teoria social crítica e serviço social: os 50 anos do movimento de

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TEORIA SOCIAL CRÍTICA E SERVIÇO
SOCIAL: OS 50 ANOS DO MOVIMENTO DE
RECONCEITUAÇÃO
Ivete Simionatto1
Introdução
Ao rememorarmos os 50 anos do Movimento de
Reconceituação, é de extrema relevância resgatarmos, ainda que de
forma breve, seu inequívoco e fecundo legado ao Serviço Social
latino-americano, mediante a introdução das primeiras
aproximações à tradição marxista. As mudanças que se
descortinavam no panorama internacional da época, com o
tensionamento das estruturas sociais capitalistas, a efervescência das
lutas sociais, em suas expressões contestatórias e “pretensões
revolucionárias”, permearam “não somente a prática política, mas a
vida científica e cultural” (AQUIN, 2005, p.53). Tal cenário
fortaleceu as buscas de renovação do Serviço Social latinoamericano, levando-o a interrogar-se sobre suas bases teóricometodológicas, suas posições políticas e ideológicas, bem como
sobre o seu fazer profissional. Nas palavras de Molina (2005, p.137)
“La reconceptualización marca un hito fundamental en la forma de
entender hoy la historia y razon de ser de esta profesión” e “um
divisor de águas” na história do Serviço Social, abrindo
possibilidades inéditas de ampliação das relações entre “profissão e
sociedade” (PARRA, 2005).
1
Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1993) e Pósdoutorado no European University Institute (Florença-2002/03). Professora titular aposentada da
Universidade Federal de Santa Catarina. Email: [email protected]
7
Sociedade em Debate, 22 (1): 7-24, 2016
Mesmo considerando sua heterogeneidade e as diversas direções
que tomou na América Latina, entrecortada pelas ditaduras
militares, a maior herança teórica da experiência reconceitualizadora
foi a aproximação do Serviço Social ao marxismo, ampliando a
interlocução crítica com as ciências sociais. Os aportes da tradição
marxista, mesmo que hauridos de fontes e veredas interpretativas
diversas, permitiram “mirar nuestra América”, suas particularidades, as
formas de dominação, as desigualdades e a iniquidade provocadas
pelo capitalismo dependente. Embora situado no curso de uma
década, as conquistas e os impulsos do Movimento de
Reconceituação reverberam nos dias atuais, em processos de
conservação/superação, de continuidade e ruptura2. Entendemos,
assim, que as profissões se transformam no movimento mesmo da
sociedade e das condições de cada época, produzem
conhecimentos, afirmam princípios, elegem valores, formulam
indicações teóricas, éticas, práticas e políticas, influindo e
espraiando-se a todo o corpo profissional. Nas palavras Gramsci
(1999, p.325-26), “a filosofia de uma época não é uma filosofia
deste ou daquele filósofo, deste ou daquele grupo de intelectuais,
desta ou daquela grande parcela das massas populares: é uma
combinação de todos esses elementos, culminando em uma
determinada direção”, torna-se “norma da ação coletiva, isto é,
torna-se história concreta e completa (integral) ”.
Assumir, portanto, o patrimônio legado pela Reconceituação e
transcendê-lo para desvendar as novas e velhas expressões da
questão social geradas nas tensões da crise e da expansão do
capitalismo na atualidade, bem como suas repercussões no
cotidiano profissional, são tarefas necessárias para ampliar e
fortalecer a vitalidade da teoria social crítica, indispensável em uma
época como a nossa, atravessada por um conservadorismo e um
pragmatismo impiedosos.
2
Sobre os diferentes rumos assumidos pelo Movimento de Reconceituação no continente latinoamericano e da particularidade brasileira ver especialmente: Iamamoto e Carvalho (1982), Iamamoto
(1998), Netto (1991), Faleiros (1987).
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1. A teoria social crítica e seus aportes para a
intervenção profissional
O Movimento de Reconceituação do Serviço Social na
América Latina, inscrito no marco de grandes eventos sócioculturais e políticos ocorridos entre os anos 1960-70 em diversas
partes do globo, descortinou um novo horizonte profissional,
marcado pela ânsia de renovação teórico-metodológica e práticopolítica. Em nível mundial, a revisão crítica das ciências sociais, os
movimentos e lutas de 1968, com destaque para o protagonismo
estudantil, os impulsos renovadores da Igreja Católica, associados à
emergência de mais uma crise do padrão de desenvolvimento
capitalista vigente desde a Segunda Guerra, repercutem no Serviço
Social em ampla escala, porém com nítidas particularidades na
América Latina. No quadro dos eventos internacionais contestamse a legitimidade do Serviço Social Tradicional e os parâmetros
profissionais norte-americanos, marcadamente conservadores e
alheios à realidade latina, abrindo-se, a partir de então, um amplo
processo de revisão crítica da profissão no continente. A pretensa
neutralidade científica e ideológica que impregnava as ciências
sociais e os fundamentos teóricos do Serviço Social são postos em
causa, forjando-se as bases iniciais de interlocução com o
pensamento marxista. Ainda que os aportes teóricos tenham sido
buscados nos manuais do “marxismo oficial”, permeados de vieses
metodologistas e epistemologistas, estes abriram possibilidades de
revisão e renovação profissional, seja de forma crítica ou
modernizadora, mas de inequívoca relevância à contestação do
conservadorismo e ao estabelecimento de canais de aproximação
do Serviço Social à teoria social crítica. Na atenta observação de
Netto (1991, p.148), “depois da reconceptualização, o pensamento
de raiz marxiana deixou de ser estranho ao universo profissional
dos assistentes sociais”.
Destarte, a despeito das vias teóricas em que ocorreu tal
aproximação, como também das controvérsias, equívocos e
direções que o processo reconceitualizador assumiu na América
9
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Latina, são inegáveis os desdobramentos e repercussões nos
âmbitos do ensino, da pesquisa, da produção de conhecimentos, na
organização política da categoria e na prática profissional3. Tanto a
obra de Marx e Engels como as das grandes expressões do século
XX, como Lenin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, Lukács,
Goldmann, também deixaram de ser alheias ao universo
profissional, adensando suas bases teórico-metodológicas e
fomentando uma cultura política com novos aportes e
interpretações, em permanente diálogo com as questões que
desafiam o tempo presente. As categorias e conceitos elaborados
por tais pensadores, tomados com maior rigor e compromisso com
o conhecimento, vêm se consolidando como ferramentas
imprescindíveis à análise das intrincadas formas de exploração, as
relações entre as classes, as nações e nacionalidades, os processos
históricos onde se produzem e reproduzem “continua e
reiteradamente a alienação de amplos setores sociais e,
simultaneamente, a luta pela emancipação” (IANNI, 1999, p.29).
Apesar das incontáveis homenagens póstumas já prestadas ao
marxismo, “reivindicando a sua utilidade apenas para um certo
período histórico”, e a imperiosa necessidade de sepultá-lo “com
todas as honras cabíveis” (GRAMSCI, 1999, p.113), é
imprescindível reconhecer que prossegue, notoriamente, como
“uma filosofia incômoda, questionadora” (KONDER, 1984, p.28).
Por isso mesmo, torna-se mister insistir em seu caráter histórico,
ampliando-o e renovando-o com a incorporação dos avanços e
conquistas dos séculos XX e XXI. Nesse sentido, Gramsci (1999,
p.95) nos alerta:
A própria concepção de mundo responde a determinados
problemas colocados pela realidade, que são bem determinados e
“originais” em sua atualidade. Como é possível pensar o presente,
e um presente bem determinado, com um pensamento elaborado
3
Vale destacar o importante papel desempenhado pelo Centro Latino de Trabajo Social (CELATS) e da
Associación Latinoamericana de Escuelas de Trabajo Social (ALAETS, hoje ALAEITS) no processo
de articulação político-profissional no continente, no incremento da pesquisa, da capacitação
continuada, bem como na publicação do conhecimento através da série Livros-Celats, da Revista
Acción Crítica e dos Cuadernos Celats.
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em face a problemas de um passado frequentemente bastante
remoto e superado? Se isso ocorre, significa que somos
“anacrônicos” em face da época em que vivemos, que somos
fósseis e não seres que vivem de modo moderno.
As descobertas científicas e teóricas do marxismo não são leis
ou verdades absolutas e eternas, mas produtos da história, e estarão
superadas quando superadas também as relações sociais capitalistas.
Por estas razões, vale registrar a pertinência da afirmação de Atilio
Borón (2006, p.97): “el marxismo continúa siendo la filosofia
insuperable de nuestro tiempo porque las circunstancias que lo
engendraron todavia no fueron superadas”. Esse “empreendimento
de apropriação do patrimônio categorial e metodológico do
marxismo, incorporado não evangelicamente, mas como um
manancial inesgotável de sugestões”, nos impulsiona “com
inteligência e criatividade, continuar pesquisando os problemas do
tempo presente” (IAMAMOTO, 1998, p.235). O marxismo é
“avesso à ideia de uma continuidade meta e supra-histórica”, pois,
Requer e necessita um debate permanente com a realidade
sempre mutável, mas passível de ser compreendida. Mais do que
um conjunto de teorias prontas e acabadas o marxismo é um
permanente processo de indagação do real e de construção das
categorias e das leis de movimento das sociedades concretas que
ele examina. Ele é a construção da inteligibilidade dos processos
sociais, históricos (DIAS, 2006, p. 122).
Mesmo considerando as divergências entre as tendências que se
desenvolveram e se desenvolvem no âmbito da tradição marxista,
com pontos de vista e interpretações diversas, podemos afirmar, na
esteira de Lukács, que a ortodoxia está no método, porque nos leva
a sermos inquietos, inquiridores, rebeldes e inconformistas. É a
teoria social crítica que possibilita entender que o funcionamento da
vida social, econômica, política e cultural não ocorre de maneira
harmônica como na natureza. Bastaria essa distinção para
pensarmos que a pobreza não é um fenômeno natural e que não
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basta a superação de seus níveis extremos, consoante às tendências
teóricas explicativas elaboradas pela intelectualidade a serviço das
agências e organismos internacionais. Esse naturalismo positivista e
pragmático é a visão do homem e do mundo atuais, que consolida
posições de resignação, de conformismo e de legitimação da ordem
estabelecida, sobretudo em um contexto histórico marcado pelo
retorno de valores conservadores próprios ao pensamento liberal
clássico. Estes reaparecem sob nova roupagem (neoliberal), porém
com uma sofisticação teórica e política aceita hegemônica e
ideologicamente como o único horizonte possível e inquestionável.
O recrudescimento de tais valores está atrelado, sem dúvida, na
presente etapa do capitalismo, não só aos processos de
financeirização da economia e ao novo padrão de acumulação
capitalista4, mas de maneira incisiva na esfera ideológica e cultural,
mediante o estabelecimento de “normas, regras de vida e de
conduta” assentadas na competição, no individualismo e na
meritocracia, balisadoras das difentes práticas sociais. Espraiam-se,
através dessa ideologia, “os discursos homofóbicos, machistas,
racistas, autoritários e elitistas, as manifestações mais abjetas de uma
visão de mundo hierárquica e preconceituosa que expressa as
profundas clivagens sociais existentes em nossa sociedade”
(BIANCHI, 2016). A difusão e a aceitação desse modo de pensar
garantem à civiltá burguesa a “conversão das diferenças em senso
comum” (DIAS, 2006, p.97), embaraçando o desenvolvimento de
uma “concepção de vida superior” e a capacidade para “forjar um
bloco intelectual e moral que torne politicamente possível o
progresso intelectual de massa e não apenas de pequenos grupos
intelectuais” (GRAMSCI, 1999, p.103). Nos termos de Losurdo
(2006, p.246), “a difusão de uma teoria [...] crítica da sociedade, é
obstaculizada de vários modos pela classe dominante”, que tem se
utilizado, de forma refinada, das mais variadas armas para a
formação de uma “nova inteligibilidade
sobre o real”
4
Trata-se da chamada crise sistêmica que emerge no início dos anos 1970, abarcando toda a
estrutura da ordem do capital com alterações no mapa geopolítico do mundo na economia, na política,
na cultura e em todas as instâncias da vida social. A esse respeito ver: Mandel (1985), (Harvey (1993),
Mészáros (2002), Iamamoto (2007), Netto (2012).
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(SEMERARO, 2006). Os saberes e práticas dos dominantes “ditam
os ritmos e as formas de todo o saber constituído” (DIAS, 2006,
p.69), limitam a atividade científica enclausurada na “razão
instrumental” e apartada de marcos analíticos forjadores de novas
subjetividades. Para além das práticas sociais, esse ocultamento
crítico, o cerceamento da liberdade e da criatividade não deixaram
imunes os que buscaram assumir, do ponto de vista teórico, a
produção de conhecimentos comprometidos com a construção de
uma nova ordem societária. Nesse cenário, prenhe de
neoconservadorismo, desaparecem as grandes oposições nos
campos político, social, filosófico, artístico e cultural, legitimando a
compreensão do real de forma fragmentária, microscópica e
individual, afeitas à chamada “condição pós-moderna”, solo fértil
para a elevação do “apanágio da direita”, como tão bem demarcou
Perry Anderson (1999).
Sem embargo, urge no cenário contemporâneo reivindicar a
tradição marxista e seu arsenal heurístico como a perspectiva
teórico-metodológica que permite, de modo radical, a interpretação
da sociedade capitalista, o desvendamento do real em sua totalidade
e contradições, sua imediaticidade e aparência. É a teoria social
crítica que nos oferece um conjunto de conhecimentos
imprescindíveis para analisar e desvelar os processos macrossociais
em suas múltiplas determinações, mas igualmente, as diversas
singularidades de indivíduos como “blocos históricos concretos [...]
e não apenas como cidadãos e assalariados, mas, pais, filhos,
companheiros” de origem rural ou urbana, “crentes ou não crentes
que são demarcados pelo real em suas ações cotidianas” (DIAS,
2006, p.119). Estas também são expressões da particularidade do
exercício profissional do Assistente Social, que se ampliam e se
complexificam, alteram e redimensionam as demandas colocadas à
profissão, exigindo, consequentemente, respostas prático-políticas
ainda em elaboração em face aos desdobramentos processuais do
modo de produção capitalista e as formas de incidência nas
diferentes esferas da vida dos sujeitos sociais. Nesse sentido,
compreender a realidade como um campo de contradições, que tem
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sua raiz nos processos de produção e (re)produção social, “a
abertura para mais longe – para o amplo horizonte do movimento
da sociedade – é que torna possível iluminar as próprias
particularidades do Serviço Social” (IAMAMOTO, 2005, p.203),
apresentando-se nos dias atuais como exigência e como desafio.
Entretanto, se do ponto de vista da totalidade e da historicidade
o marxismo referencia-se à práxis global da humanidade, ou seja,
direciona-se à superação dos limites impostos pela divisão social e
técnica do trabalho, tanto na práxis quanto na teoria, como a prática
concreta do Serviço Social se insere nesse horizonte? Partimos do
pressuposto de que as profissões e os diferentes espaços
ocupacionais são indissociáveis dos projetos societários, das forças
sociais e políticas, dos projetos de classe, e, portanto, permeadas
pelos condicionamentos histórico-sociais onde se inserem e atuam.
Se a profissão é um produto histórico, sua particularidade só
encontra significado quando situada na dinâmica societária “da qual
é parte e expressão” (IAMAMOTO, 2007, p.26). Seus fundamentos
vinculam-se ao seu “modo de pensar incorporados e construídos ao
longo do seu desenvolvimento. [...]. Decifrar essa especialização do
trabalho supõe, nesse sentido, elucidar os processos sociais que
geram a sua necessidade social”, e também “o significado de suas
ações no campo das relações de poder econômico e político”, o
embate “entre as classes sociais – e destas com o Estado -, assim
como o envolvimento no debate teórico e cultural do seu tempo”
(IAMAMOTO, 2007, p.26). Tal análise só pode ocorrer, contudo, a
partir de um arco de mediações que permite remeter a práxis
particularizada à práxis geral da sociedade.
A compreensão do Serviço Social enquanto prática profissional
passa necessariamente tanto pela compreensão da sua relação com
a práxis coletiva quanto pela forma como ocorre sua inserção na
divisão social e técnica do trabalho. É uma “atividade socialmente
determinada pelas circunstâncias sociais objetivas”, independente
da vontade particular “ou da consciência de seus agentes
individuais” (COUTINHO, 1991, s.p.) e, portanto, suscetível a
limites exclusivamente inerentes a esta ou aquela profissão, senão
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impostos pelo modo de produção capitalista, que fragmenta e
divide as práticas sociais. Em última análise, as práticas parciais só
encontram seu elo de unidade quando dissolvidas na totalidade da
práxis coletiva, cujo horizonte comum é a teoria social crítica.
Mesmo considerando que o amplo conjunto teórico e
metodológico do marxismo não encontra possibilidades analíticas
em todas as situações imediatas enfrentadas por determinada
profissão em seu cotidiano (COUTINHO, 1991), permite
compreender a atividade profissional para além dos aspectos
rotineiros e imediatos requeridos pela dinâmica institucional. A
prática profissional cotidiana possui uma demanda prévia, derivada
de necessidades concretas das classes subalternas. É um fazer
reiterativo, mas necessário ao atendimento de necessidades sociais, à
provisão de serviços essenciais à reprodução dos sujeitos sociais.
Mesmo ocorrendo no “cotidiano miúdo” (YASBEK, 2001) e
nas situações singulares de indivíduos, famílias, grupos e segmentos
populacionais, a prática profissional, não obstante, é atravessada
pelas determinações macrossocietárias. Por isso não se confunde
com o imediatismo; antes, satura de significado o tratamento das
situações imediatas, conjugadas com projeções de médio e longo
prazos, calcadas em análises de conjuntura, no desvendamento das
relações de poder presentes nos espaços sócio-ocupacionais, em
articulação com outras forças sociais (IAMAMOTO, 2007). Nesse
movimento, “os fatos particulares e a visão de conjunto se
entrelaçam contínua e dialeticamente permitindo a circulação do
empírico ao universal e vice-versa” (SEMERARO, 2006, p.20).
Somente o discernimento e a lucidez dos limites presentes na
dinâmica profissional, postos pela própria divisão sóciotécnica do
trabalho, permitem compreender que grande parte das contradições
não encontram resolutividade no âmbito das profissões, mas para
além delas. Muitas aspirações inerentes à construção de um novo
projeto societário são realizáveis somente no nível da práxis social
coletiva (COUTINHO, 1991) ou, dito de outro modo, a perspectiva
revolucionária, de emancipação humana, não encontra resolução
nos contornos da prática imediata. Muitas ações cotidianas exigem
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um encaminhamento ágil na resolução de problemas, não
comportando, neste nível, análises de maior complexidade. Se os
processos sociais mais amplos não têm uma incidência “imediata e
automática” nas ações práticas interventivas, “a compilação de
observações práticas” e o registro de fatos particulares constituemse na matéria-prima por excelência do processo investigativo. Estas
necessitam, contudo, ser remetidas à reelaboração teórica, através
da pesquisa, transformando-se em possibilidades de respostas
técnicas e políticas qualificadoras da ação profissional
(IAMAMOTO, 2007).
É através da pesquisa e da análise crítica que temos condições
de “apanhar a imediaticidade dos fenômenos, identificando [...] as
relações e determinações subjacentes à capilaridade das demandas,
desconstruindo-as enquanto objeto de conhecimento” (MOTA E
AMARAL, 2014, p.40), tomar posições políticas, analisar as
condições favoráveis ou não à tomada de decisões em determinadas
conjunturas históricas que podem impactar na vida cotidiana,
analisar o papel do Estado e como se materializa na relação com as
classes sociais, as tendências das políticas sociais, as forças e os
interesses em jogo, os antagonismos e contradições que presidem o
modo de produção capitalista e impactam a totalidade das relações
sociais. Assim, o conhecimento do cotidiano, não tomado em si
mesmo, mas constitutivo dos processos históricos, manifesta-se
como “local de embate de projetos” e não “mera erudição
desprovida de sentido” (DIAS, 2006, p.111). As determinações
objetivas presentes na realidade e independentes da vontade dos
agentes profissionais, normalmente pautadas na estreita concepção
de que os espaços de atuação profissional são “instâncias
unicamente reprodutoras do capital”, longe de evocarem posturas
messiânicas e imobilistas, convocam à atuação crítica, descortinam
as múltiplas possibilidades de interferir ativamente na história,
através de um “espírito crítico” capaz de forjar projetos alternativos
de sociedade (SEMERARO, 2006; SILVA, 2013).
Permanece, portanto, a insistência de que a prática profissional
requer o domínio de sólidos conhecimentos teóricos
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imprescindíveis à leitura e desvendamento do real, mas igualmente
de instrumentais técnico-operativos necessários à elaboração de
respostas críticas e propositivas diante das demandas atuais ou
emergentes que se apresentam nos diferentes espaços ocupacionais,
sem perder de vista as referências inerentes aos projetos societários
em disputa. Parafraseando Gramsci, é imperioso afirmar que todo
profissional, não importa sua especialização, é portador de
conhecimentos e critérios gerais que devem estar ativos em seu
trabalho. “Quem não tenha uma plena inteligência dos conceitos
utilizados, quem tenha escassa formação e conhecimento do estágio
precedente dos problemas tratados, quem não seja [...] cauteloso em
suas afirmações” e ainda, “quem não progrida de maneira
necessária, mas sim arbitrária e sem concatenação, quem não saiba
levar em conta as lacunas que existem nos conhecimentos já
atingidos, mas as ignore e se contente com soluções ou nexos
puramente verbais” (GRAMSCI, 1999, p.123), fortalece posturas
triviais e acríticas, que obstaculizam a tomada de posição diante de
necessidades objetivas, como também o impulso para ampliar e
desenvolver ações na perspectiva de unificação do gênero humano.
Mesmo sendo um trabalhador assalariado, o assistente social dispõe
de relativa autonomia nos diversos espaços sócio-ocupacionais, seja
no âmbito do Estado, das organizações empresariais, junto ao
Terceiro Setor ou outras instituições da sociedade civil. Essa relativa
autonomia possibilita imprimir uma direção social ao exercício
profissional (certamente nos limites contratuais e legais), podendo,
contudo, tanto legitimar a ordem existente quanto reorientar a
prática profissional, de acordo com os interesses dos usuários,
numa perspectiva contra hegemônica e emancipadora.
O princípio que orienta a presente argumentação é o de que não
existe prática sem teoria. A filosofia da práxis ou o marxismo não
está cindida nesses dois momentos - o primeiro vinculado à
produção teórica e à investigação e o segundo à lógica formal,
entendido de modo experimental, “no sentido vulgarmente
positivista”. Se não há separação entre teoria e prática e se “não há
atividade humana da qual se possa excluir toda intervenção
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Sociedade em Debate, 22 (1): 7-24, 2016
intelectual, não se pode separar o homo faber do homo sapiens”
(GRAMSCI, 2000, p.53). Em suma, todo homem participa de uma
concepção do mundo, e contribui para manter ou para modificar tal
concepção, ou seja, é capaz de suscitar novas maneiras de pensar.
“Pode ocorrer, aliás, que a sua consciência teórica esteja
historicamente em contradição com o seu agir”, o que muitas vezes
cria um estado de imobilismo e de “passividade moral e política”
(GRAMSCI, 1999, p.103). Concordamos, portanto com a premissa
gramsciana de que “a unidade de teoria e prática não é um dado de
fato mecânico”, mas um devir histórico, remetendo à arguta e
propositiva análise de que toda “ação é sempre uma ação política”
(GRAMSCI, 1999, p.104) e que “a escolha e a crítica de uma
concepção de mundo são, também elas, fatos políticos”
(GRAMSCI, 1999, p.97).
Se nem todo assistente social é um pesquisador, certamente
pode contribuir, através da sistematização de suas práticas, com um
material empírico de inequívoca relevância para estudos e pesquisas
voltados à ampliação do horizonte profissional. A atitude
investigativa possibilita refletir e construir perspectivas e programas
de ação, mobilizar outras forças, contribuir na criação de
mecanismos voltados à desburocratização dos serviços, ampliar as
relações com os sujeitos demandantes, melhorar a qualidade do
atendimento, o acesso a direitos, a socialização de informações, a
utilização de leis, estatísticas e indicadores, a análise de orçamentos
públicos. Há um conjunto de conhecimentos necessários à
qualificação das novas demandas colocadas à profissão, seja no
âmbito do planejamento, da gestão, da avaliação e da execução das
políticas sociais, na atuação em equipes multiprofissionais e de
inúmeras outras funções, o que requer um perfil profissional com
bagagem teórica, “culto e crítico”, capaz de “formular, recriar e
avaliar” ações e propostas, avançando para além do instituído. Nas
palavras de Gramsci (1999, p.128): “A atividade crítica é a única
possível, notadamente no sentido de colocar e resolver criticamente
os problemas que se apresentam como expressões do
desenvolvimento histórico”. Nesse sentido, a teoria não é
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meramente “um complemento”, um “acessório” da prática, mas
constitutiva da práxis voltada à transformação social.
Uma prática profissional lida e interpretada à luz das referências
buscadas na teoria social crítica será tão mais rica e mais ampla
quanto maior for a capacidade de apropriação do conhecimento
produzido, de interlocução com as contribuições de outras
vertentes teóricas, às formulações analíticas acumuladas no
processo de produção científica e cultural em diálogo crítico e
constante, sem, contudo, resvalar para o ecletismo. Na expressão de
Atilio Bóron (2006, p.39), “un marxismo racional e abierto puede
contribuir decisivamente” para mudar a situação em que nos
encontramos, “dotándonos de instrumentos idóneos para
interpretar y cambiar el mundo. Sólo con el marxismo no lo
logramos, pero sin el marxismo tampoco”.
Considerações finais
Pensar o Serviço Social a partir do legado do Movimento de
Reconceituação, das profundas transformações societárias e dos
processos de reestruturação do capitalismo ocorridos nas décadas
subsequentes e que adentram o século XXI coloca-nos diante de
vários desafios, especialmente diante do avanço da ofensiva
conservadora que atravessa saberes e práticas nos dias atuais,
apoiadas nas tendências pós-modernas e na desqualificação da
teoria social crítica. Alguns indicativos podem nos ajudar nesse
campo:
- Compreender o Movimento de Reconceituação como um
processo de continuidades e rupturas, revigorando as luzes lançadas
na imputação e crítica ao conservadorismo profissional,
potencializando a compreensão e análise da sociedade e da
profissão a partir do legado da teoria social crítica;
- Reafirmar a perspectiva crítico-dialética, imprescindível para
interpretar os processos histórico-sociais, potencializando a
formação de uma cultura política crítica desencadeadora de ações
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propositivas frente a crescente e inescrupulosa desigualdade e as
formas de exploração que se naturalizam nos dias atuais;
- Ampliar o diálogo com o pensamento social clássico e
contemporâneo, buscando uma apropriação mais consistente de
categorias e princípios teórico-metodológicos, não de forma
cristalizada e enrijecida, senão como possibilidades para a
explicação dos processos sociais mais amplos e as mediações com
as ações profissionais;
- Fortalecer a pesquisa e a produção de conhecimentos,
ampliando as relações entre a academia e os profissionais,
necessárias ao desenvolvimento de uma função mais unificadora,
potencializando a atitude crítica e investigativa;
- Oferecer uma sólida formação teórica, que possibilite
compreender os novos cenários nos contextos nacional, regional e
mundial, como também a capacidade técnico-operativa que envolve
competências e habilidades requeridas para uma prática profissional
crítica;
- Investir no permanente e contínuo processo de capacitação
dos profissionais, com cursos lato e stricto sensu para fazer frente às
novas demandas e a elaboração de respostas “mais qualificadas (do
ponto de vista técnico-operativo) e mais legitimadas (do ponto de
vista sociopolítico) para as questões que recaem no [...] âmbito de
intervenção profissional” (NETTO, 1996, p.124);
- Afirmar a permanente e inequívoca atualidade do marxismo,
não apenas como um método voltado à leitura do real, mas como
teoria decisiva à crítica da ordem capitalista, necessária ao
desvendamento de suas armadilhas ideológicas e dos “cantos de
cisne” que produz como verdades acolhidas e incorporadas de
forma passiva, acrítica e desencarnada da história.
Referências
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Sociedade em Debate, 22 (1): 7-24, 2016
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Recebido em 31/03/2016 e
aceito em 25/04/2016.
________________________________________________________________
Resumo: O objetivo do presente artigo é resgatar o legado do Movimento de Reconceituação
enquanto marco das primeiras aproximações do Serviço Social à tradição marxista. Discute os
23
Sociedade em Debate, 22 (1): 7-24, 2016
desdobramentos desse processo como um movimento de conservação/superação, reafirmando a
relevância da teoria social crítica (tradição marxista) na atualidade. Através de pesquisa teórica e
bibliográfica, conclui que o marxismo prossegue como a teoria que ainda oferece os instrumentos
conceituais mais refinados à elaboração de uma análise global da sociedade, bem como indicativos
fundamentais à qualificação da prática profissional em suas diversas expressões.
Palavras-chave: Marxismo, Movimento de Reconceituação, Serviço Social, prática
profissional.
________________________________________________________________
________________________________________________________________
Title – Critical Social Theory and Social Work: Fifty Years of the Reconceptualization
Movement
Abstract: The purpose of this article is to retrieve the legacy of the Reconceptualization
Movement as a milestone of the first convergences of Social Work and the Marxist tradition. It
discusses the unraveling of that process as a movement of conservation/improvement, reaffirming
the relevance of critical social theory (Marxist tradition) today. Based on theoretical and
bibliographical research, it concludes that Marxism still remains the theory that offers the most
refined conceptual tools for a comprehensive analysis of society, as well as fundamental indicators
for the qualification of professional practice in its various expressions.
Key words: Marxism, Reconceptualization Movement, Social Work, Professional Practice.
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