EVARISTO V. FERNANDES APRENDIZAGEM HUMANA E SUAS DIFICULDADES ( CÉREBRO, EMOÇÃO, MENTE E ACÇÃO ) 2 ÍNDICE CAPÍTULO I – O HOMEM E SEUS PROCESSOS CEREBRAIS .............................. 4 I - Dinamismos neuro-cerebrais do organismo humano na criação da mente ..........11 II – Cérebro e mente em recíprocas interacções e dinâmicas ..................................17 CAPÍTULO II – FUNÇÃO DO CÉREBRO E SUAS INTERFUNCIONALIDADES CEREBRAIS ....................................................................................................................................27 I – Dinamismos neurocerebrais nos processos de interacção com os meios ...........35 II – Mente individual e consciência pessoal nos processos bio-neuro-psíquicos ......41 CAPÍTULO III – NATUREZA E MECANISMOS DOS ESTADOS MENTAIS E DOS FENÓMENOS PSÍQUICOS ......................................................................................54 I – Dinamismos dos processos sensório-perceptivos dos estados mentais .............61 II – Endo-exogenias dos mecanismos processuais do cérebro humano ..................76 CAPÍTULO IV – ACÇÕES E INTERACÇÕES NEURO-SÓCIO-PSÍQUICAS NOS PROCESSOS DE APRENDIZAGEM ........................................................................92 I – Interacções dos sistemas e dos não sistemas neuro-cerebrais .........................101 II – Causas e processos deficitários do aparelho neuro-cerebral ...........................112 CAPÍTULO V – MODALIDADES CAUSAIS DAS DISFUNÇÕES DO CÉREBRO HUMANO .................................................................................................................123 I – Trissomia vinte e um ou Mongoloidismo ............................................................135 II – Disfunções nos processos neurocerebrais ........................................................150 III – Deficiências e níveis processuais das deficiências ..........................................163 CAPÍTULO VI – O EMOCIONAL NAS EMERGÊNCIAS PROCESSUAIS DAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM ..................................................................180 I – Acções e inacções dos sistemas neuro-sócio-psíquicos nos processos das dificuldades de aprendizagem .................................................................................190 II – Dos dinamismos dos sistemas neuro-psíquicos aos sócio-cognitivos ..............199 III – Fenómenos afectivos-emocionais em suas interacções com o dinamismo das estruturas neuropsíquicas .......................................................................................204 IV – Dinamismos afectivo-emocionais nos processos de aprendizagem ...............212 V – Interactividades psicoemocionais da aprendizagem ........................................218 BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................232 3 CAPÍTULO I O HOMEM E SEUS PROCESSOS CEREBRAIS Sendo o ser humano uma concreta e indissociável realidade bio-neurosociopsicológica esta constitui um sistema que existe e age dentro de sistemas sociais, culturais, económicos, familiares e políticos mais ou menos organizados, certos ou incertos, estáveis e instáveis, transitórios ou duradouros. É, por isso, um ser de acção sujeito a miríades de acções dos sistemas envolventes e, por tal facto, é, simultaneamente, filho e progenitor de tais sistemas. A sua dimensão de filho transforma-o em sujeito que busca uma crescente expansão, realização e poder, e, a de progenitor um certo antagonismo. No seio de tal teia ele procura as suas vias de desenvolvimento natural, o fervilhar da própria vida e a concretização das suas intencionalidades. As potencialidades de concretização de um tal pré-projecto existencial emergem de sua própria dinâmica biológica em interacção mútua e recíproca com a própria realidade envolvente. 0 biológico do indivíduo ou o seu corpo é uma máquina com mais de 30 biliões de células constituídas por combinações de hidrogénio, de carbono, de oxigénio e de azoto no todo de um aparelho neuronal ou cérebro que faz com que o indivíduo pense, fale, relacione, escreva, leia, etc.. O cérebro ou encéfalo, constituído por massa nervosa contida na caixa craniana, massa que é composta por células nervosas ou neurónios, interage unitariamente com todo o corpo e é dos resultados de tais interacções que o cérebro constitui seus quadros de referencias, os seus parâmetros de vivências e seus esquemas de acções. Isto demostra que cérebro e organismo constituem uma unidade indissociável com interacções mútuas e recíprocas , e que é o indivíduo, no seu todo, que interage com os meios e os ambientes e que, se para estes se projectam mensagens também deles se recebem informações. Isto porque o aparelho cerebral contém, em si mesmo, um imenso potencial concentrado nos principais receptores sensoriais, e é graças aos investimentos vindos do exterior que um tal potencial se desenvolve, expande, enriquece e orienta no sentido de encontrar a sua individualidade, a sua subjectividade e funcionalidade. É que o aparelho cerebral, constituído por milhões de neurónios e por hipercomplexas conexões, quais indiscritíveis arborescências, age e interage, organiza-se e reorganiza-se em função da sua própria natureza, dinâmica e exigências ou solicitações dos meios, processo este que gera no indivíduo o seu aparelho genofenoménico, ou seja, a capacidade para organizar as suas relações com o exterior, gerando ou regenerando informação, recebendo estímulos e mensagens e desenvolvendo-se acentuadamente até se tornar um aparelho neurocerebral que comportará mais de 30 biliões de neurónios e transformar-se-á no órgão central de comando do organismo bem como de controlo das actividades deste. Este enorme potencial do aparelho neurocerebral do indivíduo possui indiscritíveis potenciais de habilidades, de estímulos e de motivações, de acções e de envolvimentos, de estratégias e de planificações, de ideias e raciocínios, de retenções e concentrações. Porém, o desenvolvimento de um tal potencial do aparelho neurocerebral é resultado de múltiplos e complexos processos de 4 desenvolvimento da história da espécie humana, processos que geraram, num tal aparelho, potenciais de flexibilidade e de adaptabilidade, de eficiência e de eficácia, de organização e reorganização, de estratégias de planificação, de concretização, expansão e contenção. No entanto, o processo de desenvolvimento do cérebro humano é fruto de milhões de anos de evolução, a qual, construída pela interactiva sincronia da dupla: gènes-experiência, sucessivamente, efectua remodelações das redes neuronais sob influência da acção da programação genética em interacção com os estímulos ou solicitações dos meios. E isto apesar de todo o cérebro humano, no desenvolvimento do seu período fetal, passar pelo menos pelas seguintes etapas: Indução da placa neuronal. Proliferação localizada das células nas diferentes regiões. Diferenciação dos neurónios imaturos. Estabelecimento das conexões com outros neurónios. Morte selectiva das células. Eliminação de certas conexões estabelecidas inicialmente e estabilização de outras. Segundo Edelman (1988,1991) o cérebro humano, já durante a fase de seu desenvolvimento embrionário, possui elevadíssimas cotas de desenvolvimentos individuais, as quais interdependem não só das características morfológicas gerais da anatomia do cérebro, mas são, também, da origem rigidamente genética, comuns à espécie e dizem respeito às densas arborescências das dendrites e dos axónios das células cerebrais. Uma tal diferenciação, que faz com que todo o cérebro se torne diferente um do outro, já em sua fase fetal, é resultado de processos epigenéticos que não são submetidos estritamente ao controlo genético e que regulam acentuadamente a actividade, o desenvolvimento, a divisão, a emigração ou a morte das células cerebrais. Uma tal individual revelação epigenética, orientadora da morfogènese do sistema neuronal, interdepende, sobretudo, da acção de dois grupos de moléculas morforeguladoras que agem a nível da membrana celular: as moléculas do primeiro grupo favorecem os processos de adesão das células entre elas e as moléculas do segundo grupo favorecem a adesão das células ao tecido conectivo, o que constitui o substracto de adesão das moléculas, constituindo-se, assim, a existência de grupos neuronais, os quais representam a unidade da selecção durante o percurso do desenvolvimento e do funcionamento do sistema nervoso central, pois os grupos neuronais diferenciam-se através da forma e dimensão da sua anatomia, pelo tipo de desenvolvimento, pelas características das suas sinapses, pela natureza dos inputs e segregam outros grupos de neurónios ou modificam-os desde que se mudem as condições dos estímulos e das motivações, dos meios ou dos ambientes. Ora, sendo a natureza do aparelho neurocerebral do indivíduo resultado de uma progressiva e constante evolução da espécie humana, sem rupturas nem saltos, e, quando muito, resultado de variedades, as quais diferenciam-se por divergências e por isolamentos ou pelo acumular de pequenas modificações sucessivas sofridas no decurso de seus processos de adaptação. O cérebro do adulto, com aproximadamente 1450 g de massa , células e neurónios, cresceu, ao longo de milhares de anos, debaixo para cima, tendo os seus centros mais superiores desenvolvido como elaborações das partes inferiores, sendo as mais antigas ou mais primitivas partilhadas com todas as espécies animais como sejam, por exemplo, o tronco cerebral, o qual rodeia o topo da espinal medula. É o tronco cerebral que regula as funções básicas da vida como, por 5 exemplo, o respirar, o metabolismo, as reacções e os movimentos estereotipados, mantém o corpo a funcionar como deve e a reagir de maneira que garanta a sua própria sobrevivência. É um cérebro que não pensa, mas foi a partir deste que emergiu o cérebro emocional, o qual, por sua vez, originou o neocórtex ou o cérebro pensante. Estas e as restantes instâncias, áreas, regiões ou localizações do cérebro humano são constituídas por células nervosas e fluídos neuronais que geram no indivíduo intencionalidades globais e parciais. A primeira e fundamental dessas intencionalidades é a da sua organização em consonância com seus códigos genéticos, sua actividade, dinâmica, potencial perceptivo e acção sensorial. A coerente concretização de uma tal intencionalidade contém, em si mesma, a potencialidade de organização do organismo humano não só horizontal ou vertical mas também poligonalmente, isto é, em todas as suas dimensões, aspectos e níveis do seu sistema, subsistemas e micro-sistemas, graças à vida, interacções e retroacções das suas células e moléculas, as quais se organizam e reorganizam, geram e regeneram, activam-se e sensibilizam-se através da sua própria acção e do tecido nervoso do organismo, concretizações que necessitam de interacções moleculares e de reacções às dinâmicas dos meios e dos ambientes, intencionalidades cujas concretizações necessitam do sensorial, do motórico, de exteriorizações e interiorizações, concretizações comportamentais cuja multiplicação e aperfeiçoamento desenvolvem não só os receptores sensoriais mas também a sensibilidade e a afectividade, alicerces essenciais ao desenvolvimento de competências neurocerebrais, cujo progressivo desenvolvimento implica recíprocas interacções entre o aparelho neurocerebral e o corpo, entre a motricidade e a sensibilidade, entre o exterior e o interior, entre a acção e a emoção, interacções que criam, simultaneamente, tanto a dependência do organismo humano como a sua liberdade, visto ser a partir de um tal nível de desenvolvimento que o humano pode desenvolver os seus comportamentos em todas ou só em algumas direcções ou sentidos de exterioridade e de interioridade, o que diferenciará futuros comportamentos e produzirá diferentes níveis de sensações ou percepções, de sensibilidades e emoções, de estímulos e motivações, o que condicionará, estimulará ou orientará, teoricamente, a maior ou menor eficácia do aparelho neurocerebral do indivíduo. É que, sendo o desenvolvimento do aparelho neurocerebral produto da acção é sua profunda necessidade manter permanente relação com o exterior, o qual, impregnando-se no cérebro, este elabora-o no seu interior e retém-o como algo individualizado, íntimo e pessoalizado, e, por sua vez, projecta-o nos factos e acontecimentos do exterior, gerando-se, então, interacções e retroacções que elaboraram novas e diferentes impregnâncias, sensibiIidades, percepções, emoções e interacções interior-exteriores. Um tal enorme potencial de adaptação do organismo humano, acrescido do enorme e riquíssimo património neuronal, gera, no organismo humano, ilimitados potenciais de habilidades, destrezas e de competências cuja genialidade humana jamais explorará ou desenvolverá na sua totalidade. É que os fluxos de energias das células, moléculas, gènes, cromossomas, etc., das suas combinações e recombinações, das suas reacções, intensidades ou velocidades, dos seus equilíbrios ou motivações parecem indecifráveis, apesar de sabermos que as células adaptam o seu trabalho às suas necessidades, produzindo aquilo de que precisam e quando precisam. Um tal potencial de respostas às suas necessidades, por parte das células, implica, para sua entrada na via da eficiente eficácia, desprovimento de rigidez e de 6 desperdício, de parasitismo e fragilidade, de desvios e de erros e orientação verso uma policêntrica organização, expansora dos fluxos e das energias nas várias orientações e níveis de necessidades, de acções, de interacções e retroacções, comportamentos generadores de organizações sensoriais e motoras equilibradas, vivas, activas e dinamizadoras de espontaneidade, naturalidade e bioenergia, o que facilita as acções de auto-organização e de reorganização, de vivência e de restruturação. O conjunto de tais interacções, qualidades, níveis e intensidades geram estabilizações e dinâmicas selectivas, implementadas em função da estimulação do meio e das necessidades percepcionadas pelo organismo do indivíduo, o que cria, em sua dinâmica neurobiológica, variados níveis de necessidades de acção, de interacção e reciprocidade com seu próprio meio, visto ser princípio essencial básico que todo o indivíduo é um ser biológico em interacção com o meio, isto é, sujeito activo e passivo do paradigma sistémico-comunicacional-informacional. No seio de tal paradigma o ser biológico exige o funcionamento da sua totalidade, apesar de correr os riscos de uma tal necessidade ser subvertida pela acção ou acções do meio e, em tais subversões, não só distorcer mas também anular tais necessidades vitais. Um tal conjunto de necessidades é intrínseco à própria natureza do cérebro do organismo humano. 0 cérebro humano, mais que nunca, tem necessidades de alimentar-se a si mesmo e, uma tal alimentação é efectuada através do seu funcionamento, isto é, pelo desenvolvimento das suas principais funções, aperfeiçoamento dos seus centros de habilidades e processamentos de informações. Torna-se impossível, no entanto, efectuar uma estimativa aproximada do potencial do cérebro humano. É que, de facto, cada célula cerebral ou neurónio contém um vasto e complexo potencial electroquímico competente e um corpo central de dezenas, centenas ou milhares de tentáculos que irradiam desde o centro ou núcleo da céluIa. Estas irradiações ou ramificações da célula, conhecidas pelo nome de dendrites, representam as expansões do corpo celular e o seu conjunto forma o pólo receptor do neurónio. Uma das extremidades do neurónio, particularmente larga, domina-se axónio, o qual desempenha a função da saída principal da informação transmitida por essa célula. Entre um neurónio e outro encontra-se a sinapse e efectua a articulação entre um neurónio e um músculo ou entre um neurónio e uma glândula e faz com que a actividade ou excitação de um neurónio active ou iniba a acção do outro. Por isso, representando a sinapse um espaço de comunicação entre os elementos excitáveis do cérebro, os seus fluxos desencadeiam a Iibertação de neuro-transmissores ou neuro-mediadores e, por tal facto, a efectuação das comunicações inter-neuronais, quer estas ajam como neuro-modeladores quer como neuro-transmissores. E, como se distingue, em média, 40 mil sinapses mesma célula do córtex cerebral não admira que tanto as dendrites como as sinapses possuam substâncias químicas constitutivas dos principais mensageiros do processo do pensamento humano, o qual, graças ao seu desenvolvimento, vai reduzindo, progressivamente, as resistências bioquímicas e electromagnéticas até fazer com que uma célula cerebral possa receber, por segundo, centenas de milhares de pulsações provenientes de outros tantos pontos da conexão, o que faz com que os neurónios actuem como vastas e hipercomplexas centrais telefónicas computando, em micro-segundos, a soma dos dados de toda a informação, laboriosa actividade que desenvolve, nessa emaranhada arquitectura cerebral, componentes de sistemas 7 sintetizadores e tipos particulares de receptores neuronais (Watson, 1992), o que reforça a ideia de que não só entre os cérebros humanos, mas, também, no interior de um mesmo cérebro existem capacidades de inúmeros níveis de funcionalidade, de convergência, de divergência e de irradiação. Em relação à existência de níveis e de diferenças de funcionalidade, Sigmund Freud, pai da Psicanálise, em "Projecto de uma Psicologia" (1895) parece admitir a distinção entre sistemas neuronais específicos e sistemas neuronais não específicos ao efectuar a distinção entre neurónios fi e neurónios psi. Apesar de uma tal distinção não contar, hoje em dia, com muitos adeptos, a realidade é que a mesma estimulação ou estimulações dirigidas às mesmas áreas neuronais dos cérebros humanos produzem efeitos diferentes, e, tais efeitos compatizam-se com efeitos de outras acções, gerando out-puts diferentes de indivíduo para indivíduo, os quais, por sua vez, impregnam a totalidade do organismo e se anexam ao seu potencial comportamental. Como é óbvio, uma modificação mínima, mas duradoura, não só transforma o indivíduo mas também o reorganiza diferentemente, o que gera, em si mesmo, capacidades de novas reorganizações, restruturações ou invenções, e, daí, simultaneamente, diferentes capacidades de utilização ou recombinações das potencialidade do aparelho neurocerebral. Um dos agentes da génese de tais modificações encontra-se também não só no quantitativo dos neurónios cerebrais de cada um mas também na qualidade da acção das sinapses. É que, de facto, as dendrites e sinapses pertencentes a cada célula cerebral interagem com as sinapses de outra célula cerebral, de tal maneira que, quando um impulso eléctrico atravessa a célula cerebral, produz-se transferências de substâncias químicas através da brecha sináptica. Estas substâncias introduzem-se na superfície receptora, criando impulsos que se transmitem através da célula cerebral e, a partir daí, encaminham-se para as outras células produzindo uma microscópia imagem de uma espécie de "abraços neuronais". Em tal espécie de abraços, sinapses eléctricas e sinapses químicas, pela acção do fluxo nervoso, efectuam a conversão do sinal eléctrico em sinal químico, acção própria dos neurotransmissores, os quais, possuindo tanto funções activadoras como inibidoras, desempenham um papel fundamental no processamento e desenvolvimento das emoções, dos afectos, dos sentimentos, das atitudes; no processamento da informação, do conhecimento e da aprendizagem, visto a acção dos neurotransmissores ou neuro-mediadores expandir-se do sistema periférico, do sisterna nervoso autónomo à junção neuro-muscular para aceder aos dinamismos mais centrais do aparelho neuro-cerebral. Aparecendo, então, a actividade neuro-cerebral do ser humano como um efeito das inter e retroacções de todas as propriedades e potenciais do organismo humano, este partindo da acção dos seus gènes, (generatividade) organiza-se e reorganiza-se, estrutura-se e restrutura-se em função das suas actividades fenoménicas e dos acontecimentos organizadores que surgem tanto do exterior como do interior do próprio organismo. No seio de um tão hiper-complexo turbilhão de mudanças e mutabilidades, tanto exteriores como interiores, as células neuronais, as mais especializadas do organismo, permanecem imutáveis, embora todo o cérebro humano possua muitos milhares de neurónios de reserva, os quais, quando chamados a entrar em função, asseguram a conservação da informação dos outros e possuem capacidades de activar, dinamizar e especificar. A existência de tais unidades neuro-cerebrais, que completam, reforçam ou 8 substituem a actividade de outras, faz com que o ser humano não se submeta a sistemas condicionantes nem a normas pré-estabelecidas, e com que a sua norma seja a lei da contingência submetida ao jogo das interdependências, das interacções e retroacções, das aferências e recorrências. No entanto, no cérebro humano, como em geral em todo o organismo, não existe uma organização, mas sim uma série de organizações encaixadas umas nas outras e, a análise, revela uma certa hierarquia, cuja organização superior integra a organização inferior e esta confere as suas propriedades à superior e assim sucessivamente. Face a uma tal interdependência e interactividade organizativa, e considerando que o cérebro humano como mecanismo associativo possui pelo menos as funções de recepção, retenção, análise, missão e controlo, potenciais compatíveis com as funções cerebrais em geral, uns e outros se reforçam, se estimulam ou inibem mutuamente. É que sendo o cérebro humano um hipercomplexo sistema, constituído por subsistemas, os quais, por sua vez, são dotados de mini-micro-sistemas, precisa da participação activa de todos eles para concretização de todas as suas grandes funções, como sejam, por exemplo, a percepção, a linguagem, a memória, o pensamento, etc., etc.. O conjunto de funções do cérebro humano, apesar da descoberta de áreas ou regiões cerebrais mais especificas para cada função, na sua eficiente e dinâmica concretização necessita de um equilibrado, interactivo e cooperante dinamismo entre todas as áreas, isto é, da activação do tronco cerebral, do cérebro reptílico, do cérebro mamífero, do cérebro racional ou neo-córtex bem como da activação dos canais neuronais, neuro-transmissores e neuro-receptores ou, por outras palavras, e, em complemento do anterior, do cérebro intestinal (Sarna e Otterson, 1988), visto o aparelho gastro-intestinal ser um órgão altamente inteligente, que sente não só a presença dos alimentos mas também a sua composição química, a sua quantidade e a sua viscosidade, visto a parede intestinal ser constituída por suaves camadas de músculos, pelas estruturas neuronais e pelas células paracrinicas-endócrinas. 0 cérebro onírico, dos sonhos, durante o sono manifesta acentuada força e enorme vitalidade e desperta o indivíduo para a consciência. 0 cérebro libidinal é, então, o desencadeador das transformações da energia pulsional através de deslocamentos e de sublimações orientando as energias, as tendências ou apetências. O cérebro emocional é activador de manifestações fisiológicas expressivas e subjectivas como as da excitação, do interesse, da alegria, da tristeza, do stress, da ansiedade, da cólera, do medo, da vergonha, da dôr, da náusea, da ira, do desgosto, etc., e desempenha uma função importantíssima tanto na saúde física como na psíquica, bem como em todos os processos de somatização. Este cérebro emocional situa-se, predominantemente, no sistema límbico do aparelho neuro-cerebral do indivíduo, isto é, segundo Maclean (1970) entre o cérebro primitivo (arquiocórtex) e o cérebro racional (neocórtex). É óbvio, no entanto, que dadas as múItiplas conexões e recíprocas interacções entre as partes do cérebro torna-se extraordinariamente difícil separar as diferentes estruturas dos denominados cérebros do Cérebro de um indivíduo ou os subsistemas do Sistema cerebral de uma pessoa. Apesar de uma tal dificuldade sabemos hoje que o cérebro reptílico ou primitivo funciona como sede dos actos e reflexos, e, por isso, mantém a autopreservação e a sobrevivência do indivíduo; que edita os seus comportamentos motores de aproximação e de afastamento, de ataque e defesa, de sensorização e de locomoção em função de sinais apercebidos no meio ambiente. 9 O cérebro reptílico, por si só, não tem acesso à vontade nem à memória e muito menos à consciência. Por seu lado, o cérebro emocional (intermediário), com sede no sistema límbico, possui a capacidade de efectuar preferências, escolher comportamentos e reconhece as situações, memoriza atitudes e comportamentos, está liberto de automatismos, hierarquiza sentimentos e afectos, objectivos e comportamentos, consegue dar côres e afectos à vida e constitui a estrutura essencial de uma boa e positiva dinâmica do desenvolvimento de uma personalidade equilibrada, visto impregnar nesta os reflexos dos afectos, sentimentos e desejos; das experiências e das vivências, sendo de capital realce as vivências efectuadas mais ou menos até aos 7 anos de idade, apesar das posteriores, com maior ou menor intensidade, impregnâncias ou forças continuarem a ser registadas no cérebro emocional e, por tal razão, marcarem, esquematizarem ou condicionarem o futuro da pessoa. O cérebro racional (néo-córtex), em seu aspecto macroscópico, compreende os hemisférios cerebrais que, por sua vez, possuem diversos tipos de córtex, isto é, o córtex motor que se situa a nível do lobo frontal ascendente, o córtex sensorial que se situa a nível da circunvolução parietal ascendente, o córtex auditivo que se situa a nível da primeira circunvolução temporal e da fissura de Silvio e o córtex visual. As localizações das funções psíquicas situam-se mais ou menos a nível do lobos pré-frontal, como sucede, por exemplo, com a memória, que é localizada mais especificamente a nível do lobo temporal. A linguagem encontra-se localizada no hemisfério esquerdo e, mais concretamente, no quadrilátero de Wernicke e a linguagem articulada na zona da terceira circunvolução frontal, isto é, na zona de Broca. No entanto, sendo o néo-córtex o responsável essencial da cognição, aprendizagem e abstracção também é nele que residem as possibilidades do indivíduo prever ou antecipar o futuro, permitindo-Ihe imaginar soluções ainda não previstas, colocar hipóteses, fantasiar ou projectar o futuro. Estas acções e comportamentos, emanados essencialmente do córtex e néo-córtex, necessitam da acção colaborante dos restantes cérebros, de maneira particular da acção do cérebro emocional, visto as emoções, sentimentos e afectos, bem como seus respectivos processos jamais deverem deixar de estar presentes nos comportamentos harmoniosos ou equilibrados do ser humano. O néo-córtex, por sua vez, dá ao indivíduo a possibilidade de inibir os seus reflexos e de Ihe conferir a liberdade final da decisão nas suas relações com os meios e os ambientes. 0 córtex pré-frontal ajuda o indivíduo a aceitar as demoras na realização dos seus objectivos, refreia as suas pulsões e, para o melhor ou para o pior, dirige a existência individual e social de cada um. As acções e interacções cooperantes e convergentes de tais estratos e subestratos neuro-cerebrais elaboram uma espécie de "secreção" que denominamos pensamento (convergente, divergente, irradiante) e, como produto final, é efeito das estruturas neuro-biológicas e da sua actividade, especialmente do córtex, das células cerebrais, da memória, da aprendizagem, da inventividade e da criatividade, e, para sua adaptação ou integração no social, precisa de ser alfabetizado, educado e flexibilizado, libertando e orientando os potenciais do cérebro para investimento na totalidade do próprio indivíduo, realização individual e pessoal, para bem da comunidade e da sociedade em geral. Apesar disso, porém, tendo a última década do Séc. XX sido denominada, pelo Congresso Norte Americano, a década do cérebro e, tendo sido efectuado 10 enormes progressos no desenvolvimento das neuro-ciências, talvez aquilo que ainda haja para descobrir acerca do cérebro e sua funcionalidade seja muito mais que aquilo que já se descobriu. No entanto, certas coisas são certas: é necessário investigar-se e desenvolver-se uma Iiteracia cerebral, uma educabilidade mental, uma dinâmica e uma flexibilidade comportamental e desenvolver-se as dimensões e as capacidades do pensamento divergente e irradiante. I - DINAMISMOS NEURO-CEREBRAIS DO ORGANISMO HUMANO NA CRIAÇÃO DA MENTE Gènes, cromossomas, moléculas, células e neurónios possuem em si mesmos existência vital, a qual, interagindo com os elementos mais próximos, retorna sobre si mesma, revitaliza-se e cria reflexos, impulsos e movimentos de vários níveis e dimensões. Estes movimentos possuem geometria e lógica, criam acções e coordenam-se, expressam a natureza da sua causalidade, exprimem emoções, sensações e percepções, penetram na natureza mais profunda do organismo humano, exteriorizam a sua natureza e vitalidade. Possuindo a sua sede central no aparelho neurobiológico, as células neuro-cerebrais desempenham então a função de uma espécie de empresa bioquímica de extraordinária hipercomplexidade associativa e funcional, sensorial e motora, bem como de coesão e coordenação tanto dos órgãos como dos sentidos. Encontrando-se a essência de um tal motor de produção, organização e coesão no sistema nervoso central do organismo, o qual é formado principalmente por corpos celulares de neurónios e axónios dos neurónios, tanto uns como outros possuem os pilares do seu movimento e acção, operatividade e funcionalidade no cérebro, no cerebelo, no tronco cerebral e na medula espinal. Neurónios sensitivos, sensoriais e motores interagem, integram a acção, desenvolvem-a e expandem-a; planificam novos comportamentos, mobilizam energias, criam e desenvolvem emoções, emergindo, daí, sistemas e subsistemas os quais “são mais que a soma das suas partes” formando então níveis de integração superiores aos constituídos pelos seus próprios elementos de integração, elaborando-se níveis hierárquicos de organização superior do ser vivo, os quais, por sua vez, interagem com os níveis inferiores e cujos efeitos de tais interacções e retroacções não são necessariamente lineares, nem previsíveis de maneira particular quando interagem com as variáveis do meio, dos ambientes ou das circunstâncias. Estes imprevisíveis efeitos podem interagir com suas estruturas causais e modificá-las a ponto de poderem ocasionar funções ou desvios de funcionamento completamente inadequados às próprias estruturas. Ora, sendo as excepções confirmadas pela regra, parece factual que as funções inferiores, pelas suas interacções, originam funções superiores, e estas estimulam, aperfeiçoam e activam as inferiores, através de processos de retorno, recorrência e emergência facilitadores de inter-comunicações, desenvolvimentos e progressões, cuja meta final é e será impossível de determinar, como se pode constatar, por exemplo, pela simples acção dos neurónios activadores do aparelho 11 Gracias por visitar este Libro Electrónico Puedes leer la versión completa de este libro electrónico en diferentes formatos: HTML(Gratis / Disponible a todos los usuarios) PDF / TXT(Disponible a miembros V.I.P. Los miembros con una membresía básica pueden acceder hasta 5 libros electrónicos en formato PDF/TXT durante el mes.) Epub y Mobipocket (Exclusivos para miembros V.I.P.) Para descargar este libro completo, tan solo seleccione el formato deseado, abajo: