O cérebro
“Com quantos neurônios se faz um cérebro?”, p. 04
as doenças
“Meningites”, p. 06
inspiração
p. 9
psicologia cognitiva
“Janelas de oportunidades”, p. 10
parceiros
“Asperger e Autismo no Brasil”, p. 13
programa de desenvolvimento meucerebro
“Turbine seu cérebro”, p. 14
especial
“Quando o cérebro ‘desliga’”, p. 16
isso faz bem
“Vai ficar aí parado?”, p. 26
PENSAMENTOS
“1.000 elogios + 1 crítica = 1 crítica”, p. 30
a neurociência do sucesso
“Quanto vale o conhecimento?”, p. 32
parceiros
“És Super”, p. 35
Notícias do mês
p. 36
parceiros
“Neurociências em Benefício da Educação”, p. 39
2
/ meucérebro
EXPEDIENTE
A revista MeuCérebro é uma publicação
mensal do grupo MeuCérebro e de distribuição on-line. Editores-chefe: Leonardo Faria
e Ramon Andrade. Jornalista Responsável:
Daniela Ávila Malagoli. Direção de Arte: Carlos
Gabriel Ferreira. Colaboradores: Ana Lúcia
Hennemann e Lucas Santana de Campos.
Carta aos leitores
Saudações leitores!
Aqui vamos para mais uma edição da Revista MeuCérebro. Nesta
oportunidade, abordaremos diversos temas interessantes, como a importância
de um diploma de faculdade e como lidar com uma crítica. Essas são questões
diárias pelas quais certamente você já passou ou vai passar. Que faculdade
fazer, porque preciso de um diploma, porque uma crítica me aflige tanto e
como posso superá-la...
Além disso, vamos abordar um trabalho científico recente, brasileiro,
que alcançou grande prestígio internacional. A recontagem dos bilhões de
neurônios cerebrais. Na verdade, essa foi a primeira vez que uma contagem
celular do tipo fora realizada de uma maneira mais metódica e científica. Os
resultados estarão à sua disposição.
Você ainda terá a oportunidade de conhecer e aprender mais sobre as
meningites, doenças graves que afetam o sistema nervoso, e ler uma matéria
sobre neuroeducação, que trata das “janelas de oportunidades”, períodos da
maturação cerebral cruciais para o aprendizado e desenvolvimento do órgão.
Como de costume, poderá ainda conferir três notícias selecionadas do último
mês e desenvolver suas capacidades através do Programa de Desenvolvimento
MeuCérebro.
Por fim, a matéria especial O cérebro que “desliga”. A leitura do artigo
possibilitará um aprendizado sobre a neurofisiologia dos desmaios, entender
porque ocorrem e como agir ao presenciar algum. Vale a pena conferir!
Convido você para se registrar no site como Sócio. O procedimento é
gratuito e possibilitará a criação de um perfil personalizado, onde, dentre
outras coisas, estarão reunidas todas as suas atividades conosco. Uma boa
ferramenta de divulgação para o seu trabalho e suas ideias. Experimente!
Boa leitura!
Leonardo Faria
Editor-chefe da Revista MeuCérebro
3
Leonardo Faria
R
ecentemente, Roberto Lent, renomado pesquisador brasileiro em neurociências, dedicou-se a tentar solucionar uma questão,
até então carente de qualquer evidência científica sólida na literatura especializada. Qual o número
aproximado de neurônios (células especializadas do
sistema nervoso) estimado para o cérebro humano?
O pesquisador logo viu que a informação acreditada até então, 100 bilhões de neurônios, foi levantada sem a aplicação de testes consistentes, e um
método para tal deveria primeiramente ser levantado.
Observou-se com os estudos que, entre o número
de células neuronais e não-neuronais e o tamanho do
cérebro, há uma relação matemática precisa, denominada “regra de escala”. Em relação aos roedores, o
número de neurônios cresce proporcionalmente ao
tamanho de seus cérebros, numa curva de potência.
No caso dos primatas, há também essa proporcionalidade, entretanto, de maneira linear. Tal fato é curioso
e evolutivamente útil, já que possibilita um animal
ter bilhões de neurônios sem que seu cérebro pese
dezenas de quilos. Inversamente, por exemplo, se
imaginarmos um rato com 100 bilhões de neurônios,
pela regra linear, seu cérebro deveria pesar cerca de
45 quilos e seu corpo, nada menos que 110 toneladas.
Para atingir o objetivo final do estudo, estimar a
quantidade de neurônios do cérebro humano, levando-se em consideração que este órgão, na nossa
espécie, é enorme quando comparado aos dos outros
primatas, Roberto Lent dirigiu uma coleta e posterior
análise de cérebros pertencentes a indivíduos com
cerca de 50-70 anos de idade, falecidos de causas
4
/ meucérebro
////////// o c é r e b r o
não-neurológicas e sem comprometimento mental de qualquer tipo, fornecidos pelo Banco de Cérebros da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Os resultados?
Bom, a primeira conclusão foi a de que o encéfalo humano como um todo tem algo em torno de 86
bilhões de neurônios. A segunda, que a proporção de células neuronais e não-neuronais é de 1:1, ao contrário da antiga crença de que o número de células gliais (não-neuronais) fosse relativamente 10 vezes maior.
A última conclusão é que não dispomos de cérebros incrivelmente especiais na cadeia evolutiva; temos,
na verdade, uma população de neurônios totalmente previsível para o tamanho de nossos cérebros. Restanos, talvez, enaltecer uma capacidade singular de organização das nossas células mais “importantes”...
Confira a contagem final por região do encéfalo:
MASSA BRANCA
Peso: 294 g
Neurônios: 1,3 bi
Outras células: 19,9 bi
MASSA CINZENTA
CÉREBRO
Peso: 316 g
Neurônios: 6,2 bi
Outras células: 8,7 bi
Peso: 1.230 g
Neurônios: 16 bi
Outras células: 61 bi
DEMAIS
REGIÕES
CEREBELO
TOTAL
Peso: 118 g
Neurônios: 0,7 bi
Outras células: 7,7 bi
Peso: 154 g
Neurônios: 69 bi
Outras células: 16 bi
Peso: 1.508 g
Neurônios: 86 bi
Outras células: 85 bi
FONTES:
1. R. Lent (2010) Cem Bilhões de Neurônios? (2a Ed).
Editora Atheneu, Rio de Janeiro, 763 pp.
Imagem: http://revistapesquisa.fapesp.
br/2012/02/23/n%C3%BAmeros-em-revis%C3%A3o
5
6
/ meucérebro
//////// a s d o e n ç a s
Leonardo Faria
A
s meningites, principalmente aquelas agudas causadas por bactérias, pertencem a um
grupo temido de doenças infecciosas, das mais graves que acometem o ser humano.
Por tal motivo, à mínima suspeita clínica de meningite bacteriana, o médico já adminis-
tra antibióticos no intuito de evitar o pior mesmo sem conhecer qual é o microrganismo causador. Quando há suspeita por parte da própria pessoa ou de outras próximas, ao perceberem
sintomas como os do quadro acima, é fundamental procurar rapidamente o pronto-atendimento para uma consulta.
O sistema nervoso apresenta uma barreira que o separa do restante do organismo – conhecida como barreira hemato-encefálica –, controlando de forma seletiva as substâncias que
o atingem; porém, tanto danos mecânicos e químicos quanto o tropismo de alguns microrganismos pelo sistema nervoso central fazem deste um importante sítio de infecções.
De maneira geral, meningite é o termo dado ao processo inflamatório que acomete as
meninges (envoltórios do sistema nervoso central). Podem ser classificadas como infecciosas
e não infecciosas. Infecciosas quando causadas por bactérias e vírus, dentre outros microrganismos. Entre as não infecciosas, temos aquelas provocadas por reações imunológicas do organismo contra ele próprio (autoimunes), as medicamentosas e também aquelas associadas aos
cânceres.
As meningites podem ter uma evolução aguda, quando a progressão dos sintomas é de
horas a dias, subaguda a crônica, quando a progressão dos sintomas é de dias a semanas, e recorrente, quando os sintomas retornam periodicamente. Os agentes infecciosos podem chegar
até as meninges através da corrente sanguínea, ou por colonização dos seios da face e orofaringe, nestes casos após um quadro de sinusite ou faringite.
7
a s :
m
o
S i n t
A presença de alguns sinais clínicos durante o curso de uma meningite bacteriana pode sugerir uma
evolução desfavorável. Dos pacientes que estão com os valores da pressão arterial baixos, confusos ou
sonolentos, e apresentaram alguma crise convulsiva, mais da metade (57%) evoluirá para o óbito ou terá
alguma sequela neurológica. Se apenas dois dos sintomas estiverem presentes, o risco cai para 33%. Se
apenas um sinal dentre os três citados ocorrer, 9% dos pacientes evoluem desfavoravelmente.
Quando complicadas, as meningites geralmente estão relacionadas com a disseminação da infecção para os ventrículos encefálicos (ventriculite), com o acúmulo de pus na região subdural (empiema),
ou mais raramente e, quase que exclusivamente em crianças, com a disseminação da infecção para o
parênquima cerebral (abscesso). Nesses casos, pode ser necessária a intervenção de um neurocirurgião.
A boa notícia é que grande parte das meningites pode ser prevenida e tratada. Procure sempre o
profissional de saúde capacitado para que as dúvidas sejam sanadas e as orientações adequadas sejam
feitas.
FONTES:
1. Tratamento das doenças neurológicas, 2ª edição,
Sebastião E. de Melo-Souza;
2. Neurologia e Neurocirurgia, Série MedicinaNET,
Tarso Adoni e Roger Schmidt Brock.
8
/ meucérebro
///////// i n s p i r a ç ã o
9
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/ meucérebro
// p s i c o l o g i a c o g n i t i v a
Janelas de oportunidades
Períodos críticos para se educar o cérebro
Ana Lúcia Hennemann
Especialista em Alfabetização, Educação Inclusiva,
Neuropsicopedagogia e Pós-graduanda em Neuroaprendizagem.
U
m fato ocorre hoje em dia: várias pessoas
algumas “configurações de fábrica”, o nosso
compram smartphones exatamente do
sistema neurológico. Todavia, este envolve mo-
mesmo modelo, tendo acesso às mesmas
dificações anatômicas e funcionais que precisam
funções, programas e possibilidades; entretanto,
da experiência do sujeito no meio para se com-
bastam alguns momentos de uso, novas configu-
pletar (Riesgo, 2007). Não nascemos prontos! Todo
rações e/ou novos aplicativos são inseridos tor-
ser humano nasce com uma estrutura cerebral
nando cada aparelho mais diferenciado quanto a
que apresenta regiões específicas da linguagem,
sua funcionalidade.
possibilitando assim a fala e o entendimento de
Podemos dizer que o ambiente tem interferên-
qualquer língua; agora, se ninguém interagir com
cia até mesmo na vida funcional de um smartpho-
esse ser, negligenciá-lo de comunicação, esta
ne, pois cada proprietário, ao inserir novos recur-
fala, apesar de ter todos os pressupostos para que
sos, modifica a configuração original. Além disso,
aconteça de modo eficiente, poderá apresentar
o uso constante de determinadas ferramentas faz
inúmeras defasagens.
com que seus ícones estejam em local de maior
O desenvolvimento do ser humano está vin-
visibilidade, facilitando desse modo o acesso aos
culado à maturação cerebral, que se inicia dentro
mesmos.
do ventre materno e vai até a fase adulta. A neuro-
Isso representa uma analogia ao funciona-
ciência ainda não tem definida uma idade cronoló-
mento do nosso sistema nervoso. Entretanto, que
gica em que a estrutura e função do cérebro estão
fique bem claro: não se trata de instalar e desins-
completamente amadurecidas, mas a estimativa
talar programas, mas de entender que desde a
é para além dos 30 anos (Houzel, 2013). Esta ma-
mais precoce idade possuímos bilhões de neurô-
turação está relacionada a aprendizagens, e as
nios que nos possibilitam inúmeras conexões, que
bases destas estão alicerçadas nos primeiros anos
tanto podem ser reforçadas através do uso inten-
de vida e são essenciais para o desenvolvimento
sificado, como eliminadas devido à falta de uso.
humano, apresentando períodos mais sensíveis.
Assim como o smartphone, viemos com
Em outras palavras, períodos em que a aprendiza11
gem de habilidades ou o desenvolvimento de ap-
pautado nos estudos de Doherty (1997), apresenta
tidões e competências se faz de modo mais facili-
as seguintes funções que podem ser estimuladas
tado: as famosas janelas de oportunidades. Quando
de acordo com as faixas etárias:
expostos a determinados estímulos temos muito
Períodos mais propícios ao
desenvolvimento de habilidades
mais facilidade de desenvolvê-los na sua totalidade.
Bartoszeck (2009) ressalta que o termo janelas
de oportunidades tem aparecido, em muitas
mídias, de maneira inadequada, sendo conside-
FUNÇÕES
FAIXA MAIS PROPÍCIA
Visão
0 a 6 anos
Controle emocional
9 meses a 6 anos
Formas comuns
de reação
6 meses a 6 anos
tia em períodos que se fechavam e não voltavam
Símbolos
18 meses a 6 anos
mais. Para um maior entendimento do público, esta
Linguagem
9 meses a 8 anos
Habilidades sociais
4 anos a 8 anos
5 anos a 8 anos
que tenhamos uma má formação genética ou uma
Quantidades relativas
lesão pré-natal, todos possuímos a capacidade
Música
4 anos a 11 anos
Segundo idiona
18 meses a 11 anos
radas janelas que poderiam se fechar, caso não
fossem tomadas medidas urgentes nestes períodos. E, uma vez fechadas, não haveria mais possibilidade de ocorrer o aprendizado. A terminologia
adotada inicialmente referia-se a períodos críticos,
que na interpretação de alguns autores, consis-
nomenclatura aparece agora como períodos sensíveis ou janelas de oportunidades.
Um exemplo a ser citado é a visão. A menos
básica de ver; entretanto, após o nascimento, a
visão ainda se encontra em processo de maturação, necessitando de estímulos para fortalecer as
conexões neurais associadas.
Nossos cérebros são flexíveis e adaptáveis.
Podemos desenvolver muitas habilidades durante
a vida. Caso não desenvolvamos determinadas habilidades, nas denominadas janelas de oportunidades, não quer dizer que não tenhamos mais a
capacidade de desenvolvê-las, mas sim que estas
necessitarão de muito mais empenho e intervenção para que sejam adquiridas, ou, suas deficiências, amenizadas. Nesse sentido, Bartoszeck (2007),
12
/ meucérebro
Fonte: Doherty (1997 apud Bartoszeck 2007)
A maturação cerebral ocorre em diferentes
regiões ao longo dos anos, sendo que o entendimento destas janelas de oportunidades retrata a
importância de estímulos adequados para o melhor
desenvolvimento da criança. Entretanto, há de se ter
coerência para não submetê-la a estímulos inapropriados ou intensos. Estimulação em demasia é tão
prejudicial quanto não se ter estimulação nenhuma.
Em demasia corre-se o risco de forçar a criança
// p s i c o l o g i a c o g n i t i v a
para algo que ela ainda não consegue responder,
que estas ações estão pautadas num somatório de
causando frustrações; por outro lado, crianças que
práticas que incluem, dentre outras, a qualidade da
recebem pouca estimulação apresentam menor
alimentação, do sono e do ambiente social.
quantidade de sinapses e, automaticamente, menos
Cada dia é importante. A mensagem final é que
conexões em seu cérebro, resultando em um de-
novas janelas se abrem todos os dias e estímulos
senvolvimento mais lento. Portanto, não se trata da
bem direcionados podem mudar toda uma predis-
quantidade de estímulos, mas da qualidade.
posição genética.
Crianças são diferentes de smartphones. Não
há como inserir aplicativos e pensar que já estão
aptas para determinadas habilidades. Podemos estimular precocemente a criança para um segundo
idioma e ela conseguirá pronunciá-lo sem sotaque,
mas existem habilidades motoras que nesta mesma
fase ainda não poderão ser realizadas: recortar, atar
cadarços, abotoar casacos. É preciso investimento a longo prazo, otimizar ações que privilegiem as
janelas de oportunidades, mas também entender
FONTES:
1. BARTOSZECK, A.B. Neurociência dos seis primeiros anos: implicações educacionais. EDUCERE. Revista da Educação, 9(1):7-32., 2007;
2. BARTOSZECK, A. B.; BARTOSZECK, F. K. Percepção do professor sobre neurociência aplicada à educação. EDUCERE - Revista da Educação, Umuarama, v. 9, n. 1,
p. 7-32, jan./jun. 2009;
3. HOUZEL, Suzana Herculano. O cérebro adolescente: a neurociência da transformação da criança em adulto. São Paulo: Amazon, 2013;
4. ROTTA, Newra. OHLWEILLER, Lygia. RIESGO, Rudimar. Transtornos de Aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2007.
//////////// p a r c e i r o s
13
Desafio:
Qual o nome dos filmes?
Áreas cerebrais envolvidas neste teste:
Sempre que trabalhamos com a visão, os córtices visuais primários são ativados. O foco do exercício é a interpretação de letras ausentes e requer conhecimento geral prévio. No caso, ter visto ou ouvido falar dos filmes em
questão. A região occipitotemporal ventromedial, mais especificamente os
giros lingual e fusiforme, é ativada no reconhecimento de formas e palavras.
Uma área especialmente importante para o teste é a área de Wernicke, localizada no córtex das bordas posteriores do sulco temporal superior. Nesta
parte do cérebro, geralmente no hemisfério esquerdo, ocorre a compreensão e a interpretação simbólica da linguagem, juntamente com a integração
do estímulo visual com o auditivo. É nessa área que o indivíduo adquire a
consciência do significado daquilo que ouve e vê.
14 | m e u c e r e b r o . c o m
Área de Wernick
// t u r b i n e s e u c é r e b r o
Saiba quais as habilidades, os domínios e a inteligência desenvolvidos com este desafio:
Conheça mais sobre as etiquetas em:
www.meucerebro.com/desenvolvimento.
Giros lingual e
fusiforme
Resposta:
Como dissemos, um exercício que requer a integridade de
algumas áreas relacionadas à leitura, assim como conhecimento geral
prévio sobre os filmes em questão. A memória de trabalho é exigida
Giro angular
ao se testar novas letras para preencher as que faltam. E faltam as
vogais dos nomes.
Os filmes são ‘Uma Mente Brilhante’ e ‘Gênio Indomável’.
Comentários:
A leitura é um dos processos mais complexos realizados pelo cérebro
humano. Requer a ativação de múltiplos sistemas sensoriais e motores,
além de inúmeros outros aspectos psicológicos, socioculturais, soCórtex Visual
cioeconômicos e educacionais. A habilidade de leitura tem tudo a ver
com a atenção e a memória. A falha em alguma dessas áreas possibilita o aparecimento de alterações na leitura e escrita. Os vários tipos
de dislexia constituem exemplo disso. O exercício é especialmente
útil para treinar a chamada “leitura ativa”, em que o cérebro precisa
interpretar informações ausentes no texto, associar com memórias
remotas e produzir o sentido pretendido.
15
16
/ meucérebro
/////////////// e s p e c i a l
Você
já desmaiou alguma vez? Já
perdeu a consciência? Ou,
ao menos, teve a sensação
iminente de desfalecimento,
que tudo iria apagar e
desabaria no chão? Quem
já passou pela sensação,
sabe o medo que dá.
Vulnerabilidade, perigo de
se machucar seriamente, ou
até do pior.
Leonardo Faria
17
Muita gente confunde,
mas o desmaio dito verdadeiro se caracteriza por perda
de consciência. Como se o cérebro realmente “desligasse”. Vale aqui observar que o termo é apenas uma força de
expressão e que, verdadeiramente, o cérebro não desliga.
Ele pode diminuir sua atividade, ter algumas de suas
regiões irreversivelmente danificadas mas, ao desmaiar, o
cérebro continua funcionando, ao menos em parte.
Quando associamos os desmaios às lipotimias e pré-síncopes – escurecimento visual e mal-estar subjetivo
sem necessariamente haver perda de consciência –, os
episódios podem atingir até um terço da população. É
o que descrevem alguns estudos. Segundo especialistas, quanto mais avançada a idade da pessoa que sofre
o desmaio, mais imprescindível é a investigação médica,
principalmente do ponto de vista cardiológico. Na grande
maioria das vezes, a perda súbita de consciência está relacionada com uma baixa oxigenação do cérebro, que pode
ser desencadeada por vários motivos. Emoções fortes
costumam ser os fatores precipitadores mais comuns
dos desmaios, através de respostas neurocardiogênicas
inapropriadas, mas tais eventos também podem estar relacionados a distúrbios e doenças mais graves e sérias,
como infecções disseminadas pelo organismo, acidentes
vasculares cerebrais (derrames), epilepsia e o traumatismo craniano com repercussão sobre o sistema nervoso.
O objetivo deste artigo é informar sobre o conceito do
desmaio, estabelecer suas causas mais comuns, discorrer
sobre alguns aspectos da sua fisiopatologia, assim como
também inibir algumas atitudes temerárias que só complicam um evento por natureza já potencialmente grave.
18
/ meucérebro
O termo desmaio é de pleno emprego
3ª edição da Revista MeuCérebro, a vigília é
popular. Do ponto de vista médico, o episódio
mantida por meio de uma ativação contínua de
autolimitado de perda súbita de consciência
grandes extensões do córtex cerebral, atividade
e do tônus postural costuma receber a deno-
que é produzida pelo Sistema Reticular Ativador
minação de síncope, principalmente quando
Ascendente – SARA. Dessa forma, quando o
a causa da baixa oxigenação cerebral é car-
fluxo de sangue para áreas como essa diminui,
diovascular. Quando usamos a expressão ‘a
o exigente órgão se vê privado momentanea-
pessoa que desmaiou perdeu os sentidos’, de
mente de glicose, oxigênio e outros nutrientes.
certa maneira, não estamos errados. Logo que
Dependendo desse grau de privação, o cérebro
a consciência se perde, qualquer informação
pode ‘desligar’ por poucos segundos ou sofrer
proveniente dos sentidos fica momentanea-
danos irreversíveis.
mente incapaz de ser processada. A vítima do
desmaio se torna incomunicável.
O final do último parágrafo ilustra porque
o desmaio é encarado com tanta importância
O cérebro é um órgão extremamente exi-
pelo profissional médico. Um evento que pode
gente. Requer uma oferta regular de glicose
significar apenas um déficit de função rápido e
para extrair a energia necessária para o meta-
transitório, mas também a falência de todo o
bolismo de suas células, dentre elas os neurô-
sistema neurológico. Por isso todo caso deve
nios, além de consumir quase 20% do oxigê-
ser tratado e investigado com atenção.
nio inalado pelos pulmões. Como já tratamos
em outra oportunidade, em uma matéria da
19
Um grande grupo de situações pode
reduzir o nível da pressão arterial e,
dessa forma, ocasionar um episódio de desmaio. A pressão arterial
depende basicamente da resistência
periférica dos vasos sanguíneos, do
volume de sangue ejetado em cada
sístole cardíaca e da frequência
apresentada pelo coração em determinado momento. Os desmaios
neurocardiogênicos e os que estão
relacionados a distúrbios do sistema
nervoso autônomo interferem na
pressão arterial de diversas maneiras, predispondo a perda súbita de
consciência. Os vasos sanguíneos
podem se dilatar subitamente, diminuindo a resistência vascular periférica e, consequentemente, a pressão
arterial. A frequência cardíaca pode
diminuir a níveis inferiores a 50-40
Bulbo
batimentos por minuto, nível que
pode variar de pessoa para pessoa,
também
repercutindo
diretamente
no volume de sangue que chega até
o cérebro. A síncope vasovagal e a hipotensão ortostática são exemplos de
desmaios que têm nessas causas neurocardiogênicas e disautonômicas sua
fisiologia. Há ainda situações em que o
sistema de regulação da pressão arterial se torna insuficiente, como ocorre
na hipersensibilidade do seio carotídeo.
20
/ meucérebro
Medula
A importância do nervo vago na fisio- A síncope vasovagal
logia do desmaio
A síncope vasovagal é uma das causas
O décimo par de nervos cranianos é constituído pelos nervos vagos direito e esquerdo.
Os núcleos que dão origem a esses nervos
estão localizados no bulbo, mais posteriormente. Existem inúmeros circuitos que influenciam
a atividade desses núcleos, e de outros envolvidos direta ou indiretamente com o sistema
nervoso autônomo, como o sistema límbico e
o hipotálamo. Talvez, por isso, alguns episódios
de emoção intensa, processados nas estruturas límbicas, interfiram nos batimentos cardíacos e na pressão arterial, podendo ocasionar os
desmaios. Uma dor forte e o término inesperado de um namoro constituem exemplos, principalmente em pessoas com predisposição a
reações emocionais desproporcionadas.
Nervo vago
Nervo
simpático
cardíaco
Tronco
simpático
mais comuns de síncope. A incidência varia de
21% a 35%, e as vítimas são geralmente pessoas
jovens com boas condições de saúde. Pode
ser classificada dentro das seguintes categorias: central (ocorre em resposta à estimulação
emocional), postural (normalmente associada à
permanência por tempo prolongado na posição
ortostática) e situacional (após estimulação específica de aferentes sensoriais e viscerais).
Pode ser dividida, de acordo com a resposta,
como vasodepressora, bradicárdica ou mista,
em que são consideradas as características hemodinâmicas. Outra classificação está relacionada às características da síncope e a sua resposta ao tratamento. Aqui vale a observação:
existem quadros malignos que não apresentam
sintomas prévios aos desmaios e não respondem a nenhum tratamento.
Os nervos vagos e os nervos
cardíacos simpáticos equilibram suas ações para controlar os batimentos cardíacos,
a contratilidade do coração e,
secundariamente, a pressão
arterial, em relação à exigência de cada situação.
21
A fisiopatologia da síncope vasovagal ainda
dispõem a hipoglicemia. Geralmente as pessoas
é complexa e não está completamente eluci-
que desmaiam por esse motivo apresentam-se
dada, mas o mecanismo principal parece ser de
pálidas e com suor frio. Eventualmente, a prática
origem reflexa. As condições que favorecem sua
de exercícios físicos por períodos prolongados
ocorrência estão relacionadas com a redução
pode ocasionar hipoglicemia também.
do retorno de sangue venoso, o aumento do
tônus simpático, o aumento da contratilidade
do coração e a baixa resistência periférica. Seu
mecanismo é caracterizado por um reflexo autonômico paradoxal. O nervo vago aumenta sua
atividade em resposta a receptores de pressão
localizados no interior das câmaras cardíacas,
diminuindo os batimentos cardíacos e a pressão
de ejeção do sangue.
Aqui, os desmaios tendem a ser recorrentes. Situações como calor intenso, ambientes
com grandes aglomerações, ficar muito tempo
de pé, dor intensa, traumas, visão de sangue,
punção venosa, ingestão de álcool e desidratação podem precipitá-los. Emoções intensas
geralmente são relatadas na cena dos desmaios, que podem ser precedidos por sintomas de duração variável, como mal-estar, calor,
tontura, náusea, perda de força ou formigamento nos membros, palpitações, dor abdominal,
fadiga, que evoluem para escurecimento visual
progressivo e sensação de desfalecimento.
Hipoglicemias
Lesões cerebrais
Por fim, danos cerebrais diretos ou indiretos podem ser os vilões. Os mecanismos
são muitos. Um traumatismo craniano pode
causar uma lesão de diferentes graus nos
axônios neuronais, tornando-os disfuncionais.
Como as fibras que ativam o córtex e produzem a vigília são, em sua maioria, longitudinais,
estando assim mais sujeitas à rotação/tração,
em traumas com movimentos bruscos de aceleração e desaceleração, a pessoa pode perder
a consciêcia. O mecanismo é conhecido como
concussão ou lesão axonal difusa, dependendo
do grau de dano aos neurônios.
Os sangramentos (derrames) e as isquemias também podem acometer áreas cerebrais
de diferentes proporções; eventualmente há a
perda súbita de consciência. Quando as descargas elétricas relacionadas a um ataque epiléptico se generalizam, o mesmo pode acontecer. Infecções neurológicas que inflamam o
cérebro, tumores que crescem e comprimem
estruturas vitais, deficiências nutricionais e in-
Outro grupo de causas de desmaios está
associado ao metabolismo. O diabetes e o jejum
prolongado são exemplos de situações que pre-
22
/ meucérebro
toxicações por diferentes agentes também são
descritas.
// Em entrevista à Revista Viva Saúde, o cardiologista Dario Ferreira, do
Hospital e Maternidade São Camilo, de São Paulo, alertou: uma perda de consciência que ultrapassa 30 a 40 segundos deve ser encarada como potencialmente grave,
requerendo atendimento imediato no pronto-socorro. Devido às inúmeras causas do
desmaio, o médico deverá investigar cada caso. Alguns exames podem ser necessários,
como o eletrocardiograma e o teste de glicemia capilar, para reduzir imediatamente o
leque de possibilidades, e intervir de uma maneira mais específica.
Outro dado importante é, se possível, conhecer a história pregressa da vítima.
Sabendo-se, por exemplo, que a pessoa desmaiada é portadora de doença cardíaca, toma medicações regulares para epilepsia ou ingere habitualmente grandes
quantidades de bebida alcoólica, o diagnóstico preciso fica facilitado, assim como
o tratamento.
Além da história pregressa, as próprias circunstâncias do desmaio são
importantes para definir suas causas. Se a pessoa desmaiou logo após uma
pancada na cabeça, estava no velório de um ente querido, não come direito
há dois dias... pistas diretas sobre o que deverá ser feito em seguida.
Agora, caso se detecte que logo após desmaiar, a pessoa não respira
ou não apresenta pulso, manobras de ressuscitação se tornam emergentes e uma investigação mais detalhada fica para um segundo momento.
Primeiro, obviamente, manter a vida e o mínimo de irrigação para o exigente cérebro.
Um estudo detalhado sobre o assunto revelou que a síncope pode
ser o único sintoma que precede a morte súbita. Por isso, ao menor
sinal de alteração cardíaca ou sintoma neurológico evidente, uma internação hospitalar pode se fazer necessária. Vale lembrar: por mais
que a causa da síncope seja benigna, suas consequências podem não
ser. Uma queda abrupta, especialmente na população idosa, pode
ocasionar fraturas ósseas e hematomas intracranianos.
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O que fazer
Você presencia um desmaio. Antes de conduzir a pessoa para o
pronto atendimento médico, algumas medidas podem e devem
ser tomadas:
• Afastar a vítima de local que proporcione perigo (escadas,
janelas etc);
• Deitá-la de barriga para cima e elevar as pernas em relação
ao tórax (com a cabeça mais baixa em relação ao restante do
corpo);
• Lateralizar a cabeça para facilitar a respiração;
• Afrouxar as roupas;
• Manter o ambiente arejado;
• Após recobrar a consciência, a pessoa deve permanecer pelo
menos dez minutos sentada, antes de ficar em pé, para prevenir
um novo desmaio.
24
/ meucérebro
O que não fazer
• Não jogar água fria no rosto, para despertar;
• Não oferecer álcool ou amoníaco para cheirar;
• Não sacudir a vítima.
FONTES:
1. http://goo.gl/r39rzX;
2. http://goo.gl/PwV3DQ;
3. http://goo.gl/CTu4WQ;
4. http://goo.gl/UIeiL6;
5. Síncope Vasovagal e Suplementação de Sal. Artigo de Revisão. Download: http://goo.gl/LJLFG3
25
26
/ meucérebro
//////////// i s s o f a z b e m
Uma das vozes do cérebro: o corpo
Daniela Ávila Malagoli e Leonardo Faria
“O
corpo fala”. Quando o assunto é
pré-motor e a área motora suplementar, ambas
dança, essa frase nunca se encai-
localizadas na região mais frontal do órgão. Essas
xou tão bem, não é mesmo? Afinal,
instruções então se projetam para o córtex motor
dançar é expressar emoções, vivenciar experi-
primário, de localização ligeiramente mais poste-
ências, deixar-se levar... dançar é uma forma de
rior, que gera impulsos neurais direcionados para
expressão humana. Quando aquela música boa
os músculos do corpo, via medula espinhal.
está tocando e você, mesmo um tanto tímido, não
A qualidade de cada movimento, resultante
consegue ficar parado e, discretamente, bate o
das contrações musculares ritmadas, depende
pé no chão... #quemnunca? A nossa habilidade de
de um feedback proprioceptivo. Em outras pa-
gerar ritmo por meio da música é tão natural que
lavras, o cérebro envia o comando e espera dos
parece automática. Li e achei interessante compar-
próprios músculos dados sobre o movimento para
tilhar: seria a soberania do instinto sobre a razão?
que seja possível controlá-lo, refiná-lo e aprimo-
A dança é uma das formas mais primitivas
rá-lo. A orientação exata do corpo no espaço é
de comunicação. Há registros de rituais de ferti-
percebida pelo cérebro através desses inúmeros
lidade (de onde deriva a dança do ventre) feitos
sensores musculares. De fundamental importân-
em pinturas rupestres de 8300 a.c. Mas, deixan-
cia são também os circuitos subcorticais do ce-
do a parte histórica de lado, é realmente difícil ficar
rebelo, localizados na parte posterior e inferior
parado quando toca aquela música. Aposto que
do crânio, e os gânglios de base, no centro do
você já deve ter ficado indignado consigo mesmo
cérebro. Ambas as regiões do encéfalo contri-
quando seu corpo não resistiu àquela música que
buem para a atualização dos comandos motores
diz não apreciar de jeito nenhum. Pois é, por que será
a partir do feedback neurossensorial.
que acabo dançando mesmo aquilo que não gosto?
Uma área especialmente importante tanto
para a dança real, como para a imaginada, ou
O caminho da dança
seja, quando você se imagina dançando, mas ob-
Basicamente, quando são estudados os cére-
jetivamente não se move, é o precuneus, uma
bros dos dançarinos, os cientistas já descobriram
região mais posterior do lobo parietal. Os cientis-
que uma região denominada córtex parietal pos-
tas acreditam que essa área contenha um mapa
terior traduz informações visuais em comandos
cinestésico capaz de produzir uma consciência
motores, enviando sinais para as principais áreas
espacial corporal enquanto as pessoas se movem
de planejamento do movimento. São elas o córtex
à sua volta.
27
E aquela minha “dancinha” durante músicas que não gosto?
Bom, após estudar inúmeras regiões do cérebro por meio de tomografias e ressonâncias funcionais, os pesquisadores descobriram uma pequena estrutura que ocorre ao par, em uma porção mais
primitiva do encéfalo. A estrutura é denominada corpo geniculado medial e está presente em cada um
dos tálamos. Segundo o estudo recente, tal estrutura refere-se especificamente à sincronização e não
apenas ao ato de ouvir. Algo do tipo: ao escutar algum ritmo musical, antes que se torne consciente, ele
alcança redes neurais mais “instintivas” e é processado. Acaba que você bate os dedos sobre a mesa, ou
os pés no chão, antes mesmo de saber disso. Curioso não?
{
C O R P O G E N I C U L A D O L AT E R A L
CORPO GENICULADO MEDIAL
Os movimentos rítmicos corporais involuntários estariam relacionados à atividade dos corpos geniculados mediais.
FONTES:
1. http://goo.gl/CinJTT;
2. http://goo.gl/6zfiWz;
3. http://goo.gl/ab4FZp;
4. http://goo.gl/6cCm4P;
5. http://goo.gl/iygmYv.
28
/ meucérebro
//////////// i s s o f a z b e m
ser aprimorado com a prática da dança. E
Dançar faz tão bem!
Você que não consegue se manter firme na aca-
sua memória agradece.
demia ou na hidroginástica, a dança pode ser uma
• A dança é utilizada como terapia: em trata-
opção. Além de ser, para alguns, mais prazerosa,
mento de pacientes com deficiência física e
ela também traz diversos benefícios para a saúde.
neurológica, a dança pode ajudar de várias
Abaixo, alguns motivos para você dançar:
maneiras, desde a correção da postura até
• Dançar alivia o estresse: melhora a ativida-
o aprimoramento do controle de movimen-
de cardiorespiratória, fortalece os músculos,
tos. Outro fato interessante é que pessoas
melhora (e muito!) a postura, exercita o equi-
com mal de Parkinson conseguem, ao som
líbrio, a coordenação, a agilidade e a flexibili-
de músicas, fazer movimentos que não con-
dade, relaxa, diminui as dores, controla a an-
seguiriam fazer em outras situações que
siedade, emagrece, tonifica...e por aí vai.
não tenham a presença do som (consta-
• Dançar aumenta a autoestima: trabalha os
tação de neurologista em entrevista para a
cinco sentidos, ampliando a capacidade sen-
revista Galileu). A dança também pode ser
sorial. Dançar promove um estado de excita-
utilizada em tratamentos contra a depressão.
ção do indivíduo com ele mesmo, por meio
Estudo realizado na Universidade do Texas,
de experiências gestuais. Como foi dito ante-
nos Estados Unidos (disponível em reporta-
riormente, na dança, “o corpo fala”. A dança
gem on-line na revista Viva Saúde), revelou
é uma forma de estar mais em contato com
que a prática de exercícios físicos aeróbicos
você mesmo, conhecendo-se, descobrindo-
por pelo menos 30 minutos, e ao menos três
-se, libertando-se.
vezes por semana, diminui em quase 50% os
• A dança melhora a comunicação: por si só,
riscos de se desenvolver depressão modera-
dançar é comunicar. É uma ferramenta de
da. Isso porque o cérebro libera substâncias
linguagem gestual, além de prazerosa, muito
relacionadas ao prazer e ao orgasmo sexual,
eficaz, pois cria e fortalece vínculos sociais.
como a endorfina e a ocitocina, respectiva-
Por meio do contato físico, a timidez vai
mente, durante a dança.
ficando obsoleta e relações sociais podem
ser construídas, aprimoradas e, quem sabe,
podem transcender o ambiente do salão –
Ainda bem que “inventaram” uma ferra-
ou qualquer que seja o local - .
menta tão satisfatória para cuidar do corpo e da
• Dançar estimula a memória: o cérebro é es-
alma. Não há mais desculpa para ficar parado.
timulado a cada vez que é necessário criar
coreografias
diferentes,
decorar passos,
guardar sequências. Esse sincronismo pode
# D I C A D O M E U C É R E B R O :
Invista em você!
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30
/ meucérebro
///// p e n s a m e n t o s
Você se identifica?
J
Daniela Ávila Malagoli
on Acuff, no livro “Start”, diz: a matemática da crítica é poderosa. A
reflexão feita pelo autor mostra como somos sensíveis à crítica e
de que forma devemos lidar com algo que pode nos afetar tanto.
Provavelmente você deve se lembrar de coisas que lhe falaram na infância e que o deixaram muito chateado. Tanto é que estas críticas negativas
ainda estão guardadas na sua memória, meio que “vivas”, debaixo do tapete.
Conseguiu resgatar algo?
Será que é mais fácil lembrar de um elogio ou de uma crítica? O que
vem à sua cabeça, primeiro? O pensamento de que nos constituímos e aprimoramos (pode ser que não, depende de nós) a partir do outro faz cada
vez mais sentido. Dependendo da crítica e da reação e comportamento da
“vítima”, o efeito pode ser devastador, a ponto de aniquilar tudo de bom que
foi dito sobre a pessoa. É como se ela realmente esquecesse de suas virtudes, princípios e qualidades, e tivesse olhos só para o negativo. Como diz
Acuff, parece bobagem, mas não é. A crítica pode fazer o bom sumir igual
pó (espera-se que uma possível relutância a essa afirmação venha acompanhada de reflexão. Não custa nada e faz muito bem ser um estudante de si
mesmo).
Mas, voltando ao assunto, como lidar?
“Haverá inimigos que atirarão pedras em você do fundo da terra do
Domínio. A tentação será parar em sua jornada para interagir com eles.
Transformar as pedras em um altar e oferecer algo que alivie a frustração
deles com você. Você será tentado a se esforçar para trazê-los para seu
lado. Ignore”. Para começar, um ‘vou levar em consideração’ “quebra” tanto
a crítica quanto o criticado. Mas leve em consideração, de verdade! Primeiro:
considere a fonte da crítica. Quem disse? Segundo: Por que disse? Em vez
de ficar irritado, deprimido ou se sentindo um “nada”, analise e reflita. Se não
for uma crítica valiosa, que possa ajudá-lo de alguma maneira, larga para lá.
Mas larga de verdade...
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/ meucérebro
///neurociência do sucesso
Lucas Santana de Campos
Graduado em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia. Especialista
em Mercado de Capitais pelo Instituto de Pós-graduação de Goiânia.
D
esde o dia em que aprendemos a andar,
ajustes e se não envolver necessidade de financia-
começam a nos bombardear com alguns
mento, situação na qual ainda teríamos que contar os
dogmas: “se você for bonzinho esse ano,
juros. Também não estamos levando em considera-
Papai Noel vai te trazer um presente”; “se brincar com
ção os livros, o transporte, nada além do custo com a
fogo, faz xixi na cama”; “não diga essas coisas, Papai
instituição de ensino. Ainda assim, é um investimen-
do Céu castiga”; e o meu favorito: “você vai precisar
to muito alto. Mas pode ser mais: uma graduação em
fazer uma faculdade, se quiser ser alguém na vida”.
medicina pode chegar a custar R$ 900.000,00, na
Alguém na vida. Podemos parar de repetir isso?
Faculdade São Leopoldo de Campinas – SP. Cursar
É baseado no dogma de que o diploma é um
passaporte para o sucesso, que nós movemos as in-
medicina no Brasil já está tão caro que alguns optam
por fazer o curso na Rússia.
dústrias dos cursinhos, financiamento estudantil e a
mais bem sucedida delas, a faculdade particular. De
“Mas é o meu sonho!”
fato, nos últimos anos, o brasileiro investiu tanto em
Seu sonho pode não te proporcionar renda sufi-
educação superior que agora temos 5 empresas do
ciente para pagar por ele. Em primeiro lugar, as uni-
setor educacional com capital aberto na BOVESPA,
versidades nem ao menos têm como função formar
e que tiveram uma performance excelente, até o
mão de obra. Formação de mão de obra especia-
começo de 2015.
lizada é função dos cursos técnicos. Universidades
Mas afinal, vale a pena investir tempo e dinhei-
formam acadêmicos e realizam pesquisa. Constituem
ro em um diploma? Atualmente, a diferença entre
um ambiente onde o conhecimento é, ou deveria
o salário de um empregado com nível superior e
ser, construído para, posteriormente, ser transmitido
um que não possui pode chegar a 219% (CEMPRE-
(docência) e aplicado. Deveria, mas uma pesquisa do
IBGE-2011). Não que isso queira dizer muita coisa.
Instituto Paulo Montenegro (2012) revelou que 38%
Segundo a pesquisa, as médias salariais no período
dos universitários brasileiros são analfabetos funcio-
foram de R$ 4.135, para quem tinha nível superior, e
nais, o que quer dizer que eles sabem juntar as letri-
R$ 1.294, para quem não tinha. Isso são médias, sig-
nhas, mas são incapazes de interpretar a mensagem
nifica que dependendo da sua formação, seu traba-
que elas passam. Por uma questão de sobrevivência,
lho valerá muito mais ou muito menos do que isso.
parte das universidades teve que se adaptar ao público
Uma graduação em administração de empresas,
menos qualificado. Disso podemos inferir que ao se ma-
em uma faculdade decente, não sairá por menos de
tricular em boa parte das universidades do Brasil, você
R$ 65.000,00. Isso, desconsiderando eventuais re-
corre o risco de estar comprando um diploma de idiota.
33
“O que você está propondo? Que eu não faça um curso superior?”
Exatamente, a não ser que você responda SIM para todas as perguntas
abaixo:
1. Você gosta de estudar?
2. Você sabe quais profissões você poderá desempenhar depois de cursar a faculdade escolhida?
3. PRIMORDIAL: Você tem certeza de que o mercado valoriza a profissão que você pretende ter caso realize
o curso desejado? OBS: Por mercado, não entenda
apenas o mercado de trabalho, até porque muitas das
formações superiores são para profissionais liberais.
Considere também a viabilidade de empreendimentos
na área de interesse. Escolha com sabedoria, porque
depois de graduado em uma área com a qual ninguém
se importa, não adianta reclamar que a vida é injusta.
4. Você está disposto a gastar tempo e dinheiro com
a preparação para o ingresso em uma universidade
gratuita, e ainda mais dinheiro em uma instituição
privada?
5. Você vai escolher uma instituição decente?
Se você não respondeu um vigoroso e sincero SIM para todas essas perguntas, é melhor investir seu tempo e dinheiro em outra atividade, porque
“alguém na vida” você já é, mas ser bem sucedido e satisfeito depende de
boas escolhas. E fazer uma faculdade não é necessariamente uma delas.
FONTE:
1. http://goo.gl/z1y0Rk
34
/ meucérebro
//////////// p a r c e i r o s
35
N OT Í C I A
# 0 1
Quem pensa “tempo é dinheiro” age ecologicamente pior
S
egundo descobertas recentes, acreditar que “tempo é dinheiro” pode ser uma barreira para as
pessoas agirem de forma ambientalmente amigável, mesmo para tarefas que exijam apenas
alguns segundos, como a reciclagem.
Os dois estudos levados em consideração avaliaram trabalhadores que recebiam seus salá-
rios por hora, e descobriram que os mesmos eram menos propensos a assumir comportamentos
ecológicos que exigiam apenas alguns segundos ou minutos de esforço adicionais. O autor principal de um deles descreve o que notou: “As pessoas expressaram a preocupação com o meio
ambiente, mas elas não estavam dispostas a tomar medidas quando foram lembradas sobre o
valor monetário de seu tempo.”
Os estudos em detalhes você confere aqui.
36
/ meucérebro
/////////////// n o t í c i a s
N OT Í C I A
# 02
Um terço dos bebês está usando smartphones ou tablets
M
ais de um terço dos bebês estão interagindo com smartphones e tablets, mesmo antes de
aprender a andar ou falar, segundo estudo realizado pela Academia Americana de Pediatria.
Na faixa de um ano, uma em cada sete crianças usa os dispositivos por pelo menos uma
hora, diariamente. A própria academia não recomenda o uso de mídia de entretenimento, tais como
televisores, computadores, smartphones e tablets, por crianças com menos de 2 anos. Até então não
se sabia os números objetivos desse hábito na tenra infância. Daí a importância do estudo.
Outros resultados da pesquisa: 73% dos pais permitem que as crianças brinquem com dispositivos móveis, enquanto eles realizam tarefas domésticas; 60%, enquanto dão recados, 65% permitem a
utilização para acalmar o filho e 29% para colocá-lo para dormir. Os dados são consistentes e requerem uma avaliação mais detalhada para direcionar orientações futuras mais específicas.
Clique aqui para mais informações.
37
N OT Í C I A
# 0 3
Todos os dias os neurônios reescrevem seu DNA
O
s cientistas descobriram que os neurônios assumem muitos riscos: Eles realizam pequenas
“cirurgias de DNA” para modificar seus níveis de atividade no decorrer do dia, todos os dias.
Uma vez que estes níveis de atividade são importantes em distúrbios que envolvem a estru-
tura cerebral, interferindo em questões relacionadas a aprendizagem e a memória, os pesquisadores
acreditam que essa descoberta vai lançar luz sobre uma série de questões importantes.
A capacidade de regular a atividade sináptica é a propriedade mais fundamental de neurônios. A
partir dela os nossos cérebros formam os circuitos responsáveis pelas informações. Como a flexibilidade das sinapses parece exigir esses pequenos e constantes reparos cirúrgicos no DNA neuronal, o
autor da pesquisa interroga se alguns distúrbios cerebrais podem surgir a partir de falhas no processo.
Qual a verdadeira repercussão da incapacidade de se auto “curar” apresentada por alguns neurônios
em determinadas doenças? Possivelmente, o estudo nos leva a um passo mais perto de descobrir.
Confira a matéria completa em Science Daily.
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