Caracterização genética de rinovírus humano em amostras de

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Aripuanã Sakurada Aranha Watanabe
Caracterização genética de rinovírus
humano em amostras de populações
distintas do Estado de São Paulo
Tese apresentada à Universidade Federal
de São Paulo - Escola Paulista de
Medicina, para obtenção do título de
Doutor em Ciências.
São Paulo
2011
Aripuanã Sakurada Aranha Watanabe
Caracterização genética de rinovírus
humano em amostras de populações
distintas do Estado de São Paulo
Orientadora: Profa. Dra. Nancy Cristina Junqueira Bellei
Co-orientador: Prof. Dr. Emerson Carraro
São Paulo
2011
Watanabe, Aripuanã Sakurada Aranha
Caracterização genética de rinovírus humano em amostras de
populações distintas do Estado de São Paulo. Aripuanã Sakurada Aranha
Watanabe -- São Paulo/SP – Brasil, 2011.
ixx, 132f.
Tese (Doutorado) – Universidade Federal de São Paulo. Escola Paulista de
Medicina. Programa de Pós-graduação Ciências Básicas em Infectologia.
Título em inglês: Human rhinovirus genotyping in samples of distinct
populations of São Paulo State, SP, Brazil.
1. Human rhinovirus species, 2. Genotyping, 3. Risk groups.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO
ESCOLA PAULISTA DE MEDICINA
DEPARTAMENTO DE MEDICINA
DISCIPLINA DE INFECTOLOGIA
Chefe do Departamento: Dr. Reinaldo Salomão
Chefe da Disciplina: Dr. Eduardo Alexandrino Servolo de Medeiros
Coordenador do Curso de Pós-Graduação: Dr. Ricardo Sobhie Diaz
Aripuanã Sakurada Aranha Watanabe
Caracterização genética de rinovírus
humano em amostras de populações
distintas do Estado de São Paulo
Presidente da Banca: Profa. Dra. Nancy Cristina Junqueira Bellei
BANCA EXAMINADORA
Titulares:
Prof. Dr. Eurico de arruda Neto – Universidade de São Paulo – USP –Ribeirão Preto
Prof. Dr. João Manuel Grisi Candeias – Universidade Estadual Paulista – UNESP - Botucatu
Prof. Dr. Luciano Matsumiya Thomazelli - Universidade de São Paulo – USP
Prof. Dr. Otelo Rigato - Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
Suplente:
Profa. Dra. Shirley Komninakis - Universidade Federal de São Paulo- UNIFESP
Prof. Dr. José Luis Proença-Módena - Universidade de São Paulo – USP –Ribeirão Preto
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho aos meus pais Oswaldo e
Misão por toda a paciência, compreensão, e
apoio nesta jornada. Sem vocês nada disso seria
possível. Ao meu irmão Arapoty, sua esposa
Elethéia e minha sobrinha Esther, mesmo a
distância o apoio de vocês meu deu forças.
AGRADECIMENTOS ESPECIAIS
Agradeço a minha orientadora Dr. Nancy Bellei
pela oportunidade, pela paciência em ensinar
sempre, e por todo apoio dado em todos os
momentos. Por toda confiança em mim depositada,
dedicação e ensinamentos valiosos. Por me ensinar
a trilhar os caminhos nessa profissão com ética e
amor ao trabalho. E finalmente por ser um exemplo
de entusiasmo com a pesquisa, para mim e todos os
orientados. Eu não tenho palavras para agradecer
tudo o que a Sra. fez por mim.
Ao Prof. Celso Granato pela oportunidade, ajuda,
paciência em ensinar e bom senso em todos os
momentos. E também pelas conversas científicas nas
manhãs de todos os dias.
Ao Amigo e co-orientador Emerson Carraro por
toda a ajuda antes, durante e depois da realização
deste trabalho. Por toda disponibilidade, prontidão
em ajudar e opiniões importantes.
AGRADECIMENTOS
Aos colegas e amigos do Laboratório de Virologia Clínica. O convívio com vocês foi extremamente
enriquecedor. O clima descontraído que foi criado no laboratório foi muito importante para o
andamento do trabalho.
À amiga Sandra Guatura, por todos os ensinamentos, ajuda, conversas, conselhos e principalmente
pela amizade incondicional, apesar de todas as diversidades. Muito Obrigado Sandrinha.
À amiga Cristina (Amarula) pela amizade, pelas conversas no almoço, pelas opiniões sensatas, e por
todo ajuda.
Às amigas, em especial a Luciana, Juliana, Thaís, Ellen, Elaine Lima, Elaine Caccia, Andréia, Sheila
e Miriam. Espero levar a amizade de vocês por muito tempo.
Ao amigo Inarei, pelas conversas divertidas e pelas happy hours.
As “meninas do Dr. Celso”, pelas conversas sobre vida profissional.
Ao pessoal mais “antigo”, Vivi, Aline, Natália, Shinai, por toda a ajuda no meu começo no
laboratório. Sem vocês o começo seria muito mais duro.
Ao pessoal da Imunologia, Madá, Milena, Sidnéia, Giovana, Selma, Amanda, Antonia, enfim, todo o
lado “A”. Pela amizade, pela prontidão em ajudar, pelos conselhos e pelo ambiente criado por vocês
nesses anos todos de convívio.
Ao Dr. Reinaldo Salomão. Por toda a ajuda prestada.
Ao amigo Charlys por toda a ajuda prestada. Por me receber tão bem logo que cheguei ao
laboratório. Pelos reagentes, tubos, e enzimas emprestadas no início do meu trabalho. E
principalmente pela amizade em todos esses anos.
Aos pacientes, pois sem eles não haveria esse trabalho.
À Maria da limpeza, por manter nosso laboratório sempre limpo e pelas conversas nas manhãs de
sexta.
Aos meus antigos professores da graduação e meu ex-orientador por me ensinar tudo o que era
preciso para seguir nessa carreira.
Ao Prof. João Pessoa, por todas as broncas dadas, que muito me ensiram no mestrado. Eu não tinha
idéia de quanto isso era importante antes de sair de Botucatu. E principalmente pela amizade apesar
da distância.
Às recém chegadas Ana Maria, pela ajuda estatística e discussões científicas e Ana perosa.
À todos que direta ou indiretamente auxiliaram para que esse trabalho fosse realizado.
Ao CNPq pelo apoio financeiro sem o qual eu não poderia ter me dedicado a este trabalho.
À FAPESP pelo auxílio financeiro para a realização deste trabalho, e por apoiar a disseminação e a
realização da ciência no Estado e São Paulo.
RESUMO
Infecções causadas pelos rinovírus humanos (HRV) são responsáveis por 25-50% das doenças
respiratórias entre indivíduos que apresentam doença semelhante à gripe (Influenza-Like
Illness - ILI). Os HRVs podem ser classificados em pelo menos três espécies: HRV A, HRV
B e HRV C. O HRV C tem sido frequentemente descrito entre crianças aparentemente
levando a doenças mais graves e hospitalizações, no entanto a ocorrência dessa espécie entre
adultos não é bem conhecida. O objetivo deste estudo foi avaliar a apresentação clínica e a
distribuição das espécies de HRV que causam infecções em diferentes populações durante os
anos de 2001 a 2005. Um total de 682 amostras foi coletado. As populações estudadas eram
compostos por: 132 adultos da comunidade atendidos em pronto socorro e 198 adultos
profissionais de saúde (2001-2003); 242 pacientes transplantados renais (2002-2004); 61
crianças portadoras de cardiopatia congênita (2005) e 49 idosos da cidade de Botucatu, São
Paulo, Brasil (2003-2004). A amplificação dos genes do HRV foi realizada através da Reação
em Cadeia da Polimerase precedida de Transcrição Reversa (RT-PCR), seguida de
sequenciamenteo genético e análise filogenética. O HRV foi detectado em 24.05% das
amostras (164/682), 15.2% (20/132) em adultos da comunidade, 29.8% (59/198) em
profissionais da área da saúde, 23.6% (57/242) em transplantados renais, 22.9% (14/61) em
crianças portadoras de cardiopatia congênita e 28.6% (14/49) em idosos. Um total de 85.5%
(137/164) das amostras positivas foi seqüenciado, e 79.9% (131/164) foram analisadas através
de filogenia. Foram identificadas 80 (61%) das amostras pertencentes à espécie A, 22 (16.8%)
a espécie B e 29 (22.2%) pertencentes à espécie C. Foi encontrada uma alta taxa de ILI
(38.9%) em pacientes infectados pelo HRV. A regressão logística mostrou um aumento de ILI
de três vezes quando os indivíduos estavam infectados com HRV A em comparação ao HRV
C. A infecção pelo HRV causa ILI em paciente adultos não hospitalizados. O HRV A foi
associado à infecção mais intensa do que o resfriado comum. A dinâmica da infecção entre as
diferentes espécies de HRV merece análise no futuro.
ABSTRACT
Infections caused by Human Rhinoviruses (HRVs) account for 25%-50% of respiratory
illnesses among individuals presenting influenza-like illness (ILI). HRVs could be classified
in at least three species: HRV-A, HRV-B, and HRV-C. The HRV-C species has frequently
been described among children and apparently has led to severe illness resulting in
hospitalization; however, the occurrence among adults is unknown. The aim of this study was
to assess the clinical presentation and species distribution of HRV infections in different
populations during 2001-2005. A total of 682 samples were collected. Subjects consisted of
132 adults from the general community and 198 health-care workers (2001-2003), 242 renaltransplanted outpatients (2002-2004), 61 children with congenital heart disease (2005) and 49
elderly persons from Botucatu city, Sao Paulo, Brazil (2003-2004). Amplification of HRV
genes was performed by Reverse Transcriptase – Polymerase Chain Reaction (RT-PCR) and
followed by sequencing and phylogenetic analysis. HRV was detected in 24.05% of samples
(164/682), 15.2% (20/132) among adults from general community, 29.8% (59/198) among
health-care workers, 23.6% (57/242) among renal-transplanted outpatients, 22.9% (14/61)
among children with congenital heart disease and 28.6% (14/49) among elderlies. A total of
85.5% (137/164) previously positive HRV samples were sequenced and 79.9% (131/164)
were analyzed. We identified 80 isolates (61.0%) of the HRV A species, 22 (16.8%) of the
HRV B species and 29 isolates (22.2%) of the HRV C species. High ILI rate (38.9%) was
found among HRV infected patients. Logistic regression showed a three-fold increase in
prevalence of ILI in individuals with HRV A infection compared with HRV C infected
patients. HRV infections caused ILI among non-hospitalized patients. HRV specie A was
associated with a disease more intense than a common cold. The dynamics of infection among
different species deserve further analysis.
Lista de Abreviaturas
HRV = Human Rhinovirus – Rínovírus Humano
ILI = Influenza-Like-Illness – doença semelhante à gripe
+ssRNA = RNA de fita simples polaridade positiva
ORF = Open Reading Frame – Região Aberta de Leitura
VPg = Pequeno peptídeo ligado à região não codificadora 5’ do genoma do rinovírus humano
NCR = Noncoding Region - região não codificadora
ICAM 1 = Molécula de adesão intracelular 1
LDLR = Receptores das lipoproteínas de baixa densidade
ICTV = International Committee on Taxonomy of Viruses – Comitê Internacional de
Taxonomial Viral
ITRI = Infecção do trato respiratório inferior
DPOC = Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica
WI-38 = Fibroblasto de Pulmão Fetal Humano
MRC-5 = Fibroblasto de Pulmão Fetal Humano
ML = Maximum Likelihood – Máxima Verossimilhança
GTR = General Time Reversible - Tempo geral Reversível
BLAST - Basic Local Alignment Search Tool – Ferramenta de procura de alinhamento básico
local
RT-PCR = Reação em cadeia da polimerase precedida por transcrição reversa
DICT50 = Dose infectante em cultura de tecidos 50%
NASF = Núcleo de Assistência à Saúde do Funcionário
OR = Odds Ratio – Razão de chance
IC 95% = Intervalo de Confiança 95%
VP4/VP2 = Proteínas de capsídeo dos rinovírus humanos
PS = Pronto Socorro
CDC = Center for Disease Control and Prevention – Centro de Controle de Doenças
VSR = Vírus Respiratório Sincicial
Lista de Ilustrações
Figura 01
Esquema representativo do genoma do HRV (Adaptado do site:
http://www.expasy.org/viralzone/all_by_species/33.html).
Figura 02
22
Teste das diluições do controle positivo. NO = controle negativo. PM = peso
48
molecular.
Figura 03
Ocorrência de infecção pelo HRV em relação às diferentes populações
estudadas. Os números acima de cada coluna indicam as freqüências
encontradas. Adultos: adultos atendidos em pronto-socorro somados aos
adultos profissionais de saúde atendidos no Núcleo de Assistência à Saúde do
Funcionário; transplantados renais: adultos transplantados renais; crianças:
crianças cardiopatas; idosos: idosos da cidade de Botucatu,
50
São Paulo, SP.
Figura 04
Ocorrência de infecção pelo HRV em relação às amostras coletadas durante os
anos estudados. Os números acima de cada coluna indicam as freqüências
50
encontradas.
Figura 05
Distribuição dos casos positivos, negativos e total em relação às diferentes
52
faixas etárias nas populações estudadas.
Figura 06
Análise
da
árvore
filogenética
(Maximum
Likelihood
-
máxima
verossimilhança) das regiões VP4/VP2 do genoma do HRV. Foi utilizado um
valor de Bootstrap de 500 vezes. A árvore foi circularizada para melhor
vizualização de todas as informações. O picornavírus Echo 11 (número de
acesso do GenBank: EF634316.1) foi utilizado como outgroup. Foram obtidas
52 seqüências referência no GenBank. Ao lado das seqüências referência
(Rhino A, Rhino B e Rhino C) se encontram os números de acesso do
GenBank.
56
Figura 07
Número de amostras não analisadas no decorrer do estudo.
57
Figura 08
Distribuição mensal das espécies de HRV durante os anos estudados.
57
Figura 09
Freqüência das espécies de HRV em diferentes faixas etárias.
Figura 10
Freqüência das espécies de HRV em diferentes faixas etárias de pacientes com
idade superior a 50 anos.
Figura 11
59
59
Os realces em azul mostram os quatro clusters que acumularam mais casos
de ILI.
65
Lista de tabelas
Tabela 01
Distribuição dos sorotipos de HRV nas diferentes espécies. M e H indicam a
classificação baseada no tropismo celular (M – Monkey e H - Human). Minor
group indicado por sublinhado, Major group indicado por negrito. A e B
indicam classificação baseada em sensibilidade a antivirais (Adaptado de
Arden et al., 2010).
24
Tabela 02
Positividade por população.
49
Tabela 03
Distribuição do gênero sexo entre os pacientes estudados.
51
Tabela 04
Idade dos pacientes estudados.
52
Tabela 05
Tempo de início dos sintomas até a coleta da amostra nos pacientes
estudados.
53
Tabela 06
Sintomas apresentados pelos pacientes estudados.
53
Tabela 07
Frequencia de ILI nas populações estudadas.
54
Tabela 08
Frequencia de ILI em pacientes infectados por HRV.
54
Tabela 09
Sintomas apresentados pelos pacientes estudados.
55
Tabela 10
Distribuição das espécies de HRV nos diferentes grupos de risco.
58
Tabela 11
Gênero dos pacientes estudados em relação às espécies
de rinovírus humano.
Tabela 12
Tempo de início de sintomas em relação às espécies
58
de rinovírus humano.
60
Tabela 13
Sintomas apresentados pelos pacientes de acordo com espécie de HRV. 61
Tabela 14
Regressão logística de ILI em relação a presença das espécies de HRV nos
Tabela 15
pacientes estudados.
62
Ocorrência das espécies em pacientes imunocompetentes e
imunocomprometidos.
63
Tabela 16
Regressão logística de ILI em relação ao gênero dos paciente estudados. 64
Tabela 17
Sorotipos obtidos através de análise pelo programa BLAST.
66
Sumário
1.
INTRODUÇÃO................................................................................................20
1.1
Fisiologia viral..................................................................................................21
1.2
Sazonalidade.....................................................................................................25
1.3
Ocorrência nas populações...............................................................................25
1.4
Grupos de risco.................................................................................................26
1.5
Quadro clínico ..................................................................................................28
1.5
Co-detecção com outros vírus respiratórios ..................................................... 29
1.7
HRV em assintomáticos ...................................................................................30
1.8
Persistência da infecção pelo HRV .................................................................. 30
1.9
Epidemiologia molecular ................................................................................. 31
1.10
Diagnóstico.......................................................................................................33
1.11
Terapia antirinoviral e vacina........................................................................... 36
1.12
Justificativa.......................................................................................................37
2.
OBJETIVOS.....................................................................................................39
3.
CASUÍSTICA E MÉTODOS...........................................................................41
3.1
Populações........................................................................................................41
3.2
Coleta de dados ................................................................................................42
3.3
Coleta e processamento das amostras .............................................................. 43
3.4
Extração de rna................................................................................................. 43
3.5
Detecção através de reação em cadeia da polimerase precedida de transcrição reversa
(RT-PCR)............................................................................................................43
3.6
Sequenciamento genético ................................................................................. 44
3.7
Alinhamento das sequências e análise filogenética..........................................45
3.8
Correlação com sintomas ................................................................................. 46
3.9
Análise estatística ............................................................................................. 46
4.
4.1
RESULTADOS ................................................................................................48
Limite de detecção da reação em cadeia da polimerase precedida de transcrição
reversa (RT-PCR)............................................................................................48
4.2
Detecção geral ..................................................................................................48
4.3
Detecção do HRV e gênero dos pacientes estudados....................................... 51
4.4
Detecção do HRV e idade dos pacientes estudados ......................................... 51
4.5
Detecção do HRV e tempo de início de sintomas até o momento da coleta.... 52
4.6
Detecção do HRV e sintomas........................................................................... 53
4.7
Análise filogenética.......................................................................................... 55
4.8
Número de amostras não analisadas no decorrer do estudo ............................................ 56
4.9
Sazonalidade das espécies de HRV..................................................................57
4.10
Espécies de HRV e populações ........................................................................57
4.11
Espécies de HRV e gênero ...............................................................................58
4.12
Espécies de HRV e idade .................................................................................59
4.13
Espécies de HRV e tempo de início de sintomas até o momento da coleta ..... 60
4.14
Espécies de HRV e sintomas............................................................................60
4.15
Ocorrência das espécies de HRV e ILI – pacientes adultos atendidos em prontosocorro, pacientes adultos profissionais de saúde e pacientes
adultos transplantados renais............................................................................62
4.16
Espécies de HRV e estado imune.....................................................................62
4.17
Frequência de ILI em pacientes infectados pelo HRV.....................................63
4.18
Regressão logística múltipla não-condicional.................................................. 63
4.18.1
Ocorrência de HRV e ILI – população geral....................................................63
4.18.2
Ocorrência de genêros e ILI – gênero ..............................................................64
4.18.3
Ocorrência de HRV e ILI – pacientes adultos atendidos em pronto-socorro... 64
4.18.4
Ocorrência de HRV e ILI – pacientes adultos profissionais de saúde ............. 64
4.18.5
Ocorrência de HRV e ILI – pacientes adultos transplantados renais ...............65
4.19
Resultados adicionais .......................................................................................65
5.
DISCUSSÃO....................................................................................................66
6.
CONCLUSÕES................................................................................................84
7.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................86
8.
ANEXOS..........................................................................................................108
8.1
Anexo 1 (Termo de consentimento livre e esclarecido adultos) ...................... 109
8.2
Anexo 2 (Termo de consentimento livre e esclarecido crianças)..................... 110
8.3
Anexo 3 (Questionário – profissionais de saúde).............................................111
8.4
Anexo 4 (Questionário – pronto socorro)......................................................... 112
8.5
Anexo 5 (Questionário – transplantados renais) .............................................. 113
8.6
Anexo 6 (Questionário – crianças cardiopatas)................................................114
8.7
Anexo 7 (Sorotipos HRV BLAST) ..................................................................115
8.8
Anexo 8 (Autorização de utilização das amostras de idosos) .......................... 119
8.9
Anexo 9 (Aprovação Comitê de Ética) ............................................................ 120
8.9
Anexo 10 (Artigo publicado Watanabe et al., 2010)........................................122
8.10
Anexo 11 (Artigo publicado Watanabe et al., 2011)........................................128
8.11
Anexo 12Artigo publicado Moreira et al., 2010) ............................................. 131
Introdução
1. INTRODUÇÃO
Os rinovírus humanos são os principais causadores do chamado resfriado comum
sendo o mais freqüente agente causador de infecções do trato respiratório superior.
Recentemente, esses vírus têm sido relacionados com o desencadeamento de quadros clínicos
respiratórios mais graves, inclusive pneumonias, exacerbação da asma e da doença pulmonar
crônica obstrutiva (Mäkelä et al., 1998). Estima-se que o rinovírus seja responsável por 2550% das infecções respiratórias entre indivíduos que apresentam Influenza-Like-Illness (ILI)
(Nicholson et al., 1997), um quadro clínico semelhante a gripe.
1.1 FISIOLOGIA VIRAL
Os rinovírus humanos (HRVs), recentemente, foram re-classificados, passando a
pertencer ao gênero Enterovirus da grande família Picornaviridae (Stanway et al., 2005). Os
HRVs são vírus pequenos com um diâmetro de 25 – 30nm que possuem capsídeo icosaédrico
não envelopado consistindo de 60 cópias de cada uma das quatro proteínas de capsídeo (VP1
– VP4). O genoma viral é composto por RNA de fita simples não segmentado e de polaridade
positiva (+ssRNA) com aproximadamente 7.2kb de tamanho e uma única região aberta de
leitura (Open Reading Frame – ORF). Típico dos picornavírus (Figura 1), o genoma começa
com um pequeno peptídeo (VPg), ligado covalentemente a região não traduzida (UTR) na
extremidade 5´, que é seguida pela região codificadora de proteínas do capsídeo (P1). Na
seqüência vêm as regiões P2 e P3 que codificam proteínas não estruturais, que incluem duas
proteases virais (2A e 3C) e a RNA polimerase RNA dependente (3D). Essas regiões são
seguidas por uma pequena região não traduzida (UTR) na extremidade 3´ e pela cauda poli-A
(Turner & Cough 2007). A replicação do HRV ocorre no citoplasma da célula hospedeira.
Após a entrada na célula, o genoma é primeiramente traduzido e então copiado em forma de
uma fita de polaridade negativa, que é uma molécula de RNA com uma seqüência de
nucleotídeos complementar a fita molde positiva. Essa nova fita é usada então como molde
21
para um grande número de cópias do genoma viral, que em parte serão usados como RNAs
mensageiros para síntese de novas proteínas virais, e em parte serão incorporadas às novas
partículas virais (Savolainen 2003).
Figura
1.
Esquema
representativo
do
genoma
do
HRV
(Adaptado
do
site:
http://www.expasy.org/viralzone/all_by_species/33.html).
Os HRVs são classificados conforme suas características antigênicas, denominados
sorotipos. Desde sua identificação em 1956 (Pelon et al., 1957), mais de 100 sorotipos já
foram descritos, limitando o desenvolvimento de uma vacina, uma vez que a infecção prévia
não confere imunidade cruzada aos demais sorotipos. Um novo sorotipo é determinado pela
ausência de reconhecimento em uma reação de neutralização com anticorpos contra sorotipos
conhecidos (Savolainen 2003). Alguns autores tentam classificar os rinovírus através de
outras características, como o receptor utilizado para a entrada na célula, ou a sensibilidade a
compostos antivirais. No entanto, a classificação não é completa por essas outras estratégias.
Baseando-se no tipo de receptor utilizado os HRVs podem ser divididos em 3 grupos: o grupo
denominado major compreende cerca de 90% dos sorotipos descritos e todos os sorotipos
22
desse grupo se ligam à molécula de adesão intracelular 1 (ICAM–1), um receptor de
superfície celular da superfamília das imunoglobulinas; os rinovírus do grupo denominado
minor (que compreende os 10% restantes dos sorotipos) ligam-se aos receptores das
lipoproteínas de baixa densidade [LDLR; (Casasnovas et al., 2000)]. Existe também o
sorotipo HRV 87, que não faz parte desta classificação, pois utiliza uma sialoproteína como
receptor (Savolainen 2003).
Outra classificação mais recente, através de análises moleculares, descreve 3 espécies
distintas: HRV A, HRV B e HRV C (Palmenberg et al., 2009). Existem atualmente 75
sorotipos compreendidos na espécie A e 25 na espécie B (Figura 2). No final do ano de 2006,
Lamson et al. descreveram uma nova espécie de rinovírus que aparentemente não havia sido
classificado até o momento e que era identificado em pacientes com ILI. Essa nova espécie
inicialmente recebeu diferentes denominações como: HRVA 2, HRVNY, HRVQPM e HRVX
(Xiang et al, 2008; Miller et al.,2009a). A análise das seqüências do genoma completo
comprovou que estes HRVs identificados pertenciam a uma nova espécie, denominada
posteriormente de HRV-C, com características distintas do genoma de HRV A e HRV B (Lau
et al., 2007; Mc Erlean, et al., 2008), e que não apresentavam crescimento em cultura celular
(Rollinger & Schmidtke 2009). Posteriormente, HRVs geneticamente semelhantes ao HRV-C
também foram identificados em mais amostras clínicas em todo o mundo, especialmente
naquelas obtidas de crianças com doença respiratória (Savolainen-Kopra et al., 2009).
Atualmente a espécie HRV C recebeu aprovação inicial do Comitê Executivo e aguarda
ratificação pelo International Committee on Taxonomy of Viruses (ICTV) (ICTV HRV C
Proposal 2004).
Em estudo que realizou o sequenciamento completo de 99 sorotipos de HRV,
Palmenberg et al. (2009) descrevem também uma possível nova espécie: o HRV D. Porém
23
novos estudos devem ser realizados para confirmação dessa nova espécie e também para
verificar seu verdadeiro papel como agente de infecções respiratórias.
Figura 2. Distribuição dos sorotipos de HRV nas diferentes espécies. M e H indicam a
classificação baseada no tropismo celular (M – Monkey e H - Human). Minor group indicado
por sublinhado, Major group indicado por negrito. A e B indicam classificação baseada em
sensibilidade a antivirais (Adaptado de Arden et al., 2010).
Os HRVs são transmitidos através de contato direto ou indireto com secreções
respiratórias contaminadas e inoculação das mucosas. O período de incubação é de 8 a 12
horas e o sítio primário de replicação é a nasofaringe, pois a temperatura ideal de replicação
dos HRVs é de 33 a 35°C (Gwaltney et al., 1995). Os sintomas aparecem logo após o
primeiro ciclo de replicação viral e estão presentes em 70 a 90% das infecções por HRV,
sendo que a síndrome clínica típica é o resfriado. A infecção da mucosa nasal resulta em
vasodilatação e aumento da permeabilidade vascular, responsáveis pela coriza e obstrução,
que são os sintomas mais freqüentes. Outros sintomas respiratórios como tosse e dor de
24
garganta também são freqüentes e podem estar presentes em associação com sintomas gerais
como febre, cefaléia e mialgia (Gwaltney et al., 2002; Savolainen et al., 2003). As grandes
variações na expressão clínica podem estar mais relacionadas aos mediadores inflamatórios,
liberados como conseqüência da infecção, do que ao efeito citopático do vírus (Hendley et al.,
1998; Turner et al., 1998).
1.2 SAZONALIDADE
Em regiões de clima temperado, o padrão sazonal das infecções por HRV é bem
conhecido, apresentando circulação em praticamente todos os meses do ano e picos de
circulação no outono e primavera (Gwaltney et al., 1995). No hemisfério norte, essa variação
sazonal está relacionada às atividades escolares, que resultam na aglomeração de crianças
durante os meses de outono, facilitando a sua transmissão. Além das crianças em idade
escolar, altas taxas de infecção por HRVs são observadas em casas de repouso para idosos,
creches e hospitais, por serem locais de grande concentração de pessoas suscetíveis (Jennings
et al., 2008; Pierangeli et al., 2009; Miller et al., 2011, Watanabe et al., 2011, Arruda et al.,
1991).
Trabalhos realizados no Brasil descrevem um padrão sazonal de HRV, circulando
praticamente o ano todo com um aumento de casos nos meses de inverno (Bellei et al., 2007;
Bellei et al., 2008, Watanabe et al., 2011).
1.3 OCORRÊNCIA NAS POPULAÇÕES
A maioria dos estudos sobre HRV foram realizados em crianças e sua importância
nessa população é bem conhecida (Jennings et al., 2008; Pierangeli et al., 2009; Miller et al.,
2011), enquanto que trabalhos envolvendo adultos são escassos (Arruda et al., 1997; Lau et
al., 2009; Gerna et al., 2009; Watanabe et al., 2010). O primeiro estudo brasileiro que
pesquisou HRV foi desenvolvido por Arruda et al. (1991), no qual o rinovírus foi descrito
infectando 45.6% das crianças sintomáticas em uma favela de Fortaleza - CE. Outro estudo
25
realizado em Salvador - BA também apresentou alta prevalência de HRV em crianças de
creches, sendo que em 48.3% das amostras positivas o HRV foi o único agente etiológico
identificado (Souza et al., 2003). Existem poucos estudos sobre HRV em pacientes adultos,
Arruda et al. (1997) realizaram um dos primeiros estudos com adultos nos Estados Unidos,
descrevendo uma taxa global de 82% de infecção pelo HRV, por meio de diferentes
metodologias.
Outro estudo brasileiro realizado por Bellei et al. (2007), descreve uma ocorrência de
HRV de 37.7% em pacientes adultos não hospitalizados. Em dissertação de mestrado
apresentada à Universidade Federal de São Paulo, Perosa (2004) analisou a ocorrência de
rinovírus durante três períodos consecutivos (2001 – 2003) e encontrou uma freqüência bem
distribuída ao longo dos anos, com uma maior concentração nos meses de inverno. No mesmo
estudo foi descrito que 49% das amostras positivas para HRV tinham manifestações clínicas
compatíveis com a infecção causada pelo vírus Influenza, descrita como Influenza-LikeIllness (ILI), indicando que o HRV causou infecção mais grave que o simples quadro de
resfriado em uma população de adultos de São Paulo.
A grande maioria dos estudos de epidemiologia e epidemiologia molecular realizados
utiliza pacientes hospitalizados tanto adultos como crianças (Gerna et al., 2009; Lau et al.,
2009; Fry et al., 2011; Piralla et al., 2009; Jin et al., 2009). A realização de estudos com
pacientes hospitalizados pode incorrer em um viés de seleção, uma vez que estes pacientes
normalmente já se encontram com sintomas mais graves ou mais intensos, além do fato de tal
observação não refletir necessariamente a circulação real dos vírus respiratórios na
comunidade.
1.4 GRUPOS DE RISCO
Os profissionais da área de saúde são uma população de risco para aquisição de
infecções respiratórias virais e também podem servir de fonte de infecção para pacientes de
26
alto risco (Bellei et al. 2007; Bellei et al., 2008; Watanabe et al., 2010; Salgado et al., 2002).
Em trabalho realizado com profissionais de saúde de um hospital terciário da cidade de São
Paulo, Bellei et al. (2007) descrevem uma taxa de infecção por HRV de 37.7% em amostras
negativas para o vírus influenza. A vigilância dos vírus respiratórios é de suma importância
nesta população, pois pode evitar surtos dentro de unidades de risco e também diminuir os
dias de trabalho perdidos.
Outra população de risco são os pacientes imunossuprimidos, entre eles transplantados
de órgãos sólidos (López-Medrano et al., 2007; Gerna et al., 2009). Em estudo realizado com
pacientes transplantados cardíacos, hepáticos e renais, Lopéz-Medrano et al. (2007)
descrevem uma taxa de infecção por picornavírus de 5%. Gerna et al. (2009) descrevem uma
taxa de infecção por HRV de 25.3% em pacientes imunocomprometidos (transplantados de
órgãos sólidos e transplantados de medula óssea).
Estudos que verificaram a ocorrência de HRV em pacientes cardiopatas são escassos.
Carrat et al. (2006) descrevem uma taxa de 7% de HRV em pacientes com cardiopatia
congênita e/ou falência cardíaca. Em estudo realizado com pacientes em ventilação mecânica
portadores de doenças cardiológicas uma alta taxa de HRV foi encontrada por Daubin et al.
(2006). Pacientes portadores de doenças de base, ou doenças crônicas possuem risco
aumentado de infecção por HRV e também de complicações causadas por essas infecções
(Miller et al., 2007).
Infecções por HRV são comuns em pacientes idosos, sendo responsáveis por 25-50%
das doenças respiratórias em idosos institucionalizados (casas de repouso, asilos,
hospitalizados) (Nicholson et al., 1997). Complicações resultantes da infecção por HRV
parecem ser mais freqüentes em idosos, particularmente em serviços de home care. Em dois
estudos conduzidos em casas de repouso para idosos, surtos foram descritos com taxas de
27
mortalidade variando de 6 a 21%. Em ambos os estudos, as mortes foram diretamente
atribuídas à infecção aguda causada por HRV (Louie et al., 2005; Hicks et al., 2006).
1.5 QUADRO CLÍNICO
Os HRVs sempre foram associados a Infecções Respiratórias Agudas (IRA) do trato
respiratório superior, mas com a utilização de técnicas moleculares de diagnóstico foi possível
demonstrar a associação de HRV e acometimento do trato respiratório inferior de idosos,
resultando em quadros clínicos mais graves e com necessidade de hospitalização (El-Sahly et
al., 2000; Falsey et al., 2002).
A participação dos HRVs em infecções do trato respiratório inferior (ITRI) sempre foi
sugerida, mas a comprovação de tal fato se deu com trabalho de Papadopoulos et al. (2000),
com estudos realizados in vitro e in vivo, comprovando que a replicação do HRV pode ocorrer
em células epiteliais do trato respiratório inferior, apesar da temperatura ideal de replicação
viral ser inferior à dos pulmões. Em seguida, foram descritos ITRI causadas por HRV em
pacientes imunodeprimidos. Em pacientes transplantados de células tronco-hematopoiéticas
foi demonstrada a associação de HRV com doença mais grave do trato respiratório inferior,
principalmente pneumonia (Ison et al., 2003). Em transplantados de medula óssea, o HRV foi
descrito como responsável por um terço das infecções respiratórias, inclusive sendo associado
à ocorrência de pneumonia (Greenberg et al., 2002).
O impacto do HRV na morbidade é, geralmente, ignorado porque o resfriado comum é
considerado auto-limitado e o seu diagnóstico é demorado e dispendioso. No entanto, além de
infectar o trato respiratório superior, os rinovírus são também associados a complicações
como otite média em crianças e sinusite em adultos (Pitkäranta et al., 1998; Pitkäranta et al.,
1997).
Em estudo realizado com pacientes asmáticos, Kistler et al. (2007) descrevem uma
freqüência de HRV de 37%, possivelmente demonstrando o papel desse vírus em quadros de
28
exacerbação de asma. Miller et al. (2007) descrevem um freqüência de aproximadamente
25% de HRV em pacientes hospitalizados, com histórico prévio de asma e/ou chiado. A
associação entre hospitalizações e ocorrência de HRV nesse estudo pode indicar um papel
importante desse vírus na exacerbação de quadro pré-existentes de doenças respiratórias
crônicas.
Alguns estudos relatam altas taxas de ocorrência de HRV relacionados a quadros de
pneumonia. Jennings et al., (2008) em estudo realizado na Nova Zelândia com pacientes
adultos que apresentavam quadro de pneumonia adquirida na comunidade, descrevem uma
ocorrência de 10% de HRV. Olsen et al., (2010) em um grande estudo que verificou a
etiologia de pneumonia em pacientes hospitalizados de diferentes faixas etárias, descrevem
uma ocorrência de 13.8% de infecções causadas por HRV. Nesse mesmo estudo os autores
descrevem que o HRV foi o vírus mais freqüentemente associado à pneumonia em todas as
faixas etárias, com exceção de crianças menores de cinco anos.
Corne et al. (2002) demonstraram que indivíduos asmáticos, quando infectados por
HRV, apresentam risco duas vezes maior de desenvolver doença do trato respiratório inferior
do que indivíduos não asmáticos. A exacerbação aguda da Doença Pulmonar Obstrutiva
Crônica (DPOC) é causa freqüente de hospitalização, tendo profundo impacto na qualidade de
vida do paciente. Em um estudo sobre a exacerbação desses casos, os pesquisadores
descobriram que 60% dos episódios são precedidos por resfriado, principalmente causados
pelo HRV (Seemungal et al., 2001).
1.6 CO-DETECÇÕES COM OUTROS VÍRUS RESPIRATÓRIOS
Existem muitos trabalhos que descrevem a ocorrência de HRV em conjunto com
outros vírus respiratórios (Aberle et al., 2005; Savolainen-Kopra et al., 2009; Renwick et al.,
2007; Kistler et al., 2007; Louie et al., 2009). Greer et al. (2009) em um estudo realizado com
1247 pacientes, incluindo 660 pacientes positivos para pelo menos um vírus respiratório,
29
descrevem que o HRV foi estatísticamente o vírus menos propenso a estar associado a codetecções. Os autores desse estudo sugerem novas discussões acerca do papel do HRV,
concluindo que estes vírus não são meros “passageiros” das infecções respiratórias.
Savolainen-Kopra et al. (2009) em um estudo realizado com pacientes que apresentavam otite
média aguda verificaram que a maioria das co-detecções ocorria entre diferente espécies de
HRV. O papel real do HRV como agente freqüente de co-detecções ainda não está bem
definido, necessitando de estudos que esclareçam essa questão.
1.7 HRV EM ASSINTOMÁTICOS
Muitos estudos demonstraram a presença de HRV em 12-20% dos indivíduos
assintomáticos (Peltola et al., 2008a; Jartti et al., 2004; Van Der Zalm et al., 2009). Segundo
Van Der Zalm et al. (2009), em estudo realizado com crianças, de 0 a 7 anos, a presença de
patógenos respiratórios ocorreu em 56% do episódios sintomáticos, em comparação com 40%
dos episódios assintomáticos, onde o HRV foi o vírus predominante, sendo encontrado em
23% das crianças sintomáticas e em 22% das crianças assintomáticas. Embora muitos estudos
investiguem a prevalência de patógenos respiratórios durante episódios sintomáticos, pouco se
sabe sobre sua prevalência em crianças assintomáticas. O papel do HRV nesses pacientes
ainda não está claro. Jartti et al. (2004) descreve uma detecção de excreção viral mais
prolongada em pacientes imunocomprometidos. Dependendo da dinâmica de infecção e
circulação do HRV os profissionais de saúde infectados assintomáticos poderiam ser
potenciais fontes de transmissão para os pacientes, a exemplo do que já foi demonstrado para
outros vírus respiratórios (Salgado 2002).
1.8 PERSISTÊNCIA DA INFECÇÃO PELO HRV
Não são comuns a descrições de positividade do HRV por longos períodos de tempo
(> 2-3 semanas [Jartti et al., 2004; Winther et al., 2006)]. Devido à crescente utilização de
métodos de biologia molecular (em especial a reação em cadeia da polimerase em tempo real
30
– PCR em tempo real), tem sido crescente também a identificação de HRV por maiores
períodos de tempo (Arden et al., 2010). O RNA do HRV têm sido detectado dias antes do
início dos sintomas até cinco ou mais semanas após o término da infecção (Pitkäranta et al.,
2005; Winther et al., 2006). Estudos com genotipagem de HRV indicam que a excreção viral
normalmente cessa dentro de 11-21 dias (Gern et al., 2000; Lu et al., 2008). A percepção de
persistência é mais do que o resultado de uma série de infecções ou co-deteção simultânea de
vírus. A verdadeira persistência pode ser vista em estudo de Kaiser et al. (2006), que
verificaram a infecção somente pelo HRV em pacientes com imunossupressão de base ou
disfunções imunes. Outro estudo de Piralla et al. (2009) descrevem que foi encontrado
infecção pelo HRV C por três vezes mais tempo em pacientes imunocomprometidos do que
em pacientes imunocompetentes, com uma média, em dias, de 52 versus 16 respectivamente.
1.9 EPIDEMIOLOGIA MOLECULAR
A diversidade genética entre as diferentes linhagens virais tem se mostrado grande,
sugerindo circulações simultâneas de diferentes sorotipos durante uma mesma estação
epidêmica. Alguns sorotipos, de determinados agrupamentos genéticos, têm sido isolados
durante epidemias consecutivas, sugerindo tanto a persistência quanto o re-aparecimento de
linhagens epidêmicas (Savolainen et al., 2003). Em estudo recente, incluindo criança
cardiopata, o HRV C foi detectado duas vezes intercalado por detecção de rinovírus A em um
intervalo de três meses. Este dado demonstra a grande variabilidade genética do HRV C, a
circulação de vários sorotipos num mesmo período e a susceptibilidade de um grupo de risco
(Lau et al., 2009).
Os rinovírus A e C têm a maior prevalência entre os HRVs, embora diferentes estudos
descrevam maior ocorrência de HRV A ou HRV C (Piotrowska, et al., 2009; Dominguez et
al., 2008; Renwick et al., 2007; Briese et al., 2008). Já o rinovírus B é considerado menos
frequente, constituindo aproximadamente 7% da detecção de HRV em geral (Renwick et al.,
31
2007; Miller et al., 2009b). Estudos demonstram que o HRV C não tem uma sazonalidade
definida. Foi identificado em todos os meses em regiões tropicais, subtropicais e semi-áridas
(Linsuwanon et al., 2009; Huang et al., 2009; Dominguez et al., 2008).
Lau et al. (2009), em estudo realizado em Hong Kong, avaliaram amostras de crianças
hospitalizadas em 2004 e 2005 e o diagnóstico mais comum foi infecção respiratória superior,
em 47% dos casos positivos identificou-se o HRV C. A maior detecção foi nas crianças de um
a quatro anos de idade. O HRV C foi relacionado com co-detecções de outros vírus
respiratórios em crianças causando doença do trato respiratório inferior em um estudo em
Pequim (Xiang et al., 2008).
No entanto, alguns estudos não descrevem a associação entre HRV C e doença mais
grave. Jin et al. (2009) descrevem que o HRV A/B causaram mais dias de hospitalizações
quando comparado ao HRV C. Xiang et al. (2010b) descrevem que tanto o HRV A quanto o
HRV C desempenham um papel importante na etiologia de pneumonia adquirida na
comunidade. Arden et al. (2010), em estudo realizado com crianças, descrevem que o HRV A
estava associado à piora dos sintomas de asma e tosse, além de um tempo prolongado desses
sintomas.
Em estudo realizado pelo grupo de vírus respiratórios (Laboratório de Virologia
Clínica) da Universidade Federal de São Paulo, Moreira et al., (2011) descrevem uma
freqüência alta de HRV, incluindo HRV C, em pacientes pediátricos provenientes de crecheescola na cidade de São Paulo. O HRV C foi encontrado em 60.7% das crianças que
apresentavam chiado e 69.5% das crianças que não apresentavam chiado, porém não foi
encontrada diferença estatística na ocorrência de HRV C nestes dois grupos de pacientes. Os
resultados deste estudo indicam que, na população estudada, o HRV não estava associado ao
quadro de chiado.
32
O papel do HRV C ainda não está claro, principalmente quanto à gravidade do quadro
respiratório causado por este vírus. Estudos de seguimento de adultos e crianças da
comunidade associado à epidemiologia molecular e avaliação clínica podem colaborar no
esclarecimento desta questão.
1.10 DIAGNÓSTICO
No diagnóstico de HRV os métodos sorológicos em amostras clínicas têm aplicação
limitada pela diversidade de sorotipos. Inicialmente a detecção dos HRVs era dependente do
isolamento viral em cultura de células humanas e algumas linhagens de células de primatas.
Uma das limitações deste método é a especificidade dos HRVs a algumas linhagens celulares,
o que está relacionado com a presença de receptores específicos na superfície das células.
Dessa forma a sensibilidade do método varia consideravelmente de acordo com as linhagens
utilizadas e os melhores resultados são obtidos com a combinação de fibroblastos
embrionários humanos (WI-38 e MCR-5) e células HeLa. Devido à baixa sensibilidade, os
estudos epidemiológicos que utilizam somente o isolamento viral acabam subestimando a
freqüência de infecção por HRVs. Outro teste que permite diferenciar HRVs de enterovírus é
o teste de sensibilidade ao ácido, pois os HRVs são resistentes ao éter, mas sensíveis ao ácido
(Turner & Cough 2007). As amostras contendo secreção de nasofaringe são as mais indicadas
para detecção de HRV, sendo que o lavado nasal apresenta resultado superior quando
comparado ao swab nasal, lavado de orofaringe e escarro (Turner & Cough 2007).
A crescente utilização da técnica de reação em cadeia da polimerase precedida de
transcrição reversa (RT-PCR) permitiu a detecção de HRV diretamente de amostras clínicas,
com maior sensibilidade que a cultura viral. A maioria dos ensaios de RT-PCR para detecção
de HRV amplifica uma parte da seqüência de nucleotídeos da região 5´-NCR do genoma
viral, devido a essa região ser altamente conservada entre os picornavírus. Esses ensaios
apresentam alta sensibilidade, porém é necessário um passo seguinte para diferenciação entre
33
enterovírus e HRVs, como por exemplo, hibridização com sondas específicas (Blomqvist
1999; Pitkäranta 1997), Nested-PCR com primers específicos para HRV (Arruda e Hayden
1993; Steininger 2001; Billaud 2003) ou sequenciamento de DNA (Mori & Clewley 1994). A
análise das seqüências de nucleotídeos dos genes envolvidos na caracterização antigênica
viral permite também determinar os diferentes sorotipos de HRVs (Savolainen 2002b).
Métodos moleculares, especialmente o sequenciamento parcial ou total do genoma e a
comparação de informações genéticas, têm sido uma ferramenta importante no
monitoramento do progresso da Iniciativa da Erradicação Global da Poliomelite. A análise
filogenética das seqüências dos genomas virais tem elucidado a epidemiologia de muitas
outras viroses importantes. A epidemiologia molecular tem fornecido respostas para duas
questões importantes: de onde os vírus vêm e como eles se disseminam na população humana
(Savolainen 2003).
Outro método molecular que tem sido amplamente utilizado é a PCR em tempo real.
Essa metodologia utilizada com uma abordagem quantitativa para detecção de rinovírus pode
representar uma ferramenta útil na investigação do papel epidemiológico e clínico desse
agente. Em pacientes imunocomprometidos, a quantificação pode esclarecer uma possível
relação entre a carga viral e a gravidade ou duração da infecção, além de sua aplicação no
diagnóstico de rotina de infecções do trato respiratório superior e inferior.
Novas técnicas de PCR em tempo real têm permitido uma rápida detecção do vírus e
quantificação viral (Kares et al., 2004). Os resultados da quantificação podem ser aplicados
para avaliar a relação entre a carga viral e predição da progressão da infecção para a doença
clínica. Estudos clínicos de seguimento são necessários para tentar elucidar esse assunto, uma
vez que a presença de baixos níveis de acido nucléico detectados pela PCR convencional nem
sempre reflete uma associação entre a produção de vírus infecciosos e transmissão ou a
progressão para uma doença mais grave no paciente (Kuypers et al., 2009).
34
Tapparel et al. (2009) descrevem a padronização de uma PCR em tempo real que
identifica o HRV A, o HRV B e o enterovírus humano. Os autores concluem que essa
metodologia é sensível e específica, pois utiliza regiões altamente conservadas dos genes
destas espécies.
Para detecção de HRV C, vários estudos têm utilizado protocolos de RT-PCR que
amplificam os genes das regiões VPs e 5’NCR seguido de seqüenciamento genético
(Savolainen et al., 2002a; Lau et al., 2007; Xiang et al., 2008; Jin et al., 2009; SavolainenKopra et al., 2009). Outras abordagens realizam somente o sequenciamento da região 5’ NCR
(Kiang et al., 2008; Calvo et al., 2009; Tapparel et al., 2009). E outros estudos ainda
avaliaram outras regiões: VP4 (Lau et al., 2007; Lau et al., 2009), VP1 e VP4 (Lamson et al.,
2006), VP4 e VP2 (Renwick et al., 2007). Entretanto, a maioria dos trabalhos trata apenas da
identificação molecular do HRV C a partir de amostras clínicas. Nenhum estudo sistemático
foi realizado para examinar a epidemiologia e características clínicas do HRV C, em
comparação as espécies A e B no Brasil. Em particular, a importância do HRV C na doença
respiratória do adulto ainda não é bem compreendida, tornado-se relevante o estudo em
diferentes populações de adultos, tanto imunocompetentes quanto imunocomprometidos.
Para os HRVs a pesquisa epidemiológica molecular está no início e muitas questões
permanecem sem resposta. Métodos de sequenciamento parcial dos genes VPs e a
comparação de informações genéticas já disponíveis no Genebank têm permitido a
determinação das espécies de HRVs (Savolainen et al., 2002b; Laine et al., 2005, Ledford et
al., 2004; Oberst et al., 1999a; Oberst et al., 1999b). Estudos de epidemiologia molecular têm
sido utilizados na caracterização de HRVs obtidos em uma coorte de crianças, que
apresentaram infecções respiratórias agudas (Savolainen et al., 2002a).
35
1.11 TERAPIA ANTIRINOVIRAL E VACINA
Viroses respiratórias desempenham um papel importante como iniciadores de
exacerbações de doenças respiratórias crônicas, como a asma e a DPOC. Os HRVs são
considerados patógenos respiratórios importantes na infecção do trato respiratório superior e
inferior. O papel dos HRVs na exacerbação da asma e na DPOC faz destes vírus importante
alvos terapêuticos. Atualmente não existe um tratamento aprovado no combate ao HRV, e
dada à experiência com o vírus influenza, a vacinação parece ser a melhor opção no controle
dos vírus respiratórios (Rohde, 2011). Existem alguns problemas no desenvolvimento de uma
vacina eficaz contra o HRV: 1- existem mais de 100 sorotipos de HRV, possuindo alta
variabilidade genética, resultando em alta variabilidade nos sítios antigênicos; 2- o
conhecimento acerca da epidemiologia do HRV é limitado, e não existe vigilância como no
caso do vírus influenza, sendo difícil a identificação de sorotipos clinicamente importantes
para cobertura da vacina; 3 – existem três proteínas de capsídeo antigênicas, mas a evidência
da importância individual de cada proteína não é suficiente para o desenvolvimento de uma
vacina; 4 – modelos animais de infecção por HRV são limitados e as evidências da
patofiosiologia viral nestes modelos são escassas.
Edlmayr et al. (2011), em estudo publicado no European Respiratory Journal,
apresenta evidências de que uma vacina contra o HRV será possível em um futuro próximo.
Os autores deste trabalho demonstram que a imunização com a proteína de capsídeo VP1
completa, induz a produção de anticorpos neutralizantes melhores e em altos títulos, quando
comparados aos anticorpos gerados contra peptídeos. Neste mesmo trabalho os autores
também mostram neutralização cruzada de sorotipos não relacionados (HRV 14 e 89), porém
essa neutralização cruzada não ocorreu em metade dos sorotipos testados.
36
1.12 JUSTIFICATIVA
No Brasil, os dados anteriormente citados apontam para uma prevalência importante
de rinovírus em populações distintas. No entanto, até o momento, não foram realizados
estudos de epidemiologia molecular de HRV. Sendo assim, a da dinâmica da infecção pelas
diferentes espécies desse agente ainda não foi investigada no contexto nacional. A
importância desse tipo de estudo reside em obtermos um maior conhecimento sobre a
diversidade do HRV, sua distribuição em diferentes populações, principalmente pacientes
adultos não hospitalizados, e a possível implicação na apresentação clínica das infecções
respiratórias, permitindo também o entendimento de possíveis associações entre espécies
diferentes e patogenicidade. Nos casos de infecções respiratórias, por exemplo, o melhor
entendimento do papel do vírus pode esclarecer a associação entre o HRV e quadros mais
graves, como o quadro de Influenza-Like-Illness.
37
Objetivos
2. OBJETIVOS
3.1 – Objetivo geral:
Realizar a caracterização genética dos rinovírus humanos em amostras de
pacientes infectados sintomáticos provenientes de populações distintas do Estado de
São Paulo.
3.2 - Objetivos específicos:
• Avaliar a ocorrência das diferentes espécies de rinovírus humanos circulantes
durante os diferentes períodos nas populações do estudo.
• Investigar as possíveis associações epidemiológicas entre espécies encontradas
e a dinâmica de circulação dos rinovírus humanos nas populações estudadas.
• Investigar possíveis associações entre a presença de diferentes espécies de
rinovírus humano em pacientes infectados e a diversidade na expressão clínica dos
pacientes.
39
Casuística e Métodos
3. CASUÍSTICA E MÉTODOS
3.1 POPULAÇÕES
O presente estudo trata-se de um estudo transversal com análise de amostras e
questionários clínicos coletados anteriormente.
Os pacientes incluídos no estudo, durante os anos de 2001 a 2003, foram adultos (idade
superior a 18 anos) que apresentavam suspeita de infecção aguda respiratória, com início dos
sintomas até sete dias, e que foram atendidos em diferentes locais de serviço de assistência à
saúde do Complexo Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo (HSP –
UNIFESP). Todos os pacientes foram convidados a participar da pesquisa voluntariamente e,
após o devido esclarecimento, assinaram o consentimento informativo autorizando a coleta da
amostra (anexos 1 e 2). A seguir foi realizada entrevista a respeito de dados demográficos,
sinais e sintomas clínicos, além de fatores associados à infecção respiratória (anexos 3, 4, 5 e
6). As amostras foram coletadas de: profissionais de saúde (Núcleo de Assistência à Saúde do
Funcionário - NASF), população geral (Pronto Socorro do Hospital São Paulo) e pacientes
transplantados renais (Ambulatório de Transplantados Renais do Hospital de Rim e
Hipertensão). Durante o ano de 2004 foi dada continuidade na coleta das amostras somente na
população de Transplantados Renais. No ano de 2005 foram coletadas amostras provenientes
de pacientes pediátricos atendidos no ambulatório de cardiopatia da Pediatria do HSP –
UNIFESP, com o critérios de inclusão de até 5 dias de início dos sintomas. A coleta de
adultos foi realizada por pessoal treinado do Laboratório de Virologia da Disciplina de
Infectologia – UNIFESP e, no caso das crianças, pelos pediatras responsáveis pelo
atendimento. Em estudo anterior (Perosa 2004), foi realizada a detecção de 102 HRVs (total
de 330 pacientes analisados) nas amostras coletadas entre 2001 – 2003, sendo o passo inicial
para o presente estudo. No ano de 2004, foram coletadas 242 amostras de Transplantados
Renais e em 2005 de 61 crianças, ambas ainda não investigadas quanto à presença de
41
rinovírus. Foram incluídas também 49 amostras coletadas durante os anos de 2003 e 2004 na
cidade de Botucatu-SP, que fizeram parte de estudo anterior (Watanabe et al., 2011), no qual
foram investigados o Vírus Influenza, o Vírus Respiratório Sincicial Humano (HRSV) e o
Metapneumovírus Humano (hMPV) em uma população de idosos (idade acima de 59 anos)
que residiam na área urbana da cidade e que apresentavam suspeita de infecção aguda
respiratória com até cinco dias de início dos sintomas até a coleta das amostras. Foram obtidas
todas as devidas aprovações perante o comitê de ética, da Faculdade de Medicina de Botucatu
e da UNIFESP para a realização deste projeto (CEP Nº: 0257/07 – anexos 8 e 9).
O critério de inclusão de início de sintomas de até sete dias pode ter sido extrapolado
caso julgado necessário pelos médicos responsáveis, ou pela equipe de coleta.
3.2 COLETA DE DADOS
No momento da coleta foi aplicado um questionário com dados epidemiológicos e
clínicos considerados relevantes para o estudo. Em relação ao quadro clínico, foram
investigados: o tempo de início do quadro respiratório; a presença de febre, sintomas
respiratórios e gerais; e a presença de comorbidades como cardiopatias, pneumopatias,
hipertensão arterial e diabetes. Também foi investigada a imunização prévia contra o vírus
Influenza. Quanto aos possíveis fatores de risco para infecção por HRV foi investigado o
contato com crianças menores de 5 anos nas três populações (2001 – 2003) e, na população de
profissionais de saúde, também foi investigado o contato com paciente, definido como
qualquer procedimento direto que possibilitasse a transmissão de infecções respiratórias. Na
população dos transplantados renais foi investigado também o tempo decorrido entre o
transplante e o aparecimento da infecção respiratória.
42
3.3 COLETA E PROCESSAMENTO DAS AMOSTRAS
Para cada paciente adulto foi obtida uma amostra de lavado nasal, instilando-se 5 mL de
Ringer-lactato em cada narina e posterior recuperação do lavado em recipiente coletor estéril.
Para as amostras de crianças foi coletado o aspirado nasal, e no caso dos idosos foi utilizado
swab de nasofaringe. Após a coleta e transporte do material em gelo até o laboratório, 1 mL
do lavado foi separado e estocado em freezer –80°C até o momento da extração de ácido
nucléico
3.4 EXTRAÇÃO DE RNA
O RNA foi extraído, diretamente das alíquotas separadas anteriormente para o PCR,
com o auxílio de Kit (RNeasy Total RNA Kit, Qiagen, EUA) seguindo as recomendações do
fabricante. Após a extração, o material foi estocado em freezer -80ºC.
3.5 DETECÇÃO ATRAVÉS DE REAÇÃO EM CADEIA DA POLIMERASE PRECEDIDA
DE TRANSCRIÇÃO REVERSA (RT-PCR)
A RT-PCR foi realizada utilizando-se os primers: reverse 9565 e forward 9895 (9565
posição 1083-1058, 5´ GCA TCI GGY ARY TTC CAC CAC CAN CC 3´; 9895 posição 534560, 5´ GGG ACC AAC TAC TTT GGG TGT CCG TGT 3’; de acordo com Hughes et al.
(1988) produzindo um fragmento de 549pb, compreendido entre a parte hipervariável da
região 5´ NCR, o gene VP4 inteiro e a região terminal 5´ do gene VP2. A síntese de cDNA e a
PCR foram realizadas segundo protocolo desenvolvido e padronizado por Savolainen et. al
(2002a). A reação de síntese de cDNA foi realizada para um volume final de 20 µL, contendo
10 µL de RNA, 25 mM de tris-HCl (pH 8,3 a 25ºC), 5 mM MgCl2, 50 mM KCl, 2 mM de
DTT, 0,8mM de dNTP mix (Invitrogen, EUA), 2,5 U de Moloney Murine Reverse
Transcriptase (MMLV-RT; Invitrogen, EUA), 4 U de inibidor de RNAse RNaseOUT
43
(Invitrogen, EUA) e 0.5 µMol/L de primer reverse. Essa mistura foi incubada por 1 hora a
42ºC seguido de um passo a 70ºC por 15 minutos. Para a PCR o volume final de reação foi de
50 µL, contendo 5µL de tampão 10X (0,1 M de Tris-HCl, pH 8,8 a 25ºC, 0,5 M KCl, 1% de
triton X-100), 3,5 µMol/L de MgCl2, 0,4 mMol/L de dNTP mix (Invitrogen, EUA),
0,4µMol/L de cada primer, 2,5U de Platinum Taq DNA polimerase (Invitrogen, EUA), 10
µL de cDNA e água DEPC (Invitrogen, EUA) q.s.p. 50 µL. As condições de ciclagem para
essa reação foram: 5 min. a 94ºC, seguido de 40 ciclos de 45 seg. a 94ºC, 45 seg. a 61ºC e 1
min. a 72ºC e uma extensão final de 72ºC por 10 min. Em todas as reações foi utilizado um
controle negativo com água Milli-Q autoclavada substituindo o ácido nucléico e um controle
positivo obtido de projeto anterior (Perosa 2004).
A eficiência das amplificações foi monitorada pela eletroforese do produto da PCR em
gel de agarose 1,5% (Invitrogen, EUA) preparada em tampão 1x TBE (Tampão
Borato/EDTA) e corado com Syber Safe (Invitrogen, EUA). O tamanho dos produtos
amplificados foi comparado com padrão de 100 pares de bases (Invitrogen, EUA) e
posteriormente fotografado sob transiluminação UV.
3.6 SEQUENCIAMENTO GENÉTICO
Os produtos de PCR foram purificados com o Kit de purificação ChargeSwitch®PCR
Clean-Up Kit (Invitrogen, EUA), seguindo as recomendações do fabricante. A seguir o DNA
purificado foi quantificado em gel de agarose 1,5% corado com brometo de etídeo, utilizandose como referência o marcador Low Mass Ladder (Invitrogen, EUA). Os produtos purificados
e quantificados foram armazenados a –20ºC ou foram utilizados diretamente na reação de
sequenciamento (BigDye Terminator v3.1 Cycle Sequencing Kit, Life Technology, EUA)
com os mesmos primers utilizados na PCR, seguindo as recomendações do fabricante. O mix
da reação de sequenciamento foi composto pelos seguintes reagentes: 2µL de mix de
44
sequencimento BigDye v. 3.1 (Life Technology, EUA), 3.2 µMol/L dos mesmos primers
utilizados na reação de amplificação (HRVF ou HRVR), água q.s.p. 18µL e 2µL do produto
de PCR purificado. Os parâmetros da reação utilizados foram os seguintes: 2 min a 95°C,
seguido de 26 ciclos de 10 seg. a 95°C, 15 seg. a 50°C e 4 min. a 60°C.
O sequenciamento foi realizado em sequenciador automático de DNA ABI PRISM 3130XL
Genetic Analyzer (Applied Biosystems, EUA).
3.7 ALINHAMENTO DAS SEQUÊNCIAS E ANÁLISE FILOGENÉTICA
Inicialmente as sequências foram alinhadas utilizando o programa ClustalX (Larkin et
al., 2007), então todos os locais com deleções e inserções foram excluídos com o objetivo de
preservar as regiões codificadoras. Após esse processo de edição, as sequências foram
manualmente alinhadas utilizando o programa SE-AL, versão 2.0 (Department of Zoology,
Oxford University; http://evolve.zoo.ox.ac.uk/software/). As relações filogenéticas das
sequências dos genes VP4-VP2 foram analisadas utilizando o método de máxima
verossimilhança (Maximum Likelihood - ML) e o modelo GTR (General Time Reversible),
por meio do programa PhyML (Guindon e Gascuel, 2003). As árvores filogenéticas foram
replicadas 500 vezes com o objetivo de fornecer um valor de Bootstrap confiável para os
clados. Foi utilizado o programa Topali v2.5 (Milne et al., 2004) para a análise filogenética e
obtenção da árvore. Cinquenta e duas sequências de HRV publicadas previamente,
compreendendo os genes VP4-VP2, foram obtidas do banco de sequências genéticas
GenBank (NCBI). Essas 52 seqüências foram distribuídas da seguinte forma: 33 seqüências
de HRV A, 13 seqüências de HRV B e 6 seqüências de HRV C. Como análise secundária foi
realizado um alinhamento das seqüências obtidas com o auxílio do programa BLAST (Basic
Local Alignment Search Tool - NCBI) com o objetivo de determinar os sorotipos de HRV.
45
Para tal análise foram selecionadas as sequências que apresentavam os maiores valores de
homologia e e-value.
3.8 CORRELAÇÃO COM SINTOMAS
Após a determinação das espécies foi realizada a comparação com os sintomas. Para
efeito dessa análise pacientes que apresentavam Influenza-Like-Illness (ILI) foram
considerados com infecção mais grave do que o resfriado comum. O critério de ILI ainda é
utilizado em todo o mundo em estudos de vigilância de gripe, e de outras viroses respiratórias
(Boivin et al., 2000, Bellei et al., 2008). Nesse estudo foram considerados ILI indivíduos que
apresentavam febre mais, pelo menos um sintoma respiratório (tosse, coriza ou dor de
garganta) e pelo menos um sintoma constitucional (dor de cabeça, mal-estar, mialgia, calafrio
ou fadiga). No caso das crianças cardiopatas sintomas como chiado e dispnéia foram
considerados mais graves.
3.9 ANÁLISE ESTATÍSTICA
Realizou-se o teste de qui-quadrado e a regressão logística múltipla não-condicional
para verificar possíveis associações entre as variáveis categóricas estudadas (HRV, ILI e
espécies). Os resultados foram apresentados em Odds Ratio (OR – razão de chance) com o
respectivo intervalo de confiança (IC) de 95%. Para a análise de comparação das médias foi
utilizado os teste T de Student e análise de variância (ANOVA). Valores de p < 0,05 foram
considerados estatisticamente significativos. Todos os valores de p descritos são bi-caudais.
Para a análise estatística foi utilizado o programa SPSS v. 11.0 (SPSS Inc., Chigaco, EUA)
46
Resultados
4. RESULTADOS
4.1 Limite de detecção da reação em cadeia da polimerase precedida de transcrição reversa
(RT-PCR)
Para definição da sensibilidade da reação de PCR foi realizado um teste com diluições do
controle positivo, variando de puro a 10-6, o DICT50 (Dose Infectante de Cultura de Tecido50)
inicial era de 102,75TCID50/100 uL (Figura 2). A diluição seriada foi realizada antes da
extração de ácido nucléico. O Ensaio foi padronizado para detecção de 10-3,25 DICT50 do
sorotipo HRV 39.
Figura 2. Teste das diluições do controle positivo. NO = controle negativo. PM = peso molecular.
4.2 Detecção geral
Dentre as 682 amostras estudadas 164 (24.05%) foram positivas para Rinovírus Humano e
foram encontrados os seguintes resultados nas populações analisadas (Tabela 2 e Figura 3):
adultos imunocompetentes – 79 amostras positivas (23.94% - 79/330); adultos transplantados
renais – 57 amostras positivas (23.55% - 57/242); crianças cardiopatas– 14 amostras positivas
(22.95% - 14/61) e idosos – 14 amostras positivas (28.57% - 14/49). Os adultos
imunocompetentes compreendem duas populações: adultos atendidos no pronto socorro – 20
amostras positivas (15.15% - 20/132) e adultos profissionais de saúde – 59 amostras positivas
(29.80% - 59/198). A análise estatística apresentou diferença de positividade significante (p <
48 0.01) entre os adultos imunocompetentes (adultos atendidos em pronto-socorro e adultos
profissionais de saúde), através do teste qui-quadrado.
Foi realizada a análise da ocorrência de HRV em pacientes imunocompetentes (adultos
atendidos em pronto-socorro somados aos adultos profissionais de saúde – 79 HRV
positivos/330 amostras – 23.94%) e imunocomprometidos (adultos transplantados renais
somados aos idosos – 71 HRVpositivos/291 amostras – 24.40%) com o objetivo de avaliar se
existe diferença de ocorrência nessas duas populações. A análise estatística revelou que não
existe diferença estatística significante (p = 0.9685) na ocorrência de HRV entre essas
populações.
Tabela 2. Positividade por população.
Pronto-socorro: adultos atendidos em pronto-socorro; profissionais de saúde: adultos profissionais de saúde
atendidos no Núcleo de Assistência à Saúde do Funcionário; transplantados renais: adultos transplantados renais;
crianças: crianças cardiopatas; idosos: idosos da cidade de Botucatu, São Paulo, SP.
49 Figura 3. Ocorrência de infecção pelo HRV em relação às diferentes populações estudadas. Os
números acima de cada coluna indicam as freqüências encontradas. Adultos: adultos atendidos em
pronto-socorro somados aos adultos profissionais de saúde atendidos no Núcleo de Assistência à
Saúde do Funcionário; transplantados renais: adultos transplantados renais; crianças: crianças
cardiopatas; idosos: idosos da cidade de Botucatu, São Paulo, SP.
A análise estatística revelou que não existe diferença estatística significante (p = 0.8979) na
ocorrência de HRV nas diferentes populações estudadas.
A ocorrência de HRV nos diferentes anos do estudo é mostrada na Figura 4.
Figura 4. Ocorrência de infecção pelo HRV em relação às amostras coletadas durante os anos
estudados. Os números acima de cada coluna indicam as freqüências encontradas.
50 A análise estatística revelou que existe tendência para heterogeneidade na ocorrência de HRV
nos diferentes anos do estudo (p = 0.0639). Com maior ocorrência nos anos de 2003 e 2004.
4.3 Detecção do HRV e gênero dos pacientes estudados
A Tabela 3 mostra a distribuição do gênero entre os pacientes estudados com relação à
presença e ausência de infecção pelo HRV.
Tabela 3. Distribuição do gênero entre os pacientes estudados.
HRV – Rinovírus Humano.
A análise estatística não revelou diferença estatística significante (p = 0.8353) na ocorrência
de HRV entre os gêneros.
4.4 Detecção do HRV e idade dos pacientes estudados
A idade média de todos os pacientes estudados foi de 35.8 anos e a mediana foi de 35 anos,
variando de recém nascido a 85 anos. Nos diferentes grupos a distribuição foi à seguinte:
adultos imunocompetentes (profissionais de saúde + adultos atendidos no pronto socorro do
Hospital São Paulo) - média: 35.03 anos e mediana: 33 anos (12-83 anos); adultos
transplantados renais – média: 38.41 anos e mediana: 38.5 (5-67 anos); crianças cardiopatas –
média: 7.26 anos e mediana: 2 anos (recém nascidos-14 anos) e idosos – média: 70.07 anos e
mediana: 69 anos (60-85 anos). A ocorrência dos casos positivos e negativos em relação ao
total de amostras estudadas por faixa etária é mostrada na Figura 5. A Tabela 4 apresenta as
médias e medianas dos casos positivos e negativos nas diferentes populações estudadas.
51 Tabela 4. Idade dos pacientes estudados.
* Adultos imunocompetentes – adultos pronto-socorro + adultos profissionais de saúde. RN – pacientes recém
nascidos. Foi utilizado o teste T de Student para comparação das médias entre positivos e negativos em cada
população.
Não foi encontrada diferença estatística significante entre pacientes positivos e negativos nas
populações estudadas, em relação à idade.
Figura 5. Distribuição dos casos positivos, negativos e total em relação às diferentes faixas etárias nas
populações estudadas.
4.5 Detecção do HRV e tempo de início de sintomas até o momento da coleta
O tempo de início de sintomas até a coleta da amostra pode ser verificado na Tabela 5.
52 Tabela 5. Tempo de início dos sintomas até a coleta da amostra nos pacientes estudados.
Foi utilizado o teste T de Student para comparação das médias entre positivos e negativos em cada população.
Foi encontrada uma tendência para diferença estatística significante entre pacientes positivos
e negativos, com relação ao tempo de início de sintomas, nas populações de adultos atendidos
em pronto-socorro (p = 0.06706) e adultos transplantados renais (p = 0.07032).
Quando agrupados adultos atendidos em pronto-socorro com adultos profissionais de saúde
(denominados no presente estudo como adultos imunocompetentes), o tempo médio de início
dos sintomas foi menor para os pacientes positivos comparados aos pacientes negativos. Esta
análise de tempo de início dos sintomas apresentou diferença estatística significativa (p =
0.0010).
4.6 Detecção do HRV e sintomas
Os principais sintomas referidos pelos pacientes das diferentes populações são mostrados na
Tabela 6.
Tabela 6. Sintomas apresentados pelos pacientes estudados.
Pronto socorro: adultos atendidos no pronto socorro
53 As freqüências de ILI nas populações estudadas são mostradas na Tabela 7. Entre os pacientes
positivos para HRV o quadro de ILI estava presente em 38.34% destes pacientes.
Tabela 7. Frequencia de ILI nas populações estudadas.
Profissionais de saúde: adultos profissionais de saúde; Pronto socorro: adultos atendidos em pronto socorro;
Transplantados renais: adultos transplantados renais.
A análise estatística revelou que existe diferença estatística significante de ocorrência de ILI
nas diferentes populações (p < 0.0001).
A freqüência de HRV nos pacientes que apresentavam ILI pode ser vista na Tabela 8.
Tabela 8. Frequencia de ILI em pacientes infectados por HRV.
Profissionais de saúde: adultos profissionais de saúde; Pronto socorro: adultos atendidos em pronto socorro;
Transplantados renais: adultos transplantados renais.
A análise estatística revelou que existe diferença estatística na população geral (p = 0.0396),
com predominância de ILI em pacientes negativos para o HRV. A análise estatística também
revelou que existe diferença estatística na população de adultos atendidos no pronto-socorro
(p = 0.006), com predominância de ILI em pacientes negativos para o HRV.
Os principais sintomas referidos pelos pacientes imunocompetentes em comparação a adultos
transplantados renais e crianças cardiopatas são mostrados na Tabela 9.
54 Tabela 9. Sintomas apresentados pelos pacientes estudados.
Adultos imunocompetentes – adultos atendidos no pronto-socorro somado aos adultos profissionais de saúde.
A análise de regressão logística dos sintomas em relação à infecção pelo HRV em pacientes
imunocompetentes (adultos atendidos no pronto-socorro somado aos adultos profissionais de
saúde) apresentou os seguintes resultados: tosse (OR = 2.25, IC 95% = 1.01-4.99, p = 0.047) e
coriza (OR = 2.76, IC 95% = 1.05-7.24, p = 0.040). A análise dos sintomas apresentados pelas
outras populações não mostrou significância estatística.
4.7 Análise filogenética
Dentre as 164 amostras positivas foi possível realizar a identificação da espécie de HRV em
131 (79.88%). Foi encontrada a seguinte distribuição: 80 HRV A (61.00% - 80/131), 22 HRV
B (16.80% - 22/131) e 29 HRV C (22.20% - 29/131). A Figura 6 mostra a análise da árvore
filogenética (Maximum Likelihood - máxima verossimilhança) das regiões VP4/VP2 do
genoma do HRV.
55 Figura 6. Análise da árvore filogenética (Maximum Likelihood - máxima verossimilhança) das regiões
VP4/VP2 do genoma do HRV. Foi utilizado um valor de Bootstrap de 500 vezes. A árvore foi
circularizada para melhor vizualização de todas as informações. O picornavírus Echo 11 (número de
acesso do GenBank: EF634316.1) foi utilizado como outgroup. Foram obtidas 52 seqüências
referência no GenBank. Ao lado das seqüências referência (Rhino A, Rhino B e Rhino C) se
encontram os números de acesso do GenBank.
4.8 Número de amostras não analisadas no decorrer do estudo
A Figura 7 mostra a quantidade de amostras na qual o seqüenciamento genético não foi
realizado, e a quantidade de amostras em que alguma análise genética pôde ser realizada.
56 Figura 7. Número de amostras não analisadas no decorrer do estudo.
4.9 Sazonalidade das espécies de HRV
A figura 8 mostra a ocorrência das espécies de HRV durante os anos do estudo.
Figura 8. Distribuição mensal das espécies de HRV durante os anos estudados.
4.10 Espécies de HRV e populações
A Tabela 10 mostra a ocorrência das espécies de HRV nas diferentes populações estudadas.
57 Tabela 10. Distribuição das espécies de HRV nos diferentes grupos de risco.
PS – Pronto Socorro; Profissionais saúde – profissionais da área de saúde; Transplantados renais – pacientes
adultos transplantados renais; Crianças – Crianças cardiopatas.
A análise estatística não revelou diferença estatística significante (p = 0.7617) na ocorrência
das espécies de HRV entre as diferentes populações.
4.11 Espécies de HRV e gênero
A Tabela 11 mostra a distribuição do gênero s entre os pacientes estudados com relação às
espécies de HRV.
Tabela 11. Gênero dos pacientes estudados em relação às espécies de rinovírus humano.
HRV – Rinovírus humano.
A análise estatística revelou que não existe diferença estatística significante (p = 0.4660) na
ocorrência das espécies HRV nos diferentes gêneros das populações estudadas.
58 4.12 Espécies de HRV e idade
A ocorrência das espécies de HRV conforme a faixa etária dos pacientes estudados é
apresentada na Figura 9.
Figura 9. Freqüência das espécies de HRV em diferentes faixas etárias.
A análise estatística não revelou diferença estatística significante (p = 0.8111) na ocorrência
de HRV nas diferentes faixas etárias das populações estudadas.
A Figura 10 mostra a freqüência das espécies de HRV em diferentes faixas etárias de
pacientes com idade superior a 50 anos.
Figura 10. Freqüência das espécies de HRV em diferentes faixas etárias de pacientes com idade
superior a 50 anos.
59 A análise estatística não revelou diferença estatística significante (p = 0.6315) na ocorrência
das espécies de HRV em pacientes acima de 50 anos de idade.
4.13 Espécies de HRV e tempo de início de sintomas até o momento da coleta
A Tabela 12 mostra a o tempo de início de sintomas até o momento da coleta em relação às
espécies de rinovírus humano.
Tabela 12. Tempo de início de sintomas em relação às espécies de rinovírus humano.
HRV – Rinovírus humano. Foi utilizado análise de variância (ANOVA) para comparação das médias entre
positivos e negativos em cada população.
Foi encontrada diferença estatística significante (p = 0.0385) entre distribuição das espécies
de HRV, com relação ao tempo de início de sintomas, na população de profissionais de saúde.
Foi encontrada uma tendência para diferença estatística significante entre distribuição das
espécies de HRV, com relação ao tempo de início de sintomas, na população de adultos
atendidos em pronto-socorro (p = 0.0806).
4.14 Espécies de HRV e sintomas
A tabela 13 mostra os sintomas apresentados pelos pacientes de acordo com espécie de HRV
isolada.
60 Tabela 13. Sintomas apresentados pelos pacientes de acordo com espécie de HRV.
HRV A – rinovírus humano espécie A, HRV B - rinovírus humano espécie B, HRV C - rinovírus humano espécie C.
61 4.15 Ocorrência das espécies de HRV e ILI – pacientes adultos atendidos em pronto-socorro,
pacientes adultos profissionais de saúde e pacientes adultos transplantados renais.
A análise de regressão logística de ILI em relação a presença das espécies de HRV nos
pacientes estudados é mostrada na tabela 14.
Tabela 14. Regressão logística de ILI em relação a presença das espécies de HRV nos
pacientes estudados.
ILI – Influenza-Like-Illness, OR – Odds Ratio; IC – Intervalo de confiança. χ2 – Teste qui-quadrado.
A análise estatística revelou que não existe diferença estatística significante na ocorrência das
espécies A e B em relação à presença ou ausência de ILI. A análise estatística também revelou
que existe diferença estatística significante na ocorrência das espécies A e C em relação à
presença ou ausência de ILI. Pacientes infectados com HRV A possuem três vezes mais
chance de apresentar ILI quando comparados aos pacientes infectados com a espécie HRV C
(p = 0.048/ IC 95% 1.01 – 9.163).
4.16 Espécies de HRV e estado imune
Foi realizada a análise da ocorrência das espécies de HRV em pacientes imunocompetentes
(adultos atendidos em pronto-socorro somados aos adultos profissionais de saúde) e
imunocomprometidos (adultos transplantados renais somados aos idosos) com o objetivo de
avaliar se existe uma espécie mais freqüente nessas duas populações. A Tabela 15 mostra os
resultados dessa análise.
62 Tabela 15. Ocorrência das espécies em pacientes imunocompetentes e imunocomprometidos.
Adultos imunocompetentes = adultos atendidos no pronto socorro + adultos profissionais de saúde.
Imunocomprometidos = adultos transplantados renais + idosos.
A análise estatística não revelou diferença estatística significante (p = 0.7229) na ocorrência
das espécies de HRV em pacientes imunocompetentes e pacientes imunocomprometidos.
4.17 Frequência de ILI em pacientes infectados pelo HRV
Como descrito na Casuística e Métodos foi adotado o critério de ILI (Influenza-like-illness)
para descrição de um quadro sintomático de maior gravidade. Nas populações de adultos
imunocompetentes e transplantados renais foi encontrado que 38.81% dos pacientes positivos
para HRV apresentavam o quadro de ILI.
4.18 Regressão logística múltipla não-condicional
4.18.1 Ocorrência de HRV e ILI – população geral
Em todas as análises estatísticas realizadas em relação a ILI foram excluídos os pacientes
idosos, pois não havia uma descrição completa dos sintomas; as crianças portadoras de
cardiopatia congênita, pois os sintomas considerados graves nessa população são diferentes
dos sintomas adotados através do critério de ILI; também foram excluídos os pacientes que
foram positivos para outros vírus, pois a infecção por outro vírus pode levar a um quadro de
ILI que não foi relacionado à infecção pelo HRV, não sendo também relacionado a ausência
de infecção pelo HRV.
A análise estatística revelou diferença estatística significante (p = 0.0425) na ocorrência
global de HRV em relação à presença ou ausência de ILI. Foi encontrado um Odds ratio de
63 1.51 com intervalo de confiança de 95% variando de 1.01 - 2.24 com relação aos pacientes
negativos para infecção por HRV.
4.18.2 Ocorrência de genêros e ILI – gênero
A Tabela 16 descreve a ocorrência de ILI em relação ao gênero dos pacientes estudados.
Tabela 16. Regressão logística de ILI em relação ao gênero dos paciente estudados.
ILI – Influenza-Like-Illness.
A análise estatística revelou que não existe diferença estatística significante (p = 0.9248) na
ocorrência dos gêneros em relação à presença ou ausência de ILI.
4.18.3 Ocorrência de HRV e ILI – pacientes adultos atendidos em pronto-socorro
A análise estatística revelou que existe diferença estatística significante (p = 0.0024) na
ocorrência de HRV em relação à presença ou ausência de ILI. Foi encontrado um Odds ratio
de 4.33 com intervalo de confiança de 95% variando de 1.60 - 11.74 para os pacientes
negativos para infecção por HRV.
4.18.4 Ocorrência de HRV e ILI – pacientes adultos profissionais de saúde
A análise estatística revelou que não existe diferença estatística significante (p = 0.9111) na
ocorrência de HRV em relação à presença ou ausência de ILI, em pacientes adultos
profissionais de saúde.
64 4.18.5 Ocorrência de HRV e ILI – pacientes adultos transplantados renais
A análise estatística revelou que não existe diferença estatística significante (p = 0.9111) na
ocorrência de HRV em relação à presença ou ausência de ILI, em pacientes adultos
transplantados renais.
4.19 Resultados adicionais
Foi realizado também uma análise através do programa BLAST (Basic Local Alignment
Search Tool - http://blast.ncbi.nlm.nih.gov/Blast.cgi) com o objetivo de determinar os
sorotipos de HRV (anexo 7). A análise de presença de ILI baseada na classificação
filogenética também foi realizada. Foram observados quatro clusters (Figura 11) que
agrupavam mais amostras com presença de ILI e que havia a classificação do sorotipo pelo
BLAST. Esses clusters estão descritos na Tabela 17.
Figura 11.Os realces em azul mostram os quatro clusters que acumularam mais casos de ILI.
65 Tabela 17. Sorotipos obtidos através de análise pelo programa BLAST.
HRV – rinovírus humano. *As seqüências de todas as amostras descritas na tabela acima foram analisadas
através do programa BLAST (http://blast.ncbi.nlm.nih.gov/Blast.cgi) sendo que todos os pacientes, incluídos
nesta análise, apresentavam Influenza-Like-Illness (ILI).
66 Discussão
5. DISCUSSÃO
O presente estudo avaliou os aspectos clínicos e a epidemiologia molecular da
infecção por rinovírus humano (Human Rhinovirus - HRV) entre diferentes grupos, incluindo
grupos de risco, de pacientes brasileiros não hospitalizados em um intervalo de cinco anos. De
um modo geral houve uma alta taxa de detecção do HRV entre as populações estudadas, fato
esse já descrito por outros estudos (Arruda et al., 1997, Olsen et al., 2010; Peltola et al., 2009,
Miller et al., 2007, Lau et al., 2009; Piralla et al., 2009).
Os pacientes adultos profissionais de saúde foi o grupo que apresentou maior taxa de
infecção por HRV no presente estudo (29.80%, página 49). Bellei et al. (2007) descrevem que
trabalhadores da área de saúde são um importante grupo de risco para aquisição de infecção
viral respiratória, principalmente com HRV e vírus influenza. Neste mesmo trabalho foi
descrito uma freqüência de 37.7% de HRV em amostras negativas para o vírus influenza.
Os profissionais da área de saúde podem servir como fonte de transmissão de vírus
respiratórios. Um exemplo desse fato foi à quantidade de profissionais de saúde com infecção
pelo coronavírus SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome), aproximadamente 50% dos
pacientes infectados por esse novo vírus eram profissionais de saúde (CDC 2003). O fato
destes trabalhadores desempenharem papel importante na transmissão de viroses respiratórias
reforça a importância da vigilância epidemiológica e laboratorial nesse grupo.
Nos pacientes adultos atendidos em pronto-socorro, foi encontrando uma freqüência
de 15.15% (página 49) de infecção por HRV.
Esse dado pode representar uma freqüência
desse agente na comunidade, pois estes pacientes não eram provenientes de ambientes
hospitalares.
68 Os pacientes transplantados renais representam uma população de risco incluída no
presente estudo. Nesse grupo o HRV foi encontrado em 23.55% das amostras analisadas.
Poucos estudos verificaram a ocorrência de HRV em populações de transplantados de órgãos
sólidos. López-Medrano et al. (2007) descrevem uma freqüência de 23.53% de infecção por
picornavírus em amostras de swab de nasofaringe de pacientes transplantados de órgão
sólidos.
Os estudos realizados em crianças cardiopatas demonstram a circulação de vírus
respiratórios, alguns em taxas relativamente altas, indicando que nesta população estes
agentes devem ser considerados na prática clínica e diagnóstica. Entre as crianças cardiopatas
a freqüência de HRV foi de 22.95% (página 49). Poucos estudos analisaram a ocorrência de
HRV neste tipo de população (Carrat et al., 2006; Daubin et al., 2006). Medrano López et al.
(2010) em estudo realizado com crianças cardiopatas, verificou uma freqüência de 22.5% de
vírus respiratório sincicial (VRS) e 2.9% de outros vírus respiratórios (adenovírus, vírus
influenza e parainfluenza vírus).
Outra população estudada, os idosos, também pode refletir a incidência de HRV na
comunidade, pois esses pacientes eram atendidos em suas próprias residências (Watanabe et
al., 2011). Nessa população foi encontrada uma freqüência de HRV de 28.57% (página 49).
Infecções causadas por HRV são comuns em diferentes populações, incluindo os idosos,
sendo responsável por 25 a 50% das doenças respiratórias em idosos não institucionalizados
(Nicholson et al., 1997). A análise da etiologia viral entre os idosos vacinados mostrou que o
HRV é o principal agente responsável pela demanda de serviços de saúde (Watanabe et al.,
2011). A alta incidência de HRV durante os meses da temporada de influenza necessita de
mais investigações no que diz respeito ao impacto da infecção causada pelo HRV nas
complicações respiratórias em idosos no Brasil.
69 Foi realizada a análise de ocorrência de HRV entre paciente imunocompetentes e
imunocomprometidos, revelando que não houve diferença estatística significante entre essas
duas populações. Gerna et al. (2009) descrevem diferença entre a ocorrência de HRV em
grupos de pacientes immunocompetentes e imunocomprometidos. Esse resultado obtido no
presente estudo pode indicar uma maior frequência de HRV em pacientes com imunidade
alterada, mas com a ressalva de que esse fato não necessariamente implica em doença mais
intensa nessa população (resultado discutido mais adiante em pacientes transplantados renais).
A distribuição do sexo nos pacientes estudados seguiu a seguinte proporção:
aproximadamente um paciente do sexo masculino para cada duas pacientes do sexo feminino.
Uma freqüência semelhante foi descrita por Arruda et al. (1997), também em pacientes
adultos não hospitalizados. A proporção entre os sexos de pacientes infectados pelo HRV é
bastante variável na literatura, variando de 30 a 70% de freqüência do sexo masculino (Miller
et al., 2009a; Miller et al., 2009b; Lau et al., 2009; Xiang et al., 2010b). No presente estudo
não houve associação entre gênero e infecção por HRV (p = 0.8353, página 51),
possivelmente indicando que não há maior risco de infecção por HRV em um determinado
sexo. Em estudo realizado com pacientes adultos chineses, Xiang et al. (2010a) também
descreve que não encontrou associação entre infecção pelo HRV e gênero, concluindo que
não há maior risco de infecção para nenhum dos sexos.
A maioria dos pacientes estudados foi composta por adultos, que apresentaram idade
média de 35.8 anos e mediana de idade de 35 anos, variando de recém nascido até 85 anos
(página 51). A análise estatística não revelou diferença significante entre a infecção por HRV
e a idade das populações do estudo. A análise estatística também não revelou diferença
estatística significante (p = 0.8111, página 59) na ocorrência de HRV nas diferentes faixas
etárias das populações estudadas.
70 Poucos estudos analisaram pacientes adultos não hospitalizados que apresentavam
infecção pelo HRV. Em um dos primeiros estudos realizados com pacientes adultos não
hospitalizados, que verificou a ocorrência de HRV, Arruda et al. (1997) descreve que a
população incluída no estudo apresentava mediana de idade de 20 anos. Lau et al. (2009)
descreve uma freqüência de 7% de amostras positivas para HRV em pacientes adultos
hospitalizados. Gerna et al. (2009) descreve uma freqüência de 9.3% em pacientes adultos
imunocompetentes, mas neste caso também os pacientes analisados eram hospitalizados. Vale
salientar que no presente estudo as diferentes populações avaliadas eram compostas por
pacientes não hospitalizados.
Aparentemente a idade dos pacientes não hospitalizados incluídos no estudo não
possui relação com a infecção pelo HRV. Uma hipótese a ser considerada é que com o
aumento do número de amostras de crianças poderia existir diferença estatística entre as
faixas etárias e presença de HRV.
No presente trabalho a mediana de tempo de início de sintomas com relação à coleta
nos pacientes imunocompetentes foi menor para os casos positivos de HRV do que para os
casos negativos (p = 0.001, página 53), com significância estatística. A literatura descreve um
pico de excreção do HRV em torno do segundo dia de infecção (Lessler et al., 2009). O
tempo de incubação dos HRVs é de 8 – 12 horas, e logo após o primeiro ciclo de replicação
os sintomas freqüentemente se iniciam (Gwaltney et al., 1995). Em estudo realizado por
Arruda et al. (1997), com pacientes adultos, mais de 80% dos indivíduos reportaram início
dos sintomas com 16 horas ou menos, antes da coleta de amostra. Outros vírus respiratórios
apresentam tempos de incubação variáveis, influenza vírus: 3-4 dias (Wright et al., 2007);
parainfluenzavírus: 2-8 dias (Henrickson 2003); vírus respiratório sincicial: 4-5 dias (Collins
& Crowe Jr, 2007); adenovírus: 4-5 dias (Wold & Horwitz, 2007); coronavírus: 4-6 dias (Lai
71 et al., 2007); metapneumovírus: 4-5 dias (Hermos et al., 2010) e bocavírus humano: 2-3 dias
(Moriyama et al., 2010).
Um fator importante nas infecções respiratórias de origem viral é o tempo de início de
sintomas. Poucos trabalhos descrevem o tempo de início de sintomas das infecções analisadas
(Arruda et al., 1997; Bellei et al., 2007, Raboni et al., 2011). Tanto para o diagnóstico quanto
para os aspectos clínicos esse fator não pode ser desprezado. Em trabalhos que verificam a
freqüência de HRV o tempo de início de sintomas pode influenciar as análises das espécies
circulantes, a epidemiologia molecular e os aspectos clínicos dessa infecção (Gerna et al.,
2009; Franz et al., 2010). Por exemplo, a carga viral de HRV provavelmente depende do
tempo médio de início de sintomas. Outro exemplo, se o tempo médio de início de sintomas
for grande (> 10 dias), a freqüência de HRV pode ser subestimada ou receber uma relevância
maior do que a real, pois o pico de excreção do HRV ocorre em torno do segundo dia de
infecção (Lessler et al., 2009).
O menor tempo de início de sintomas com relação à coleta nos pacientes infectados
pelo HRV pode possuir relação com outros vírus respiratórios presentes nas amostras
negativas para HRV. A análise da ocorrência de outros vírus respiratórios não foi realizada
em nosso trabalho. Uma possível hipótese para tal achado é que o principal critério de
inclusão foi infecção respiratória de provável etiologia viral. Assumindo que uma parte das
amostras negativas para HRV possuía outros vírus respiratórios que podem eventualmente
levar a um tempo de incubação maior se comparado ao HRV, os resultados para o menor
tempo de início de sintomas encontrados na presente análise tornam-se compreensíveis. O
pequeno tempo de incubação do HRV, o início rápido do quadro sintomático, e a presença de
outros vírus em amostras negativas são coerentes com os achados dos pacientes positivos
avaliados.
72 Nas populações de pacientes adultos transplantados renais e crianças cardiopatas (p =
0.8056), a mediana de tempo de início dos sintomas foi maior para os casos positivos (página
53), com tendência para diferença estatística significante entre pacientes positivos e negativos,
com relação ao tempo de início de sintomas no caso dos transplantados renais (p = 0.07032).
Esse resultado pode estar relacionado à menor expressão clinica devido ao uso de
corticosteróides e imunossupressores (Hendley, 1998; De Santo et al., 2005; Oshansky et al.,
2009), além do maior tempo de excreção viral em pacientes imunocomprometidos e pacientes
com doenças de base (Kaiser et al., 2006; van Kraaij et al., 2005; Roghmann et al., 2003,
Gerna et al., 2009).
No presente trabalho os sintomas mais freqüentes nos pacientes, adultos
imunocompetentes, infectados pelo HRV foram coriza, cefaléia e tosse (página 53). Nos
transplantados renais e nas crianças cardiopatas os sintomas mais freqüentes foram coriza e
tosse (página 53). Em adultos imunocompetentes os sintomas gerais como febre (60.76%),
cefaléia (81.01%), mialgia (63.29%) e calafrio (49.37%) estavam presentes em mais de 50%
dos pacientes positivos para HRV (página 53). Com relação aos sintomas dos pacientes
idosos, não foi possível nenhuma análise, pois não havia informações suficientes. A idade, o
sexo e a data da coleta estavam disponíveis. As crianças cardiopatas infectadas pelo HRV no
presente estudo, não apresentaram mais sintomas que os pacientes negativos (página 53). O
quadro de doença mais grave em crianças não pode ser avaliado da mesma forma que nos
paciente adultos, sintomas como dispnéia e chiado normalmente não estão presentes em
adultos não hospitalizados. Sendo assim o critério de doença mais intensa (ILI) utilizado no
estudo não pode ser aplicado nas crianças cardiopatas. Mais adiante serão discutidos os
achados de nossa casuística com relação à infecção por HRV e suas espécies, e a presença de
ILI.
73 A análise filogenética das seqüências do HRV obtidas das amostras positivas mostrou
uma ocorrência coerente com a literatura, com grande predominância da espécie HRV A,
seguida por HRV C e HRV B [página 58; (Kiang et al., 2008; Lau et al., 2009; Piralla et al.,
2009)]. Outros estudos descrevem maior prevalência de HRV A seguido de HRV B e HRV C
(Xiang et al., 2010b, Kistler et al., 2007; Fry et al. 2011). No caso das crianças cardiopatas
analisadas no presente trabalho o HRV B não foi encontrado sendo que uma possível razão
para este resultado pode ser o pequeno número de amostras positivas. Arden et al. (2010)
descrevem que não houve ocorrência de HRV B em pacientes não hospitalizados, em estudo
realizado na Austrália.
Foi detectada infecção por HRV C em uma amostra coletada de um paciente no ano de
2001 (amostra EPM034, ver árvore filogenética, página 56), sugerindo que esta “nova
espécie” de HRV na realidade tem circulado antes de sua primeira descrição (Lamson et al.,
2006) e mesmo de suas mais recentes descrições, sendo que, esse achado está em acordo com
outros autores (Lau et al., 2007; Kistler et al., 2007; Miller et al., 2009).
No presente estudo as três espécies de HRV circularam praticamente durante o ano
inteiro (página 57), mas aparentemente demonstra um padrão sazonal, com maior freqüência
observada nos meses de inverno, coincidindo com a temporada de influenza no Brasil (Bellei
et al., 2007). Essa observação pode ser considerada um fator confundidor com a verdadeira
infecção pelo vírus influenza, devido à similaridade dos sintomas (por isso o termo InfluenzaLike-Illness - ILI) que ocorre em quase a metade das infecções causadas por HRV descritas
anteriormente.
Outros estudos descrevem a ocorrência das espécies de HRV durante todo ano, com
aumento de ocorrência nos meses de inverno (Linsuwanon et al., 2009; Miller et al., 2008;
Piotrowska et al., 2009; Maffey et al., 2008). O aumento da circulação das espécies de HRV
nos meses de inverno pode contribuir com aumento da demanda por serviços de saúde,
74 principalmente em populações de idosos e crianças (Jennings et al., 2006; Pierangeli et al.,
2009; Miller et al., 2011, Watanabe et al., 2011).
Estudos realizados durante a pandemia do vírus influenza A H1N1 2009
demonstraram a circulação concomitante de vários outros vírus, incluindo o HRV (Casaleno
et al., 2010; Follin et al., 2009). Em estudo, aceito para publicação, realizado pelo grupo de
vírus respiratórios (Laboratório de Virologia Clínica) da Universidade Federal de São Paulo
foi encontrada uma freqüência alta de HRV, que também circulava com o vírus pandêmico.
Neste estudo o HRV foi a segunda maior causa de internação, por síndrome respiratória aguda
grave, no Hospital São Paulo durante a pandemia no ano de 2009
Com relação à distribuição das espécies entre os gêneros também não foi encontrada
associação (página 58). Aparentemente as espécies de HRV não infectam preferencialmente
nenhum dos sexos dos pacientes.
Doering et al. (2006) descrevem que crianças do sexo masculino menores de 1
possuem um risco de 2.8 vezes maior de se infectar com o vírus sincicial respiratório (VSR)
quando comparadas as crianças do sexo feminino. Corselo et al. (2008) descrevem que em
indivíduos do sexo feminino maiores de 6 meses de idade existe um menor chance de
infecção por VSR
quando comparadas a indivíduos do sexo masculino. Estes estudos
demonstram que aparentemente existe uma maior chance de infecção por VSR em indivíduos
do sexo masculino, o que não parecer ocorrer no caso do HRV.
A distribuição das espécies de HRV nas diferentes faixas etárias dos pacientes
estudados seguiu a mesma distribuição encontrada populações (HRV A > HRV C > HRV B,
página 59). Esta distribuição está de acordo com dados da literatura (Xiang et al., 2010b; Fry
et al., 2011; Lau et al., 2009). No presente estudo não houve associação (p=0.8111) entre
idade e infecção por qualquer espécie de HRV.
75 Muitos estudos têm abordado a epidemiologia molecular e os aspectos clínicos das
espécies de HRV em crianças, destacando o papel de HRV C nessa população (Lau et al.,
2009; Fry et al., 2011; Piralla et al., 2009; Moreira et al., 2011; Jin et al., 2009). A quantidade
de estudos com essa nova espécie reflete a preocupação em entender a epidemiologia e
patogênese da doença causada pelo HRV C.
Destacando-se a distribuição das espécies de HRV nas diferentes faixas etárias, um
grupo em especial (pacientes idosos maiores de 50 anos de idade), que freqüentemente
apresentam maior risco de aquisição de infecção viral (Miller 1996; Nicholson et al., 1997;
Graat et al., 2002), demonstrou ser o segundo grupo com maior ocorrência das espécies de
HRV, depois dos adultos imunocompetentes. Uma análise mais detalhada (página 59)
demonstrou uma distribuição semelhante à encontrada em outras idades. Apesar do fato de
pacientes idosos serem um grupo de risco para complicações (Falsey & Walsh, 2006;
Nicholson et al.,1996), o HRV C não foi à espécie mais freqüente.
A análise das espécies de HRV nas diferentes populações com relação ao tempo de
início de sintomas e a demanda por atendimento médico, apresentou diferença estatística
significativa no grupo de adultos profissionais de saúde (página 60). Os pacientes infectados
pelas espécies A e C apresentaram tempo de início de sintomas até a coleta da amostra menor
quando comparadas a espécie B. Embora não significativa (p = 0.0806, página 60), houve
uma tendência a um maior tempo de início de sintomas até a coleta no caso do HRV C em
relação às outras espécies, em pacientes adultos atendidos no pronto-socorro. Nessa
população a espécie C apresentou maior tempo de início de sintomas quando comparada as
outras espécies (página 60). Uma provável hipótese é de que talvez o maior tempo de início
de sintomas esteja relacionado ao fato de os pacientes infectados por HRV C nessa população
apresentarem sintomas menos intensos (página 60).
76 Foi realizada uma análise com relação ao estado imunológico dos pacientes e a
ocorrências das espécies de HRV. Com tal objetivo os pacientes foram divididos em dois
grupos: pacientes immunocompetentes na qual foram incluídas as populações de adultos
atendidos em pronto-socorro e adultos profissionais de saúde e imunocomprometidos na qual
foram incluídos idosos e pacientes transplantados renais. Nesta análise não foi encontrada
nenhuma associação (p=0.7229).
Poucos estudos analisaram a ocorrência das espécies de HRV em pacientes
immunocomprometidos e imucompetentes. Gerna et al. (2009) descrevem uma freqüência de
HRV de 9.3% em pacientes adultos imunocompetentes e 25.3% em pacientes
imunocomprometidos, porém neste estudo não foi realizada a análise estatística para verificar
a existência de diferença entre essas duas populações. Na presente avaliação não houve
diferença entre as ocorrências em pacientes imunocompetentes e imunocomprometidos
(página 62).
Como citado anteriormente, consideramos quadro respiratório mais grave, quando
comparado a quadros leves, pacientes que preenchiam o critério de Influenza-Like-Illness
(ILI). Esse critério é adotado internacionalmente em estudos de vigilância de gripe, e de
outras viroses respiratórias (Boivin et al., 2000, Bellei et al., 2008). Nesse estudo foi
considerado paciente com presença de ILI indivíduos que apresentavam febre e pelo menos
um sintoma respiratório (tosse, coriza ou dor de garganta) e pelo menos um sintoma geral (dor
de cabeça, mal-estar, mialgia, calafrio ou fadiga).
O presente estudo avaliou a presença das diferentes espécies de HRV em pacientes
não hospitalizados e buscou averiguar possíveis associações entre espécies de HRV e
diferentes expressões clínicas, como quadros mais leves ou similares a quadros gripais mais
intensos. Nos pacientes que apresentavam infecção por HRV 38. 8% referiram ILI, e por
77 outro lado o HRV foi responsável pela infecção em pelo menos 21% (Tabelas 7 e 8, página
54) de todas as populações de pacientes com ILI. Em um estudo realizado por Bellei et al.
(2007), os autores descrevem que 50% da população estudada apresentava associação entre
ILI e infecção por HRV. Pierangeli et al. (2010) descreve que 35.3% dos paciente infectados
por HRV apresentavam quadro clinico de ILI. Razanajatovo et al. (2011) descrevem que o
HRV foi o segundo vírus mais freqüente associado à ILI, sendo o influenza vírus o primeiro.
O mesmo autor também descreve que ocorre um aumento dos casos de ILI nos meses de
maior ocorrência de HRV.
Bellei et al. (2008) em estudo realizado com pacientes adultos, descrevem uma
freqüência de 46.9% de ILI em pacientes infectados pelo HRV, por outro lado, 69.1% dos
casos de ILI era causado por outros vírus respiratórios que não o vírus influenza. Este estudo
mostrou a importância do papel de outros vírus respiratórios, incluindo o HRV, na etiologia
de ILI.
A associação entre ILI e pacientes não infectados pelo HRV, no presente trabalho
pode ser devida a presença de outros vírus respiratórios nestas amostras negativas para
presença de HRV. Infelizmente a análise para presença de outros vírus respiratórios não foi
realizada, não sendo possível comprovar esta hipótese. Estudos que descrevem a presença de
outros vírus respiratórios, que não o vírus influenza, em pacientes que apresentam ILI pode
suportar essa idéia (Thrusky et al., 2003; Navarro-Mari et al., 2005, Bellei et al., 2008).
Até uma década atrás o consenso geral era de que o HRV causava somente um
infecção auto-limitada com resolução espontânea em menos de sete dias, o chamado resfriado
comum (Andrewes 1961). Esse conceito começou a mudar em meados do ano 2000, quando
Papadopoulos et al. (2000) confirmaram a replicação do HRV no trato respiratório inferior.
No ano de 2006 Lamson et al. descreveram uma possível nova espécie de HRV, que
78 posteriormente foi denominada de HRV C. A partir dessa descrição muitos estudos foram
focados nessa nova espécie de HRV, principalmente pelo fato de aparentemente o HRV C
causar doença mais grave em crianças (Lau et al., 2009, Fry et al., 2011, Piralla et al., 2009;
Jin et al., 2009).
Sempre que uma nova espécie de vírus respiratório é descrita uma onda de novos
estudos aparecem. É o caso do metapneumovírus humano (van den Hoogen et al., 2001), do
bocavírus (Allander et al., 2005) e dos poliomavírus WU e KI (Allander et al., 2007; Gaynor
et al., 2007). Após alguns anos com diferentes estudos realizados em diferentes populações,
os novos vírus podem ter seu potencial patogênico comprovado.
Muitos estudos foram realizados em pacientes pediátricos com infecção pelo HRV C
(Lau et al., 2009; Fry et al., 2011; Piralla et al., 2009; Moreira et al., 2011; Jin et al., 2009),
mas poucos estudos foram realizados em pacientes adultos (Lau et al., 2009; Gerna et al.,
2009, Piralla et al., 2009, Xiang et al., 2010a). No entanto a grande maioria desses estudos,
tanto em crianças quanto em adultos, foi realizada com pacientes internados (Lau et al., 2009,
Fry et al., 2011, Piralla et al., 2009; Gerna et al., 2009; Xiang et al., 2010a).
A população de adultos profissionais de saúde, teoricamente, é mais sujeita às
infecções devido sua permanência em ambientes hospitalar (Bellei et al., 2007, Bellei et al.,
2008). Este grupo apresentou mais chance de infecção pelo HRV, porém houve menos
associação com ILI. Uma possível explicação para tal fato é a facilidade de acesso ao serviço
de saúde criado especialmente para este grupo na Universidade Federal de São Paulo,
permitindo assim, atendimento de maior número de casos, incluindo casos menos intensos
Vale salientar que muitas vezes a preocupação destes funcionários com seus estados
de saúde, principalmente trabalhadores de unidades de risco, pode levar a procura de serviços
79 médicos precocemente, resultando em algumas ocasiões em casos menos intensos sendo
diagnosticados.
A população de adultos atendidos em pronto-socorro foi a que apresentou maior
freqüência de quadro clínico compatível com ILI entre as populações estudadas, porém a
análise estatística mostrou associação significativa entre presença de ILI e teste negativo para
HRV (página 63). Esse fato como já descrito anteriormente pode ser devido outros vírus
respiratórios em amostras negativas para o HRV. De fato os adultos atendidos em pronto
socorro foi o grupo que apresentou menor freqüência de HRV, o que pode significar uma taxa
maior de outros vírus respiratórios.
Não existem, até o momento, estudos descrevendo infecção pelo HRV em pacientes
transplantados renais. São raros também estudos que descrevem infecções respiratórias virais
nesse tipo de população. (López-Medrano et al., 2007; Nishi et al., 2010). No presente estudo
o HRV foi detectado em pacientes transplantados renais, em uma taxa semelhante às outras
populações estudadas. Com relação aos sintomas apresentados por esses pacientes, não houve
maior freqüência de ILI, e também associação com presença de HRV (página 64). Garbino et
al. (2009) descrevem um frequência de ILI de 10.8% em pacientes transplantados de órgão
sólidos. Os pacientes transplantados renais são, em algum grau, imunossuprimidos o que pode
afetar a apresentação clínica desses pacientes. Principalmente devido o uso de drogas
imunossupressoras e corticosteróides (Hendley, 1998; De Santo et al., 2005; Oshansky et al.,
2009).
Considerando os pacientes apresentando-se clinicamente com sintomas de ILI as
espécies A e B foram encontradas com maior freqüência e por outro lado, estes adultos não
hospitalizados, infectados pelo HRV C foram menos sintomáticos. Este resultado difere da
dinâmica observada em estudos anteriores, que descrevem associação entre infecção por HRV
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