Volume 4 Número 17 25 de junho de 2006 GBETH Newsletter de Tumores Hereditários de Estudos o r i e l i s Uma o Bra publicação semanal do Grup www.gbeth.org.br GBETH Newsletter é uma publicação semanal distribuída aos sócios do Grupo Brasileiro de Estudos de Tumores Hereditários. Sede R José Getúlio, 579 cjs 42/43 Aclimação São Paulo - SP CEP 01503-001 E-mail [email protected] [email protected] Prevalência de Câncer Colorretal em Idade Jovem em Famílias com Síndrome Li-Fraumeni de Maria Isabel W Achatz Departamento de Oncogenética - Hospital do Câncer Wong P, Verselis SJ, Garber JE, Schneider K, Digianni L, Stockwell DH, Li FP, Syngal S. Prevalence of Early Onset Colorectal Cancer in 397 Patients With Classic Li–Fraumeni Syndrome. Gastroenterology 2003;348:919–932. São diagnosticados nos Estados Unidos, a cada ano, 150.000 casos de câncer Editor Erika Maria M Santos Ligia P Oliveira Diretoria Presidente Benedito Mauro Rossi Vice-Presidente Gilles Landman Diretor Científico André Vettore Secretário Geral Fábio de Oliveira Ferreira Primeira Secretária Erika Maria M Santos Tesoureiro Wilson T Nakagawa Conselho Científico Beatriz de Camargo José Claúdio C Rocha Maria Aparecida Nagai Maria Isabel W Achatz Samuel Aguiar Jr Conselho Fiscal Titulares André Lopes Carvalho Gustavo Cardoso Guimarães Stênio de Cássio Zequi Suplentes Fábio José Hadad Mariana Morais C Tiossi Milena J S F L Santos colorretal. Aproximadamente 5% dos casos são atribuídos a mutações germinativas. As principais síndromes de câncer colorretal são o câncer colorretal hereditário sem polipose (HNPCC), e a polipose adenomatosafamiliar (FAP). Estas síndromes foram o foco de intensas investigações moleculares e clínicas para formular modelos de tumorigênese e aperfeiçoar o diagnóstico, tratamento, e aconselhamento genético de famílias afetadas. A síndrome de Li-Fraumeni (LFS) é uma síndrome de câncer que freqüentemente não é considerada quando se avalia pacientes jovens com câncer colorretal. A LFS foi descrita originalmente como uma síndrome de câncer familiar com padrão autossômico-dominante com a ocorrência de sarcomas em idade jovem, carcinomas da mama e córtex adrenal, tumores cerebrais, e leucemias. O defeito genético subjacente na maioria de famílias de LFS é uma mutação germinativa no gene supressor de tumor p53. Estudos subseqüentes sugeriram que os portadores de mutação no p53 podem ter uma suscetibilidade aumentada a uma gama muito mais ampla de tumores: carcinomas do cólon, pulmão, estômago, pâncreas, ovário, e linfomas. A análise de 45 famílias de LFS e outros 140 casos por Nichols et al mostrou que os portadores de mutação em p53 tiveram diagnóstico precoce de câncer colorretal (idade mediana de 33 anos; inferior a idade da população geral – mediana de 72 anos). Isto sugere que o câncer colorretal também pode ser associado com a LFS. O propósito deste estudo é determinar a prevalência câncer colorretal em idade jovem (diagnosticado antes dos 50 anos), em 64 famílias (397 pacientes) de um registro de LFS do National Cancer Institute e do Dana-Farber Cancer Institute. Prevalência de Câncer Colorretal em Idade Jovem em Famílias com Síndrome de Li-Fraumeni foram analisadas em dois pacientes, quatro familiares Métodos Foram selecionados pacientes de um de LFS do National Cancer Institute/ Dana-Farber Cancer Institute compilado durante várias décadas (1960– 2000). Este registro consistiu em 397 pacientes com câncer de 64 famílias que preenchiam os critérios de primeiro grau e três familiares de segundo grau. Como dois pacientes pertenciam a mesma família, as oito famílias estudadas corresponderam a 12,5% de famílias do registro (8 de 64). As mutações em sete dos nove pacientes foram encontradas no domínio de ligação ao DNA, clássicos para LFS.. O critério clássico para LFS descrito pelo Li e Fraumeni incluem: um probando diagnosticado com sarcoma antes dos 45 anos; mais um familiar de primeiro grau com câncer antes dos 45 anos; e um familiar de segundo-grau com qualquer câncer antes dos 45 anos, ou sarcoma diagnosticado em qualquer entre os aminoácidos 102 e 292, região na qual é encontrada a maioria das mutações. Dois pacientes apresentaram mutação fora dessa região, no Exon 10. Foram detectadas cinco mutações missense (55,6%), três nonsense (33,3%) e uma deleção (11,1%). Esta investigação sugere a hipótese que os pacientes de LFS podem ter uma suscetibilidade idade. Deste banco de dados foram selecionados os pacientes com câncer colorretal cujos diagnósticos foram realizados antes dos 50 anos. Foi realizado sequenciamento do gene p53 do paciente com câncer familiar, ou de familiares de primeiro ou segundo aumentada a câncer colorretal e podem apresentar este tumor mais precoce do que a população geral. Das 64 famílias de LFS clássicas analisadas, 10 (15.6%) tiveram um familiar com câncer colorretal. Estes resultados são consistentes com relatos prévios, nos quais a idade mediana de diagnóstico graus. em uma população de pacientes de LFS variou entre 33 a 45 anos. Resultados Dos 397 pacientes em 64 famílias com LFS clássico, 16 pacientes (4%) de 15 famílias diferentes (23.4%) tiveram câncer colorretal. Cinco pacientes que desenvolveram tumores depois de 50 anos foram excluídos de análises adicionais porque estes tumores podem representar tumores esporádicos. Destes 5 pacientes, apenas um era de uma família com uma mutação em p53 identificada Relatórios patológicos de oito pacientes estavam disponíveis, e a maioria dos tumores eram moderadamente ou bem diferenciados (75%) e 50% apresentavam metástase ao diagnóstico. O cólon distal foi a localização mais comum (6 pacientes). Todos os tumores eram adenocarcinomas invasivos. A análise de mutação em p53 foi realizada em nove dos 11 pacientes, dada a possibilidade de obtenção de amostras de sangue. Todos eles confirmaram mutação em p53 nas suas famílias, o que corresponde a 81,8% (9 de 11) da sub-população analisada. As mutações A taxa de câncer colorretal diagnosticado em idade precoce foi maior entre os pacientes com LFS do que da população geral: três pacientes (27,3% de 11 pacientes) tiveram câncer colorretal diagnosticado antes dos 20 anos, um paciente (9.1%) entre idades 20 e 34, cinco pacientes (45.5%) entre idades 35 e 44, e dois (18.2%) entre idades 45 e 50. Em contraste, a taxa de incidência de câncer colorretal diagnosticados antes dos 20 anos na população geral fornecida pela Surveillance, Epidemiology and End Results (SEER) foi 2%; 2,2% dos casos foram diagnosticados entre as idades de 20 e 34 anos; 7,6% entre 35 e 44 anos; 22,1% entre as idades de 45 e 54 anos. É importante para considerar as limitações deste estudo. O sequenciamento nem sempre foi realizado no indivíduo com câncer colorretal. Além disso, os dados das famílias seguidas, e a incidência de novos casos de câncer colorretais não foi obtida. Porém, apesar destas limitações, os dados sugerem que os GBETH Newsletter 2006; volume 04 número 17 Prevalência de Câncer Colorretal em Idade Jovem em Famílias com Síndrome de Li-Fraumeni pacientes de LFS com mutações de p53 têm uma do aconselhamento genético e deve ser instituída suscetibilidade aumentada não só para os tumores medidas de seguimento. classicamente associados a LFS (sarcoma, tumores de mama, cérebro, adrenocortical, e leucemia), mas também para o câncer colorretal. Este estudo tem implicações para o seguimento de famílias com LFS. Uma vez que foram identificados câncer colorretal em 15,6% das famílias, está indicada Os resultados deste estudo têm implicações para o seguimento com colonoscopia periódica. E como as intervenções diagnósticas e terapêuticas. Embora em quatro dos 11 participantes desenvolveram as síndromes HNPCC e FAP sejam mais comuns câncer colorretal nas idades de 9, 11, 15, e 21 anos, e mais estudadas do que a LFS; a LFS deveria ser o seguimento pode ser iniciado em idade precoce. considerada como uma possível etiologia nos tumores Em razão do pequeno número de casos e dos dados colorretais em idade jovem. Uma história familiar de limitados, recomendações para a freqüência de sarcomas ou câncer de mama deveriam conduzir seguimento são empíricas. Sugere-se colonoscopia a consideração de LFS. O teste molecular para p53 a cada 3–5 anos, pois ainda não há evidência para deveria ser considerado para indivíduos com câncer carcinogênese acelerada como a observada em de cólon em idade jovem (idade inferior a 50 anos) pacientes com HNPCC. se forem observados tumores associados a LFS na família, ou casos de câncer colorretal em idade muito precoce (abaixo dos 25 anos), com exclusão da FAP. Assim como nos outros casos de câncer de colorretal hereditário, se o diagnóstico de LFS for estabelecido, os familiares de devem ser notificados através No estudo de Achatz et al, realizado com 13 famílias com mutações no p53, cinco famílias apresentavam casos de câncer colorretal. A tabela a seguir apresenta a descrição dos tumores das famílias com câncer colorretal. Tabela 1 – Descrição do espectro tumoral das famílias com mutação no p53 e câncer colorretal Família Tumores do probando Tumores nos familiares Y58 Ampola de Vater Cérebro, mama, prostata, esôfago, cérebro e colorretal (22 anos) Y65 Câncer coloretal (45 anos) Adrenocortical, mama, cabeça e pescoço e colorretal (24 anos) Y1 Y57 Mola hidatiforme, ampola de Vater Mama e colorretal Adrenocortical, cérebro, mama, câncer colorretal (38 anos e 39 anos), fígado, pulmão, e estômago Cérebro, mama, trato genital feminino, sarcoma, cabeça e pescoço Y53 Mama Cérebro, mama, câncer colorretal (18 anos), esôfago, leucemia, estômago, cabeça e pescoço Ref.: Achatz MIW, Olivier M, Le Calvez F, Martel-Planche G, Lopes A, Rossi BM et al. The TP53 mutation, R337H, is associated with Li_Fraumeni and Li-fraumeni-like syndromes in Brazilian families. Cancer Lett 2006; [Epub ahead of print] GBETH Newsletter 2006; volume 04 número 17