Aulas 7 e 8 - História das Relações Internacionais

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5. 1815-1848 Restauração
e Revolução
Relações Internacionais
Universidade Federal do ABC
Gilberto Maringoni Fevereiro de 2013
O Congresso de Viena - 1815
• A grande marca da Restauração foi o
Congresso de Viena
• Ele se constituiu em uma conferência entre
embaixadores das grandes potências europeias
que teve lugar na capital austríaca, entre 1 de
Outubro de 1814 e 9 de Junho de 1815, cuja
intenção era a de redesenhar o mapa político do
continente europeu após a derrota da França
napoleônica na primavera anterior, bem como
restaurar os respectivos tronos às famílias reais
derrotadas pelas tropas de Napoleão Bonaparte
e firmar uma aliança entre os signatários.
• Os termos de paz foram estabelecidos com a
assinatura do Tratado de Paris (30 de Maio de
1814), no qual se estabeleciam as indenizações
a pagar pela França aos países vencedores.
• Mesmo diante do regresso ex-imperador
Napoleão I do exílio, tendo reassumido o poder
em França em Março de 1815, as discussões
prosseguiram, concentradas em determinar a
forma de toda a Europa depois das guerras
napoleônicas.
• O Ato Final do Congresso foi assinado a 9 de
Junho de 1815, nove dias antes da derrota final
de Napoleão na batalha de Waterloo.
• Participaram Áustria, Prússia, Reino Unido,
Rússia e França.
• Inicialmente, os representantes das quatro
potências vitoriosas esperavam excluir os
franceses de participar nas negociações mais
sérias, mas o Ministro Talleyrand conseguiu
incluir-se nesses conselhos desde as primeiras
semanas de negociações.
• Momento de reação conservadora na Europa,
articulado na presença de representantes dos
diversos países vencedores de Napoleão, o
objetivo declarado deste fórum era o de
solucionar os problemas suscitados no
continente desde a Revolução Francesa (1789)
e as conquistas napoleônicas.
Em linhas gerais pretendia-se:
• Refazer o mapa político da Europa, recriando ou
suprimindo Estados;
• Restaurar o Antigo Regime, a ordem feudal e
absolutista em todas as regiões afetadas pelos
ideais liberalistas franceses desde 1789;
• Restabelecer um equilíbrio europeu, procurando
impedir que um único país fosse
suficientemente forte (como a França o fora)
para derrotar militarmente todos os demais
países europeus unidos;
• Restaurar as antigas monarquias depostas a
partir de 1789. Sob o Princípio da Legitimidade,
retornaram ao poder os Bragança em Portugal,
os Bourbon na França (Luís XVIII) e na Espanha
(Fernando VII), os Orange na Holanda, e os
Sabóia no Piemonte.
• Redistribuir os territórios conquistados pela
França desde 1789 e punir com a perda de
terras os aliados de Napoleão Bonaparte. Pelo
Princípio das Compensações os maiores
beneficiados foram as potências responsáveis
pela vitória militar sobre a França: Inglaterra,
Rússia, Prússia e Áustria. Para não
desmembrar o território continental francês,
essa potências obtiveram compensações
territoriais em outras regiões.
• O Congresso de Viena representou uma
tentativa das forças conservadoras
européias para deter o avanço do
Liberalismo e do Nacionalismo de
diversos povos (polacos, belgas,
finlandeses, gregos e outros) que se
encontravam dominados politicamente
pelos impérios então existentes. Também
serviu como um instrumento de contenção
dos movimentos revolucionários liderados
pela burguesia.
• • O Tratado de Paris obrigou a França
a pagar 700 milhões de francos em
indenizações às nações
anteriormente por ela ocupadas.
• Seu território passou a ser controlado
por exércitos aliados e sua marinha
de guerra foi desativada . Suas
fronteiras permaneceram as mesmas
de 1789 . Luís XVIII, irmão de Luís
XVI foi reconhecido como novo Rei
A Santa Aliança
• A Santa Aliança foi uma das
conseqüências imediatas do
Congresso de Viena. Ela
surgiu por inspiração do Czar
da Rússia Alexandre I, que
teria sofrido influência da
Baronesa de Krudener e de
Nicolas Bergasse (antigo
constituinte francês).
• Ele propôs aos outros príncipes cristãos
reunidos em Viena governarem seus países de
acordo com os "preceitos da Justiça, Caridade
Cristã e Paz" e a formação de um bloco de
potências, cujas relações seriam reguladas
pelas "elevadas verdades presentes na doutrina
de Nosso Salvador".
• Todavia, com a interferência do chanceler
austríaco Metternich, a Santa Aliança foi apenas
um instrumento da restauração monarquica. Foi
escolhido o nome de Santa Aliança para
designar esse bloco militar que durou até as
revoluções européias de 1848.
• O Direito de Intervenção foi defendido
pelo ministro austríaco, Metternich,
segundo o qual as nações européias
interviriam onde quer que as
monarquias estivessem ameaçadas
ou onde fossem derrubadas.
• A aliança visou a a manutenção dos
tratados de 1815, tendo em vista
reprimir as aspirações liberais e
nacionalistas dos povos oprimidos.
• Com uma forte aparência religiosa, onde
transparecia a vontade de aplicar os
princípios cristãos (amor, paz e justiça) à
política, o acordo, além de contemplar a
não agressão mútua, visava a
continuidade de uma filosofia de
absolutismo a prosseguir na gestão dos
Estados, de forma a contrariar as
sublevações que se estavam a fazer sentir
da parte de setores populacionais que
pretendiam uma política mais liberal e
nacional. Em síntese, a Santa Aliança
reduziu-se a um poderoso fator de
manutenção de monarquias absolutistas
na Europa.
• Através da Santa Aliança,
Áustria, Prússia e Rússia
passaram a intervir em vários
países europeus, combatendo
os anseios de libertação
nacional. Intervenções foram
feitas em Nápoles e na
Espanha pelos países
integrantes desse órgão.
• Como durante o domínio napoleônico ma
Europa iniciara-se o processo de
emancipação política das colônias
ibéricas, a Santa Aliança tentou
restabelecer o velho Pacto Colonial
nesses países.
• Só não teve sucesso devido à oposição
da Inglaterra, que queria conservar a
liberdade de comércio com a América, e
dos Estados Unidos, que desejavam
manter longe o absolutismo europeu,
conforme previa a Doutrina Monroe.
• Baseado nos princípios dessa doutrina, os
EUA impediram a Santa Aliança de
recolonizar os países americanos que se
haviam tornado independentes.
• A Revolução de 1830 na França contribuiu para
abalar as bases da Santa Aliança e a de 1848
para torná-la definitivamente sem efeito. Na
guerra de independência da Grécia, a Rússia
apoiou os gregos, a Aústria e a Prússia não a
apoiou e a Santa Aliança chegou ao fim.
Conhecida como a "Primeira liga militar do
mundo em tempo de paz".
A grande transformação
Karl Polanyi
A civilização do século XIX se firmava em quatro
instituições.
• A primeira era o sistema de equilíbrio de poder
que, durante um século, impediu a ocorrência
de qualquer guerra prolongada e devastadora
entre as Grandes Potencias.
• A segunda era o padrão internacional do ouro
que simbolizava uma organização única na
economia mundial.
• A terceira era o mercado auto-regulável, que
produziu um bem –estar materia sem
• precedentes.
• A quarta era o estado liberal.
• Após 1815, a mudança é súbita e completa. A
repercussão da Revolução Francesa reforçou a
maré montante da Revolução Industrial,
estabelecendo os negócios pacíficos como um
interesse universal.
• Metternich (1773-1859, diplomata austríaco)
proclamava que o que os povos da Europa
desejavam não era a liberdade, mas a paz.
Gentz chamava os patriotas de novos bárbaros.
A Igreja e o trono iniciaram a desnacionalização
da Europa. Seus argumentos encontravam
apoio tanto na ferocidade das recentes formas
populares de revolta, como no realce tremendo
do valor da paz sob a economia nascente.
•
Os que apoiavam o novo "interesse pela
paz" eram, como de hábito, aqueles que
mais se beneficiavam com ela, isto é,
aquele cartel de dinastias e feudalistas cujas posições patrimoniais eram ameaçadas
pela onda revolucionária de patriotismo que
avassalava o continente.
• Desta forma, por um período aproximado
de um terço de século, a Santa Aliança
forneceu a força coerciva e o ímpeto
ideológico necessário a uma política de paz
atuante; seus exércitos percorriam a
Europa em todas as direções, esmagando
minorias e reprimindo maiorias.
• De 1846 até cerca de 1871 - “um dos
quartos de século mais confusos e
atravancados à história européia” a paz foi
estabelecida com menos segurança,
enquanto a força declinante da reação
enfrentava a crescente força da
industrialização. No quarto de século que
se segue à Guerra Franco-Prussiana,
encontramos redivivo o interesse pela paz
representado por aquela nova e poderosa
entidade, o Concerto da Europa.
A Era das Revoluções
Eric Hobsbawm
• Após 1815, a área do mundo
conhecido era maior do que em
qualquer época anterior e suas
comunicações eram incrivelmente
mais rápidas.
• O sistema internacional que se
desenvolve no meio século seguinte
à queda de Napoleão teve várias
características definidoras e
permanentes.
• A primeira foi a constante – e depois de 1840
espetacular – crescimento de uma economia
global integrada, que incorporou um número
crescente de nações e regiões num comércio e
numa rede financeira transoceânica e
transcontinental, tendo como centro a Europa
ocidental e em particular a Grã-Bretanha.
• A hegemonia britânica foi acompanhada de
melhorias em grande escala nos transportes e
comunicações, pela transferência de tecnologia
industrial de uma região a outra, por um e por
um imenso surto de produção manufaturada,
abertura de novas fronteiras agrícolas e fontes
de matérias primas.
• A propagação das idéias de livre-mercado
marca uma nova ordem internacional,
muito diferente do século XVIII. Os custos
da grande guerra 1793-1815 levou os
conservadores e liberais a preferirem ao
máximo possível a paz e a estabilidade,
sustentados pelo Concerto da Europa e
pelos tratados de livre-comércio. Há um
crescimento sem precedentes da
economia global.
• O principal resultado da
Revolução na França foi o de pôr
fim à sociedade aristocrática. Não
à "aristocracia", no sentido da
hierarquia de status social
distinguido por títulos ou outras
marcas visíveis de exclusividade,
e que muitas vezes se moldava
no protótipo dessas hierarquias, a
nobreza "de sangue".
• A sociedade da França pósrevolucionária era burguesa em sua
estrutura e em seus valores. Era a
sociedade do parvenu, i.e., do
homem que se fez por si mesmo, o
self-made-man, embora isto não
fosse completamente óbvio antes que
o próprio país fosse governado pelos
parvenus, i.e., antes que se tornasse
republicano ou bonapartista.
• Pode não parecer excessivamente
revolucionário a nós que metade da
nobreza francesa, em 1840, pertencesse
a famílias da velha nobreza, mas, para os
burgueses franceses contemporâneos, o
fato de que a metade tinha sido gente do
povo em 1789 era muito mais
surpreendente, especialmente quando
eles olhavam para as exclusivistas
hierarquias sociais do resto da Europa
continental.
O advento do neocolonialismo
• O domínio colonial na região chegou ao fim ao mesmo
tempo em que a Inglaterra firmava-se como potência
global hegemônica. Tal supremacia se deu não apenas
pela exportação de produtos manufaturados - que iam
de tecidos a bens de produção, artigos de luxo e de
consumo duráveis -, mas também por outras variáveis.
• O país dominava o comércio internacional, seus bancos
funcionavam como agências financiadoras universais e
a libra esterlina era conversível em todo o mundo. O
padrão-ouro – o lastro metálico da moeda britânica –
regulava o sistema monetário em escala planetária,
subordinando economias aos desígnios dos financistas
da City londrina.
A evolução da sociedade internacional
Adam Watson
• De 1818 até o ano das
revoluções (1848), as cinco
grandes potências chegaram
perto de funcionar como uma
diretoria. Tinham uma
solidariedade de fins: temiam
os riscos que ameaçavam seu
mundo.
• A reconstrução da Europa partiu dos
entendimentos entre Rússia e Inglaterra, e
convinha aos dois Estados restabelecer a
Áustria e a Prússia como grandes potências
independentes, nominalmente iguais a eles
próprios. Eles haviam entendido as vantagens
da ordem e da tranqüilidade que o império de
Napoleão havia trazido às grandes áreas da
Europa que ele havia controlado.
• A contradoutrina da legitimidade dinástica e o
desejo prático de administrar o sistema
pareceram aos estadistas, em Viena, justificar
igualmente as intervenções ideológicas para
reprimir tentativas revolucionárias de tomar o
poder em qualquer Estado
A era das revoluções
Eric Hobsbawm
• Poucas vezes a incapacidade dos
governos em conter o curso da História foi
demonstrada de forma mais decisiva do
que na geração pós-1815.
• Evitar uma segunda Revolução Francesa,
ou ainda a catástrofe pior de uma
revolução européia generalizada tendo
como modelo a francesa foi o objetivo
supremo de todas as potencias que
tinham gasto mais de 20 anos para
derrotar a França.
• Após mais de 20 anos de guerras e
revoluções quase ininterruptas, os velhos
regimes vitoriosos enfrentaram os
problemas do estabelecimento e da
preservação da paz, que foram
particularmente difíceis e perigosos.
• Foram inusitadamente bem sucedidos. De
fato, não houve nenhuma guerra total na
Europa, nem qualquer conflito armado
entre duas grandes potências, da derrota
de Napoleão à Guerra da Criméia, em
1854-6. Na verdade, exceto pela Guerra
da Criméia, não houve nenhuma guerra
que envolvesse mais do que duas
grandes potências entre 1815 e 1914.
Parêntesis
(A Guerra da Crimeia foi um conflito que se
estendeu de 1853 a 1856, na península da
Crimeia (no mar Negro, ao sul da atual Ucrânia),
no sul da Rússia e nos Bálcãs. Envolveu, de um
lado o Império Russo e, de outro, uma coligação
integrada pelo Reino Unido, a França, o Reino
da Sardenha - formando a Aliança AngloFranco-Sarda - e o Império Otomano (atual
Turquia). Esta coalizão, que contou ainda com o
apoio do Império Austríaco, foi formada como
reacção às pretensões expansionistas russas).
• O mapa da Europa foi redelineado sem se levar
em conta as aspirações dos povos ou os direitos
dos inúmeros príncipes destituídos pelos
franceses, mas com considerável atenção para
o equilíbrio das cinco grandes potências que
emergiam das guerras: a Rússia, a GrãBretanha, a França, a Áustria e a Prússia.
• Destas, somente as três primeiras contavam. A
Grã-Bretanha não tinha ambições territoriais no
continente, embora preferisse manter o controle
ou a sua mão protetora sobre assuntos de
importância comercial e marítima.
Europa, 1800
Europa, 1848
Europa,
, 1800
• Os estadistas de 1815 foram bastante inteligentes para
saber que nenhum acordo, não obstante quão
cuidadosamente elaborado, resistiria com o correr do
tempo à pressão das rivalidades estatais e das
circunstâncias mutáveis.
• Conseqüentemente, trataram de elaborar um
mecanismo para a manutenção da paz - i.e. resolvendo
todos os problemas maiores à medida que eles
surgissem - por meio de congressos regulares. Claro,
entendia-se que as cruciais decisões nesses congressos
fossem tomadas pelas "grandes potências" (o próprio
termo é uma invenção deste período.)
• O "concerto da Europa" - outro termo que surgiu então não correspondia por exemplo a uma ONU, mas sim aos
membros permanentes do seu Conselho de Segurança.
Entretanto, os congressos regulares só foram mantidos
por alguns anos - de 1818, quando a França foi
oficialmente readmitida no concerto, até 1822.
• Os ingleses estavam satisfeitos. Por volta de
1815, eles tinham obtido uma vitória mais
completa do que qualquer outra potência em
toda a história mundial, tendo emergido dos 20
anos de guerra com a França como a única
economia industrializada, a única potência naval
- em 1840 a marinha britânica tinha quase tantos navios quanto todas as outras marinhas
reunidas - e virtualmente a única potência
colonial do mundo. Nada parecia atrapalhar o
único grande interesse expansionista da política
externa britânica, a expansão do comércio e do
investimento britânicos.
• Poucas vezes a incapacidade dos
governos em conter o curso da história foi
demonstrada de forma mais decisiva do
que na geração pós-1815. Evitar uma
segunda Revolução Francesa, ou ainda a
catástrofe pior de uma revolução europeia
generalizada tendo como modelo a
francesa, foi o objetivo supremo de todas
as potências que tinham gasto mais de 20
anos para derrotar a primeira.
Houve três ondas revolucionárias principais no mundo
ocidental entre 1815 e 1848:
• 1820-1824 : Espanha (1820); Nápoles (1820); Grécia
(1821)
• 1829-1834: Oeste da Europa, derrubada dos Bourbon
na França.
• A onda revolucionária de 1830 foi, portanto, um
acontecimento muito mais sério do que a de 1820. Ela
marca a derrota definitiva dos aristocratas pelo poder
burguês na Europa Ocidental. A classe governante dos
próximos 50 anos seria a "grande burguesia" de banqueiros, grandes industriais e, às vezes, altos
funcionários civis
• Por trás destas grandes mudanças políticas
estavam grandes mudanças no
desenvolvimento social e econômico. Qualquer
que seja o aspecto da vida social que
avaliarmos, 1830 determina um ponto crítico; de
todas as datas entre 1789 e 1848, o ano de
1830 é o mais obviamente notável. Ele aparece
com igual proeminência na história da
industrialização e da urbanização no continente
europeu e nos Estados Unidos, na história das
migrações humanas, tanto sociais quanto
geográficas, e ainda na história das artes e da
ideologia.
• O mais formidável legado da própria Revolução Francesa foi
o conjunto de modelos e padrões de sublevação política que
ela estabeleceu para uso geral dos rebeldes de todas as
partes do mundo.
• Não queremos dizer com isto que as revoluções de 1815-48
foram a simples obra de alguns agitadores descontentes,
como os espiões e policiais do período - uma espécie muito
utilizada - deviam informar a seus superiores. Elas ocorreram
porque os sistemas políticos novamente impostos à Europa
eram profundamente e cada vez mais inadequados, num
período de rápida mudança social, para as condições
políticas do continente, e porque os descontentamentos
econômicos e sociais foram tão agudos a ponto de criar uma
série de erupções virtualmente inevitáveis.
• Mas os modelos políticos criados pela Revolução de 1789
serviram para dar ao descontentamento um objetivo
específico, para transformar a intranquilidade em revolução, e
acima de tudo para unir toda a Europa em um único
movimento - ou, talvez fosse melhor dizer, corrente - de
subversão.
As independências da América Latina
José Luís Fiori
• “Depois dos Estados Unidos, os países latinoamericanos foram os primeiros estados que se
formaram fora da Europa. Nasceram em bloco e quase
simultaneamente, por razões ligadas à decadência dos
impérios ibéricos e à expansão das novas potências que
assumem a liderança do sistema mundial a partir dos
séculos XVII e XVIII.
•
O reconhecimento de suas independências por parte
destas novas potências passou por negociações que
envolveram, invariavelmente, a assinatura de Tratados
de Livre Comércio, primeiramente com a Inglaterra e
mais tarde com os demais países europeus, e com os
Estados Unidos. Como consequência, a América Latina
se transformou no primeiro laboratório de
experimentação da estratégia de “relacionamento não
colonial com os territórios do novo mundo”, defendida
por Adam Smith”.
Imperialismo britânico
Do ponto de vista da América Latina isso
significou na prática a aceitação de uma
hegemonia política, econômica e financeira
externa por parte dos seus novos estados
independentes. Hegemonia que os ingleses
exerceram durante o século XIX e que depois
cederam à sua ex-colônia norte-americana.
• Esse segundo período, que vai das
independências e da formação de novos
Estados nacionais na região até a perda da
hegemonia britânica, no início do século XX,
pode ser classificada como etapa imperial
As independências e a crise do sistema
• O processo de independências na região
tem origem na crise do Antigo Sistema
Colonial. É seu próprio desenvolvimento
que cria as bases de sua superação.
• A América Latina rompeu com as
metrópoles ibéricas entre 1810 e 1828,
período que vai da independência
Argentina à declaração de soberania do
Uruguai. Nesses 18 anos, mudou
totalmente a configuração geopolítica
desta parte do mundo.
Ciclo de rompimentos
• Os rompimentos com as metrópoles fazem parte
do ciclo histórico das guerras napoleônicas
(1807-1815), no continente europeu. Com a
invasão de Portugal e da Espanha pelas forças
do general Junot, enfraqueceram-se as cadeias
do domínio colonial, já abaladas pelo declínio
econômico dos dois países. Combinado com
condicionantes regionais, a separação das
colônias se faz em um curto período de tempo.
Tratava-se de uma crise sistêmica, como
classificada pelo historiador Fernando Novais
em Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema
Colonial (1777-1801).
Dois fatores principais
levaram o sistema à crise
• Primeiro - A estrutura do sistema baseava-se
na produção escravista e na concentração
fundiária. A colônia tinha por objetivo fornecer
artigos que a metrópole necessitava e oferecer
mercado para manufaturados da metrópole. Por
exemplo, o Brasil exportava cana de açúcar
para Portugal e adquire manufaturados deste,
garantindo fornecimento a preços baixos e
adquirindo bens que geravam alta lucratividade
para a metrópole.
• Em dado momento, a dinâmica passa a
ser disfuncional. Em determinadas
situações, Portugal vai depender do
capital estrangeiro, especialmente
flamenco, para financiar a produção do
açúcar e vai depender das praças de
Antuérpia para escoar sua produção.
• Assim a Holanda acaba por entrar na
concorrência do açúcar e por terminar
com o monopólio português. O exclusivo
metropolitano é na prática questionado.
• Segundo - A extrema concentração de terras e
de renda, a realização das riquezas geradas na
colônia apenas na metrópole e a inelasticidade
do trabalho escravo travam o desenvolvimento
do sistema, que já apresenta baixos índices de
produtividade. Ele cresce, como notou Celso
Furtado em Formação econômica do Brasil,
extensivamente, isto é, por agregação de novas
unidades e com a mesma composição de
fatores. Mais ainda, ela não reinveste em escala
crescente, apenas repõe e agrega, dilapidando
a natureza.
• Decorre disso, portanto, uma limitação ao
crescimento da economia de mercado.
• Como não havia meios de se reduzir os custos
através do uso de novas tecnologias, a camada
senhorial buscava reduzir ao mínimo o custo da
mão de obra escrava. Assim, busca-se que o
escravo tenha uma lavoura de subsistência
dentro da própria unidade produtora para
exportação. Esta produção se desenvolve à
margem do mercado.
• Assim, a demanda de manufaturas era
reduzidíssimo. O desenvolvimento de um
mercado interno fica travado
Industrialismo e independência
• Quando as economias metropolitanas se
desenvolvem, no bojo da Revolução Industrial,
potencializando a atividade produtiva,
aumentando da produção e da oferta, passam a
exigir nas colônias a ampliação das faixas de
consumo, não apenas das camadas superiores
da sociedade. Isso só seria possível com a
generalização das relações mercantis.
• Tais tensões geradas no interior do próprio
sistema e por conta de seu próprio
desenvolvimento criam as bases de sua crise
irreversível.
• O exclusivo metropolitano impedia o
escoamento da oferta de produtos
britânicos para as colônias ibéricas.
Assim, o industrialismo britânico passa a
ter interesses diretos na remoção das
metrópoles intermediárias. “É neste
contexto que se gera (...) a campanha
inglesa contra o tráfico negreiro, que era a
forma indireta de atacar o antigo sistema
colonial no seu cerne; o que entra em
crise é, pois, o próprio sistema colonial
como um todo”, aponta Novais.
Formação dos Estados
• A primeira metade do século XIX está
marcada pela independência e pela
formação dos Estados Nacionais. Na
América espanhola, seus pólos de
irradiação foram Buenos Aires, Caracas e
Cidade do México. Nas duas primeiras
regiões, um rápido desenvolvimento no
final do século XVIII, aliada à deterioração
do domínio espanhol fortaleceu os
movimentos independentistas.
Celso Furtado em
A economia latino americana
• “A estruturação dos Estados nacionais ocorreu
de forma acidentada em quase toda a América
Latina. As elites liberais que lideraram ou
apoiaram os movimentos de independência em
Buenos Aires ou em Caracas não estavam em
condições de organizar sistemas de poder
capazes de substituir as antigas metrópoles. Ao
mesmo tempo, havia permanentes tensões de
autonomização regional. Na ausência de
vínculos políticos mais significativos, o localismo
político tendia a prevalecer”.
Fragmentação
• “Rompidos os vínculos com a metrópole, por
toda parte o poder tendeu-se a deslocar-se para
a classe dos senhores de terra. A estruturação
dos novos Estados foi condicionada por dois
fatores: a inexistência de interdependência real
entre os senhores da terra, que se ligariam uns
aos outros ou se submeteriam a um dentre eles
em função da luta pelo poder; a ação da
oligarquia urbana, que manteria contatos com o
exterior e exploraria toda a possibilidade de
expansão do intercambio externo ao qual iriam
se vinculando segmentos do setor rural”.
A Revolução de 1830
• Afetou toda a Europa e oeste da Rússia. Na Europa a
derrubada dos Bourbons na França estimulou várias
revoluções. A Bélgica obteve sua independência da
Holanda. Esta é a marca da derrota definitva do poder
absolutista na Europa Ocidental.
• É o ascenso da grande burguesia financeira e industrial
ao poder. A revolução de 1830 determina o surgimento
da clase operária como força politica na GB e na França
e dos movimentos nacionalistas em boa parte do
continente.
Havia vários modelos semelhantes, embora
fossem todos originários da experiência
francesa entre 1789 e 1797.
•
Eles correspondiam às três principais tendências da
oposição depois de 1815:
1. O liberal moderado (ou, em termos sociais, o da classe
média superior e da aristocracia liberal),
2. O democrata radical (ou, em termos sociais, o da
classe média inferior, parte dos novos industriais,
intelectuais e pequena nobreza descontente) e
3. O socialista (ou, em termos sociais, dos "trabalhadores
pobres" ou das novas classes operárias industriais).
• As revoluções de 1830 mudaram a situação
inteiramente. Elas foram os primeiros produtos de um
período geral de aguda e disseminada intranquilidade
econômica e social e de rápidas transformações. Dois
principais resultados seguiram-se a isto.
• O primeiro foi que a política de massa e a revolução de
massa, com base no modelo de 1789, mais uma vez
tornaram-se possíveis, e a dependência exclusiva das
irmandades secretas, portanto, menos necessária. Os
Bourbon foram derrubados em Paris por uma típica
combinação de crise do que se considerava a política da
monarquia Restaurada e de intranquilidade popular
devida à depressão econômica. Cidade sempre agitada
pela atividade de massa, Paris em julho de 1830
mostrava as barricadas surgindo em maior número e em
mais lugares do que em qualquer época anterior ou
posterior.
• O segundo resultado foi que, com o
progresso do capitalismo, "o povo" e os
"trabalhadores pobres" - i.e. os homens
que construíram as barricadas - podiam
ser cada vez mais identificados com o
novo proletariado industrial como "a
classe operária". Portanto, um movimento
revolucionário proletário-socialista passou
a existir.
• Mudanças - 1789 a 1848
• A primeira destas mudanças foi demográfica. A
população mundial - e em especial a população do
mundo dentro da órbita da revolução dupla - tinha
iniciado uma "explosão" sem precedentes, que tem
multiplicado seu número no curso dos últimos 150 anos.
Visto que poucos países, antes do século XIX, tinham
qualquer coisa que se parecesse com um censo, sendo
os existentes de pouca confiança, não sabemos com
precisão com que rapidez a população aumentou neste
período; mas foi certamente um aumento sem
precedentes e maior (exceto talvez em países pouco
populosos que cobriam espaços vazios e até então mal
utilizados, como a Rússia) nas áreas economicamente
mais avançadas.
• O extraordinário aumento da população naturalmente
estimulou muito a economia.
• A segunda maior mudança foi nas
comunicações. Segundo consenso geral, as
ferrovias estavam apenas na infância em 1848,
embora já fossem de considerável importância
prática na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos,
na Bélgica, na França e na Alemanha.
• O que foi mais relevante, depois de 1830 - o
ponto-chave que o historiador de nosso período
não pode perder, qualquer que seja seu campo
de interesse particular -, é que o ritmo de
mudança social e econômica acelerou-se visível
e rapidamente.
• Entre 1815 e 1848, nenhum observador
consciente podia negar que a situação dos
trabalhadores pobres era assustadora. E já em
1840 esses observadores eram muitos e
advertiam que tal situação piorava cada vez
mais.
• Sem dúvida, a verdadeira pobreza era pior no
campo, e especialmente entre os trabalhadores
assalariados que não possuíam propriedades,
os trabalhadores rurais domésticos, e, é claro,
entre os camponeses pobres ou entre os que
viviam da terra infértil.
A partir de 1830, as revoltas se
multiplicam pela Europa.
Na França, a restauração da
monarquia e da dinastia dos
Bourbon não havia sido suficiente
para Carlos X, que tentou
reintroduzir o absolutismo e
alguns dos privilégios de que
gozava a nobreza no Antigo
Regime.
• A publicação das ordenações
conservadoras, em julho daquele
ano, que dissolvia a Assembléia de
maioria liberal (burguesa), modificava
o sistema eleitoral e estabelecia
medidas de censura prévia à
imprensa, motivou a insurgência da
burguesia e de grande parte da
população, que depôs o rei e
entregou o trono a Luís Felipe, nobre
da família Orleans, de tendências
liberais.
• A revolta liberal na França repercutiu por
toda a Europa e o seu exemplo motivou a
rebelião da burguesia da Bélgica. A Itália
também se convulsionou em 1831-32,
quando a sociedade secreta dos
carbonários obteve sucesso ao proclamar
a república nos Estados Pontificiais (ou
Estados Papais, vasta porção territorial
sob comando da Igreja entre 756 e 1870),
movimento revertido pela intervenção da
Áustria.
• A Europa viveu um estado de crise
latente entre 1815 e 1848, com
agravamento de problemas
econômicos e sociais, além das
disputas entre liberais (burgueses) e
conservadores (absolutistas).
• A situação mostrou-se insustentável
mesmo na França, que avançou
depois da Revolução de 1830 para
uma forma de governo constitucional.
• Neste ano, subiu ao poder Luís Filipe I (1773 –
1850), último rei da França (1830 a 1848). Ficou
conhecido como o "Rei Burguês" ou "Rei
Cidadão".
• Luís Filipe pronunciou-se a favor dos ideais
revolução de 1789 e, em 1790, uniu-se aos
radicais nas fileiras jacobinas.
• O seu reinado foi uma monarquia constitucional,
mas ele era, sobretudo, favorável à burguesia
numa época em que a França começava a sua
Revolução Industrial. A Monarquia de Julho,
como seu reinado muitas vezes é designado,
representa a implantação na França de um novo
regime de aberta inspiração liberal que acabou
com as formas mais anacrônicas da monarquia
absoluta.
• Com o agravamento das tensões, seu
governo desgastou-se rapidamente.
• Em 1848, a oposição, formada por
republicanos e socialistas e
engrossada por segmentos populares
tomou as ruas em fevereiro para
reclamar reformas políticas,
conseguindo destituir o monarca.
• O governo provisório, formado no
vácuo de poder que se formou
proclamou a república, aboliu a
censura, pôs fim ao voto censitário
(apenas 3% da população votava, pois
o direito era limitado pela renda) e
formulou políticas de compensação
social, como a regulamentação da
jornada de trabalho, a legalização dos
sindicatos operários, além de convocar
uma Assembléia Constituinte.
• A tensão não se desfez e explodiram novas
reivindicações apenas quatro meses depois,
quando, sob a liderança dos socialistas, a
classe operária protestou vigorosamente contra
a insuficiência das medidas adotadas e,
particularmente, contra o fechamento das
oficinas nacionais de distribuição de alimentos.
• Após três dias de lutas nas ruas, o movimento
foi sufocado pelas forças de segurança,
deixando um saldo de dois mil mortos e feridos.
Barricadas de Paris
durante a revolução de 1848.
Fotos de Hippolyte Bayard e
Thibault..
Barricadas
na rua Saint-Maur,
Paris, 1848
O massacre dos bulevares
Vitor Hugo (1802-85)
• De repente uma janela, dando diretamente para
o inferno, foi aberta com violência. Estivesse
Dante observando através das trevas, e teria
reconhecido o oitavo círculo de seu poema no
fatídico bulevar Montmartre. Um espetáculo
horrendo - Paris nas garras de Bonaparte!
• Os homens armados, amontoados no bulevar,
foram tomados por um súbito frenesi. Não eram
mais homens, mas sim demônios. Para eles não
havia mais uma bandeira, nem lei, humanidade
ou país.
• A matança do bulevar Montmartre foi um
crime sem finalidade, ao qual nenhum
motivo poderia ser atribuído. E no entanto
uma razão, e uma razão muito terrível,
existia. Vamos dizer qual era. Existem
duas poderosas forças no Estado - a lei e
o povo. Um homem assassina a lei. Ele vê
aproximar-se a hora de pagar, e não há
mais nada a fazer senão assassinar o
povo.
• Louis Bonaparte alcançou
essa glória, e ao mesmo
tempo chegou ao ápice de sua
infâmia. Vamos contar como
ele fez isso, e lembrar o que a
história não viu - o assassinato
de um povo por um homem!
• Subitamente, a um dado sinal disparado de um
mosquete - não importa onde ou por quem abriu-se um fogo mortal de metralha contra a
multidão. A metralha é em si mesma uma
multidão; é morte a granel. Não se sabe de
onde vem ou para onde vai; mata, e continua.
• E, no entanto, possui uma espécie de alma. Age
premeditadamente e executa um plano. O
movimento foi inesperado. Foi como um
punhado de raios e trovões arremessados sobre
o povo. Nada poderia ser mais fácil. Possuía
toda a simplicidade da solução de um quebracabeças. A metralha aniquilou o populacho.
• Em um instante havia uma série de
assassinatos estendendo-se por cerca de
quatrocentos metros ao longo do bulevar. Onze
canhões destruíram o Hotel Sallandrouze. Um
tiro atingiu diretamente vinte e oito casas. Os
Banhos de Jouvence foram perfurados. Um
quarteirão inteiro de Paris transformou-se em
um cenário aterrorizante. O ar estava cheio de
gritos de angústia.
• Morte, morte repentina, estava por todos os
lados. Ninguém esperava nada. Havia gente
caindo por todos os lados.
• Ninguém escapava. Os mosquetes e pistolas
eram usados em todas as direções. O Ano Novo
estava se aproximando, e havia lojas cheias de
presentes.
• Uma criança de 13 anos, voando diante do fogo
dos soldados, refugiou-se numa loja da Árcade
Sauveur, e escondeu-se debaixo de uma pilha
de brinquedos. Foi agarrada e massacrada,
enquanto os assassinos abriam as feridas com
seus sabres. Contou-me uma mulher:
"Podíamos ouvir os gritos da pequena criatura
por toda a arcada".
• O 75º Regimento da Linha tomou a barricada da
Porte Saint-Denis. Não houve resistência,
somente carnificina posteriormente.
• Uma mulher que vinha correndo com todas as
suas forças, o cabelo desgrenhado e os braços
esticados para frente, voava pela rue
Poissonière, gritando: "Eles estão nos matando!
Estão nos matando!"
• (...)
• Cheguei ao bulevar. A cena era indescritível. Eu
vi este crime. Eu vi esta tragédia, esta
carnificina. Eu vi esta cega correnteza de morte,
e os corpos de pessoas assassinadas caindo ao
meu lado, e é por esta razão que posso assinar
este livro como testemunha ocular.
As eleições
• Em dezembro de 1848, os franceses
foram às urnas para eleger seu primeiro
presidente da República. O vencedor foi
Luís Napoleão, sobrinho do Imperador,
que conseguiu seduzir o eleitorado com a
mística da liderança de seu nome e com a
promessa de que conseguiria reprimir as
rebeliões operárias futuras.
• Com o agravamento das tensões, em
dezembro de 1851, Luís Bonaparte dá um
golpe de Estado e abole a República,
restaurando a monarquia. Proclama-se
Napoleão III, rei dos franceses.
• Acabava melancolicamente o grande ciclo
revolucionário francês iniciado em 1789,
com ramificações por toda a Europa e
parte do mundo.
• A Revolução de 1830 na França
contribuiu para abalar as bases da
Santa Aliança e a de 1848 para
torná-la definitivamente sem efeito.
Na guerra de independência da
Grécia, a Rússia apoiou os gregos, a
Aústria e a Prússia não a apoiou e a
Santa Aliança chegou ao fim.
Conhecida como a "Primeira liga
militar do mundo em tempo de paz".
• A revolução de 1830 introduziu constituições
moderadamente liberais - antidemocráticas mas
também claramente antiaristocráticas - nos
principais Estados da Europa Ocidental. Sem
dúvida, havia acordos, impostos pelo temor de
uma revolução de massa, que iria além das
moderadas aspirações da classe média.
• Estes acordos deixaram as classes
proprietárias de terras super-representadas no
governo, como na Grã-Bretanha, e grandes
parcelas das novas classes médias - e
especialmente das industriais mais dinâmicas sem representação, como na França. Ainda
assim, foram acordos que decisivamente
inclinaram a balança política para o lado das
classes médias.
• O movimento operário proporcionou uma
resposta ao grito do homem pobre. Ela não
deve ser confundida com a mera reação coletiva
contra o sofrimento intolerável, que ocorreu em
outros momentos da história, nem sequer com
a. prática da greve e outras formas de militância que se tornaram características da classe
trabalhadora. Estes acontecimentos também
têm sua própria história que começa muito
antes da revolução industrial. O
verdadeiramente novo no movimento operário
do princípio do século XIX era a consciência de
classe e a ambição de classe. Os "pobres" não
mais se defrontavam com os "ricos".
1848
• A Revolução de 1848 –
protagonizada pela primeira vez
majoritariamente pelos trabalhadores
– aparece como primeira revolução
moderna européia, que combinou
maior promessa, maior extensão,
maior extensão, maior sucesso inicial
imediato e o mais rápido e
retumbante fracasso.
• Entre 1830 e 1850 o proletariado francês
cresceu substancialmente. Em Lyon esta
classe protagonizou mesmo alguns
levantamentos, que foram, todavia,
duramente reprimidos pelas autoridades.
Depois destes levantamentos populares
surgiram um pouco por toda a França
sociedades secretas constituídas por
operários, ligadas ao movimento
republicano e ao movimento do socialismo
utópico.
• Dá-se o nome de Revoluções de
1848 à série de revoluções na
Europa central e ocidental que
eclodiram em função de regimes
governamentais autocráticos, crises
econômicas, falta de representação
política das classes médias e
nacionalismo despertado nas
minorias da Europa central e oriental,
que abalaram as monarquias
européias, onde tinham fracassado
as tentativas de reformas políticas e
econômicas.
• Também chamadas de Primavera dos
Povos , tais revoluções, de caráter
liberal democrático e nacionalista,
foram iniciadas por membros da
burguesia e da nobreza que exigiam
governos constitucionais, e por
trabalhadores e camponeses que se
rebelaram contra os excessos e a
difusão das práticas capitalistas.
• Em 1848, influenciada pelo liberalismo,
pelo nacionalismo, pelo socialismo e em
meio a uma conjuntura de crise
econômica (na agricultura e na
Superprodução capitalista), eclodiu uma
revolta e o Rei Luís Filipe de Órleans
abdicou do trono. Era a “primavera dos
povos”. No dia 23 de abril, ocorreu a
primeira eleição na Europa com sufrágio
universal masculino, que elegeu Luís
Napoleão.
• Os anos de 1845 e 1846 foram de péssimas
colheitas, desencadeando uma crise agrícola
em todo o continente. A crise agrícola iniciou-se
em Flandres e na Irlanda, com as péssimas
colheitas de batatas.
• Na Europa ocidental, a má colheita de trigo
desencadeou em 1846 uma série de revoltas
camponesas. Essa crise desencadeou uma alta
vertiginosa do custo de vida, atirou à miséria
grandes setores da população rural e reduziu
drasticamente a sua capacidade de consumo de
produtos manufaturados.
• A crise se agravou atingindo a
indústria e as finanças. A crise,
naturalmente, não teve caráter
uniforme e atingiu de forma
diferente cada região. Foi
predominantemente industrial na
Inglaterra e na França, mas
sobretudo agricola na Irlanda e
na Itália.
• Centenas de milhares de insatisfeitos com o
desemprego, mas sem um programa político claro,
descobriram que queriam derrubar o governo do rei Luís
Filipe, de seus ministros e de todo o sistema econômico
que os enriquecia às custas dos trabalhadores.
• No dia seguinte, o centro de Paris estava cheio de
barricadas que assustaram os burgueses moderados da
oposição. Na fuzilaria morreram cerca de 500 pessoas.
Os cadáveres foram colocados em carros iluminados
por tochas e desfilaram pelo centro de Paris,
alimentando a insurreição, dando início a uma luta
aberta que se estendeu por toda Paris. Soldados da
Guarda Nacional, enviados para reprimir os
manifestantes, uniram-se a elas.
• O governo ensaiou oferecer reformas para controlar a
rebelião que aumentava de proporções, mas já era
tarde. Na manhã do dia 24, quando inspecionava as
tropas, o rei foi vaiado por elas. Os insurrectos
controlavam os arsenais. À tarde, já corriam
proclamações republicanas. Incapaz de reagir, a Luís
Filipe só restava abdicar o trono. O parlamento
dissolveu-se. A Monarquia de Julho tinha sido
destronada e nascia a Segunda República (1848-1852).
• Os grandes burgueses moderados da oposição estavam
exasperados. O que mais temiam estava nas ruas: a
revolução social dos pobres. As ruas de Paris eram
tomadas por um contingente de 40 á 50 mil
manifestantes, sendo muitos mortos e 15 mil presos.
• O Governo provisório convocou eleições,
as quais deram vitória aos candidatos da
burguesia e dos latifundiários. Em 25 de
Fevereiro foi implantada a Segunda
República, em resultado de uma
expressiva manifestação; todavia, esta
não veio a corresponder às aspirações
dos operários que reclamavam uma
reforma social.
• O sufrágio universal masculino foi estabelecido
e por proposta dos socialistas, foi reduzida a
jornada de trabalho de 12 para 10 horas diárias.
Por pressão dos operários e socialistas, foram
criadas as Oficinas Nacionais (ateliers
nationaux) - fábricas com capital estatal e
dirigidas por operários, destinadas a aliviar a
crise econômica e o desemprego, que logo se
tornaram improdutivas e custosas, aumentando
o déficit público - e a Comissão de Luxemburgo,
cujo objetivo era a preparação de projetos de
legislação social e a arbitragem de conflitos de
trabalho.
Reação
• A inexperiência política do governo não
satisfazia nem as reivindicações dos mais
radicais nem as inquietações dos mais
conservadores. Mas era principalmente a crise
econômica que agravava a inquietude de todos
os operários.
• A falta de mercados para vender seus produtos,
o aumento dos impostos, o marasmo
econômico, aliado às agitações políticas e à
fraqueza e hesitação do governo, provocavam
pesadelos no mundo dos negócios.
• Diante do "perigo vermelho", a burguesia
se preparou. Em 23 e 24 de abril de 1848,
ocorreram eleições para a formação de
uma Assembleia Constituinte. O Governo
Provisório cessou as suas funções e deu
lugar a uma comissão executiva de cinco
membros
• Os socialistas e os republicanos
concorriam, mas faltava-lhes organização
em nível nacional e sua influência estava
quase que restrita a Paris.
• Já o Partido da Ordem, que representava
todos os homens preocupados com a
defesa da propriedade, tinha influência
nacional, pois se apoiava nos notáveis das
cidades e aldeias rurais da França, um
imenso país de camponeses. O Partido da
Ordem elegeu 700 deputados, alguns
favoráveis à monarquia e outros
republicanos moderados. Os republicanos
radicais e os socialistas não conseguiram
eleger nem 100 deputados
• Dominada pelo Partido da
Ordem, a Constituinte passou a
combater as ideias socialistas.
Desempregados e sem meios de
sustento, os operários
revoltaram-se espontaneamente
levantando barricadas e
dispostos a enfrentar o novo
poder estabelecido e controlado
pela burguesia.
• Esta revolução teve significativas
repercussões no resto da Europa. A crise
econômica européia ajudou a Revolução
de 1848 a expandir-se pela Europa,
atingindo também um dos esteios do
Absolutismo, a Áustria, onde o Chanceler
Metternich foi obrigado a renunciar. Até
mesmo o Brasil pôde sentir os efeitos da
onda revolucionária das barricadas
francesas, que inspiraria os rebeldes
pernambucanos na Revolução Praieira.
• O ideal predominante nos demais
países europeus onde houve
revolução não foi o liberalismo,
mas sim o nacionalismo. Os
revolucionários desses países
queriam libertar seus povos da
dominação estrangeira imposta
pelas decisões do Congresso de
Viena.
• A burguesia apercebera-se dos perigos
das revoluções, tomando consciência de
que seus anseios políticos poderiam ser
alcançados pela via do sufrágio universal,
evitando conflitos e sublevações. Assim, a
revolução de 1848 foi o movimento que
posicionou definitivamente burguesia e
proletariado em campos opostos, o que
marcaria profundamente os embates
políticos vindouros.
• Ainda em 1848, os governos da Prússia e outros
Estados germânicos atendem algumas
reivindicações sociais por reformas e as forças
liberais ganham espaço para convocar uma
Assembléia Nacional.
• Em 1849, é aprovada a criação de uma
Federação de Estados alemães, que teria um
único parlamento nacional e cuja coroa caberia
a Frederico Guilherme, da dinastia dos
Hohenzollern. Com pressões absolutistas da
Áustria, há um recuo e a Assembléia é
dissolvida. A primeira tentativa de unificação da
Alemanha fracassa.
• A Áustria ainda dominada pelo que
restava do Império Habsburgo controlava
com mão de ferro um território formado
por múltiplas nacionalidades.
• Em 1848, vários movimentos
revolucionários eclodiram por todo o
Império, a começar por Viena. Outras
partes também se levantam, como a
Boêmia (Tchecos), a Hungria e parte da
Itália.
• Embora tenham fracassado, as
revoluções alemãs e italianas de
1848 prepararam o terreno para a
unificação desses países, que foi
realizada entre 1861 e 1871. A
Áustria, por sua vez, teve que
acatar, desde 1867, o
compromisso de reconhecimento
da soberania húngara.
O 18 Brumário de Luís Bonaparte
Karl Marx (1851-52)
• Hegel observa em uma de suas obras que todos
os fatos e personagens de grande importância
na história do mundo ocorrem, por assim dizer,
duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a
primeira vez como tragédia, a segunda como
farsa.
• Caussidière por Danton, Luís Blanc por
Robespierre, a Montanha de 1845-1851 pela
Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio. E
a mesma caricatura ocorre nas circunstâncias
que acompanham a segunda edição do Dezoito
Brumário!
• Os homens fazem sua própria história, mas não
a fazem como querem; não a fazem sob
circunstâncias de sua escolha e sim sob
aquelas com que se defrontam diretamente,
legadas e transmitidas pelo passado.
• A tradição de todas as gerações mortas oprime
como um pesadelo o cérebro dos vivos. E
justamente quando parecem empenhados em
revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo
que jamais existiu, precisamente nesses
períodos de crise revolucionária, os homens
conjuram ansiosamente em seu auxilio os
espíritos do passado, tomando-lhes emprestado
os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a
fim de apresentar e nessa linguagem
emprestada.
• No umbral da Revolução de Fevereiro, a
república social apareceu como uma frase,
como uma profecia.
• Nas jornadas de junho de 1848 foi afogada no
sangue do proletariado de Paris, mas ronda os
subseqüentes atos da peça como um fantasma.
A república democrática anuncia o seu advento.
A 13 de junho de 1849 é dispersada juntamente
com sua pequena burguesia, que se pôs em
fuga, mas que na corrida se vangloria com
redobrada arrogância. A república parlamentar,
juntamente com a burguesia, apossa-se de todo
o cenário; goza a vida em toda a sua plenitude,
mas o 2 de dezembro de 1851 a enterra sob o
acompanhamento do grito de agonia dos
monarquistas coligados:"Viva a República!"
• A burguesia francesa rebelou-se contra o domínio do
proletariado trabalhador; levou ao poder o lúmpen
proletariado tendo à frente o chefe da Sociedade de 10
de Dezembro. A burguesia conservava a França
resfolegando de pavor ante os futuros terrores da
anarquia vermelha;
• Bonaparte descontou para ela esse futuro quando, a 4
de dezembro, fez com que o exército da ordem,
inspirado pela aguardente, fuzilasse em suas janelas os
eminentes burgueses do Bulevar Montmartre e do
Bulevar des Italiens. A burguesia fez a apoteose da
espada; a espada a domina. Destruiu a imprensa
revolucionária; sua própria imprensa foi destruída.
Colocou as reuniões populares sob a vigilância da
polícia; seus salões estão sob a Guarda Nacional
democrática; sua própria Guarda Nacional foi dissolvida.
Impôs o estado de sítio; o estado de sítio foi-lhe
imposto.
• Assim como os Bourbons
representavam a grande
propriedade territorial e os
Orléans a dinastia do dinheiro,
os Bonapartes são a dinastia
dos camponeses, ou seja, da
massa do povo francês.
• Os pequenos camponeses constituem uma
imensa massa, cujos membros vivem em
condições semelhantes mas sem
estabelecerem relações multiformes entre si.
Seu modo de produção os isola uns dos outros,
em vez de criar entre eles um intercâmbio
mútuo. Esse isolamento é agravado pelo mau
sistema de comunicações existente na França e
pela pobreza dos camponeses. Seu campo de
produção, a pequena propriedade, não permite
qualquer divisão do trabalho para o cultivo,
nenhuma aplicação de métodos científicos e,
portanto, nenhuma diversidade de
desenvolvimento, nenhuma variedade de
talento, nenhuma riqueza de relações sociais.
• Não podem representar-se, têm
que ser representados. Seu
representante tem, ao mesmo
tempo, que aparecer como seu
senhor, como autoridade sobre
eles, como um poder
governamental ilimitado que os
protege das demais classes e
que do alto lhes manda o sol ou a
chuva.
• É preciso que fique bem claro. A dinastia de
Bonaparte representa não o camponês
revolucionário, mas o conservador; não o
camponês que luta para escapar às condições
de sua existência social, a pequena
propriedade, mas antes o camponês que quer
consolidar sua propriedade; não a população
rural que, ligada à das cidades, quer derrubar a
velha ordem de coisas por meio de seus
próprios esforços, mas, pelo contrário, aqueles
que, presos por essa velha ordem em um
isolamento embrutecedor, querem ver-se a si
próprios e suas propriedades salvos e
beneficiados pelo fantasma do Império.
• Bonaparte representa não o esclarecimento,
mas a superstição do camponês; não o seu
bom-senso, mas o seu preconceito; não o seu
futuro, mas o seu passado
• Evidentemente a burguesia não tinha
agora outro jeito senão eleger Bonaparte.
• (...)
• A indústria e o comércio, e, portanto, os
negócios da classe média, deverão
prosperar em estilo de estufa sob o
governo forte. São feitas inúmeras
concessões ferroviárias. Mas o lúmpen
proletariado bonapartista tem que
enriquecer.
• Impelido pelas exigências contraditórias de sua
situação e estando ao mesmo tempo, como um
prestidigitador, ante a necessidade de manter
os olhares do público fixados sobre ele, como
substituto de Napoleão, por meio de surpresas
constantes, isto é, ante a necessidade de
executar diariamente um golpe de Estado em
miniatura,
• Bonaparte lança a confusão em toda a
economia burguesa, viola tudo que parecia
inviolável à Revolução de 1848, torna alguns
tolerantes em face da revolução, outros
desejosos de revolução, e produz uma
verdadeira anarquia em nome da ordem, ao
mesmo tempo que despoja de seu halo toda a
máquina do Estado, profana-a e torna-a ao
mesmo tempo desprezível e ridícula.
18 Brumário
Prefácio de Engels à edição de 1885
• A França é o país em que as lutas
históricas de classes sempre foram
levadas mais do que em nenhum
outro lugar ao seu termo decisivo e
onde, portanto, as formas políticas
mutáveis dentro das quais se
movem estas lutas de classes e nas
quais se assumem os seus
resultados, adquirem os contornos
mais acusados.
• Centro do feudalismo na Idade Média e país
modelo da monarquia unitária de estados [ou
ordens sociais – standische] desde o
Renascimento a França demoliu o feudalismo
na grande revolução e fundou a dominação pura
da burguesia sob uma forma clássica como
nenhum outro país da Europa. Também a luta
do proletariado cada vez mais vigoroso contra a
burguesia dominante reveste aqui uma forma
aguda, desconhecida noutras partes.
• Esta foi a razão por que Marx não só estudava
com especial predilecção a história passada
francesa, mas também seguia em todos os seus
pormenores a história em curso, reunindo os
materiais para os empregar posteriormente, e
portanto nunca se via surpreendido pelos
acontecimentos.
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