Surto de colibacilose em caprinos jovens

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Surto de colibacilose em caprinos jovens
Abreu, C. C., Raymundo, D. L., Leite, I. S. V., Biihrer, D. A., Nascimento, L. C., Wouters, A. T. B.
Autor correspondente: [email protected] (Wouters, A.T.B.). Universidade Federal de Lavras,
Departamento de Medicina Veterinária, DMV / UFLA, Caixa Postal 3037, CEP 37200-000, Lavras MG
PALAVRAS CHAVE: Escherichia coli, Cepa enterotoxigênica, Ruminantes.
INTRODUÇÃO: A Escherichia coli é uma bactéria Gram-negativa da Família Enterobacteriaceae, que compreende
microrganismos amplamente distribuídos no ambiente. Bactérias coliformes estão presentes precocemente na
microbiota que coloniza o trato intestinal de praticamente todos os animais. Se essas bactérias não adquirem
elementos genéticos que codifiquem para fatores de virulência, elas permanecem como comensais benignos [5].
Os animais jovens estão sob risco mais elevado de diarreia por coliformes, especialmente leitões e bezerros [1].
Há uma variedade de mecanismos na infecção por E. coli, que é classificada em enterotóxica ou enterotoxigênica
(ETEC), septicêmica (EIEC), doença por edema (enterotoxêmica), pós-desmame, êntero-hemorrágica (EHEC),
enteroinvasiva e enteropatogênica, entre outras. A colibacilose ETEC ocorre mais frequentemente em animais de
dois dias a três semanas de idade, sendo bezerros e leitões mais frequentemente afetados [1]. Ruminantes,
especialmente bovinos, constituem uma vasta reserva de E. coli patogênica [5]. Poucos estudos foram encontrados
sobre surtos de diarreia em caprinos por E. coli. Um estudo realizado do Egito apresenta prevalência de 27,3% de
E. coli patogênica em amostras fecais de caprinos [5]. O objetivo deste trabalho é relatar um surto de colibacilose
em caprinos jovens, no sul de Minas Gerais.
MATERIAIS E MÉTODOS: Foram encaminhados para necropsia três caprinos, um com 15 dias (caprino 1) e dois
com 30 dias de idade (caprinos 2 e 3), que tiveram diarreia como sinal clínico mais importante. Na necropsia,
foram colhidos fragmentos de tecidos e órgãos e fixados em formalina 10% e processados rotineiramente para
exame histológico. Duas amostras de fezes de caprinos com diarreia foram enviadas para cultura bacteriológica e
antibiograma.
RESULTADOS: Em um lote de 25 cabritos da mesma faixa etária de uma propriedade com caprinocultura
especializada em produção de leite, todas tiveram diarreia e quatro morreram. O caprino 1 manifestou diarreia
dois dias antes da morte; o caprino 2 teve diarreia 15 dias antes, teve melhora clínica após medicação com
florfenicol, mas voltou a piorar e morreu um dia após. O caprino 3 teve diarreia por dois dias antes da morte. Na
necropsia foram observadas fezes amareladas, liquefeitas a pastosas e fétidas aderidas à região perianal nos três
caprinos; mucosas conjuntivais e oral discreta e moderadamente pálidas, os olhos estavam deprimidos na órbita.
No intestino delgado foram observados serosa avermelhada na porção distal do jejuno (caprino 1), mucosa
moderadamente avermelhada (caprino 2), conteúdo liquefeito amarelado e fétido em toda a extensão (caprinos 1,
2 e 3). No intestino grosso havia conteúdo liquefeito a pastoso e fétido em toda extensão (caprinos 1, 2 e 3). Além
desses achados, no caprino 2, traqueia e brônquios continham espuma brancacenta em toda a extensão, os
pulmões estavam hipocrepitantes, pesados e com superfície brilhantes, e havia quantidade moderada de líquido
no saco pericárdico e, no caprino 3, os linfonodos mesentéricos estavam moderadamente aumentados de volume,
o fígado discretamente pálido, os pulmões vermelho-escuros e com hemorragias multifocais. No exame histológico
não foram observadas lesões significativas no intestino delgado; havia discreta dilatação de ductos lacteais
(caprino 1) e congestão difusa acentuada (caprino 3); também observada no intestino grosso (caprino 2). Nos
pulmões havia congestão e edema difusos moderados a acentuados; no fígado vacuolização difusa discreta do
citoplasma de hepatócitos. No caprino 2, havia fibrose intersticial multifocal discreta nos rins e necrose multifocal
discreta associada a infiltrado inflamatório mononuclear discreto no miocárdio. Na análise bacteriológica das
amostras fecais de caprinos com diarreia foi identificada Escherichia coli gama hemolítica e, no antibiograma da
cultura de uma das amostras enviadas, foi detectada resistência a trimetoprim + sulfa e na outra amostra
resistência a florfenicol.
DISCUSSÃO E CONCLUSÃO: Os achados epidemiológicos, clínicos, patológicos e laboratoriais permitiram o
diagnóstico de colibacilose ETEC. Os caprinos necropsiados tinham 15 a 30 dias de idade. Ainda não se
compreende muito bem porque a colibacilose ETEC é uma doença de neonatos. Algumas especulações sugerem
que a colonização bacteriana entérica está relacionada à acidez gástrica e que o pH baixo no estômago dos animais
após o nascimento destrua a bactéria [1]. Após manifestação clínica de diarreia, a morte é rápida. Em leitões, assim
que a E. coli ETEC encontra condições de se multiplicar no intestino delgado e aderir à mucosa (evitando sua
eliminação através do trânsito intestinal normal), ocorre a produção de toxinas e a indução da doença, que pode
ser fatal em menos de 24 horas [4]. Nos três caprinos as fezes eram amareladas, liquefeitas a pastosas e fétidas. A
diarreia por colibacilose é considerada secretória e as características observadas clinicamente e na necropsia são
compatíveis com os achados descritos na literatura [1]. Em animais recentemente mortos, com fixação imediata
do intestino, notam-se bactérias recobrindo a superfície luminal dos enterócitos [1]. Nos cortes avaliados do
intestino delgado dos caprinos necropsiados havia autólise inicial a moderada, prejudicando a visualização das
bactérias na superfície dos enterócitos, no entanto, a ausência de inflamação e de outras lesões intestinais
corrobora o diagnóstico de colibacilose ETEC. Enrofloxacina, trimetroprin associada a sulfa, ou florfenicol foram
antibióticos usados em várias ocasiões de manifestação de diarreia nos caprinos jovens, inclusive no surto que
resultou na morte de quatro animais e o antibiograma demonstrou resistência a dois deles. O antibiograma é
importante para que se evite resistência e seleção de cepas resistentes. O uso de antibióticos para o tratamento de
enterites pode atuar como uma pressão seletiva em E. coli patogênicas, resultando em mais cepas resistentes [2].
No surto descrito, não foi possível a caracterização da cepa de E. coli. A caracterização da cepa é importante,
inclusive para a saúde pública. Sobre a colibacilose em pequenos ruminantes, sabe-se que a E. coli EHEC O157:H7
é um patógeno entérico zoonótico de importância mundial, principalmente pelo potencial de caprinos e ovinos
serem importantes reservatórios e potenciais transmissores através de leite e queijo não pasteurizados [3]. Os
caprinos do surto descrito são provenientes de uma propriedade especializada em produção leiteira. A descrição
deste surto de colibacilose é importante, não só pelos dados escassos sobre colibacilose em caprinos, mas também
pelo potencial zoonótico de E. coli e sua transmissão através de alimentos (carne, leite e queijo) provenientes de
caprinos infectados.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1.
2.
3.
4.
5.
Gelberg, H.B. Sistema Alimentar, Peritônio, Omento, Mesentério e Cavidade Peritonial. In: McGAVIN, M.D.;
Zachary, J.Z. Bases da Patologia em Veterinária. 5.ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. p. 324-406.
Gibbons, J.F. et al. Patterns of antimicrobial resistance in pathogenic Escherichia coli isolates from cases of
calf enteritis during the spring-calving season. Vet. Microbiol. 170:73-80, 2014.
La Ragione, R.M. et al. Escherichia coli O157:H7 colonization in small domestic ruminants. FEMS Microbiol.
Rev. 33:394-410, 2009.
Morés, N.; Barcellos, D.E. Colibacilose neonatal. In: Sobestiansky, J.; Barcellos, D.E. Doenças dos suínos. 2.
ed. Goiânia: Cânone Editorial, 2012. p. 116-121.
Osman, K.M et al. The distribution of Escherichia coli serovars, virulence genes, gene association and
combinations and virulence genes encoding serotypes in pathogenic E. coli recovered from diarrhoeic
calves, sheep and goat. Transbound. Emerg. Dis. 60:69–78, 2013.
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