Primeiras ações de Dilma parecem governo `Lula 3`, diz Mantega

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Folha de Sao Paulo 27/02/2011 - 07h16
Primeiras ações de Dilma parecem
governo 'Lula 3', diz Mantega
ELEONORA DE LUCENA
ENVIADA ESPECIAL A BRASÍLIA
Cortes, aumento de juros, reajuste contido do salário mínimo. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, diz que
esses primeiros movimentos do novo governo não significam virada na economia, nem choque ortodoxo.
Para ele, há apenas continuidade: "o governo Dilma não é nem parecido nem com Lula 1 nem com Lula 2. É
parecido com Lula 3".
Mantega diz, porém, que é hora de um recuo do Estado. As taxas de juros do BNDES vão subir e o ministro
espera que as empresas busquem financiamento privado.
O titular da Fazenda afirma que não está puxando o freio de mão da economia, mas acrescenta que o Brasil
ainda não tem condições de crescer 7,5% por conta dos gargalos estruturais.
Sergio Lima/Folhapress
Em seu gabinete em Brasília, Guido Mantega diz movimentos do novo governo não significam
virada na economia
Folha -- Quais as diferenças entre os governos Dilma e Lula?
Guido Mantega -- Tem muito mais semelhanças do que diferenças, por que é um governo de continuidade.
Embora os personagens sejam diferentes, cada um tenha as suas peculiaridades, vamos dar continuidade à
política de desenvolvimento iniciada no governo Lula. Nossa missão é consolidar o desenvolvimento que foi
iniciado no governo Lula. Significa que a estratégia econômica bem-sucedida que foi praticada nesse período
continua. Então esse governo possui a mesma estratégia econômica. É bom deixar claro, porque tem gente aí
fazendo confusão. É a mesma estratégia, porém aplicada a um momento diferente.
E o que está diferente? Muitos relacionam o salário mínimo, o aumento de juros e o corte no
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Orçamento a uma virada para um aperto na economia, contrária à toada que vinha até então.
Não tem virada nenhuma, é um equívoco achar que existe mudança na estratégia econômica. O que acontece é
que num período anterior nós passamos por fases diferentes. Num período de crise, nós combatemos a crise.
Então é a mesma estratégia de desenvolvimento. Isso tem que ficar claro. A prioridade máxima era implantar o
desenvolvimento, e ele foi implantado. O Brasil já tem um crescimento diferente do que tinha no passado.
Mas por que precisa frear agora?
Acontece que nós passamos por dois anos de recuperação da crise, tivemos um ano com PIB quase negativo,
em 2009, e em 2010, um ano de recuperação, que nós tivemos que usar todas as armas que tinha o Estado
para consolidar essa recuperação. O que não é uma questão trivial, porque a maior parte dos países do mundo
falhou nessa recuperação, até agora não se recuperou.
Aqui no Brasil, a gente acaba simplificando, minimizando que houve uma crise. Muitos colegas seus até
esquecem que houve uma crise e dizem: ah, o governo ficou gastando durante dois anos. Mas que história é
essa? Nós tivemos a maior crise da história do capitalismo atual e nós tivemos que enfrentá-la e, para isso,
usamos todas as armas que tínhamos. Felizmente tínhamos muitas armas. O Estado brasileiro tinha muitas
armas. Talvez até mais que o Estado americano. E nós as usamos nesse período.
Então nós implantamos vários estímulos à economia que implicaram gastos maiores do governo. Implicaram
subsídios, desonerações, tudo aquilo que nós fizemos. Quando a economia começou a dar sinais de
recuperação, nós já começamos a eliminar os estímulos. Se você olhar o primeiro trimestre de 2010, eu já
estava tirando a desoneração do IPI, já estava caindo. Quando a economia deu sinais de solidez, de que ela
estava recuperada, nós tínhamos voltado àquele patamar de 2007/2008, quando o Brasil já estava numa
trajetória de desenvolvimento sustentado, nós passamos a retirar os estímulos. Isso se chama política
anticíclica. Eu repito isso à exaustão, mas parece que alguns não entendem.
Mas agora a questão é frear a economia. Por quê?
Justamente. Porque como a economia já adquiriu o seu dinamismo próprio, então o Estado pode recuar. Isso é
clássico, está em livro-texto, não estamos inventando nada.
Mas não é só um recuo. O salário mínimo, por exemplo...
Este ano nós estamos acabando de eliminar todos os estímulos que foram introduzidos ao longo desse tempo, o
que significa diminuir o gasto público, que tinha aumentado mais do que o normal, e reduzir despesas de um
modo geral, reduzir subsídios, o BNDES vai subir as taxas de juros --que elas tinham baixado para estimular a
economia, com subsídio do governo federal. Porque nós equalizamos, significa que pagamos a diferença entre o
custo deles e as taxas de mercado. Agora nós estamos recuando nisso. É absolutamente normal, porque a
economia já está sólida. Como nós temos segurança de ela vai seguir, então nós estamos reduzindo as
despesas. O salário mínimo não é uma redução de despesa, é o cumprimento de um acordo que foi firmado no
passado e que nós queremos cumprir. E que tem que valer para os dias bons e para os dias ruins também.
Sobre o salário mínimo, a presidente durante a campanha e no seu discurso de posse enfatizou
muito a questão do combate à miséria como a prioridade zero desse governo. Essa decisão de
arrochar o salário mínimo, pois ele não teve praticamente nenhum ganho real, não vai de encontro
a esse objetivo maior de combater a miséria?
Não sei em que país estão arrochando o salário mínimo, mas certamente não é no Brasil. Porque nós estamos
praticando uma política de valorização do salário mínimo, que teve sua maior elevação no período do governo
Lula, nos dois mandatos, e o que nós estamos é afirmando a política de valorização do salário mínimo. Não tem
arrocho nenhum. O que tem é uma regra que foi estabelecida e que nós queremos cumprir. Os R$ 545,00 são
resultado dessa regra. Não tem arrocho nenhum. Nós estamos corrigindo a inflação, aliás até um pouco acima
da inflação média, que é 6,3%. Significa que ele mantém o poder aquisitivo.
Agora, essa política de salário mínimo tem que ser vista no bojo das políticas de desenvolvimento do governo.
Ela não é única política. Ela faz parte de várias políticas que aumentaram o emprego no país e o salário médio
de toda a população. Porque o que o governo queria não era só aumentar o salário mínimo, mas criar
condições para que os salários subissem no país, como de fato subiram. Agora é muito importante que a gente
estabeleça regras e acordos e cumpra esses acordos. Uma das características do governo Lula e que
certamente será mantida no governo Dilma é o cumprimento de acordos, é o cumprimento de contratos. Nunca
rompemos contratos, acordos, seja lá com quem for, seja com os empresários, seja com os trabalhadores. Aqui
nós estamos cumprindo um acordo com os trabalhadores.
Mas os trabalhadores reivindicavam um reajuste maior. O salário mínimo hoje é a metade do que
era em 1940.
Acho que é função dos trabalhadores reivindicar cada vez mais. Até a oposição começou a reivindicar algo que
nunca deu quando teve a oportunidade de dar. Acho curioso essas manifestações de dar R$ 600. Então por que
não deram quando estavam no governo? E não deram. Aí de repente tem espaço fiscal. Então nós somos muito
coerentes. Nós mantemos a nossa linha de coerência. Foi feito um acordo, uma modalidade que beneficia os
trabalhadores, mas também dá um horizonte de despesa, porque nós não podemos trabalhar com a despesa ao
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sabor de pressões. Isso é muito importante. Nós somos um governo que é responsável. Assim como nós
queremos o crescimento, nós temos que olhar também para a solidez fiscal.
Aliás, nós zelamos pela solidez fiscal aos longo de todo esse período, desde 2003 até 2010 zelamos. E o sinal
que nós estamos dando é de que nós continuaremos a zelar pela solidez fiscal. É claro que quando teve a crise,
nós tivemos que diminuir o [superávit] primário, como o mundo inteiro fez. E agora nós vamos voltar ao que
era antes e para isso nós temos que controlar certas despesas. O salário mínimo impacta a Previdência. Então,
se você exagerar na dose...
Se nós fizéssemos o que a oposição queria, aumentar para R$ 600, nós teríamos um gasto adicional de R$ 19
bilhões este ano. Eu acho que aí seria uma irresponsabilidade fiscal. Não dá para acrescentar uma despesa de
R$ 19 bilhões no momento em que nós estamos reduzindo despesas.
E sobre os cortes? Há quem diga que os cortes também vão de encontro a essa política de
desenvolvimento. Os cortes no orçamento vão atingir os investimentos? Os cortes no custeio
geralmente afetam os mais pobres.
Essa redução dos gastos no setor público é porque nós achamos que os gastos do setor privado, a demanda do
setor privado é suficiente para manter a economia num ritmo de crescimento satisfatório em torno de 5%. Essa
é meta, a previsão do governo, manter 5%. Então isso não tem nenhuma semelhança com políticas feitas no
passado, de ajuste fiscal, daqueles ajustes que derrubam a economia.
Qual a diferença?
A diferença é que nós agora estamos tirando o impulso adicional que foi dado. Mas nós estamos mantendo os
investimentos. Nós estamos mantendo o estímulo a investimento privado, o que é muito importante.
Mas o sr. não disse que vai aumentar a taxa de juros no BNDES? Isso não vai ter impacto no
investimento?
Mas nós acabamos de fazer medidas desonerando debêntures do setor privado no final do ano passado.
Fizemos várias medidas.
Mas economia vai encolher e isso não é um estímulo a investimento.
A economia não vai encolher. Quem fala isso não entendeu.
A economia vai reduzir o ritmo de crescimento.
A economia está crescendo desde 2004, o que é algo inédito. Ela teve um decréscimo na crise, um ano apenas.
Ela decresceu 0,6%. Futuramente isso vai ser revisado, acredito até que tenha não sido tudo isso. E ela voltou
a crescer em 2010. E ela continuará. Alcançamos um outro patamar de crescimento. O Brasil é hoje um país de
4,5%, 5% de crescimento.
O Brasil nunca poderá ser como a China e crescer 10%, 12%?
Não, porque..
Por que não?
Não. Não sei se nós vamos poder ser como a China. É que a China é um país completamente diferente, num
outro nível de desenvolvimento. Metade da China é agrária, o Brasil já não é.
Mas para atacar a pobreza não deveria haver mais investimento?
O Brasil em 2002 estava entre os países de crescimento moderado, Estados Unidos e Europa crescendo pouco.
A Ásia já despontava como uma potência emergente. Nós colocamos o Brasil na liderança do crescimento.
Depois da China e da Índia.
Hoje o Brasil é um dos países que tem liderança. O crescimento de 5% este ano será o terceiro ou quarto entre
os países emergentes.
Por que o sr. acha que não dá para continuar no ritmo de 7,5% e tem que reduzir?
7,5% foi um crescimento excepcional que se sucedeu a um ano com zero de crescimento. Você tem que olhar a
média. O Brasil ainda não tem condições de crescer a 7,5%, ele terá. Porque você pode ter pontos de
estrangulamento. Se você continuar crescendo a 7,5%, sem ter passado por uma crise. Ou seja, quando deu a
crise você teve capacidade ociosa etc e tal. Mas, se você continuar crescendo exageradamente, você tem falta
de mão de obra, falta de infraestrutura. Tudo isso nós não temos no Brasil, é bom deixar claro.
Agora, se a gente insistir, se a gente deixasse nessa toada aí, nós poderíamos nos defrontar com pontos de
estrangulamento. Então como nós trabalhamos para um crescimento sustentado equilibrado, nós moderamos o
crescimento, não derrubamos o crescimento. Essa é a diferença. Então não é um ajuste fiscal clássico,
conservador, igual àquele que você já viu no Brasil várias vezes. É um ajuste que mantém os investimentos,
que mantém a economia crescendo, mantém o estímulo ao setor privado. Para nós o mais importante é o
investimento total do país. É bom deixar claro. O Estado só investe onde o setor privado não tem condições.
Então nós tivemos que aumentar investimento, principalmente em infraestrutura para não deixar criar gargalo.
Energia elétrica, meios de transporte etc. Nós tivemos que aumentar porque era muito baixo no Brasil.
Agora, se o setor privado puder cumprir essa função, nós ficamos agradecidos. E o Estado vai cuidar de outras
questões. O importante é ter a garantia de que vai haver o investimento. No ano passado o crescimento do
investimento no Brasil cresceu mais do que na China. O crescimento do investimento sobre o ano anterior foi
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mais de 20% cresceu mais do que na China, que cresceu uns 13%. É claro que o investimento na China como
proporção do PIB é maior do que o do Brasil. Investimento total, público e privado. Para mim não interessa se é
público ou privado. Não interessa a cor do gato, interessa é que ele consiga comer o rato. Nós queremos comer
todos os ratos. O investimento vai continuar crescendo no Brasil. O governo continuará criando as condições
para o investimento e vai manter o investimento público. Só que ele não vai crescer tanto quanto cresceu em
2010 em relação a 2009.
Essa é uma diferença. Ele não vai crescer tanto porque não precisa crescer tanto. E porque poderia
comprometer as contas públicas se crescesse mais. Essa é a arte da política econômica: crescer com equilíbrio.
Se você exagera no investimento, mesmo que seja público, pode criar um problema fiscal e nós não queremos.
Então nós vamos até onde não se cria um problema fiscal. E seguindo a trajetória de contas sólidas. O Brasil é
um dos países que tem as contas mais sólidas do mundo. O nosso déficit nominal é um dos menores do G20. É
o segundo ou o terceiro menor do G20. Melhor que o nosso, só o da Arábia Saudita, mas...
Mas a inflação também um temor nesse quadro? Quanto o sr. está preocupado com a inflação?
A política antiinflacionária desse governo é exatamente igual à do governo anterior, que era nosso mesmo. Ou
seja: não vamos descurar da inflação em nenhum momento. A inflação é ruim porque prejudica principalmente
os trabalhadores e o nosso governo procurou beneficiar fundamentalmente os trabalhadores brasileiros.
Embora outros setores tenham se beneficiado. Acabaram de sair os dados sobre os lucros dos
bancos..
Esse é o sucesso do nosso governo. Nós conseguimos beneficiar a população como um todo. Mais os pobres e
menos os banqueiros. Mas nós beneficiamos pobres e banqueiros. Não é uma beleza? Outro dia eu vi um
desses analistas aí, que cobra uma fortuna para fazer aquelas análises bastante discutíveis, que dizia: olha, o
governo está errado, porque ele estimulou o mercado interno, deu crédito e deu crédito para os banqueiros,
deu mais crédito para a indústria. Então ele achava aquilo incompatível. Não, é uma inovação. Nós
conseguimos beneficiar toda a sociedade, porque quando o país cresce bastante em geral todo mundo se
beneficia. Só que se você olhar as análises do Marcelo Neri, o setor cuja renda mais subiu foi o setor de baixa
renda.
Mas aí o sr. está falando só da renda do salário, o que é uma coisa limitada.
É, mas é alguma coisa. Antigamente era assim: concentrava a renda do trabalho e ainda tinha renda do capital.
Mas a percentagem da renda do trabalho na massa total diminuiu.
Mas quem cria emprego no sistema capitalista são as empresas, são investimentos. Então não dá para fazer
esse milagre de gerar emprego e ao mesmo tempo expropriar os empresários. Eu nunca vi, não conheço.
Mas o papel do governo é justamente trabalhar nessa composição.
E nós não fomos bem-sucedidos?
Eu faço perguntas. Esse início do governo Dilma está mais parecido com o Lula 1, que foi de
aperto? O governo começou aumentando juro, não aumentando tanto o salário mínimo, fazendo
cortes. Isso tudo não é, de alguma forma, uma transferência dos mais pobres para os mais ricos,
já que o superávit que se busca é para pagar os juros?
O governo Dilma não é nem parecido nem com Lula 1 nem com Lula 2. É parecido com Lula 3. É um governo
que tem condições totalmente diferentes do Lula 1 porque naquele momento nós encontramos um país em
condições econômicas muito complicadas. Não tinha reserva, 17 bilhões de dólares de reserva própria, não
tinha dinamismo, o crescimento era pífio, o país era dependente, dependia dos favores do fundo monetário. A
economia estava bastante desarticulada naquele período, estava em crise. Então, a resposta econômica que
nós demos foi para enfrentar aquela situação. A situação hoje é completamente diferente. Então não tem
paralelo. Se você quiser um paralelo, é mais parecido com Lula 2, porque já tínhamos resolvido esses
problemas que nós encontramos, saneado a economia, controlado a inflação e aí passou a apostar mais no
desenvolvimento.
Mas esse freio de mão que está sendo puxado..
Então Dilma 1 é parecido com Lula 2 porque não está sendo puxado o freio de mão, isso é um engano. É um
engano. Não está sendo puxado. Nós estamos trabalhando para um crescimento de 4,5%, 5% este ano. O
Brasil, se crescer 4,5%, 5% ele terá tido um crescimento historicamente ímpar, porque se você pegar o período
anterior ao nosso era 2,7% de média. Então 5% está ótimo. Se você olhar as projeções do PAC nós nunca
colocamos mais do que 5,5%. Porque a gente acha melhor ir crescendo de forma sustentável. As pessoas
resistem a essa ideia do anticíclico, que nós implantamos no Brasil, que é uma modalidade de gestão fiscal e
econômica que eu já tinha implantado em 2007 e 2008. Vocês não perceberam.
Mas em 2008, por exemplo, a economia já estava aquecendo. E a economia é assim. A economia não é ser
inerte, que se move de acordo com os desejos do governo. É um ser vivo, dinâmico, que não responde
exatamente 100%. Então, em 2007 nós demos vários estímulos para a economia. Estimulamos o investimento,
aumentamos o crédito, a economia reagiu bem. Em 2007 nós crescemos 6,1%. Em 2008 estávamos crescendo
uns 6,5%. Aí veio a crise e crescemos menos. Mas quando começou 2008 nós achamos a economia estava
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tendendo a aquecer bastante. Porque, diga-se de passagem, a economia brasileira é muito dinâmica, ao
contrário de outros países, europeus etc., reage bem a estímulos. Então nós começamos a segurar um pouco
os estímulos.
Eu aumentei o IOF para encarecer um pouco o crédito, o BC subiu taxas de juros etc., para dar uma moderada
na economia. Essa é a função do governo, fazer ajustes na economia. A economia não é uma máquina, não é
um carro que você vira a direção e você vai. É uma máquina complexa que tem que ser monitorada e tem que
passar por ajuste o tempo todo. Assim, se ameaça subir a inflação, se sobe o juro... Nós fazemos essa
operação. O ano em que a economia acelera um pouco mais, depois a gente desacelera, se ela desacelerar a
gente acelera, esse é o papel do governo, de modo a termos uma estabilidade de crescimento razoável.
Nós temos apresentado as projeções: 5% em 2011, 5,5% em 2012, 6,5% em 2013 e 6,5% em 2014. Então a
gente vai ganhando capacidade de crescimento. Com mais investimento, a capacidade da oferta aumenta, a
produtividade aumenta, nesse meio-tempo você vai aumentando a oferta de energia elétrica, os portos, a
infraestrutura etc., não cria gargalos. O segredo é não deixar criar gargalos na economia, para que ela possa
crescer de forma harmoniosa e sustentável. E é isso que nós estamos fazendo agora. Então nós vamos
continuar o crescimento. O emprego vai continuar crescendo no país, talvez não àquela taxa do ano passado,
porque ela foi muito forte.
A inflação está preocupando?
A inflação é uma preocupação permanente aqui no Brasil. Desde que o Maílson da Nóbrega deixou a inflação
em 89%, a gente se preocupa. Mas ela está sob controle.
Qual a origem da inflação nesse momento? É essa especulação com as commodities?
Com certeza. Alimentação e bebidas foi o que mais subiu. Há uma combinação de fatores. Você teve também
um aumento da demanda mundial por alimentos. A China, a Índia, o próprio Brasil estão comendo mais. O
Brasil não tem falta de nenhum desses produtos, por isso não é uma questão de oferta. O Brasil hoje é o país
agrícola mais produtivo do mundo. A gente aumenta a oferta aqui com tranquilidade. Só que o preço não é
fixado aqui, O preço do trigo é fixado em Nova York, Chicago, Hong Kong, no mercado de derivativos, no
mercado futuro.
Nós não estamos reclamando porque nós estamos faturando também com isso. As commodities agrícolas
subiram 40% em 2010. Isso vai para preço de todo mundo. Os metais também subiram, até um pouco mais,
acho que 46%. O petróleo também acompanhou um pouco isso. Agora é um momento especial, que pode não
se prolongar. Mas não há falta de petróleo. Em 2008 havia um crescimento da economia global e a questão era
de demanda. Agora não é questão de demanda aquecida. Aqui tem oferta. O problema é de abastecimento,
conseguir o abastecimento. O principal fator de elevação da inflação mundial são as várias commodities,
principalmente alimentos.
Mas não é só isso. Todo o mês de janeiro nós temos dois preços que se elevam: escola e transporte. A boa
notícia é que já está caindo. O que puxou para baixo? Alimentos. O que puxou para cima? Transporte e
educação. Tem um quarto fator que é o sistema terciário, o comércio, que está aquecido, é verdade. A
economia com 7,5% dá uma aquecida. O cuidado que nós temos que ter é não deixar que haja uma difusão da
inflação, que vai reverter.
Se a inflação está sob controle por que é preciso cortar?
Eu falei que tem que cortar por causa da inflação?
Não, não falou. Mas existe a visão de que como a inflação estava preocupando, então tem que
cortar.
A inflação no Brasil está mais controlada do que na maioria dos outros países. A inflação brasileira é menos
volátil do que a média dos países. Isso é uma coisa nova que você podia publicar, porque coisas boas ninguém
publica. Índia está com inflação mais alta que o Brasil e mais volátil. A volatividade é ruim para a economia. A
inflação é mais controlada no Brasil do que nos outros países. O Brasil está abaixo da média variação
inflacionária do mundo. Há um problema mundial. Como a economia brasileira começou o ano passado
bastante entusiasmada, procuramos acalmar e tomamos várias medidas. Ao longo de 2010, eu vim eliminando
quase todos os estímulos. No final do ano, o BC pôs em prática o que a gente chama de medidas prudenciais,
que subiram as taxas de juros. Isso nós combinamos. Essas medidas já diminuíram o crédito para automóveis.
O juro desse crédito passou de 19% para 23%. O crédito ao consumidor de 41% para 49%. A economia já está
se ajustando para um ritmo menor, que é o que nós queríamos. A economia já está menos aquecida. Além
disso o BC subiu os juros também.
O sr. está defendendo a alta dos juros agora, ministro?
Quando é necessário, você tem que elevar os juros. Eu sou contra você manter juros artificialmente altos
desnecessariamente.
Mas o Brasil não tem juros absurdamente altos?
E sou favorável que suba os juros quando há problema de inflação. Não que esses juros aí tenham ajudado a
diminuir. Eu acho que as medidas prudenciais e o aumento do compulsório, que são na veia e que foram
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tomados também pelo BC, são mais efetivas. E subiram os juros. O juro subiu 8 pontos percentuais para o
consumidor graças às medidas prudenciais. A elevação dos juros também serve para as expectativas. Os juros
são muito altos no Brasil? É verdade. Só que já foram muito mais altos. Estamos numa trajetória de redução de
juros há pelo menos 8 anos.
Mas agora inverteu.
Não inverteu. É que você tem que olhar a tendência. Juro não pode ficar amarrado. Não é dizer, olha, ele vai
descer sempre. Juro é um instrumento de combate conjuntural. Então você tem que ter a liberdade de num
determinando momento, um determinado mês, dois meses, três meses, o juro sobe e depois ele desce. O que
eu quero dizer: sim, o Brasil ainda tem uma taxa de juro elevada, porém ela vem diminuindo ao longo do
tempo e ela continuará diminuindo. Porque nós estamos aperfeiçoando a relação entre política fiscal e política
monetária. Nós estamos dando um "upgrade" nessa política. Nós já demos no governo anterior, ela já melhorou
muito, tanto que os juros já caíram. O juro real no segundo governo Lula: chegamos a 4%, 5%. no passado
era no mínimo 10%, 11%. Então já avançou muito. Vamos avançar mais porque nós estamos amadurecendo a
política fiscal e monetária, caminhando para um patamar ainda melhor do que já foi. E com essas medidas que
nós estamos fazendo, nós estamos abrindo espaço para que, depois de passado esse surto inflacionário
momentâneo agora, para o BC tenha as condições de baixar os juros.
E isso o sr. espera que aconteça neste ano?
Eu prefiro não dizer. Quando for possível, quando o BC achar que houver condições, ele o fará e nós estamos
criando essas condições com essa redução da demanda do Estado e dos gastos públicos, nós estamos abrindo
espaço para que os juros possam cair no momento em que for considerado adequado. Não agora,
evidentemente. Porque agora nós ainda temos uma pressão inflacionária, que vai se dissipar. Quando ela se
dissipar, quando a inflação estiver indo mais próximo do centro [da meta], o BC deverá reduzir o juro.
Sobre expectativas. Aumento de juros, cortes para pagamento de juros...
Como os cortes vão para o pagamento de juros? Os cortes vão para fazer o [superávit] primário.
Então. Mas o primário não é para pagamento de juros?
O primário é pagamento da dívida.
O corte é para garantir o pagamento de juros.
Mas você queria que o Brasil fosse caloteiro, não pagasse juros, está sugerindo isso?
Não, Eu não quero nada, não estou sugerindo nada. Só estou descrevendo a situação.
Não, é também para reduzir a dívida, como a relação dívida X PIB.
O objetivo dessas medidas (salário mínimo, juros, cortes) é sinalizar que o governo da presidente
Dilma é simpático aos mercados? Tudo isso é um receituário mais ortodoxo. A presidente está
preocupada em ganhar a simpatia desses setores da elite?
Isso eu queria deixar muito claro: não é um receituário ortodoxo. Eu como ministro da Fazenda jamais
praticarei um receituário ortodoxo. Escreve. A minha biografia não muda, eu nunca mudei. Continuo
exatamente um desenvolvimentista. Agora isso não significa que eu não seja responsável do ponto de vista
fiscal. Eu como ministro da Fazenda fiz o maior superávit fiscal dos dois governos Lula, que foi em 2008. E que
eu fiz um fundo com a poupança fiscal. Isso não é da ortodoxia. Todos os governos do mundo, com exceção
talvez dos Estados Unidos, países que não praticaram esse equilíbrio fiscal, de esquerda e de direita, adotaram
a responsabilidade fiscal. Todos os países emergentes, desde a China. Você não vai dizer que a China é
ortodoxa, né? A China tem responsabilidade fiscal. A Índia tem um equilíbrio fiscal menor, mas tem uma
poupança elevada.
Governos de esquerda e de direita adotaram há algum tempo o princípio da solidez fiscal. Isso aqui não tem
nada a ver com ideologia. É bom que fique claro. Eu costumo entregar o primário com o qual me comprometo.
Isso não tem nada de ortodoxo, tem de sustentável. Porque se você não cumprir, você será penalizado. Se
você disser: agora eu vou torrar o dinheiro, vou aumentar o investimento, vou gastar tudo, não vou me
preocupar. Você vai ter logo adiante um desequilíbrio, o risco país sobe, as taxas internacionais em relação ao
Brasil sobem, a desconfiança aumenta.
Mas o modelo continua transferindo renda para os mais ricos.
O modelo continua transferindo renda para os mais pobres. O nosso modelo continua igualzinho. A prioridade
da presidenta Dilma é a pobreza, é um emprego. O Brasil hoje é um dos países que mais gera emprego no
mundo e esse era o objetivo. Ela não está querendo agradar nem A nem B nem C. Ela assumiu compromissos
que são os mesmos do governo Lula. O compromisso de fazer do Brasil um país cada vez mais desenvolvido e
diminuir a miséria e a desigualdade social.
Por isso que eu não entendi as primeira medidas. Com todos esses objetivos.
Essas primeiras medidas do governo são para garantir que o crescimento vai continuar. Porque se você
desequilibrar a economia, e dissesse: passou a crise, mas eu vou continuar investindo...
Passou a crise, o sr. acha?
Para o Brasil a crise passou. Para o mundo não passou.
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Estou entendendo que a inflação, apesar de ser uma preocupação permanente, ela não é a
preocupação maior.
É a preocupação maior do Banco Central. Toda a vez que a inflação sobe, acendem as luzinhas. Eu olho
inflação todo o dia, item por item todo o dia. Você acha que não há preocupação? Eu olho para dizer que nós
estamos seguros que a inflação está sob controle no Brasil. E continuaremos tomando medidas para que ela
continue sob controle.
Contas externas. É um problema de fundo na economia brasileira?
As contas externas tem que ser também uma preocupação permanente. O crescimento sustentável é um
crescimento que se dá com inflação sob controle, com as contas públicas sob controle e com as contas externas
também sob controle. Então são três eixos importantes. Nós estamos de olho nas contas externas, no déficit de
transações correntes, nós não vamos permitir uma deteriorização do déficit das transações correntes. Então um
dos desafios que nós temos é melhorar as contas externas.
E o que será feito? Com o juro subindo, essa invasão de dólares...
O juro subindo, mas o câmbio está estável. A gente tem feito permanentemente estímulos à exportação,
embora com a crise o mercado internacional encolheu. Então é impossível em certas circunstâncias você
aumentar a exportação de manufaturados, porque está sobrando manufaturado no mundo. Todo mundo quer
exportar manufaturados e tem países que fazem manipulação cambial para conseguir ter preços mais baixos
para os seus manufaturados. A gente tem enfrentado tudo isso, nos fóruns internacionais. A gente tem
colocado taxas no excesso de capitais no Brasil, não há bolhas no Brasil, nós conseguimos controlar, não há
bolha na bolsa brasileira, a gente modera o excesso de entrada de capital. A gente colocou IOF na aplicação
financeira, na bolsa, no mercado de derivativos. A gente modera os exageros. Mas é inevitável que entre
investimento porque o Brasil hoje é um país sólido e muito atraente.
Claro, com essa taxa de juros..
Não é por causa da taxa de juros, é porque o país é rentável. O Brasil é um país onde as empresas têm lucro.
Não são só os bancos. Espera para ver o balanço das empresas. Você vai ver que a rentabilidade das empresas
brasileiras é alta, porque é um país dinâmico, eficiente, sólido. Então as empresas vêm investir aqui no Brasil.
Elas querem se associar às empresas brasileiras. É claro que sempre tem os capitais especulativos que querem
ganhar. Esses é que nós combatemos.
Controle na entrada de capitais é palavrão? E as remessas de lucros? As montadoras, por exemplo,
remeteram dez vezes mais do que investiram. As montadoras pegaram o dinheiro subsidiado do
BNDES, trouxeram importados pelas matrizes.
Você tocou num setor extremamente bem-sucedido na economia brasileira, o automobilístico. O Brasil passou
pela crise, enquanto os outros mercado encolheram, a produção caiu, alguns quebraram, o Brasil, pela sua
estratégia, conseguiu manter uma indústria automobilística sólida. O que é bom, porque ela é responsável por
mais de 20% do PIB no seu efeito encadeado. Eles fizeram investimentos..
Mas remeteram muito mais.
Todo mundo remeteu. Por quê? Porque as empresas aqui dentro foram lucrativas. Lá fora deram prejuízos e as
matrizes pediram para remeter para preencher os buracos que elas tinham lá. Esse é o preço do sucesso que
nós pagamos neste ano. A economia brasileira tinha um mercado interno, nós crescemos mais e até
aumentamos as importações. Os outros lá fora não recuperaram os seus mercados e então ficou um
desequilíbrio que se refletiu no balanço de transações correntes. Nós aumentamos as exportações também,
quase 30%. Mas as importações cresceram mais de 40%.
Mas as exportações foram mais de matéria-prima.
Não importa. É aquilo que no momento deu lucro. No momento exportar matéria prima dá um valor agregado
maior do que os manufaturados. Então o que você vai fazer? Você tem que aproveitar a a oportunidade.
Apostamos na recuperação do mercado de manufaturados. E um outro desafio que nós temos aqui é não deixar
a indústria manufatureira ter uma deteriorização no Brasil. É estimular as exportações, devolver créditos,
combater a concorrência desleal de países, atuar na área cambial. E nós cada vez faremos mais medidas. Nesse
governo a defesa comercial vai ter uma atenção especial e estímulo à exportação. Nós vamos em breve
apresentar.
Que medidas?
Não vou te dizer porque nós estamos amadurecendo. Isso é uma coisa do novo governo.
E o controle na entrada de capitais?
O que nós fazemos é uma moderação dos lucros justamente para compensar essa taxa de juros alta que nós
temos. A gente meteu 6% de IOF. Nós tiramos metade da rentabilidade. Se o sujeito vem fazer uma aplicação
de um, dois, três meses ele perde dinheiro. Se ele vem aplicar na renda fixa ele está perdendo dinheiro com os
6%. Nós tomamos medidas que foram reconhecidas pelo mundo como acertadas para influir no câmbio num
momento em que várias economias estão manipulando o câmbio. Nós nos defendemos. Se nós não tivéssemos
tomado essas medidas, o câmbio já estaria a R$ 1,45, R$ 1,50.
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Mas essas medidas são suficientes?
Se elas não forem suficientes, outras medidas serão tomadas. Isso inclusive já é um consenso até no G20. No
penúltimo relatório está lá: que os países que sofrem esse tipo de problema podem tomar medidas
macroprudenciais. Isso nós é que escrevemos lá.
E o sr. acha que isso vai ser necessário?
Se for necessário, tomarei. Mas eu não posso antecipar. Outra questão que você tinha levantado. Outro eixo
importante é fortalecer o setor de manufaturados, principalmente bens de capital. O Brasil tem que ter uma
indústria de bens de capital forte, porque é ela que gera tecnologias, ela que absorve e difunde novas
tecnologias. Nós continuaremos tomando medidas para que aconteça o que aconteceu no passado. Setor de
bens de capital cresceu 20% no ano passado. Com toda essa concorrência. A indústria cresceu 10,4% no ano
passado. Não é pouca coisa num ano de crise.
Mas a cadeia produtiva não está começando a ficar toda esburacada pela importação de
componentes, de materiais. Empresas de tecidos que fecham e importam tecido pronto só para
botar a marca. O sr. acha que há risco de desindustrialização? Apesar no resultado ser positivo, no
meio da cadeia subsetores não estão sendo destruídos?
Algumas importações de fato causam algum estrago. Agora não podemos ignorar o fato de que nós vivemos
numa economia de concorrência. Nós aceitamos as regras da OMC, alguns setores sofrem concorrência. A que
nós combatemos é a desleal, aquela concorrência que vem com subfaturamento, que vem com subsídio
disfarçado, que vem com manipulação cambial. Essa nós queremos combater e vamos tomar medidas para
combater. Agora existe uma concorrência que é leal, que é normal e que essa você não pode impedir. Isso
inclusive é um estímulo para que empresário brasileiro seja mais competitivo. O que o governo tem que fazer é
dar condições para que o empresário brasileiro seja competitivo. Um setor que ainda nós temos uma espécie de
carência aqui no Brasil é de inovações. Mas o empresariado resiste, também. O governo tem aumentado muito
o recurso para inovação. Então tem que haver uma parceria maior entre o governo e o setor privado para que
ele invista mais em inovação. Linhas de crédito estão aí, várias linhas de crédito a juros subsidiados para
inovação.
Com esse juro, o empresário prefere aplicar o dinheiro a investir.
Não sei. Eu acho que o empresário brasileiro está entrando nessa filosofia. Ele percebe que o mundo é cada vez
mais competitivo e nós temos que ter produtividade, eficiência, e o brasileiro é muito criativo. Nós estamos
apoiando e vamos continuar apoiando a indústria para que não haja --eu acredito que não haja-desindustrialização. Perigo sempre existe, mas existe no mundo todo. Na Alemanha, até na China existe. Não é
porque o país está vencendo hoje que ele vai vencer amanhã. Os Estados Unidos há 50, 60 anos eram
imbatíveis. Então todo mundo tem que ficar alerta o tempo todo. Nós temos um diálogo com a indústria, nós
temos aqui um fórum que se reúne uma vez por mês, que discute os problemas do setor produtivo, da
indústria, do setor de bens de capital e nós temos tomado soluções que são muitas vezes demandadas por eles
para poder cada vez mais melhorar a sua competitividade. Nós não deixaremos acontecer a desindustrialização
no Brasil. Agora não podemos esquecer que o mundo ainda está em crise. E isso afeta as exportações de
manufaturados. E afeta as importações porque tá todo mundo vendendo barato. Tá todo mundo liquidando por
aí e isso nos afeta. Mas nos próximos dois ou três anos esse cenário vai se modificar e nós voltaremos a
exportar mais. O Brasil ganhou mercado. Nessa crise toda, a participação do Brasil nas exportações mundiais
cresceu.
Mas são commodities, Vale..
Seja o que for...
Não sei se 'seja o que for'. Se o Brasil vai depender de commodities..
O Brasil tem a virtude de possuir ambas as coisas. É um país que não é nem um exportador de commodities,
não é só um país só industrializado, com carência de insumos. Não é nem o Japão. O Brasil tem uma estrutura
diversificada de produção, que é uma grande vantagem. No momento que o setor manufatureiro está mal no
mundo, mas está bem no de commodities. Nós estamos indo bem porque o mundo está bem (na demanda de
commodities). O setor de commodities pode ir mal, como já esteve no passado, aí nós vamos ter o setor
manufatureiro que vai cumprir essa função.
O importante é que nós somos diversificados, isso é uma vantagem. Nós somos diversificados, nós temos
petróleo, nós temos combustível alternativo, nós temos terra, nós temos sol, nós temos produtividade agrícola.
O Brasil hoje conseguiu potencializar todas essas virtudes que ele tinha. O Brasil era um país virtuoso, mas a
virtude estava encapsulada, era potencial. Hoje as virtudes estão realizadas, estão se realizando. Isso é uma
vantagem. Isso que você está reclamando é uma vantagem. Já pensou se o Brasil não tivesse o setor de
commodities competitivo? Se dependesse só da manufatura nós não estaríamos...
Mas o que agrega mais emprego, dinamiza a economia é o setor industrial.
Não, o setor agrícola agrega muito emprego: 25% da mão de obra é agricultura. E a agricultura brasileira é um
setor que se tornou muito dinâmico. Outro setor muito dinâmico que agrega emprego é a construção e nós
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dinamizamos esse setor, nós tiramos esse setor do limbo. E ele vai continuar, com PAC, Minha Casa, Minha
Vida.... Hoje o setor está bombando.
Qual o papel do BNDES?
O BNDES foi fundamental na crise. Vários países desejariam ter tido um BNDES para enfrentar a crise. Ele
continuará financiando infraestrutura, esses setores de capital intensivo, que demoram mais para amadurecer.
Continuará tendo um papel fundamental na economia brasileira. Principalmente porque nós continuamos
estimulando o investimento no país. Ele financia a venda de máquinas, máquinas agrícolas, equipamentos.
Agora ele não terá o mesmo papel que teve durante a crise, porque na crise foi uma situação de emergência.
Então o Tesouro não continuará colocando o mesmo aporte que fez durante a crise.
Quem pegou, pegou; quem não pegou, não pegou...
Não, nós criamos outros mecanismos para que o empresariado possa captar recurso mais barato, que é mais
diretamente do setor privado. Nós fizemos um programa, reduzimos impostos, criamos outros instrumentos,
mecanismos, estimulamos debêntures. Então o Brasil tem um mercado de capitais que pode florescer e que dá
financiamento barato e então não precisa do BNDES. Então esse é o amadurecimento e o setor privado acha
isso correto. Acho que os bancos privados têm que entrar no financiamento longo. Nós demos condições para
que eles tenham "funding". As taxas serão cadentes. E tem muitos empresários captando no exterior a taxas
que são ridículas.
Mas nem todo mundo consegue.
As grandes todas conseguem. Quando não, abrir o capital e ter uma participação de "equity" que é a melhor
coisa, porque não é endividamento. O Brasil hoje tem todas as virtudes. Hoje o Brasil, pelas suas condições,
atrai capital, não é o especulativo, porque a gente espanta. O especulativo percebe que o governo está atento.
Vem os grupos que querem de fato investir, que querem participar das empresas brasileiras, que dão "funding"
para as empresas brasileiras.
Essa desnacionalização que ocorre em vários setores preocupa? Na cana, por exemplo?
Não vejo desnacionalização, pelo contrário. O Brasil sempre foi um país aberto ao capital externo. O que
aconteceu foi o contrário. Foi que o Brasil está investindo muito no exterior. As empresas brasileiras estão
crescendo, estão se multiinternacionalizando. Estão se internacionalizando, que é uma condição necessária para
você ser forte. Você tem a Vale, a Petrobras, a Gerdau. Em todos os campos você tem várias empresas
brasileiras comprando ativos no exterior. E dando sinergia com sua produção local. Indo disputar mercados lá
fora. Hoje o Brasil tem investimento na Argentina, no Uruguai, toda a América Latina. Temos nos EUA, na
Europa. O que houve foi o fortalecimento da empresa brasileira.
Isso muito com a ajuda do BNDES, não?
Com a ajuda do BNDES também, ou com recursos próprios. É fundamental dizer também que o empresário
brasileiro é um dos mais bem-sucedidos, competentes. Tem empresário brasileiro dirigindo multinacionais por
aí...
Executivos, não?
Executivos, é. Porque parece que o Brasil tem uma escola boa. Passou pelo Brasil, enfrentou problemas no
passado. Nós enfrentamos as dificuldades da crise muito melhor do que outros países. O Brasil cresceu na crise.
O Brasil foi reconhecido na crise pela habilidade em enfrentá-la, pela solidez que demonstrou. Porque é na hora
do aperto que você mostra as suas condições. Porque quando está tudo bem, tem crédito abundante no
mercado internacional, qualquer um pega. Mas quando falta crédito, os países que não estão fortes eles
afundam e os que estão fortes continuam. O Brasil, digamos, foi beneficiado por essa crise. Claro, tivemos
problemas. Mas o Brasil mostrou na crise que era mais sólido do que outros países, tinha condições melhores. E
também pela reação que o governo teve, junto com o empresariado. Porque várias medidas foram tomadas
discutindo e tudo mais. Hoje nós somos um país bem-sucedido. Não faltam capitais para o Brasil.
Temos outros dilemas, porque também excesso de capital não é bom. Mas eu prefiro ter excesso de capital do
que falta como era no passado. Ter excesso de empregos é melhor do que ter falta de emprego. Sempre tem
problema para resolver. E um último problema importante que é o desafio da mão de obra. Como cresceu
muito a oferta de trabalho, por causa de todos esses investimentos, esse crescimento, nós precisamos
aumentar a oferta de mão de obra qualificada. O governo está preparando um grande programa de
qualificação. Já vinha trabalhando nisso. Uma parte disso é educação, é formação de engenheiros, de doutores,
de biólogos e nós vamos fazer um esforço adicional porque estamos sendo colocados na frente de um desafio
de aumentar mais a mão de obra qualificada.
O pré-sal, por exemplo.
A quantidade de navios que foi encomendada pela Petrobras vai exigir pessoal especializado, oficiais, pilotos.
Porque a indústria naval tinha morrido no Brasil e ninguém mais se formava prático, piloto, comandante. Nós
estamos criando mais vagas para formação. Porque daqui a dois, três anos nós vamos estar importando piloto
do Japão, para poder dirigir todos os barcos que vamos ter aqui no Brasil. Mas esse é um bom desafio. Eu falei
quatro desafios para você: a questão das contas externas, a questão da industrialização, a questão de
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fortalecer a manufatura e da qualificação da mão de obra. São os quatro eixos da área econômica do governo
que nós temos que enfrentar para dar continuidade a esse crescimento sustentado.
Como o sr. vê a perspectiva da economia mundial e as turbulências no mundo árabe?*
A economia mundial vai se resolvendo. Nós temos hoje um descompasso na economia mundial que não é de
agora mas foi apenas acentuado pela crise. Nós temos regiões que têm dificuldade de crescer e regiões mais
dinâmicas que vão puxar a economia mundial. Não vamos ter a repetição da crise, não vamos ter o movimento
em W. Porém nós vamos precisar ainda de dois a três anos para que a União Europeia saia da crise. A
Alemanha já saiu.
Vai mudar alguma coisa no sistema financeiro?
O sistema financeiro está sendo submetido a uma regulamentação. O G20 está trabalhando numa
regulamentação mundial que está quase pronta. Regras prudenciais, exigências de capital, limites de exposição.
Os bancos grandes estarão submetidos a uma regulamentação mais forte. Os bancos que podem quebrar o
mundo.
Eles não quebram porque os governos salvam. E depois os governos têm que fazer ajuste fiscal
para pagar o dinheiro que eles deram para os bancos. Não é assim que funciona?
É, infelizmente houve erros no passado de desregulamentação financeira. O que nós ainda não conseguimos,
mas estamos trabalhando é para uma regulamentação no mundo, não no Brasil, do mercado de derivativos. Aí
os americanos resistem a isso. Não há mais aquilo. Rediziu muito a alavancagem. A subprime está paralisada.
Essa fonte secou.
O sr. viu "Trabalho Interno" (documentário de Charles Ferguson)?
Vi. Sensacional. É uma aula perfeita de economia. Voltando à economia mundial. Ela está em recuperação,
porém ela é lenta, é mais lenta na União Europeia, um pouquinho mais acelerado nos Estados Unidos. Eles vão
crescer este ano 3%, 3,5%. É pouco. Não resolveram ainda os problemas de subprime, do desemprego. O
crescimento da economia mundial depende dos países emergentes. Vai depender muito mais de nós do que
deles.
O que vai mudar nos impostos nesse governo?
A filosofia desse governo é diminuir impostos. Aliás, nós já diminuímos no governo anterior vários impostos,
principalmente para investimentos. E nós continuaremos diminuindo impostos. Isso não se percebe porque há
uma formalização muito grande da economia brasileira e então quando você olha a arrecadação ela cresce, mas
ela cresce porque teve crescimento e formalização.
O Sistema Simples reduziu impostos para pequena e média empresa, que gera emprego. Já reduziu e nós
queremos continuar reduzindo impostos. Agora dentro do equilíbrio fiscal. Então eu não vou comprometer o
equilíbrio fiscal reduzindo precipitadamente impostos. Mas a trajetória desse governo é reduzir impostos. E não
há intenção de criar nenhum imposto novo. Quando houver a condição, nós deveremos reduzir o custo da folha
de salários, do lado da contribuição patronal. Porém é preciso haver condições sólidas para que a gente faça
isso. Nesse momento não há espaço.
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