como uma lançadeira de ouro com enfiadura
de azul; um candelabro de sete lumes de ouro realçado de negro (a menorá); as
palas ondadas de prata e azul dos xailes de seda usados para a oração (os talitîm),
que também representam os rios Maçãs e Sabor, que correm ambos de norte para
sul, paralelamente, até se unirem entre Matela, Talhas e S. Martinho do Peso. Os
seus sefarditas (isto é, judeus ibéricos), baptizados no cristianismo e
aparentemente a ele convertidos, por medo da Inquisição, mas cuja fé continuava a
ser judaica e a conservar clandestinamente os seus costumes religiosos, eram
também denominados «marranos» (do aramaico-caldaico mar anuss), ou seja,
«homens forçados». Tradicionalmente sábios e prósperos na arte do comércio,
muitas vezes invejados pela mundivisão e inteligência prática que lhes advinha do
conhecimento bíblico, os «marranos» de Carção viveram uma dura experiência
com a instauração do Santo Ofício, entre os séculos XVII e XVIII, chegando algumas
dezenas deles a serem «relaxados em carne», queimados na real fogueira da
intolerância religiosa.
António Júlio e Andrade et Maria Fernanda Guimarães referem-se, na sua obra
Carção, a capital do marranismo (Carção 2008), a diversos costumes judaicos que
podem lançar luz sobre a origem e o significado do medalhão em estudo. A nação
hebreia de Carção, os seus cristãos-novos, frequentemente acusados como os
«homicidas de Cristo» (Mt 27:25), tinha a sua religião fundada no Deus de Israel, no
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qual alimentavam uma extrema confiança, como se depreende das seguintes
orações: «E quando me demandares, / Senhor, sei que tudo te darei.» «Tu que
ouviste a Daniel, / Ouve a minha oração.» «Ó meu Deus, governador! […] Não me
metais em juízo / Pois tendes todo o poder.» Apesar de todos os sofrimentos,
consideravam que a sua Lei era boa e exortavam a todos que a guardassem. Muito
embora baloiçassem entre o terror da Inquisição e a certeza de que o Deus do Céu
e da Terra lhes daria protecção, acreditavam que nunca lhes haveria de faltar que
comer nem que gastar, que assim lhes estava prometido; uma teologia da
prosperidade subjazia à sua fé: criam que haviam de ser ricos os que observassem
a Lei de Moisés.
Apesar de mandarem as crianças aprender a doutrina católica, ensinavam-lhes a
Lei de Moisés no início da adolescência, afirmando que no cristianismo tudo era
mentira. Esta educação prolongava-se por toda a vida; os cristãos-novos eram
continuamente industriados, doutrinados, judaizados, visto que ninguém se podia
salvar a não ser na Lei de Moisés, adorando um só Deus verdadeiro, criador do Céu
e da Terra e Senhor dos filhos de Israel. Para tal, a comunidade marrana contava
com «mestres» e «mestras», professores da Lei, formados na aldeia ou,
preferencialmente no estrangeiro, nomeadamente na multicultural cidade italiana
de Livorno, conhecida pela sua liberdade religiosa e o seu comércio mundial. Nesse
porto mediterrâneo, os cristãos-novos em viagem, sob o pretexto de irem a Roma,
podiam adquirir o «proibido» Livro da Torá, aprofundar os conhecimentos
judaicos e trazer dinheiro da solidariedade judaica internacional, além de outras
preciosas ofertas. A veneração pelo Livro manifestava-se em que ele era
embrulhado em lenço limpo, pegado com devoção e beijado, abaixando todos a
cabeça.
Apologeticamente, os cristãos-novos, normalmente em privado, mas por vezes à
plena luz do dia, refutavam pontos fulcrais da fé católica, que consideravam
«engano e pataratas». Rejeitavam Jesus como o verdadeiro Messias, o qual ainda
haveria de vir; Jesus não fora Deus nem tivera virtude ou divindade alguma, pois se
tivesse uma ou outra coisa não teria morrido condenado. Nem aceitavam que o
corpo de Nosso Senhor estava na hóstia consagrada, por ser um pouco de farinha
amassada. Consideravam gentios os cristãos-velhos, porque criam e adoravam as
imagens de Cristo, a sua cruz e os santos de cá, de paus e pedras. Não concebiam
que Nossa Senhora pudesse parir, sem varão, e ficar virgem; há relatos de
colocarem a sua imagem, a esbofetearem e vituperavam, fazendo figas, ou mesmo
de levarem mulheres casadas ou solteiras, bonitas, para cima do altar e, como que
escarnecendo do culto mariano, as adorarem como ídolo, «cantando missa».
Os homens eram circuncidados. Guardava-se era o sábado, de véspera a véspera,
pelo que nunca eram baptizados ou casados ao domingo. Não rezavam o Padre
Nosso ou a Ave Maria. Celebravam a Quinta-feira Maior com a ceia do cordeiro e a
Páscoa com os ázimos. Usavam cordéis, uns novelários por onde rezavam. Eram
muito assíduos aos jejuns, realizados de «camisas lavadas», tanto no Dia Grande
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(Kipur) como no da Rainha Ester, mas também às sextas-feiras, podendo ser por
um dia, semanal, novenário ou na forma de trintário, pelos defuntos ou para o Deus
de Israel os livrar do Santo Ofício; neste contexto, comiam caldo de grãos, sem
carne, dando a esmola correspondente aos pobres e às viúvas.
Os seus ritos funerários consistiam em amortalhar os seus defuntos, metendo-lhes
na boca um grão de aljôfar, ouro e prata ou coral fino; durante nove dias deitava-se
com o defunto a pessoa que lhe era mais próxima; era levado para a sepultura
escrupulosamente aprontado, inclusivamente com uma cadeia de ouro, indo as
defuntas como se fossem noivas. As chamadas «missas judaicas» ou «missas secas»
(e até «missas novas», dos recém-formados líderes), presididas por um mestre ou
uma mestra, com elementos semelhantes aos das missas católicas (em virtude da
origem judaica destas), consistiam em celebrações pascais familiares, ou em
cerimónias de estudo bíblico à semelhança do que acontecia nas sinagogas; «faziase sinagoga», ritos e cerimónias, com o Livro Sagrado, normalmente à volta de uma
«mesa com velas», tanto na Ermida de Santo Estêvão, capela provavelmente
projectada por cristãos-novos (assim como a sua irmandade), como numa oficina
local, em habitações familiares ou mesmo nas casas dos padres. Estes, que por
vezes pareciam desatentos do que se passava, revelavam-se amiúde coniventes ou
encobridores das práticas judaicas, com muito trato e familiaridade com os
cristãos-novos, sócios com eles na mordomia; diz-se mesmo que um deles vestiu a
imagem de Nossa Senhora da Conceição com a roupa de uma viúva cristã-nova, em
luto pelo falecido; e isso não acontecia apenas por suborno ou pelo respeito pela
«paternidade judaica»: nas veias de alguns corria igualmente sangue hebreu.
Os cristãos-novos não comiam carne de porco, coelho, lebre ou peixe de pele, como
o congro; não ingeriam sangue, inclusivamente os enchidos de sangue. Um dos
seus pratos típicos, sobretudo na ceia do Kipur, consistia em bacalhau com grãode-bico. Eram conhecidos pela sua arte bancária e comercial, posicionando-se
como intermediários entre os mercados da Holanda e de Hamburgo, por um lado, e
do Brasil, por outro, especialmente nas transacções de têxteis e açúcar.
Encontravam-se em permanente itinerância, «morando de um lado e outro da
fronteira e levavam sempre no bolso a chave de casa e a “pátria nos sapatos”».
O grande drama dos cristãos-novos de Carção nascia da ameaça da Santa
Inquisição. Perante o terror da tortura, confrontavam-se com o desejo de se
encomendarem a Cristo, Nosso Senhor, pedindo-lhe que os iluminasse; porém, as
suas raízes judaicas demoviam-nos de aceitar que um homem que morreu numa
cruz pudesse ser divino. Só Deus sabia da verdade de uma confissão, pronunciada
no tribunal do Santo Ofício ou já a caminho da fogueira, de alguém ter sido
«alumiado pelo Espírito Santo», como se diz na Lei Nova do Cristianismo. Em caso
extremo, eram relaxados em carne: queimados vivos em acto solene, ou em
estátua, no caso de fuga, ou, tendo ocorrido o falecimento antes do julgamento, por
desenterramento dos ossos, para serem feitos pelo fogo em pó e cinza; antes,
porém, nos casos ordinários, posavam para o pintor registar, com lume e diabos,
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um retrato seu nos sambenitos (da expressão «sacos benditos»), sacos de estopa
que eram pendurados na Matriz, para «edificar os fiéis», ou seja, «domar a soberba
dos cristãos-novos», e que chegaram a ser roubados, para ser detida a vergonha ou
serem venerados os «mártires do judaísmo». Se os processos não tinham esse
desfecho mortífero, os réus eram sujeitos a uma «carta de penitência», obrigados a
levar, por todo ou algum tempo, um hábito penitencial, com insígnias de fogo,
podendo mesmo ser condenados a cárcere perpétuo, degredo ou desterro, em
Viseu, Leiria, Évora, Algarve, Castro Marim ou até no Brasil. Em todo o caso, um
julgamento implicava ruptura com filhos e cônjuges, sequestro de bens, fim dos
laços e das redes comerciais que, muitas vezes, levavam gerações a construir;
permanência nas masmorras torturantes da Inquisição, onde, na solidão do
cárcere, com a lembrança dos filhos a roer-lhes o entendimento, eram estropiados
e endoideciam, ficando abalados física e psicologicamente, por vezes desesperando
e cometendo suicídio. Apesar destes actos de violência contra a memória, a fama e
a fazenda, os filhos e os netos dos processados «souberam manter viva a chama do
marranismo e dar provas inequívocas de resistência aos métodos do Santo Ofício».
Aliás, Francisco Manuel Alves, na sua obra Memórias arqueológico-históricas do
Distrito de Bragança (Bragança 2000), refere o testemunho do pároco de Carção,
numa carta datada de 02.06.1852 e endereçada ao Bispo de Bragança, de que a Lei
Mosaica estava presente da aldeia, até aos seus dias, «desde tempo imemorial»,
embora tenha permanecido ocultada nos anos da Inquisição; inclusivamente faz
uma referência ao ano de 1920, em que a liturgia mosaica, embora muito
adulterada, estava ainda bem viva.
Um facto, porém, diz directamente respeito ao assunto em epígrafe. Consta que o
«mestre» Domingos de Oliveira, que ensinara as cerimónias mosaicas à «mestra»
Clara Lopes, trouxe de Roma indulgências, ou seja, breves para as festas jubilares
do dia 15 de Setembro, da Rainha Santa (que era aproximada à Rainha Ester) e de
S. Estêvão, precisamente na data do Kipur. Para privilegiar o altar do Santo Cristo
de Carção, trouxera um Agnus Dei (medalhão com a figura do Cordeiro de Deus) e
outras relíquias e crónicas de santos. Terá adquirido, na sua passagem por Livorno,
a cidade onde florescia o judaísmo, o medalhão judaico-cristão que hoje se
encontra no Museu de Carção? Terá encomendado a sua simbologia de forma a
espelhar, num único amuleto, a fé cristã-velha, pela Cruz, e a fé cristã-nova, pela
menorá, símbolo do judaísmo hoje presente na heráldica da aldeia?
2. Breve resenha histórica
As origens dos Agni Dei, medalhões cristãos de forma oval, circular ou elíptica, que
eram muito comuns no Nordeste Português, poderão remontar aos discos de cera
oferecidos pelos Romanos aquando das Saturnálias, festivais em honra de Saturno
no solstício de Inverno. Embora desde o séc. V fossem já usados fragmentos
do círio pascal, objecto do culto cristão, para protecção de tempestades,
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posteriormente foram fabricados amuletos a partir da cera desses círios, que no
dia da Ascensão eram seccionados e repartidos entre os fiéis; nestes pedaços
gravavam-se, em relevo, as figuras do Cordeiro Pascal e da Cruz. Porém, podiam
ser igualmente produzidos a partir de outra cera, benzida e ungida com bálsamo e
santos óleos pelo arquidiácono de Roma, da qual se formavam figuras de cordeiros,
a distribuir pelos fiéis. Importante é que a cera, pura e branca, representava a
carne inocente que Jesus assumira de sua Mãe, a Virgem Imaculada.
Segundo Manuel J. Gandra, na sua obra Portugal sobrenatural: deuses, demónios,
seres míticos, heterodoxos, marginados, operações e lugares mágicos e iconografia
da tradição lusíada (Lisboa 2007, 101-3), os Agni Dei viriam, mais tarde, a ser
solenemente mergulhados em água misturada com bálsamo e crisma, e entregues
aos clérigos e leigos, na Vigília Pascal ou no Domingo após a Páscoa, pelo próprio
Papa, na Capela Sistina ou na Basílica de São João de Latrão, no primeiro ano do
seu pontificado e de sete em sete anos. Para os fiéis que as viriam a usar, o Papa
implorava, na oração de bênção, não apenas o desenvolvimento espiritual e a
santificação pessoal, mas também a protecção contra os males externos, físicos ou
metafísicos: «Sintam o coração movido a meditar nos mistérios da Redenção; o
sinal da Cruz, impresso nesses medalhões, afaste os raios, ventos e tempestades,
livre das tentações do demónio, proteja as parturientes, livre da peste e do
incêndio; seja-lhes concedida a protecção divina na prosperidade e na
adversidade.» O primeiro documento que fala deste objecto é um Ordo Romanus
(livro de ritos e preces) do séc. IX.
Era hábito queimar a cera do Agnus Dei em casa, nos campos ou nas vinhas, como
protecção contra o poder do demónio, as trovoadas e as tempestades. Podia ser
trazido nas vestes dos fiéis ou exposto numa sala, aplicado a um órgão doente,
contraposto às chamas. Utilizava-se ao pescoço como defesa perante os feitiços.
Heinrich Kraemer e James Sprenger, autores do Malleus Maleficarum, manual
inquisitorial no combate às bruxas, indicaram que era aconselhado a juízes de
processos. Em 21 de Março de 1470, o Papa Paulo II, para evitar o comércio e os
abusos relacionados com o Agnus Dei, reservou ao Sumo Pontífice o direito de
mandar fazer e de benzer tais objectos; esta reserva continua em vigor, pois a
confecção dos Agni Dei está hoje em dia confiada aos monges cistercienses da
basílica da Santa Cruz de Jerusalém, em Roma.
Durante os Descobrimentos, os navegadores portugueses costumavam recorrer
aos Agni Dei nos momentos de provação. Bernardo Gomes de Brito, na História
trágico-marítima: Relação do naufrágio da nau Santiago em 1585 (Lisboa 1736, 2),
narra que, graças aos Agni Dei, «Nosso Senhor […] amainou logo o vento». De
acordo com João Paulo Freire e Carlos de Passos (Mafra, Porto 1933), em 1717,
durante o lançamento da primeira pedra da Basílica de Mafra, foram colocados nos
alicerces da capela-mor duas caixas de prata doirada com dois Agni Dei, um do
Beato Papa Inocêncio XI, outro do Papa Clemente XI.
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O londrino Padre Rafael Bluteau (1638-1734), no seu vasto Vocabulario (17121728), conta que «no supplemento da Historia de Sigiberto, composta por Roberto
Abbade Montense, se acha que no ano de 1183 apparecera a Virgem Nossa Senhora
a certo maerceneiro, ou carpinteiro, e lhe deixara huma medalha, em que se via a
effigie de nosso divino redemptor, com estas palavras ao redor della: Agnus Dei, qui
tollis peccata mundi, dona nobis pacem. [= Cordeiro de Deus, que tiras os pecados
do mundo, dá-nos a paz! t. a.] E mandando-lhe a Senhora que levasse a dita
medalha ao Bispo, para que obrigasse a todos os seus diocesanos que trouxessem
comsigo uma semelhante, pedindo a Deos que lhes desse paz e descanso, foy tudo
pontualmente executado, e se viu a Europa livre das cruéis guerras, que a
destruhião» (V, 383). O jesuíta italiano Ippolito Desideri (1684-1733), na sua
extraordinária narrativa Missão no Tibete (Somerville MA 2010), narra que, após
deixar Livorno, Porto Venere e Génova, vindo a navegar em direcção a Portugal, se
levantou uma forte e violenta tempestade; Desideri lembrou-se, então, de que
tinha um Agnus Dei benzido pelo Papa São Pio V (1504-1572), tomou-lhe um
pedaço e, pedindo a um dos outros padres que invocasse o santo, atirou-o ao mar;
logo que ele tocou nas águas, acalmaram-se o vento e o mar (121-2).
O cientista espanhol Jerónimo Cortés, na sua obra Fisiognomia e vários segredos da
natureza (Coimbra 1706, 162), informa que, tal como referem as orações de
bênção papais, seria livre de febre, peste, gota coral, morte súbita, temporais,
tormentos, saraiva, coriscos e raios aquele que levasse consigo um Agnus Dei; em
especial, as parturientes seriam livres «de todo o perigo, dando-lhes esforço e
ânimo naquele aperto», se lhes dessem três pedacinhos pequeninos a beber em
pouca água, e paririam sem lesão nem perigo se tivessem fé e a devoção de dizer
Agnus Dei, miserere mei; qui passus es pro nobis, miserere nobis! (= Cordeiro de
Deus, tem piedade de mim! Tu que sofreste por nós, tem piedade de nós!) (Lunário
e prognóstico perpétuo geral, Lisboa 1757, 262) O médico e etnógrafo portuense
Joaquim Pedro Vitorino Ribeiro debruçou-se sobre o papel do Agnus Dei na
medicina popular portuguesa (Arquivo de Medicina Popular, 1944, 81-6).
3. O Agnus Dei do Museu Marrano de Carção
Este medalhão religioso, composto de cera, de ignotas origem e história, e da
propriedade do Museu de Carção, que o adquiriu, tem a forma elipsóide cilíndrica,
com diâmetro maior de 4.7 cm e menor de 3.9 cm, e altura de 1.7 cm. Em toda a
altura é forrado por uma peça metálica protectora, na qual foi aplicada uma argola
que permite colocar o amuleto dependurado, assim em transporte como em
repouso. Ambas as faces são preservadas por um vidro; nota-se, no reverso, uma
ligeira danificação da inscrição, se não se tratar de um erro de gravação. É possível
que as figuras e as palavras tenham sido cunhadas mecanicamente por um molde;
porém, há grande probabilidade de terem sido registadas manualmente,
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especialmente pelos eventuais erros (orto)gráficos, como iremos posteriormente
referir.
Tratando-se de um Agnus Dei, seu anverso será o que exibe o Cordeiro Pascal, sob a
Cruz de Cristo, fixada numa desproporcional base e «coroada» por um ramo que,
sendo semelhante aos do reverso, será de oliveira, como ficará demonstrado; neste
lado lêem-se, em margem, as palavras «PARA MALFE CRUS». No reverso, encontrase patente uma menorá com ramos em arco, fixada num suporte volumoso,
encimada por um pássaro, eventualmente uma pomba (ou rola), e ladeada por dois
ramos de oliveira; deste lado, também marginalmente, encontram-se as palavras
«AGИ[US?] DEUϨ».
3.1. O anverso do medalhão
No anverso encontramos a Cruz de Cristo por cima do Cordeiro Pascal,
emparelhamento cuja finalidade é sublinhar que Cristo imolado na Cruz é o
Cordeiro Pascal da Nova Aliança.
3.1.1. A Cruz de Cristo
Embora o símbolo da Cruz seja pré-cristão (representava o deus turcomongol Tengri, «Pai Céu», e o tiro-babilónico-sumério Tamuz, «Filho Verdadeiro»,
cf. Ez 8:14), com a vida de Jesus Cristo, Deus Filho encarnado, ele adquiriu um
significado imprevisível.
A Cruz de Jesus é a consequência da sua atitude de vida, livre, dedicada aos mais
frágeis, pobres, doentes e rejeitados, marcada pela união mística com Deus, a
sabedoria divina e a doação total, pelo amor, pela justiça e pela solidariedade, que
chocou com os interesses dos chefes da religião e da política, judaica e romana,
responsáveis pela omnipresente miséria social. Julgado num injusto processo
sumário, foi condenado à crucifixão, forma horrível de pena de morte oriunda da
Pérsia e destinada a crimes extremos: brutalmente maltratado e flagelado com
azorragues de pregos e ossos, o condenado, caso sobrevivesse, carregaria uma
trave horizontal de madeira até ao local onde se encontrava uma vertical; aí seria
amarrado ou, raramente, pregado nos pulsos e nos pés, morrendo, suspenso, de
prolongada asfixia. No judaísmo praticava-se uma pena parcialmente semelhante:
ser executado e pendurado numa árvore, como «maldito de Deus» (Dt 21:23; Gl
3:13). Absalão, filho de David, foi ferido de morte quando ficou pendurado num
carvalho (2 Sm 18:9.14), e Judas Iscariotes enforcou-se (Mt 27:5), provavelmente
numa árvore.
Os primeiros teólogos cristãos fizeram uma interpretação teojurídica da crucifixão
de Jesus. Contemplando a maldade humana como desobediência ao Criador, digna
de pena infinita, consideraram a morte de Jesus como a infinita, gratuita e jubilar
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remissão dessa dívida (Dt 15:1; Cl 2:14), que só Deus, fiel, em carne e osso, podia
realizar (1 Jo 1:9): ele liberta-nos da escravidão do mal e do pecado, conquistandonos com o seu amor, marcando-nos com um sinal eterno e aceitando-nos como sua
família (Dt 15:12-17).
Este «perdão da dívida» faz da Cruz de Jesus o caminho para uma vida livre,
amorosa e próspera. Por isso, os primeiros cristãos identificaram-na com a Árvore
da Vida do Paraíso, no livro do Génesis (2:9), que alimenta e cura; ela volta a
aparecer no derradeiro livro bíblico, o Apocalipse (22:2), como a «terapia das
nações». Segundo o profeta Ezequiel, do Novo Templo sairia a «água» que tornaria
vivo o Mar Morto, fertilizando a terra por onde passasse (47:12): de Cristo
crucificado escorre a «água» que faz renascer tudo o que é arruinado pelo mal (Jo
19:34; 1 Jo 5:6).
A Cruz simboliza, assim, o total dom de si (Cl 2:13), até ao extremo da morte,
figurado em Isaac: este carregou com a lenha da sua própria oferta (Gn 22:6; Ro
8:32), embora, ao contrário de Jesus, tenha sido substituído por um carneiro (Gn
22:13). Todos os que suspiram por um mundo onde o amor de Deus cura as
injustiças levam a Cruz de Cristo marcada no seu espírito (Ez 9:4).
No medalhão, a desproporcional base da Cruz faz-nos lembrar a Montanha Sagrada
de Deus (Ex 4:27), o Horeb (Ex 3:1) ou o Sinai (Ex 19:11), onde culmina a Aliança
do Senhor com Moisés e o Povo de Israel, depois de um série de peripécias
libertadoras que começou na noite em que fora imolado o Cordeiro. A glória do
Crucificado (Jo 12:23), o Cordeiro da Nova Aliança, é a plenitude da glória do Sinai,
da Antiga Aliança (Ex 24:16).
3.1.2. O Cordeiro Pascal
A expressão de João Baptista, sobre Jesus, Ecce Agnus Dei, «Eis o Cordeiro de Deus»
(Jo 1:29.36) contém uma tradição que nos coloca no coração da Páscoa Judaica.
Festa eminentemente familiar, a Páscoa era celebrada em tribos nómadas,
dedicadas à pecuária, ao contrário da festa dos Ázimos, oriunda de tribos
sedentárias, que também cultivavam terras.
A palavra «Páscoa» (pésah) provém de uma raiz egípcia (paseh) que significa
«repelir, abater, atacar, golpear, derrubar», e remete para a eficácia da divindade e
do faraó na protecção do seu povo frente aos inimigos. No caso israelita, que sofreu
a influência da cultura egípcia em largos séculos de domínio imperial, o culto
realizava-se mediante o «abater» (sacrifício) de animais (provavelmente os
primogénitos, Ex 12:29; 13:1), machos e sem defeito (Ex 12:5), no equinócio da
Primavera.
Antes de o animal, assado, ser consumido, à noite, numa ceia familiar, era norma
pintar a verga e as ombreiras da porta da casa, ou da tenda, com o sangue da vítima
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(Ex 12:7.22). Este gesto expiatório (apotropaico) tinha por finalidade afastar
influências maléficas e desgraças, personificadas em demónios, que ameaçavam o
gado e a tribo (Ex 12:12.23). A oferta da cria (primogénita), que «sofria em
substituição», implicava o pedido do livre auxílio divino para deter a acção
mortífera desses males de origem sobrenatural, que provocavam danos vitais
entre pessoas e animais.
Neste sentido se interpreta a expressão do Baptista «Cordeiro de Deus», que nos
livra do flagelo destruidor num grau superior: ele «tira o pecado do mundo» (Jo
1:29). Mesmo que o mal nos possa atingir, tal como feriu o Salvador na sua vida
terrena, participar na Ceia Pascal, a Eucaristia (Mt 26:28), significa mergulhar na
vida divina do Redentor: este sacramento da Nova Aliança é o sangue de Cristo,
derramado para remissão dos pecados (Mt 26:28). Embora não tenha praticado o
pecado, Jesus «fez-se pecado» na Cruz para nos «justificar» (2 Cor 5:21): «Cristo,
nossa páscoa, foi sacrificado por nós.» (1 Cor 5:7) Nele «temos a redenção pelo seu
sangue, a saber, a remissão dos pecados» (Cl 1:14; cf. Ap 7:14; 12:11).
A missão de Cristo como cordeiro libertador, «imolado desde a fundação do
mundo» (Ap 13:8), esposo e luz da Igreja (Ap 21:9; 21:23), realizou-se no Espírito
Santo. Cordeiro Pascal inocente, ele ofereceu o seu sangue a Deus, pelo Espírito
Eterno, para nos purificar a «consciência das obras mortas», a fim de servirmos «o
Deus vivo» (Hb 9:14). Esse Espírito, que Cristo devolve na hora crucial da sua
oferta pascal (Jo 19:30) e que constitui o fundamento da Nova Aliança (Ro 8:1-17;
Hb 9:14s; cf. Jr 31:33; 32:40; Lc 22:20), é o mesmo que o Baptista «vê» descer e
permanecer, sobre ele, «como uma pomba» (Jo 1:32), símbolo que surge no
reverso do amuleto sobre a menorá, a qual sinaliza a presença da Divindade. O
Espírito de Deus, que nos dá um «personalidade nova» (Ez 36:26), é representado
por uma «pomba», que na narrativa da Arca de Noé prenuncia uma nova relação
com Deus, baseada na harmonia com ele, com a sociedade humana e com a
Natureza (Gn 8:11).
De que forma um amuleto com a figura do Agnus Dei poderá contribuir para a
realização dessa dinâmica salvífica? Existe a errada ideia de que levar um Agnus
Dei protege de alguns ou de todos os males e perigos, ou de que ele ao menos reduz
a sua força, como se o objecto, por ter elementos sagrados e por ter sido benzido
pelo Papa, desse sorte ou tivesse poderes mágicos. Ora, esta forma de sincretismo
religioso baseada na superstição não tem em consideração a liberdade divina, ou
sequer o carácter pessoal de Deus, como se este, fria máquina prestadora de
favores, fosse obrigado aos ritos humanos.
Ora, a eficácia deste medalhão sagrado não se realiza pela matéria de que é feito
nem pelos ritos que o sagraram. Ela baseia-se puramente na vontade livre e na
acção soberana de Deus, que não se movem pelos nossos méritos ou pela nossa
manipulação interesseira. O seu valor está associado à fé do crente, que é
despertada, na sua inteligência, pela sua simbologia, a qual o remete para a Palavra
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Ricardo TAVARES, O misterioso Agnus Dei judaico-cristão de Carção
Revista Almocreve 2015, 46-59
de Deus, para a confiança na bondade divina e para a adequação da vida quotidiana
ao caminho ético proposto pelo Evangelho. É neste sentido que podemos dizer que
o Agnus Dei é um «sacramental», cuja acção (opus) depende da atitude da pessoa
que age (operantis).
A Sagrada Escritura apresenta um modelo de amuleto sacramental: a serpente de
bronze. Mordidos pelas serpentes, no deserto, os filhos de Israel «olhavam» para a
serpente levantada, que o Senhor mandara Moisés esculpir, e ficavam curados (Nm
21:8s). Não era, porém, o objecto de metal que tinha a virtude de os salvar, mas o
Salvador de todos, que lhes tinha dado, para cumprir, o mandamento da Torá (Sb
16:6s). A eficácia de um amuleto religioso obedece à contemplação da realidade
divina que ele expressa e aos pré-requisitos existenciais e éticos que a entidade
divina espera para a recepção da graça. É neste sentido que se entende que Jesus,
levantado na Cruz, se compare à serpente de Moisés: «a fim de que todo aquele que
crer tenha nele [no filho do homem] a vida eterna» (Jo 3:14s). Crer, isto é, ter fé,
significa compreender, pelo entendimento sobrenatural, o amor infinito de Deus,
que, como Cordeiro Pascal, derramou na Cruz o seu sangue protector, e,
transformado por esse amor, tornar-se a si mesmo protecção e alimento para os
que carecem dos bens essenciais para o corpo e para o espírito. Só dentro deste
espírito de admiração, fé e conversão o Agnus Dei tem a força e o efeito patentes na
expressão do anverso «PARA MALFE CRUS», que quererá dizer, por exemplo, «para
malefícios, eis a protecção da Cruz!».
Na dependência da liberdade divina e da atitude de sabedoria transcendente do
crente, que confia no Senhor mas caminha sempre na «noite escura da fé», como os
profetas que esperavam a possível acção de Deus (o «ûlay» ou «talvez» divino, Jr
36:7; Am 5:15; Jn 1:16; Sf 2:3), levar o medalhão no bolso, na mala ou ao pescoço
poderá provocar os seguintes efeitos: 1. O mais importante milagre do Agnus Dei é
aproximar de Deus a pessoa que o tem e usa, fazendo-a amá-lo na gratidão pelo
sangue do Cordeiro de Deus, sacrificado por nós. O maior malefício que nos pode
acontecer não é a doença nem a morte, mas vivermos longe da comunhão com
Deus e morrermos sem o seu amor. Através dos seus símbolos, o amuleto pode
aumentar em nós a graça, a piedade e a virtude, através dos méritos perenes da
Paixão e Morte de Jesus Cristo. Neste sentido, ele pode apagar em nós os pecados
veniais e até purificar a mancha deixada pelo pecado mortal depois de perdoado
pelo Sacramento da Penitência. 2. Escudada pela protecção espiritual, a pessoa fica
fortalecida na sua mente e no seu corpo, tornando-se menos vulnerável ao mal
moral e ao mal físico. Assim, o Agnus Dei pode fazer evitar a adversidade e a
desgraça, aumentar a prosperidade, proteger nos combates da vida, facilitando a
vitória, e livrar do veneno e das ciladas dos inimigos. Além de escudo contra a
doença, pode também ser um meio de cura, daí poder ser levado às casas dos
doentes, seja de que febre, peste ou epidemia for. Em especial, guarda as mães
parturientes e os seus filhos. 3. O medalhão também é eficaz no combate contra os
perigos da natureza, nomeadamente o vento, as tempestades, os turbilhões, os
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trovões, os raios, os furacões, o granizo, a saraiva, as chuvas torrenciais, as
inundações, os incêndios, tanto em terra como no mar; o próprio Jesus, na sua
existência histórica, apelou para uma fé que move montanhas (Mt 17:20; 21:21) e
árvores (Lc 17:6). 4. O Agnus Dei também protege dos males invisíveis, como os
feitiços e bruxedos, as tentações, as possessões, o medo e os outros efeitos nefastos
dos demónios. Afasta os perigos de uma morte repentina e imprevista, e
preservam da morte eterna causada pelo pecado mortal. Com efeito, a fé consiste
na participação no poder de Deus, que cura, não apenas o corpo (Mt 9:22; Mc 5:34;
Tg 5:15), mas especialmente o espírito, orientando-o para o caminho de Jesus (Mc
10:52; Lc 18:43; Ef 2:8).
Não obstante, o verdadeiro cristão, discípulo de Jesus, rezando a oração do Pai
Nosso, sabe que, acima de tudo, deve procurar e acolher a «vontade de Deus», seja
na Terra, seja no Céu (Mt 6:10; 7:21), aceitando todos os males que não consegue
evitar como um caminho de amadurecimento humano e espiritual, com vista a uma
missão humanizadora no mundo e a uma vida eterna plena de gratidão e alegria.
Dizia Job, purificado na sua personalidade pela perda dos seus familiares, dos seus
bens e da sua saúde: «Nu saí do ventre de minha mãe e nu para lá tornarei; o
Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!» (1:21) Também
Maria, Mãe de Jesus e Mãe da Igreja, sabendo que para Deus nada era impossível,
entregou-lhe o coração: «Cumpra-se em mim segundo a tua palavra.» (Lc 1:38) A
grande virtude do Agnus Dei, como instrumento da acção divina, será a protecção
perante o desespero, a revolta contra Deus e a perda da coragem e da confiança,
que ameaçam o crente nas provações diárias provocadas pelos males físicos e
morais.
Jesus, o Cordeiro de Deus, também teve medo do sofrimento e da morte, mas
aceitou com amor a vontade do Pai Celeste: «Meu Pai, se este cálice não pode
passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade.» (Mt 26:42; cf. Lc 22:42) A
dor que vivemos na fé coloca-nos em comunhão com toda a humanidade,
especialmente com os que sofrem sem saberem que Cristo morreu por eles na
Cruz; assim, completamos na nossa carne «o que falta das tribulações de Cristo» (Cl
1:24). Vencendo graças ao sangue do Cordeiro, reinaremos eternamente com ele
na glória eterna (Ap 12:11; 14:4; 21:14).
3.2. O reverso do medalhão
No reverso encontramos uma pomba em cima de uma menorá, emparelhamento
cuja finalidade é sublinhar que o Templo da Nova Aliança, o Corpo de Cristo, está
cheio do Espírito de Deus.
3.2.1. A Pomba
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Não seria descabido afirmar que o pássaro patente no reverso fosse uma graciosa
«garça» (hasîdah, semelhante a hesed, «graça»), seguindo a lógica de Joseph
Shulam (Birds, Lions and Elephants: Memories of a glorious Past in Trás-os-Montes,
Portugal, Almocreve [2010] 65-40), até porque ela poderia representar a
«esperança de libertação da opressão do catolicismo e cristianismo», o
«reconhecimento de uma irmandade e um destino comum ao povo judaico»; esta
ideia é abarcável pelo sentido metafórico que o profeta Jeremias lhe atribui: «Até a
garça [ou a cegonha] no céu conhece os seus tempos determinados.» (8:7) Porém,
em virtude do múltiplo sentido simbólico do medalhão, a grandeza do significado
bíblico da pomba sobrepõe-se ao da garça. Nesta ordem de ideias, poder-se-á
questionar por que motivo desce o Espírito Santo sobre Jesus, no Baptismo, «como
uma pomba» (Mt 3:16; Mc 1:10; Jo 1:32), ou, no dizer de Lucas, «em
forma corporal, como uma pomba» (3:22)?
Os filhos de Israel comparavam-se a uma «pomba» ou «rola». No Salmo 74:19
pede-se a Deus que não entregue à «fera», aos inimigos, a vida de sua «rola» (tôr);
Oseias sublinha a ingenuidade dessa «pomba» (yônah) perante as «seduções»
políticas do Egipto e da Assíria (7:11). O Cântico dos Cânticos, poema das
«núpcias» de Deus com Israel (que significa «princesa de Deus»), sua amada,
contempla a noiva como «pomba sem defeito» (5:2).
Segundo o Talmud Babilónico (Shabbat 130a), este animal indefeso protege-se de
modo surpreendente: enquanto as outras aves, quando exaustas, repousam sobre
rochedos e árvores, ficando à mercê de predadores, a pomba cansada imobiliza
uma asa, descansando-a e voando apenas com a outra; e assim vai revezando as
duas. É por isso que o Salmo 68:14 refere que as asas da pomba se cobrem «de
prata» e suas penas, «com o brilho do ouro».
De acordo com esse Talmud, as asas da pomba, que a protegem de tudo,
nomeadamente do «sofrimento», representam os Mandamentos: «Devem cumprirse os Mandamentos, para que nada de mau aconteça.» Assim, até os mais fracos,
como o pequenino Povo de Deus entre as potências do antigo Médio Oriente,
constroem, ao seguirem o «caminho ético» de Deus, uma existência inabalável.
Com a morte de Jesus, o Espírito de Deus, que no Baptismo repousara sobre ele
como uma pomba, seria efundido a toda a Criação para ensinar directamente a
cada pessoa e comunidade (Nm 11:29; Jl 3:1; Act 2:17) as orientações éticas e
morais a seguir como resposta espontânea ao amor de Deus: Ele «vos ensinará
tudo» e «vos conduzirá à verdade plena» (Jo 14:26; 16:13).
Esta pedagogia íntima, pela qual o Espírito grava a Nova Lei sobre a «tábua» do
«coração» (Pr 3:3; 7:3; Ro 8:2) tal como Maria com as atitudes do seu filho (Lc
2:19), protege os discípulos de Jesus de todo o mal, nem que seja com a certeza de
que, mesmo sofrendo, «estão nas mãos do Senhor» (Js 4:24). É por isso que Jesus
fala do Espírito Santo como o paráclito, o protector, o advogado, o defensor. Nesta
sequência, quando os réus do Santo Ofício afirmavam terem sido «alumiados pelo
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Espírito», estariam não apenas a afirmar a sua pertença à Nova Lei do Espírito, mas
também a recorrer à assistência do Espírito Santo em contexto de julgamento:
«Quando, pois, vos conduzirem para vos entregarem, não estejais solícitos de
antemão pelo que haveis de dizer; mas o que vos for dado naquela hora, isso falai;
porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo.» (Mc 13:11)
3.2.2. A Menorá
Um dos principais símbolos do judaísmo, a menorá é um lampadário, castiçal ou
candelabro de sete braços (a hanukiá tem nove). Concebida como um bloco de
ouro puro, representava uma árvore com um pé, uma cana (recta) central (com
quatro cálices na forma de flor de amêndoa) e três canas (rectas) de cada lado
(cada qual com três cálices na forma de flor de amêndoa).
Segundo Moisés, cada um dos sete braços suportava uma lâmpada que alumiava
para a frente; com as espevitadeiras e os aparadores de ouro, pesava um talento
(34,272 kg) de ouro puro batido (Ex 25:31-40; 37:17-24), metal que não oxida,
pelo que simboliza a imutabilidade de Deus. Criada pelos ourives Beseleel e Ooliab
(Ex 31:2.6), e sagrada com azeite (Ex 30:27), fora colocada diante do Santo dos
Santos (onde se encontrava a Arca da Aliança), no lado sul, diante da mesa dos
pães sagrados, do vinho e do incenso, no lado norte (Ex 26:35). Estava
permanentemente acesa, com azeite puro, diante do Senhor (Lv 24:4),
representado pela Arca da Aliança; sinaliza, portanto, a constante presença
invisível de Deus e da sua Luz no mundo.
Na sua visão, o profeta Zacarias vê, por cima da menorá, um vaso de azeite com
sete lâmpadas (representavam os sete olhos do Senhor, que percorrem toda a
terra), entre duas oliveiras, que deitam azeite e significavam os dois Ungidos
(poderes religioso e político), em união com Deus (Zc 4:1-6). No medalhão, o vaso
de azeite, que simboliza a «luz» do conhecimento de Deus sobre o Universo, é
substituído pela pomba, que representa o Espírito de Deus, fonte da sabedoria e de
inteligência (Is 11:2); o Espírito de Deus também é encarado como o Deus
misterioso e invisível que é adorado no Santo dos Santos, diante do qual se
encontrava a menorá. No Agnus Dei as duas oliveiras que ladeiam a menorá
apontam para a autoridade religiosa e política, que deve ser iluminada pela graça
do Espírito Santo.
Fazendo lembrar a Árvore da Vida (Gn 2:9), que provém de Deus, este artefacto de
culto contém sete braços que representam as primeiras sete palavras hebraicas da
Bíblia (Gn 1:1) ou os sete dias da Semana da Criação, em que o braço central
representa o Espírito Criador ou o Sábado: a menorá simboliza a sabedoria e a
beleza da obra cósmica do Senhor. Os astrónomos da Antiguidade referiam que o
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braço central representava o Sol, sendo os restantes a Lua, Mercúrio, Vénus, Marte,
Júpiter e Saturno.
Este candelabro também é visto como a reprodução da Sarça Ardente, que Moisés
contemplou no Horeb; o seu significado místico revela que o Fogo de Deus tudo
consome, sem consumir, que irresistivelmente atrai, sem poder ser tocado (Ex
3:2). Os sete braços também são interpretados como as colunas da Casa da
Sabedoria (Pr 9:1) e os dons do Espírito Santo: o central, o próprio Espírito do
Senhor; os três pares, Sabedoria e Inteligência, Conselho e Força, Conhecimento e
Temor de Deus (Is 11:2); estes sete dons fariam do futuro líder (religioso ou
político) um verdadeiro descendente de Jessé, à imagem de David (Is 11:1).
Este castiçal aparece em templos cristãos, porque representa a Nova Aliança,
nomeadamente a árvore da Cruz da Redenção de Cristo, o Senhor de Moisés (Fl
2:5-11): o braço central significa Jesus Cristo; os da esquerda, o mistério da kénosis
(esvaziou-se a si mesmo, assumiu a forma humana, humilhou-se até à Cruz); os da
direita, o mistério da glória (o Pai o exaltou, deu-lhe um nome adorável: todos
proclamam que ele é o Senhor). Estas sete luzes também emblemam as Sete Igrejas
do Apocalipse (1:9-20), os sete selos do Livro da Vida (5:1) e os sete anjos que
estão diante de Deus (8:2). O lampadário, de prata ou cristal, aceso diante do
Santíssimo Sacramento da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o Deus irmão dos
pobres (Lc 6:20), que constitui a reserva eucarística para os doentes, é uma
simplificação da menorá.
Desconhece-se o paradeiro da menorá original. Segundo o profeta Jeremias, os
Babilónios, em 587 a.C., levaram castiçais do primeiro Templo (52:19), mas não
precisa que tivesse sido o castiçal principal (2 Cr 13:11), até porque Salomão
mandou fazer outros 10 para o primeiro Templo (1 Re 7:39; 2 Cr 4:7). Não se sabe
se ela foi escondida ou levada para a Babilónia (e devolvida por Ciro); sabe-se que,
com a invasão romana, a 70 d.C., os sacerdotes esconderam os objectos mais
importantes num local secreto, de maneira que a menorá, se se encontrava no
segundo Templo, não foi levada para Roma, mas uma das outras. O candelabro do
Arco de Tito tem os braços curvos e base, pelo que não corresponde ao original,
que, segundo o judeu medieval Moisés Maimônides, apresentava os braços rectos,
em diagonal, e, segundo o Talmud (Menachot 28b), possuía pés.
Em todo o caso, a menorá do medalhão, que aponta para a divindade do Espírito de
Jesus Cristo, na figura da pomba, apresenta um pedestal em forma de montanha,
semelhante ao da Cruz, no anverso; com esta duplicação sublinha-se que o
Crucificado é o Deus adorado no Santo dos Santos, invisível na Antiga Aliança,
encarnado e oferecido como Cordeiro Pascal na Nova Aliança; como ambos
apresentam uma base em forma de montanha, quer-se sublinhar que o pacto
estabelecido por Deus no monte Sinai foi renovado, na plenitude dos tempos, no
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monte das Bem-aventuranças (Mt 5:1-12) e no monte da Crucifixão, que tinha
forma de crânio, Golgotá (Mt 27:33; cf. Mt 17:1s; Lc 9:31).
4.1.3. A Oliveira
Em ambas as faces encontram-se ramos de oliveira: no anverso, sobre a Cruz; no
reverso, à direita e à esquerda da menorá. Num total de três, apontam para a
perfeição de Deus, não apenas pela Santíssima Trindade e pela Sagrada Família,
mas também pelas tríades do Antigo Testamento, como os três filhos de Adão
(Sem, Cam e Jefté, Gn 6:10), os três homens misteriosos que visitaram Abraão (Gn
18:2), os irmãos Moisés, Aarão e Míriam (Nm 15:20; 26:59).
Relativamente à oliveira, narra a lenda da Arca que, após 40 dias de chuvas
intensas e contínuas, Noé abriu a janela e soltou, depois de um corvo, uma pomba.
Ela regressou, por não ter encontrado lugar onde poisar; numa segunda tentativa,
trouxe «folhagem de oliveira» (‘alêh-záyît); à terceira, não mais voltou (Gn 8:6-12).
A pomba, símbolo de Israel (Os 7:11) e do Espírito de Deus (Lc 3:22), levando um
raminho de oliveira representa a paz, que em hebraico (shalôm) significa
«prosperidade integral», dom de Deus (Espírito) e fruto do esforço humano
(Israel): bem-estar consigo próprio, com a comunidade humana, com a Natureza,
com Deus. É este o sentido patente no reverso do medalhão.
Das azeitonas, o fruto da oliveira (olea europaea L.) – árvore mediterrânea que
pode viver mais de três milénios –, a humanidade, já deste o fim do Neolítico (3000
a.C.), tem extraído o precioso azeite, apreciado pelos nutrientes saudáveis e
curativos, e associado à longevidade, à riqueza e à defesa pessoal (nas artes de
guerra). A pomba da lenda da Arca trazia folhagem de oliveira para tecer o seu
ninho, a sua habitação, que implica protecção, estabilidade, alimento, fecundidade
e harmonia.
As características da oliveira levaram os povos antigos a associarem-na à bênção
divina, nomeadamente aos dons do Espírito Santo. O azeite era utilizado
quotidianamente como protector, quer impedindo a desidratação corporal nas
regiões quentes e desérticas, quer transmitindo saúde e suavidade, naturais e
sobrenaturais: «Unges a minha cabeça com azeite.» (Sl 23:5) Também os reis (1 Sm
16:13), os sacerdotes (Ex 25:6) e os profetas (Sl 105:15), portanto, os ungidos
políticos e religiosos, eram liturgicamente consagrados com este óleo,
precisamente porque eles tinham como missão proteger, alimentar e cuidar dos
que lhes eram confiados.
É neste sentido que se fala de Jesus, Deus Filho incarnado, como o Messias (do
hebraico), o Cristo (do grego) ou o Ungido (do latim) de Deus, sobre o qual o
Espírito, no momento do seu baptismo, desceu sob a forma de pomba (Act 10:38).
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Trata-se de uma unção não material, mas espiritual, que o investiu de sabedoria e
inteligência, conselho e fortaleza, conhecimento e temor de Deus (Is 11:2), para
desempenhar sabiamente o seu ministério de rei, sacerdote e profeta em favor dos
seres humanos, e de todo o Universo, filhos e criaturas de Deus Pai.
Pelo baptismo também obtemos essa Unção com a respectiva missão (1 Jo
2:20.27). De facto, como reis, sacerdotes e profetas por vocação cristã não vivemos
apenas para nós próprios, mas para o Senhor (Ro 14:8), ou seja, para a sua causa:
trabalhar criativamente para que todos tenham uma existência próspera, material
e espiritualmente, como feliz antecipação do Céu.
Os ramos de oliveira sublinham o vínculo entre a Cruz (e o Cordeiro) e a menorá (e
a pomba). Segundo São Paulo, Cristo Jesus «é a nossa paz», a prosperidade de uma
vida em justa harmonia com todos e com tudo: «na sua carne», «pela Cruz», «desfez
a inimizade» e, simbolicamente referido, «derrubou a parede de separação»,
existente, no templo de Jerusalém, entre judeus e pagãos, criando «em si mesmo,
dos dois, um homem novo», reconciliando «ambos com Deus num corpo» (Ef 2:1316). Esta teologia apresenta-se como uma excelente motivação no contexto da
sociedade de Carção, composta de cristãos-velhos (de origem pagã) e de cristãosnovos (de origem judaica). Neste sentido, o Agnus Dei, de uso comum, teria como
objectivo a unificação de ambas as comunidades «num só corpo» abraâmico, no
respeito pela diferença cultural e religiosa, patente no medalhão.
4. Conclusão
De toda esta análise do Agnus Dei, a primeira grande conclusão a tirar é que ele foi
projectado e realizado para uso de uma sociedade que compreendia os elementos
judaicos e cristãos que ele exibe e as respectivas conexões tipológicas: ou judaica,
convertida ao cristianismo livremente ou à força, ou cristã, profundamente
conhecedora do Antigo Testamento. No contexto da região mediterrânea em geral
e da aldeia de Carção em particular, a primeira tese revela-se como a mais
provável.
Alguns pormenores nas palavras registadas no medalhão podem não passar de
erros gráficos ou ortográficos. No anverso, em vez de PARA MALFE CRUS,
esperávamos PARA MALFE CRUZ, portanto, «para» (ou seja, «contra»)
«malefícios», [recorrer à] «Cruz»; nota-se, além da abreviatura MALFE, que na
palavra CRUS, ao invés de Z, ocorre um S (na prática, uma inversão simétrica). No
reverso, em vez de AGИ[US?] DEUϨ, em que é difícil descortinar a terminação de
AGИ[..], esperava-se AGN[US?] DEUS, ou melhor, AGN[US?] DEI; há aqui três
elementos estranhos: o N está invertido, falta a terminação US mais explícita
(parece mesmo poder ler-se AGNI DEUϨ) e o S de Deus encontra-se invertido.
Se estes aparentes erros tiverem sido propositados, então é possível dissertar
sobre muitos significados ocultos, cuja existência é insinuada pelo N invertido (И),
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que mandar «ler o medalhão» também «numa perspectiva diferente». Em primeiro
lugar, a letra S em CRUS poderá ser o número 5, que representa o Povo Judaico,
cuja origem e norma de vida está registada nos cinco livros da Torá, o Pentateuco
(Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio); de resto, são cinco os
símbolos do medalhão: a Cruz, o cordeiro, a pomba, a menorá e a oliveira. Esse
significado numérico passou para o cristianismo: a Igreja é o prolongamento do
Povo de Deus e tem nos quatro Evangelhos bíblicos e nos Actos dos Apóstolos a
sua nova Torá.
Em segundo lugar, a letra Ϩ de DEUϨ é mais próxima do Z da CRUZ, surgindo, então,
uma troca do reverso com o anverso; neste caso, o procedimento leva o observador
a analisar os símbolos dum verso pelo sentido dos do outro, estudo que fizemos ao
longo deste trabalho. Porém, essa letra Ϩ é semelhante ao número 2, cujo
singificado bíblico é o do «testemunho»: duas testemunhas faziam uma prova (Dt
17:6; 19:15; Mt 26:60; Jo 8:17; Ap 11:3); neste caso, o medalhão seria um
testemunho da fé judaica e cristã, pelos símbolos dos 2 lados, pela união do Antigo
com o Novo Testamento, da comunidade dos cristãos-velhos com a dos cristãosnovos, o que apela à comunhão de vida em Carção na sua dualidade enriquecedora
e complementar. A utilização do Agnus Dei pelas duas facções, independentemente
do modo de fé de cada um, seria uma forma de unificar a comunidade e
testemunhar o ecumenismo religioso perante o mundo. Aliás, os cristãos sabem que
a sua vida espiritual depende das suas raízes judaicas, pelo que a sua atitude
correcta consiste em respeitar e venerar os seus pais na fé.
Este S invertido de DEUϨ, aliado ao Z invertido de CRUS, coloca em referência o
Deus do Antigo Testamento e o Cordeiro Pascal imolado, Jesus Cristo, querendo
dizer que um e outro são a mesma divindade. Neste caso, estamos perante uma
profissão de fé na divindade de Cristo, incarnado pelo Espírito Santo (representado
pela pomba), e na sua presença no Antigo Testamento como o Senhor Deus dos
judeus. É intrigante que, na expressão do reverso AGИ[US?] DEUϨ, a palavra Deus
se encontre no nominativo (Deus) e não no genitivo (Dei), como na expressão
Agnus Dei, o que poderá indicar que, em vez de Agnus, cuja terminação é incerta, se
possa ler Agni, hipótese viável, visto ser possível ler, na zona da desinência, uma
pequena letra I; assim, estaríamos perante a expressão Agni Deus, ou seja, «Deus
do Cordeiro», que vinca mais a divindade de Deus Pai, que sacrifica o seu Cordeiro,
Deus Filho. No entanto, o estado do medalhão também permite ler Agnus Deus,
supondo implícita a forma verbal est, dispensável na língua latina; o sentido da
expressão seria «o Cordeiro [é] Deus» ou «Deus [é] o Cordeiro», o que sublinha a
divindade de Cristo, o cordeiro imolado na Cruz, que também é o Deus dos judeus.
Não é por acaso que a palavra Agn[us] ocorra, não no lado onde aparece a figura do
Cordeiro, mas no reverso, onde encontramos a menorá, o grande símbolo judaico.
Em todas estas considerações simbólicas, é difícil encontrar algum ponto que
injurie ou até menospreze a Cruz do Cristo, sendo, portanto, pouco provável que o
amuleto em estudo seja de pura origem judaica e tenha servido para iludir os
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Ricardo TAVARES, O misterioso Agnus Dei judaico-cristão de Carção
Revista Almocreve 2015, 46-59
cristãos-velhos e o Santo Ofício. Antes, o medalhão parece ter sido concebido para
«alumiar» os judeus (cristãos-novos), tendo em conta os símbolos da sua fé, que o
cristianismo acolheu nos escritos do Novo Testamento. Foi neste espírito de
«inculturação» que se compôs o Evangelho segundo São João, cujos destinatários
eram cristãos provenientes de comunidades judaicas; eles compreendiam que «a
Torá foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.» (1:17) É
evidente que, embora a origem do medalhão seja de natureza simultaneamente
cristã e judaica, ele não teria vindo à luz sem a uma prolongada e marcante
existência do marranismo.
Biografia do Autor
Ricardo Tavares é natural de Vila Franca do Campo, na Ilha de São Miguel, e
presbítero da Diocese de Angra – Ilhas dos Açores. É licenciado em Engenharia
Electrotécnica e de Computadores (FEUP) e em Teologia (UCP). Fez estudos pósgraduais de exegese e arqueologia na École Biblique et Archéologique Française de
Jérusalem, em Israel, e o doutoramento em Teologia, na especialidade de Exegese
Bíblica, na Philosophisch-Theologische Hochschule Sankt Georgen, em Frankfurt,
na Alemanha. Além de investigador em teologia, filologia antiga e história préclássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é professor de
Educação Moral e Religiosa Católica na cidade da Lagoa, nos Açores.
www.padrericardotavares.wordpress.com
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