PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL – Texto 1 - História

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- PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL “Quantas vezes desde há dois anos não ouvimos repetir: Antes a guerra que esta perpétua espera! Neste
voto, não há qualquer amargura, mas uma secreta esperança.
A guerra! De repente a palavra ganhou prestígio. É uma palavra jovem, toda nova, embonecada
dessa sedução que faz reviver o coração dos homens. Os jovens dão-lhe toda a beleza de que estão plenos e
de que a vida cotidiana os priva. A guerra é sobretudo para seus olhos a ocasião das mais belas virtudes
humanas. Leia esta passagem de uma carta que nos escrevia uma jovem estudante de retórica de origem
alsaciana.
A existência que aqui temos não nos satisfaz completamente, porque embora possuamos todos os elementos de uma bela
vida, não podemos organizá-los numa ação prática, imediata, que nos dominaria todo o corpo e a alma e nos lançaria fora de nós
mesmos. Esta ação, há um único acontecimento que a pode permitir: a guerra. É por isso que a desejamos.” (BONNARD, Abel.
Le Figaro, 1912.)
O texto acima fazia parte de uma pesquisa sob o título “Os jovens de hoje” e tinha por finalidade
mostrar aos franceses que os jovens desejavam a guerra. O jornal Le Figaro orientava seu inquérito criando
um clima favorável ao conflito que se aproximava. Em 1914, a população do mundo era de
aproximadamente1 bilhão e 800 milhões de habitantes. Cerca de um quarto desse número vivia na Europa
e mais da metade na Ásia. Assim, o centro de gravidade mundial estava na Eurásia, palco do que seria a
Primeira Guerra Mundial.
ANTECEDENTES
A situação conflituosa do início do século XX
Algumas sociedades europeias iniciaram o século XX num clima de grande tensão. As relações entre
diversos povos e governos eram afetadas por vários conflitos, ligados a rivalidades, disputas e
ressentimentos. Essas condições contribuíram para gerar um clima belicoso sem precedentes, que culminou
no maior confronto armado até então, denominado durante algum tempo Grande Guerra.
Como era a primeira vez que um conflito, envolvia as principais potências mundiais de sua época,
os historiadores chamam esse conflito de Primeira Guerra Mundial (ou de Primeira Grande Guerra).
A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) deixou como saldo uma Europa semidestruída, além de
milhões de mortos e feridos.
- Imperialismo e Nacionalismo
Os diversos conflitos que favoreceram o clima belicoso entre as nações europeias podem ser
enquadrados, de modo geral, em duas categorias de interesses:
. Imperialistas – que levaram as principais potências capitalistas a uma concorrência desmedida por
territórios e novos mercados, além da adoção de políticas internas protecionistas.
. Nacionalistas – que catalisaram antigas rivalidades e ressentimentos, resultando em projetos
expansionistas e revanchistas, carregados de fervor patriótico.
Vejamos isso com mais detalhes.
1 – Disputas imperialistas
No início do século XX, havia enorme tensão e rivalidade entre os governos das grandes potências
europeias, principalmente entre Alemanha, Inglaterra e França. Essa tensão resultava de disputas
territoriais e por mercados, tanto na Europa quanto fora dela, para manter ou ampliar os domínios desses
países.
Desde a segunda metade do século XIX, com a expansão do capitalismo financeiro e monopolista,
os empresários buscavam novos mercados para seus produtos. Isso levou os governos dos países
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industrializados europeus a disputar colônias na África e na Ásia (política imperialista). Ao mesmo tempo,
o governo de cada país industrializado procurava dificultar a expansão econômica dos demais, fechando
seus mercados à importação de produtos similares aos nacionais e tentando impedir a expansão do império
colonial dos concorrentes (política protecionista). No início do século XX, essa disputa econômica envolvia
principalmente interesses ingleses e alemães.
Após concluir sua unificação política em 1871, a Alemanha industrializou-se aceleradamente,
equiparando-se à Grã-Bretanha no início do século XX. Em 1914, sua produção de ferro e aço era maior que
a da Grã-Bretanha e França somadas, e sua indústria química e a manufatura de instrumentos científicos
lideravam a produção mundial. Os alemães dominaram mercados anteriormente britânicos na Europa, no
Oriente e até mesmo dentro da própria Grã-Bretanha. Tudo isso colaborava para a rivalidade anglogermânica.
“Se a Alemanha fosse extinta amanhã, não haveria depois de amanhã um só inglês no mundo que não fosse mais rico do
que é hoje. Nações lutaram durante anos por uma cidade ou por um direito de sucessão; e não se deve lutar por um comércio de
250 milhões de libras esterlinas?... A Inglaterra despertou afinal para o que é inevitável e constitui ao mesmo tempo a sua mais
grata esperança de prosperidade. A Alemanha deve ser destruída!” Essa era a opinião da Saturday Review de Londres no
final do século XIX, espelhando o tamanho das contradições entre Grã-Bretanha e Alemanha e expressando o
pensamento de muitos ingleses.
A hegemonia britânica nos mares também estava ameaçada. O campeonato de velocidade no
Atlântico foi vencido duas vezes seguidas por navios alemães e, em 1912, a Alemanha lançou o Imperator, o
maior navio do mundo. A Hamburg-Amerika Linie e o Lloyd Norte-Alemão situavam-se entre as maiores
companhias de navegação do globo. Em 1912, Winston Churchill, então membro do almirantado britânico,
advertia: “A marinha inglesa é para nós uma necessidade, enquanto de certos pontos de vista a marinha alemã é para a
Alemanha, sobretudo, um produto de luxo. A nossa potência naval assegura a própria existência da Grã-Bretanha. Para nós tratase de uma coisa vital. Para a Alemanha trata-se de expansão...”
2 – Movimentos nacionalistas
Ligados, de certo modo, a essas disputas econômicas e por colônias, havia movimentos
nacionalistas que pretendiam agrupar, sob um mesmo Estado, povos de matrizes étnico-culturais
semelhantes, o que implicava um desejo de expansão territorial. Era o caso:
. do pan-eslavismo – que buscava a união de todos os povos eslavos da Europa Oriental e era
liderado, principalmente, pelo governo russo.
. do pangermanismo – que lutava, por exemplo, pela anexação à Alemanha (Império Alemão) dos
territórios da Europa Central onde viviam germânicos.
. do revanchismo francês – que defendia a recuperação dos territórios da Alsácia-Lorena, região
rica em minério de ferro e carvão que os franceses haviam sido obrigados a entregar aos alemães depois da
derrota na Guerra Franco-Prussiana, em 1870. Esta guerra, que provocou a queda do Segundo Império
Francês e a unificação política da Alemanha, cristalizou a rivalidade franco-germânica. Essa situação
agravou-se pelos termos do tratado que obrigou a França a ceder as regiões acima citadas e a pagar aos
alemães uma altíssima indenização. Unificada, com ferro e carvão em abundância, recebendo capital
indenizatório, a Alemanha industrializou-se, enquanto a França encontrava dificuldades para continuar
seu desenvolvimento. Ainda lhe sobravam as abundantes jazidas de ferro da fronteira oriental, em Briey,
mas, quanto ao carvão, agora tinha de importá-lo.
As instituições culturais francesas contrabalançariam o orgulho ferido difundindo um exacerbado
nacionalismo, voltado principalmente contra a Alemanha. As novas gerações francesas nasciam e
educavam-se sob o signo da revanche: vingar a humilhação militar e política sofrida na Guerra FrancoPrussiana e recuperar a Alsácia-Lorena.
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Mapa da Europa às vésperas da Primeira Grande Guerra.
Fonte: Atlas da História do mundo. São Paulo.
- Corrida armamentista e política de alianças
Esse clima de disputas e rivalidades deu origem à chamada “paz armada”: diante do risco de
guerra, as potências iniciaram uma corrida armamentista para fortalecer seus exércitos e, ao mesmo tempo,
evitar que uma debilidade militar precipitasse um ataque inimigo.
Os governos das grandes potências também firmaram tratados de aliança entre si, com o objetivo de
somar forças para enfrentar os rivais. Depois de muitas negociações e tratados, a Europa, em 1907, ficou
dividida em dois grandes blocos:
. Tríplice Aliança – formada inicialmente por Alemanha, Áustria-Hungria (ou Império AustroHúngaro) e Itália;
. Tríplice Entente – formada inicialmente por Inglaterra, França e Rússia (entente: “entendimento,
acordo”)
Essas alianças sofreriam alterações durante o conflito, pois, conforme seus interesses, algumas
forças acabaram mudando de lado. Exemplo disso foi o governo da Itália, que em 1915 passou para o lado
da Entente, por ter recebido a promessa de compensações territoriais.
A GRANDE GUERRA
As etapas do primeiro conflito bélico do mundo
O estopim da Primeira Guerra Mundial foi o
assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando,
herdeiro do trono austro-húngaro, e de sua esposa, na
cidade de Sarajevo (Bósnia), em 28 de junho de 1914. O
autor do crime foi um estudante, Gavrilo Princip,
pertencente à organização secreta nacionalista Unidade
ou Morte, também conhecida como Mão Negra, que
tinha como líder um alto funcionário do governo sérvio.
A foto ao lado registra o momento da prisão de Gavrilo
Princip, logo após o atentado.
O assassinato de Francisco Ferdinando provocou a reação militar da Áutria-Hungria contra a
Sérvia. Isso causou – devido à política de alianças – a entrada de muitas outras nações no conflito. Observe
a sucessão de acontecimentos em 1914:
. 28 de julho – a Áustria-Hungria declara guerra à Sérvia (com o respaldo da Alemanha, a potência
que liderava a Tríplice Aliança) e, no dia seguinte, invade esse país com seu exército;
. 29 de julho – em apoio à Sérvia, a Rússia mobiliza suas tropas;
. 1º de agosto – a Alemanha declara guerra à Rússia e, posteriormente, à França;
. 04 de agosto – para atingir a França, o exército alemão invade a Bélgica (neutra). O PLANO
SCHLIEFFEN previa um poderoso ataque sobre o Ocidente, passando pelo território belga, atingindo o
coração político e econômico da França. Após feri-la mortalmente, os alemães carregariam suas energias
contra os russos. Contavam para tanto com a utilização de seu excelente parque ferroviário, sua tecnologia
e seus recursos humanos superiores aos dos franceses (a capacidade de mobilização dos alemães era de
9.750.000 homens enquanto a dos franceses era de 5.940.00);
. 05 de agosto – a Inglaterra declara guerra à Alemanha.
O historiador italiano Mario Isnenghi descreve o fascínio que a guerra, em um primeiro momento,
exerceu sobre grande parcela da população.
“Os testemunhos da época (...) designaram esses dias de agosto de 1914 como um momento único e inesquecível (...).
Romances, poesias, fotografias, filmes, canções, testemunhos epistolares e memórias descrevem de maneira semelhante esse clima
de expectativa e embriaguez, de excitação e de entusiasmo coletivo; multidões agitando bandeiras nas praças, com música e
paradas militares; a partida dos trens abarrotados de soldados, com civis aplaudindo nas estações e nas estradas de ferro...”
(ISNENGHI, Mario. História da Primeira Guerra Mundial. São Paulo, Ática, 1995, p. 27.)
Em muitos lugares, as pessoas que se declaravam contrárias à guerra eram apontadas como
traidoras da pátria. Poucos pareciam ter consciência do poder de destruição dos novos armamentos
(metralhadoras, bombas, aviões, gases venenosos, lança-chamas etc.).
- Blocos de países
Nos quatro anos que durou o conflito (1914-1918), enfrentaram-se dois grandes blocos rivais de
países, com base nas alianças firmadas:
. de um lado, estavam Alemanha, Império Austro-Húngaro, Turquia, Bulgária (as duas últimas em
1914), além de Itália que, como vimos, depois mudou de lado (1915);
. de outro, França, Inglaterra, Rússia, Bélgica (inicialmente neutra), Sérvia, Itália (a partir de 1915),
Grécia, Japão e Estado Unidos (1917), entre outros.
Era a primeira vez que ocorria uma guerra generalizada, envolvendo as principais potências de
diversas regiões do planeta, embora as batalhas tenham acontecido principalmente no continente europeu.
O Brasil foi o único país sul-americano a entrar efetivamente nesse conflito, declarando guerra à
Alemanha. Cooperando com os ingleses, patrulhou o Atlântico sul e enviou médicos e aviadores à Europa.
- Principais fases
A Primeira Guerra Mundial pode ser dividida em três grandes fases.
. Primeira fase (1914) – marcada pela intensa movimentação das forças beligerantes. Depois de uma
rápida ofensiva das tropas alemãs, em setembro de 1914, os exércitos franceses organizaram uma
contraofensiva, detendo o avanço germânico sobre Paris (Batalha do Marne). A partir desse momento,
nenhum dos lados conseguiu vitórias significativas, mantendo-se um equilíbrio de forças nas frentes de
combate.
. Segunda fase (1914-1917) – a intensa movimentação de tropas da fase anterior foi substituída por
uma guerra de trincheiras e desgastes, em que cada lado procurava garantir suas posições, evitando o
avanço do inimigo. Foi um período extremamente duro e desgastante para as tropas em conflito. Sob
ataque incessante do inimigo, os soldados guardavam suas posições nas trincheiras, enfrentando frio, fome,
chuva e barro.
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Leia o trecho de uma carta
encontrada no bolso de um soldado
alemão, que participou da Batalha do
Somme (1916), na França, considerada uma
das mais sangrentas da História: calcula-se
que tenham morrido nela um milhão de
combatentes.
Estamos tão exaustos que dormimos,
mesmo sob intenso barulho. A melhor coisa que
poderia acontecer seria os ingleses avançarem e nos
fazerem prisioneiros. Ninguém se importa conosco.
Não somos revezados. Os aviões lançam projéteis
sobre nós. Ninguém mais consegue pensar. As
rações estão esgotadas – pão, conservas, biscoitos, tudo terminou! Não há uma única gota d’água. É o próprio inferno!
A imagem acima é bem elucidadiva sobre as condições dos soldados nas trincheiras da I Guerra
Mundial.
. Terceira fase (1917-1918) – caracterizada pela entrada e saída de outros países na guerra. A
Marinha alemã, utilizando submarinos, afundou navios de países tidos como neutros, alegando que
transportavam alimentos e armas para os inimigos. Foi o caso, por exemplo, dos navios Lusitânia e Arábia,
dos Estados Unidos, e do navio Paraná, do Brasil. Nessa fase da guerra, dois acontecimentos se destacaram:
a entrada das forças dos Estados Unidos no conflito (06 de abril de 1917) e a saída dos exércitos da Rússia,
devido ao início da Revolução de 1917 nesse país e à assinatura de uma tratado de paz com a Alemanha
(Tratado de Brest-Litovski, 03 de março de 1918).
Até então, os Estados Unidos tinham se limitado a fornecer suprimentos (bélicos, alimentos,
medicamentos, combustível etc) à Entente. Contudo, o bloqueio naval imposto pela marinha alemã aos
navios norte-americanos, que levou ao afundamento do Lusitânia e do Arábia, bem como o prolongamento
da guerra (afinal, “ela” já estava entrando no quarto ano), provocou um medo generalizado entre
industriais, banqueiros e capitalistas dos Estados Unidos, que passaram a temer a derrota da Inglaterra,
França e Itália, uma vez que estes países tinham se tornado seus grandes devedores. Com o prolongamento
do conflito, os ativos e as reservas metálicas dos países em guerra haviam se esgotado. Portanto, todos os
suprimentos fornecidos pelos norte-americanos deveriam ser pagos após a guerra. Quem pagaria a dívida
caso estes países perdessem? Entrar no conflito foi uma maneira de tentar garantir a vitória da Entente bem
como o recebimento das dívidas.
- Destruição e mudanças
Os combates terrestres da Primeira Guerra Mundial resultaram em número elevado de mortes, em
razão do uso de novas armas, com maior poder de destruição, como carros blindados (“pais” dos futuros
tanques de guerra), metralhadoras, lança-chamas e projéteis explosivos. Além disso, pela primeira vez o
avião e o submarino foram usados como recursos militares, ampliando as possibilidades de ataque e
devastação.
Fora das frentes de combate, a guerra também trouxe consequências e transformações para a vida
das populações europeias. Quase todos os segmentos sociais foram envolvidos, de alguma forma, pelo
“estado de guerra” ou “esforço de guerra”.
A economia dos países em conflito foi direcionada para aumentar a produção dos artigos
necessários à guerra (armas, munições, veículos de transporte, tecidos para a confecção de uniformes
militares etc.). Como grande número de homens participava dos combates, considerável parcela de
mulheres ingressou no mercado de trabalho industrial, especialmente na Inglaterra, França, Itália e
Alemanha.
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Com a destruição de diversas estruturas econômicas (fábricas, plantações, estradas, portos, pontes
etc.) em muitos países, verificou-se também escassez de alimentos, além do aumento de preços dos gêneros
de primeira necessidade. Os governos impuseram medidas de racionamento, e a fome espalhou-se por
várias camadas da população, principalmente nas regiões próximas às zonas de combate.
Batalha pelo alimento
Durante a Primeira Guerra Mundial, a fome foi um dos maiores problemas enfrentados pelas populações das cidades
alemãs. Leite, manteiga, batatas tornaram-se produtos de luxo. Só eram encontrados no “mercado negro” e comprados apenas
pelos ricos.
Quando havia alimentos à venda, havia também racionamento. Cada pessoa só podia comprar um ovo, 2,5 Kg de batatas,
20 g de manteiga e até 190 g de carne por semana.
A população pobre era a que mais sofria. Quase 200 mil pessoas entravam diariamente em longas filas para conseguir
comer um prato de sopa distribuído pelo exército.
Como consequência da miséria, o roubo era inevitável. Roubavam-se roupas até cães para matar a fome. Muitas crianças
sobreviviam apenas com ralas sopas de batata ou com as frutas apanhavam nos quintais das casas.
Com tanta fome, as mortes não ocorriam apenas nos campos de batalha. A desnutrição tornava as pessoas vulneráveis às
doenças. A tuberculose, o tifo, a cólera e as epidemias de gripe também mataram milhares de pessoas na Alemanha, durante a
guerra. (RICHARD, Lionel. A República de Weimar (1919-1933). São Paulo, Companhia das Letras, 1988, p. 13-17.)
- Fim do conflito
O apoio financeiro e material dado pelo governo dos Estados Unidos ao entrar na guerra, em 1917,
foi decisivo para a vitória da Entente e seus aliados. Seus recursos tornaram-se muito superiores aos da
Tríplice Aliança.
No início de 1918, as forças lideradas pela Alemanha já estavam isoladas e sem condições de
sustentar os combates. Em 11 de novembro daquele ano, o governo alemão assinou o armistício (acordo
que suspende as atividades de guerrra), com condições bastante desvantajosas. Aceitou, por exemplo:
. retirar suas tropas de todos os territórios ocupados durante a guerra (parte das tropas alemãs
estava, naquele momento, em território francês);
. devolver aos adversários materiais de guerra (canhões, metralhadoras);
. pagar indenizações pelos territórios ocupados.
PÓS-GUERRA
A paz dos vencedores
Como ficou a Europa logo após o conflito? Em situação traumática e desoladora. Nos diversos locais
onde foram travados combates, eram comuns as cenas de destruição de plantações, casas, edifícios, pontes
e estradas.
Do ponto de vista humano, foram imensos os sacrifícios: milhões de mortos, feridos e inválidos.
Alguns historiadores estimam um total aproximado de 10 de mortos e cerca de 30 milhões de feridos. Uma
grave crise socioeconômica acabou assolando os países europeus diretamente envolvidos no conflito, já
abalados pelas perdas materiais e humanas e pelos gastos com a guerra.
O sentimento de patriotismo eufórico, que em muitos países havia marcado o início da guerra
(quase sempre estimulado pela propaganda governamental), transformou-se, em 1918, num clima geral de
desolação e desespero, seja pela derrota, seja apelo saldo múltiplo da destruição bélica. Afinal, para que
tinha servido tanta violência e brutalidade? O que significava “vencer” numa situação como aquela?
- Conferência de Paz de Versalhes
Após a rendição alemã e de seus aliados, realizou-se no palácio de Versalhes (Paris, FRA), de janeiro
de 1919 a janeiro de 1920, uma série de conferências com a participação de representantes das 27 nações
consideradas “vencedoras” do conflito. Lideradas pelos representantes dos Estados Unidos, da Inglaterra e
da França, essas reuniões ficaram conhecidas como Conferência de Paz de Versalhes.
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Durante a conferência, elaborou-se o Tratado de Versalhes, concluído em 28 de junho de 1919. Esse
documento definiu os termos finais de paz com a Alemanha, pondo fim oficialmente à Primeira Guerra
Mundial.
Uma de suas cláusulas (a chamada “cláusula de culpa”) determinou que a Alemanha era a
principal responsável pelo conflito, razão pela qual os alemães sofreram as mais duras imposições. O
Tratado de Versalhes estipulava, por exemplo:
. restituir a região da Alsácia-Lorena à França;
. ceder outras regiões à Bélgica, à Dinamarca e à Polônia;
. entregar quase todos os seus navios mercantes à França, à Inglaterra e à Bélgica;
. pagar enorme indenização aos países vencedores, cerca de 33 bilhões de libras esterlinas;
. reduzir o poderio militar de seus exércitos, sendo proibida de constituir aviação militar.
Na Alemanha, a sderrota no conflito foi acompanhada pela abdicação do Kaizer (título do
imperador alemão) Guilherme II, em novembro de 1918, e pela instauração da República de Weimar.
- O TRATADO DE VERSALHES
Regulava a paz com a Alemanha, sendo composto de 440 artigos; assinado pela Alemanha em 28 de
junho de 1919, na Galeria dos Espelhos, do Palácio de Versalhes (Paris). Seus artigos dividiam-se em cinco
capítulos:
1) Pacto da Sociedade das Nações;
2) Cláusulas de segurança;
3) Cláusulas territoriais;
4) Cláusulas financeiras e econômicas;
5) Cláusulas diversas.
Eis as principais estipulações que tinham que ser cumpridas :
- Cláusulas de segurança (exigidas pela França, que temia a desforra dos alemães): proibição de
fortificar ou alojar tropas na margem esquerda do Reno, totalmente desmilitarizada; fiscalização do
seu desarmamento por uma comissão interaliada; em caso de agressão alemã à França, esta receberia
auxílio anglo-norte-americano; redução dos efetivos militares; supressão do serviço militar
obrigatório, sendo o recrutamento feito pelo sistema do voluntariado; supressão da marinha de
guerra e proibição de possuir submarinos, aviação de guerra e naval, e artilharia pesada;
- Cláusulas territoriais: devolução da Alsácia e da Lorena à França, de Eupen e Malmédy à Bélgica, do
Slesvig à Dinamarca; entrega de parte da Alta Silésia à Tchecoslováquia; cessão da Pomerânia e da
Posnânia à Polônia, garantindo-lhe uma saída para o mar, mas partindo em dois o território alemão
pelo corredor polonês; renúncia a todas as colônias que foram atribuídas principalmente à França e à
Inglaterra; entrega de Dantzig, importante porto do Báltico, à Liga das Nações, que confiou sua
administração à Polônia;
- Cláusulas econômico-financeiras: a título de reparação, deveria entregar locomotivas, parte da
marinha mercante, cabeças de gado, produtos químicos; entrega à França da região do Sarre, com o
direito de explorar as jazidas carboníferas aí existentes, durante 15 anos; durante dez anos,
fornecimento de determinada tonelagem de carvão à França, Bélgica e Itália; como “culpada pela
guerra”, pagaria, no prazo de 30 anos, os danos materiais sofridos pelos Aliados, cujo montante seria
calculado por uma Comissão de Reparações (em 1921, foi fixado em 400 bilhões de marcos ou 33
bilhões de libras esterlinas); concessão do privilégio alfandegário de “nação mais favorecida” aos
Aliados;
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- Cláusulas diversas: reconhecimento da independência da Polônia e da Tchecoslováquia; proibição de
se unir à Áustria (“Anschluss”); responsabilidade pela violação das leis e usos da guerra: utilização de
gases venenosos e atrocidades diversas; reconhecimento dos demais tratados assinados.
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Observe no mapa acima os novos países que “surgiram” após a Primeira Guerra Mundial.
Fonte: Atlas da História do mundo. São Paulo.
- Outros Tratados de Paz
No mesmo ano, foram assinados tratados de paz em separado com os demais vencidos consagrando
modificações de fato já ocorridas, como o desmembramento do Império Austro-Húngaro - devido a
revoltas nacionais- e as anexações feitas pela Sérvia, Romênia e Grécia às custas da Turquia, Hungria e
Bulgária. A questão das províncias asiáticas da Turquia ficou para ser discutida mais tarde. Foram
assinados três tratados: o de Saint-Germain, com a Áustria; o de Trianon, com a Hungria; e o de Neuilly,
com a Bulgária. O último a ser assinado (em 1923) foi o de Lausanne, com a Turquia, por causa da
reação turca às imposições do Tratado de Sèvres.
Os tratados de paz refletiram o caráter imperialista da guerra. Embora a tendência na década de
1920 fosse a de se estabelecer um “esfriamento” nas relações internacionais, a paz rigorosa imposta aos
vencidos, sobretudo à Alemanha, aumentou os antagonismos.
Fora da Europa, os principais beneficiários da guerra foram o Japão, que manteve a ocupação de
colônias da Alemanha no Pacífico e se apossou das concessões alemãs na China, e a Inglaterra e a
França, que receberam da Liga das Nações antigas colônias alemãs na África.
A União Soviética, ignorada pelas potências ocidentais na convocação para a Conferência de Paris,
teve seus territórios invadidos pelos antigos aliados; o fracasso da intervenção militar resultou em uma
política de isolamento ao primeiro Estado socialista do mundo: a Política do Cordão Sanitário.
Por outro lado, tropas coloniais que participaram do conflito, ao retornarem aos seus países de
origem, iniciaram os movimentos nacionais de libertação, em nome da própria ideologia liberal
européia: começava a Descolonização da Ásia e da África.
A guerra também abalou o Liberalismo Político e Econômico e a Revolução Russa comprovou na
prática a aplicação das teorias socialistas do século XIX. A guerra não pusera fim às rivalidades. Tudo
recomeçaria, pois em Versalhes foram lançadas as sementes da Segunda Guerra Mundial ...
- Balanço final
As consequências da Grande Guerra foram trágicas para as sociedades europeias. Calcula-se que o
número de alemães mortos teria ultrapassado 1 milhão, enquanto a França teria perdido cerca de 1 milhão
e 500 mil homens, a maioria jovens com menos de 25 anos de idade. Cerca de 10 milhões de pessoas
morreram no conflito, entre militares e civis. Milhões de mulheres tornaram-se viúvas, com filhos para
criar. Os países europeus envolvidos no conflito, sobretudo a Alemanha, saíram da guerra arruinados.
A partir de então, os países da Europa conheceram certo declínio econômico. A Inglaterra, apesar de
seu extenso e rico império colonial, perdeu um pouco da posição de grande potência mundial. Já os
Estados Unidos, que se industrializavam a passos largos desde fins do século XIX, aceleraram sua ascensão
econômica. Entrando na guerra somente em 1917, lucraram muito com o conflito, vendendo mercadorias e
fornecendo empréstimos para os países envolvidos, principalmente os da Tríplice Entente.
Outra importante consequência da guerra em boa parte da Europa foi o desgaste dos ideais liberais
como caminho para a prosperidade das nações. A democracia liberal passou a sofrer fortes críticas e, a
partir da década de 1920, ganharam prestígio as ideologias autoritárias de direita e de esquerda.
Como resultado, as décadas seguintes seriam marcadas pelo confronto aberto entre partidos
nacionalistas radicais e partidos comunistas vinculados à orientação soviética. Depois da Primeira Guerra
Mundial, as democracias liberais ficaram desacreditadas e, em alguns casos, condenadas, como na Itália e
na Alemanha.
(COTRIM e outros. Texto adaptado.)
Profª ISABEL CRISTINA SIMONATO
EEEM “Emílio Nemer” – Castelo – ES
Blog: belsimonato.wordpress.com
19.agosto.2011
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