DELEUZE, Gilles - A LÓGICA DO SENTIDO

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DELEUZE, Gilles - A LÓGICA DO SENTIDO
GRUPO TRANSVERSAL
Da sexta série a décima primeira série – RITA E FERNANDO
RITA: ... de que o acontecimento ideal é um conjunto de singularidades e daí no
entanto, o acontecimento tem um tempo e um modo, o tempo do acontecimento
que é o Aion que é o ilimitado, no infinitivo, nem presente, nem passado e nem
futuro e o modo do acontecimento é o modo problemático, o problema subsiste
na idéia que organiza a gênese das próprias soluções, ele é ao mesmo tempo
problemático e problematizante e ele também vai dizer da importância dessa
questão do problemático, ele atribui a Kant, o precursor de ver o problemático
não como incerteza passageira, mas aquele que é imprescindível para que o
acontecimento se dê, ele fala no final da página 57 foi o primeiro a fazer do
problemático não uma incerteza passageira mas o objeto próprio da idéia e com
isso também um horizonte indispensável a tudo que acontece ou aparece e aí
me ocorreu uma dúvida, pois como ele fala mais a frente do elemento paradoxal
e fala do tempo e do modo, daí pensei: o elemento paradoxal seria um lugar do
acontecimento? Porque quando ele caracteriza o elemento paradoxal, ele vai
dizer sobre o lugar de uma pergunta, mas aí eu pergunto: sendo então o lugar
de uma pergunta, ele é o lugar do acontecimento? O acontecimento é o
incorporal e aí ele teria um lugar? Mas como ele fala do tempo e do modo, me
ocorreu... está na página 59 no primeiro parágrafo...
SÍLVIO: mas ele está perguntando como caracterizar o elemento paradoxal...
RITA: e ele diz mais a frente: esse elemento pode ser definido como o lugar de
uma pergunta... aí eu pergunto: se o lugar da pergunta é o lugar do
acontecimento?
SÍLVIO: o começo do parágrafo nos ajuda a pensar um pouco isso, porque ele
vai dizer não se pode falar dos acontecimentos a não ser dos problemas cuja as
condições determina, não se pode falar dos acontecimentos senão como
singularidades que se desenrolam em um campo problemático e na vizinhança
das quais se organizam as soluções... então quando ele fala de campo e de
vizinhança, ele está jogando aqui com elementos de espaço, então acho que dá
para pensar no problemático, no elemento paradoxal, como lugar, como espaço
do acontecimento de alguma maneira. Não sei se seria, necessariamente, o
espaço, mas o lugar de acontecimento, me parece que sim. Eu posso fazer um
destaque aqui que você não destacou e acho interessante...? é pensar, ele frisa
aqui em vários momentos, a impessoalidade ou uma dessubjetivação que eu acho
interessante porque ele vai lá no, primeiro parágrafo da página 57, falar que a
singularidade é essencialmente pré-individual, não pessoal e aconceitual e
depois quando ele caracteriza o problemático lá na página 57, ele diz assim,
devemos assim romper com o longo ato de pensamento que nos faz considerar o
problemático como uma categoria subjetiva do nosso conhecimento, um
momento empírico que marcaria somente a imperfeição de nossa conduta, a
triste necessidade em que nos encontramos de não sabermos de antemão o que
desaparecia com o saber adquirido, o problema pode muito bem ser recoberto
pelas soluções e nem por isso ele deixa de subsistir na idéia que o refere as
suas condições e organiza a gênese das próprias soluções... e por aí vai. Eu acho
então, que ele desubjetiviza a questão aqui, tanto da singularidade quanto do
problema e acho que esse é um ponto interessante para agente ficar atento...
porque eu leio isso e me lembro daquela posição bem humanista num certo
sentido, que o Marx vai colocar de que a humanidade não se coloca problemas
para os quais ela não tenha a solução, ou seja, você só consegue problematizar
quando... você pode não ter ciência da solução, mas se você consegue colocar ela
como um problema, você consegue também solucionar...pode não ter a solução,
mas consegue solucionar, mas isso dá também um caráter bem subjetivo, como
ele coloca aqui: o problema como algo que o sujeito do conhecimento equaciona,
e assim ele está tirando o problema dessa dimensão e está tirando a
singularidade dessa dimensão que acho que é um negócio que sobretudo para
pensarmos a educação é importante, pois se fala muito em singularidade na
educação, mas em geral quando se fala em singularidade em educação, fala-se
muito diretamente ligada a uma identidade pessoal e ele está aqui justamente
despersonalizando e desubjetivando a singularidade e o problema. Só para
chamar atenção, pois é uma coisa que vai aparecer em outros momentos do
texto e para ficarmos um pouco antenados com isso.
RITA: quando você lembrava do Marx e fechando aí, de que quando ele fala: a
pergunta se desenvolve nos problemas e os problemas se desenvolvem numa
pergunta fundamental e é assim que as soluções não suprimem os problemas...
que é a questão da dinâmica e do movimento, suprimir seria então o resolvido e
não se teria a idéia do movimento que perpassa, mas então um aspecto pelo qual
os problemas permanecem sem solução e a pergunta sem resposta... a pergunta
designa por si mesma objetidades, ideais e tem um ser próprio mínimo de ser...
e aí quando ele fala do ser próprio e dessas perguntas e soluções, ele vai
remeter novamente a idéia das palavras-valise que elas seriam aí inseparáveis
do problema que vi sempre se desenvolvendo quando agente tem idéia do
problema e da solução nessa dinâmica, a palavra-valise vai ser responsável por
como que perpetuar uma progressão matemática, esses problemas que se
desenvolvem sem séries ramificadas e tudo mais e ele fala ainda: de outro lado,
as palavras em branco ou antes as palavras que designam as palavras em branco
são inseparáveis de uma pergunta que se desenvolve e se desloca através das
séries... então o problema e a solução, a pergunta e a resposta, elas estarão
sempre entremeadas pelas palavras-valise e as palavras em branco e as
esotéricas... então esse movimento do problemático ocorre, eu não sei se
ocorre em função das palavras ou se as palavras ocorrem em função da questão
da problemática e das séries, mas elas estão diretamente vinculadas.
FERNANDO:ele começa justamente dizendo que o Carroll inventa jogos que
não conhecemos e que subvertem a nossa concepção de jogos e esses jogos vão
se dar no plano do Aion, então ele vem falar do jogo ideal, que não são muito
movimentados, não tem regras precisas e nem vencedores e perdedores, nós
não conhecemos esses jogos e nossos jogos possuem alguns princípios básicos,
as regras que pré-existem aos jogos, as hipóteses de perda e de ganho, agente
sabe como esse jogo chegará a um ganhador ou perdedor, a questão da
reversidade de lances e as conseqüências das jogadas vão determinar o
ganhador e o perdedor, daí ele coloca que é preciso pensar em outros
princípios, que ele coloca como não havendo regras, cada um inventa as suas
regras, o conjunto das jogadas afirma todo o acaso, quer dizer não há uma
determinação e não há uma hipótese de perda e ganho, cada lance tem uma
qualidade diferente, cada lance é uma série, então ele opera uma distribuição
de singularidades que não parte de resultados fixos, há uma distribuição
nômade, e portanto, o que se opõe a idéia de determinação dos vencedores e
vencidos é que esse jogo sem regras não tem nem vencedores e nem
perdedores, ele realmente não obedece a nada que temos em mete como jogos
conhecidos. Então ele diz que o jogo só pode ser pensado como não-senso, ele é
a realidade do próprio pensamento, é o inconsciente do pensamento puro e só
existe no pensamento e não tem outro resultado além da obra de arte, essa
passagem está na página 63.
SÍLVIO: essa afirmação me parece bem interessante: só o pensamento pode
afirmar todo acaso, fazer do acaso um objeto de afirmação... a afirmação do
acaso...
RITA: naquele texto do Calvino, ele fala: o procedimento da poesia e da arte é
semelhante aquele do jogo de palavras, é o prazer infantil do jogo combinatório
que induz o pintor a experimentar disposições de linhas e cores e o poeta a
experimentar certas aproximações entre as palavras... num determinado
momento aciona um dispositivo pelo qual uma das combinações obtidas segue
seu mecanismo autônomo independente da busca de significado e de efeito em
outros planos. Acho que ilustra um pouco essa coisa do jogo ideal.
FERNANDO: ele fala agora da complementaridade entre passado e futuro e o
presente se divide entre os dois no infinito... essa relação que ele coloca sobre
o presente me lembra a ilustração de um relógio que achei num site, que a
página era sobre eternidade e o autor dizia que o conceito de eternidade em
Espinosa é muito difícil de se entender... a palavra já é uma coisa difícil de se
entender, na verdade ela não se expressa pela linguagem quanto mais figuras e
ele dizia que, embora, ele não gostasse de figuras, ele dizia que tinha uma
figura que representava bem a idéia de eternidade para Espinosa, que era um
relógio cujo os ponteiros apontavam não para números ou horários, era uma
palavra – NOW, então onde o ponteiro passava era sempre o agora e acho que
no caso do Espinosa foi uma boa explicação da idéia de eternidade para ele...
SÍLVIO: será? Porque aquilo que o Deleuze chama de Aion está de alguma
maneira conectado com a idéia de eternidade em Espinosa que é o tempo que
não é o da duração, ele vai opor o Cronos e Aion, porque lembro que semana
passada a Rita perguntou: mas porque não opor Cronos e kairós que é o que
estamos acostumados, porque tanto Cronos quanto Kairós são tempos
quantificáveis, só que o Cronos tem uma quantificação objetiva, digamos assim,
e o Kairós uma quantificação subjetiva, é da minha percepção, mas ambos são
tempos da duração e o que o Deleuze vai falar é do tempo da não-duração que é
o Aion e que o Espinosa chama de eternidade.
FERNANDO: a eternidade seria a oposição da duração e esta é definida como
quantidade indefinida de tempo...
SILVIO: mas daí eu não sei se a imagem dos vários “agoras” do relógio seria
interessante porque ele vai jogar aqui que o agora é o tempo do Cronos que é
quantificado, você sempre quantifica o agora, enquanto que o Aion é o tempo
que é ao mesmo tempo o passado e futuro...
FERNANDO: você continua apreendendo a eternidade através do tempo...
SÍLVIO: o que eu achei legal foi nessa página 64 quando ele remete a essa
coisa do Borges, a questão da tartaruga, o paradoxo do Zenão de Eléa... Aquiles
que nunca alcança a tartaruga, é a idéia de que o movimento é uma ilusão, ele
não existe o que se tem é a eternidade pura, permanência pura, não há essa
quantificação, então ele pegava aquela célebre história do Aquiles que ia
disputar com uma tartaruga e dava uma vantagem para a tartaruga e ela saía na
frente, então Zenão dizia: se a tartaruga sai na frente, o Aquiles nunca
ultrapassaria a tartaruga e o que agente vê que ele sai, ultrapassa a tartaruga
e ganha a corrida, só que o Aquiles nunca poderia ultrapassar a tartaruga
porque como ela saiu antes sempre existirá um espaço a ser percorrido entre
os dois e esse espaço pode ser subdividido a de infinito, portanto, há sempre
um espaço que o Aquiles vai ter que percorrer até chegar na tartaruga,
portanto, ver o Aquiles ultrapassar a tartaruga é uma ilusão, pois isso não
acontece se a tartaruga saiu na frente e ele remete ao conto do Borges que
lida com isso na página 64 em itálico... que tempo é esse que não tem
necessidade de ser infinito, mas somente infinitamente subdivisível? Esse
tempo é o Aion. Ele fala que de um lado fica o presente sempre limitado, o
NOW, o AGORA sempre limitado que mede a ação dos corpos como causas e os
estados de suas misturas em profundidade que é o Cronos, e de outro lado o
passado e o futuro essencialmente ilimitados que recolhem à superfície os
acontecimentos incorporais enquanto efeitos, que é o Aion. Porque tem essa
coisa o passado é sempre infinito enquanto possibilidade e o futuro também, já
o presente é sempre demarcado, é nesse sentido que ele vai dizer que o
presente por ser demarcado é o Cronos... o eterno mas não no sentido do
infinito, é aquela idéia do Vinicius que seja infinito enquanto dure é uma
duração que é infinita, é mais intensidade que tempo e aí é preciso tomar um
certo cuidado com essa idéia de eternidade. É a infinidade da duração.
FERNANDO: Você pode falar que uma duração é infinita, por exemplo? A
eternidade não diz respeito a tempo...
SÍLVIO: a eternidade como uma duração infinita, mas você pode ter infinidade
em uma duração e é isso que ele vai chamar de aion, mais do que uma infinidade
onde não há tempo, é uma situação que há um tempo, mas não é um tempo
quantificável, ele é infinitamente subdivisível. É mais o devir do que a
eternidade acho que temos que tomar um certo cuidado com a idéia de
eternidade porque se agente tem uma pressuposição ou um pré-conceito em
relação a eternidade no sentido de ser estático, por ser infinito é estático, o
devir não é justamente o movimento e o devir é o tempo do Aion, não é o tempo
de uma eternidade estática, ao contrário, é um tempo do movimento e por isso
não é quantificável.
SÍLVIO: quando o Zé fala do caetanear, eu lembrei de uma coisa do Caetano
que em algum lugar o Deleuze fala que o Aion esta presente num fragmento do
Heráclito, que é uma criança brincando com o tempo... o grego usa o Aion,
quando ele fala a criança que brinca com o tempo, não é com Cronos, outra
figura grega do tempo, é com o Aion, o tempo do devir e do acontecimento e aí
tem uma música do Caetano que fala sobre essas coisas, eu vi uma criança
brincando, eu vi um tempo, eu vi o tempo correndo ao redor do caminho daquele
menino... e aí tem um verso que é eu vi muitos cabelos brancos na fronte do
artista, o tempo não pára e no entanto, ele nunca envelhece... e acho que é essa
idéia de eternidade, bom, você tem um tempo que corre que tempo é esse que
não pára, é Cronos, quantificável, no entanto, o artista enquanto
acontecimento, o artista que se funde com a obra...
VALÉRIA: quando o Fernando fala da imagem do relógio, eu não sei porque só o
relógio já traz uma imagem que esta presente antes e depois e junto com o
agora, porque enquanto o ponteiro esta num agora,tem ainda um agora que
passou, então...
SÍLVIO: mas o agora que passou não é o mesmo agora... o tempo não pára e no
entanto é sempre agora...
FERNANDO: o relógio pode até atrapalhar, mas o que o relógio nos obriga é
justamente de romper com essa visão, ele obriga porque quando você diz que
está vendo o tempo ali, ele te diz sim mas você é que está vendo... eu tentei
achar o relógio para mandar por email, mas não achei...
VALÉRIA: quando você falou do relógio, eu fiquei pensando numa outra imagem
de relógio para ler de um outro jeito.
RITA: mas mesmo assim você lê de um outro jeito, lá em Poços tem aquele
relógio que não sei o nome dele, que é do sol, e aí então você vê as horas de
acordo com o sol, mas acaba criando o mesmo vício de saber que é a mesma
coisa...
VALÉRIA: é ler o agora em função do que tem antes e do que vem depois... você
não lê só o agora...
FERNANDO: mas então, essa é sua leitura...
SÍLVIO: mas o relógio é a sua leitura...
FERNANDO: mas essa é uma questão central, a de que o relógio do NOW não
nos liberta da visão de tempo, mas ele em si, não se diz em relação ao
tempo...ele rompe essa idéia de tempo, porque é engraçado quando você vê pela
primeira vez esse relógio, você fica com um tonto porque ele não está te
dizendo absolutamente nada, ele tem um ponteiro só que só aponta para o
NOW seguidamente... e ele gira no sentido horário...
SÍLVIO: quando eu olho uma circunferência com ponteiro, eu já tenho gravado
previamente que uma circunferência é quantificável em doze pedaços, então
por mais que esteja escrito NOW nos ponteiros, mesmo que ele não tenha
números essa coisa já fica introjetada...
FERNANDO: esse é o problema do relógio, embora eu ache que o relógio do
NOW, ele em si não tem problema nenhum, o problema é que ele não nos liberta
dessa noção de tempo, dessa idéia de cronologia, mas ele em si é a eternidade,
o que agente faz é não conseguir enxergar isso...
SÍLVIO: é porque o relógio do NOW esta fazendo um paradoxo, ele está
brincando, porque está acostumado a ver o relógio que é quantificável, o tempo
passar através do movimento do relógio e quando ele coloca tudo agora, então
não é uma passagem de tempo e sim uma sucessão de agoras, então ele está
brincando com esse paradoxo do tempo...
FERNANDO: queria enfatizar que a diferença do relógio do NOW e do normal
é que o do NOW ele te tira o chão, mas agente não cai porque continuamos com
aquela idéia, agente não cai porque recolocamos logo, antes de cair agente
recoloca de novo... e o relógio normal ele não tira esse chão, porque justamente
o relógio é reconhecido por nós como o marcador do tempo...
SÍLVIO: porque o relógio é uma invenção humana e por isso ele já traz
embutida na própria idéia de relógio, uma quantificação de tempo, então por
mais que se tire o número e realize outras coisas, a idéia prévia não muda.
ZÉ: então, porque assim nesse relógio você tem um tempo contínuo, então há
uma continuidade do tempo, uma continuidade do agora... e os estóicos vão
dizer lá na primeira parte que só corpos no espaço e só o presente no tempo, e
daí o que seria essa eternidade? É algo contínuo? Eu de verdade não entendi
muito bem...em função dessa idéia de continuidade do agora, então, porque veja
só, quando medimos o tempo temos algum referencial, exemplo quando o
referencial é o sol, existe um critério de medição, eles são diferentes mas
existem e o Aion? Ele é um tempo sem medida? Mas em algum momento isso
aparece...
SÍLVIO: mas é aí que está o lance, que os estóicos vão colocar duas leituras
diferentes de tempo, que são complementares, agente não pode conceber o
tempo como sendo só passado, presente e futuro, mas é ou presente, uma
leitura do tempo e outra como passado e futuro, porque os corpos enquanto tal
existem no presente, o meu corpo existe como um eterno presente e é um
presente que perdura, tem uma duração... agora enquanto eu sou, enquanto eu
existo enquanto corpo, eu existo enquanto corpo presente, eu não falo do meu
corpo da semana passada, eu só posso falar do meu corpo agora... o meu corpo
está sempre no agora e não no passado e nem no futuro, meu corpo está preso
no presente, eu não viajo no tempo, eu estou sempre no presente, mas ele vai
dizer o acontecimento, ao contrário, nunca está no presente, ou está no
passado ou no futuro e é nesse sentido que ele vai dar o exemplo do morrer, o
morrer é um acontecimento, então você não diz, alguém morre como um
presente que perdura, ou você morreu, ou você vai morrer, eu ainda não morri,
por isso meu acontecimento morrer está no futuro... não tem o morre, porque
quando se morrer, já morreu, não tem um morrer no presente, é um
acontecimento...
GLÁUCIA: então essa idéia do morrer que o Sílvio fala, me lembra o que os
orientais falam que no momento em que se nasce já está morrendo... como seria
essa idéia em relação ao tempo?
SÍLVIO: sim é o tempo da duração, eu não sou eterno, se eu tive um começo
terei um fim e na eternidade você está fora do tempo, o Cronos é o tempo da
duração... e daí vem essa idéia que não é só dos orientais mas alguns filósofos
ocidentais trabalham com isso...
RITA: me lembrei agora daquele filme Abril Despedaçado em que o Valter
Salles usa essa construção do menos um, quando o rapaz mata e ele vai no
velório porque ele tem que ir para conversar com a família e daí o pai do rapaz
diz para ele: Você já amou? É sua hora de morrer e ele responde: olha para o
relógio, ele está dizendo menos um, menos um e menos um... o seu tempo está
indo... e o Valter Salles vai dizer que o Mário Peixoto disse isso para ele quando
ele chegou numa primeira entrevista com ele e essa frase foi dita pelo Mário
para o Valter e por isso a homenagem o filme... e é uma mesma idéia, então na
verdade você não está ganhando tempo vivendo mais e sim perdendo...
VALÉRIA: e uma imagem legal que tem é o da ampulheta, porque você vê o
tempo escorregando, se esvaindo...
(fala do Zé – muito longe...)
SÍLVIO: ...é a idéia de um instante que se vive como se fosse eterno, e aí o que
o Deleuze está dizendo aqui a partir dos estóicos é que todo acontecimento
escapa do tempo da duração porque ou ele está no passado ou no futuro...
FERNANDO: mas eu ainda queria entender essa coisa do verbo, porque ele diz
acaba de morrer e isso não é um morre? Ou ele acabou de morrer ou ele
morre... depende muito da tradução, teríamos que ver no francês...
SÍLVIO: acho que depende de como você lê, porque quando ele diz o
acontecimento é que nunca alguém morre, morre no sentido de fluidez, estar
morrendo, mas se você pensa platonicamente ou orientalmente, todos estamos
morrendo desde o dia que nascemos, mas não é nesse sentido que ele está
dizendo aqui, ele chama atenção para a morte como um acontecimento que
enquanto acontecimento ele se dá e se ele acontece, ou ele aconteceu ou
acontecerá, mas nunca está acontecendo pois ele foge da nossa percepção
nesse sentido... você captar o acontecimento no acontecer, isso é meio
complicado... o acontecer no acontecimento... isso você não capta.
ZÉ: eu estava pensando isso a partir da história, comparando com a duração,
por exemplo quando você periodiciza o acontecimento...
SÍLVIO: mas a história é sempre Cronos, a história é sempre quantificada...
ZÉ: por isso seria interessante pensar uma outra perspectiva para a história...
SÍLVIO: que é o que o Foucault vai propor, uma história do presente, a
genealogia, que a partir de Nietzsche ele propõe, bom mas uma história do
presente é uma contradição em termos, é um paradoxo... para o acontecimento
a história é um problema...
RAFAEL: então eu estou aqui pensando na minha área, na psicologia, na questão
da clínica, tipo para psicanálise, ela não prima pelo acontecimento, fala daquela
questão da busca pela emergência do desejo inconsciente e fica sempre naquela
coisa da esfera da reapresentação, passado, mas não prima por essa questão do
capítulo da problemática que eu li e acho que tem muito a ver com a questão da
clínica, porque eu acho que ela pode ser um espaço para você, ao invés de ficar
buscando no passado, a emergência dos desejos inconscientes reprimidos, mas
sendo propulsora mesmo, sabe?
SÍLVIO: a clínica como o lugar do problemático...
RAFAEL: é como propulsora de novos caminhos e modos de viver e de sentir e
pensar...
SÍLVIO: porque a psicanálise é um método histórico né? Sempre você tem algo
no passado que vem determinar o presente...
Comentários de todos: e a pedagogia então? Sempre preparando para o
futuro...
(FIM)
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