Invertebrados aquáticos bioindicadores da Lagoa Rondinha

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Invertebrados aquáticos bioindicadores da Lagoa Rondinha,
Balneário Pinhal/RS
Adriano Becco Nunes¹, Anyelle da Silva Von Mühlen¹, Marielza Rosa Lima¹ e Thais
Castro de Souza¹
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Curso de Ciências Biológicas, CNEC/Osório
RESUMO: Bioindicadores são espécies ou grupos de espécies que devido a sua
presença em determinado local indicam a qualidade do ambiente. Os insetos
aquáticos das ordens Plecoptera, Ephemeroptera e Trichoptera, por terem
necessidade de altas concentrações de oxigênio dissolvido na água, são bons
indicadores de qualidade de água. Neste estudo foram realizadas amostragens
qualitativas para avaliar a presença de insetos aquáticos da Lagoa Rondinha de
Balneário Pinhal, RS, que podem indicar a sua qualidade. Foram encontrados
representantes de 6 ordens de insecta, além de moluscos e crustáceos. Algumas
das ordens de insetos encontradas na Lagoa podem ser consideradas
bioindicadoras de qualidade de água.
Palavras-chave: Bioindicadores, Invertebrados Aquáticos, Lagoa Rondinha.
INTRODUÇÃO
Os ecossistemas aquáticos vêm
sofrendo
nos
últimos
tempos
alterações em sua composição
química, física e das comunidades
biológicas, como peixes, pequenos
crustáceos, insetos aquáticos, que
dependem de um hábitat conservado.
Essas alterações que se apresentam
em rios, córregos, lagos e até em
reservatórios, surgem através de
atividades humanas precipitadas e
desordenadas. Um exemplo são os
lançamentos de esgotos da grande
maioria das cidades nos rios e até nos
mares, sem um tratamento prévio
(CALLISTO,
GONÇALVES
&
MORENO, 2005).
_______________________
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As lagoas do Litoral Norte são zonas
que estão ligadas entre si, possuindo
uma diversidade de fauna e flora, e
servindo como reprodução e/ou criação
de peixes, de espécies endêmicas ou
em extinção (FEPAM, 2000).
O município de Balneário Pinhal está
localizado no Litoral Norte do Rio
Grande do Sul, com uma área
aproximadamente de 103,76 km².
Possui 8 km de orla marítima, com
dunas frontais à beira mar e internas,
como as que circundam a Lagoa
Rondinha. A lagoa tem 8,73 km² de
área e até 3,8 metros de profundidade,
sendo cercada por dunas e mata nativa,
que abriga uma fauna e flora
diversificada. A mesma faz parte das
raízes da ocupação de Balneário Pinhal.
Antigamente era comum encontrarem
jacarés à beira das águas e ninhos com
ovos de répteis. A beira da lagoa existe
as ruínas de uma antiga salina.
Antigamente as lagoas Cerquinha e
Rondinha eram interligadas, e apenas
no final da década de quarenta elas
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foram separadas. A partir da
necessidade de se abrir um canal até
a cidade de Cidreira, as lagoas
recuaram suas águas, aparecendo
uma trilha de terras entre ambas. Hoje
a única ligação que resta entre elas
fica no sagradouro, onde foi
construída uma ponte (FAISTAUER,
2006).
A
FEPAM,
órgão
ambiental
responsável
pela
avaliação
e
monitoramento ambiental do RS, cita
os usos da Lagoa Rondinha como
fonte de abastecimento público e para
o lazer, sendo impedido qualquer tipo
ou quantidade de embarcações.
Segundo o estudo de avaliação da
qualidade das águas superficiais no
Litoral Norte /RS, através do
Programa de Gerenciamento Costeiro
- GERCO/ RS, vinculado à FEPAM
(2011),
os
recursos
hídricos
localizados mais ao sul do Litoral
Norte, como a lagoa Rondinha,
apresentam as melhores condições
de qualidade ambiental.
Uma das ferramentas utilizadas para
avaliação da qualidade de água de
algum manancial é o monitoramento
biológico,
baseando-se
no
comportamento
de
comunidades
biológicas sujeitas a alterações nas
condições ambientais. Conforme seus
limites
de
tolerância,
essas
comunidades biológicas podem ser
consideradas sensíveis, tolerantes ou
resistentes a adversidades ambientais
(GOULART & CALLISTO, 2003).
De acordo com Sonoda (2009) e
Goulart & Callisto (op. cit), os
organismos sensíveis ou intolerantes
pertencem às ordens Plecoptera,
Ephemeroptera e Trichoptera e
caracterizam-se pela necessidade de
grandes concentrações de oxigênio
dissolvido na água; organismos
tolerantes representam a maioria dos
insetos aquáticos, como os grupos
das ordens Heteroptera, Odonata,
Coleoptera e algumas famílias de
Diptera; e os organismos resistentes,
são representados por algumas famílias
da ordem Diptera. Entre os dípteros
resistentes destacam-se as larvas da
família
Chironomidae,
que
são
caracterizadas
por
viverem
em
condições anóxicas e tem hábito
alimentar detritívoro.
Neste sentido, os insetos aquáticos são
muito importantes no monitoramento
biológico, pois apresentam uma ampla
diversidade, estando presentes em
quase todos os níveis tróficos, sendo
encontrados em quase todos os tipos
de hábitats de água doce e sob
diferentes condições ambientais, desde
cursos de água cobertos de gelos até
rios altamente poluídos sem oxigenação
(EATON, 2009).
O objetivo deste trabalho foi coletar
espécies
da
fauna
de
macroinvertebrados
da
Lagoa
Rondinha, visando identificar insetos
aquáticos bioindicadores de qualidade
de água, e que possam indicar o status
de conservação desta lagoa.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram realizadas duas saídas a campo
no mês de maio de 2011 na Lagoa
Rondinha, no município de Balneário
Pinhal/RS. No dia 21, o ponto de coleta
foi uma área da Lagoa destinada a
lazer. A temperatura estava em 20ºC e
o vento do sentido Norte. O esforço
amostral foi de 1,5 horas. No dia 29 a
coleta foi realizada em uma área mais
conservada, apresentando temperatura
de 18ºC, vento Norte, e esforço
amostral de 2 horas.
A coleta de exemplares foi manual com
o auxílio de puçás. Os puçás eram
mergulhados na água, junto à margem,
com e sem vegetação. O material obtido
foi transferido para uma bandeja, para
uma triagem prévia das amostras. Todo
o material coletado foi armazenado em
potes com álcool 70% e levado para o
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laboratório da FACOS, onde foram
analisados no estereomicroscópio. As
amostras foram separadas por grupo
taxonômico, primeiramente em nível
de classe e ordem, e até o nível de
família quando possível, com auxílio
de chaves dicotômicas.
RESULTADOS
O entorno da Lagoa Rondinha
apresenta vários ambientes naturais
bem conservados, como dunas
interiores e mata arenosa associada.
Os táxons encontrados (tabela 1) na
análise preliminar indicam uma
considerável diversidade de insetos
aquáticos
na
lagoa,
alguns
potencialmente bioindicadores, além
de moluscos nativos da região do
Litoral Norte.
DISCUSSÃO
Grande parte dos invertebrados
identificados vive todo o seu ciclo
dentro da água, ou por um tempo
considerável de seu ciclo de vida.
Alguns
insetos
têm
seu
desenvolvimento inicial como larvas
ou náiades e depois adquirem asas
para saírem da água, porém vivem
pertos de matas ciliares ou em
campos próximos a rios e lagoas
(FREITAS, et. al 2009).
Segundo McCafferty (1981, apud
FREITAS, et. al 2009) apenas 10%
das espécies de insetos conhecidas
são aquáticas. Possuem grande
importância e se destacam nos
ambientes por apresentarem uma
ampla variedade de formas.
Os exemplares de insetos que foram
encontrados podem ser considerados
bioindicadores de qualidade de água,
sendo sensíveis ou tolerantes a
alterações ambientais, exceto a
ordem Hymenoptera.
Neocorbicula limosa é um bivalve nativo
encontrando-se presente em mais de
70% das lagoas da Planície Costeira do
Rio Grande do Sul, apresentando
densidades registradas de até 5372
indivíduos/m2.
Demonstra
uma
preferência por substrato arenoso e
ocorre em locais com profundidades
entre 1 a 2 metros (GAMA, 2004). A
reação de Neocurbicula limosa sob
alterações nas condições ambientais
não é conhecida. Desta forma, não foi
possível inferir uma relação entre a
presença desta espécie e a qualidade
de água da Lagoa estudada.
Em relação aos exemplares de Hyalella
sp, coletados na Lagoa, vários trabalhos
citam este gênero como um importante
organismo-teste
em
ensaios
de
toxicidade
para
monitoramento
ambiental.
A utilização de insetos para programas
de monitoramento de águas vêm
crescendo ultimamente. Há inúmeras
vantagens na utilização destes táxons,
entre elas a sua ocorrência em todos os
ecossistemas,
além
de
serem
acumuladores de substâncias tóxicas,
fáceis para coletar e fonte de alimento
para peixes.
Os resultados obtidos são preliminares,
mas já apontam a grande diversidade
de táxons animais ocorrentes nesta
lagoa. Pode-se inferir que maiores
esforços de coleta indicarão a presença
de um número maior de táxons, e entre
estes, organismos bioindicadores de
qualidade de água. Nesse sentido,
pretende-se realizar coletas mensais
para avaliar a biodiversidade de
macroinvertebrados
desta
lagoa,
especialmente insetos dos grupos
Plecoptera,
Ephemeroptera
e
Trichoptera,
conhecidos
como
biondicadores de qualidade de água
(MELO, 2009).
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AGRADECIMENTOS
Agradecemos
a
todos
que
colaboraram para o sucesso dessa
pesquisa.
REFERÊNCIAS
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Jr; MORENO, P. Invertebrados
Aquáticos como Bioindicadores. In:
Goulart, E.M.A. (Org.). Navegando o
Rio das Velhas das Minas aos Gerais.
1 ed. Belo Horizonte: UFMG, 2005, v.
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Porto Alegre, 2009.
GAMA, A. M. Densidade, distribuição e
padrões de ocupação de habitat dos
moluscos bivalvos da lagoa do Araçá,
RS. 2004. 35 f. Dissertação de
Mestrado em Biociências (Zoologia) Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul.
GOULART, M. & CALLISTO, M. 2003.
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como ferramenta em estudos de
impacto ambiental. Revista da FAPAM,
2 (2): 153-164.
EATON, D.P. Macroinvertebrados
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como
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Cullen Jr. L; Rudran, R. & ValladaresPádua, C. Métodos de estudos em
Biologia da Conservação e manejo da
vida silvestre. 2ª ed. Ed. UFPR:
Paraná, 2009. 651 p.
MELO,
A.D.
Diversidade
de
macroinvertebrados em riachos. In:
Cullen Jr. L; Rudran, R. & ValladaresPádua, C. Métodos de estudos em
Biologia da Conservação e manejo da
vida silvestre. 2ª edição. Ed. UFPR:
Paraná, 2009. 651 p.
FAISTAUER, Maria. Balneário Pinhal,
suas
raízes,
sua
caminhada.
Exclamação: Porto Alegre, 2006. 170
p.
SONODA,
K.
C.
Monitoramento
biológico das águas no bioma Cerrado
utilizando insetos aquáticos: uma
revisão.
Ed.
Emprapa
Cerrados:
Planaltina - DF, 2009. 41p.
FEPAM. REGIÃO HIDROGRÁFICA
DO
LITORAL.
Disponível
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http://www.fepam.rs.gov.br/qualidade/
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FREITAS, S. M., KAPUSTA, S. C., &
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Ecossistemas e Biodiversidade do
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Tabela 1. Táxons animais coletados na Lagoa Rondinha em maio de 2011. (N.D. =
não determinado).
Filo
Sub-Filo
Arthropoda
Mollusca
Classe
Hexapoda
Insecta
Crustacea
Malacostraca
Gastropoda
Bivalvia
Ordem
Família
Nome
Científico
Coleoptera
Diptera
Ephemeroptera
Hemiptera
Hymenoptera
Odonata
Amphipoda
Mesogastropoda
Veneroida
N.D.
N.D.
N.D.
N.D.
N.D.
N.D.
Hyalellidae
Ampullariidae
Corbiculidae
N.D.
N.D.
N.D.
N.D.
N.D.
N.D.
Hyalella sp
Pomacea sp
Neocurbicula
limosa
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