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CATAVENTOS – Revista de Extensão da Universidade de Cruz Alta
ISSN 2176-4867
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ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO A PACIENTES COM CÂNCER
DE MAMA E ÚTERO EM HOSPITAL UNIVERSITÁRIO1
CAMARGO, Valéri Pereira2 ; DALMOLIN, Anaíse3 ; BITTENCOURT, Ana Luiza
Portela4 ; QUINTANA, Alberto Manuel5.
Resumo
O câncer tornou-se uma doença com forte estigma social e freqüentemente
associado à idéia de morte. Assim sendo, o diagnóstico do mesmo atinge estrutura
daquele que o recebe e também de sua família ocasionando, com freqüência,
estados depressivos. Para facilitar o entendimento, a elaboração do diagnóstico e o
enfrentamento da doença, propõe-se realizar atendimentos psicológicos logo após a
notícia ter sido revelada. O presente artigo expõe este trabalho, que é realizado por
um projeto de extensão desenvolvido pela psicologia no ambulatório de mastologia
do de um hospital público no interior do Rio Grande do Sul, local que atende
mulheres com câncer de mama e útero. Busca-se proporcionar um ambiente de
escuta e acolhimento para que as pacientes possam expor suas dúvidas, angústias
e temores relativos à doença. O acompanhamento à paciente é individual, e quando
necessário a família também recebe escuta. Tem se observado uma facilitação no
enfrentamento do tratamento nas pacientes atendidas, além de uma sensação de
“leveza” relatada por muitas após os atendimentos. Ainda, o apoio psicológico
parece afrouxar a comunicação truncada entre paciente e equipe médica, facilitando
que a paciente consiga falar do que está sentindo, suas dúvidas, angústias e
perspectivas com o tratamento. Desta forma, o apoio oferecido no acolhimento e
escuta atenta, com intervenções pontuais, auxilia na elaboração da doença e
processo de tratamento.
Palavras-chave
Câncer de Mama; Diagnóstico; Acompanhamento Psicológico.
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CATAVENTOS. ANO 2, N.1, Novembro/2010
CATAVENTOS – Revista de Extensão da Universidade de Cruz Alta
ISSN 2176-4867
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Abstract
The cancer became a disease with social stigma and is frequently associated with
the idea of death. Thus, the diagnosis of it can be devastating who receiveth and also
their family, may causing depressive states. To facilitate the establishment of
diagnosis and the disease confrontation, psychological visits are disposable soon
after the news has been tell for the pacient. This study show the extension project
developed by psychology in the Santa Maria’s University Hospital (UFSM) that it
takes care of women with breast cancer and uterus cancer. The Project provides a
listening environment and shelter to these women can says yours doubts, distress
and fears relatives to the illness. The accompaniment is individual, and when
necessary her family also receives attendance. As academic support, weekly
supervisions with the person who orientates occur. Observed a facilitation in the
confrontation of the treatment in the taken care of patients, beyond a sensation of the
slightness told for many after the atendimentos. The psychological support seems to
loosen the truncated communication and to assist in the elaboration of the present
situation, facilitating with that the patient obtains to speak of what is feeling, the least
at that moment. In such a way, this support assists in the elaboration of the illness
and process of treatment.
Key-words
Breast Cancer; Diagnosis; Psychological Accompanying.
Introdução
O câncer tem forte estigma social e é freqüentemente associado à idéia de
morte. Dessa forma, o anúncio diagnóstico dessa doença atinge a estrutura daquele
que o recebe e de sua família e amigos, podendo ocasionar estados depressivos.
Para facilitar o entendimento da doença e tratamento e auxiliar no enfrentamento da
situação, faz-se importante o acompanhamento psicológico logo após a notícia
diagnóstica. O atendimento às demandas psíquicas dos pacientes traz incrementos
ao bem-estar, fazendo com que eles tenham mais facilidade em perceberem seu
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CATAVENTOS. ANO 2, N.1, Novembro/2010
CATAVENTOS – Revista de Extensão da Universidade de Cruz Alta
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estado de saúde e participem de modo efetivo no tratamento (CAMPOS, 1995).
Assim, por meio do acompanhamento psicológico, tenta-se evitar uma cristalização
dos mecanismos que dificultam elaboração do momento diagnóstico e do
tratamento.
O presente artigo busca apresentar as atividades exercidas em um Projeto
de Extensão na Universidade Federal de Santa Maria, realizado no Ambulatório de
Ginecologia e Mastologia de um hospital público no interior do Rio Grande do Sul.
No projeto, propõe-se realizar um trabalho psicológico com mulheres que recebam
diagnóstico de câncer de mama ou de útero. Assim, visa-se criar um espaço onde as
pacientes possam tirar suas dúvidas em relação ao tratamento como também
possibilitar um ambiente propício para a fala e expressão de suas angústias e
temores frente à doença. Para tanto, são realizados acompanhamentos psicológicos
individuais a pacientes que apresentam demanda. Esta é percebida pela equipe
médica e encaminhada e analisada por uma acadêmica de psicologia, que realiza o
projeto no local, no momento da primeira entrevista com a paciente.
Também há a participação em um grupo interdisciplinar de apoio a mulheres
em tratamento do câncer de mama ou pós tratamento, denominado Renascer. Este
grupo existe há dezoito anos nas dependências do mesmo hospital, e conta com a
participação da psicologia desde o princípio.
Tem-se como objetivo a criação de um espaço onde as mulheres com
diagnóstico de câncer possam ser ouvidas nas suas angústias e fantasias e, desta
forma, possibilitar a criação de narrativas que venham a produzir novas significações
em suas vidas. Através de uma intervenção oportuna, tenta-se evitar a cristalização
de mecanismo que venham a dificultar a elaboração do diagnóstico de câncer
facilitando assim o tratamento e as vivências trazidas por ele, a fim de torná-lo o
menos traumático possível.
No grupo Renascer, objetiva-se, também, dar apoio psicológico às
participantes, participando da equipe técnica, composta por enfermeiros, assistente
social, nutricionista e acadêmicos na sua especificidade.
Revisão da Literatura
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Câncer é o termo utilizado para se referir a doenças nas quais células que
sofreram alterações genéticas, chamadas então de neoplásicas ou cancerígenas, se
dividem sem controle, podendo invadir tecidos do organismo por meio da circulação
sangüínea e do sistema linfático. A maioria dos cânceres é nomeada de acordo com
o órgão atingido ou tipo de célula onde se inicia (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
CÂNCER, 2008). A palavra tem sua origem no termo grego karcinos que significa
caranguejo. A semelhança entre os dois está nas dores causadas pela doença, que
são semelhantes às ferroadas de um caranguejo, e no desenho das dilatações dos
vasos sanguíneos que irrigam o tumor e lembram as patas de um caranguejo
(ZECCHIN, 2004).
De acordo com os estudos realizados pelo Instituto Nacional de Câncer
(INCA), dentre os diversos tipos de câncer, o de mama é a segunda neoplasia mais
comumente diagnosticada entre as mulheres brasileiras. Tais estudos apontam,
ainda, que os tumores de pulmão e próstata seriam os mais freqüentes no sexo
masculino, enquanto que no sexo feminino as maiores ocorrências seriam os
tumores de mama e de colo do útero (INCA, 2008).
Muitas pessoas relutam em procurar atendimento médico por medo de
descobrir um problema grave, e, inativas, negam o sintoma (STRAUB, 2005).
Quanto ao câncer de mama mais especificamente, o período diagnóstico, e mesmo
a etapa pré-diagnóstica, geralmente, são percebidas e vivenciadas como um
momento de intensas mudanças, perdas e adaptações e onde a morte, até então
não lembrada, passa a aterrorizar como uma possibilidade real (NASCIMENTO et al,
2005). A morte vira fantasma constante para essas pacientes, afinal, a própria
denominação da patologia já está historicamente associada a finitude da vida no
imaginário popular, mesmo tendo diminuído significantemente a incidência de casos
letais devido ao avanço dos recursos médicos.
Em pesquisa realizada por Quintana et al (2004) com mulheres em
tratamento de câncer de mama, a concepção de câncer chega a ser pior do que a
de morte. Segundo os autores, esta idéia fica evidente nos pensamentos suicidas
que aparecem no diagnóstico ou após ele. Também contribui o fato de a pessoa ser
remetida a uma situação de desamparo absoluto quando defronta-se com a doença
em seu corpo. O diferencial e assustador desta doença é a visão de que ela não é
contraída, mas de que um ser estranho é inserido em seu corpo.
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É importante, ainda, ter em mente que ao se falar em morte estamos falando
não apenas da morte física. Esta é vivida também pelo ego, como ameaça de perda
dos seus objetos, o que implica em luto de experiências e fantasias que possam a
ele estar associadas como representante simbólico (ZECCHIN, 2004). Quando se
trata do câncer de mama, tem-se ainda a peculiaridade de, ao atingir um órgão
culturalmente e biologicamente ligado a feminilidade, interferir também em vários
sentimentos da mulher relacionados ao seu corpo nos quesitos eróticos e maternos.
Se durante nossas vidas lidamos com uma falta ilusória, com uma castração
simbólica, nestas mulheres esta falta se faz real no seu corpo, e, justamente, num
órgão cuja supressão traz consigo o temor de novas perdas, seja a maternidade, a
feminidade ou a beleza, e com isso também surge o temor da possibilidade de perda
do seu parceiro (QUINTANA et al, 1999).
A atenção aos familiares também é importante num contexto como este. Tal
atendimento se faz relevante na medida em que a família acaba por sofrer os efeitos
do diagnóstico e da doença junto com a paciente, a qual enfrenta uma série de
tensões que interfere nas relações familiares ultrapassando a simples necessidade
de atender a demandas cotidianas e de cuidado à saúde da mulher (ALMEIDA,
2006).
A família acaba se tornando a maior fonte de apoio da paciente, como
ressaltam Bergamasco e Ângelo (2001), cujo estudo mostra que a mulher considera
a família como apoio para não desistir quando esta emite palavras de
encorajamento, ajuda física e emocional, e quando os membros da família realmente
participam das decisões e questões relacionadas ao tratamento. Porém muitas
vezes a família fica de tal forma abalada com a vivência da doença que se
desequilibra. Tal desequilíbrio incapacita o oferecimento de apoio de que a mulher
necessita podendo prejudicar sua recuperação (DA SILVA; MELO E RODRIGUES,
1999). Por isso faz-se necessário um acompanhamento também com os familiares,
para que possam ser continência necessária a paciente.
Quanto às origens dessa doença tão temida, encontramos diversos fatores
como aqueles considerados hereditários e os relacionados ao meio ambiente (INCA,
2008). Dentre estes fatores encontramos também referência a existência de um
fundo psicossomático. Em um estudo de Bandeira e Barbieri (2007) encontrou-se
em um grupo com a doença muitas semelhanças em relação à história de vida das
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mulheres afetadas, com a presença de um histórico de perdas, frustrações e
decepções, que não foram elaboradas ou integradas à personalidade. As autoras
explicam tais achados por meio do entendimento de que, quando a vivência de
adversidades ultrapassa as condições psiquícas do sujeito, de modo que as defesas
usualmente empregadas não são suficientes para tal enfrentamento, é possível que
os indivíduos, no caso as mulheres estudadas, recorram a mecanismos de defesa
primitivos como a regressão psicossomática.
Tavares (2005) também concorda com tal compreensão de uma espécie de
origem psicossomática desta patologia. A autora afirma que algumas pessoas
podem ser consideradas candidatas ideais ao câncer. Estas apresentariam certas
características de personalidade como depressão, passividade, regularidade dos
hábitos, baixa agressividade ou negação da hostilidade, pouca emotividade,
depressão e dificuldade na formação de vínculos.
Assim sendo, a crença de que pessoas frágeis é que desenvolvem a doença
acaba sendo parte da escuta do diagnóstico. As perguntas mais freqüentes feitas
por elas a elas mesmas são o “por que eu?” e “o que fiz de errado?”. Dessa forma, a
responsabilidade da doença recai principalmente (embora não totalmente) sobre o
próprio paciente. Essa crença é comum em especial no mundo Ocidental, sendo
estimulada por programas do governo de educação para a saúde, onde os
problemas de saúde são atribuídos, cada vez mais, à "negligência" com relação à
alimentação, ao vestuário, à higiene, ao estilo de vida, a relacionamentos, exercício
físico e aos vícios. A doença passa a ser vista como uma evidência dessa
negligência e a vítima acaba por sentir-se culpada por tê-la provocado (TAVARES,
2005).
Quanto ao tratamento, o mais associado e ainda em maior uso médico é a
cirurgia. Quintana et al (2004) perceberam que não há muita esperança das
mulheres em relação a este tipo de tratamento, pois é visto como um acelerador do
processo cancerígeno. Isto aparece devido a crença de que o câncer é uma doença
incurável e qualquer estímulo em relação a ele o faz aumentar. Também pensa-se
que a internação e intervenção cirúrgica farão com que a paciente não mais
retornará para sua casa, e que a estadia no hospital resultaria em longa agonia
findada em morte.
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Por tudo isso, um ambiente que não julgue nem culpe a paciente acaba por
fazê-la expor suas angústias e compartilhá-las, deixando-a mais leve e forte para
combater a doença que a aflige. O desejo de fuga se faz presente, e, neste ponto, a
importância da escuta e do investimento que possa vir do outro que ampara, que dá
continência para a vivência de fragmentação, redobra-se, até que a própria paciente
se reencontre com o desejo de reinvestir em si e nos objetos (ZECCHIN, 2004).
Metodologia
Em 1999, vinculado ao Projeto Renascer para mulheres mastectomizadas,
foi criado o projeto de extensão: “Acompanhamento Psicológico a Pacientes com
Câncer de Mama e Útero do Hospital Universitário de Santa Maria” do curso de
Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) cujo propósito é
acompanhar pacientes que acabam de receber diagnóstico de câncer de mama ou
útero atendidos no ambulatório de ginecologia do referido hospital. Nos dias do
ambulatório dirigido de mastologia e oncologia, uma acadêmica de psicologia fica
presente a fim de atender pacientes que recebem o anúncio diagnóstico. Estas
chegam encaminhadas pela equipe médica que identifica a possível demanda
psicológica.
Uma consulta é feita nos moldes da terapia de apoio (Cordioli, 1998), a qual
busca auxiliar o sujeito a superar crises vitais e acidentais. Assim, procura-se apoiar
e incentivar as atividades do ego onde são utilizadas defesas adaptativas e
desencorajar defesas desadaptativas.
Após a consulta inicial, se identificada demanda de acompanhamento em
um maior espaço de tempo, mais consultas são realizadas, preferencialmente nos
dias marcados para retornos da paciente ao ambulatório médico. Esta rotina foi
assim estabelecida pensando no bem estar das pacientes que, em sua maioria, são
de outras localidades, precisando enfrentar viagens a fim de prosseguir o tratamento
no hospital. Sendo assim, marcar atendimentos que coincidam com a necessidade
já especificada pelo tratamento traz uma dimensão humanizadora ao serviço. Assim,
facilita-se o acesso destas pacientes e evita-se que elas sofram ainda mais com
deslocamentos contínuos que podem aumentar o nível de estresse pela quebra da
rotina diária destas mulheres e exigir adequações constantes quanto a fatores
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práticos como os cuidados com a casa e a família. Quando necessário, os familiares
também são atendidos, na maioria das vezes sendo solicitado por eles mesmos ou
pela própria paciente. Estes atendimentos também seguem moldes da terapia de
apoio anteriormente comentada.
Quanto ao grupo Renascer, que é aberto e quinzenal, a participação da
psicologia se dá através deste projeto em conjunto com a equipe técnica formada
também por uma acadêmica de serviço social, uma acadêmica de fisioterapia,
quatro acadêmicas de enfermagem e duas enfermeiras do próprio hospital e uma
fisioterapeuta e uma nutricionista que participam esporadicamente e auxiliam nos
eventos externos. O número de participantes é variável, sendo em torno de dez por
encontro. Os encontros são organizados pela equipe técnica, mas com temas e
seqüências escolhidos pelas integrantes. Pela psicologia são feitas intervenções
sempre que necessário, principalmente quando há mobilização emocional do grupo.
Também são dadas orientações às demandas trazidas pelas participantes, além
falas sobre assuntos pedidos por elas durante os grupos, principalmente de temas
relacionados à doença e tratamento.
Em cada encontro é feito uma programação para o próximo dia, sempre que
possível trazendo algum convidado. A atuação da equipe técnica é revezada, de
acordo com a temática do dia, sendo que a maior participação desta é nos aspectos
burocráticos do funcionamento do grupo.
Ao final de cada encontro é feita uma confraternização com lanches que as
próprias participantes levam quase sempre feito por elas mesmas, como bolos e
doces e um chá cedido pelo hospital. Reuniões temáticas são feitas nas datas
comemorativas, como festa junina e dia das mães. Alguns desses encontros são
feitos fora das dependências do hospital. A data e local são escolhidos em comum
acordo, sempre se levando em conta as disponibilidades financeiras de todas para
tal plano.
Resultados
No imaginário popular, o câncer é freqüentemente ligado à idéia de doença
incurável e morte. Assim sendo, os números crescentes de casos assustam e dão a
sensação de que ninguém está imune a ele. Dicas de prevenção, estudos e exames
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para diagnóstico cada vez mais precoce tentam acalmar a população, porém, para
quem acaba de se descobrir com a doença, as angústias e medos são inevitáveis.
Em função disso, a criação de um ambiente de escuta psicológica se torna
interessante para aliviar as angústias iniciais, fazendo uso de um espaço propício
para que as mesmas venham a tona e sejam trabalhadas.
Nos atendimentos, percebe-se, inicialmente, uma forte negação da paciente
em relação à doença, muitas justificando que “ainda não caiu a ficha do que está
acontecendo”. Segundo Zecchin (2004), a negação é necessária para que o sujeito
possa dar conta da vivência da realidade uma vez que manter-se consciente durante
todo o tempo torna-se impossível e insuportável. Durante os atendimentos
realizados com as pacientes, busca-se avaliar o uso desse mecanismo, evitando o
confronto direto com esta defesa tão importante para a manutenção de um ego,
neste momento bastante fragilizado. Tentativas impulsivas de quebra desta defesa
podem gerar um grau de ansiedade ainda maior para estas mulheres que ainda
terão muitas dificuldades pela frente, tanto de cunho prático como psíquico.
Tem se observado, com a realização do trabalho, uma facilitação no
enfrentamento do tratamento nas pacientes atendidas, além de uma “sensação de
leveza” relatada por muitas após os atendimentos. A seguir relataremos casos
exemplificadores.
O primeiro caso foi de uma mulher com reincidência de câncer de mama,
muito revoltada com a situação, mas que ao longo do atendimento percebeu a
situação como sua chance de mudar de estilo de vida, coisa que já estava
protelando há anos. Moradora do interior, desde cedo trabalhava na lida do campo e
com os animais. Estava insatisfeita com essa vida, porém não tinha coragem de
abandoná-la. Tinha desejos de viajar e poder passar mais de um dia fora de casa,
fato impossível na rotina que levava. Estimulado este desejo pela estagiária e
demonstrado as possibilidades e no momento necessidade de uma vida mais
tranqüila, ela teve forças de realizar seu desejo, enfrentando com mais garra o
tratamento.
O segundo caso é semelhante na história de vida. A paciente trabalhara a
vida toda na lida do campo junto ao marido, e agora ambos estavam apresentando
problemas de saúde. Ela recusava-se ao tratamento, mas não fora ouvida em
relação aos motivos. Na conversa com a estagiária ela comentou que, fazendo a
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cirurgia, ela não poderia mais trabalhar no campo. e em função da distância aos
locais de tratamento e atenção à saúde deveria mudar-se para a cidade. Além disso,
o marido estava com alguns tratamentos e cirurgias marcadas e necessitava dela
para acompanhá-lo e cuidá-lo, assim como ela dependia dele para os mesmos fins.
Procurando soluções junto à estagiária, ela disse ter possibilidade da mudança, pois
possuía uma casa na cidade, só seria difícil o desapego às suas terras. Quanto ao
trabalho, disse que poderia pagar seus ajudantes para fazê-lo em tempo integral. E
quanto à situação com o marido, conseguiu-se negociar com a equipe de a cirurgia
ser feita após a melhora dele, mesmo com risco de agravamento da doença. Este
consenso foi encontrado quando percebeu-se que se fosse marcada cirurgia antes
ela não compareceria, o que tornaria tudo ainda pior.
Carvalho (1994) relaciona a doença com um truncamento da comunicação,
não somente sobre a doença vigente, mas sobre tudo o que cerca o paciente como
forma de proteção de um segredo, que seriam os sentimentos do doente.
O apoio psicológico parece afrouxar essa comunicação truncada e auxiliar
na elaboração da situação presente, fazendo com que a paciente consiga falar do
que está sentindo, ao menos naquele momento. Além disso, os vínculos no decorrer
do tratamento são abalados, sendo na medida do possível trabalhados e fortalecidos
no apoio.
Quanto aos familiares, as dúvidas geralmente são de como agir com a
paciente, o que falar ou não sobre o diagnóstico da doença, o que fazer ou não fazer
frente a paciente e sua doença, sendo sanadas nos atendimentos pela própria
acadêmica. Desta forma, chegamos próximos à conclusão de que este
acompanhamento das pacientes pela psicologia auxilia na elaboração da doença
que não foi conseguida por si só e ainda faz as vezes de mediador entre os
personagens envolvidos (familiares, paciente e equipe) viabilizando a comunicação
entre estes quando esta não se mostra adequada. Assim, é freqüentemente
realizadas conversas entre a mulher recém diagnosticada e familiares próximos,
como filhos e esposo, sendo esse momento mediado pelo acadêmico de psicologia.
Considerações finais
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Faz-se importante também apontar as peculiaridades do funcionamento do
projeto com relação à vivência em equipe. O vínculo com a equipe não foi difícil de
se estabelecer, porém passa por constantes reformulações em função de a mesma
ser bastante numerosa e com trocas freqüentes de estagiários, acontecendo no
mínimo a cada mês. Após o projeto estar bem consolidado no espaço do
ambulatório, a acadêmica virou referência para casos complexos e inusitados para a
equipe, sendo eles atendidos na presença dela ou na garantia de que ela estivesse
de prontidão para os mesmos. As maiores dificuldades eram encontradas na troca
de equipe, onde muitos casos eram perdidos por desconhecimento ou falta de hábito
da equipe com esse serviço, existente em poucos locais do hospital. Alguns casos
também eram perdidos nas situações em que a acadêmica estava em atendimento
e, por não ser encontrada no momento a paciente era liberada.
Diante destas dificuldades podemos pensar que a Psicologia dentro de
hospitais ainda está ganhando seu espaço, demonstrando sua importância, e por
isso existem poucos profissionais da área atuando em comparação a outras
especialidades historicamente presentes na prática hospitalar. Além disso, o
trabalho em equipe na área da saúde também esta sendo construído, sendo de
certa forma uma modalidade recente de relação entre os profissionais. Durante
séculos os maiores responsáveis pela saúde eram os médicos, tendo eles cuidado
de muitos casos sozinhos. Com o tempo foram surgindo ramificações e
especialidades da saúde que vieram a colaborar com essa prática, cada qual
pensando em uma parte do tratamento.
Em muitos atendimentos foi usado o auxílio da equipe, principalmente
médica. Isto porque as maiores dúvidas encontradas nas pacientes eram em relação
a própria doença e tratamento, que no momento da consulta não foi conseguido
explanar, principalmente pelo choque emocional em que se encontravam. Após a
consulta, e já tendo a paciente conseguido acalmar-se com o auxilio da acadêmica,
as dúvidas surgiam, e por vezes eram elas que angustiavam a paciente. Em sua
maioria eram perguntas básicas, de como se cuidar a partir daquele momento, do
tipo de câncer que possuíam, como adquiriram e o que podiam ou não fazer.
Sempre tivemos colaboração dos médicos e estagiários nessas situações, por vezes
ficando eles mais tempo nessa conversa do que na própria consulta. Verificamos
que esse tipo de atuação conjunta rendeu bons resultados sempre que executada.
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i
1
Trabalho financiado pela Universidade Federal de Santa Maria através do Fundo de Incentivo a
Extensão (FIEX)
2
Psicóloga, Mestranda em Psicologia da Saúde pela Universidade Federal de Santa Maria. Endereço
eletrônico: [email protected]
3
Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Maria. Endereço eletrônico:
[email protected]
4
Psicóloga, Mestranda em Psicologia da Saúde pela Universidade Federal de Santa Maria. Endereço
eletrônico: [email protected]
5
Doutor em Antropologia, professor adjunto do Departamento de Psicologia da Universidade Federal
de Santa Maria. Endereço eletrônico: [email protected]
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CATAVENTOS. ANO 2, N.1, Novembro/2010
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