O SISTEMA NERVOSO NA RELAÇÃO PERCEPÇÃO

7º Seminário de Pesquisa em Artes da Faculdade de Artes do Paraná
Anais Eletrônicos
O SISTEMA NERVOSO NA RELAÇÃO PERCEPÇÃO-AÇÃO NO CORPO QUE DANÇA
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Carolina Madsen Beltrame
Faculdade De Artes Do Paraná
RESUMO
Este estudo visa relacionar aspectos internos do corpo com novas possiblidades
criativas em dança. Abarca o estudo da relação da dança enquanto movimento do
corpo no tempo e no espaço com estudos do sistema nervoso os quais incluem o ciclo
percepção-ação. Foi realizado pelo levantamento de referências bibliográficas sobre
noções de corpo, mente e consciência, resultando na análise dessas referências
argumentando sua importância para a criação de movimento em dança. Concluiu-se
que a análise do corpo pela importância do sistema nervoso e de possuir uma mente
consciente podem potencializar a criação de movimento em dança.
Palavras-chave: percepção-ação; mente; criação.
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Graduanda do curso de Bacharelado e Licenciatura em Dança da FAP – Faculdade de Artes do Paraná.
Atualmente bolsista do PIC – Projeto de Iniciação Científica da FAP e integrante do UM – Núcleo de Pesquisa em
Dança da FAP. [email protected]
Anais do 7º Seminário de Pesq. em Artes da Faculdade de Artes do Paraná, Curitiba, p. 238-242, jun., 2012.
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Beltrame, C. M. O Sistema Nervoso na Relação Percepção-Ação no Corpo que Dança.
A Dança como conhecimento é entendida como uma macro área de estudo e
pode abranger a análise de outros campos do saber, como a Neurociência, a
Inteligência Artificial, a Filosofia, a Linguística, a Psicologia, etc, gerando, quando
estabelece relação com outras áreas, maior complexidade para o estudo de suas
especificidades. A dança acontece porque existem trocas de informações entre corpo e
ambiente, entre uma célula e outra e entre corpo propriamente dito138 e cérebro o
que gera movimento a todo instante, excitando o sistema nervoso fazendo-nos viver,
mover, pensar, e, portanto, dançar. Por isso, entender ligações e conexões internas ao
corpo pode auxiliar na compreensão do movimento externo, movimento esse que se
dá a ver quando um corpo se move seja cotidianamente e (ou) dançando.
O objetivo é mostrar que entender anatômica e fisiologicamente determinadas
conexões que ocorrem no corpo pode aumentar a percepção acerca de ações
cotidianas e de movimentos em dança, e com isso possibilitar novas capacidades
criativas em dança. Nesse sentido, para a experiência da percepção dependemos do
exercício de conhecer o sistema sensório-motor sob o ponto de vista da análise
bibliográfica.
Para tanto, a metodologia utilizada é levantar referências bibliográficas sobre
as noções de corpo, mente e consciência que estão sendo produzidos em arte e em
neurociência, a fim de relacioná-los à criação do movimento em dança.
A análise de referências bibliográficas relacionadas à importância do estudo de
aspectos do corpo para a criação de movimento em dança é o resultado deste resumo.
Isso torna necessária a escrita sobre movimento, consciência, mente, sistema nervoso,
criação e ciclo percepção-ação.
A dança enquanto pensamento é também movimento, que acontece pelas vias
neurais através da mente, e pode ser pensamento por possuirmos consciência. Para
Damásio (2000, p. 38), consciência é conhecimento e o processo de construção do
conhecimento requer um cérebro e suas propriedades eletroquímicas que produzem
padrões e mapas neurais. A mente, através da atividade dos neurônios, é aquilo que
define uma pessoa, é atividade cerebral da articulação de vários locais que ocorre num
tempo e espaço relativos ao corpo. A mente existe pela interação do cérebro com o
corpo propriamente dito e deste corpo com o meio em que vive. O pensamento é
relacionado à consciência, que se refere ao cérebro, e que se constitui por um sistema
nervoso, que percebe e age, gera movimento, ação e dança. Pode-se entender a
consciência como uma unidade da mente e como uma qualidade humana que constrói
conhecimento de nós mesmos e de nossas relações com o ambiente, o que sugere que
possuir uma mente consciente pode dar subsídios para a criação: “Perception is input
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Corpo propriamente dito é denominado por António Damásio (2000) representando o que na linguagem comum
seria o que chamamos de corpo quando nos referimos ao corpo separado do cérebro e do sistema nervoso. Para
que não haja possibilidade de questionar que a escrita supõe separação entre cérebro e corpo, estudamos o corpo,
um organismo integrado e constituído por “corpo propriamente dito” e sistema nervoso.
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Beltrame, C. M. O Sistema Nervoso na Relação Percepção-Ação no Corpo que Dança.
from world to mind, action is output from mind to world, thought is the mediating
process.”139
A criação, segundo Cecília Salles, em entrevista a Luis Fernando Assunção
(2011), acontece em redes. A criatividade é a capacidade de os indivíduos reagirem de
maneira diferente da óbvia para determinado estímulo. Pelo objetivo deste estudo ser
entender as conexões internas ao corpo, através de análise bibliográfica, a fim de
possibilitar novas capacidades criativas, as redes internas – conexões neurais – podem
trazer potência para a criação. Isso porque o corpo tem a capacidade de fazer novas
conexões neurais ao longo de toda vida, podendo anatomicamente se recriar e
possibilitar novos caminhos para a criação.
O sentido do movimento denominado por Berthoz (org. 2005), é junto aos
cinco sentidos mais conhecidos - visão, audição, paladar, tato e olfato - um sentido do
nosso corpo, pois possuímos captadores sensoriais nos músculos, tendões e
articulações que associados a informações provenientes dos outros sentidos
coordenam os movimentos do nosso corpo. Concomitantemente ao toque, o
movimento é o primeiro sentido a ser aguçado num indivíduo, iniciando sua percepção
no útero. “Os movimentos que o corpo faz participam ativamente na construção da
cognição” (Queiroz, 2009, p. 29), induzindo-nos a considerá-los um dos responsáveis
pela complexidade evolutiva do cérebro.
O sistema nervoso coordena a percepção e o movimento sendo o responsável
pela evolução da complexidade dos corpos. Entende-se que as trocas entre sistema
nervoso central (SNC) e sistema nervoso periférico (SNP) ocorrem pela mediação entre
as informações pré-existentes e as novas (GREINER; KATZ in GREINER, 2008, p. 130). O
SNC (cérebro e medula espinhal), é o responsável pelas ações do corpo, já o SNP se
relaciona mais diretamente com a percepção, mas como tanto a ação quanto a
percepção sempre ocorrem para realizar um movimento, essas são tratadas nesse
resumo em correlação, pois são vinculadas e ocorrem quase que simultaneamente no
corpo. A percepção se dá através dos sentidos, então ela já é a ação dos receptores.
Segundo Berthoz (org. 2005), a percepção é guiada pela ação, ou seja, percebemos o
que é conveniente para a ação que queremos realizar.
Transformar e/ou combinar imagens de ações é a fonte da criatividade. Essas
imagens são consideradas como padrões mentais que provém dos sentidos ou podem
ser evocados pela memória (Damásio, 2000), e quando não são reconhecidos
literalmente podem vir a ser ações criativas. Pela dança ser o corpo em ação, se
justifica a necessidade do estudo da percepção a qual requer uma mente consciente
para que possa vir a combinar de maneiras distintas os fluxos de imagens a fim de criar
novas possibilidades criativas em dança.
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Percepção é a entrada do mundo para a mente, ação é a saída da mente para o mundo, pensamento é a
mediação. (Nöe, 2005, p.3, tradução nossa)
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Beltrame, C. M. O Sistema Nervoso na Relação Percepção-Ação no Corpo que Dança.
Portanto, tratamos da criação em dança através dos conhecimentos
neurofisiológicos do corpo que é o lugar onde o movimento, a mente, a consciência, a
percepção e o pensamento ocorrem, todos conectados no corpo que trabalha em
redes de percepções-ações e relações internas e externas. Concluindo que a análise do
sistema nervoso e seu ciclo percepção-ação, de um corpo que sabe que possui uma
mente consciente, pode ser uma possibilidade para potencializar a criação de
movimentos em dança.
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Beltrame, C. M. O Sistema Nervoso na Relação Percepção-Ação no Corpo que Dança.
REFERÊNCIAS
ASSUNÇÃO, Luis Fernando. Nos meandros dos documentos do processo. Disponível
em: http://www.unisinos.br/blogs/ppg-comunicacao/2011/12/20/entrevistacecilia-salles/
BERTHOZ, Alain (org.). Lições sobre o corpo, o cérebro e a mente: as raízes das ciências
do conhecimento no Collège de France. Tradução de Maria Angela Casselato.
São Paulo: EDUSC, 2005.
DAMÁSIO, António R.. O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao
conhecimento de si. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia
das Letras, 2000.
GREINER; KATZ, Christine; Helena. Por uma teoria do corpomídia. In: GREINER,
Christine. O corpo: pistas para estudos indisciplinares. 3ª ed, São Paulo:
Annablume, 2008. p. 125-133.
NÖE, Alva. Action in Perception. Massachusetts: The MIT Press, 2005.
QUEIROZ, Clélia Ferraz Pereira de. Corpo, mente, percepção: movimento em BMC e
dança. São Paulo: Fapesp, 2009.
TAYLOR, Mark. O grande ciclo do ser. In: Anais Workshop corpo em movimento ISSN
1982-7504. Curitiba, 2007. p. 10-16.
Anais do 7º Seminário de Pesq. em Artes da Faculdade de Artes do Paraná, Curitiba, p. 238-242, jun., 2012.
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