A reencarnação

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Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE
Departamento de Teologia – Escatologia Cristã – 2012/II
Prof. Geraldo Luiz De Mori SJ
A reencarnação
Os principais termos usados para falar da reencarnação:
Palingenese: do grego palin = “de novo” e gênese = “nascimento”: traduzido por
“renascimento” (citado por Platão para falar da alma que renasce em outros corpos);
Metempsicose: do grego meta = “depois” e psiqué = “alma”: designa o estado sucessivo da
alma ou a animação em sucessão de diferentes corpos por uma mesma alma. Próximo do termo
“transmigração”: pode haver regressões (tomar o corpo de outros seres vivos que o humano);
Metensomatose: de meta = “depois”, em = “no” e soma = “corpo”: designa a passagem de
um corpo no outro ou uma incorporação sucessiva. Próximo etimologicamente do termo
reencarnação. Implica a existência de um corpo como suporte para a alma.
Na Índia e nos países do Extremo Oriente influenciados pelas tradições hindus e budistas,
fala-se de “samsara”, o ciclo de nascimentos e de mortes. Todos os seres vivos são prisioneiros
deste ciclo que é sem começo e sem fim. Eles passam de existência em existência gozando da
beatitude divina, ou sendo submetidos aos tormentos de infernos terríveis. Eles erram às vezes no
mundo dos animais e sofrem.
Principais argumentos dos que crêem na reencarnação
Muitos dos que crêem na reencarnação baseiam-se nos seguintes argumentos:
a) Ela manifesta a rejeição de uma concepção puramente materialista do ser humano e a
necessidade de uma certa forma de esperança no futuro, acreditando que algo de imortal e de
espiritual ultrapassa o puramente biológico;
b) Ela oferece uma explicação ao problema do mal, do sofrimento do inocente, da injustiça
e das desigualdades sociais, que nenhum discurso sobre Deus pode justificar. Parece mais lógico
dizer que cada um é responsável pelas consequências positivas e negativas de seus atos;
c) Ela parece responder melhor à dificuldade de se aceitar que cada um joga seu destino
eterno numa existência breve e submetida a tantos determinismos;
d) O homem não pode cumprir sua finalidade última numa única existência. Ter outras
chances faz parte do processo de humanização, que precisa de tempo para amadurecer e supõe o
aprendizado dos erros e dos acertos;
e) A reencarnação nos liberta do terror da morte, que não é mais percebida como uma
ruptura irreversível mas como uma fase do desenvolvimento do ser humano. Ela modifica nossa
relação com o tempo e com os bens terrestres, que passam a ser relativizados, e leva a uma real
liberdade interior;
f) Ela se funda numa solidariedade entre os seres vivos, pois o fato de termos vivido outras
vidas, onde talvez tenhamos sido africanos, judeus, árabes, asiáticos, homem, mulher, pobre, rico, e
até mesmo animal, favorece o respeito pelos outros e pela criação. Isso exclui o racismo, a
intolerância social, sexual e religiosa, e facilita o perdão, a convivência e a diversidade;
g) Ela abre o horizonte do ser humano, ajudando-o a perceber-se no conjunto do universo,
na medida em que se apóia numa visão global, cósmica, coerente, ecológica;
h) Ela ajuda cada um a aceitar seus limites, suas deficiências, suas doenças, seu corpo
provisório;
i) As Escrituras evocam a expectativa do retorno de Elias “reencarnado” (Ml 3,23; Si 48,111; Mt 17,10-12), ou a reencarnação quando falam da necessidade de “nascer do alto”, de
“renascer” ou de “novo nascimento” (Jo 3);
j) A esperança cristã na vida no além (juízo, céu, purgatório e inferno), que modelou as
representações da vida no além no Ocidente é vista peles reencarnacionistas como estreita. Não
teríamos uma segunda ou muitas outras chances?
Além desses argumentos, outras experiências ou estudos, que parecem confirmar a crença
na reencarnação, são também usados como provando este tipo de crença:
a) A impressão, ao chegar num determinado lugar ou ao viver certos eventos, de já ter
estado lá ou de já ter vivido aquilo;
b) A transmissão de elementos psíquicos (sensações) ou psicossomáticos (marcas) de um
indivíduo a outro (telepatia ou premunição, influências dos defuntos sobre outros seres vivos);
c) Os dons inatos e excepcionais de algumas crianças, como a capacidade de falarem uma
língua desconhecida, recitarem textos profanos e sagrados, desenvolverem um talento musical ou
um saber matemático sem aprendizado;
c) Casos de pessoas que se lembram de suas vidas anteriores, analisadas pelo psiquiatra
americano Ian Stevenson, que fez uma pesquisa em todo o mundo e em todo tipo de família.
Segundo Ian Stevenson, estes casos apresentam as seguintes características: 1) uma pessoa declara
antes de morrer que deseja voltar em tal família em sua próxima reencarnação; 2) Após sua morte,
alguém da família sonha que esta pessoa voltou à terra na própria família ou em uma outra; 3) o
bebê nasce com marcas físicas ou cicatrizes de feridas da pessoa que morreu; 4) quando começa a
falar lembra a vida da pessoa que morreu; 5) pelo comportamento apresenta cada vez mais as
características do defunto (gosto por certos alimentos, certas melodias, esportes, certos tipos de
fobias, talento precoce, etc.);
e) Alguns praticantes da yoga, a nova era, os membros da cientologia, (através da hipnose),
entre outros, sustentam ter encontrado trechos de suas vidas passadas, compreendendo melhor
certos traumas, fobias e bloqueios de vidas anteriores.
Estudaremos da seguinte forma o tema da reencarnação:
a) Apresentação das características de duas das primeiras crenças na reencarnação: a do
Hinduísmo e a do Budismo;
b) Estudo de alguns traços do reencarnacionismo no Ocidente: religião e filosofia gregas;
c) Análise da crença na reencarnação no espiritismo kardecista e a especificidade brasileira;
d) Apresentação da reencarnação na nova era.
A reencarnação na tradição hinduísta
Os textos sagrados mais antigos do hinduísmo são conhecidos como Vedas. Foram escritos
entre 1500-1200 aC. Esses textos mostram as representações religiosas dos Arianos (invasores do
nordeste da Índia no séc. XVII aC), mas não falam de reencarnação. São compostos em sânscrito,
língua próxima do iraniano, considerada sagrada pelos indianos. O centro da religião védica é o
sacrifício, a oferenda feita às divindades para a proteção dos homens, a boa ordem e o futuro da
criação. Quando os arianos atingiram o vale do Ganges, esta primazia do sacrifício conferiu aos
sacerdotes, chamados brâmanes, uma verdadeira hegemonia sacerdotal. Nesta época surgiu o
regime das castas, destinado a salvaguardar a pureza do sangue ariano e os privilégios dos
brâmanes. Pouco a pouco já não são os sacrifícios que eram considerados eficazes, mas a fórmula
ritual que acompanhava os sacrifícios, o Braman. Só os brâmanes detinham o conhecimento de tal
fórmula, o que lhes deu poder e os fez submeter as demais castas. O budismo (nascido no séc. VI
aC) é uma reação a tais abusos e privilégios.
A doutrina dos ciclos dos renascimentos (samsara) aparece pela primeira vez e de forma
sistemática nos textos chamados Upanishads, entre o período pós-védico e o começo de nossa era,
integrada na religião védica dos brâmanes.
Nos Upanishads, o braman, se torna o ser absoluto, a alma universal, a potência cósmica,
neutra, à qual participa em diversos graus os deuses, todos os seres vivos e as coisas.
Os Vedas, os Brâmanes e os Upanishads tidos como livros revelados, escrituras sagradas.
Vejamos quais os grandes elementos da doutrina hinduísta dos renascimentos (samsara):
a) O ser humano se torna o ato (karma) que realiza: ele é bom por suas ações boas e mau
por suas ações más. Todo ato deixa um vestígio. Ao morremos, não temos escolha: nosso destino é
determinado por aquilo que fizemos de bom ou de mau. Esta é a doutrina do karma, que é uma lei
de retribuição que aprisiona nosso futuro a nossos atos.
b) Essa doutrina resolve a questão do escândalo das injustiças. Nem Deus nem o destino são
responsáveis pelas desigualdades entre os homens, mas cada um sofre o efeito dos atos realizados
numa vida anterior;
c) Quem é pobre é porque usou mau suas riquezas numa vida precedente, quem é enfermo
deve ter sido cruel ou ter levado uma vida dissoluta, e assim por diante;
d) Vivemos uma série de existências, em ordem descendente ou ascendente, da casta mais
baixa ou mesmo de um animal até à existência de um brâmane;
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e) Segundo esta explicação, podemos ter compaixão daquele que sofre ou que é infeliz, mas
não podemos intervir para ajudá-lo a escapar do “peso terapêutico” de seu karma. Talvez esta seja
uma das razões pelas quais a Índia tenha tanta dificuldade em acabar com as castas, como da
inexistência de fortes movimentos caritativos na Índia;
f) Nos séc. I e II de nossa era, outro texto, o Baghavad Gîtâ, afina esta doutrina, dizendo
que nossos atos negativos são o resultado de nosso apego ao que fazemos, bem como aos bens e aos
valores terrestres;
g) É preciso se liberar de todo apego a esses bens e se concentrar na única coisa importante
e imortal: a alma (chamada atman). A alma não é a consciência individual autônoma, mas um
conceito metafísico que indica uma chama do ser universal e absoluto (Braman), presente em graus
diversos em todos os seres;
h) O hinduísmo elaborou várias maneiras de se atingir esta porção imortal que nos habita,
como diversos exercícios (oração, sacrifícios rituais, peregrinações), uma vida ascética, um
conhecimento interior, fruto do desapego dos bens terrestres, a yoga, que concentra nosso desejo no
único necessário: nossa alma imortal;
i) A outra via possível de libertação é a da devoção (bhakti), que substitui o conhecimento,
presente nos Upanishads, pela piedade, o abandono à vontade de Krisna, identificada com Braman;
j) Segundo a Gîtâ, a primeira condição para se chegar à libertação de todo renascimento, é
cumprir seu dever, ligado à condição de cada um e inscrito na Lei universal (dharma) que rege o
mundo, sem buscar o próprio interesse: “faça o que deves fazer, sem te permitires nenhum apego,
atingindo assim a equanimidade. Eis o que se chama disciplina”;
l) Qualquer que seja a via utilizada, o importante é chegar a habitar sua alma (atman), pois
assim se pode chegar ao absoluto (Braman), unindo-se a ele como uma gota no oceano. Este é o
centro da mística hinduísta: a identificação da alma-atman com o Braman: “atman é Braman”. “Se
eu alcanço as profundezas de minha alma, tomo consciência da superficialidade dos outros bens e
dos outros desejos, então estou livre da ilusão (maya) de crer na realidade do mundo e das coisas e
me torno Braman”;
m) Quando purificado descubro esta verdade, estou definitivamente liberado do ciclo
infernal dos renascimentos sucessivos, tendo acesso à libertação (moksha), à felicidade, à salvação
pessoal, à paz e à beatitude suprema (o samadhi) que é uma fusão da alma individual no absoluto
universal. “O homem que, abandonando todos os seus desejos, se tornar livre de apegos, não diz
mais “é meu”, “eu”. Ele tem acesso à paz. Este é o estado brâmico, quem o atinge, mesmo na última
hora, atinge a extinção em Brama”.
Para o sábio hindu, a reencarnação é algo de negativo do qual ele deve se liberar. “Este
corpo tem um fim. O espírito que nele se encarna é eterno, indestrutível... Ele nunca nasce nem
morre. Ele não foi e nem será de novo... Ele é inato, necessário, eterno, primordial. Ele não morre
quando morre o corpo. Como um homem que troca a roupa usada, a alma encarnada, rejeitando o
corpo usado, viaja em outros corpos novos”.
A reencarnação no budismo
O budismo evoluiu bastante depois de Buda (560-480 aC), diversificando-se, adaptando-se,
enriquecendo-se com as tradições locais onde se implantou (Japão, Tibet, Coreia, China).
O budismo fez surgir tradições diferentes, como a do Pequeno Veículo (Hînayâna), a do
Grande Veículo (Mahâyâna) e a do tantrismo (Vajrayâna). Alguns, la linha do ensinamento de
Buda, estimam que o renascimento ou a reencarnação é o sinal de uma santidade não cumprida,
ainda imperfeita, enquanto outros acham que ele é fruto de uma vontade própria ao bodhisattva que
retarda sua entrada no nirvana a fim de permanecer entre os homens e ajudá-los a atingi-lo.
Alguns vêem em Buda um deus ou o salvador, embora Buda sempre tenha rejeitado ser
venerado como um fundador e de receber um culto.
Essas diferenças mostram que ao se falar de budismo é preciso sempre se perguntar de qual
budismo se fala, de qual época e de qual tradição.
Apresentaremos aqui alguns elementos do ensinamento de Buda, começando antes com
alguns dados de sua biografia.
- Biografia de Buda
Buda nasceu na família real de Kapilavastu, vertente indiana do Himalaia, recebendo o
nome de Siddharta Gautama. Viveu os primeiros anos no palácio real, sem conhecer o sofrimento.
Casou-se aos 16 anos e teve um filho.
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Ao sair pela primeira vez do palácio, encontrou um leproso (doença), um velho (velhice), o
cortejo fúnebre de um cadáver conduzido ao crematório (morte), um monge mendigo perfeitamente
sereno (pobreza). Toma então consciência de que a felicidade da qual ele gozava era ilusória (é a
revelação da maya, ou seja, da aparência ilusória das realidades terrestres), e percebe no monge
mendigo a libertação do sofrimento.
Aos 29 anos abandonou o palácio e tornou-se monge mendigo para tentar resolver o enigma
do sofrimento. Durante 7 anos viveu como peregrino no vale do Ganges e escutou o ensinamento
dos ascetas brâmanes. Como eles, ele buscava a comunhão com o ser absoluto, Braman, pelo jejum
e pelas macerações. Apesar disso, não conseguiu encontrar a felicidade, percebendo que uma vida
de privação não era melhor que uma vida de prazer. Percebeu então a importância da via média, a
da justa medida. Abandonou a religião tradicional e seus métodos em buscou de seu próprio
caminho.
Aos 35 anos, Buda teve a revelação do caminho que conduz ao nirvana, ou seja, à libertação
do ciclo infernal dos renascimentos sucessivos. Tornou-se um iluminado (é o que significa o termo
buda). Começou a pregar e a fazer discípulos, tornando-se peregrino durante 40 anos. O número de
adeptos cresceu rapidamente. Buda morreu aos 80 anos.
- Doutrina de Buda
O caminho que conduz ao nirvana é constituído de quatro verdades:
1) Tudo é dor (ou sofrimento) e sujeito à mudança. É preciso compreender e admitir este
fato: a universalidade da dor e o aspecto provisório dos seres e das coisas.
Qual o significado desta verdade?
Todo esforço para se atingir a felicidade durável na vida é vão. A felicidade é uma ilusão.
Os momentos mais felizes de nossa vida escorrem como a água entre nossas mãos.
O sábio hindu já havia percebido isso, mostrando a necessidade do desapego dos prazeres
ilusórios e o caminho da concentração da atenção na alma, no eu permanente, que é a gota do divino
em nós. Ele acreditava também que a libertação se realizava quando a alma se identificava com a
realidade absoluta, a alma universal (Braman). Esta identificação só podia se operar pelos ritos, as
fórmulas sagradas que só os brâmanes conheciam.
Buda rejeita estes ritos e toda ideia de um absoluto, do Bramam, da alma universal ou de
um deus pessoal. Ele rejeita igualmente toda entidade espiritual, permanente, imortal, chamada “eusujeito”, alma, atman ou “si”.
Segundo ele, todas estas noções são crenças ilusórias que não correspondem a nada na
realidade e impedem o homem de se libertar do ciclo dos renascimentos. Esta doutrina do não-si
(anatman) é a originalidade do pensamento budista.
São as noções de eu e de sujeito que engendram os desejos egoístas e todo tipo de conflitos,
que nada mais são do que tentativas de defender o que é “meu”. Todo o mal do mundo encontra sua
fonte nesta noção ilusória e falsa de ser um indivíduo único e autônomo.
Não existe nada de permanente e estável. Tudo é condicionado, mesmo o que chamamos de
“eu” que, segundo Buda, é uma combinação de energias físicas e psíquicas que constituem um todo,
se condicionam mutuamente e são submetidas a mudanças incessantes. Todo indivíduo é um
composto provisório de cinco elementos: a matéria, a sensação, a percepção, a vontade e o
conhecimento. A vontade mantém unidos esses cinco elementos e o conhecimento joga neles um
papel preponderante, pois é anterior à vontade de agir, ao ato consciente, refletido e voluntário. É
ele que faz com que o ato seja bom ou mau. Nosso renascimento não é fruto do destino ou do azar,
mas de nossa volição que se orienta para seu novo estado, fruto de nossos atos.
O grande erro é o de querer impor a esses elementos instáveis a ideia de um “eu”
permanente e substancial que os manteria unidos e os dirigiria. É uma construção artificial da
imaginação. É uma ilusão, fonte de todo nosso sofrimento.
2) A causa desta existência dolorosa é nossa “sede” ou desejo insaciável. Três tipos de sede
nos habitam: a primeira é a dos prazeres terrestres. O homem corre atrás destes prazeres efêmeros,
abandonando um em benefício de outro. A segunda sede é a de uma existência sem fim e a terceira
é a que habita os suicidas: o desejo de morrer, de desaparecer, e que é uma forma de não assumir
nossa condição humana e a lei do karma.
É o desejo insaciável que engendra a cobiça, o ódio, o erro ou a ilusão, e todos os atos maus
(karma) que aprisionam nosso futuro.
3) Existe uma libertação possível da dor-sofrimento, que é a supressão de sua causa, ou
seja, apagando a sede insaciável de felicidade ilusória, toda forma de desejo. Atinge-se assim o
nirvana: a extinção de toda sede (nirvana= apagar).
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4) Esta libertação, este nirvana é possível, pois existe um caminho para atingi-lo, o caminho
do meio ou a via das oito virtudes: três da ordem da conduta moral (a palavra justa, a ação justa, o
meio de existência justo); três da ordem da disciplina mental (o esforço justo, a atenção justa, a
concentração justa) e duas da ordem da sabedoria (a compreensão justa e o pensamento justo).
A libertação no plano moral não é a mais importante, mas é o primeiro grau e é
indispensável. Trata-se de evitar os pecados do corpo (homicídio, roubo, luxúria), os pecados da
palavra (mentira, maledicência, injúria, palavra inútil), os pecados do pensamento (cobiça, ódio,
erro). Trata-se de uma moral altruísta, mais preocupada em não atrapalhar os outros, em favorecer
uma existência feliz para todos. Não se trata de uma moral de mandamentos e de interditos, mas de
uma maneira de ser. O bem e o mal não são vistos abstratamente, mas em relação com um ato
preciso ou em função da responsabilidade de cada um. É bem o que é útil à experiência do nirvana e
mal o que dela afasta. Trata-se mais de evitar tudo o que pode fazer do mal aos outros e assim
agravar o peso do próprio karma do que de fazer o bem. O sábio budista é mais impassível, sereno e
benevolente do que caridoso. Trata-se mais de uma ética passiva do que ativa. O homem é mais
convidado a não fazer o mal do que a fazer o bem.
A conduta ética não é porém suficiente. Ela é o primeiro passo. Falta ainda purificar o
coração e o espírito, fontes de ignorância e ilusão. A conduta ética é indissociável da disciplina
mental pela qual se opera a verdadeira mudança interior.
Pela disciplina mental o budismo opera uma transformação completa da vontade e de sua
maneira de ser no mundo. Essa disciplina passa pela meditação que nos ensina a nos desapegar do
sentimento de felicidade e de dor, de alegria e de tristeza e, pelo recolhimento, que converte nossa
maneira de representar o mundo e de entrar em relação com ele.
É preciso fazer o aprendizado do vazio de todas as coisas, mesmo de nossa consciência. O
objetivo a ser atingido é a não dualidade, estado a partir do qual não existe mais nem sujeito nem
objeto, nem consciência nem não consciência. Chegado a este estado, o indivíduo está liberado e
pode se concentrar nas quatro nobres verdades, adquirindo a sabedoria iluminadora que vê as coisas
segundo sua verdadeira natureza.
Esta sabedoria constitui o “despertar” propriamente dito, experiência espiritual libertadora
que leva à extinção da ignorância e da ilusão, e conduz ao nirvana.
O budismo é uma via espiritual de libertação do egoísmo e da ignorância inteiramente
fundada na experiência humana. Ele mostra até que profundeza espiritual o homem pode chegar por
si mesmo.
- A reencarnação no budismo
Para Buda, não existe no homem nenhuma realidade espiritual, um sujeito autônomo, um
“eu” ou uma alma estável e permanente. Tudo é condicionado e provisório. A reencarnação não é
uma migração de uma alma personalizada que passaria de um corpo a outro. Quem se reencarna
então?
No budismo não é a permanência de uma alma que explica a continuidade no ciclo dos
renascimentos sucessivos, mas nossa sede de existir, o peso de nossos desejos engendrado por
nossos atos anteriores. Tudo isso constitui o dinamismo de um querer viver que continua a agir
depois da morte e conduz os cinco elementos constitutivos do homem a se reunirem de novo sob
uma outra forma, numa outra existência.
O budismo explica este fenômeno de continuidade, na ausência de todo sujeito autônomo e
de toda causa primeira, pela lei da produção condicionada, segundo a qual doze causas
fundamentais se condicionam uma a outra no processo de reencarnações sucessivas. Só quando
atingimos o nirvana que os cinco elementos se separam definitivamente.
Para o budismo podemos renascer em cinco categorias: os infernos, os espíritos errantes ou
famintos, os animais, os homens e os deuses. É necessário renascer homem, pois a libertação só é
possível nesta categoria. Isso se aplica também aos deuses, pois eles são incapazes de se desapegar
do estado de satisfação e de felicidade na qual vivem.
Para se atingir o nirvana é preciso um aprendizado que acontece em várias vidas. Buda
viveu outras vidas antes de atingir o estado de iluminado.
O budismo não considera a reencarnação como um enriquecimento progressivo de cada
indivíduo. Não se trata de enriquecer o “eu”, mas de tomar consciência de que ele nada mais é do
que uma ilusão da qual é preciso se desapegar para escapar ao ciclo infernal do reencarnação. No
budismo esta é um castigo. A salvação é libertar-se do ciclo dos renascimentos.
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A reencarnação na antiguidade grega
A crença na reencarnação emergiu na Grécia antiga no séc. VI aC, vinda provavelmente da
Índia. As correntes místicas dos mistérios de Eleusis e Dionísio, e, sobretudo, o orfismo e o
pitagorismo são os primeiros testemunhos da crença reencarnacionista no Ocidente. O orfismo e o
pitagorismo desenvolveram uma visão dualista do mundo, dividido em uma região celeste onde
reina a harmonia perfeita, e uma região sublunar, onde se desdobra o ciclo da geração e da
corrupção.
Foi neste contexto que começou a se elaborar a noção de imortalidade da alma, que devia se
reencarnar para se purificar por uma vida ascética e a busca da harmonia.
No começo do séc. IV aC, Platão, no diálogo Ménon, faz Sócrates dizer: “o que Píndaro e
outros poetas dizem, saiba-o, é que a alma do homem é imortal, e que ora ela chega à plenitude, ora
recomeça a nascer, mas que nunca é aniquilada. Por isso é preciso viver o mais santamente possível
no decorrer da vida”.
Platão é portanto um dos fundadores da crença reencarnacionista no Ocidente. Vejamos
alguns traços de sua reflexão.
- A filosofia de Platão
Toda a filosofia de Platão é dominada e unificada por sua teoria das Ideias, que não são
vagas abstrações, mas as únicas realidades absolutas, estáveis, eternas, puras, inteligíveis, dotadas
de vida e de pensamento, e subsistentes. São elas o objeto da pesquisa da ciência e da contemplação
do filósofo. Elas são o único mundo real do qual o mundo sensível, em perpétua mudança, nada
mais é do que sombra ou cópia. As coisas ou os valores terrestres participam em graus diversos do
mundo das Ideias. Elas sugerem a existência de uma fonte perfeita. As Ideias são captadas
intuitivamente pela inteligência do homem, pois sua alma pôde contemplá-las no curso de uma vida
anterior no mundo perfeito e inteligível, guardando algumas reminiscências. A união da alma com o
corpo levou ao esquecimento momentâneo do que ela tinha contemplado. No mundo sensível a
alma pode, pelo afastamento das paixões grosseiras, reencontrar a intuição do mundo das Ideias.
“Se é em estado de pureza que a alma se separou do corpo, é para aquilo que lhe assemelha
que ela se dirige, para o invisível, o que é divino, imperecível, sábio, para o objetivo para o qual,
tendo chegado, ela encontra a felicidade. Se, ao contrário, ela se sujou e não se purificou ao se
separar do corpo, ela se torna pesada, e é puxada para trás, pagando assim a pena de sua maneira de
viver anteriormente. As almas não param de errar, até o dia em que, de novo, sob a pressão do
elemento corporal, voltam a se encadear num corpo. Aqueles que regularmente viveram na gula, na
desmesura e na paixão da bebida, deverão provavelmente se reencarnar em asnos ou em animais
parecidos. Os que foram injustos, tiranos, ladrões, se reencarnarão em formas de lobos e falcões. Os
que cultivaram virtudes sociais e cívicas, sua reencarnação os levará a uma espécie de animal cujos
costumes são sociais e policiados: abelhas, vespas ou formigas, ou na forma de homem, nascendo
de pessoas de boa conduta. Em todo caso, o retorno à natureza dos deuses é proibido a quem não
praticou a filosofia, a quem não morreu puro. Ele só é permitido a quem é amigo do saber”.
Para Platão, o homem é composto de corpo e alma. Esta é de natureza espiritual, imortal e
eterna. Invisível, ela participa da inteligibilidade e da simplicidade do mundo ideal das Ideias, em
particular da Ideia da vida, o que a torna eternamente imperecível. Ela possui reminiscência do
mundo das Ideias desde seu nascimento porque participou do mundo perfeito das Ideias, tendo préexistido numa vida anterior. Em punição por algumas faltas, ela foi precipitada na terá de ser
aprisionada no corpo. Destinada a viver independentemente do corpo, ela não pode estar unida
essencialmente ao mesmo, estando unida a ele acidentalmente. A alma e o corpo são portanto duas
naturezas individuais, ligadas entre si por propriedades secundárias. O corpo pode ser prejudicial à
alma. Suas necessidades tirânicas e suas paixões podem ser um obstáculo à aquisição da sabedoria.
A morte é por isso uma libertação para o sábio.
A vida presente é insuficiente para dar a cada um o que lhe é devido segundo suas virtudes
e vícios, e sobretudo para satisfazer as aspirações profundas da alma à felicidade, ou seja, à
contemplação da Ideia pura onde a felicidade tem sua fonte. Uma sobrevida é então necessária para
satisfazer os direitos de justiça e responder às exigências de nossa natureza.
No livro A república, Platão desenvolve sua concepção da predestinação das almas. Estas,
em função de um código penal particular, são admitidas todos os mil anos a escolher uma nova vida
terrestre. Exemplares de vida animal e humana lhe são propostos. Cada uma é responsável por sua
escolha. Deus não tem nada a ver com o que cada uma escolhe. Cada uma será acompanhada por
um guardião (daimôn) que lhe será dado. As que acabam de expiar suas faltas precedentes têm isso
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na memória e se mostram prudentes em sua escolha, optando por uma nova vida que lhes permita se
purificar ainda mais e se libertar totalmente do ciclo dos renascimentos.
No pensamento grego a reencarnação é então vista como um processo de purificação
progressivo, uma ascensão dinâmica da matéria ao divino ou como uma regressão para a
animalidade. Ela é considerada como uma fatalidade e uma punição das quais podemos nos libertar
pela imitação religiosa ou pelo estudo da filosofia. Ela suprime o destino irreversível e assegura a
vida imortal e eterna da alma. Os neo-platônicos não admitem a reencarnação em formas de vida
inferiores.
A reencarnação nos tempos modernos e contemporâneos
Uma corrente reencarnacionista se mantém no Ocidente, apesar de minoritária. O
cristianismo manterá esta corrente às margens da cultura ocidental. Só com o Renascimento e sua
redescoberta da Antiguidade, e com alguns filósofos neo-platônicos, como Paracelso e Jacó
Boehme, que a doutrina da transmigração das almas voltou a ter importância.
No Iluminismo, esta doutrina encontrou um renovado interesse, como elemento do
progresso do conjunto da humanidade. No séc. XVIII, Lessing, na A educação do gênero humano
(1780), diz que Deus se manifesta ao homem numa série de revelações e que o progresso da
humanidade é o resultado de uma longa evolução que se estende por milênios. No decorrer de
nascimentos sucessivos, cada alma se beneficia do patrimônio comum herdade das vidas anteriores.
O homem tenderia à perfeição, num movimento ascendente.
Só nos séc. XIX e XX a Europa e as Américas atualizam, inculturam e ocidentalizam a
crença na reencarnação, em particular nos círculos teosóficos, antroposóficos, ocultistas, esotéricos
e espíritas, e mais perto de nós, na nova era.
- A teosofia
Os teósofos consideram-se herdeiros de Amonius Saccas, fundador dos neo-platonismo, no
séc. III. Eles buscam reconciliar todas as religiões vindas da mesma fonte e buscando o mesmo
objetivo, tendo como base comum as verdades eternas.
Segundo os teósofos, Cristo ensinava às multidões em parábolas e só revelava o mistério
das mesmas aos discípulos. É preciso reencontrar os mistérios escondidos, as verdades eternas
transmitidas aos discípulos pelos verdadeiros iniciados de todas as religiões, filosofias, seitas
ocultistas e esotéricas (Buda, Maomé, etc.), pois todas têm um “ensinamento esotérico ou secreto e
um culto público, exotérico... Não somos apegados a nenhuma religião, a nenhuma filosofia em
particular. Recolhemos o que é bom em todo lugar onde o encontramos”.
A teosofia é a religião da sabedoria ou do conhecimento secreto. Sua moral, baseada numa
ascese rigorosa, num total altruísmo e num desapego dos bens deste mundo, é a de um “budismo
esotérico” ensinado aos iniciados. Seus membros pertencem à grupo exotérico ou esotérico da
sociedade em função de seu grau de conhecimento e de seu progresso moral. O homem deve
cultivar os “poderes latentes” que possui em si.
Deus é mais uma energia impessoal da qual todos participam em diversos graus que um
Deus pessoal. “A matéria é só o espírito cristalizado, e a graça é o vapor solidificado... Dizemos que
a chispa divina, no homem, é uma e idêntica em essência com o Espírito universal, e que,
consequentemente, nosso “eu ou ego espiritual” é onisciente, mas os obstáculos da matéria o
impedem de manifestar seu conhecimento”. “Para se chegar às verdades eternas, este “eu” deve
viver várias reencarnações, preencher, como um ator, vários papéis na cena da vida, até percorrer
todo o ciclo de suas encarnações”.
Esta purificação e a libertação progressiva preenche cada vez mais as aspirações profundas
do homem, abrindo-o ao conhecimento do Espírito que o habita e à fraternidade universal. Os
teósofos decompõem o homem (microcosmo do universo) em sete elementos que correspondem às
sete emanações divinas na escala do universo. Estes elementos são assim hierarquizados a começar
de baixo: o corpo físico, o princípio vital, o corpo astral (ainda chamado de duplo etérico), o kam
rupa (sede de nossos desejos que conduzem à animalidade), os manas (componente intelectual ou
mental da alma humana), o duddhi (componente espiritual da alma), o atma (o espírito propriamente
dito). Os três últimos elementos constituem o “eu”. Segundo os teósofos, é o componente inferior
da lama (manas) que se reencarna, adquirindo experiências de vidas anteriores, se purificando do
eu animal para se identificar com a dimensão divina do homem (o atma) ou eu superior.
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- A antroposofia
A antroposofia, fundada em 1913 por Rudolh Steiner, um dissidente do teosofismo. Oposto
à inspiração oriental da teosofia, ele quer conciliá-la com o cristianismo. Rejeitando as instituições
históricas e os dogmas da Igreja, Steiner considera Jesus Cristo como o centro do futuro da terra e
da história da humanidade. Sua obsessão era unir ciência e religião.
A antroposofia tem também uma antropologia muito complexa, segundo a qual o ser
humano é composto de sete elementos (o corpo físico, o corpo etérico ou corpo de vida, o corpo
psíquico ou astral, o eu ou núcleo da alma, o eu espiritual ou corpo astral transformado, o espírito
de vida ou corpo de vida transformado, o homem espírito ou corpo físico transformado). Não é a
alma individual que se reencarna e assegura a continuidade da pessoa, mas o espírito eterno, força
transcendente ativa que anima a alma de cada indivíduo. A alma só joga um papel de intermediária
entre o mundo sensível e o espírito que ela enriquece da experiência de cada encarnação antes de
desaparecer.
“Na verdade, é a alma que liga o homem à sua existência terrestre. Por seu corpo, o homem
pertence à espécie humana. Por seu espírito, ele vive num mundo superior. A alma liga
temporariamente os dois mundos”.
As reencarnações não é um castigo ou uma nova prisão, mas um enriquecimento do
espírito. Como todo homem participa a este espírito, cada reencarnação é a ocasião de um
crescimento humano e divino. A antroposofia introduz no Ocidente a noção hindu de karma.
A reencarnação no espiritismo
Allan Kardec (1804-1869) é o pseudônimo de Hippolyte-Léon Rivail, teórico e divulgador
do espiritismo. Médico e linguista, ele se converteu ao espiritismo depois de uma seção na qual
entrou em contato com um espírito protetor que lhe revelou uma existência anterior de druida na
Gálea, com o nome de Allan Kardec. Rivail sentiu-se desde então investido pelos espíritos
superiores a uma missão: a de fundar uma nova religião que seria a “terceira revelação da Lei de
Deus depois da de Moisés e de Jesus”. Ele reuniu seus ensinamentos no Livro dos Espíritos e no
Livro dos Médiuns.
Para compreender a doutrina espírita é preciso situá-la no seu tempo, marcado pelo
positivismo e pelo evolucionismo.
Segundo Kardec, os espíritos são criados imperfeitos e ignorantes, tendo no processo
evolutivo uma certa gradação (puros, imperfeitos e atrasados). Não existem demônios ou espíritos
inclinados ao mal. Todos evoluem inelutavelmente. O objetivo do espiritismo é de ajudar neste
processo.
Os médiuns são os intermediários que tornam possível a comunicação entre os espíritos e os
seres humanos. A mediunidade é uma aptidão que pode ser desenvolvida. Existem diversos tipos de
médiuns: 1) os que utilizam um modo de comunicação inferior (com efeitos físicos); 2) os
sensitivos (auditivos, falantes e videntes). É possível também distinguir os médiuns que são
curandeiros, psicógrafos, artistas.
Apesar de assumir alguns elementos do cristianismo o espiritismo rejeita outros, como:
1) a doutrina do pecado original, que supõe a queda e a salvação. Ao invés dessa doutrina o
espiritismo propõe uma explicação da história fundada nas noções de livre arbítrio e de progresso;
2) a fé na ressurreição dos mortos, em benefício da crença na reencarnação;
3) a questão da natureza do Cristo, espírito superior extremamente elevado e dotado de um
imenso poder magnético e do desejo de fazer o bem;
5) a rejeição da fé em benefício da prova. Antes de crer é preciso compreender e nada
admitir que não tenha sido experimentado.
Na França, o espiritismo não tinha nem clero, nem culto, nem templo, nem ritual. Era mais
uma doutrina filosófica com consequências religiosas, que uma religião.
O contexto em que surgiu foi o do séc. XIX francês, marcado pelo ocultismo, pelo
positivismo e pelo evolucionismo. Por isso o espiritismo nega o sobrenatural e os milagres, e
propõe uma moral de ascensão contra a ignorância e o egoísmo.
A doutrina da reencarnação é a pedra angular do espiritismo kardecista. Uma única
existência, diz Kardec, é insuficiente para se atingir a perfeição. É preciso reencarnar-se tantas
vezes quanto for necessário para atingi-la. Somos responsáveis pelos nossos atos. O que somos hoje
é fruto do que fomos no passado. Partimos de um estado inicial, que é o da ignorância, e nos
dirigimos a um estado final, quando não teremos mais necessidade de nos reencarnar. O caminho
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que conduz a isso é o resultado das escolhas que fizemos, de nosso trabalho e de nossa vontade.
Todos somos iguais no começo e todos seremos iguais no fim. Os atos que efetuamos se
contabilizam e nos fazem merecer o céu mais ou menos rápido. A reencarnação é uma provação que
purifica e prepara a todos para que o inferno na terra desapareça.
À diferença da metempsicose oriental, a reencarnação no espiritismo não leva a alma à
indiferenciação do Grande Todo do qual tinha emanado. A alma guarda sua individualidade depois
da morte. Outra diferença é que Kardec não admite involuções no processo reencarnacionista (em
vegetais, animais ou numa existência pior que a que se viveu antes). A reencarnação é evolutiva, é
uma prova que purifica. Por isso a educação se encontra no centro da doutrina espírita. O que conta
é o conhecimento e o progresso moral.
O espiritismo de Kardec pretende-se compatível com todas as religiões. Ele oferece uma
consolação aos que perdem um ente querido. Teve grande circulação na imprensa, o que o fez
tornar-se conhecido com rapidez. A Igreja católica condenou o espiritismo por duas vezes (em 1898
e em 1917).
Depois da morte de Alan Kardec, Pierre-Gaêtan Leymarie tomou a direção do movimento.
Ele dizia que era possível fotografar as almas dos mortos. Depois dele, Leon Denis fez com que o
espiritismo se tornasse anti-católico. No mundo de língua inglesa, o espiritismo evoluiu para a
formação de igrejas, enquanto no mundo francês evoluiu para a metapsiquia que levou ao
surgimento da parapsicologia. Esta mostra que os fenômenos paranormais são ligados ao psiquismo
humano. Segundo a psicologia, a comunicação com os espíritos nada mais é do que o diálogo do
médium consigo mesmo (fenômeno da dissociação da personalidade).
O espiritismo no Brasil
A influência francesa no Brasil era muito forte no séc. XIX. A crise entre o Império e a
Igreja, que antecedeu a proclamação da república, fez com que o governo fosse menos severo com
relação às outras religiões. Teles de Meneses, baiano, foi o primeiro a difundir as doutrinas de
Kardec no Brasil. Ele dizia que o espiritismo tinha uma relação de continuidade com o catolicismo.
Em 1873 forma-se o grupo Confucius no Rio, ligado aos ideais abolucionistas e republicanos. O
espiritismo difundia-se então no meio intelectual. Surgiram vários grupos, o que levou ao
surgimento, em 1884, da Federação Espírita Brasileira (FEB), com a intenção de unificá-los. O
espiritismo implanta-se então com força, sobretudo nas classes médias. Nas classes populares era
forte a influências dos cultos afro-brasileiros. Estes assumem alguns aspectos da doutrina da
reencarnação e do diálogo com os mortos de Kardec, dando origem ao que vai ser chamado de
“baixo espiritismo”.
Depois de se implantar no Sudeste, o espiritismo é levado também para as capitais do
Nordeste, difundindo-se sempre entre as classes médias e ilustradas, ligado às lojas da maçonaria.
Em São Paulo e em Minas, sobretudo no Triângulo, o espiritismo ganha força. Figuras importantes
em Minas: Eurípedes Barsanulfo e Chico Xavier (nascido em 1910). O espiritismo brasileiro segue
também as orientações originais do kardecismo: educar e aliviar o sofrimento. Sua influência entre
as classes médias deve-se em parte à ligação destas com o modelo europeu. As classes pobres que
começavam a migrar para as cidades adotam alguns elementos do kardecismo (a doutrina da
reencarnação e a comunicação com os espíritos), mesclando-os com elementos do catolicismo e das
tradições afro-indígenas. Esse processo vai esta na origem da umbanda, que surgiu nos anos 30 do
século passado.
O Brasil é o país que tem mais espíritas no mundo. Trata-se de um movimento
essencialmente urbano, com uma presença importante no Rio, São Paulo, Paraná, Santa Catarina,
Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Salvador, Vitória, Recife e Fortaleza.
As atividades principais do espiritismo no Brasil são de tipo medicinal e educacional. O
espiritismo comanda uma série de escolas profissionais, creches, orfanatos, hospitais, asilos, centros
de distribuição de medicamentos, bibliotecas, etc.
O espiritismo brasileiro tem as seguintes características próprias: 1) dimensão religiosa. O
pensamento de Kardec, que buscava ligar ciência, filosofia e religião, é interpretado no Brasil como
obra cristã (Deus, Cristo e caridade), com traços de uma religião; 2) preocupação em oferecer não
só respostas para as questões metafísicas, mas à gestão da saúde, que se traduz em trabalho junto a
centros de saúde importantes; 3) orientação comunitária mais que individualista.
Com relação à umbanda, o espiritismo tem diferenças importantes: 1) a sobriedade e a
austeridade das seções espíritas se distingue da exuberância ritualista da umbanda; 2) o desapego do
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mundo e da matéria diante da exaltação simbólica da matéria e da valorização das pulsões do corpo;
3) o espiritismo calmo, verbal e gráfico, diante de um espiritismo exuberante e sensual; 4) a cura
das almas que ensina a se desapegar dos corpos, e uma cura motora que se expressa na música e na
teatralidade; 5) no kardecismo a mediunidade não é um valor em si (só os espíritos europeus
merecem ser incorporados), enquanto na umbanda o médium é possuído pelas figuras pertencentes
à marginalidade da história do Brasil (caboclos e pretos velhos); 6) os comportamentos valorizados
pelo espiritismo são ligados aos valores da classe média (ordem, progresso, caridade), enquanto na
umbanda os valores são os da classe popular (politeísmo de valores e polifonia de
comportamentos).
Com relação ao catolicismo, o espiritismo considera que não existe oposição entre as duas
religiões. Por isso, a maioria dos espíritas brasileiros se dizem católicos. Referem-se ao evangelho e
à moral da Igreja. O espiritismo brasileiro é marcado pela cultura brasileira e sua intimidade com os
santos, os orixás e os eguns. Ele se funda na crença nas relações permanentes entre o mundo visível
e o invisível. No Brasil, o espiritismo se baseia em quatro livros: O Evangelho segundo o
espiritismo; O livro dos espíritos; O livro dos médiuns; O Céu e o inferno. O espiritismo
desenvolveu no Brasil a dimensão terapêutica. Distingue vários tipos de doenças: kársticas:
consequência das vidas anteriores, do mal passado do espírito; não kársticas: resultado da vida
presente do indivíduo; causadas por um terceiro: vítima de magia negra ou da influência de espíritos
de baixa espiritualidade. Esses dois últimos tipos de doença têm cura. O primeiro não. Trata-se de
uma punição e de uma redenção da conduta da vida anterior. Toda a ação curativa passa pela
moralização e pela intervenção dos espíritos superiores. A medicina espírita recorre também a
médicos desencarnados que efetuam, via médiuns, as prescrições ou as cirurgias. Homeopatia:
recurso mais importante.
A reencarnação na nova era
A teoria reencarnacionista mais recente é a da nova era. Esta corrente busca nas religiões e
filosofias do Oriente e do Ocidente sua própria visão de mundo. Trata-se de um sincretismo que
recorre às antigas tradições da gnose grega, à diferentes correntes esotéricas, às filosofias e religiões
orientais, especialmente o tantrismo, a astrologia, o espiritismo.
Trata-se de uma ajuda eficaz para viver o cotidiano, combater o stress gerado pela
competição profissional, o medo do desemprego. A maioria dos adeptos da nova era estimam que as
grandes religiões instituídas são ultrapassadas, pois pelo dogmatismo e pelo ritualismo elas
sufocaram a possibilidade de realização real da pessoa, de comunhão com as energias cósmicas. A
ciência também levanta novas perguntas sobre a origem do mundo, as relações entre a matéria, a
vida e a consciência. Como as ideologias que explicavam e orientavam o mundo morreram, existe
um lugar para uma nova ideologia.
A nova era se funda na certeza de estar na aurora de uma mutação fundada no fato de que
entramos num novo período astrológico, a era de aquário, que se anuncia como uma era de
harmonia e de justiça, de paz, de comunicação e de mutações psíquicas profundas. Paralelamente a
esta evolução astro-histórica, uma outra mudança importante está acontecendo, a da formação do
super-cérebro de Gaia, que vai levar à unificação da humanidade pela mistura das populações. Esta
interatividade planerátia (satélites, Internet, etc.) conduz à uma globalização da informação e da
cultura. A humanidade possui um sistema nervoso planetário que integra a todos.
A única realidade que constitui todos os elementos do mundo visível e invisível é a energia.
Tudo o que existe nada mais é do que vibração energética, manifestação e um só e único espírito.
Tudo é emanação desta energia espiritual transcendente.
Tudo pertence à energia ou à consciência universal. A unidade do universo repousa sobre
esta visão global, sintética do mundo físico, mental, espiritual que não são mais justapostos, mas
formam um todo orgânico e divino. Cada um participa desta única realidade universal (holismo). O
mundo é um conjunto de energias (físicas, afetivas, intelectuais, espirituais). Segundo este holismo
panpsiquico, tudo pensa. Tudo possui uma atividade mental. Deus não é pessoa, mas a mais alta
vibração, a energia suprema do cosmos e a inesgotável reserva de energia da qual participamos em
diversos graus.
A transformação da consciência pessoal é outro grande tema da nova era. Para os filhos do
aquário, o espírito humano atingiu um novo estágio de sua evolução. É preciso abandonar o “eu”
para ter acesso a uma consciência trans-pessoal. Esta transformação é o objetivo das técnicas
propostas pela nova era. Desde o séc. XIX raciocinamos no quadro da racionalidade científica e
técnica. Este era o modelo de nosso pensamento e ação. É preciso mudar de mentalidade e adota
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uma visão global, um novo paradigma. Para se entrar neste novo paradigma é preciso curar-se da
forma antiga de ver e agir. É preciso descobrir o “eu” profundo. Para isso várias técnicas podem
ajudar (respiração profunda, mantras, atividades de criação, seções de hipnose, todo tipo de
meditação: zen, yoga, budismo, tantrismo, etc.). Estas técnicas ajudam a provocar estados de
consciência modificados e comunhão com a realidade, um sentimento oceânico, de plenitude, bem
estar, modificação na percepção do tempo.
Segundo a nova era, nosso corpo físico é duplicado por corpo sutil, que o contém e sustenta.
É preciso habitar nosso corpo e fazê-lo comunicar com a consciência. Cada um pode auto-curar-se
pela meditação, a ação mental ou a homeopatia.
Pelas técnicas de relaxamento e de respiração os adeptos da nova era acreditam poder voltar
à vida fetal ou às vidas anteriores (técnicas rebirth e lying). A consciência pode em sua extrema
expansão atingir a última realidade que é presente no mais profundo do “eu” e que se une com o
divino.
A transmigração das almas faz parte das crenças da nova era, sobretudo desta busca de
retorno ao mais íntimo do “eu”. A nova era adota a concepção esotérica dos teósofos e dos
antropósofos a respeito dos sete níveis de participação na energia cósmica e dos sete planos
correspondentes no homem. Pela expansão da consciência, através de técnicas apropriadas, o
homem pode subir a escala dos sete corpos que o constituem, que correspondem a sete estados de
consciência. Atingindo o cume destas diferentes emanações, ele poderá entra em perfeita harmonia
com a energia divina ou a consciência universal. Na verdade, todo esse processo nada mais é que
uma espécie de interpretação do hinduísmo: “atman é braman”, o “eu” individual é o “eu”
universal.
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