Flora Tzanno Branco Martins

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COLÉGIO OFÉLIA FONSECA
MAIO DE 68-FRANÇA
Flora Tzanno Branco Martins
São Paulo
2012
Flora Tzanno Branco Martins
MAIO DE 68-FRANÇA
Trabalho realizado e apresentado sob a orientação
do Professor Luis Massagardi, da disciplina de História
Sumário
Introdução........................................................................................................................ 04
Desenvolvimento.............................................................................................................. 05
Conclusão.......................................................................................................................... 20
Referências Bibliográficas................................................................................................. 25
Introdução
"Sejam realistas, exijam o impossível!"
Pichação nos muros de Paris, 1968
Em Maio de 1968, a França foi o ponto de ebulição de transformações sociais que, pouco a
pouco, vinham ocorrendo no mundo desde meados dos anos 40.
Durante aquele mês, os estudantes armaram barricadas nas alamedas de Paris para enfrentar a
polícia. No asfalto e nas universidades, em cartazes e muros, os estudantes franceses se
manifestaram para defender os "novos tempos, a liberdade e a rebeldia"1.
"Todo poder abusa. O poder absoluto abusa absolutamente"
Pichação nos muros de Paris, 1968
No começo da década de 60, a França ainda vivia o reflexo das perdas sofridas durante a
Segunda Guerra Mundial2, a Guerra da Argélia3 e a independência de suas colônias na
Indochina4. Ao fim do conflito mundial, o país, que havia sido ocupado pelos alemães, estava
desprestigiado e tinha se tornado uma potência menor no contexto mundial.
Foi justamente este cenário que abriu caminho para as manifestações sociais de maio de 1968.
A França dos anos 60 era governada pelo General Charles De Gaulle.
Durante a Grande Guerra, o então futuro presidente tinha liderado a
chamada “França Livre”5 , uma entidade política e militar que, da
Inglaterra, se opunha aos invasores da Alemanha e ao govern
o
“fantoche” de Vichy, que atendia aos interesses dos nazistas. Com
poucos membros no início, a “França Livre” contou com a ajuda de
militares britânicos e buscou apoio nas colônias francesas da África.
Após a expulsão dos Alemães em 25 de Agosto de 1944, o General de Gaulle proclamou a
libertação de Paris e desfilou pela Avenue des Champs Élysées. Em seguida, ele se tornou o
1
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u396741.shtml
2 http://noticias.terra.com.br/educacao/historia/noticias/0,,OI5307887-EI16742,00-Segunda
+Guerra+Mundial+a+queda+da+Franca.html
3
http://www.dw.de/1954-início-da-guerra-de-independência-da-argília/a-314126
4
http://www.militarypower.com.br/frame4-warViet45.htm
5
http://educacao.uol.com.br/biografias/charles-de-gaulle.jhtm
primeiro-ministro do Governo Provisório Francês, mas, em 1946, renunciou ao cargo devido
a desentendimentos políticos.
O fim da ocupação, como se vê, não representou o término das dificuldades francesas.
Já em 1946, na Indochina, forças nacionalistas, sob orientação do Viet-minh, rebelaram-se
contra os colonialistas franceses, dando início à primeira fase da Guerra do Vietnã, que
resultou na expulsão dos franceses em 1954. Neste mesmo ano, a Argélia, que era colônia da
França desde 1830, deu início à luta pela sua libertação. A rebelião argelina levou à queda da
Quarta República e a volta ao poder de Charles de Gaulle. Depois de oito anos de guerrilha e
violência contra civis, os franceses tiveram de aceitar a independência do país norte-africano.
Eleito presidente em 1958, De Gaulle fundou a Quinta República Francesa6. Durante seu
governo, ele se esforçou em controlar a inflação, instituiu uma nova moeda e promoveu o
crescimento industrial. No relacionamento com os demais países, o general lutou para reaver
o prestígio perdido pelo estado francês. Por esse motivo, no campo interno, sua gestão teve
um caráter conservador e nacionalista, que estava de acordo com o espírito da sociedade
francesa na época.
"Abaixo a sociedade de consumo"
Pichação nos muros de Paris, 1968
Naqueles tempos, a França ainda era culturalmente conservadora e fechada, características
que as perdas das duas décadas anteriores só fizeram aumentar. Nas escolas, as crianças eram
disciplinadas com rigidez, as mulheres precisavam pedir autorização aos maridos para
expressarem uma opinião, e a homossexualidade era condenada e vista como doença7 .
Os manifestantes de Maio de 1968 opuseram-se a esse estado de coisas. Como consequência
daqueles trinta dias, eles provocaram mudanças profundas nas relações entre raças, gêneros e
gerações na França, que duram até hoje.
6
http://mundorama.net/2008/10/10/a-quinta-republica-em-2008-o-que-se-comemora-nomarco-da-constituicao-francesa-de-1958-por-antonio-carlos-lessa/
7
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u396741.shtml
As repercussões do movimento logo atingiram vários países da Europa e do mundo. Houve
ocupações de universidades em muitos cantos do continente, o que, de maneira inédita,
motivou ações de protesto entre trabalhadores europeus e latino-americanos. Pela primeira
vez na história, o mundo assistia a uma aliança efetiva do proletariado com os estudantes.
"A imaginação ao poder"
Pichação nos muros de Paris, 1968
Para o ex-líder estudantíl, Daniel Cohn-Bendit, figura
emblemática do Maio Francës, as marcas que o movimento
deixou na França e no mundo foram mais profundas do que se
podia esperar na época. Em entrevista de abril de 2008 à
France Presse8, Cohn-Bendit
falou do legado positivo do
movimento. “Em 1965”, explicou ele, “uma mulher casada
tinha que pedir permissão ao marido para abrir uma conta bancária. Hoje, é possível fazer
isso sem permissão. Hoje em dia, mesmo os católicos inveterados defendem que a base da
democracia é a autonomia e a igualdade entre homens e mulheres. Hoje você tem uma
aceitação da autonomia das crianças, uma aceitação da homossexualidade, apesar da igreja
ainda ter seus problemas. Uma aceitação da diversidade dos indivíduos. Uma ideia de
direitos humanos e democracia.”
"O patrão precisa de ti, tu não precisas dele"
Pichação nos muros de Paris, 1968
Para muitos, como o Cohn-Bendit, maio de 1968, o Maio Francês, foi mais do que uma
simples revolta, mas um dos acontecimentos revolucionários mais importantes do Século XX.
Terá sido um evento
8
menor que se deveu a uma camada restrita da população, como
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u396770.shtml
trabalhadores ou minorias ou foi verdadeiramente uma insurreição popular que superou
barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe?
Desenvolvimento
Il est interdit d'interdire (“É proibido proibir”)
Pichação nas ruas de Paris, 1968
A Universidade de Nanterre
Em 1965, na comuna de Nanterre, zona da periferia da capital francesa, onde se situa o setor
industrial La Défense, foi criada a Université Paris Ouest Nanterre la Défense.9
Também chamada de Universidade de Paris X - Nanterre foi uma das treze universidades
sucessoras da antiga Universidade de Paris, servindo como extensão da tradicional Sorbonne.
Baseada no modelo americano, foi criada como um campus,
diferente das faculdades tradicionais francesas que eram
menores e integradas às cidades onde se localizavam. Ainda
hoje, seu campus é o segundo maior da França.
Nanterre surgiu para acolher estudantes que, por falta de vagas,
não podiam ingressar no circuito superior tradicional francês
(Sorbonne, Escola Normal, Escola Politécnica, etc..).
Voltada para as áreas humanas como artes, letras e línguas; direito, economia e gestão;
ciências humanas e sociais; ciências, tecnologias e saúde, Nanterre, já nos seus primeiros
anos, começou a receber significativo número de estudantes estrangeiros, alguns dos quais se
instalaram dentro do próprio campus, na residência universitária.
Devido a suas características arquitetônicas, aos extratos sociais de seus alunos, à localização
de seu campus numa região operária e ao currículo majoritariamente humanista, Nanterre
parecia reunir condições muito propícias para, pouco tempo depois de ser criada, consagrar-se
como a origem do movimento de Maio de 68.
Em seu livro L’irruption de Nanterre au Sommet, escrito pouco depois dos eventos de Maio
de 68, o professor de sociologia Henri Lefebvre descreveu o campos de Nanterre no começo
do movimento como um lugar onde “a infelicidade toma forma”. Situada numa paisagem sem
traços bem definidos num meio de uma favela, Nanterre era descrita por ele como “um
empreendimento devotado à produção de intelectuais medianamente qualificados e
‘executivos juniores’ para esta sociedade […]”10
Verdadeiro caldeirão do radicalismo, seu campus foi apelidado de "Nanterre, la
folle" (“Nanterre, a Louca”) ou "Nanterre la rouge" (“Nanterre, a vermelha” em referência ao
comunismo).
Até os dias de hoje, a universidade continua sendo um centro de esquerda, em oposição a
instituições, tais como a Universidade Pantheon-Assas, localizada no Quartier Latin de Paris e
tradicionalmente inclinada para a direita.
9
http://en.wikipedia.org/wiki/Paris_West_University_Nanterre_La_Défense
10
http://newhumanist.org.uk/1780/writing-on-the-wall
A atmosfera
Os acontecimentos que fizeram a França ferver em 1968 tiveram início
em oito de Janeiro daquele ano, mas já se faziam presentes em 1967,
quando os estudantes começaram a criticar as “normas sexuais” do
Campus.
Em março de 1967, os alunos fizeram circular no campus um folheto
que fazia considerações sobre “O que é o caos sexual?”, um manifesto
escrito pelo sexólogo alemão Wilhelm Reich em 1936. 11
O texto considerava como componentes do caos sexual as normas
vigentes na sociedade capitalista. De acordo com Reich, tais normas eram: a formação de um
relacionamento para a vida toda sem que o homem conhecesse antes a parceira sexualmente; a
aceitação hipócrita de uma vida paralela do homem dormindo com prostitutas para sua
satisfação sexual; a abstenção de sexo antes do casamento; a masturbação frente a imagens de
mulheres nuas na juventude e, tornar-se um nacionalista em defesa da pureza da mulher na
maturidade.
Naquele momento, partir do tema da sexualidade, os estudantes estavam rejeitando também
de forma mais ampla a repressão do mundo adulto.
No final do texto veiculado no folheto estava escrito o objetivo dos estudantes: a negação das
normas sociais mencionadas acima. Eles queriam o avesso do caos sexual de que falava
Reich.
Anos antes, o próprio Reich havia sido contestado e criticado por suas ideias. Suas posturas
políticas haviam resultado em perdas pessoais e temporadas na cadeia. Naqueles dias de
1968, os estudantes pareciam entender a moral sexual como mais uma forma de restrição às
liberdades individuais, talvez a mais hipócrita delas.
Foi nessa atmosfera de insatisfação e contestação que surgiu Cohn
Bendt, um dos maiores nomes do movimento “Maio de 68”.
Daniel Marc Cohn-Bendit 12 tinha 23 anos quando estava prestes a se
tornar o porta-voz dos alunos. Filho de judeus alemães foragidos do
Nazismo em 1933, ele havia nascido na França, mas, aos 14 anos,
11
Fišera, Vladimir (ed.). Writing on the Wall May 1968: A Documentary Anthology (London:
Allison & Busby, 1978)
12
http://pt.wikipedia.org/wiki/Daniel_Cohn-Bendit
optou pela nacionalidade alemã para não servir o exército francês. Após terminar o ensino
médio em Oberhambach, na Alemanha, ele voltou para a França em 1966, e iniciou os estudos
em sociologia na Universidade de Nanterre como bolsista.
O estopim
Naquele 8 de janeiro, o ministro da Juventude e dos Desportos, François Missoffe, visitou a
universidade de Nanterre. A questão sexual, que vinha sendo debatida pelos alunos desde o
ano anterior, voltou a cena quando Daniel Cohn-Bendit questionou o Ministro.
À saída do ginásio de Nanterre, onde havia inaugurado uma piscina, Missoffe
foi abordado e hostilizado por cerca de cinquenta alunos. O político tentou
iniciar um diálogo e Cohn-Bendit, liderando aquele grupo, pediu-lhe, então,
que se discutisse a questão sexual.
O jovem franco-alemão fazia menção ao Livro branco sobre a juventude, um
documento emitido pelo ministro meses antes, no qual Missoffe escrevera
que a juventude francesa estava preocupada em ter uma carreira de sucesso a
fim de que pudesse comprar um carro ou custear um casamento. Cohn-Bendit chamava
atenção para o fato de que o documento não dizia uma única palavra sobre sexualidade.
Missoffe achou que o rapaz estava brincando. Porém, o estudante insistia que a construção de
um centro esportivo era um estratagema hitleriano destinado a usar o esporte para desviar a
juventude dos verdadeiros problemas da sociedade e do equilíbrio sexual previsto por
Wilhelm Reich.13
Influenciado pelo sexólogo marxista alemão, cujas ideias haviam sido proibidas de serem
tema de palestra meses antes pelo reitor de Nanterre, Cohn-Bendit afirmava que os problemas
sexuais dos estudantes franceses eram de ordem coletiva e social. Para ele, a sociedade
capitalista moderna empregava táticas sedutoras de mídia e publicidade para estimular
desejos, transformados em ânsia de consumo, e estabelecia os padrões da prática sexual.
Sem se dar conta do quanto estavam exaltados os ânimos dos estudantes, o ministro
respondeu com ar de deboche: “Se você tem problemas desta ordem, o que tem a fazer é
mergulhar nesta piscina”.
Cohn-Bendit replicou dizendo que essa era uma resposta fascista. Nesse dia, ele foi ameaçado
de expulsão.14
13
http://www.albany.edu/gallagher.thesis.doc
14
http://www.albany.edu/gallagher.thesis.doc
O acalorado debate chegou às páginas dos jornais franceses e a causa ganhou a simpatia de
alunos de outras universidades. Com o tempo, como veremos, este episódio menor tomou
uma dimensão inimaginável. Mal sabiam seus protagonistas que estavam apenas diante a
ponta de um iceberg de insatisfações, o primeiro passo de uma cadeia de acontecimentos que
mobilizou diversos setores sociais como sindicalistas, professores, funcionários, jornaleiros,
comerciários e bancários.
Martin Luther King Jr. nasceu em
15 de janeiro de 1929 em Atlanta,
Geórgia, EUA. Ministro batista e
ativista pelos direitos civis, King,
provocou, desde o princípio da
década de 50, enorme impacto nas
relações raciais nos Estados Unidos.
O autor do famoso discurso de 1963,
“Eu tenho um sonho” desempenhou
papel relevante no fim da segregação
jurídica dos negros americanos, bem
como na criação da Lei de Direitos
Civis de 1964 e da Lei de Direitos
Eleitorais. King, que recebeu o
Prêmio Nobel da Paz em 1964, foi
assassinado em abril de 1968.
A primeira das ocupações
As desavenças entre os alunos e a administração da
universidade a respeito dos direitos sexuais dos
estudantes continuaram no mês seguinte.
Em 14 de fevereiro de 1968, seiscentos alunos
reuniram-se para discutir a ocupação do dormitório
feminino de Nanterre. Naquela mesma noite,
quatrocentos e cinquenta pessoas ocuparam o
dormitório e impuseram uma norma de visitas abertas.
Esta ação se repetiu em campi de outras universidades
ao redor da França. Em Nanterre, a invasão resultou na
proibição dessa prática por parte de seu reitor, o que
acentuou ainda mais os conflitos.
A partir daí, as críticas dos estudantes deixaram de ser
apenas às questões sexuais e passaram a ser contra toda
a forma de proibição e repressão tanto na faculdade
quanto na sociedade em geral. Quando cursos magistrais foram interrompidos e professores
passaram a ser contestados publicamente, ficou claro que os jovens estavam descontentes com
a disciplina rígida tanto nas escolas quanto em outras instituições, queixando-se dos
currículos escolares e da estrutura acadêmica conser-vadora. Daí para a crítica a todos os
valores da sociedade francesa, a distância foi muito curta.
22 de março de 1968, o início da revolta
Em 20 de Março, como protesto contra a Guerra do Vietnã, uma agência da American Express
foi atacada por manifestantes em Paris e foi preso um aluno que pertencia ao “Comitê
Vietnã”, uma entidade destinada a lutar contra a Guerra do Vietnã.
Em 22 de março de 1968, como represália à prisão dois dias antes, estudantes ocuparam o
edifício administrativo da Universidade de Nanterre. Daí o nome do movimento, “22 de
Março”, encabeçado por Daniel Cohn-Bendit.
A administração de Nanterre esperava que os feriados da Páscoa (4 a 18 de abril)
apaziguassem os ânimos mas não foi o que aconteceu. Eventos fora do país, como o
assassinato de Martin Luther King, Jr. 15, os tumultos que se A Sozialistische Deutsche
seguiram à morte desse pastor e ativista político americano, bem S t u d e n t e n b u n d ( L i g a
como o atentado à vida de Rudi Dutschke, o líder da associação A l e m ã d o s E s t u d a n t e s
Socialistas) havia sido
estudantil alemã Sozialistischer Deutscher Studentenbund (SDS)
fundada em 1946 em
16, manteve a revolta na mente dos alunos.
Hamburgo, Alemanha como
um ramo do Partido Social
Tanto a SDS na Europa quanto o pastor Martin Luther King, Jr.
Democrata da Alemanha
nos Estados Unidos simbolizavam ideias e projetos muito caros
(SPD). Nos anos 50, tensões
aos estudantes que estavam se insurgindo na França.
entre a liga e o partido,
De volta a Nanterre, depois da páscoa, os alunos do movimento principalmente em torno do
“22 de Março” distribuiriam um novo panfleto no qual rearmamento do país, levou
relembravam os protestos e eventos dos últimos dois semestres e o SPD a expulsar todos os
reiteravam que a educação superior destinava-se a preparar os membros da SDS de suas
alunos para assumirem papeis de gerência na sociedade fileiras. Depois da exclusão,
burguesa. Como consequência, aulas foram comprometidas e a SDS tornou-se muito ativa,
interrompidas, professores ridicularizados, enquanto se opondo-se à Guerra do
escondiam bastões, barras de ferro e pedras nos dormitórios Vietnã e ao envolvimento
político da Alemanha nesse
masculinos e femininos.
conflito, bem como ao uso
De Nanterre para Sorbonne
de armas nucleares. Além
Em Nanterre, no dia 2 de maio, os alunos tentaram ocupar disso, pregava o avanço das
novamente, como haviam feito em 22 de março, o prédio da estruturas democráticas em
reitoria; desta vez para exibir um filme sobre o grupo de todas as instituições, como,
ativistas negros americanos, “Panteras Negras”. Essa foi a gota por exemplo, a escola.
Estilos de vida alternativos e
d’água que fez o reitor fechar a Universidade.
uma postura mais liberal
No dia seguinte, foi convocada uma assembleia no pátio da diante de questões sexuais, o
Sorbonne, organizada pela UNEF (União Nacional dos direito ao aborto e direitos
Estudantes Franceses), pela JCR (Juventude Comunista iguais para as mulheres
Revolucionário), pelo MAU (Mouvemant d’Action estavam na pauta de suas
Universitaire) e pelo FER (Federação de Estudantes reivindicações, o que a
Revolucionários) para protestar contra o fechamento da aproximava muito da parcela
Faculdade de Letras de Nanterre. Também participaram dela os de estudantes franceses que
militantes do movimento do “22 de março”.
começou a se rebelar em
Nomes como Daniel Cohn-Bendit, Jacques Sauvegeot (vice-presidente da União Nacional dos
Estudantes Franceses) e Alain Geismar (secretário do Sindicato do Ensino Superior), então,
15
http://educacao.uol.com.br/biografias/martin-luther-king.jhtm
16
http://en.wikipedia.org/wiki/Sozialistischer_Deutscher_Studentenbund
passaram a representar a
contestação dos estudantes.
Irrompe a violência
Para conter as manifestações e o
conflito entre estudantes de
esquerda e o grupo de direita
Occident 17, a polícia foi chamada
por Jean Roche, o reitor da
Sorbonne, recebendo autorização
entrar nas instalações daquela
universidade.
O Occident era um violento grupo francês de extrema
direita que esteve em ação entre 1964 e 1968.
Fundado por Pierre Sidos em 1964, o Occident
recrutou muito estudantes universitários e, apesar de
ser fanaticamente anticomunista, também fazia pesadas
críticas ao governo do presidente Charles De Gaulle.
Após os violentos confrontos durante os tumultos de
maio de 1968, Occident foi considerado um grupo
violento e ilegal, sendo dissolvido pelo governo.
Muitos de seus antigos membros juntaram-se a novos
grupos de extrema direita como o Groupe Union Droit.
Cerca de 30 ativistas de todos os
grupos envolvidos foram presos. Foi o que bastou para deflagrar o confronto entre os alunos e
a polícia no Quartier Latin, um bairro de Paris.
Viaturas policiais foram impedidas de avançar e seus pneus foram rasgados. As autoridades
responderam com gás lacrimogêneo e os estudantes revidaram com pedras e tombando
veículos.
Naquele três de maio, a histórica Sorbonne, a mais
antiga universidade da França, foi fechada pelas
autoridades, o que nunca ocorrera em 700 anos da
sua existência.
“Quando acontecem coisas extraordinárias na rua, é
a revolução”.
(Ernesto Che Guevara)
Com entusiasmo, o movimento continuou a se alastrar.
Passeatas estudantis, organizadas pela UNEF (Union Nationale des Étudiants de France),
foram dissolvidas com violência cada vez maior pela CRS
(Compagnies Republicaines de Sécurité), a polícia de
choque do regime.
Indignados, os jovens ergueram obstáculos nas ruas
centrais de Paris que davam acesso ao famoso Quartier
17
http://en.wikipedia.org/wiki/Occident_(movement)
Latin, antigo centro de ensino superior da cidade. Marcharam de Denfert Rochereau à St.
Germain des Pres, exigindo a libertação dos alunos presos e a reabertura das faculdades.
Ocorreram mais confrontos entre a polícia e manifestantes, novas prisões e lançamento de
bombas de gás lacrimogêneo. Por sua vez, os estudantes recorreram às pedras.
Numa tentativa radical de conter os tumultos, em 6 de maio, a polícia ocupou o Quartier
Latin.
Da universidade para as ruas
O Ministro da Educação, Alain Peyrefitte, prometeu, então, a reabertura das escolas, desde
que a ordem fosse restabelecida. No entanto, Cohn-Bendit, que, àquela altura já era
considerado um dos principais porta-vozes dos estudantes franceses, rejeitou,
em nome dos demais, interromper a contestação, uma vez que as promessas
do ministro não atendiam todas as reivindicações dos revoltosos.
Em 7 de maio, terça-feira, estudantes e professores marcharam pelas ruas,
reivindicando que todas as ações judiciais contra os estudantes e
trabalhadores interrogados, presos ou condenados durante as manifestações
fossem suspensas. Exigiam ainda a retirada da polícia do Quartier Latin.
No Parlamento, um dia depois, o Ministro da Educação, Alain Peyrefitte, anunciou que a
Sorbonne e a Universidade de Nanterre seriam reabertas.
A noite das barricadas
Dez de maio viria a ser conhecido como “A noite das barricadas”, um ponto de virada para o
movimento. Aquela noite veria 400 pessoas serem feridas, 500 presas, e 200 carros queimados
ou vandalizados.
Após passarem diante da prisão de La Santé, sendo saudados com gritos de “liberdade,
liberdade” pelos condenados, estudantes tornaram a enfrentar a polícia. As autoridades
bloquearam todos os pontos do Quartier Latin. Os confrontos prosseguiram pela madrugada.
Para garantir uma defesa melhor e uma
vantagem tática contra a polícia, os
manifestantes ergueram um sistema de
barricadas.
As barricadas foram erguidas, empregando
materiais recolhidos em canteiros de obras.
Não houve apenas um estilo de barricadas.
Algumas foram feitas de arames e pregos, outras empregavam objetos pontiagudos
espalhados pelo chão enquanto muitas tinham gasolina jogada à sua frente.
Das barricadas e dos telhados adjacentes, alunos arremessavam contra a polícia
paralelepípedos, projéteis diversos e coquetéis Molotov. As autoridades respondiam com gás
lacrimogêneo e granadas de concussão.
A batalha de 10 de maio durou até as 5:30 da manhã, mas as consequências dos combates
tiveram um alcance muito maior.
A Noite das Barricadas fez a opinião pública se voltar a favor dos estudantes, com 61%
julgando que suas exigências eram justificadas e 71% pedindo menos rigidez com os que
haviam sido presos.18 A brutalidade da policia e o fervor demonstrado pelos jovens também
convenceu a população de que os universitários estavam levando suas reivindicações a sério e
não apenas brincando de revolução.
Entram os trabalhadores
O movimento estudantil ganhou a simpatia de muitos setores sociais. Sindicalistas,
professores, funcionários, jornaleiros, comerciários, bancários, aderiram a causa estudantil,
trazendo reivindicações tradicionais das lutas políticas e econômicas da França. Os
estudantes, que deflagraram o processo, pareciam saber muito bem o que não queriam, mas
não tinham claro o que queriam. Os novos atores recém-chegados tinham uma longa história
de cobranças às elites do país.
De protesto contra o autoritarismo e o anacronismo das academias, depois da Noite das
Barricadas, o Movimento de Maio transformou-se, com a adesão dos operários, numa
contestação política ao regime do General De Gaulle.
Sobornne, então, foi reaberta e imediatamente ocupada pelos estudantes. Mais tarde, o mesmo
fariam os trabalhadores com centenas de fábricas.
Em 11 de maio, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), a Confederação Francesa
Democrática do Trabalho (CFDT), a Federação de Educação Nacional (FEN) e a UNEF
convocaram uma greve geral para dois dias depois a fim de demonstrar sua solidariedade,
expressar o desejo de que a repressão terminasse e exibir seu apoio à democracia.
18
Seidman, Michael. The Imaginary Revolution: Parisian Students and Workers in 1968
(New York: Berghahn Books, 2004)
O movimento muda
O dia 13 de maio tornou mais evidentes as mudanças que o movimento vinha sofrendo. Uma
discussão à beira da piscina agora havia se transformado numa revolta capaz de abalar o
governo.
Depois da manifestação de solidariedade, os sindicatos marcaram uma greve geral de 24
horas. Esta manifestação reuniu um milhão e duzentas mil pessoas. Pela primeira vez, ouviuse a palavra de ordem “governo popular”.
Os novos participantes -- trabalhadores e centrais sindicais -passaram a exibir um papel maior nas revoltas que ocorreram de
maio a junho. Os sindicatos tentariam, a partir de então, usar a
situação em seu favor, exigindo aumentos salariais e outros
benefícios.
Os dias que se seguiram à Noite das Barricadas também viram
um aumento exponencial na ocupação de campi universitários por estudantes.
Estudantes e trabalhadores franceses unificaram seus movimentos em protesto contra as
políticas trabalhista e educacional do governo do general De Gaulle.
Maré de ocupações
O conselho estudantil de Estrasburgo declarou sua independência num comunicado emitido às
7 da manhã de 11 de maio. Os alunos afirmavam que sua universidade havia conquistado
autonomia do governo e da administração acadêmica anterior, conferindo todo o poder a uma
junta de alunos e professores.
Ainda naquele dia, um pequeno grupo de alunos ocupou Censier, um anexo da Sorbonne.
O governo francês estava desorientado e seus principais membros como o ministro do interior
Christian Fouchet, o da Justiça Louis Joxe e o da educação Alain Peyrefitte enquanto o
próprio presidente De Gaulle considerava uma intervenção das forças armadas.
Preocupado com os acontecimentos, o primeiro-ministro, Georges Pompidou, que estava em
visita oficial ao Afeganistão voltou às pressas ao país em 13 de maio e tentou tirar o governo
da inércia em que parecia estar. Suas primeiras medidas foram pacificadoras e simpáticas aos
manifestantes: libertou os estudantes presos, retirou a polícia do interior da Sorbonne,19
reabriu o campus dessa universidade e preparou as negociações com os
revoltosos.
No entanto, naquele mesmo dia, um grupo maior do que o de 11 de maio,
19
http://www.media68.net/eng/france/france.htm
com quase 500 estudantes, invadiu e ocupou toda a Sorbonne.
À noite, os alunos estabeleceram uma assembleia geral na qual votaram e discutiram ações a
serem tomadas. Já na primeira noite da ocupação, os alunos produziram dois comunicados
para o público geral. O primeiro declarava sua autonomia como uma universidade do povo,
“aberta noite dia para todos os trabalhadores”. Em seu segundo comunicado, declararam sua
intenção de gerir a universidade por meio de “comitês constituídos por trabalhadores,
estudantes e professores.”
O poder da espontaneidade
Desde a construção das barricadas e ao longo da ocupação das universidades, as ações dos
alunos e outros setores revelaram a vantagem e a força da espontaneidade.
Em 20 de maio, numa entrevista concedida a Jean-Paul Sartre, Cohn-Bendit enfatizou a
importância da espontaneidade. Ele acreditava que a vitalidade do movimento emergia não
das sugestões de um determinado grupo, mas da espontaneidade da base.20
Indagado por Sartre sobre o fato de os estudantes não tentarem elaborar um programa ou dar
mais estrutura ao movimento, Cohn-Bendit explicou que “[...] a força de nosso movimento é
precisamente que ele seja baseado numa espontaneidade ‘incontrolável’, que tenha ímpeto
sem tentar canalizá-lo ou use a ação que deflagrou
para lucro próprio. Há claramente duas soluções
abertas para nós hoje. A primeira seria reunir meia
dúzia de pessoas com experiência política, pedir a
elas que formulem algumas demandas imediatas
convincentes e dizer ‘Aqui está a posição do
movimento estudantil, façam o que quiserem com
ela’. Essa é uma péssima solução. A segunda é tentar
compreender a situação dos alunos não inteiramente
[…], mas de um grande número deles. […] A única chance do movimento é a desordem que
permite que homens falem livremente e que pode resultar numa forma de auto-organização.”
Se o movimento tivesse se organizado de uma tradicional, dizia o líder estudantil, o governo
saberia como lidar com os manifestantes. A desordem e a espontaneidade permitiram que as
pessoas falassem livremente, o que garantiu a auto-organização dos agrupamentos.
Agora as fábricas
Em 14 de maio, chega à Sobornne a notícia da primeira ocupação de uma fábrica.
20
http://personal.ashland.edu/~jmoser1/cohnbendit.htm
Os operários da indústria aeronáutica Sud-Aviation de Nantes
sequestraram seu diretor e ocuparam as dependências da
fábrica.
De algumas centenas de grevistas na Sud-Aviation, as greves
se alastraram rapidamente: 2 milhões de grevistas em 18 de
maio, 9 milhões em 24 de maio, chegando a quase 10 milhões no dia 26.
Mais uma evidência da espontaneidade do Maio de 1968: Dos 15 milhões de trabalhadores
franceses naquela época, apenas cerca de 20% eram sindicalizados, o que sugere uma
influência modesta das entidades de trabalhadores na disseminação das greves.
A greve geral
Em 15 de Maio, os operários da Renault decretaram uma greve e ocuparam as instalações da
fábrica em Cléon e em Flins. O movimento, então, se estendeu rapidamente para as demais
províncias.
Na sexta-feira, 17 de maio, o transporte público encontrava-se seriamente comprometido e as
ferrovias estavam paralisadas.
Em 19 de maio, a transmissão da rede de televisão ORTF passa a ser controlada pelos
jornalistas e técnicos.
Na segunda-feira, 20, a maior parte dos setores industriais tinham sido afetados. Estivadores
ocuparam o porto de Marselha. As balsas que operavam em grandes cidades foram paralisadas
e turistas começara a fazer fila para tomar ônibus ou lotações para Bruxelas, Genebra e
Barcelona
Em 22 de maio, a greve tornou-se geral: Nove milhões de trabalhadores ocuparam suas
fábricas, oficinas e escritórios, sem que uma declaração de “greve geral” tivesse sido emitida.
Saques de dinheiro em bancos foram limitados a 500 francos para evitar uma corrida as caixas
diante do temor de uma greve no Banco da França. Postos de gasolina foram desabastecidos
quando as pessoas começaram a estocar combustível.21
Paris, de pernas para o ar
O centro de Paris, com o calçamento revirado, vidraças partidas,
postes caídos e carros incendiados, assumiu ares de bairro rebelado,
dilacerado pelas sucessivas batalhas entre pedras e cassetetes. No alto
das casas e dos prédios tremulavam bandeiras negras dos anarquistas,
21
http://flag.blackened.net/revolt/ws93/paris39.html
lembrando os tempos da Comuna de 1871.
As centrais elétricas e de telefones haviam sido bloqueadas. Paris amanhece sem metrô,
ônibus, telefones e outros serviços. Cerca de seis milhões de grevistas ocupam as 300 fábricas
da França.
Sobornne agora era palco de manifestações por uma política de libertação, e frases como “É
proibido proibir”, “Abaixo a universidade” e “Abaixo a sociedade de consumo” pairavam
em cartazes pelas paredes e serviam de slogans.
Em 21 de Maio, a greve já envolvia cerca de 7 milhões de trabalhadores. O filósofo e escritor
Jean-Paul Sartre falou aos estudantes na Sorbonne. Os teatros de Paris foram ocupados. A
imagem simpática de Sartre era simpática aos alunos, uma vez que, quatro
anos antes, ele recusara o Prêmio Nobel de literatura como forma de
protesto contra os valores da sociedade burguesa.
Pouco antes da meia-noite daquele dia, o primeiro-ministro da França,
Pompidou, passou por cima do ministro do Interior e do ministro da
Educação e emitiu ordens ao Poder Judiciário. Determinou que fosse
retirada a polícia do Quartier Latin, e que a lei “reconsideraria” o caso dos
estudantes presos na semana anterior. Para os estudantes, e para muitos outros, era a prova
viva da eficiência da ação direita. As concessões tinham sido conquistadas por meio de luta.
Em 22 de Maio, as autoridades privaram Daniel Cohn-Bendit o visto para permanência na
França.
O Acordo de Grenelle
Foi em meio à greve geral e a ocupação das fábricas
entre os dias 15 e 27 de maio, que as direções
sindicais, pegas de surpresa, tentaram tomar o
controle do movimento e costurar o chamado
“Acordos de Grenelle”. Tratava-se de um acordo entre
o governo e o patronato por um lado, os operários de
outro.
Em 25 de maio, representantes das federações do trabalho reuniram-se com representantes
dos patrões e do governo.
Chegou-se a uma proposta, em 27 de maio, que previa o aumento do salário mínimo, redução
do horário de trabalho e diminuição da idade da aposentadoria. No entanto, A maioria dos
trabalhadores rejeitou os acordos e a greve se consolidou.
Subitamente, os 10 milhões de operários em
greve tornaram-se um embaraço maior para os
dirigentes comunistas do que para o governo.
O movimento tornava-se abertamente político,
sem o controle das forças tradicionais.
Liderados por Daniel Cohn-Bendit (Dany le
rouge), apelidado também de Lenin de
Nanterre, Alan Geismar, Jacques Sauvageot e
Alain Krivine, que compunham a linha dura
do enfrentamento, os manifestantes colocaram
em xeque os pelotões do prefeito da polícia
Maurice Grimaud, o xerife do regime
gaullista.
Marcuse considerava a tecnologia uma
tecnologia uma forma de repressão.
Segundo ele, mesmo em sociedades
democráticas, técnicas de manipulação e
controle de massa permitem um
policiamento mais eficiente sobre os
cidadãos.
Ao gosto dos manifestantes de maio de
68, o filósofo alemão pregava que a
emancipação das massas dependia não
só do movimento político, mas também
de uma mudança de comportamento,
inclusive ético-sexual. Para tanto,
defendia a “dessublimação controlada”,
uma libertação “da sexualidade e da
Distanciando-se do marxismo "oficial", de
matriz stalinista, referendado pelos soviéticos
e pelo PC francês, muitos deles trataram de
ressuscitar pensadores marxistas críticos, que
haviam desaparecido do cenário intelectual das esquerdas, tais como Rosa Luxemburgo, Karl
Korsch, Antonio Gramsci, o jovem Lukács, bem como os intelectuais da Escola de Frankfurt,
dos quais Herbert Marcuse era o mais ativo.22
De Gaulle, em 29 de maio, chegou a viajar secretamente para a base francesa em BadenBaden, na Alemanha, a fim de obter apoio do general Massu para uma possível intervenção
militar. Enquanto isso delegados governamentais continuavam a negociar em Grenelle com os
sindicatos uma série de melhorias e compensações para retirar os trabalhadores da greve e
afastá-los dos jovens radicais.
George Marchais, líder do partido comunista, chegou a declarar que "esses falsos
revolucionários precisam ser denunciados”, ao que Jean Paul Sartre e vários outros
intelectuais de esquerda retrucaram: "os comunistas temem a revolução."
Em 30 de maio, o General De Gaulle voltou e pronunciou um discurso vigoroso onde
estigmatizava aqueles que não deixavam os “estudantes estudarem” e denunciou o perigo
comunista. Ele dissolveu a assembleia nacional e anunciou eleições antecipadas para junho,
recusando-se a se demitir.
Recuperando-se do imobilismo, o velho estadista propôs uma solução eleitoral para superar os
embaraços criados pela revolta estudantil.
22
http://www.memorial.rs.gov.br/cadernos/1968.pdf
A partir desse momento, a política da esquerda tradicional e a do PC empenharam em
terminar a greve, restabelecer ordem para preparar “um desenrolar normal das eleições”. Os
movimentos estudantis protestaram veementemente aos gritos de “eleição traição”.
A favor de De Gaulle
Enquanto o movimento perdia a força, uma manifestação pró-gaullista, a primeira desde que
começaram os protestos, aconteceu nos Champs Elysées em favor do restauro da ordem.
Por precaução, De Gaulle ordenou que a Segunda Divisão de Infantaria, aquartelada nas
proximidades de Paris, aguardasse o momento de intervir, secundada pelas tropas a serem
enviadas pelo general Massu da Alemanha, caso uma solução pacífica não fosse alcançada.
Disse na televisão que o seguissem ou que o demitissem, alertando aos cidadãos que
provavelmente um governo de inclinação comunista era capaz de sucedê-lo. Aquelas alturas,
passados mais de trinta dias de agitação e desordens, de descomunais enfrentamentos entre os
jovens e a polícia, a sociedade francesa desejava o retorno da normalidade. Em todas as
grandes cidades do país, ocorreram enormes manifestações de apoio a De Gaulle. A Comuna
Estudantil então recuou frente ao anseio por ordem representado pelo general.
A partir de 31 de maio, o movimento grevista foi lentamente demolido. Setores da indústria
propuseram negociações, sendo alcançados acordos parciais. Os sindicatos, por sua vez,
encorajaram um rápido retorno ao trabalha.
Por volta de 11 de junho, os setores mais “duros” do movimento (metalurgia, indústrias
automobilística e química) haviam sido isolados. Partidos e sindicatos começavam a
pressionar para que fosse restabelecida a ordem antes das eleições.
Vitória com sabor de derrota
Nas eleições de 23 e 30 de junho, os gaullistas obtiveram uma significativa vitória, ocupando
358 dos 487 assentos da Assembleia Nacional, isto é 73% deles. A partir de então, massacrado
pelas urnas, o movimento refluiu.
A tormenta passara, mas o presidente, enfraquecido com aqueles tumultos todos renunciou em
27 de abril de 1969, depois de ter chefiado a V República por dez anos.
Conclusão
– É uma revolta?
– Não, Majestade, é uma revolução!
Diálogo entre Luís XVI e
o Duque de Liancourt,
depois do assalto à
Bastilha em 14 de Julho
de 1789
“O que mudou, o que se movimentou foi
a juventude, com a vontade de não se
encerrar em partidos fechados. Não
rejeitar os partidos, mas tirar de cada um
ou de cada ideologia um pequeno
elemento que serve e que se mistura com
o resto. [...] O que mudou foi o
comportamento dos homens. Primeiro
nas relações entre eles, nas suas relações
com suas mulheres, com seus filhos. Em
termos econômicos, outra relação
mudou. Perdemos os comportamentos
clássicos que traçavam a posição dos
homens.”
Houve muitos protestos em 1968, mas foi em
Paris que a onda de choque se mostrou mais
intensa.
Foram meses de violência diária nas ruas, o que
tomou de surpresa todas as pessoas, mesmo as
que estavam se insurgindo em praça pública.
Nas semanas de maior agitação, uma greve
geral paralisou a França que teve de enfrentar
escassez de combustíveis e outros suprimentos.
Apesar de seus aspectos violentos, o Maio de 68
teve o efeito positivo de fazer a sociedade
francesa se abrir.
Foram acontecimentos cuja importância
deixaram marcas na história mundial. Estudantes, trabalhadores, empresários e políticos
tiveram de rever suas próprias concepções de mundo. A sociedade francesa, até então
caracterizada por um viés patriarcal e conservador, viu, em poucos dias, valores e princípios
aparentemente sólidos se desmancharem nas barricadas de Paris.
Mas, não só a terra governada por Charles De Gaulle sentiu os tremores daquele movimento
que começou como uma revolta estudantil. Suas ondas ultrapassaram todas as fronteiras do
ocidente e se fizeram sentir nas décadas que se seguiram.
Muitas das mudanças evidenciadas nos últimos quarenta anos já estavam presentes nas
palavras de ordem daqueles que tomaram a Cidade Luz. O cotidiano das pessoas se inovou,
quer seja no relacionamento interpessoal, na visão do mundo, nas preferências e nas aversões.
O rumo que tomaram empresas – novas ou antigas –, o comportamento da imprensa e a
metodologia de ensino ecoam até os dias de hoje a ânsia de mudança daqueles dias.
No clima cultural do pós-1968, surgiram novas formas de sensibilidade e de rejeição aos
padrões culturais dominantes e às normas autoritárias da sociedade industrial. Os modos de
adesão a partidos ou outras organizações foram revistos, inclusive no seio da militância
política e sindical. A própria noção de militância chegou a ser questionada e entrou em
declínio, especialmente a partir de 1970. Mas Isso não ocorreu apenas no plano da política
tradicional. A vida cotidiana e a cultural também teve seus alicerces reposicionados.
“Antes
de 1968, a divisão do trabalho,
sua fragmentação, as operações
cronométricas da vida cotidiana, o
estatuto das mulheres, dos jovens, dos
marginais, da vida urbana, da
sexualidade – tudo isso parecia fazer
parte da natureza da sociedade, de
forma tão evidente quanto as nuvens
e as montanhas fazem parte da
natureza física. Mas, nos anos 1970, é
colocada em questão, frequentemente
de maneira difusa e às vezes de forma
virulenta, tudo que antes não
constituía problema. Assim, as
aspirações femininas, as ideias
ecológicas, o neorregionalismo, o
neoarcaísmo, o desejo de viver for
dos ritmos artificiais da cidade, da
fábrica, do escritório, a comunidade,
a autogestão – tudo isso faz parte
doravante de nossa problemática dos
anos de 1970”
No mundo das artes, 1968 deixou de herança algo
nunca visto.
Após tantas manifestações em praça pública, não é de
se estranhar que o teatro de rua tenha se tornado uma
atividade valorizada. Influenciado pelo espírito daquele
ano, o cinema passou a abordar temas políticos,
situações de países do Terceiro Mundo, crise cultural e
psicológica. Foi forte também a incidência na área
musical. Antes tido como alienante e tropa de choque
da indústria cultural capitalista, o Rock passou a ser
visto como uma manifestação mais engajada, capaz de
transmitir novas formas de protesto e estilos de vida.
Criou-se espaço para uma ação cultural nas
instituições. Surgiram elementos de estética e uma
contracultura favorável à visão ecológica. A crítica ao
mundo industrial formou uma base de pensamento que
se desdobrou nos movimentos ecológicos ou partidos
verdes.
A velha ideia de autogestão, formulada inicialmente por anarquistas, ganhou a partir de 1968
uma ampla aceitação como proposta de gestão de empresas ou cooperativas e, também, no
campo das práticas educacionais, na investigação social, na formulação de reivindicações e na
conduta de movimentos grevistas.
Há, porém, quem não concorde que o Maio de 68 tenha
acelerado um processo de mudanças que já estava em
pleno andamento. Para o jornalista e filósofo Regis
Debray, não houve revolução. Em seu entendimento,
foi apenas uma ruptura da sociedade francesa que
permitiu a consolidação do capitalismo e a adesão da
juventude ao modo de consumo e de vida americanos.
Porém, se não considerarmos revolucionário o Maio de
68, como explicar a maneira simultânea com que
ocorreram focos de revolta na Europa e na América,
“Sob a influência dos estudantes
revolucionários, milhares de
pessoas começaram a questionar
todo o princípio hierárquico. Os
estudantes o questionaram onde ele
parecia ser mais ‘natural’: nos
domínios do ensino e do saber.
Afirmaram que a autogestão
democrática era possível – e para
provar, começaram eles mesmos a
pô-la em prática. Denunciaram o
monopólio da informação e
produziram milhões de panfletos
para rompê-lo.”
levando Zuenir Ventura chamar 1968 de o “ano que não acabou”? Como entender que 1968
tenha assistido a revoltas no mundo todo? De que outra maneira, na Europa, o Maio de 1968
Francês poderia ser o símbolo de uma contestação que se espalhou por vários países?
Não houve orquestração alguma. As manifestações
“1968 cristalizou todos os
problemas da sociedade no
período de algumas semanas.”
espírito de descontentamento estivesse impregnando o
Michel Winock
planeta.
aconteceram espontaneamente, como se o mesmo
Na Espanha, protestos estudantis provocaram a queda
do Ministro da Educação e levaram a polícia a reprimir violentamente alunos e operários que
tentavam ocupar a Universidade de Madri, fechada pelo governo de Franco. Na Itália, três mil
estudantes tomaram a sede do jornal Corriere dela Serra e um milhão de trabalhadores
entraram em greve. No Reino Unido, foram três milhões. Como em outros países, a
Universidade de Louvain, na Bélgica foi fechada após uma semana de conflitos. Bonn, na
Alemanha Ocidental, viu sua universidade ser
ocupada e, em Berlim Ocidental, quatro mil
estudantes fizeram passeata. Atrás da Cortina
de Ferro, vinte mil alunos iugoslavos
ameaçaram ocupar as universidades do país,
enquanto, na Polônia, estudantes protestaram
contra o regime socialista e viram a
Universidade de Varsóvia também ser
fechada. Mas, no bloco soviético, nada foi tão
emblemático quanto o programa de reformas
políticas tchecoslovacas conhecido como a
“O Maio de 68 foi uma ‘brecha histórica’ e
um acontecimento extraordinário, pois
colocou em suspenso uma sociedade que
se pensava de maneira orgânica e sem
fissuras; ensinou que uma revolução não
nasce apenas sob o efeito de um conflito
interno entre opressores e oprimidos, ‘mas
advém no momento em que”, diz Lefort,
“se apaga a transcendência do poder, no
momento em que se anula sua eficácia
simbólica.”
Olgaria Matos
Primavera de Praga ou a queima de bandeiras
da URSS por estudantes nas ruas de Bratislava.
O continente americano também não escapou às convulsões sociais. Em nosso país, a
Universidade de Brasília foi invadida por estudantes e depois ocupada pela polícia. No rio, a
Passeata dos Cem mil reuniu alunos, intelectuais, artistas e representantes da sociedade civil.
Em São Paulo, na R. Maria Antônia, alunos da Universidade Mackenzie e da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências da USP se confrontaram. Na Argentina, estudantes decretaram
greve contra a política educacional do país. O governo uruguaio decretou estado de sítio após
choques violentos de alunos e operários com a polícia. Na Colômbia, estudantes ocuparam a
universidade de Bogotá enquanto, no México, cerca de 300 mil pessoas realizam
manifestação em apoio à revolta estudantil. Em Nova York, cinco edifícios da Universidade
de Columbia foram ocupados poucos dias antes de 60 mil manifestantes exigirem, no Central
Park, o fim da Guerra do Vietnã.
De acordo com Norberto Bobbio, “a Revolução se distingue da revolta, porque esta se limita
geralmente a uma área geográfica circunscrita, é, o mais das vezes, isenta de motivações
ideológicas, não propõe a subversão total da ordem
“Se em 1968, a velha sociedade constituída, mas o retorno dos princípios originários que
não morreu, ou melhor, se a nova regulavam as relações entre autoridades políticas e os
não chegou a nascer, ela não cidadãos, e visa à satisfação imediata das reivindicações
deixa de ser uma ‘grande e políticas e econômicas”.
generosa
explosão
revolucionária’. Jacques Baynac
chega mesmo a dizer que, se não
tomou o poder, foi porque a noite
das barricadas deixou de ser
dominante: ‘ela foi aos poucos
sendo submergida pela estratégia
tradicional das revoluções do
capital, estratégias de conquista
do território, de conquista do
poder (…), estratégias fundadas
sobre a penúria (…) e de que o
leninismo é o arquétipo’.”
Com base nessa definição, há quem defenda que o Maio
de 68 foi uma revolta e não uma revolução. Afinal, as
motivações ideológicas do movimento nunca ficaram
muito claras e, após toda a turbulência, De Gaulle
reassumiu o poder e convocou eleições, vencidas por
seus correligionários.
Porém, se considerarmos os movimentos ao redor do
mundo, Maio de 68 não foi limitado a uma área
geográfica circunscrita. Além disso, à luz dos últimos
quarenta e cinco anos, não houve verdadeiramente um
retorno dos princípios originários que regulavam as
relações entre autoridades políticas e cidadãos.
E Antônio Houaiss oferece uma definição mais
abrangente de revolução quando diz que ela é uma
"grande transformação,
mudança sensível de qualquer natureza, seja de modo
progressivo, contínuo, seja de maneira repentina.
Assim sendo, o tempo de uma revolução não se limita a poucos dias ou meses e seus efeitos
se fazem sentir por anos ou décadas.
Sob essa perspectiva, então, Maio de 68 preenche requisitos que não o deixam classificá-lo
como revolta.
Seu início, é verdade, teriam sido algumas semanas turbulentas numa primavera francesa no
fim dos anos 1960, mas as modificações estruturais que vieram no seu rastro perduram até
hoje.
Referências bibliográficas
Livros:
Maio de 68/ organização Sergio Cohn e Heyk Pimenta–Rio de Janeiro : Beco do Azogue,
2008.
Paris: Maio de 68/ Solidarity; [tradução Leo Vinicius].–São Paulo: Conrad Editora do Brasil,
2008. –(Coleção baderna)
Paris 1968, As barricadas do desejo/ Olgaria C. F. Matos – 2 ed. – São Paulo, editora
brasiliense s.a. 01223 – (coleção tudo é história)
Filmes:
Après mai/ Olivier Assayas – editora ,2012
Os sonhadores/ Bernado Bertolucci. editora ,2002
Jornal:
Folha de SP. – Caderno Mundo – Entenda o Maio de 68 francês/ Ébano Piacentini
Estadão – Caderno Cultura – ‘Après Mai’: os impasses da Juventude segundo Assayas / AE Agência Estado
Internet:
http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/go/cohn-bendit--lider-do-maio-de-68-falasobre-as-manifestacoes-de-hoje
http://www.cohn-bendit.eu/en/dany/bio
http://www.slideshare.net/jorgediapositivos/maio-de-1968
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/seculo/2008/06/11/002.htm
http://www.jtm.com.mo/view.asp?dT=279907001
http://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Guerra_da_Indochina
http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_de_Gaulle
http://adluna.sites.uol.com.br/100.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_Arg%C3%A9lia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_Fran%C3%A7a
http://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_Guerra_da_Indochina
http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_da_Arg%C3%A9lia
http://www.sohistoria.com.br/ef2/primeiraguerra/
http://www.algosobre.com.br/historia/guerra-do-vietna.html
http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/viewFile/7323/4365
http://g1.globo.com/Sites/Especiais/Noticias/0,,MUL463654-15530,00-GRAFITEIROS
+FAZEM+RELEITURAS+DE+CARTAZES+DE+MAIO+DE.html
http://www.labpac.faed.udesc.br/oficina_1968_maiofrances.pdf
h t t p : / / w w w. d e s e n h a n d o o f u t u r o . c o m . b r / a n e x o s / a n a i s / d e s i g n _ e _ s o c i e d a d e /
maio_de_1968_paixao_revolucionaria.pdf
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u396770.shtml
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http://xucurus.blogspot.com.br/2011/10/maio-de-68.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Daniel_Cohn-Bendit
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