A CRÔNICA JORNALÍSTICA DO COTIDIANO: MARCO DE COGNIÇÃO SOCIAL, OPINIÃO E CULTURA Profa. Dra. Regina Célia Pagliuchi da Silveira (PUC/SP) [email protected] S3- Pragmática e Análise do Discurso 1. Apresentação Este texto se situa na área da Análise do Discurso e tem por tema formas de representações culturais, vistas como formas de conhecimento social, manifestadas lingüisticamente em textos escritos do gênero crônicas brasileiras do cotidiano. As crônicas brasileiras são textos do tipo opinativo O problema tratado é a organização textual da opinião e o uso de argumentos que legitimam e reforçam a opinião do cronista, a partir de conhecimentos sociais. Para tratá-lo, foram selecionadas crônicas do cotidiano, publicadas em jornais paulistanos. O procedimento utilizado é teórico-analítico. As análises seguiram a linearidade do textoproduto, segmentado pelas categorias textuais: Marco das Cognições Sociais e Circunstâncias. Os argumentos básicos foram classificados em Legitimidade e Reforço. Tem-se por objetivos: 1. examinar o que propicia a legitimidade de um argumento; 2. buscar o papel do reforço argumentativo; 3. tratar da necessidade, probabilidade e possibilidade na escolha de argumentos. Os fundamentos teóricos da pesquisa realizada são da vertente sócio-cognitiva da Análise Crítica do Discurso, da qual van Dijk é seu maior representante. Segundo o autor (1997), tratar dos conhecimentos sociais e do discurso implica uma inter-relação das categorias analíticas Sociedade, Cognição e Discurso, pois cada uma delas se define pela outra. A sociedade é vista como um conjunto de grupos sociais em constante conflito, devido às suas cognições intergrupais. A cognição é focalizada como Marco de Cognições Sociais, sendo que cada grupo tem seu próprio Marco. Cada grupo social é definido como uma reunião de pessoas que se agrupam por terem objetivos, interesses e propósitos comuns. Estes constroem um ponto de vista social para focalizar os fatos do mundo e representá-los em um determinado estado de coisas, como uma forma de conhecimento social. Há uma dialética entre o individual e o social para a construção das representações mentais: o social guia o individual e o individual, progressivamente, modifica o social. A cultura é entendida como um conjunto de valores contidos nas formas de representação social que decorrem do vivido e experienciado socialmente pelo grupo e, portanto, compõe o Marco das Cognições Sociais de cada grupo. Nesse sentido, as culturas são plurais e transmitidas socialmente de pai para filho, embora haja uma unidade imaginária extragrupal. Os valores culturais têm raízes históricas e são relativos a costumes, crenças e tradições que de forma dinâmica são modificados em cada contemporaneidade, conforme ocorre a resolução de novos problemas sociais. Todas as formas de conhecimento são construídas no e pelo Discurso. Este é visto como uma prática sócio-interacional que se define por participantes, suas funções e ações. Há discursos institucionais e eventos discursivos particulares. Os discursos institucionais têm acesso a um grande público, de forma a abranger vários grupos sociais e construir formas de conhecimento extragrupais. Dessa forma, há uma unidade imaginária, na diversidade de cognições sociais grupais, definida como Memória Social extragrupal. As principais instituições sociais brasileiras são Família, Igreja, Escola e Empresa. A cultura compreende um conjunto de valores, presentes nas formas de conhecimento de mundo, relativas ao experienciado e vivido, socialmente. Assim, a cultura participa tanto do Marco de Cognições Sociais de cada grupo quanto da Memória Social extragrupal. O texto é entendido como um produto lingüístico verbal. Os sentidos e as formas de conhecimento decorrem da construção e do processamento cognitivo das informações expressas no texto. O processamento cognitivo da informação é realizado na área da memória humana. Esta compreende três armazéns, a saber: memória sensorial, memória de trabalho e memória de longo prazo. A memória sensorial dá entrada à informação, levando-a para a memória de trabalho. Esta transforma as expressões lingüísticas em proposições semânticas e, para tanto, ativa conhecimentos armazenados na memória de longo prazo que tem um arquivo social e outro individual. O arquivo social armazena as representações mentais construídas em sociedade; o individual arquiva as representações construídas, a partir de experiências pessoais. O processamento compreende dois movimentos recursivos: expansão e redução da informação processada. A expansão ocorre por inferências realizadas com o que é ativado da memória de longo prazo, construindo múltiplos sentidos secundários; a redução compreende a construção dos sentidos mais globais que reduzem os secundários, de forma a construir a coerência textual. Nesse sentido, nas crônicas do cotidiano, o ato de argumentar implica levar o outro a reformular seus conhecimentos sociais e individuais a respeito do que já sabia. O sabido não é objeto de argumentação; assim sendo, é necessário que se construa uma circunstância nova, a partir da projeção de um novo ponto de vista para se focalizar os conhecimentos sociais. Os resultados apresentados são parciais e participam de uma pesquisa mais ampla sobre a caracterização textual, a partir do uso de argumentos. Este texto apresenta a caracterização textual da crônica brasileira, trata de marcos de cognição social de cariocas e paulistas e de seus conflitos e apresenta a legitimidade argumentativa, a partir dos conhecimentos sociais, modificados por circunstâncias para haver a legitimação e o reforço argumentativo. 2. A crônica jornalística brasileira A crônica jornalística brasileira é um texto típico nacional que tem suas raízes na Historiografia européia. Ao ser introduzida no Brasil, esteve ligada ao folhetim, acabando por se transformar em um texto da classe opinativa, tematizado tanto pela notícia (o inusitado e o atual) quanto pelo cotidiano do brasileiro (o usual e o contemporâneo). Uma retrospectiva histórica desse gênero textual permite dizer que a palavra cronos está relacionada a tempo e que a função do cronista, inicialmente, era dispor, na linha do tempo, um conjunto de textos escritos, por autores diferentes. Seguindo essa orientação, verificou-se que, na França, sua origem está limitada a narrativas pessoais de tipo memorialista; mas, na Península Ibérica, já ocorre uma modificação. Na Espanha, a crônica tem suas origens na compilação de diferentes textos que organizam a obra A crônica geral da Espanha que é apresenta como uma ampla História Nacional. Esta é construída com material diversificado, que compreende diferentes textos, produzidos a respeito de "grandes feitos" da elite, como os textos que se referem à Espanha, sendo eles escritos por autores latinos clássicos ou medievais; por historiadores e geógrafos árabes; textos de cantares de gesta e de narrativas históricas nacionais, divulgadas na literatura oral. Em Portugal, com Fernão Lopes, no século XV, a crônica é modificada, pois esse autor passa a inserir resultados de sua investigação pessoal, de forma que o texto passa a ser escrito por ele que registra não só os grandes feitos da História de Portugal, como também os fatos ligados à vida íntima da corte e do povo, ultrapassando dessa forma a representação narrativa de heróis da elite. A atual crônica brasileira está relacionada ao folhetim e diferencia-se do romance, segundo estudiosos, pois este é um texto longo e publicado por capítulos e aquela, um texto curto, publicado pela imprensa com objetivo de distrair o leitor. Tudo indica que, no Brasil, desde que a crônica passa a ser produzida, ela conquista a apreciação dos leitores nacionais. Dessa forma, esse tipo de texto passa a adquirir características específicas que agradaram e continuam a agradar o leitor brasileiro, de forma a se fixar com sua especificidade no Brasil, tornando-se, progressivamente, um texto tipicamente nacional, publicado tanto pela imprensa quanto por editoras de obras literárias. Scafuro (1999), fundamentada na Lingüística de Texto, após analisar o esquema textual de crônicas, publicadas em jornais brasileiros, classifica-as em crônicas de notícias e crônicas do cotidiano. O critério utilizado pela pesquisadora é relativo à área temática do texto, na medida em que as crônicas analisadas foram publicadas por um mesmo veiculo, o jornal no Brasil. A diferença consiste em o cronista selecionar por tema uma notícia ou um fato do cotidiano. A notícia é definida pela categoria semântica o Inusitado, na medida em que se refere e focaliza o que é fato inesperado e desconhecido para seus leitores. O cotidiano é definido pela categoria semântica o Usual, na medida em que se refere a costumes, tradições e atitudes típicas do brasileiro, no seu dia-a -dia. Em relação ao esquema textual, os resultados obtidos da pesquisa indicam que a crônica brasileira pode ser definida por duas categorias textuais hierarquizantes: Marco de Cognições Sociais e Opinião do Cronista. Estas agrupam, respectivamente, os sentidos relativos a representações sociais do cotidiano da vida de grupos sociais brasileiros e a avaliação que o cronista faz delas ao emitir sua opinião. Trata-se, portanto, de um contraste opinativo, em que a figura discursiva poderia ser definida pelo Eu e pelo Outro, considerando-se, nessa polifonia, a categoria argumentativa Refuta. A figura textual é a antítese, na medida em que a opinião do cronista e a sua refuta ao avaliar o Marco das Cognições Sociais constroem, pela oposição ou pela complementaridade, uma Circunstância para o fato, que lhe permite argumentar. Esses resultados foram os pontos de partida que possibilitaram entender a crônica brasileira jornalística do cotidiano como uma expressão de culturas diversificadas grupais de brasileiros, embora fosse possível, entre elas, uma unidade imaginária extra-grupal. (cf. Silveira, 2000). Esses resultados serão retomados e exemplificados, a seguir. 3. A diversidade cultural, os marcos das cognições sociais e a construção textual da opinião Ao se situar a inter-relação entre Discurso, Sociedade e Cognição, tem-se por pressuposto que a enunciação lingüística, na pratica social discursiva, não pode ser reduzida ao exame gramatical da expressão lingüística fora de seu uso efetivo. Um exame das expressões lingüísticas dos textos selecionados para as análises permite reconhecer que a organização textual das crônicas jornalísticas do cotidiano é opinativa, pois envolve tanto opiniões sociais quanto a opinião do cronista. Segundo van Dijk (1997), a opinião faz parte da vida cotidiana das pessoas e, por essa razão, está presente em diferentes tipos de texto, desde as conversas descontraídas até o poético, o cômico, o dramático, o noticioso e o ficcional, por exemplo. Para o autor, o termo opinião é complexo e tem sido definido sob vários prismas. A partir da inter-relação Sociedade, Cognição e Discurso, van Dijk busca definir o termo opinião como forma de conhecimento avaliativo tanto social quanto individual. Desde que se considere a Cognição, conforme Denhière e Baudet (1997), os conhecimentos humanos são formas de representação mental e, portanto, de natureza memorial. Qualquer tipo de conhecimento humano decorre da projeção de um ponto de vista para se captar o referente e, dessa forma, cria-se para ele um estado de coisas específico. Desde que se considere a Sociedade, conforme van Dijk (1977), a opinião pode ser tanto social, ou seja, doxa, quanto individual. A opinião é vista como uma forma especial de representação mental, na medida em que a sua aquisição, seus usos e funções são sociais e a sua expressão, na maioria das vezes, é discursiva, pois nem todas as opiniões são expressas socialmente e podem ser apenas pensadas. Desde que se considere o Discurso, a opinião é expressa por praticas sociais diferentes que, a partir das condições de produção discursiva, envolve "o que se pode e se deve dizer", dependendo das formações ideológicas presentes. Assim, ao se circunscrever a opinião na inter-relação Sociedade, Discurso e Cognição, esta passa a ser situada, inicialmente, na mente humana e implica que quando alguém tem uma opinião sobre X e necessário que ele tenha também uma representação mental de X que foi adquirida pelo Discurso. Tal representação mental é produto da Cognição e construída social ou individualmente, ainda que ambas as formas decorram da Sociedade. As representações mentais sociais são construídas em interações comunicativas, no e pelo Discurso, e armazenadas na memória social de longo prazo das pessoas, membros de grupos sociais. As representações mentais individuais são construídas durante experiências que o individuo tem com o mundo; mas, para tanto, o individuo ativa, para sua memória de trabalho, os conhecimentos já armazenados na memória de longo prazo. Dessa forma, os conhecimentos sociais constituem-se como guias para a construção de novos conhecimentos que podem ser individuais. Em outros termos, as representações mentais sociais e individuais estão armazenadas na memória de longo prazo dos indivíduos e quando estes constroem uma opinião a respeito de X, na memória de trabalho, ativam para ela a representação mental de X que já têm armazenada em suas memórias de longo prazo, como representação mentaltipo. Assim, uma representação mental é uma forma de conhecimento e, portanto, a uma idéia que se tem, socialmente, de X. De forma geral, seguindo a tradição, os estudiosos diferenciam as formas de conhecimento em episteme e doxa. Para eles, episteme é um conhecimento factual que é verificável no mundo; e, nesse sentido, pode-se atribuir a ele o valor de verdade ou falsidade. Doxa é um conhecimento social avaliativo, portanto, não verificável, na medida em que implica a projeção de uma escala gradual de valores que vai, por exemplo, do quão bom ao quão mal, ou do quão certo ao quão errado, ou do quão digno ao quão indigno, do quão aceitável ao quão inaceitável, etc, algo é. Por essa razão, para eles, doxa é uma crença e episteme é um saber. Van Dijk discute essa tradição e propõe que tanto doxa quanto episteme são representações mentais que contêm avaliações; nesse sentido, toda forma de conhecimento, seja individual seja social, é uma crença e sempre relativa aos conhecimentos que compõem os marcos de cognições sociais. Assim, por exemplo, se alguém diz "Maria não é boa mãe", este alguém expressou uma opinião, na medida em que apresentou um julgamento que avalia negativamente a atuação de Maria como "mãe". Todavia, tal opinião decorre da representação mental que este alguém tem de "mãe" e isto varia de um grupo social para outro. No grupo social em que "mãe" é representada como <<aquela que super protege o filho, realizando todas as suas vontades e, assim, agindo por ele, impedindo-o de se assumir>>, o membro deste grupo social ao dizer "Maria não é boa mãe", avalia Maria, de forma opinativa negativa, por ela não super proteger seu filho. Porém, no grupo social em que "mãe" e representada como << aquela que estimula seu filho a tomar decisões e, assim, a agir por si próprio, a fim de ser independente>>, o membro deste grupo social ao dizer "Maria não é boa mãe", avalia Maria, de forma negativa, por super proteger seu filho, tornando-o dependente dela. Nesse sentido, ao se circunscrever a opinião no triangulo Sociedade, Discurso e Cognição, tanto episteme quanto doxa são crenças e estão diretamente relacionadas aos conhecimentos avaliativos do grupo social onde se insere um individuo, como um de seus membros. Logo, o conjunto de conhecimentos de um grupo e o marco de suas cognições sociais é construído no e pelo grupo social, a partir do que é contemporaneamente vivido e experienciado pelo grupo, dependendo de suas raízes históricas vivenciais. Assim, nossas crenças são construídas como formas de avaliação, guiadas por normas, usos e funções estabelecidos no e pelo grupo social e adquiridos, socialmente, em situações históricas, de forma a guiar o comportamento e as atitudes dos membros de um grupo social. Em síntese, o marco de cognições sociais de um grupo a definido, ideologicamente, como um conjunto de idéias que estabelecem parâmetros avaliativos para os seres e suas ações no mundo, de forma a guiar desejos e decisões dos membros de cada grupo social. Na medida em que os grupos sociais se definem por seus marcos de cognição social, estes estão em constante conflito para representar um mesmo fato no mundo. Nesse sentido, uma opinião individual é uma forma especial de representação mental, ou seja, uma forma de avaliar algo/alguém, tendo por parâmetro o marco de cognições sociais de seu grupo. Tal marco é que caracteriza a identidade cultural dos diferentes membros de um grupo social, ainda que eles construam opiniões variadas enquanto indivíduos. Assim, pretende-se demonstrar que, ao se circunscrever a identidade cultural no marco das cognições sociais, pela inter-relação de Discurso, Sociedade e Cognição, é provável que se entenda que uma nação, um povo, é formado por grupos sociais distintos que se definem pelas suas representações mentais e expressões lingüísticas específicas e que podem ser caracterizados por uma complexidade que envolve a situação geográfica, idade, situação econômica, nível de escolaridade, profissão, sexo, ideologias políticas ou religiosas, etc. A fim de se demonstrar a diversidade cultural de grupos sociais brasileiros em conflito, selecionou-se, a titulo de exemplificação, um conflito contemporâneo, que se explica historicamente, entre cariocas e paulistas e que se encontra tematizado e progredido semanticamente em crônicas nacionais. 4. A título de exemplificação: carioca e paulista na diversidade cultural Segundo Aurélio (1975), as designações vocabulares "carioca" e "paulista" são definidas por: Carioca: 1. De ou relativo ou pertencente ao Rio de Janeiro; 2. Natural ou habitante do Rio de Janeiro; 3. Diz-se do café já preparado ao qual se adiciona água; 4. diz-se de uma raça de porcos domésticos brasileiros. Paulista: 1. De ou pertencente ou relativo a São Paulo; bandeirante; 2. Natural ou habitante de São Paulo; 3. Fig. Teimoso, birrento, turrão; 4. RS muito desconfiado. Pelo que se pode verificar, os conteúdos vocabulares já contém predicações avaliativas que definem pelas cognições sociais e as designações "carioca" e "paulista". Nesse sentido, entende-se que a língua é ideológica, pois entre as designações e o referente existe o espaço do conteúdo vocabular que é preenchido por predicações avaliativas definitórias institucionalizadas e que são ideológicas, na medida em que são discriminatórias de grupos sociais e que se ressemantizam com outra carga ideológica, no percurso temporal, por gramaticalizações, selecionadas e/ou criadas pelo produtor. No texto, a ancoragem temática do cronista pode ser explicada pela sua focalização opinativa; esta é progredida semanticamente, orientada pelas suas intenções de estabelecer uma interação comunicativa. Um levantamento realizado com crônicas brasileiras possibilitou que se selecionasse um conjunto de textos que tematizam "cariocas" e "paulistas", nos quais a progressão semântica é construída pela articulação contrastante do marco de cognições sociais e a opinião do cronista, de forma a demonstrar crenças sociais em conflito intergrupal, ou seja, a avaliação de um cronista paulista X a avaliação de um cronista carioca a respeito de "cariocas" e "paulistas", dependendo de suas cognições sociais. A título de exemplificação, apresenta-se uma crônica para que se possa apresentar as diversidades culturais dos grupos carioca e paulista com os quais a opinião individual do cronista dialoga. 4.1 Paulista e carioca, representados por um carioca: O texto 01 exemplificado é a crônica “Uma obsessão carioca: o paulista" do carioca Zuenir Ventura (1999): Pela quarta vez na vida, trabalho numa revista com sede em São Paulo, o que significa que devo gostar muito de revistas ou de São Paulo. Ou dos dois. Primeiro foi Visão, depois Veja, em seguida IstoÉ e agora Época. Como podem perceber, sigo a tendência do mercado, sou um coroa sintonizado com - desculpem o trocadilho - minha época. Reparem que tive o cuidado de escrever "revista com sede em São Paulo" e não paulista, para evitar mal-entendido, porque há sempre um subtexto irônico quando um carioca pronuncia a palavra paulista. Os cariocas adoram implicar com os habitantes dessa "estranha cidade ao sul do Equador”. Todo esforço do humor carioca, o bom e o duvidoso, tem sido para transformar o patronímico "paulista" num adjetivo engraçado. O Pasquim, Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes, todos cometeram piadas com a terra, algumas infames. Atribui-se a Nelson a mais impiedosa - "A pior solidão é a companhia de um paulista" - e a Vinicius a mais pitoresca: "O problema de São Paulo é que a gente anda, anda e nunca chega a Ipanema". Hoje, a rivalidade Rio e São Paulo este sendo meio ultrapassada, a não ser no futebol e a moda das piadas também. Mas, da nova safra é pelo menos uma divertida, do Bussunda. Um repórter lhe perguntou qual o lugar mais esquisito onde fizera amor. Ele poderia ter dito "No banheiro de um avião", como alguém respondeu, ou então "Debaixo de uma escada", como disse outro. A resposta do humorista carioca foi: "São Paulo". Temos a mania de achar que, por estarmos a beira-mar, plantados, debruçados sobre um porto por onde chega o mundo, formamos o povo mais cosmopolita do Brasil, mas esquecemos que somos mais bairristas que os paulistas. Quando vou a São Paulo me divirto em falar mais da cidade com meus amigos e eles suportam a brincadeira com o fair play de um nova-iorquino. Agora, experimente fazer piada contra o Rio com carioca. Em compensação somos mais francos e extrovertidos. Vivemos numa cidade escancarada e solar. Nossa violência não é maior, mas talvez seja mais visível. Mesmo de avião custo a ver as favelas paulistas e sei que são em maior numero que as do Rio. Já as nossas estão no coração da cidade, exibidas no peito como uma medalha: cada bairro tem a sua pendurada. Aqui, a periferia fica no centro; em São Paulo, a periferia fica na periferia. A coluna é sobre o Rio, o colunista continua falando de São Paulo.(...) 4.2 Paulistas e cariocas representado por um paulista O texto 02 exemplificado é a crônica “Cariocas e paulistas” do paulista Ivan Ângelo (1999). Uma das coisas que divertem o visitante neutro, em São Paulo, é a pendenga dos nativos com os cariocas. Os motivos perdem-se na bruma dos tempos, inútil procurá-los. Não há no mundo católico notícias de divergências entre São Sebastião e São Paulo, nem entre seus devotos. Quem está de fora assiste os embates com um sorriso e procura, não no episódico, mas no permanente, entender o que os separa. Quem sabe há alguma explicação no jeito de ser? Se até irmãos se questionam por ter personalidades conflitantes, que dirá dois vizinhos? Observam os neutros que ser carioca é mais um comportamento do que uma naturalidade. Há pessoas que nascem cariocas em Bauru, Rolândia, Florianópolis ou Quixadá. Quando vão ao Rio se descobrem subitamente cariocas: folgados, falantes, espertos. Conheci um sujeito em Minas que tantas fez que acabou com o apelido de “carioca”. Jurava que era capixaba. Ora, capixabas são mineiros com praia, nada a ver. Ele pode ter nascido no Espírito Santo, mas era carioca e não sabia. Outro que vi no bonde de Santa Tereza, no Rio, ostentava bigodes de cantor de ópera, grandiloquente, e ria para os passageiros, falava alto: - Eu sou gaiato! Gosto disso! Trago estes bigodes porque sou gaiato! Sou um português gaiato! Engano dele! Era carioca. Já paulistanos não nascem em Goiás ou no Pará. Eles se formam na sua cidade mesmo, em trabalhosa aprendizagem. Ficam diferentes para sempre e são reconhecidos até pelo andar. Não batem pernas à toa: andam atarefados, sabem para onde vão e estão indo. Não se adaptam em outra cidade, porque em todo lugar lhes falta alguma coisa. Não é paisagem (que nem têm), como o mineiro que sonha com montanhas, como o carioca que anseia pelo mar. É a própria cidade que lhes falta, o tumulto. Talvez uma dose diária de gás carbônico, viciados. O carioca ganhou sua paisagem, herdou da natureza uma obra perfeita. Com verbas do Reino, embelezou-a ainda mais. Mora num cartão postal mal tratado. O paulistano teve de fazer tudo a suas custas, e refez, insatisfeito e muitas vezes erra, desmancha, faz de novo e esquece cores, mistura formas, épocas. O que ele fez tem a imperfeição e a inquietação do humano. Por isso se orgulha. Reparem nas roupas. O carioca se veste para si, privilegia o conforto. O paulistano se veste para o olhar do outro, procura um efeito, valoriza o social. O morador clássico de São Paulo, aquele que lhe dá o estilo, tem o espírito do aventureiro e a moral do conservador, vive a ousadia no longo prazo e a cautela no aqui e agora. É um homem do interior, esteve cercado de matos, teve de abrir com as mãos o próprio panorama. Enquanto não o fazia, criou o hábito de olhar para dentro de si. O do Rio tem o espírito batido de ventos, sal marinho no sangue. Caminha à vela. É liberal porque ganhou, cedo, a corte, com suas licenças. O horizonte lhe foi oferecido. Teve desde sempre para espraiar-se dos olhos o espaço sem portas do mar. Ficou folgazão. 5. O uso de argumentos Os resultados obtidos das análises indicam que, na inter-relação Sociedade, Cognição e Discurso, os argumentos primários são de legitimidade e de reforço. Os argumentos de legitimidade para a opinião do cronista são construídos com as representações avaliativas contidas no Marco das Cognições Sociais de seu grupo, da mesma forma que o reforço, embora este se defina pela retomada do mesmo valor, exemplificado em fatos diferentes. Desde que se entenda que a legitimidade argumentativa decorre das cognições sociais, as modalidades para o uso de argumentos são: a necessidade, a probabilidade e a possibilidade. Os argumentos de necessidade são construídos com os conhecimentos sociais decorrentes do vivido e do experienciado socialmente pelo grupo, desde suas raízes históricas até a contemporaneidade. Os argumentos de probabilidade são construídos por provas que fazem parte do Marco das Cognições Sociais; todavia elas são suficientes para serem argumentativamente generalizadas pelo sujeito da argumentação. Os argumentos de possibilidade são construídos a partir de mundos possíveis: é possível que em um mundo ocorra um fato e em outro não. 5.1 Marco de Cognições Sociais As representações avaliativas de cariocas e paulistas são conflitantes em seus conhecimentos intergrupais: - para os cariocas: Carioca - avaliação positiva Paulista – avaliação negativa; - para os paulistas: Carioca – avaliação negativa Paulista – avaliação positiva 5.2 Argumentos de legitimidade e reforço, segundo a necessidade, probalidade e possibilidade - no texto 01: - valor positivo para representar o carioca: argumentos de probabilidade:- o carioca tem humor; é mais franco e extrovertido; - é o povo mais cosmopolita do Brasil; argumento de possibilidade: a violência no Rio de Janeiro não é a maior, mas é a mais visível; argumento de necessidade: - o carioca vive numa cidade escancarada e solar. - valor negativo para representar o paulista argumento de necessidade: Hoje, a rivalidade Rio e São Paulo este sendo meio ultrapassada, a não ser no futebol e a moda das piadas também; argumento de probabilidade: - há sempre um subtexto irônico quando um carioca pronuncia a palavra paulista; argumentos de possibilidade: - os paulistas são habitantes dessa "estranha cidade ao sul do Equador”; - "A pior solidão é a companhia de um paulista"; -segundo Vinicius de Moraes: "O problema de São Paulo é que a gente anda, anda e nunca chega a Ipanema"; - segundo Bussunda - um repórter perguntou ( a Bussunda) qual o lugar mais esquisito onde fizera amor. Ele poderia ter dito "No banheiro de um avião", como alguém respondeu, ou então "Debaixo de uma escada", como disse outro. A resposta do humorista carioca foi: "São Paulo". - no texto 02: - valor positivo para representar o paulista: argumentos de necessidade: Já paulistanos não nascem em Goiás ou no Pará; - O paulistano teve de fazer tudo a suas custas, e refez, insatisfeito; - É um homem do interior, esteve cercado de matos, teve de abrir com as mãos o próprio panorama. argumentos de possibilidade: Eles se formam na sua cidade mesmo, em trabalhosa aprendizagem; - Não se adaptam em outra cidade, porque em todo lugar lhes falta alguma coisa; - Não é paisagem (que nem têm), como o mineiro que sonha com montanhas, como o carioca que anseia pelo mar. É a própria cidade que lhes falta; - falta-lhe o tumulto. Talvez uma dose diária de gás carbônico, viciados; - O que o paulista fez tem a imperfeição e a inquietação do humano. Por isso se orgulha; - Enquanto não o fazia, criou o hábito de olhar para dentro de si. argumentos de probabilidade: Ficam diferentes para sempre e são reconhecidos até pelo andar. Não batem pernas à toa: andam atarefados, sabem para onde vão e estão indo; -: O paulistano se veste para o olhar do outro, procura um efeito, valoriza o social; - muitas vezes erra, desmancha, faz de novo e esquece cores, mistura formas, épocas; - O morador clássico de São Paulo, aquele que lhe dá o estilo, tem o espírito do aventureiro e a moral do conservador, vive a ousadia no longo prazo e a cautela no aqui e agora. - valor negativo para representar o carioca - argumento de necessidade:O carioca ganhou sua paisagem, herdou da natureza uma obra perfeita; - Com verbas do Reino, embelezou-a ainda mais; - Mora num cartão postal;- O horizonte lhe foi oferecido. Teve desde sempre para espraiar-se dos olhos o espaço sem portas do mar - argumentos de possibilidade: Conheci um sujeito em Minas que tantas fez que acabou com o apelido de “carioca”; - ser carioca é mais um comportamento do que ter nascido no Rio; - Mora num cartão postal mal tratado; o carioca tem o espírito batido de ventos, sal marinho no sangue. Caminha à vela. - argumentos de probabilidade: O carioca se veste para si, privilegia o conforto; - o carioca é folgado, falante e esperto; - É liberal porque ganhou, cedo, a corte, com suas licenças; - O horizonte lhe foi oferecido. Teve desde sempre para espraiar-se dos olhos o espaço sem portas do mar. Ficou folgazão. À guisa de conclusão Em síntese, os resultados obtidos indicam que: 1. os argumentos têm legitimidade, por serem construídos com as cognições sociais, intra e extragrupais; 2. os argumentos de reforço são usados como cooperação de legitimidade, na medida em que insistem por retomadas no mesmo valor atribuído pelo cronista; 3. no uso de argumentos é importante considerar os de necessidade, probabilidade e possibilidade, para se entender melhor as avaliações sociais. Conclui-se que as formas de conhecimento são avaliativas e dinâmicas, pois o social guia o individual e este ao apresentar uma circunstância, modifica o social. Nesse sentido, os valores culturais são relativos a costumes, crenças e tradições que precisam ser considerados na inter-relação Discurso, Sociedade e Cognição, para se tratar da organização opinativa textual. Assim, este texto procura trazer algumas contribuições e abrir novas perspectivas para o tratamento da organização textual argumentativa, em textos opinativos, circunscrevendo os conhecimentos avaliativos na relação entre Discurso, Sociedade e Cognição. Nesse sentido, os resultados obtidos da organização textual opinativa indicam que as crônicas nacionais mostram-se adequadas para o exame do uso de argumentos, pois elas são organizadas, textualmente, de forma opinativa e manifestam a opinião individual dos cronistas ao avaliar o referente textual (carioca e o paulista), por uma circunstância que o tematiza em relação ao Marco das Cognições Sociais. Referências bibliográficas ANGELO, Ivan. Cariocas e paulistas. Vela, São Paulo, 11 ago. 1999. CAMPOS, Paulo Mendes de. Brasileiro: homem de amanha. In: —. Cronista do morro. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1965a. DENHIERE, Guy; BAUDET, Serge. Lecture, comprehension de texte at science cognitive. Paris: Presses Universitaires, 1992. 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