Helcias Bernardo de Pádua Mitos, crenças e folclore

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INSTITUTO SERRANO NEVES – AMIGO DO LAGO DA SERRA DA MESA
Helcias Bernardo de Pádua
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Mitos, crenças e folclore
Reflexões - Série: Água - Parte 25
outubro/2005
hbpádua
O ato de conhecer, de aprender,
exige do homem uma postura impaciente,
inquieta, indócil. - Paulo Freire
Pois é..., estou procurando fazer modestas incursões antropológicas, filosóficas mitológicas e
holísticas. Para o (meu próprio) entendimento e desenvolvimento dos pretensiosos, porém esforçados,
próximos artigos não só sobre o tema “Água: verdades e mitos”, desta série, acho conveniente e
corajosamente necessário transcrever, relembrar aqui, partes do texto de um trabalho de Glaucio
Gonçalves Tiago, pesquisador científico do Instituto de Pesca/SP, mesclados com alguns comentários e
talvez não tão vigorosas reflexões. Repensando, sempre repensando.
O que é mito?
Santo Agostinho em suas Confissões (xi. 14), respondeu: “Sei muito bem o que é, desde que ninguém
me pergunte; mas quando me pedem uma definição, fico perplexo”, relembrou Ruthven (1997), que
continua e completa: “os mitos são imunes à explicação racional, mas estimulam as pesquisas racionais;
existe uma grande diversidade de interpretações contraditórias e nenhuma delas possui o alcance
suficiente para explicar definitivamente o que é mito. Neste sentido, a mitologia faz parte de um campo
que engloba uma variedade de conhecimento e disciplinas: os clássicos, a antropologia, o folclore, a
história das religiões, as crenças, as lendas, a lingüística, a psicologia, a filosofia e a história da arte.
Somente catalogar os matizes da palavra “mito” e dos seus cognatos (mythos, mythus, mytologem, etc.) já
seria uma tarefa muito complicada.
Bourg (1997) afirma que num assunto tão passional, como o das relações do homem com a
natureza, abundam idéias preconcebidas, (são mitos, lendas, crenças e suposições tidas como verdades?),
de todos os gêneros, e, assim, a qualidade dos debates ecológicos não melhora. Deve-se ter pragmatismo
com relação ao que se refere às condições ecológicas ou respeitar histórias, folclores, crenças e mesmo a
psicologia dos seres entre si?
Entre os nossos contemporâneos, muitos pensam que é possível dividir as sociedades ocidentais,
em: - intrinsecamente nocivas ao ambiente e, do outro lado, as sociedades vivendo e, principalmente,
tendo vivido em simbiose com a natureza. As primeiras teriam colocado o homem no centro do universo,
(antropocentrico), enquanto as segundas lhe teriam concedido um lugar muito mais modesto, porém
fazendo parte, interagindo, pois então, uma associação, onde tudo é recebido, devolvido, distribuído e
redistribuído, num ciclo contínuo.
Esta separação entre as culturas antropocentristas e as outras que não o são, com certeza,
dificilmente persiste a um exame mais apurado, o que não deve no entanto impedir-nos de procurar
compreender a modernidade e a especificidade das nossas relações com a natureza, sem nos esquecer que
tudo no mundo foi, é e será conseqüência de ações, as vezes corretas e outras nem tanto. Seria causalidade
ou seja uma relação de causa e efeito?
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Levantemos algumas polêmicas, como a da “Teoria do Direito Natural” de Hobbes tendo como
primeira Lei da Natureza: “O conceito de autopreservação e auto-engrandecimento, que é exercido através
dos mais diversos truques ou crueldades para poder provar esta possibilidade” (Evernden, 1992). Isto
permitiria ou permitiu todo o tipo de crueldade para o estabelecimento da sociedade civilizada, (será?),
moderna. Neste ponto de vista, a dominação da natureza não é somente um direito, mas uma obrigação:
“A natureza deve ser domesticada, não preservada”. Isso seria possível, como um todo?
Vejamos..., exemplo bem atual são os efeitos dos ciclones, que nascem nos oceanos, bem longe, porém vão
tomando ou perdendo força. São ações físicas, climáticas, etc., portanto palpáveis, calculadas e de
possível estudo e parcialmente previsíveis, pelo menos atualmente. Vejamos o recente furacão Rita/USA
que inicio como um ciclone extratropical, ganhou força e perdeu, terminando classificado como ciclone
tropical, mas mesmo assim ocasionou danos diversos. “ ...Rita levou meu sorriso; ...levou os meus sonhos;
... os meus desenganos; ... além de tudo, deixou mudo...”
Esses fenômenos, no caso, podem ou não atingir o continente. São de início massas de ar, nos
mares. Revoltas e revolvendo massas d’água, se juntando, atingindo o continente, (a terra) e daí sendo
denominado de furacões, ou tornados, (dependendo da magnitude - ver artigo parte 24, desta mesma
série), causando destruição, alagamentos e mortes. É a força da natureza que deve e pode ser dominada
ou não adianta*?
*Obs. - recurso da “maiêutica”, ou seja, a arte de mostrar ao interlocutor, por meio de perguntas, as
verdades do objeto em questão. Pura filosofia socrática.
Neste sentido, a possibilidade de existir uma coisa chamada “natureza” como algo significativo
para o desenvolvimento científico, assemelha-se a um peixe possuir uma coisa chamada água. Sem a água
o peixe não viveria ou sem a natureza a ciência não existiria. Correto? Com a ciência, o que antes era
algo invisível, pré-consciente, torna-se objeto para exame e descrição.
A ciência pragmática leva à um progresso, ao desenvolvimento, à novas descobertas. É bom? Faz
bem?
Eu, Helcias, autor, costumo repetir o que ouvi de um antigo mestre: “todo progresso deve ser
almejado, esperado, desejado, bem vindo; porém gera necessidades, as vezes não tão boas”. Ou seja, tudo
tem o seu preço. Vocês gostariam de voltar a época dos lampiões, andar somente a pé, se comunicar via
batidas de tambor ou uivos, apitos, etc.? Em compensação temos ao internet, os produtos tecnológicos, os
medicamentos, melhores carros. Vemos ampliada a nossa expectativa de vida. Acompanhando temos as
ações incidentes, de incidir, de sobrevir, de necessidades de refletir; ou os acidentes, de casualidades,
imprevistos, fortuitos, Ainda temos as maldades, (de mal = advérbio), desfavoráveis, nocivas; ou o seu
contrário, o bem, o benefício, o proveitoso, etc. < podendo-se falar também das maudades, (de mau(*) =
adjetivo), ruindades humanas, ou o seu contrário, o bom, coisas boas, o agradável, o generoso, etc. Tudo
isso deve ser considerado quanto às evoluções (transformações) humanas numa sociedade, ou seja
quanto ao desenvolvimento progressivo de um conjunto de coisas, de fatos, de idéias, etc.
(*)
Na mata amazônica encontramos uma ave de nome maú (sim, com acento agudo no Ú) ou
urutauí que emite sons parecidos ao berro de um bezerro
Seriam os mitos, as crenças, etc., necessárias para frear, disciplinar, orientar atitudes do ser humano
com relação ao ambiente, como um todo?
Quando a identidade é marcada só pela natureza, ela é repetitiva; e quando a identidade é
marcada pela cultura, ela é inovadora. O fruto da inovação produzido por uma nova cultura,
(introduzida), pode sobrepor práticas culturais em determinadas parcelas da população. Assim, supomos
que a cultura urbana atual (distante dos ciclos naturais não humanos) sobrepõe a cultura rural e
haliêutica (mais inserida na natureza), ocasionando uma imposição de regras sociais que não possuem
relação e fundamento nos significantes culturais relevantes para as populações de cultura não urbana,
aponta Glaucio Gonçalves Tiago.
Continuando, afirma: por exemplo, “- Populações que praticam a aqüicultura e a pesca possuem,
de maneira geral, inconscientes que transcendem aspectos temporais e remetem aos mitos relativos às
águas e às culturas e ofícios das águas.
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Quanto destas populações são culturalmente reconhecidas pelos entes governamentais na
formulação de políticas e de normas voltadas ao ordenamento destas práticas e à proteção ambiental?
Quanto destes referenciais míticos e/ou culturais são percebidos e compreendidos pelos aparelhos de
organização social, de maneira que se possibilite a criação e a operacionalização de regras sociais que
validem a maior quantidade destas práticas culturais, e, assim, legitime as regras geradas?
Diante destas questões, os aspectos míticos presentes nas variadas culturas humanas remetem-nos
inicialmente a uma abordagem epistemológica(*) sobre o significado mítico e seus correspondentes e, em
nosso caso, à relação simbólica homem/água, reflete o autor.
(*) Haliêutica = parte da biologia que estuda a ciência, a técnica e estratégias de exploração à pesca,
incluindo a aqüicultura, dos organismos aquáticos, em especial marinhos.
Epistemologia = estudo crítico dos princípios, hipóteses e resultados das ciências já constituídas;
teoria das ciências.
No que diz respeito à relação homem/natureza, a apropriação de recursos naturais é revestida de
várias estratégias dissimuladoras, com caráter oficial ou não, como, talvez, a criação de agências
governamentais regulamentadoras de atividades que utilizam recursos naturais e mesmo as ONGs, as
fundações ambientais e conservacionistas, etc.
O mito religando, relembrando fatos histórico
O mito é, assim, um dos caminhos que nos trazem a possibilidade de religação com as fontes mais
antigas de conhecimentos esquecidos. E, por isso mesmo, o mito tem um papel religioso ou crença
fundamental no que se refere à religação do homem (na natureza,) com o conhecimento espiritual, com
as suas fontes divinas, afirma Cavalcanti, (1997).
Vale relembrar um fato importante, um ato, uma ação na história do Brasil. Tudo revestido e
repassado à crenças, (misticismos). vejamos: - entre os vários mitos ou crenças cultuadas pelos negros
brasileiros, seus descendentes e seguidores diversos, vê-se a existência do mito “Preto Velho”*, como a
imagem da humildade e do saber, porém mostruário da perseverança de uma raça, da identidade de um
povo, cultuando heroicamente sua história.Visitem o Museu Afro-Brasil, no Pq Ibirapuera/SP.
*Imagem mítica e mística surgida na escravatura, após a “lei dos sexagenários”. Isso acarretou no
abandono dessas pessoas idosas, ou seja, os escravos velhos não mais produzem. Então os velhos podem
ser libertados, mas não tem como obter por si o alimento. Ficam abandonados. Permanecem nas
senzalas, só por caridade. Dá-se apenas comida e pronto.
Até hoje, no Brasil, cultua-se a imagem mística do Preto Velho, oferecendo-o água, café, feijão e fumo.
Refletimos que o nosso pais foi, na época, a última nação a abolir a escravidão dos negros,
que aqui durou 3 séculos.
(no Velho Testamento, vê-se que o povo judeu foi escravizado por 40 anos)
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Um outro exemplo da relação das crenças religiosas e fatos históricos ou figuras e grupos
históricos é a “Congada”*, representação que festeja encenando a vitória do bem contra o mal, do
reinado bom contra o mau, do santificado contra infernizado, digamos assim. Lembro-me do festejo
“Marrá Paiá”* encenação profano-religiosa característica de maravilhosa Paraty/RJ, onde entre outros
grupos de dança folclórica, os “Congadeiros” de Cunha/SP, cidade do Alto Paraíba, sempre se
apresentam. Comenta-se que em séculos passados, a apresentação de grupos de “Congada” junto à
“Festa do Divino” sofreu proibição pela Igreja do Vale do Paraíba. Em Cunha/SP esses grupos
escondidos se dirigiam à Paraty/RJ e lá se apresentavam. Tal tradição persiste até os dias atuais, sempre
se convidando os “Congadeiros de Cunha” para encenar, cantar e dançar na pequena e bela cidade
litorânea, - Paraty -. É aonde se produz historicamente, entre outras tantas iguarias, a aguardente ou
“pinga”, declamada, cantada e respeitada “Paraty”. Em Paraty não se fala em Congada e sim na festa de
Marrá Paiá, corruptela formada pela junção das palavras na frase, “amarrar as paiás (guizos)”, nas
pernas dos componentes do grupo, enquanto se versa uma canção homenageando os santos e divindades,
São José, São Benedito e o “Espirito Santo”*.
Podemos ainda citar um trabalho de Adilson da Silva Mello que teve como proposta resgatar o
mito, um fenômeno religioso chamado “Sá Marinha das Três Pontes”, da região de Cunha/SP. Na
tentativa de equacionar os fatos ele concluiu que, no caso, “muitas vezes esquecidos, fenômenos como esse
trazem em si elementos de análise que podem passar desapercebidos aos pesquisadores. Não importa apenas
constatar sua existência, elaborar um arcabouço teórico e enquadrá-lo de forma a que a teoria possa ter
razões inquestionáveis”. Ele questionava todo marco teórico durante o processo de pesquisa de
interpretação dos dados. Muitas vezes o objeto formal da pesquisa apontava em direções diferentes
daquela pretendida durante o decorrer do processo. Cabia então, ao pesquisador, redimensionar as
posturas teóricas para que o objeto pudesse falar de forma mais clara e mostrar sua relevância.
A mitologia tentando explicar questões da natureza
Osíris, na mitologia egípcia, personificava fecundidade, a fonte total e criadora das águas. Ainda,
no Egito, para garantir a existência e continuidade da vida, a mesa de pedra talhada ou a mesa de libação
era posicionada nas margens dos rios e sobre ela derramava-se vinho que - ao escorrer pelos sulcos
sinuosos da pedra representava os meandros desses rios. O vinho era uma oferenda a Osíris, Hapi ou
Serápis. O rio Nilo era originado da união entre Osíris aquático e Ísis terrena, da qual nasceu o meninodeus Hórus.
Ainda mais, no antigo reino dos faraós era louvada pelos sacerdotes a importância da água, pois,
para eles, as coisas presentes no mundo só podiam existir graças à ação da umidade. As águas
provenientes dos templos eram dádivas dos deuses que os súditos consideravam sagradas.
As Nereidas, na criação grega, eram originadas da união entre o Mar e os Rios. O Céu e a Terra
(Gaia) eram para os gregos os símbolos masculino e feminino que, através da fertilização das águas,
produziam a vida, a qual passava a ser regida por Eros.
Aristóteles por sua vez já pregava que: "Os rios se originariam da água da chuva e da
condensação no solo da umidade do ar no interior das cavernas nas montanhas que davam origem aos
mananciais". Nada mais correto, sabemos hoje em dia.
Nas tradições religiosas afro-brasileiras, a divindade reinante sobre as águas do mar e que
habitava
na
capital
religiosa
dos
Iorubás,
Ifé,
tem
o
nome
de
Yemanjá
Os Mitos da Água
A Mitologia é um dos repositórios do conhecimento humano. Assim, através da interpretação dos
mitos, alguns autores desenvolvem um trabalho que tem como finalidade resgatar este conhecimento
adormecido no inconsciente, restaurando e vitalizando o significado mais profundo contido nestas
narrações.
Raíssa Cavalcanti, no livro “Mitos da Água”, trabalha na recuperação dessa memória ancestral e
faz uma investigação do processo evolutivo e da finalidade espiritual da vida humana. Desta forma,
seleciona mitos relacionados com a água, considerada um dos elementos essenciais formadores da vida, a
“Prima Matéria”, pois acreditamos que o projeto evolutivo do homem está ligado à evolução do cosmo
como um todo. A antropogênese está relacionada à cosmogênese.
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Assim, por exemplo:
• O Bhagavad Gita concebe Deus como a origem do universo e em cuja natureza há oito formas
elementais: terra, água, fogo, ar, éter, mente, razão e consciência individual.
• Os filósofos pré-Socráticos sustentavam que o Universo é gerado de uma matéria única e original, “a
Prima Matéria”, que, para Tales de Mileto era a água; para Anaximandro era o Apeiron, o ilimitado;
para Xenófanes de Cólofon era o mar, fonte de água e vento; para
• Heráclito de Éfeso era o fogo, o fogo periódico e eterno é Deus; e para Aristóteles era a Prima
Matéria, a potencialidade sem forma.
• No panteão grego, Zéus de Dodona era o Senhor dos quatro elementos (ar, terra, água e fogo), que em
Roma era similar a Júpiter Mundos.
• Para os Hindus era Brahma com quatro faces, rei dos quatro elementos.
• Gregos, hindus e judeus acreditavam em um 5º elemento, o éter, que é a síntese dos outros elementos.
• Para Platão, os quatro elementos eram "Aquilo que compõe e decompõe os corpos compostos". O
fogo, o ar, a água e a terra eram somente o revestimento aparente, os símbolos das Almas ou Espíritos
visíveis que tudo impregnavam de vida.
• Para Platão e os Pitagóricos, a substância primordial é a Alma do Mundo, impregnada pelo espírito
daquele que fecunda as Águas Primitivas.
• Na Cabala, o Ain-Sofh, o Deus-Deus, o Não-manifesto, o incognoscível, (que não se pode conhecer), e
manifesta através dos dez Sefirot. O infinito imutável não pode querer pensar e atuar, e para fazê-lo
deve converter-se em finito, através de Sephira, o poder ativo. Quando o poder ativo surge dentro da
unidade, ele é feminino. Quando assume o papel de criador, ele é Masculino. O Sephira feminino é o
grande mar, as Águas Primordiais. Da dualidade de Sephira surgem os outros sete sefirot (luzes,
nomes, estágios,...). Sefirot é o tecido de conexão entre o Deus infinito e o mundo finito. A água é um
sefirot, uma das formas elementais através das quais a unidade infinita, o eterno não revelado, se
manifesta
• Para os alquimistas, a água é uma das representações da substância primordial.
• Na cultura hindu, o ovo cósmico, Bramanda, foi chocado na superfície das águas (prakiti).
• No Egito, o Deus eterno Kneph era representado por uma serpente enroscada em um vaso de água.
Para os polinésios, as águas primordiais eram mergulhadas nas trevas cósmicas, até que Io, o Deus
supremo, exprimiu o desejo de sair do repouso. Para os Taoístas, a água é o sopro vital (prana).
A água como “prima-matéria”
Todas essas concepções filosóficas são tentativas de explicar o mistério das origens do universo,
cuja complexidade é incompreensível ao ser humano. Psicologicamente, a Água é o reservatório de toda a
pulsão devida. A noção da água como fonte primordial da vida é considerada universal. Na maioria das
religiões, a água é a “prima-matéria”. A maior parte das cosmogonias considera a água o mais antigo dos
elementos. Nas culturas judáico-cristãs, é o símbolo do 1º lugar, a origem da criação, a semente, o "men”
(M) que simboliza a água sensível da qual tudo se origina. M é a mais sagrada das letras, é masculina e
feminina e simboliza a Água original.
A água é a expressão imanente do transcendente, é uma hierofania, a manifestação do sagrado,
um modo de aparição de Deus. Mitos da água são uma discussão sobre a origem, o desenvolvimento e a
finalidade última do ser (espiritual).
O porque dos mitos masculinos e femininos
O Oceano é muitas vezes considerado como a água primordial. Na tradição antiga, o Oceano é um
imenso rio, que circunda o mundo terrestre. Para os gregos, o Oceano é o rio-serpente, o rio-oceano
(Ésquilo em Prometeu Acorrentado). Oceano é representado por um "Velho sentado sobre as ondas,
empunhando uma lança numa das mãos e, na outra, segurando uma urna da qual despeja água. Ao seu
lado sempre aparece um monstro marinho". Oceano é o 1º Deus das Águas, o mais velho dos Titãs, é
considerado o pai de todos os seres. Filho de Urano e Géia (os pais do mundo): “É um fluxo, um limite e
uma barreira entre o mundo e o além". Oceano uniu-se à irmã Tétis, a mais jovem das titanisas, e com
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ela gerou mais de 3000 rios e 41 filhas chamadas oceânicas. Estas personificam os riachos, fontes e
nascentes. Para Homero, todos os deuses eram originários de Oceano e Tétis.
É como filho do Céu e da Terra que Oceano dá continuidade à função procriativa e criativa dos
pais. O mundo uraniano constitui o estágio de perfeição paradisíaca do não-nascido, daquilo que ainda é
pura idéia, vontade divina da manifestação material. Oceano dá inicio ao estágio dos "nascidos", é um
"Pai do Mundo", pois materializa aquilo que em Urano era idéia.
O Deus Oceano simboliza o masculino gerador-criador e não somente o masculino copulador de
idéias, como Urano. Oceano e Tétis são uma parelha cósmica, o casal primordial, pais de todos os seres,
"pais do Mundo". As águas femininas e masculinas são símbolos da união das polaridades contidas na
totalidade divina "Pai-Mãe". O desenvolvimento da consciência humana é dado através da separação
entre masculino e feminino. São arquétipos primordiais do masculino e feminino que fornecem a base
arquetípica da identificação sexual, que retira o indivíduo da onipotência e o coloca como sujeito
incompleto no mundo. Oceano não possui um lugar determinado. É o limite entre o mundo arquetípico,
pré-formal, e o mundo sensível das formas.
O Mar, como o Oceano, é o símbolo do princípio de todas as coisas. O Oceano representa as Águas
superiores, a matéria prima indeterminada, a calma, a tranqüilidade profunda, e o Mar representa as
Águas inferiores, as possibilidades formais, a agitação, o dinamismo da vida (ondas). O Mar representa,
melhor que o Oceano, a dinâmica da vida e da morte, do começo e do fim, tudo se origina e retorna a ele.
Os Velhos do Mar (Fórcis, Proteu e Nereu) são personificações do aspecto antigo e primordial do
Mar. Proteu é o que melhor encarna esta ancestralidade, a origem. Proteu é o protógono, o primogênito.
Proteu representa a ancestralidade do Mar e do homem e corresponde aos símbolos gnósticos,
(esotéricos), de fundamento do mundo, ou arcanum. Os Velhos do Mar representam o homo perfectus
(Teleios), o homem cósmico. A sabedoria, a bondade, e a justiça do inconsciente coletivo. Os Velhos do
Mar representam, acima de tudo, o reservatório de conhecimento ancestral, que está à disposição
daquele que procura a individuação.
O símbolo do peixe
Em inúmeras tradições religiosas, o peixe é o possuidor da função de revelação. A soberania e a
santidade são distribuídas pelos gênios marinhos em forma de peixes, serpentes ou dragões. A força
mágico-religiosa era transmitida aos heróis por seres míticos femininos com “cheiro de peixe”. O peixe
na Alquimia possuía esta qualidade simbólica de orientador e de revelador de um processo, de um
caminho a ser seguido pelo adepto.
No Cristianismo, o símbolo do peixe foi amplamente utilizado:
a) O ideograma de Cristo é “ICHTUS” (peixe em grego) = “Iesus Christós Theou Uios Soter” = “Jesus
Cristo, filho de Deus, Salvador”;
b) Cristão são os pequenos peixes (pisciuli);
c) Cristo é um salvador e um pescador;
d) A pia batismal é chamada de piscina, que é um tanque de peixes;
e) O peixe é um sinal secreto de reconhecimento;
f) O peixe é o alimento do corpo e do espírito, como o pão.
O peixe geralmente está associado à fecundidade que provém do amor. Matéria e espírito, sagrado
e impuro. Assim como Tritão, o peixe é considerado uma potência fálica. É representado pelo losango,
que é a união entre as potências masculinas e femininas, a vulva e o falo. Tritão representa a idéia mais
arcaica da energia cósmica, que é tanto masculina e feminina, positiva e negativa, e que está presente em
todos os humanos.
Para Hesíodo, Tritão é o Deus da força-ampla, um complexo e profundo símbolo do Self (para
Jung, o Self é o fator de orientação mínima, o centro regulador).
A lenda de Glauco: De homem a Deus marinho. Para Anaximandro, o homem é um filho do mar,
do inconsciente cósmico, que caminha evolutivamente em busca da realização de sua humanidade.
Glauco, o Deus marinho, é filho de Posídon e de uma ninfa do mar chamada Naís. Nasceu mortal, mas,
um dia, tendo posto sobre as ervas da margem uns peixes que acabara de pescar, notou que eles se
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agitavam de um modo extraordinário e se lançavam ao mar. Acreditou que estas ervas possuíam uma
virtude mágica, provou-as e tornou-se um Deus Marinho. Posídon e Tétis despojaram-no do que tinha de
mortal e o admitiram como um Deus.
O processo de individuação, de busca da totalidade, pressupõe uma atitude de luta e integridade
na busca da consciência, além do conhecimento e a fé na unidade da vida espiritual e na imortalidade do
espírito. No caso do mito de Glauco, o seu processo não é marcado por nenhuma dificuldade. Ao
contrário, a sua descoberta da planta da imortalidade quase se dá por acaso. Ele não teve que trilhar
nenhum caminho penoso e muito menos enfrentar ou matar um monstro para conseguir a planta da
imortalidade. Mas, como Jung provou que o acaso não existe, a descoberta de Glauco aconteceu porque
ele estava preparado para “ver”, para o ato de conhecer, porque ele era um pescador. O pescador é,
simbolicamente, aquele que se dedica ao ato de buscar no inconsciente, de “fisgar” o alimento da
sabedoria para a consciência. Ele dedicava a sua vida à pratica do conhecimento e era possuidor da
virtude da sabedoria, já era um iniciado.
De forma geral, os mitos afirmam que o conhecimento, o criar consciência, é o caminho para a
imortalidade. O conhecimento do bem e do mal retira o indivíduo do estado de alienação e o torna capaz
de “ver” onde se encontra a Árvore da Vida ou a planta milagrosa que lhe dará a imortalidade, ou o
conhecimento da eternidade do espírito. Glauco estava capacitado para “ver” e acreditou no que via.
Apenas os peixes, o seu guia interior e os símbolos do Self foram os sinais que lhe apontaram o caminho
da verdade. Glauco morre para o mundo profano e renasce para o mundo espiritual.
Aquele que já provou dos frutos da Árvore da Ciência é um iniciado porque conhece o bem e o
mal, se humanizou, e assim está preparado para comer os frutos da Árvore da Vida. Toda pessoa que se
dedica ao ato da investigação do inconsciente com a finalidade de obter o conhecimento de si mesmo e da
vida é um pescador. O conhecimento do mundo reside dentro de cada um. O novo Deus Marinho pode
ser definido como aquele que sai da condição histórica, abandona o devir humano para fazer o caminho
de volta, a reconciliação com o inconsciente, com a totalidade cósmica.
O pensamento hermético concebe que a “Totalidade” é tanto o início quanto o encerramento de
um processo, e isto constitui o segredo hermético, o que Jung e a psicologia junguiana, mais tarde,
chamarão de individuação. A entrada para dentro de si mesmo corresponde à imersão, ao banho ritual.
O costume do banho ritual, que depois tomou a forma do batismo, foi amplamente usado pelo
cristianismo para designar os dois atos simbólicos, a imersão e a emersão. “O homem velho morre por
imersão na água, e dá origem a um ser novo regenerado”. A própria água é um chamamento para a
nudez como sinônimo de pureza, despojamento, abandono de atitudes antigas.
Água: Medo e Repulsa
Encerrando a parte do trabalho destinado à apresentação dos variados mitos da água, na forma
do apresentado por Raissa Cavalcanti (1997), expomos com Corbin (1989) que: “Uma capa de imagens
repulsivas impede a emergência do desejo a beira-mar”. Na visão deste autor, a interpretação da Bíblia,
particularmente a do Gênese, dos Salmos e do Livro de Jó, marca profundamente as representações do
mar. Os relatos da Criação e do dilúvio tingem-se de traços específicos do imaginário coletivo. O Gênese
impõe a visão do “Grande Abismo”, lugar de mistérios insondáveis, massa líquida sem pontos de
referência, imagem do infinito, do incompreensível, sobre a qual, na aurora da Criação, flutuava o
espírito de Deus. Essa extensão palpitante, que simboliza, ou melhor, que constitui o incognoscível, é em
si mesma terrível. Não existe mar no Jardim do Éden.
A cosmologia sagrada, evocada em linhas gerais, impõe ao mar e às criaturas que o habitam
certos esquemas de apreciação e lhes confere um forte valor simbólico. Através da figura do Leviatã, “o
monstro que habita o mar”, a Bíblia consagrou o caráter teratológico do peixe. Isso, aliás, é uma
decorrência lógica do relato da Criação. O oceano, recipiente líquido dos monstros, é um mundo
condenado em cuja obscuridade se entredevoram as criaturas malditas. A Igreja representa a figura do
barco, o Espírito Santo, a do timoneiro que conduz ao porto eterno, objeto do desejo do cristão, enquanto
o pecado faz derivar para longe da rota da salvação. O mar também é interpretado como um símbolo do
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purgatório, à imagem de uma travessia que pode ser, para o pecador surpreendido pela tempestade
punitiva, a ocasião do retorno ao caminho correto.
Conforme Corbin (1989), a reinterpretação dos textos antigos pelos humanistas (Horácio, Tibulo,
Ovídio, Sêneca, Aristóteles, Defoe, Montesquieu etc.) assim como a busca e a contemplação da arte da
Antigüidade impõem outras imagens do mar e de suas praias, que vêm se combinar com aquelas
derivadas da tradição judaico-cristã, formando-se um catálogo de imagens repulsivas do mar e de suas
costas; elas se enraízam num sistema de representações anterior à emergência do desejo da beira-mar.
Assim, desde o séc. XVII operou-se uma mudança que possibilita um novo olhar sobre o oceano: o
desenvolvimento da oceanografia na Inglaterra (entre 1660 e 1675); uma efêmera atenção dada por
poetas barrocos às maravilhas marinhas; os cantos idílicos dos profetas da teologia natural; a exaltação
das praias fecundas da Holanda, abençoada por Deus; e a moda da viagem clássica às margens luminosas
da baía de Nápoles.
Diegues (1998), versando sobre o universo insular, expõe que “As sociedades insulares são
fundamentadas nos conceitos de maritimidade, insularidade e ilheidade. Não é a presença material do
mar que se revela como elemento básico das sociedades insulares, mas sim as práticas sociais e simbólicas
desenvolvidas em relação ao mar”. Na maioria das vezes, o mar é visto por vez como fator de contato e
em outra de isolamento, dependendo do tipo de relação que as sociedades insulares mantêm com o
exterior.
Bibliografia recomendada
• Bourg, D. - Os Sentimentos da Natureza. Lisboa. Instituto Piaget. 268 p.. 1997.
• Cancini, N. – Culturas híbridas. EDUSP.
• Cavalcanti, R - Mitos da Água. São Paulo. São Paulo. Ed. Cultrix. 264 p. 1998
• Corbin, A . - O Território do Vazio. A Praia e o imaginário Ocidental. São Paulo. Editora Schwarcz /
Cia. Das Letras. 385 p. 1989.
• Diegues, A. C. – Ilhas e Mares: Simbolismo e Imaginário. São Paulo. Ed. Hucitec. 272 p. 1998
• Evernden, N. - The Social Creation of Nature. Baltimore. The Johns Hopkins University Press. Cap.
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• Godelier, M. - Antropologia. São Paulo, Editora Ática. 208 p. 1981.
• Larousse - Sociedade e Cultural - Enciclopédia Compacta Brasil - Larousse Cultural - Nova Cultural
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• Mollat, M. - La vie quotidienne des gens de mer en Atlantique (IX-XVI). Paris. Hachette Literature.
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• Nogueira, S. – Use bem o mal. Diário de S.Paulo/SP-SP. Aula diário; Economia, 2ª edição; Sábado,
24/09/05.p.B2
• Parker, C. - Religião Popular e Modernização Capitalista, Ed Vozes, Petrópolis/RJ
• Pierucci, A F. - Reencantamento e Dessecularização, in Revista Novos Estudos, no. 49 nov/1997.
• Revista Geográfica - Revista Geográfica Universal N.º 131. Bloch Editores S.A., 1985
• Ribeiro, R. J. - A Sociedade contra o Social. São Paulo. Ed. Companhia das Letras. 232 p. 2002.
• Shirley, R.W. - O Fim de uma Tradição, Perspectiva, SP, 1971.
• Ruthven, K. K. - O mito. São Paulo. Editora Perspectiva. 126 p. 1997
• Tiago, G. G. - Mitos das águas: a cultura haliêutica e seus poderosos significantes ancestrais
Bacharel em Ciências Biológicas e em Ciências Jurídicas, MSc em Ciência Ambiental (Procam/USP,
Instituto de Pesca/SP).
Site(s) e e.mail(s)
• http://www.grupoaruanda.com
• Informações: Secretaria Municipal de Turismo e Cultura. [email protected] :
Prefeitura Municipal da Estância Climática de Cunha
• Mello, A.S. - Análise de uma Devoção: Repensando os Elementos Interpretativos:
[email protected]
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Outras informações –
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Cunha/SP = Localizado no Alto Paraíba, o município de Cunha/SP ocupa 1410 km2 de colinas e
montanhas, entre as Serras da Quebra-Cangalha, da Bocaina e do Mar, recebendo, em 1948, o título
Estância Climática. Na região têm-se uma das mais fortes manifestações artísticas destacando-se a
cerâmica de alta temperatura, com tradição forte desde a época dos índios que já trabalhavam com o
barro, tendo continuidade com as paneleiras, que fabricavam panelas e potes de barro na roça. Destacase também as manifestações folclóricas, entre elas os grupos de congadeiros, (Congada da Barra de J.
Alves, Congada de São Benedito dos Campos de Cunha) e eventos religiosos como a Festa do Divino, etc.
Famosas são as narrativas da curandeira “Sá Maiinha das Três Pontes”, Maria Guedes, nascida em
1882, em Cunha/SP. Narra-se que quando tinha 13 anos, no Bairro das Três Pontes (Jacuí), inicia-se
sua história de milagres, aparições, curas, etc. Curandeira e vidente apresenta um quadro circundado
pelo mistério, característico de seu universo cultural. Personagens de grande importância no universo
que envolve os curandeiros de Cunha. Conta-se da água da fonte, do rio, das aparições, da imagem,
sem antes citar seu retorno. “Não leva ela pra sepultar, que num tá morta”.
Paraty/RJ = Município situado no litoral sul-fluminense e entrecortado por praias e montanhas, (Serra
do Mar-Mata Atlântica), formando esplêndido panorama com o verde da montanha, o azul do céu e o
cristalino das suas águas. Sua formação remonta à 1640 como Vila da Nossa Senhora dos Remédios,
sendo por muito tempo usada, como ponto e porto de onde saiam para Portugal, o ouro e pedras
preciosas vindas de Minas Gerais. As trilhas na região das suas montanhas eram visadas por
contrabandistas, piratas e saqueadores, (bucaneros). Elevada à Condado de Paraty em 1813. A cidade é
considerada Patrimônio Histórico Nacional, Paraty mostra suas igrejas, casarões ladeando suas estreitas
ruas centrais calçadas com pedras irregulares e adaptadas a receber e escoar naturalmente as águas das
marés. Seu litoral exibe muitas ilhas e praias com águas super cristalinas. Este autor identificou insetos,
mamíferos e um caso em ser humano da leishmaniose tegumentar americana, já em 1973/4, num
lugarejo ao sopé de uma das suas montanhas, sendo que ainda são apontadas “leishmaniose
tegumentar” em mamíferos, (cães, etc.), pelo Inst. Osvaldo Cruz/RJ, infestação causada pela
Leishmania, parasita transmitido pelo mosquito flebotomo.
Congada = Bailado popular que acontece em algumas regiões do Sul e Sudeste brasileiro, como nos
estados do Paraná, São Paulo, (meu pai - o velho Orestes - dizia ter sido congadeiro lá em
Sorocaba/SP), em Minas Gerais, e também no Nordeste, na Paraíba. Esta manifestação cultural tem
origem no catolicismo e nas sangrentas histórias de guerra do povo africano, como a do assassinato do
rei de Angola, Gola Bândi. Na congada dramatizam uma procissão de escravos feiticeiros, capatazes,
damas de companhia e guerreiros que levam a rainha e o rei negro até a igreja, onde serão coroados.
Durante o cortejo, ao som de violas, atabaques e reco-recos, realizam danças com movimentos que
simulam uma guerra. Algumas danças africanas, trazidas para o Brasil pelos escravos vindos de diversos
pontos da África — Congo, Guiné, Moçambique, Angola — eram danças guerreiras. No Brasil, os
missionários católicos conseguiram conservar estas danças guerreiras e renomeando-as, introduzindo
elementos de cristianismo, colaborando assim para a preservação e transformação do valioso folclore
negro. Os escravos, que na sociedade colonial constituíam-se simples instrumento de trabalho, tinham,
graças à influência da igreja, a permissão de comemorar certos dias do ano, com festas. Estes dias eram
comemorados com a congada, permitida pelos patrões e pelo igreja; com o batuque, condenado pela
igreja, e com a macumba, condenada pelos patrões e pelos padres. O batuque, dança erótica, recebeu a
condenação da igreja e a congada foi por ela prestigiada. Na Congada, o seu participante integrava uma
confraria religiosa. O negro, que é menos individualista do que o branco, procura sempre associar-se,
formar grupo de cooperação. Então, formavam grupos que, às vezes, se desentendiam, como acontecia
com os congos e moçambiques, disputando sempre: daí nunca terem o mesmo lugar na procissão. Os
negros eram colocados no começo dos cortejos religiosos, ao lado dos meninos, costume que deu origem
à seguinte crença: "Não vindo a irmandade de São Benedito à frente é chuva na certa". Como diz
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Alceu Maynard Araújo, a razão de ser da congada no passado era transferir, sublimar o instinto
guerreiro do negro em fator criador, religioso: negro cristão versus negro pagão. Sublimada a atitude
guerreira do negro era ao mesmo tempo uma defesa para o branco. Deste ele tinha ressentimentos que se
traduziam pela agressividade. Unindo-se os negros podiam fazer valer os seus direitos.
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Festa do Divino = Instituída em Portugal nos primeiros anos do século 14 pela rainha Isabel, mulher de
D. Diniz, quando construiu a igreja do Espírito Santo em Alenquer. No Brasil começou se popularizar
no século 16. Informa-se que chegou ao nosso pais no mesmo século. Há indícios de que, no Maranhão,
ela tenha chegado com os açorianos entre 1615 e 1652, (séc. 17). Na região suldeste costuma ser
celebrada desde o século 17 e, nestes mais de quatrocentos anos, a comunidade de Paraty/RJ conseguiu
preservar a tradição religiosa e folclórica, festejando e homenageando a Terceira Pessoa da Santíssima
Trindade com muita originalidade, (a Igreja Matriz, ou Nossa Senhora dos Remédios, e as ruas do
Centro Histórico ficam inteiramente decoradas com esmero pelas senhoras da paróquia e pela comissão
da festa). É celebrada ainda no Rio de Janeiro, em outras muitas cidades de São Paulo, Minas Gerais,
Paraná, Santa Catarina, Maranhão, Amazonas, Espírito Santo e Goiás, com missa cantada, procissão,
leilão de prendas e as manifestações folclóricas peculiares de a cada região. Na preparação da festa
realiza-se uma folia, com a bandeira do Divino, para arrecadar fundos e são armados coretos, palanques
e um trono para o imperador do Divino. Trata-se de uma criança ou adulto que, durante a festa, exerce
poderes majestáticos, chegando até a libertar presos comuns em algumas regiões de Portugal e do Brasil.
A festa do Divino é uma festa religiosa móvel, que dura em torno de dez dias e termina no domingo de
Pentecostes, no mês de maio. O dia de Pentecostes, data em que a Igreja Católica comemora a descida do
Espírito Santo sobre os apóstolos, ocorre sete semanas depois do domingo de Páscoa.
Marrá Paiá = Congada, chamada em Paraty/RJ de Marrá Paiá, que é um folguedo de origem afrobrasileira com resíduos da cultura negra de Angola e do Congo. Reminiscência da antiga coroação dos
Reis do Congo no Brasil, recebendo o nome de marrá-paiá por conta dos guizos (ou paiás) presos nas
pernas dos dançarinos, que dão ritmo à dança.
Pinga – Cachaça: = pinga ou cachaça, (duas das dezenas de denominações), é a aguardente feita da
cana-de-açúcar; - aguardente é o álcool obtido pela destilação do caldo de vegetais (frutas, cereais,
grãos, etc.); - destilação: o processo pelo qual uma substância em estado líquido passa para o estado
gasoso e, depois, novamente ao líquido, por condensação do vapor obtido, removendo dessa forma as
impurezas; - fermentação: processo de transformação da sacarose (açúcar) em álcool etílico e água,
podendo ser natural ou química; - o álcool pode ser obtido tanto por destilação (vodka e whisky, por
exemplo) como por fermentação (cerveja e vinho). Popularmente pinga e cachaça é a mesma coisa, mas
tecnicamente e legalmente não são.
Pinga: o nome “pinga”, é bem recente, dado à uma bebida (fermentada e destilada) feita da “garapa de
cana-de-açúcar. Vem do fato que, durante a produção, na destilação, o vapor do caldo de cana
fermentado se condensa e “pinga” dentro dos tonéis.
Cachaça : a aguardente destilada a partir do fermentado da “borra ou melaço do açúcar”. Por volta de
1540 os portugueses instalaram no Brasil os primeiros engenhos para produção de açúcar e rapadura.
Engenho : equipamento utilizado para moer a cana de açúcar.
Alambique: o equipamento utilizado para destilar a caldo da cana depois de fermentado (parece uma
grande chaleira).
A bebida cachaça ou pinga, inicialmente, no Brasil, era servida aos escravos, (possivelmente, em sua
maioria, na forma de pinga, após a garapa ter azedado, fermentado e destilado), como recompensa e
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estimulo (dependência) ao trabalho (forçado). Também foi usada como moeda de compra ou troca, pelos
traficantes de escravos, ante às tribos africanas, já que à eles o dinheiro não tinha valor algum.
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E.T..- para se fazer rapadura, fervia-se o caldo da cana, separando a espuma que se formava - o cagaçopara dar aos animais. Encarregados da produção da raspadura e de levar o cagaço para os cochos dos
animais, os escravos perceberam que após um ou dois dias parado, o cagaço fermentava,
transformando-se em álcool. Não demorou muito para os senhores de engenho descobrirem esse álcool.
Acostumados a produzir a bagaceira, uma aguardente feito da uva, os senhores de engenho resolveram
destilar o cagaço para separar as impurezas. Surgia assim a cachaça.. Logo passou a ser consumida nas
demais classes sociais e virou moeda corrente, concorrendo com a bagaceira e o vinho de Portugal. Com
a queda do comércio de suas bebidas, a corte portuguesa proibiu a produção e o consumo da cachaça.
Conhecida desde o século 16, a palavra “cachaça, pode ser derivada tanto do castelhano cachaza,,
vinho feito na Espanha e Portugal a partir da borra da uva, ou da garapa azeda, tomada pelos escravos
(a cagaça), ou da aguardente (fermentado) que era usada para amaciar a carne de porco (cachaço).
Também era conhecida como o “vinho do mel da cana-de-açucar”. Em Minas Gerais já existe curso
superior ensinando especificamente a tecnologia para produção da cachaça, - “qui trem bão dimais da
conta”. Reforçamos que a bebida pinga deriva da garapa, já a cachaça é preparada a partir do melaço
formado na preparação da rapadura/açucar. Nos mais tradicionais alambiques do norte de Minas
Gerais, região Vale do Paraíba-RJ/SP e no Sul de Minas, normalmente são preparadas cachaças.
Também disse que a denominação pinga deve ser usada apenas quando a bebida for resultado da
mistura de aguardentes procedentes de vários alambiques, preparo normalmente usado para obtenção
de uma bebida mais comercial e barata.
Respeitar o insucesso é tão importante
quanto celebrar o sucesso. 2005
Prof. Biól. Helcias Bernardo de Pádua
CFBio 00683-01/D - cel. 011.9568.0621
* artigos técnicos em:www.portalbonito.com.br; setorpesqueiro.com.br;
ruralnet.com.br
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