A filosofia e as provas da existência de Deus

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VII Ciclo de Estudos da Religião: Fé e Conhecimento
21 a 23 de setembro de 2004
Núcleo de Estudos da Religião - ICHS - UFOP
A filosofia e as provas da existência de Deus
Samuel Leal de Carvalho
Departamento de Letras - ICHS - UFOP
Resumo ______________________________________________________________________
As muitas provas da existência de Deus são quase todas de cunho filosófico, conceitual,
especulativo. Isso porque Deus não pode ser visto unicamente sobre uma visão de fenômeno,
uma visão física. Ele ultrapassa todas essas perspectivas, enquanto perfeição abstrata,
transcendente. A existência de Deus é melhor analisada, portanto, quando usamos o puro
raciocínio especulativo. Foi assim que Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, Santo
Agostinho, Kant, São Boa Ventura, René Descartes, Leibniz, Cônego Rosmini e tantos outros
obtiveram sucesso ao afirmar que Deus existe. No entanto, para contento daqueles presos à
ciência experimental abordarei a prova Cosmológica da existência de Deus. Prova esta não
totalmente conceptual.
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Introdução
As muitas provas da existência de Deus são quase todas de cunho filosófico, conceitual,
especulativo. Isso porque Deus não pode ser visto unicamente sobre uma visão de fenômeno,
uma visão física. Ele ultrapassa todas essas perspectivas, enquanto perfeição abstrata,
transcendente.
A existência de Deus é melhor analisada, portanto, quando usamos o puro raciocínio
especulativo. Foi assim que Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Kant,
São Boa Ventura, René Descartes, Leibniz, Cônego Rosmini e tantos outros obtiveram sucesso
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ao afirmar que Deus existe. No entanto, para contento da maioria dos físicos e daqueles presos à
ciência experimental, os que não compreendem o alcance filosófico, abordarei a prova
Cosmológica da existência de Deus. Prova esta não totalmente conceptual.
É de suma importância, ainda, destacar o preconceito e as meras afirmações sem
argumentos dos que se dizem ateus, quando insistem em afirmar que Deus não existe. Está
demonstrado em ampla pesquisa histórica (pouca dela aqui segue) que quem crê na existência de
Deus tem provas, mesmo que a dúvida possa perturbá-lo de vez em quando. Já o ateu, aquele que
nega a existência de Deus, pode cultivar dúvidas, mas não tem provas para afirmar que Deus não
existe.
Prova Ontológica
É com Santo Anselmo que esta prova é apresentada de forma impressionante. Santo
Anselmo, considerado melhor filósofo e maior sábio do século XI, apresenta a prova Ontológica
no seu volumoso Proslogium. Assim é a síntese desta prova:
Geralmente, a idéia que todos, inclusive os ateus, têm de Deus é que Ele é o máximo, que
algo maior não pode ser pensado (Id quo maius cogitari nequit). Para essa idéia não ser
contraditória e incoerente, esse máximo não pode existir somente no pensamento, no intelecto,
pois se assim o fosse, o pensamento já seria maior que o máximo. Portanto não sobrevive
dúvidas: Deus tem de existir na realidade.
Seria também válido aplicar esse argumento do ponto de vista das essências. Se muitas
vezes há discussões sobre a essência de Deus, necessita-se de frisar que uma essência cuja nãoexistência seja possível é menos perfeita do que uma essência cuja não-existência seja
impossível. Por fim, quem pensa na essência de um ser que poderia não existir não estaria se
referindo ao máximo, a Deus.
Prova Cosmológica
A prova Cosmológica é exposta por Kant em Crítica da Razão Pura. Esta prova é chamada
cosmológica porque Kant busca provar a existência de Deus a partir de um objeto de experiência;
como todo objeto de toda experiência possível é o cosmo, daí seu nome: Prova Cosmológica.
A Prova Cosmológica foi também duramente defendida pelo Pe. Copleston na polêmica
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com Bertrand Russell. Eis a prova:
Todos sabemos que a maioria dos seres, ou todos os seres, deste mundo não tem em si
próprios a razão da sua existência. É só fazermos uma analogia desta tese com a própria raça
humana. Nó dependemos de nossos pais, do ar, dos alimentos, da água, etc. E o mundo, conjunto
de objetos, também não apresenta, exclusivamente em si, a razão de sua existência. Portanto, já
que nenhum objeto da experiência contém em si a razão de sua existência, a totalidade deles tem
de ter uma razão externa a essa totalidade, a qual também não tem a razão da sua existência em
si. Isto é: tem de haver uma razão para um ser que existe.
Se procurarmos essa razão para os seres que existem, partindo desses mesmos seres e
procendendo ad infinitum, não chegaremos a lugar algum; a não ser que admitamos que exista
um ser que tem em si a razão da sua própria existência, isto é, um ser que exista necessariamente.
Assim, todos os seres existentes dependeriam desse Ser Necessário, Deus.
As Cinco Vias
As Cinco Vias são parte da Prova Cosmológica, caracterizada a partir de pontos mais
claros. São chamadas também como "Cinco Vias de São Tomás de Aquino", mas não são
propriamente tomistas. Algumas vêem inclusive de Platão e Aristóteles.
As Cinco Vias têm uma estrutura uniforme e singela, além de constar de quatro momentos:
1) Algum fenômeno contingente (movimento, causa, possibilidade, graus de perfeição,
enteléquia);
2) Destaca-se o caráter dependente desse fenômeno contingente;
3) Não se resolve o problema com uma série infinita de seres contingentes;
4) É necessário chegar a Deus: Motor imóvel, Causa Incausada, Ser Necessário, Máxima
Perfeição, Organizador Sapientíssimo.
Primeira Via: O Motor Imóvel.
O Motor Imóvel fica melhor entendido se usarmos da ilustração de várias engrenagens
juntas. Imaginemos um grande relógio em que uma engrenagem, engatando com seus dentes
outra engrenagem, fizesse mover e funcionar todo o aparelho.
Percebemos, assim, que é o iniciar do movimento de uma engrenagem que faz com que as
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outras entrem também em movimento. Daí é lícito perguntar: o que fez a primeira engrenagem
entrar em movimento? Para a engrenagem entrar em movimento é necessário que um primeiro
“motor” a impulsionasse, o motor imóvel. Motor que a partir de si tudo se move, mas ele mesmo
mantém-se imóvel.
Transferimos esse exemplo para uma associação com o universo. O universo seria o
conjunto de engrenagens móveis (e Disso a física não tem como fugir, pois continua inabalável a
certeza de que o cosmos é absolutamente móvel e está absolutamente em contínuo fluir) e Deus
seria o primeiro motor, a causa de tudo (porque, também para a física, o cosmos é absolutamente
contingente).
Segunda Via: Causa Incausada
Sabemos que o cosmos é contingente. Sabemos ainda que toda causa tem um efeito e que
este efeito pode ser causa de outro efeito. E assim por diante, mesmo que isso se proceda ad
infinitum.
Chamamos a causa primeira de causa eficiente e as que dela derivam de causas
subordinadas. Àquelas causas que também são efeitos, chamamos de causas intermediárias.
Registramos disso tudo que a causa primeira é causa da intermediária e esta é causa da
última. Ora, eliminada a primeira causa, remove-se também o efeito. Portanto é imprescindível a
Causa Primeira, e a Ela damos o nome de Deus.
Terceira Via: O Ser Necessário
O ponto de partida da Terceira Via é que nada começa a existir senão mediante algo que
existe. Se, por um lado, começarmos a especular infinitamente a existência de cada coisa, não
chegaremos a lugar algum. É preciso, por outro lado, admitirmos a existência de um ser que tenha
em si mesmo a necessidade de existir e não a tenha recebido de outros. Este ser será, portanto, a
causa da existência de todos os outros. A este ser chamamos Deus.
Quarta Via: A Suma Perfeição
A física lógica nos ensina que elaborar conceitos só são possíveis se estabelecermos uma
referência para as relações donde eles levantam vôo.
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É como o conceito de movimento. Um carro está em velocidade numa rodovia. Um garoto
está encostado numa placa desta mesma rodovia. Estabelecendo o garoto como ponto de
referência, para ele o carro está em movimento; estabelecendo como ponto de referência o
motorista do carro, para ele, o garoto encostado na placa está em movimento e ele (o motorista)
está parado, em inércia.
Mas o que tudo isso tem a ver com provar a existência de Deus? É simples, é uma lógica
semelhante aplicada sob outra perspectiva. Também temos os conceitos de maior ou menor grau,
que necessariamente exigem uma referência. Se conceituamos algo como sendo grau maior ou
menor temos de ter uma referência-limite no máximo.
Assim, no plano ideal, o Máximo toma aqui o nome de Suma Perfeição e esta é a causa do
grau maior ou menor grau de perfeição, de poder, de beleza, de bondade, de inteligência, de
sabedoria, de ser, etc. A esse Máximo chamamos Deus.
Quinta Via: O Criador e Organizador
“Esta convicção de uma Razão Superior que se manifesta no mundo da
experiência é minha concepção de Deus”
Albert Einstein.
São Tomás de Aquino dá-nos um bom exemplo para ilustrar a Quinta Via. Ei-lo: a flecha só
é flecha porque foi destinada a esse fim pelo arqueiro. Esse exemplo nos faz refletir o porque de
corpos físicos agirem a um determinado fim, se eles não possuem inteligência para isso.
A resposta está bem à vista: os corpos físicos agem em função de um fim, porque uma
inteligência assim o programou. A ordem remete sempre a um ordenador. Na ordem cósmica,
histórica e universal, chegamos logicamente a um organizador sumamente inteligente,
sumamente ativo, sumamente cuidadoso. Portanto existe um Ser Inteligente que ordena todas as
coisas naturais para um fim. Esse ser é chamado Deus.
Conclusão
A razão, o puro raciocínio, é uma das características mais sublimes do homem. Ela o torna
livre. Livre para chegar a respostas sobre si mesmo. Livre para pensar sobre seres transcendentes,
abstratos e até para crer na existência deles.
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Ao contrário, aqueles das ciências experimentais parecem não usar da razão, parecem não
conseguir raciocinar por si só sem que haja uma molécula, um nome científico, uma fórmula que
provem esse raciocínio. Mas o que representam essas provas diante da maior potência científica
que é a razão humana? É só analisar o quão menos potente são as sublimes provas táteis das
ciências experimentais: há alguns anos, pensava-se que a mulher fosse mais forte biologicamente
que o homem, isso porque ela tem os cromossomas sexuais XX e o homem XY. Assim a mulher,
através dos dois cromossomas XX, teria uma resistência biológica redobrada; ela seria mais forte
que o homem a gripes, febres, dores, etc. Com o avanço da tecnologia na pesquisa do genótipo
humano, concluiu-se que um dos cromossomas X da mulher é “defeituoso”. A partir de então, ela
deixa de ser mais forte biologicamente que o homem.
Vimos, então, através do Raciocínio e das Provas Ontológica, Cosmológica, Primeira Via:
O Motor Imóvel, Segunda Via: Causa Incausada, Terceira Via: O Ser Necessário, Quarta Via: A
Suma Perfeição e a Quinta Via: O Criador e Organizador, que a filosofia é habilmente capaz de
provar, lançando mão da razão, que não chegamos a resposta alguma para as perguntas “donde
provém esta ordem?” e “donde viemos?” se não chegarmos a um Ser Motor Imóvel, um Ser
Causa Incausada, um Ser Necessário, um Ser Suma Perfeição e, por fim, um Ser Criador e
Organizador.
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Referências Bibliográficas
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