A paisagem de agonia do Rio Vieira em Montes Claros

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A PAISAGEM DE AGONIA DO RIO VIEIRA EM MONTES CLAROS - MG
FONSECA. Valber Leonardo1
UNIVERDIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS-UNIMONTES
[email protected]
FONSECA, Gildette Soares2
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS-UNIMONTES
[email protected]
RESUMO
Este estudo tem por objetivo apresentar a paisagem degradante do Rio Vieira em
Montes Claros- no Norte de Minas Gerais. Para tanto fizemos pesquisa bibliográfica e
trabalho de campo. É valido destacar que o trabalho foi desenvolvido no Projeto
“Avaliação da evolução da descontaminação do Rio Vieira em Montes Claros-MG”,
vinculado ao Laboratório de Geografia Médica e de Promoção da Saúde do curso de
Geografia - Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Montes ClarosMG. O Rio Vieira tem sua nascente na antiga Fazenda dos Vieras, aproximadamente a
oito quilômetros da cidade de Montes Claros-MG. Pode ser considerado um rio de
pequena extensão, pois percorre mais ou menos cinquenta e três quilômetros e deságua
no Rio Verde Grande afluente do Rio São Francisco. Por estar sob a influência da malha
urbana montesclarense, o Rio perece, apesar da construção da Estação de Tratamento de
Esgoto (ETE), pois permanece o lançamento de efluentes no leito do rio, lixo entre
outros. É visível o comprometimento da qualidade das suas águas, assim como dos seus
afluentes que percorrem também a cidade, ou seja, descaso da população e
especialmente do poder público local.
Palavras Chave: Rio Vieira; Montes Claros; Paisagem; Degradação.
INTRODUÇÃO
As paisagens do Planeta Terra vêm sendo modificadas para atender as necessidades
humanas, porém sabemos que muitas ações são totalmente inadequadas, uma vez que
podemos provocar desequilibro nos ecossistemas irreversíveis, além de gerar problemas
mais graves para a sociedade. Podemos apontar como exemplo, a poluição dos corpos
* Trabalho de Iniciação Cientifica PIBIC/FAPEMIG.
1
Acadêmico do curso de Geografia da Universidade Estadual Montes Claros – UNIMONTES, bolsista do
Projeto “Avaliação da evolução da descontaminação do Rio Vieira em Montes Claros-MG”.
Agradecimento à Fundação de Amparo a Pesquisa do estado de Minas Gerais. FAPEMIG.
2
Professora Mestre em Geografia do Departamento de Geociências da UNIMONTES. Doutoranda em
Geografia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
d’água. Neste contexto, este artigo tem por objetivo apresentar a paisagem degradante
do Rio Vieira em Montes Claros - no Norte de Minas Gerais. O caminho metodológico
consistiu em levantamento bibliográfico e trabalho de campo.
O Rio Vieira tem apenas a área da nascente e seu entorno com águas de boa qualidade,
pois ao adentrar na área urbana de Montes Claros podemos observar a ausência de mata
ciliar, encaixotamento do curso do Rio, impermeabilização das margens impedindo a
infiltração da água da chuva e consequentemente comprometendo a recarga subterrânea.
Existem alguns trechos do Rio que é notável a falta de segurança para a população, pois
estruturas de proteção foram destruídas pelas chuvas de 2010 e poder público não
substituiu, além de se encontrarem dentro do leito do rio (...), ou seja, a urbanização sem
planejamento tem consequência direta na aceleração de processos de destruição das
águas.
REFLEXÕES SOBRE A CATEGORIA PAISAGEM
A paisagem, assim como lugar, território, espaço e região são categorias de análise da
Geografia, todas oportunizam compreendermos a complexidade do espaço geográfico.
Cavalcante (2001, p.98) considera que “[...] a paisagem tem sido tomada como um
primeiro foco de análise, como ponto de partida para aproximação do seu objeto de
estudo que é o espaço geográfico, contendo ao mesmo tempo uma dimensão objetiva e
uma subjetiva”.
A categoria abrange vários aspectos como os sentidos, volumes, memórias, vivências e
o subjetivo, assim existe uma tendência das pessoas associa - lá apenas a beleza.
Entretanto, paisagem está relacionada com as transformações contínuas da sociedade
em um determinado espaço e tempo, ou seja, a paisagem passa a ser a expressão
materializada de todas as relações sociais, culturais, econômicas e políticas do homem
em um determinado lugar. Nas palavras de Santos (1994, p.61): “Tudo aquilo que nos
vemos, o que nossa visão alcança,é a paisagem. Esta pode ser definida como o domínio
visível, aquilo que a vista abarca. Não é formada apenas de volumes, mas também de
cores movimentos, odores e sons”.
Neste contexto, podemos pontuar que a paisagem é repleta de elementos que possibilita
leituras diferenciadas. Para Santos (1994 p.61) a paisagem “[...] é composta por objetos
naturais e de objetos artificiais ou sociais, que variam de acordo com as mudanças
vividas pela sociedade em determinado tempo, sendo ela mutável [...]”, assim a
paisagem pode ser natural, artificial, humanizada entre outras. A paisagem natural é
entendida como aquela que não foi submetida à ação do homem, a representação visível
de aspectos do espaço geográfico. A paisagem artificial elaborada totalmente pelo
homem e a humanizada sofreu os efeitos da ação antrópica. Santos (1994, p. 68) pontua:
A paisagem não é dada para todo o sempre, é objeto de mudança. É um
resultado de adições e subtrações sucessivas. É uma espécie de marca da
história do trabalho, das técnicas. Por isso, ela própria é parcialmente
trabalho morto, já que e formada por elementos naturais e artificiais. A
natureza natural não é trabalho. Já o seu oposto, a natureza artificial, resulta
do trabalho vivo sobre trabalho morto. Quanto a quantidade de técnica é
grande sobre a natureza, o trabalho se dá sobre o trabalho.
Consideramos que através da paisagem o homem reproduz a (des) organização da
sociedade em escala e tempo distinto e ou igual. Assim, a paisagem fornece
informações essenciais para entendermos a sua dinâmica, isto é, os movimentos das
pessoas, capital, transportes, redes e informações que paulatinamente vão (re)
construindo e modificando o espaço terrestre.
Conforme o passar do tempo ocorreram (ocorrem) diversas transformações nas
paisagens e no modo de interpretá-las, segundo Moreira (2002) as evoluções
tecnológicas e as formas organizacionais do espaço tornaram a paisagem em algo
fluido, a partir de então surgiram novas formas de interpretar seus agentes de
modificação e os resultados dessas alterações.
Para Razaboni (2009) a paisagem pode ser modelada de acordo com as características
econômicas, históricas, culturais e tecnológicas, sendo composta pelos traços da
sociedade. Partindo desta concepção, inferirmos que a paisagem do Rio Vieira em
Montes Claros – MG foi alterada seguindo a lógica urbana sem um devido
planejamento, característico das cidades grandes e médias do Brasil, o que culminou na
degradação do Rio como apresentamos na sequência.
CARACTEIZAÇÃO DA PAISAGEM DO RIO VIEIRA EM MONTES CLAROS MG
A expansão urbana de Montes Claros no Norte de Minas Gerais sem planejamento
oportunizou grandes problemas de ordem socioambiental, a saber, a poluição dos cursos
de água, especificamente do Rio Vieira e seus afluentes.
O Rio Vieira tem sua nascente nas coordenadas 43°56’04” W de longitude e 16°47’22”
S de Latitude, aproximadamente a oito quilômetros da cidade de Montes Claros na
antiga Fazenda dos Vieiras (FIGURA 1).
Figura 1: Localização da nascente do Rio Vieira
Fonte: Leite, el al. , 2011.
A nascente do Rio Vieira e seu entorno apresenta-se preservada, formando pequenas
corredeiras com água límpida, mas ao adentrar na área urbana já começa a sofrer os
impactos negativos causados pela falta de planejamento. O Rio Vieira tem com
afluentes: o córrego da Vargem Grande, o córrego dos Bois, o córrego Melancias e o
córrego do Cedro. Percorre mais ou menos cinquenta e três quilômetros e deságua no
Rio Verde Grande afluente do Rio São Francisco.
O Rio Vieira e seus afluentes se encontram sob a influência da malha urbana da cidade
de Montes Claros funcionando como receptor dos resíduos poluidores que
comprometem a qualidade das suas águas e alteram a paisagem (FIGURA 2).
Figura 2: Poluição do Rio Vieira na foz
Autor: FONSECA, G, S.2011.
A Figura 2 apresenta claro que as águas do Rio Vieira se encontram poluídas, a espuma
branca é o cenário de como estamos transformando a paisagem do Rio Vieira,
visualizamos uma situação de venerabilidade ambiental.
No espaço urbano notamos que o encaixotamento do Rio Vieira (FIGURA 3) e
impermeabilização das margens impedindo a infiltração da água da chuva e
consequentemente comprometendo a recarga subterrânea.
Figura 3: Curso do Rio Vieira em Montes Claros - MG.
Autor: FONSECA, V, L.2012.
Na Figura 3 observamos também que a vegetação foi retirada, ou seja, houve a
devastação da mata nas áreas marginais. Embora o Rio Vieira constitua o mais
importante rio que atravessa a cidade de Montes Claros-MG, não houve planejamento
adequado quanto ao uso e ocupação das áreas próximas a ele ao longo da história.
Em alguns trechos do curso do Rio é notável o descaso do poder público e da
população, pois podem ser encontradas as suas margens, sacolas e garrafas plásticas,
animais mortos, restos de construções entre outros, o que configura total
despreocupação com a revitalização do Rio Vieira (FIGURA 4).
Figura 4: Sedimentos no leito do Rio Vieira.
Autor: FONSECA. V, L.2012.
Infelizmente faz parte da cultura de grande parte dos brasileiros não se preocupar com
a preservação e conservação dos recursos naturais, contudo é urgente, especialmente
na contemporaneidade voltarmos nosso olhar para a disponibilidade e a qualidade dos
recursos hídricos, é preciso cada cidadão assumir a sua responsabilidade, não ficar
aguardando ações apenas do poder público. Cuidar dos recursos hídricos é caso de
sobrevivência e obrigação de todos.
Notamos em muitos trechos ao longo do percurso do Rio que as muretas de proteção
foram quebras (FIGURA 5).
Figura 5: Curso do Rio Viera sem mureta de proteção
Autor: FONSECA, V.L, 2012
A Figura 5 evidencia que a situação é grave, pois a estrutura de proteção foi destruída
pelas chuvas forte no verão de 2010 e até o presente momento (inverno de 2012) não foi
substituída, o poder público apenas colocou placas de sinalização conforme a Figura 6.
Figura 6: Placa de sinalização, aviso do perigo eminente.
Autor: FONSECA. V.L.2012.
A ausência da estrutura de proteção aumenta o risco de queda de veículos e até mesmo
de pessoas dentro do leito, apenas na área central da cidade é visível a substituição da
mureta de concreto pela grade de ferro.
Em decorrência das diversas pressões exercidas pelo homem sobre o Rio Vieira, este
sofreu uma ampla descaracterização da sua paisagem. O processo de urbanização, sem
planejamento gera impactos negativos não só a natureza, mas também ao próprio ser
humano, como o comprometimento do canal fluvial, proliferação de insetos, focos de
doenças, entre outros.
A partir da segunda metade do século 20, os homens, em todos os seus
grupos étnicos, em todas as nações e credos do mundo, foram afetados pelas
transformações progressivas no meio ambiente. Os impactos negativos mais
rápidos foram percebidos na degradação dos recursos naturais não-renováveis
e no acumulo de rejeitos e resíduos das grandes concentrações urbanas e
parques industriais. (DUARTE, 2003, p.245).
Os rejeitos e resíduos urbanos geralmente têm sido lançados nos rios que atravessam
as cidades, o que teoricamente leva a comodidade, descartamos o que não queremos
em nossas casas, mas para onde vai? Qual o destino final? Geralmente não nos
preocuparmos com destino do lixo, do esgoto, assim passamos a ser meros
consumidores, sem qualquer consciência dos danos a natureza. A inquietação surge
apenas quando aparecem as consequências: inundações, doenças, mosquitos, torneira
sem água (...). Conforme Leite at al, (2001, p.11):
Outro problema ambiental encontrado na bacia do rio Vieira é a presença do
aterro de lixo [...]. O aterro controlado está localizado na parte alta da bacia,
próximo a nascente. Como trata de aterro controlado, não há medidas
ambientais adequadas para evitar as consequências do aterramento do lixo,
como a percolação do chorume que pode contaminar o lençol freático.
Em Montes Claros-MG são muitos os problemas ambientais e poucas ações efetivas.
Destarte, é nítida a paisagem de degradação do Rio Vieira, o poder público e a própria
população local se mostram ineficiente e alheia à situação, faltam ações eficazes com
intuito de revitalizar e manter o seu equilíbrio ambiental de toda a bacia do Vieira.
Sabemos que a construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) (FIGURA 7)
na cidade de Montes Claros-MG significa um dos maiores avanços no processo de
revitalização da Bacia do Rio Vieira e do Verde Grande. O Rio Viera é um dos
principais responsáveis pelo lançamento de esgoto in natura do Rio Verde Grande que
deságua no Rio Francisco em Malhada – BA.
Figura 7: Triagem do lixo na ETE- Montes Claros-MG
Autor: FONSECA, G.S, 2011
A Figura 7 demonstra que a água que chega à ETE é repleta de lixo de várias espécies o
que de certa forma retarda o processo de tratamento, além de encarecer. A ETE é de fato
uma das alternativas para a revitalização da bacia do Vieira, contudo outras ações
devem ser implantadas com urgência, reflorestamento das matas ciliares, fim do
lançamento de lixo de toda espécie no curso do Rio e de seus afluentes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Acreditamos que com a degradação do Rio Vieira em Montes Claros - MG cabe ao
poder público tomar as iniciativas, divulgar ações, mobilizar a sociedade para participar
de maneira efetiva, a fim de revitalizar a bacia do Rio. O que se percebe, ainda de
maneira tímida são ações isoladas que buscam a sensibilização popular quanto aos
fatores degradantes que afetam o Rio Vieira.
Consideramos ser necessário a participação de todos, representantes do poder público de
todas as esferas e da população para a resolução dos problemas que afetam o
ecossistema do Rio Vieira. O cumprimento de maneira efetiva às leis de proteção
ambiental; o fortalecimento de ações de educação ambiental; a reciclagem do lixo;
planejamento do uso e a ocupação do solo, evitando assim a degradação da paisagem do
Rio e dos seus afluentes, enfim, revitalizar a bacia hidrográfica.
REFERÊNCIAS
CAVALCANTI, Lana de Souza. Geografia, escola e construção de conhecimentos.
3ª. ed. Campinas: Papirus, 1998
DUARTE. Moacir. O problema do risco tecnológico ambiental. p 245-257. In:
TRIGUEIRO, André. Meio Ambiente no Século 21. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.
LEITE, Marcos et al. Mudança de Uso do Solo na Bacia do Rio Vieira, em Montes
Claros/MG. In Revista Brasileira de Geografia Física. Disponível <<
http://www.ufpe.br/rbgfe/index.php/revista/article/view/199/266>>. Acessado em 10 de junho
de 2012
MOREIRA, Ruy. Para onde vai o pensamento geográfico?Por uma epistemologia
crítica. São Paulo: Contexto. 2006.
MACIEL, Ana Beatriz Câmara. MARINHO, Fábio Daniel Pereira. O Estudo da
Paisagem e o ensino da Geografia: breves reflexões para docentes no ensino
fundamental II. Geosaberes, Fortaleza, v.2, n.4, p.55-60/dez 2011. Universidade Federal
do Ceará. Disponível em http//:www.geosaberes.ufc.br.Acessado em :20 Agosto 2012.
RAZABONI, Jacira. Analise e interpretação da paisagem na dinâmica urbanaMaringá-PR. Disponível em: http//:www.diadiaeducacão.pr.gov.br.Acessado em :20
Agosto 2012.
SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo. Hucitec, 1994.
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