A dor dos queimados - Jornal da Saúde Angola

O Caminho do Bem
a saúde nas suas mãos
MINISTÉRIO DA SAÚDE
GOVERNO DA REPÚBLICA DE ANGOLA
Ano 7 - Nº 74
Julho/Agosto
2016
Mensal Gratuito
jornal
European Society for
Quality Research
Lausanne
Director Editorial: Rui Moreira de Sá
OXFORD
aude
A
da
EUROPE BUSINESS ASSEMBLY
N
G
O
L
Crianças com menos de 5 anos são as maiores vítimas
A dor dos
queimados
Queimaduras aumentam. Saiba porquê
e evite. Entrevista com a médica Lídia
Dembi, directora do hospital Neves
Bendinha |Pags.12 e 14
A
Pedro Albuquerque
“Muitas perdas
de visão podem
ser evitadas
em Angola”|Pag. 10
FALA POVO
Quais as razões
que levam
jovens a
consumir
álcool e drogas?
A visão dos angolanos.
|Pag. 16
EXPO FARMA
é já em
Setembro
Investigação em Angola
Resistência crescente
aos antimaláricos pode
atrasar fase de pré-eliminação da malária
Em Luanda, a prevalência de Staphylococcus aureus meticilina-resistente,
em infecções associadas aos cuidados de saúde, é superior a 60% e, actualmente, uma das mais altas na África Subsariana. Na população pediátrica pode
até mesmo chegar a 82,4%. Para além da resistência aos antibióticos, a resistência
aos antimaláricos, nomeadamente aos regimes com combinações de artemisina
(ACTs), é uma ameaça crescente em território angolano, conclui estudo do CISA. |Pag.6
Essencial
para criar
novas
memórias
Dormir bem 'reinicia' o cérebro
A falta de descanso leva a que as ligações neuronais no cérebro fiquem sobrecarregas
de actividade elétrica, a ponto de impedir a retenção de novas informações. |Pag. 8
A III Semana da Farmácia Angolana e 4ª Expo Farma realizam-se a 22 e 23 de Setembro
próximo, no CC Belas. De
acordo com o Bastonário da
OFA, Boaventura Moura, “o
evento apresenta um programa científico de excelência e
reunirá centenas de farmacêuticos, técnicos de farmácia
e outros profissionais de saúde provenientes de todo o
país e convidados da lusofonia”. Mais de 15 empresas fabricantes e distribuidoras de
medicamentos já garantiram
a sua presença como expositores.
2 EDITORIAl
Julho/Agosto 2016 JSA
QUADRO DE HONRA
Rui MoReiRa de Sá
Director Editorial
Empresas Socialmente Responsáveis
[email protected]
O Jornal da Saúde chega gratuitamente às suas mãos graças
ao apoio das seguintes empresas e entidades socialmente
responsáveis que contribuem para o bem-estar dos angolanos
e o desenvolvimento sustentável do país.
Na saúde é assim: quanto mais souber, mais ela melhora
Para esta edição, preparámos um conjunto de matérias, algumas
com base em entrevistas a especialistas, que julgamos ser do
maior interesse para o leitor interessado em melhorar a sua saúde e para o profissional se manter actualizado nas áreas que não
são da sua especialidade.
O tema de capa – as queimaduras – reflecte uma realidade que
nos é próxima por ser tão frequente. Lamentavelmente, as condições em que vive a maioria da população são propícias a originar
acidentes desta natureza, sejam provocados por choques eléctricos, ou por água a ferver, explosões de botijas de gás, velas, enfim
uma infinidade de causas.Ainda assim, há precauções que os cidadãos – mesmo das camadas mais desfavorecidas – podem tomar
para evitar as ocorrências, principalmente em crianças que são as
maiores vítimas. Em Luanda, o hospital que em primeira linha
acolhe os queimados é o Neves Bendinha.Apesar das dificuldades,
atende cerca de 20 acidentados por dia e interna seis, para além
da prestação de cuidados primários, consultas e urgências em outras áreas, conforme nos relatou a sua directora, Lídia Dembi.
Pedro Albuquerque fala-nos das principais doenças do foro oftalmológico, recomenda a consulta regular a um oftalmologista e defende a tese de que é possível diminuir muitas perdas de visão em
Angola caso o país possua mais especialistas pediátricos, de forma
a detectar-se precocemente cataratas congénitas em crianças que
podem ser operadas até aos três meses de idade. Fique ainda a
saber como prevenir as conjuntivites.
As razões que levam os jovens a consumir álcool, drogas e a
abraçar a criminalidade é um tema central na sociedade actual.
Angola não é excepção. Fomos saber a opinião dos cidadãos e
consultámos uma especialista, a psiquiatra Fausta SáVaz da Conceição.Aqui ficam algumas pistas para reflexão e investigação
posterior.
A problemática da resistência aos antibióticos é abordada nesta
edição com um artigo da autoria de três investigadores do CISA.
Finalmente, saiba também quais os exercícios para manter o seu
cérebro jovem e activo, os benefícios de uma boa noite de sono
e as propriedades e efeitos do limão na saúde.
FICHA TÉCNICA Conselho editorial: Prof. Dr. Miguel
Bettencourt Mateus (coordenador),
Dra. Adelaide Carvalho, Prof. Dra.
Arlete Borges, Dr. Carlos (Kaka) Alberto, Enf. Lic. Conceição Martins,
Dra. Filomena Wilson, Dra. Helga
Freitas, Dra. Isabel Massocolo, Dra.
Isilda Neves, Dr. Joaquim Van-Dúnem, Dra. Joseth de Sousa, Prof. Dr.
Josinando Teófilo, Prof. Dra. Maria
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Director Editorial: Rui Moreira de Sá
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Redacção: Cláudia Pinto; Francisco
Cosme dos Santos; Magda Cunha
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(Cuanza Norte); Casimiro José
(Cuanza Sul); Victor Mayala (Zaire)
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Salvação Barreto
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Audiência estimada: 80 mil leitores.
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ACTUAlIDADE 3
Julho/Agosto 2016 JSA
Através da Hospitec
Johnson & Johnson relança
a distribuição da marca em Angola
Francisco cosmE
com rui morEira DE sá
A Johnson & Johnson
procedeu ao relançamento da distribuição da sua
marca em Angola, pela
mão da Hospitec, num
evento realizado em
Luanda, no final de Julho,
que contou com a presença de largas dezenas de
convidados, entre médicos, responsáveis da saúde e corpo diplomático.
n
A representante do UNFPA em Angola, Florbela Fernandes, entrega o
diploma a uma das profissionais de saúde, Angelina Domingas da Silva.
Na mesa do presidium, o director da DNSP, Miguel de Oliveira, a representante da PSI Angola, Anya Fedorova (na imagem) e a directora da Maternidade Lucrécia Paím, Adelaide Carvalho
As técnicas de saúde que concluíram o curso com aproveitamento estão
agora mais capacitadas na área do planeamento familiar
Com vista à redução
de gravidezes não desejadas
Técnicos de saúde
concluem curso de
planeamento familiar
n Angola passou a contar com
mais 11 técnicos de saúde habilitados com conhecimentos
teóricos e práticos sobre os diferentes métodos modernos de
planeamento familiar, em particular nas práticas de inserção
e remoção de implantes e do
dispositivo intra-uterinos
(DIU), vulgarmente conhecido
como “mola”, após terem concluído com sucesso a respectiva acção de formação.
O curso “Capacitação / Refrescamento de Formadores em Planeamento Familiar”, com a duração de dez dias, decorreu na maternidade Lucrécia Paím, em
Luanda, e foi promovido pela Direcção Nacional de Saúde Pública
(DNSP), em parceria com Population Services International (PSI)
e o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA).
De acordo com o director da
DNSP, Miguel dos Santos Oliveira,
“esta formação enquadra-se nos
esforços do Ministério da Saúde
(MINSA) para que o planeamen-
to familiar seja visualizado como
uma importante estratégia para a
redução da morbilidade e mortalidade materna e infantil, permitindo o crescimento socioeconómico das famílias e do país”.
O curso é resultado da parceria
do MINSA com o Projecto de Saúde da Mulher (PSM) que está a ser
implementado pela PSI/Angola,
desde Janeiro de 2016, com término previsto para Dezembro de
2018. O PSM tem como principal
objectivo contribuir para a redução da mortalidade materna,
através do apoio nas acções implementadas para a redução do
número de gravidezes não desejadas, por via do reforço da promoção do planeamento familiar.
A cerimónia de encerramento, no dia 1 de Julho, presidida pelo director da DNSP, Miguel dos
Santos de Oliveira, contou com a
participação da directora da maternidade Lucrécia Paím, Adelaide de Carvalho, a representante
do UNFPA em Angola, Florbela
Fernandes e a representante da
PSI Angola, Anya Fedorova.
Na ocasião, o director executivo dos dispositivos médicos da Johnson & Johnson para África, Christopher Norman, defendeu que
é “em momentos difíceis
que se deve apostar mais na
saúde das populações, e
Angola não é excepção”.
O director da CECOMA,
Boaventura Moura, que falava em representação da
Secretária de Estado da
Saúde, saudou “o regresso
dos produtos com a marca
Johnson & Johnson ao território nacional e reconheceu “os esforços e a confiança desta empresa e da distribuidora Hospitec”.
O responsável da Hospi-
tec, Pedro Perino, salientou
que o mercado angolano
pode esperar da sua empresa a continuidade de
um bom serviço, a formação de mais profissionais, e
uma maior aposta no capital humano em várias áreas
da medicina.
Durante o evento, o JS
falou com alguns dos médicos presentes. Para o ortopedista especialista em cirurgia do joelho e traumatologia desportiva, Alberto
Lemos, “já trabalhei com os
produtos da Johnson &
Johnson, utilizei-os em intervenções cirúrgicas da
anca, durante muitos anos,
fiz artroplastia e considero
as próteses da Johnson de
boa qualidade”. Este profissional considera que “o relançamento da Johnson &
Johnson em Angola foi
uma grande iniciativa da
Hospitec, porque sendo
uma das melhores empresas do mundo é uma maisvalia para o país, sobretudo
para o sector da saúde”.
Também para o cirurgião especialista em ginecologia e obstetrícia, Sérgio
Delegado Travessio, “conheço perfeitamente os
produtos da marca, desde a
minha actividade em Havana, e são os melhores. Até ao
momento não existe nenhuma outra marca no
mundo que esteja à altura
de concorrer com a Johnson & Johnson em todos os
seus aspectos”. O médico
entende que “o relançamento desta marca em Angola é muito proveitoso,
porque a classe médica precisa de produtos com grande qualidade, como fios de
sutura, drenos e reservatórios, hemostáticos e outros,
que fazem falta no mercado,
e até agora eram adquiridos
na Europa, ou fornecidos
por revendedores que os
importavam, o que obrigava
os pacientes a pagarem tratamentos mais caros”.
Entre outros, a Johnson &
Johnson disponibiliza equipamentos para esterilização
a baixa temperatura, desinfecção, neurocirurgia, artroscopia, coluna, traumatologia, maxilo-facial, cirurgia, ortopedia com próteses
artificiais para cirurgias da
anca e joelho, infertilidade,
histeroscopia, urologia e sistema de fechamento da pele
(Dermabond).
Na cerimónia estiveram
ainda presentes, a responsável comercial da embaixada dos EUA, Júlia Guerreiro, o director regional da
companhia, Bassem Bibi e
o director em Angola e Palops, Miguel Martins.
4 empreSAS
Julho/Agosto 2016 JSA
LABCONCEPT Cinco anos a inovar
Francisco cosme dos santos
com eileen Barreto
A Labconcept procura continuamente produtos inovadores na área da saúde,de
modo a trazer paraAngola
meios de diagnóstico e tratamento de ponta,contribuindo assim para o crescente
desenvolvimento das técnicas dos seus clientes,bem como para a formação dos quadros.Em declarações ao JS
por ocasião da comemoração,este mês de Julho,do seu
5º aniversário,o director técnico e de qualidade,Carlos
Vicente,revelou os pilares
em que assenta o sucesso
desta empresa do sector da
saúde:serviços modernos
que permitem que os produtos cheguem rapidamente e
com segurança aos clientes e
a sua proximidade às comunidades,através do trabalho
e dedicação de uma equipa
técnica especializada.
Carlos Vicente lembrou
que a Labconcept entrou no
mercado da comercialização e distribuição de equipamentos hospitalares, “com o
objectivo de trazer para Angola marcas de qualidade
em equipamentos e serviços, colmatando assim as
fragilidades e indo ao encontro das necessidades do mercado”.
Realçou ainda as parcerias estabelecidas entre a
Labconcept e destacadas
marcas internacionais como
a Abbott, Analyticon, R-Biopharma, Medec, Alere,
Atlanticonceito entre outras,
“que têm vindo a contribuir
para a segurança e qualidade dos procedimentos na
área laboratorial e nos bancos de sangue”. O diagnóstico laboratorial é o ponto
principal e exacto para um
bom diagnóstico e consequente tratamento por parte
do profissional de saúde. “A
n
A cerimónia de comemoração do 5º aniversário da Labconcept contou com uma vasta e interessada participação de médicos e outros técnicos de saúde
aposta nesta área permite
antecipar e agir de acordo
com o necessário, permitindo ao doente um tratamento
adequado e ajustado”, garantiu. Os bancos de sangue têm
sido uma das grandes preocupações da empresa, à qual
tem dedicado grande parte
do seu trabalho, conforme o
JS tem relatado. “Uma transfusão exige segurança e qualidade e com os equipamentos que comercializamos temos conseguido passar essa
segurança para os profissionais da área, garantido um
serviço de excelência”, assegurou o director.
Carlos Vicente recordou
que a Labconcept surgiu da
da iniciativa de três mentores, com o objectivo de desenvolver uma actividade
que, para além da comercialização de medicamentos de
qualidade, contemplasse a
distribuição de produtos e
equipamentos laboratoriais
e hospitalares, com destaque
para as áreas ortopédica e
endoscópica, incluindo a
prestação de serviços complementares de formação,
consultoria e assistência técnica. Avançou que a Labconcept pretende agora investir
em duas áreas distintas como a da microbiologia e a do
controlo da qualidade das
empresas alimentares e de
produção de águas.
Entre outras individualidades, marcaram presença
na comemoração do 5º aniversário da Labconcept, em
Luanda, médicos, profissionais de saúde do sector público e privado, clientes, parceiros e convidados de outras áreas.
6 ANTIBIÓTICOS
Julho/Agosto 2016 JSA
Anualmente, 700 mil pessoas morrem por infecções por microorganismos resistentes
Consumo de antimicrobianos – um problema
negligenciado? O CISA procura respostas
sente em mais de 80% das
infecções por Plasmodium
falciparum 12. Este cenário
pode atrasar a fase de préeliminação da malária que
Angola ambiciona para os
próximos 5 anos 13.
Joana Cortez1, Carlos Mayer2,
Miguel Brito1,3
1 – Centro de investigação em saúde de
angola (Cisa), Caxito, Bengo, angola; 2 Hospital geral do Bengo, Caxito, angola;
3 - escola superior detecnologia da saúde de lisboa, instituto Politécnico de lisboa, Portugal
n A resistência aos antimi-
crobianos ocorre mundialmente, comprometendo o
tratamento das doenças infecciosas e prejudicando
muitos outros avanços na
saúde e medicina. Recentemente, o jornal The Economist alertou para o facto de
ser uma das maiores ameaças à saúde global: anualmente, 700 mil pessoas morrem por infecções por microorganismos resistentes e,
em 2050, podem atingir os
10 milhões1. Os custos associados são elevados e estão
relacionados com a maior
falência terapêutica, tempos
de tratamento e internamentos mais prolongados.
Resistência aos
antimicrobianos
A resistência aos antimicrobianos é um fenómeno
que ocorre de forma natural.
No entanto, o incorrecto manuseamento de antibióticos
nos humanos e animais está
a acelerar este processo2. Os
hospitais em países de renda
baixa e média (LMICs) funcionam como foco de infecções nosocomiais e os antibióticos de primeira linha
(tais como a ampicilina e a
gentamicina) já não são eficazes em cerca de 70% dos
casos3. Este fenómeno pode
levar a um aumento irracional na utilização de antibióticos de largo espectro.
Combater a resistência aos
antimicrobianos é uma prioridade na agenda da Organização Mundial da Saúde
(OMS), que inclui campanhas de sensibilização para
a boa prática na utilização
antimicrobiana pelo público, decisores políticos, profissionais de saúde e de veterinária. A resistência da Salmonella enterica serovar
Typhi aos antibióticos de
primeira linha está a emergir
na África Central4. Não só as
estirpes MDR (multidrug resistent – co-resistência à ampicilina, cloranfenicol e trimetoprim / sulfametoxazol), assim como as estirpes
com sensibilidade diminuída à ciprofloxacina, têm sido
relatadas na S. typhy e Salmonella não-typhi 4,5,6,7.
Um genótipo distinto de Salmonella enterica var Typhimurium, ST313, emergiu como uma nova estirpe patogênica
na
África
subsaariana, e poder-se-á
ter adaptado, para causar
doença invasiva em seres
humanos. Esta estirpe multirresistente tem causado
epidemias em vários países
africanos e impulsionado o
uso de antibióticos caros nos
mais pobres serviços de saúde do mundo 8.
Angola não é excepção
Em contraste com a Europa
e outras regiões, os dados de
uso de antimicrobianos nos
LMICs são escassos e Angola não é excepção. Em Luan-
da, a prevalência de Staphylococcus aureus meticilinaresistente em infecções associadas aos cuidados de
saúde é superior a 60% e, actualmente, uma das mais altas na África Subsariana. Na
população pediátrica pode
até mesmo chegar a 82,4%
9,10.
Resistência aos
antimaláricos
Para além da resistência aos
antibióticos, a resistência
aos antimaláricos, nomeadamente aos regimes com
combinações de artemisina
(ACTs) é uma ameaça crescente em território angolano. Um caso clínico recente
descreveu um doente com
malária a regressar de Luanda a uma região não-endémica no Vietname com má
resposta ao artesunato endovenoso, assim como à dihidroartemisina-piperaquina11. Estudos moleculares
de genes de resistência feitos
na Província do Bengo reve-
« Em Luanda,
a prevalência
de Staphylococcus
aureus
meticilina-resistente
em infecções
associadas aos
cuidados de saúde
é superior a 60%
e, actualmente,
uma das mais altas
na África
Subsariana.
Na população
pediátrica pode
até mesmo chegar
a 82,4%”
laram que a frequência de
polimorfismos pfmdr1 no
Plasmodium (marcador
molecular de resistência a
antimaláricos) foram diferentes dos observados em
Luanda, assim como a dominância do alelo N86, pre-
Sistema de Vigilância de
Morbilidade
O Sistema de Vigilância de
Morbilidade (SVM) é uma
plataforma, estabelecida em
2010 no CISA (Centro de Investigação em Saúde de Angola), para a recolha e análise sistemática de informação clínica da população,
em idade pediátrica, que é
atendida no Hospital Geral
do Bengo (HGB). Dados colhidos desde Agosto de 2010
até Maio de 2013 revelaram
que a prescrição antibiótica,
de forma empírica, em
crianças diagnosticadas
com malária foi feita com
amoxicilina (24,2%), ceftriaxone (20,4%), ampicilina
(12,9%) e ciprofloxacina
(7%). As crianças diagnosticadas com gastroenterite
aguda foram prescritas com
co-trimoxazole (42,5%), ceftriaxone (15,7%), amoxicilina (14,8%) e metronidazole
(5,5%). As crianças diagnosticadas com infecção respiratória superior foram prescritas com amoxicilina
(41,2%),
cotrimoxazol
(23,6%) e 23,6% com amoxicilina/ácido clavulânico. As
crianças a quem foram diagnosticadas infecções do trato respiratório inferior, cerca
de metade, 53,1%, foram
medicadas com amoxacilina, 14.3% com ampicilina,
12.2% com ceftriaxone e
9.1% foi medicada com penicilina. De acordo com um
relatório da OMS14, o consumo de antibióticos é excessivo, principalmente em
LMICs, onde até 42% das
pessoas revelaram consumir antibióticos, de qualquer classe terapêutica no
último mês, comparativamente a 29% das pessoas
que vivem em países de elevada renda.
O CISA planeia actualizar
no decorrer da 10ª ronda do
Sistema de Vigilância Demográfica, implementado
no Município do Dande, os
dados referentes ao consumo comunitário de antimicrobianos. Com isto, espera
que possa ser parte integrante de uma nova linha de
investigação na área da antibioterapia, sépsis e choque
séptico.
Os estudos sobre a resistência aos antimicrobianos,
nas suas diversas componentes, terão impacto na política pública sensata de reservar novos fármacos para
emergências, e eventualmente levarão à investigação de novas moléculas por
parte das indústrias farmacêuticas.
Referências bibliográficas:
1 – The Economist May 21st 2016 When
the drugs don´t work
2 - Holmes AH, Moore LS, Sundsfjord A,
Steinbakk M, Regmi S, Karkey A, Guerin
PJ, Piddock LJ. Understanding the mechanisms and drivers of antimicrobial resistance.
Lancet.
2016
Jan
9;387(10014):176-87.
3 - Erika Vlieghe. The First Global Forum
on Bacterial Infections calls for urgent action to contain antibiotic resistance. Expert Rev. Anti Infect. Ther. 10(2), 145–148
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4 - Lunguya O et al. Salmonella Typhi in
the Democratic Republic of the Congo:
Fluoroquinolone decreased susceptibility on the rise. PLoS 2012;6(11):e1921.
5 - Phoba MF et al. Multidrug-Resistant
Salmonella enterica, Democratic Republic of the Congo. Emerg Infect Dis. 2012
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typhoidal and non-typhoidal salmonellae. Current Opinion in Infectious Diseases 2008,21:531-538
7 - Lunguya O et al. Antimicrobial Resistance in Invasive Non-typhoid Salmonella from the Democratic Republic of
the Congo: Emergence of Decreased
Fluoroquinolone Susceptibility and Extended-spectrum Beta Lactamases.
PLoS 2013;7(3):e2103
8 - Feasey NA et al. Invasive non-typhoidal salmonella disease: an emerging and
neglected tropical disease in Africa. Lancet. 2012 June 30; 379(9835): 2489–2499.
9 - Conceição, T., C. Coelho, I. Santos-Silva, H. de Lencastre, and M. Aires-deSousa (2014). Epidemiology of methicillin-resistant and -susceptible Staphylococcus aureus in Luanda, Angola: first
description of the spread of the MRSA
ST5-IVa clone in the African continent.
Microb. Drug Resist. 20:441–449.
10 - Conceição, T., C. Coelho, I. Santos Silva, H. de Lencastre, and M. Aires-deSousa (2015). Staphylococcus aureus in
former Portuguese colonies from Africa
and the Far East: missing data to help fill
the world map. Clin. Microbiol. Infect.
21:842.e1–842.e10
11 - Van Hong N, Amambua-Ngwa A,
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Dung N, et al. Severe malaria not responsive to artemisinin derivatives in man returning from Angola to Vietnam. Emerg
Infect Dis. 2014;20:1199–202.
12 - Fancony C, Gamboa D, Sebastiao Y,
Hallett R, Sutherland C, Sousa-Figueiredo JC, et al. Various pfcrt and pfmdr1 genotypes of Plasmodium falciparum cocirculate with P. malariae, P. ovale spp.,
and P. vivax in northern Angola. Antimicrob Agents Chemother. 2012;56
(10):5271–7.
13 - Fançony et al. Malar J (2016) 15:74.
14 – WHO 2015. Antibiotic Resistance:
Multi-country public awareness survey.
8 ActuAlidAde
Julho/Agosto 2016 JSA
Dormir bem 'reinicia' o cérebro e
é essencial para criar novas memórias
A falta de descanso leva a
que as ligações neuronais no
cérebro fiquem sobrecarregas de atividade elétrica, a
ponto de impedir a retenção de novas informações.
n Cristoph Nissen, psiquia-
tra da Universidade de Friburgo, liderou um estudo
que demonstra pela primeira vez que dormir bem tem
um impacto significativo na
atividade do nosso cérebro
ao longo do dia. Descansar é
decisivo para que o cérebro
"reinicie" as ligações neuronais para que, no dia seguinte, seja capaz de assimilar
nova informação e criar novas memórias.
Quando não se dorme o
tempo suficiente, a atividade
cerebral torna-se instável, o
que provoca um aumento
da atividade elétrica e um
bloqueio no mecanismo
que possibilita às ligações
neuronais "reiniciarem". Estas consequências traduzem-se numa maior dificuldade para reter novas memórias.
Cristoph Nissen mostrase entusiasmado com a sua
descoberta, que abra a porta
a novos estudos sobre o tratamento de doenças do foro
psiquiátrico. Uma das terapias mais eficazes na depressão é da privação do sono,
que permite restabelecer as
conexões mentais do paciente. O estudo mais recente permite uma compreensão mais profunda sobre o
assunto e pode ser adaptado
para oferecer melhores tratamentos aos doentes psiquiátricos.
Em declarações ao jornal
The Guardian, o especialista
afirma que o estudo ilustra
"a importância do sono na
atividade cerebral e como
este não é um desperdício
de tempo".
Os resultados são importantes para a Hipótese da
Homeostase Sináptica, teo-
rizada pela Universidade de
Wisconsin-Madison em
2003, que explica porque é
que o nosso cérebro necessita de descansar depois de
estar um dia inteiro a processar o mais variado tipo de
informações. A hipótese
sustenta que, quando estamos acordados, as sinapses
– zonas ativas de contacto
entre uma terminação nervosa e outros neurónios -
Jejum durante três dias pode
regenerar sistema imunitário
n Apenas três dias de jejum serão
suficientes para rejuvenescer todo
o sistema imunitário. A conclusão
é de um novo estudo da Universidade da Califórnia.
Jejuar durante três dias leva o corpo
a começar a produzir novos glóbulos
brancos, mesmo em idosos. A conclusão é de um novo estudo da Universidade da Califórnia que descreve
os resultados como "notáveis".
A investigação, que parece contrariar a ideia comum de que o jejum
não é saudável, sugere que não comer "liga um interruptor regenerativo", que estimula as células estaminais a produzir as células que combatem as infecções.
A descoberta, acreditam os cientistas envolvidos, poderá beneficiar
particularmente os doentes com sistemas imunitários comprometidos,
como os que fazem quimioterapia,
ou simplesmente os mais idosos.
Mas segundo Valter Longo, professor de Gerontologia e Ciências Biológicas da Universidade da Califórnia,
as boas notícias não ficam por aqui:
durante o processo do jejum, o organismo também descarta as partes do
sistema imunitário que possam estar
danificadas ou sejam ineficazes.
"Se temos um sistema [imunitário] fortemente danificado pela quimioterapia ou pelo envelhecimento,
ciclos de jejum podem gerar, literalmente, um novo sistema imunitário", explica.
Durante a investigação, foi pedido aos participantes que jejuassem
regularmente entre dois a quatro
dias ao longo de um período de seis
meses.
"Quando passamos fome, o sistema tenta poupar energia e uma das
coisas que pode fazer para poupar
energia é reciclar muitas das células
imunitárias que não são necessárias,
sobretudo as que possam estar danificadas", acrescenta o investigador.
"O que começámos a reparar, tanto
no trabalho com humanos como
com animais, é que a contagem de
glóbulos brancos desce com o jejum
prolongado. Depois, quando recomeça a alimentação, as células voltam".
fortalecem a ligação entre as
nossas células cerebrais, e
que estas vão ficando saturadas com a informação absorvida ao longo do dia. O
processo consome muita da
nossa energia e o cérebro
sente necessidade de descansar, de modo a consolidar as memórias e a estar
pronto para o dia seguinte.
Na publicação Nature
Communications, Nissen
descreve a série de testes feitos a 11 indivíduos que foram obrigados a permanecer acordados. Depois utilizou pequenos choques
elétricos para fazer disparar
a atividade cerebral e percebeu que, quando estamos
privados de sono, um pequeno choque é suficiente
para os nossos músculos se
mexerem, uma prova de que
o cérebro se encontra num
estado de excitação.
De seguida, Nissen virouse para a estimulação cerebral com o propósito de copiar a forma como os neurónios disparam quando estão
a criar memórias. E constatou que é mais difícil fazer
com que os neurónios respondam em pessoas que
não tenham descansado o
suficiente.
Ao juntar estes dados, o líder do estudo chegou à conclusão que dormir ajuda o
cérebro a acalmar e a preparar-se para criar memórias.
Em contraste, nas pessoas
privadas de sono o cérebro
encontra-se num frenesim
de atividade elétrica que
bloqueia esse processo.
A descoberta poderá ser
importante para explicar o
porquê de ressonarmos, por
exemplo, e pode também
ajudar trabalhadores por
turnos e militares que lidam
com privação de sono a obterem novos medicamentos
tendo em vista a normalização da atividade cerebral.
Olimpíadas Rio 2016
Os atletas estão cada vez mais velhos.
Qual o segredo da longevidade no desporto?
n Mais rápido, mais forte, mais alto e... mais velho. A idade média
dos atletas olímpicos aumentou
dois anos, de 1988 para 2016.
Kristin Armstrong ficou em primeiro lugar na prova de ciclismo de estrada, tem 43 anos; Anthony Ervin
venceu o ouro nos 50 metros livre,
tem 35 anos; a ginasta Oksana Chusovitina já participou em sete competições olímpicas, despediu-se no
Rio, aos 41 anos. Das Olimpíadas de
1988 até 2016, a idade média dos
atletas olímpicos passou de 25 para
27 anos, calculou o historiador olímpico, Bill Mallon.
A que se deve esta longevidade
no desporto? António Veloso, professor na Faculdade de Motricidade
Humana (FMH), onde é responsável pelo Laboratório de Biomecânica e Morfologia Funcional, aposta
no conhecimento, como explicação. "Hoje em dia faz-se um enorme
trabalho de prevenção das lesões, o
que permite prolongar a carreira."
As lesões sempre foram o 'calcanhar de Aquilies' da alta competi-
ção. Quer as agudas, como a que
aconteceu a Cristiano Ronaldo na final do campeonato da Europa, quer
as de esforço, resultantes da sobrecarga dos treinos, como é o caso da
fratura do pé que sofreu Nelson Évora. "A acumumulação de carga vai
causando microlesões, a nível muscular, do tendão, dos ossos. A maior
parte do problemas são as lesões
crónicas", nota o especialista.
Para as evitar, é preciso otimizar
o treino, conhecer as pequenas fragilidades de cada atleta e individualizar o treino. Tudo isto se tornou
possível graças à evolução do conhecimento no desporto, com a ajuda das sofisticadas técnicas de imagiologia, como a ressonância magnética.
O tratamento das lesões também
se tornou muito mais eficaz e célere,
com a possibilidade de se usar fatores de crescimento que aceleram a
regeneração de tecidos.
O especialista, que conhece bem
o funcionamento dos gigantes do
futebol mundial, dá o exemplo do
clube Manchester City, em que cada
jogador tem o seu próprio frigorífico,
repleto de uma dieta ajustada às
suas necessidades específicas. refere ainda aposta numa dieta direcionada para as necessidades de cada
jogador. "Fazem-se análises ao sangue dos jogadores para se perceber
que nutrientes lhes fazem mais falta.
O que permite definir a alimentação
mais adequada."
O fator económico também não
será de desprezar nesta quetsão.
Principalmente no que toca às olimpíadas. Uma maior profissionalização dos atletas também terá o seu
peso no prolongamento das suas
carreiras, permitindo-lhes continuar a viver do e para o desporto, pela casa dos vinte, dos trinta e até dos
40 adiante.
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10 OFTALMOLOGIA
Julho/Agosto 2016 JSA
Pedro Albuquerque “Muitas perdas
de visão podem ser evitadas em Angola”
Francisco cosme dos santos com ma-
Previna as
conjuntivites
dalena moreira de sá
Em entrevista ao Jornal da Saúde,
o chefe do departamento de oftalmologia do Hospital Militar Principal, Pedro Albuquerque, afirmou
que muitas perdas de visão podem ser evitadas se Angola possuir o número desejável de especialistas pediátricos para detectar
precocemente cataratas congénitas em crianças e estas serem operadas, no máximo, até aos três
meses de idade.Além disso, é essencial que as pessoas consultem
um oftalmologista regularmente
e cultivem o hábito de fazer exames periódicos para saber o estado de saúde dos olhos.
n Pedro Albuquerque salientou
também que apenas um número
muito reduzido de angolanos tem
procurado os serviços oftalmológicos, “o que é muito preocupante”. No entanto, o maior problema
encontra-se nas zonas não urbanas, onde existem poucos serviços desta especialidade e os preços praticados são muito altos.
Como agravante, em áreas rurais
onde não há nenhum especialista, “muitas pessoas são por vezes
enganadas por falsos oftalmologistas cujos tratamentos são tradicionais e baseiam-se em práticas
não recomendáveis”. É comum,
por exemplo, “procederem à lavagem da vista das pessoas que padecem de uma doença oftalmológica com recurso a sal, água, urina
e algumas ervas, chegando mesmo a introduzir a língua na córnea do olho”.
As principais causas das doenças oculares no país são as patologias congénitas não detectadas
atempadamente, podendo resultar numa ametropia ou cegueira
quase total, os traumas devido a
agressões físicas e os casos de sarampo em crianças que, sem tratamento, podem contrair conjuntivites. Agravadas, estas provocam
opacidade da córnea e, no limite,
deficiência visual irreversível.
Principias doenças
oculares
Actualmente, as doenças oftalmológicas que mais se registam
em Luanda são, primeiramente,
as conjuntivites, seguindo-se as
ametropias (pessoas que têm erros de refracção; engloba a miopia, a hipermetropia e o astigmatismo, entre outras), o glaucoma –
A conjuntivite é uma doença de rápida propagação e de fácil contágio.Assim, o médico oftalmologista apelou
para que sejam seguidas algumas medidas simples de higiene que limitam
o risco de transmissão.
PEDRO ALBUQUERQUE É essencial que as pessoas consultem um oftalmologista regularmente e cultivem o hábito de fazer exames periódicos para saber o estado de saúde dos olhos
com incidências muito altas por
falta de conhecimento acerca da
doença e da história familiar – e,
por último, as cataratas, as quais
são frequentemente causadas por
retinopatias diabéticas originadas
pela diabetes, que muitos cidadãos têm contraído devido à ausência de uma alimentação equilibrada, ao sedentarismo e à prática regular de exercício físico.
Factores ambientais
Referiu também que as doenças
do foro oftalmológico, principalmente as conjuntivites, com grande incidência anual na capital, serão contraídas com a mesma frequência na época do cacimbo,
mas com maiores complicações
devido ao fraco saneamento que
se observa em Luanda.
Nas zonas periféricas, “as poeiras, as queimadas constantes de
grandes quantidades de resíduos
sólidos e a falta de higiene e de
água nos municípios são tidos como os principais factores que
contribuem para o desenvolvimento de doenças do foro oftalmológico, tais como as conjuntivites, que podem transformar-se
numa ceratite, que origina a perfuração do globo ocular e a opacidade da córnea, podendo causar
deficiência visual permanente”,
advertiu.
As doenças que se curam e…as
que não têm cura
De acordo com Pedro Albuquerque, “quase todas as doenças são
“Em áreas rurais onde
não há nenhum
especialista, muitas
pessoas são por vezes
enganadas por falsos
oftalmologistas cujos
tratamentos são
tradicionais e
baseiam-se em práticas
não recomendáveis”
passíveis de tratamento, embora
possa não ser definitivo. Constituem excepções: as cataratas que
têm cura definitiva mediante procedimento cirúrgico, o qual resulta na eliminação da opacidade da
córnea e, consequentemente, na
recuperação da visão; e o glaucoma que, por ser uma doença crónica, é incurável, podendo apenas
ser controlada a sua progressão
caso seja descoberta precocemente”.
Dentre as doenças do foro oftalmológico, “o glaucoma, não
tendo cura, é uma das patologias
que requerem cuidados urgentes,
pois pode afectar a visão de forma
irreversível”, alertou. A doença é
caracterizada pelo aumento de
tensão intra-ocular. “Na sua forma crónica, não dá dores nem outros sintomas que façam com que
os pacientes se apercebam e procurem um médico, pelo que normalmente apercebem-se quando
já estão a perder a visão. As cata-
ratas e o glaucoma são patologias
muito comuns em África, sendo
esta última a principal causa de
cegueira no mundo”, disse.
Entre os vários factores causadores de doenças oculares, encontram-se as retinopatias diabéticas, hipertensivas e outras que
podem ser evitadas e tratadas,
ainda que não de forma definitiva,
se detectadas antecipadamente.
Quando fizer 40 anos
Não existe nenhuma idade mais
propensa a desenvolver doenças
oftalmológicas. No entanto, sabese que o glaucoma crónico e a catarata senil ocorrem mais frequentemente a partir dos 44 anos,
fase em que determinadas patologias são mais frequentes. Assim,
Pedro Albuquerque aconselha
que, atingindo os 40 anos, a pessoa deve procurar imediatamente
um oftalmologista para se submeter a uma observação correcta dos
olhos, para não serem surpreendidos por alguma destas doenças
no seu estado avançado.
Lembra ainda que, após o nascimento, as crianças devem ser
observadas por um pediatra – e,
depois do primeiro ano de vida e
na idade escolar, por um oftalmologista – de forma a determinar se
possuem alguma má formação
congénita ou doença que possa
ser operada nos primeiros meses
de vida, já que as patologias como
o glaucoma e a catarata congénita
tornam-se mais difíceis de tratar
com o crescimento.
Se for infecciosa, viral ou bacteriana:
- Lave as mãos frequentemente com
sabonete e água quente, ou com álcool em gel;
-Evite tocar ou coçar os olhos;
- Limpe ao redor dos olhos várias vezes ao dia e lave as mãos a seguir;
- Não use o mesmo frasco de colírio
para o olho infectado;
- Lave almofadas, toalhas e lençóis
com água quente e detergente e não
compartilhe os mesmos;
Se for alérgica:
- Lave o rosto e as mãos frequentemente;
- Evite frequentar locais húmidos e
com muita gente;
- Não coce os olhos;
-Troque frequentemente fronhas das
almofadas, toalhas de casa-de-banho
e sabonetes, ou use toalhas de papel
para limpar o rosto e as mãos;
- Enquanto tiver sintomas da doença,
não partilhe esponjas ou produtos de
beleza;
- Evite banhos de sol e levar crianças
muito pequenas ao colo;
- Evite usar lentes de contacto durante este período.
Não existem vacinas para prevenir a
conjuntivite, nem tratamentos que
acelerem o processo de recuperação. O recomendável é, por isso, fazer
compressas com água filtrada, ou soro fisiológico, e usar sempre produtos
descartáveis – como algodão e gaze –
e não usar panos ou toalhas.Ainda assim, Pedro Albuquerque alerta que,
sempre que alguém observar uma
reacção invulgar nos olhos, deve procurar imediatamente um oftalmologista. O especialista procederá à avaliação do problema e, no caso de se
verificar uma patologia, aconselhará
quanto ao tratamento mais adequado, evitando, assim, complicações ou
sequelas permanentes.
Pedro Albuquerque tem o objectivo
de realizar alguns estudos com grande abrangência sobre as patologias
conjuntivas, de forma a detectar o
principal agente patológico desta
doença em Angola e definir um tratamento mais direccionado para a população.
12 HOSPITAIS
Julho/Agosto 2016 JSA
Queimados: crianças com menos
de 5 anos são as maiores vítimas
Francisco cosme dos santos
com eileen Barreto
“As crianças menores de
cinco anos são as maiores vítimas de queimaduras, atingindo cerca de 80 por cento
dos pacientes que recebemos nesta unidade”, garantiu a médica Lídia Dembi, directora do Hospital Especializado Neves Bendinha
(HGENB), à reportagem do
Jornal da Saúde.
n De acordo com esta responsável, a maior parte dos casos
de queimaduras tem origem
em acidentes domésticos, sobretudo com líquidos ferventes, explosão de botijas de gás,
choques eléctricos (as mais
graves), queimaduras por
chamas de velas em casa e
desatenção por parte dos pais
ou familiares que deixam as
crianças sozinhas ou com
menores.
Lídia Dembi recomenda
assim a realização de campanhas de prevenção com conselhos úteis, através dos órgãos de comunicação social,
no sentido de alertar e educar
a população para os cuidados
a terem nas práticas quotidianas. “A queimadura é um dos
acidentes mais angustiantes
que há, deixando sequelas e
deformidades irreversíveis.
Causa também elevados custos ao erário público, dado
que os pacientes permanecem sob cuidados médicos
por muito tempo devido às
várias fases de tratamento
que envolve, nomeadamente
a recuperação volémica, balneoterapia com curativos extensos, cirurgias, recuperação
nutricional, aspectos psicológicos e fisioterapia”.
De acordo com a directora, “não obstante a adaptação
e melhoria das instalações,
assentes no aproveitamento
e infraestruturas já existentes
na unidade de queimados,
como o saneamento básico e
as divisões internas, o hospital está ainda longe de possuir
os padrões desejáveis para o
funcionamento adequado de
uma unidade hospitalar especializada e de referência
em tratamento de queimaduras e de responder às necessidades da população”.
Também a localização não
Quem é Lídia Dembi
LÍDIA DEMBI A queimadura é um dos acidentes mais traumáticos que pode deixar
sequelas e deformidades irreversíveis e
tem elevados custos
para o Estado
Lídia Cavelho Dembi licenciou-se em medicina
em 1991, na Universidade Agostinho Neto, em
Luanda. Fez a sua especialidade em Medicina Interna e Intensiva em 2002, no Hospital da Força
Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, Brasil.
Foi funcionária do Ministério da Defesa Nacional
e trabalhou 22 anos no Hospital Militar principal e
Instituto Superior. Em Fevereiro de 2015 assumiu
a direcção do Hospital Especializado de Queimados Neves Bendinha.
Lídia Dembi já tem 25 anos de licenciada e 15 anos
de especialidade. Quando lhe perguntamos como
perspectiva a sua carreira como médica, diz-nos
que sente “o dever cumprido em termos de atendimento médico” e que tem feito “o máximo para
transmitir a minha experiência ao longo desses
anos aos mais novos médicos”. Mas “é claro que
não deixo de me actualizar constantemente, participando em congressos internacionais, entre os
quais no Brasil, para manter-me a par das inovações, fruto da dinâmica e avanço do saber científico que a medicina tem revelado nas últimas décadas” de forma a adquirir “mais conhecimentos para aplicar na saúde dos angolanos”.
O que é uma
queimadura?
Uma queimadura é uma lesão da pele provocada por
agentes térmicos, electricidade, substâncias químicas,
atrito ou radiação.As queimaduras que afectam apenas
a camada superficial da pele
são denominadas superficiais
ou de primeiro grau. Quando as lesões afectam também algumas das camadas inferiores são denominadas
queimaduras de segundo
grau. Quando todas as camadas de pele são afectadas denominam-se queimaduras
de terceiro grau. Sempre que
existirem lesões em tecidos
mais profundos, como os
músculos ou os ossos, denominam-se queimaduras de
quarto grau.
Em todo o mundo, em cada
ano, cerca de 11 milhões de
pessoas recorrem a tratamento médico devido a
queimaduras, das quais 300
mil morrem. O prognóstico
a longo prazo depende essencialmente da extensão da
queimadura e da idade da
pessoa afectada.
é privilegiada “por estar situado num bairro suburbano
com deficiente saneamento
básico, de acesso difícil, com
buracos, mercados e paragens de táxis, causadores de
uma enorme desordem, si-
A maior parte dos casos de queimaduras tem origem em acidentes domésticos, sobretudo com líquidos a ferver, explosão
de botijas de gás, choques eléctricos (as mais graves), mau posicionamento das velas em casa e negligência por parte dos pais
ou familiares que deixam as crianças sozinhas
tuação que tem dificultado de
certa forma o trabalho com os
doentes, principalmente porque os indivíduos vítimas de
queimaduras perdem a sua
barreira protectora que é a
pele e ficam susceptíveis a infecções”, lamenta a responsável.
“O número de profissionais não é ainda suficiente
tendo em conta os casos
atendidos diariamente, provenientes de diversos municípios e distritos de Luanda”,
diz.
São atendidos, em média,
20 doentes por dia vítimas
de queimaduras
No entanto, o hospital atende,
em média, 20 doentes vítimas
de queimaduras por dia e
procede a seis internamentos
diários, o que perfaz uma média de cerca de 600 a 700
doentes por mês. Note-se
que, apesar de atender doentes vítimas de queimaduras, o
hospital presta cuidados primários e realiza consultas externas e de urgência.
“Tal como as outras unidades hospitalares, o HGENB
também sentiu o aperto do
surto de febre amarela e a malária. Dos 30 pacientes que
atendia diariamente passou a
receber entre 180 e 200, com
mais de 100 internamentos
por dia! Imagine-se a sobrecarga num hospital que só
tem 90 camas”, desabafou Lídia Dembi. Neste momento
estão internados no hospital
cerca de 90 doentes, dos quais
56 são queimados. A taxa de
mortalidade situa-se abaixo
dos 20 por cento. “Estes óbitos não se devem ao atendimento hospitalar e sim à gravidade do trauma com o qual
os pacientes chegaram ao
hospital”, defendeu.
Cerca de 80 por cento dos queimados são crianças até aos cinco anos
O Neves Bendinha possui
nove especialidades entre as
quais queimados, cirurgia
plástica, cirurgia geral, cuidados intensivos, medicina, pediatria, pneumologia, dermatologia e otorrinolaringologia.
Os serviços de queimados,
medicina e pediatria são os
mais procurados.
Esforço para proporcionar
uma assistência de
qualidade às populações
A directora revelou ainda que,
com a ajuda da Organização
Não Governamental Kimbo
Liombembwa, “o hospital tem
evacuado algumas vítimas de
queimaduras graves para a
Alemanha pois o tratamento
requer a doação de pele do
próprio doente, sendo que,
frequentemente, os enxertos
não são possíveis, por desnutrição do paciente ou outras situações tais como a inexistên-
cia de pele sintética”. Ora, esta
situação “obriga a que sejam
evacuados para o exterior do
país para aplicação de pele
sintética, tratamento que esta
unidade hospitalar não possui. Apesar destes casos extremos, o hospital faz cerca de
quatro cirurgias de enxertia de
pele por dia”.
“O hospital tem enfrentado problemas do ponto de
vista financeiro que, julgo,
não diferem dos outros hospitais do país”, acrescentou.
“Os valores recebidos por
parte do Governo, mesmo
não sendo o desejável, têm
possibilitado a compra de
medicamentos, de material
gastável e de outros equipamentos e temos feito os possíveis para minimizar as carências existentes e proporcionar uma assistência de
qualidade às populações”,
concluiu Lídia Dembi.
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14 preveNçÃO
Julho/Agosto 2016 JSA
Queimaduras:
saiba como prevenir e cuidar
A queimadura está entre os acidentes domésticos mais comuns e caracteriza-se por lesões nos tecidos que envolvem diversas camadas do corpo
como a pele e suas camadas, cabelos, pelos, músculos e olhos, entre outros. São causadas pelo contacto directo com brasa, fogo, vapores quentes,
sólidos superaquecidos ou incandescentes. Mas podem ser causadas também por substâncias biológicas (alforrecas); químicas (ácidos, soda cáustica e outros); emanações radioactivas (raios infravermelhos e ultravioletas) ou pela electricidade.
Portanto, as queimaduras podem ter origem térmica, química, radioactiva ou eléctrica. Saber diferenciar os tipos de queimadura é muito importante para que os primeiros socorros sejam realizados correctamente.
Tipos de queimaduras:
Queimadura de primeiro grau: a lesão atinge apenas a camada mais superficial da pele (epiderme), apresentando vermelhidão local, ardor,
inchaço, calor local e dor. Pode ocorrer em pessoas que se expõem ao sol por tempo prolongado e sem proteção. Quando atinge grande parte
do corpo é considerada grave.
Queimadura de segundo grau: a lesão atinge
as camadas mais profundas da pele (derme).A característica deste tipo de queimadura é a presença de bolhas, inchaço e dor intensa. Como ocorre
perda da camada superficial da pele, que protege
contra a perda excessiva de água, pode ocorrer
também perda de água e de sais minerais e provocar um quadro de desidratação grave. Esse tipo
de queimadura pode ser causada pela exposição
a vapores, líquidos e sólidos escaldantes.
Queimaduras de terceiro grau: neste tipo
de queimadura, ocorre lesão de toda a pele, atingindo os tecidos mais profundos como os músculos. Curiosamente, este tipo pode não ser doloroso, já que as terminações nervosas que geram a dor são destruídas junto com a pele.A
cicatrização geralmente é desorganizada. Normalmente requer a realização de cirurgias, com
enxerto de pele retirada de outras partes do corpo.
Cuidados básicos com as crianças
As crianças menores de 5 anos
correm mais riscos devido a vários factores como possuírem
pele mais fina, menor tempo de
reação, pouca agilidade e, principalmente, a curiosidade. Por isso, alguns cuidados devem ser
observados:
- Não prepare alimentos quentes com a criança nos braços ou
no colo
- Mantenha as crianças longe da
cozinha, principalmente na hora
da preparação das refeições.A
maior parte das queimaduras
causadas por líquidos superaquecidos ocorrem nesse intervalo de tempo
- Não deixe ao alcance das crianças substâncias inflamáveis utilizadas para limpeza, como o álcool. Guarde-as em local seguro.
Por produzirem chama, quando
em combustão, essas substâncias servem de atractivo para as
crianças, especialmente na época de festas
- Não deixe crianças soltar fogos
de artifício, principalmente do tipo explosivo.Além das queimaduras, eles causam lesões graves
nas mãos, nem sempre passíveis
de recuperação
- Não deixe fios e tomadas descobertos porque podem causar
lesões graves nas mãos e boca
das crianças
- Não as deixe próximas de velas
- Não exponha a criança ao sol
por muito tempo, principalmente entre as 10 e as 15 horas.
Crianças abaixo de 1 ano
- Não segure a criança no colo
enquanto estiver ingerindo líquido quente ou cozinhando
- Evite aquecer o biberon ou os
alimentos no forno de microondas, pois o aquecimento não é
uniforme
- Teste a água do banho com o
dorso da mão ou com termómetro, antes de molhar a criança
- Mantenha objectos aquecidos,
como ferros de passar e pranchas de cabelo, além de cigarros,
longe do alcance da criança
- Mantenha produtos de limpeza
fora do alcance das crianças
- Use protector nas tomadas
elétricas
Crianças com idade
entre 1 e 3 anos
- Nunca deixe a criança sozinha
na banheira. Elas podem ligar a
água quente, cair ou afogar-se rapidamente
Cuidados Gerais
- Evite fumar, principalmente deitado
- Utilize cinzeiros fundos e com proteção lateral
- Em queimaduras eléctricas, retire o fio da tomada ou desligue a energia geral. Nunca toque
na vítima enquanto ela estiver em contacto com
a eletricidade.Toda vítima de queimadura eléctrica deve ser levada ao hospital
- Evite manipular álcool próximo a cigarros, charutos, fósforos acesos, churrasqueiras e fogueiras
- Não utilize álcool líquido diretamente sobre o
fogo, na forma de jato, devido ao risco de explosão
- Investigue vazamentos de gás. Feche a válvula
da botija antes de sair de casa e antes de ir dormir
- Mantenha a botija de gás longe do calor directo
e sempre na vertical
- Nunca considere uma queimadura um acidente sem importância
- Fogo e bebida não combinam. Evite.
- Ensine a criança a não puxar
objectos como toalha de mesa,
fios e outros
- Deixar os cabos das panelas
voltados para o lado interno do
fogão. Não permitir a presença
de crianças próximas ao fogão e
churrasqueiras
Crianças com idade
entre 3 e 5 anos
- Nessa idade, elas podem começar a ser treinadas na prevenção de incêndios e queimaduras pois já têm idade para reconhecer o som de um
detector de fumaça
- Use apenas isqueiros com dispositivo protetor de acendimento acidental
- Ensine à criança as diferenças
entre brinquedo e palito de fósforo
Crianças com idade
entre 5 e 12 anos
- Planeie e pratique as saídas em
caso de incêndio
- Converse sobre a segurança
na cozinha
- Ensine-as como usar o microondas, forno eléctrico e aquecedores
- Mantenha líquidos inflamáveis
fora de vista e de acesso
O que NÃO
fazer em
caso de
queimadura
- Nunca aplique produto
caseiro como sal, açúcar,
pó de café, pasta de dente,
pomadas, ovo, manteiga,
óleo de cozinha ou qualquer
outro, pois eles podem
complicar a queimadura e
dificultar um diagnóstico
mais preciso.As soluções
caseiras para diminuir a dor
e a ardência das queimaduras podem piorar e até causar infecção no local atingido
- Não tente tratar a vítima sem ter o conhecimento médico-científico necessário para a cura da lesão
- Não aplique gelo diretamente sobre o local, pois isso pode piorar a queimadura
- Se houver roupa colada na
região da queimadura, não
remova. Limite-se a cortála ao redor da lesão
- Nunca fure as bolhas
- Não demore em pedir
auxílio especializado, em
caso de dúvida, procure
sempre o hospital. Quando
mais tardio for o início do
tratamento, pior. Queimaduras na face, genitália, mãos
e pés são sempre consideradas graves, devendo ser procurado atendimento hospitalar imediatamente
- Evite também pomadas ou remédios naturais,
assim como qualquer medicação que não for prescrita
por médicos
- Em caso de ingestão de
produtos cáusticos ou queimaduras em boca e olhos,
lavar o local com bastante água corrente e
procurar atendimento médico imediato
- Não toque na área afectada
- Não respirar o fumo
em caso de incêndios. Lembre-se que a inalação de fumo pode causar queimaduras nos pulmões e brônquios, mesmo que não haja
queimadura externa visível.
Caso o ambiente esteja
com muito fumo, pode-se
diminuir a inalação com um
pano molhado próximo do
nariz e boca, movimentando-se agachado, com o nariz
bem próximo ao chão, onde
a concentração de fumo é
menor
- Não cubra a queimadura com algodão
16 TENDÊNCIAS
Julho/Agosto 2016 JSA
Quais as razões que levam jovens a consumir álcool,
drogas e a inclinarem-se para a criminalidade?
Rui MoReiRa de Sá com FRanciSco coSMe
n A questão das drogas, na contempo-
raneidade, assume contornos diferentes de outros tempos históricos. O avanço da ciência e da tecnologia, e a própria
lógica de funcionamento do modo de
produção capitalista, criou condições
materiais que levaram ao avanço da
chamada economia de mercado que,
por sua vez, gerou a sociedade de consumo e a globalização da economia.
O crescimento das estatísticas relativas ao uso e abuso de drogas nos últimos anos, assim como a multiplicação
de novas substâncias, tem sido assustador. Os casos de violência que ocorrem
em torno do consumo de álcool e outras
drogas são cada vez mais comuns.
A reportagem do Jornal da Saúde
saiu à rua para saber o que os angolanos
pensam sobre as causas desta situação.
E falou também com uma psiquiatra, a
médica Fausta Sá Vaz da Conceição, para poder transmitir aos nossos leitores
uma visão mais científica do problema.
Más
companhias
Falta
de instrução
Ruptura
familiar
Lucro
fácil
Existem vários factores que fazem os
jovens desviarem-se
e consumirem álcool, drogas, e entrarem para o mundo da criminalidade.
Entre outros, constam as más companhias, a influência do
meio social e dos
amigos, curiosidade,
vontade própria, pobreza, falta de coesão e acompanhamento familiar.
O que leva os jovens
a optarem pelo consumo de álcool, drogas, e ingressarem
na criminalidade é,
sobretudo, o meio
social em que se encontram inseridos, a
falta de instrução familiar, educação académica e religiosa,
más companhias, influências de várias
pessoas da sociedade, quer sejam vizinhos, amigos e outros actores sociais.
No meu ponto de
vista, o que leva os
jovens a consumirem álcool, drogas e
abraçarem a criminalidade é a ruptura
familiar, ou a separação dos pais, falta de
recursos para se
sustentarem, influência dos amigos,
falta de incentivos
do Estado, emprego
e de inserção escolar.
Na minha opinião, o
que leva os jovens a
consumirem o álcool,
drogas, e cometerem
crimes é falta de
acompanhamento familiar e de emprego,
influência dos amigos,
entrada e o aumento
de estrangeiros no
país, convívios não
saudáveis com pessoas que optam pelo
lucro fácil, e os grupos
que são formados
nos bairros com finalidades desviantes.
Antónia
Guimarães
Professora
Camila de Brito
Castelo Branco
Funcionária pública
Micaela Costa
Vissueca
Estudante
universitária
Catarina Manuel
Joaquim Cristóvão
Funcionária pública
Falta
de oportunidades
Desestruturação
das famílias
As principais razões,
a meu ver, são a pobreza extrema, os
problemas sociais, a
falta de um dos
membros no seio familiar, iniciativas
próprias, desemprego, as más companhias, falta de oportunidades, e de políticas do Estado para
a inserção dos mesmos na sociedade
que é cada vez mais
competitiva.
Carlos
Hardman Lima
Funcionário público
Os factores são, primeiramente, o desemprego, a falta de
vínculo familiar, valores morais, religião e
a desestruturação
das famílias. Quando
se tem uma família
estruturada é mais
fácil construir uma
sociedade saudável.
Ylton Hernâni
Ernesto
Técnico de
segurança higiene
e saúde no trabalho
Défice na
educação
O que tem impulsionado os jovens a
enveredarem pelo
consumo de álcool,
drogas e a caírem na
criminalidade é, sobretudo, a influência
do meio onde os indivíduos se inserem
e a falta de educação. É do conhecimento de todos
que, quando um país
tem um grande défice na educação, enfrenta graves problemas sociais.
Ayrton Cruz
Estudante
universitário
A perspectiva científica
Ilusões, riqueza ilícita,
desestruturação familiar
e discriminação
Fausta Sá Vaz da Conceição
Psiquiatra
Na esfera psiquiátrica são inúmeras as razões que levam os
jovens a consumir álcool, drogas e a inclinarem-se para a criminalidade. Entre outras,
constam principalmente as
ilusões que a juventude possui,
a riqueza ilícita e o branqueamento de capitais no país. Antigamente, não existiam em
Angola negociantes de drogas.
Ou se havia eram poucos. Actualmente, o consumo e os
comportamentos indesejáveis
são crescentes.
Enquadra-se ainda neste
leque de factores o querer afirmar-se na sociedade, a desestruturação familiar e a discriminação das pessoas no seio
das famílias. Padecendo deste
problema, estes indivíduos
acabam por se refugiar nas
drogas, ou mesmo na criminalidade. Também os menores que sofrem bullying por
parte dos seus colegas, para
tentarem ultrapassar esta si-
tuação, frequentemente procuram o consumo de substâncias psicotrópicas.
A pobreza não deve ser
mencionada, porque, muitos
são os indivíduos que cresceram em ambientes de extrema
pobreza e não enveredaram
pelo consumo de drogas e delinquência. Não devemos assim rotularmos sempre as camadas baixas da sociedade,
porque os que mais fazem o
uso de drogas não são os mais
pobres ou fragilizados, até porque estes não têm dinheiro para consumirem as drogas e suportarem os dispendiosos gastos.
As drogas acarretam problemas nefastos, não só para
toda a saúde do ser humano,
mas também para a sociedade.
JSA Julho/Agosto 2016
medicinA trAdicionAl 17
18 SAÚDE DA MULHER
Julho/Agosto 2016 JSA
Cancro do colo do útero
Cerca de 21% de casos de infecção
por HPV são de alto risco
n Dos 1109 casos de mulheres que foram ao Luanda
Medical Center (LMC) proceder a um rastreio ao cancro do colo do útero (rastreio HPV), cerca de 21% apresentaram um resultado considerado de “alto risco”. Foram detectados dois casos de cancro em mulheres na
faixa etária dos 35/45 anos, numa fase já avançada e
com necessidade de começar tratamento de imediato.
Estes resultados constam do estudo apresentado este mês pelo LMC que iniciou a sua primeira campanha
de prevenção do cancro do colo do útero em Fevereiro
último. As conclusões são reveladoras da importância
da prevenção e do diagnóstico precoce.
“Sabemos que o cancro do colo do útero é a segunda
maior causa de morte entre mulheres em todo o mundo
e, também, o tipo de cancro mais frequente nas mulheres africanas. Por isso decidimos lançar esta campanha
de prevenção. O nosso papel é fundamental o sentido
de informar e educar a população para a importância
de fazer rastreio precoce” refere Rita Matias, directora
de marketing do LMC.
Detecção precoce pode ser a salvação
“Existe um enorme preconceito quanto ao rastreio a
doenças, sobretudo aquelas que mais matam. É crucial
inverter essa forma de pensar, pois a detecção precoce
de doenças pode ser a diferença entre a vida e a morte”
conclui.
Sobre o vírus HPV
O cancro do colo do útero é causado pelo vírus do Papiloma Humano (HPV). O seu desenvolvimento é silencioso,
pelo que não se deve esperar pelos sinais de alarme. Calcula-se que quatro em cada cinco mulheres são expostas ao
vírus em algum momento da sua vida. Na maior parte das
mulheres, a infecção pelo HPV é eliminada pelo sistema
imunitário, sem nunca ter criado qualquer tipo de sintomas. Porém, em alguns casos, a infecção persiste e o vírus
pode provocar alterações nas células do colo do útero,
promovendo a sua transformação em células cancerosas.
Qualquer pessoa pode ser infectada com HPV. O HPV é
transmitido por contacto sexual. Mesmo que só tenha tido
um parceiro sexual o vírus poderá ser transmitido.
É possível prever o risco de desenvolvimento deste cancro
e detectar as lesões precursoras através da realização de
teste de rastreio.A prevenção através do rastreio regular
(Papanicolau) e/ou teste de HPV juntamente com a vacinação é fundamental para evitar o cancro do colo do útero.
Todas as mulheres que já iniciaram a sua actividade sexual
devem realizar o PAPANICOLAU e o teste de HPV. Existe
a possibilidade de evitar o HPV que desenvolve para cancro através da vacinação.A vacina é recomendada para meninas a partir dos 9 anos.
20 INTELIGÊNCIA EMOCIONAL
Julho/Agosto 2016 JSA
Nove coisas que as pessoas
bem sucedidas nunca fazem
n O presidente de uma em-
presa norte-americana que
se dedica à inteligência
emocional publicou um artigo na rede LinkedIn, no
qual identifica vários comportamentos que as pessoas
de maior sucesso evitam a
todo a custo.
Segundo Travis Bradberry,
presidente de uma empresa
que se dedica à inteligência
emocional, a capacidade de
gerir as emoções e manter a
calma - quando sob pressão é fundamental para alcançar
o sucesso. Mas há mais: depois de analisar mais de um
milhão de pessoas, o cofundador da TalentSmart e autor
de um best seller sobre o tema concluiu que a inteligência emocional está diretamente ligada ao sucesso. No
artigo publicado da rede de ligações profissionais LinkedIn, o especialista identificou
nove características comportamentais dos emocionalmente inteligentes.
1. Não viver no passado
Quando se vive no passado, o
mais provável é nunca se
conseguir seguir em frente.
Deste modo, o fracasso pode
"minar" a sua autoconfiança
e impedi-lo de ser bem sucedido no futuro. "As pessoas
emocionalmente inteligentes
sabem que o sucesso reside
na sua capacidade de ultra-
passar o fracasso, e não podem fazer isso ao viverem no
passado", explica Bradberry.
Apesar dos fracassos já cometidos, é importante as pessoas
acreditarem que nada se consegue sem riscos e esforços,
acreditando sempre nas suas
capacidades de vencer.
2. Não se refugiar nos
problemas
Para Bradberry, o foco da
atenção determina o estado
emocional, ou seja, quando
uma pessoa se fixa num problema as emoções serão negativas e stressantes. Esse tipo
de sentimentos vai influenciar de forma negativa o desempenho pessoa. Deste
modo, ao invés de se "afunda-
rem" nos problemas, as pessoas emocionalmente inteligentes focam-se em procurar
soluções para resolverem o
problema.
3. Não se focar
na perfeição
Na pesquisa desenvolvida, as
pessoas bem sucedidas não
procuravam a perfeição,
conscientes de que esta não
existe. "Quando a perfeição é
o objetivo, a pessoa sentirá
sempre a sensação de fracasso, gasta o seu tempo a lamentar o que deixou de fazer
e o que poderia ter feito de
forma diferente, em vez de
apreciar o que era capaz de
alcançar", acrescenta Bradberry.
4. Não viver cercados
de pessoas negativas
As pessoas que estão constantemente a queixar-se dos
seus problemas e que são
negativas representam um
perigo para o sucesso dos
que as rodeiam; Não se
preocupam com soluções,
apenas pretendem levar alguém consigo "para a cova",
de modo a se sentirem melhor. Por estas razões e mais
algumas, afaste-as de si.
Mesmo que isso o possa fazer sentir-se mal e insensível,
"há uma linha que separa
emprestar um ouvido simpático e ser sugado para dentro de uma espiral emocional negativa", defende Bradberry.
5. Não ter medo de dizer
"não"
"Dizer não é realmente um
grande desafio para a maioria das pessoas", admite o es-
pecialista. Contudo, quando
é necessário dize-lo, as pessoas bem sucedidas fazemno sem rodeios, e de forma
direta. A investigação concluiu que a dificuldade em
dizer "não" está relacionada
com o stress e com a depressão. Ao conseguir dizer esta
palavra está a assumir os
seus compromissos e a defender o que quer, o que lhe
permite alcançar o sucesso.
6. Não deixar ninguém
influenciar a sua felicidade
Quando as pessoas emocionalmente inteligentes se
sentem bem, elas não deixam que os outros estraguem essa felicidade com
opiniões e sentimentos destrutivos. E também não
comparam felicidades. Não
importa o que as outras pessoas pensam ou fazem, a sua
autoestima vem de si. Tem
de se preocupar com aquilo
que faz, não com o que os
outros fazem.
7. Perdoar, mas não
esquecer
A investigação concluiu que
as pessoas com maior inteligência emocional são rápidas a perdoar, o que não
quer dizer que esqueçam.
Não ficam a "remoer" o que
se passou, mas isso não significa que irão dar hipóteses
a um novo erro.
8. Não desistir da luta
Segundo Bradberry, as pessoas emocionalmente inteligentes sabem o quão importante é lutar para viver no dia
seguinte. Deste modo, em alturas de conflito, enfrentam
os problemas e não se deixam abater pelas dificuldades. Fazem-no com cautela,
controlando as suas emoções e capacidades com sabedoria. Esta é a forma mais
eficaz de defenderem o "seu
território e saírem vitoriosos".
9. Não guardar rancor
Tendo e conta estudos realizados, guardar rancor é, na
verdade, uma resposta ao
stress. Pesquisadores da
Universidade de Emory
mostraram que o stress contribui para a pressão arterial
e para doenças cardíacas. Ao
guardar o rancor está a guardar também o stress, e assim,
nunca alcançará o sucesso.
Ou seja, aprender a libertarse do rancor não só o vai fazer sentir-se melhor como
também vai melhorar a sua
saúde. As pessoas emocionalmente inteligentes sabem que devem evitá-lo a todo o custo.
Diga-me a sua
profissão e
dir-lhe-ei como
é a sua saúde
Algumas profissões são autênticos atentados à saúde
do coração. Parece exagero? Então veja a lista criada
pela Associação Americana
do Coração.
1. Condutores de autocarros, comboios e camiões. Os investigadores
notaram que as pessoas
com esta profissão tendem
a fumar e a passar muito
tempo sentadas, o que faz
com que tenham um
maior risco de sofrerem
um AVC.
2. Secretários e administradores. Os hábitos
alimentares pouco saudáveis e comuns em 68% dos
inquiridos fazem desta
profissão um atentado para a saúde, uma vez que a
este ‘pecado’ juntam-se as
horas a fio sem sair da cadeira.As pessoas com empregos sedentários tendem a ter níveis de colesterol elevados, o que
impulsiona o risco de problemas de coração.
3. Empregados de restaurantes, cantinas e
cafés. Lidam com comida
todos os dias, mas são os
que pior comem, diz a investigação, revelando que
79% dos inquiridos desta
área seguem uma dieta má.
4. Seguranças, polícias
e bombeiros. Seja pelos
turnos rotativos, ou pela
falta de tempo para comer,
estes profissionais têm, na
sua maioria, uma má alimentação, sendo que 90%
dos inquiridos mostram-se
mais propensos a ter peso
a mais ou a serem classificados como obesos. Os níveis elevados de colesterol
e a pressão arterial alta são
outras duas consequências
nocivas deste tipo de emprego.
Entre os mais saudáveis, diz
a BBC, estão os freelancers, os profissionais de
saúde, os atletas e todos os
que trabalhem directamente em comunicação,
uma vez que são os que
mais exercício praticam e
os que mais cuidados têm
com a alimentação.
O ranking dos empregos
mais ‘amigos’ da saúde é liderado pelos profissionais
de fitness.
SAÚDE MENTAL 21
JSA Julho/Agosto 2016
Cérebro: plano de acção para
mantê-lo jovem e activo
Quando fazemos exercício,
vemos a nossa barriga a encolher. Quando paramos de
comer fritos, vemos os níveis de mau colesterol
(LDL) a baixar. Quando deixamos de fumar, podemos
finalmente parar de pigarrear. Resumindo, quando
mudamos de hábitos, percebemos de imediato as mudanças no corpo. No que diz
respeito ao cérebro, porém,
é mais difícil saber como estamos. O cérebro não pode
chegar ao ginásio, tirar o
chapéu e exibir umas flexões (eh pá!Tens o hipocampo todo roto!). Só que isso
não é razão para ignorar o
único órgão que lhe dá precisamente o poder de ir ao
ginásio fazer essas e outras
coisas. O que se segue é o
seu programa para construir um cérebro melhor agora e no futuro.
Passo 1:
Exercite o Cérebro
Seja qual for a parte do corpo, quase todas seguem o
mesmo mantra: ou são aproveitadas ou são desperdiçadas. Se não usar os músculos, acabarão por ficar moles
que nem papas. Se não exercitar o coração, as artérias ficarão mais obstruídas que as
ruas de Luanda. E até os urologistas dão o mesmo conselho aos homens no que diz
respeito à disfunção eréctil:
se quiser continuar a escrever, é melhor afiar o lápis. E
com o cérebro não é diferente. Na verdade, devíamos
exercitar o cérebro com a
mesma regularidade com
que fazemos qualquer outro
tipo de exercício. Manter o
cérebro activo, tanto emocional como mentalmente,
ajuda a prevenir a perda de
memória.
A primeira coisa que deve
evitar é viver em modo de piloto automático - ou seja, ter
a mesma rotina dia após dia.
Se descobrir maneiras de fazer alongamentos mentais,
evitará o encolhimento cerebral. A forma mais clássica
de o conseguir é aprender
coisas novas - seja aprender
espanhol, aprender a tocar
algumas melodias numa
harmónica ou reconstruir
um motor de um carro. O
importante é usar partes do
cérebro que normalmente
não usa. Tal como os músculos, o cérebro cresce quando
trabalha fora da sua rotina
habitual.
Outra forma de exercitar o
cérebro é, como dizem os
cientistas, "testar os limites".
Foi concebido um projecto em larga escala para verificar se testar os limites proporcionava realmente o crescimento de novos neurónios
e de dendrites (a parte dos
neurónios que apanha a informação dos neurotransmissores). Nesse projecto,
cada computador era programado para perceber a capacidade de uma pessoa na
área da matemática. Depois,
o computador programava
um teste para essa pessoa de
acordo com as suas capacidades. Mas, de cada vez que
o computador ultrapassava
os limites, os investigadores
podiam ver o crescimento de
neurónios e de dendrites
(nas imagens recolhidas do
cérebro dos participantes). A
melhor parte da história, porém, é que as pessoas não
precisavam de dar respostas
certas para obter os benefícios de testar os limites. Bastava fazerem um teste um
pouco além das suas capacidades (80 por cento de respostas certas, 20 por cento de
respostas erradas) e era o suficiente para desencadear
um novo crescimento de
Mito ou Facto?
O café faz
bem ao
cérebro?
Já se fizeram estudos suficientes para podermos dizer que beber 0,6 litros
(duas chávenas grandes) de
café fraco por dia contribui
para diminuir o risco da
doença de Parkinson em 40
por cento e o risco da
doença de Alzheimer em 20
por cento. Porquê? Não temos a certeza, mas ao que
parece a cafeína tem um
efeito benéfico sobre os
neurotransmissores. O efeito da cafeína é enorme, seja
através do café, do chá ou
de bebidas de baixas calorias. Contribui para que você fique três a seis meses
mais novo.Atenção: para algumas pessoas, demasiada
cafeína provoca palpitações,
alterações no controlo da
diabetes, indisposições, ansiedade ou enxaquecas; nos
homens que sofrem de uma
doença da próstata chamada hipertrofia benigna da
próstata, a cafeína pode fazer pior, uma vez que pode
provocar espasmos na uretra.
neurónios. Posto isto, suponhamos que você consegue
fazer as palavras cruzadas
que saem no Jornal de Angola à quarta-feira, mas praticamente não completa metade
das que saem ao domingo.
Se o melhor para o seu ego é
continuar a ser o mestre do
puzzle de quarta-feira, o melhor para o cérebro será continuar a tentar as palavras
cruzadas de domingo (desde
que não seja tão frustrante a
ponto de perder toda a piada). Tal como um atleta se
torna mais rápido ou mais
forte quando treina para
atingir os objectivos que estão fora do seu alcance, você
pode treinar o cérebro para
que ele fique mais inteligente
e mais vivo.
Outro elemento a ter em
conta é, claro, a formação.
Quanto mais souber, mais
estimulará a capacidade de
aprendizagem do cérebro.
Um estudo realizado entre
umas freiras de um convento
é disso um excelente exemplo. Os investigadores analisaram a estrutura das frases
de umas composições que as
freiras tinham feito antes de
entrarem para o convento.
Depois, analisaram a sua
função cognitiva cerca de 65
anos mais tarde. As que ti-
nham usado estruturas de
frases complexas quando tinham entrado eram as que
tinham uma boa função cognitiva à medida que iam envelhecendo. (E houve outra
descoberta importante: as
que eram mais optimistas à
entrada apresentavam também uma maior função cognitiva.)
Resumindo e concluindo, todos temos interesses
tão diversos que só nós podemos escolher as actividades que irão estimular a
mente para além das capacidades normais. Convém escolher algo de que goste; deverá sentir que se trata de
uma pausa e não de uma
sessão de estudo. De qualquer modo, podemos sugerir outras formas para melhorar o funcionamento do
cérebro na vida do dia-a-dia.
No trabalho, muitas pessoas
seguem a mesma rotina todos os dias: bebem o café,
sentam-se, vão ao Facebook,
bebem mais um café, vêem
o e-mail, vão à casa de banho, tratam do expediente,
telefonam ao cliente, engolem o almoço, levam com
um sermão do chefe, e por aí
adiante. Claro que é o seu
chefe que lhe diz como deve
fazer o trabalho, mas gosta-
22 SAÚDE MENTAL
ríamos de sugerir que trocasse a ordem habitual de
vez em quando. Ter a mesma rotina todos os dias não
estimula o hipocampo - a
parte do cérebro que é mais
responsável pela memória.
Para manter uma mente activa, tente simplesmente variar a rotina no trabalho ou
em casa. Comece por telefonar ao cliente ou escreva primeiro o relatório em vez de
deixar isso para último lugar.
Qualquer que seja a sua rotina, altere a ordem das tarefas.
Passo 2:
Alimente o Espírito
Em geral, o que faz mal ao
coração também faz mal ao
cérebro. Não há nada que
enganar: se as batatas fritas
de que tanto gosta lhe pesam na balança, o mais grave é que parte dessas batatinhas é lançada pelas artérias
acima até chegar ao cérebro.
As gorduras saturadas obstruem as artérias que conduzem ao cérebro, aumentando o risco de AVC. Ao
contrário, os ácidos gordos
ómega 3 (o tipo de gorduras
que encontramos no peixe)
são benéficos para o coração, porque ajudam a manter as artérias limpas, além
de intervirem na formação
dos neurotransmissores e
diminuírem a depressão.
Estes são os melhores alimentos para o seu cérebro:
FRUTOS SECOS
Contêm gorduras monoinsaturadas, que ajudam a
manter as artérias saudáveis,
e percursores de serotonina,
para animar o nosso estado
de espírito.
Dose Recomendada
28 g por dia é o suficiente; pode ultrapassar um pouco esta quantidade, mas lembrese – tenha cuidado com as
calorias a mais – de que 28 g
é o equivalente a 12 nozes ou
24 amêndoas.
Diferença na Idade Real
Homens: 3,3 anos mais
novos
Mulheres: 4,4 anos mais
novas
PEIXE
principalmente salmão, sardinha, pescada,cacusso, bagre, solha, dourado-domar.Contém ácidos gordos
ómega 3, muito benéficos
para a saúde das artérias.
Dose Recomendada
380 g por semana (ou três doses do tamanho do seu pulso)
Diferença na Idade Real
2,8 anos mais novos
FEIJÃO DE SOJA
Contém proteínas, fibras e
gorduras benéficas para as
artérias e para o coração.
Dose Recomendada
1 chávena por dia
Diferença na Idade Real
0,4 anos mais novos
TOMATE
sumos, molhos e refogados.Contém folatos, licopeno e outros nutrientes benéficos para a saúde das artérias.
Dose Recomendada
225 g de sumo por dia; 2 colheres de sopa de molho
Diferença na Idade Real
Pelo menos um ano mais
novos
AZEITE, ÓLEO DE FRUTOS
SECOS, ÓLEO DE PEIXE,
SEMENTES DE LINHO,
ABACATE
Contêm gorduras monoinsaturadas benéficas para o
coração.
Dose Recomendada
25 por cento das calorias diárias devem provir de gorduras saudáveis
CHOCOLATE
VERDADEIRO
(feito à base de cacau)
Dose Recomendada
30 g por dia (em substituição
do leite com chocolate)
Diferença na Idade Real
1,2 anos mais novos
Passo 3:
Diminua o Stress
De certa maneira, o stress
pode ser bom. Trata-se do
mecanismo fisiológico que
nos ajuda a funcionar. Ajuda-nos a cumprir prazos e a
fugir de leões. Ao enfrentarmos uma situação que exige
uma reacção da nossa parte,
podemos decidir lutar contra ela (acelerar para cumprir
um prazo) ou fugir dela (os
tais leões de que falávamos).
É a chamada reacção "lutar ou fugir". Quando os factores de tensão atingem níveis extremamente elevados,
o stress torna-se perigoso. E
isso deve-se ao efeito da hormona do stress chamada
cortisol. Quando estamos
constantemente sob stress,
os níveis de cortisol mantêm-se elevados. O cérebro
não envelhece só porque o
pneu da bicicleta rebentou
ou o pára-choques levou
uma batida no parque de estacionamento. Esses Importantes Mas Remediáveis
JSA Julho/Agosto 2016
acontecimentos (chamamos-lhes IMR) não nos fazem mais velhos, porque são
problemas que podemos resolver. Ao contrário, a doença surge a partir de acontecimentos que nos deixam
constantemente em stress,
por um longo período de
tempo (mesmo que aos
olhos de outras pessoas não
passem de questões de menor importância). Uma das
categorias em que incluímos
estes factores de stress é a
TCPC - Tarefas Chatas Por
Cumprir. Por exemplo, o
stress irritante de se sentar
numa tampa de sanita que
não encaixa bem, e o facto de
"deixar andar" esse problema farão nascer-lhe cabelos
bancos se for uma daquelas
coisas que o remói de cada
vez que vai à casa de banho.
A outra categoria advém de
grandes acontecimentos na
vida - como mudar de casa,
lidar com problemas financeiros, ou lidar com a morte
de um familiar. O stress irritante desgasta, enquanto os
factores de stress persistentes são verdadeiros assassinos.
Se diminuir o stress na sua
vida, seja através do convívio
com amigos, do exercício, ou
da meditação, seja através de
outros métodos, conseguirá
influenciar a sua qualidade
de vida e viver mais jovem.
Se o fizer, conseguirá reaver
30 dos 32 anos que os acontecimentos marcantes da vida lhe podem roubar. Os
nossos métodos preferidos
para reduzir o stress são rir e
meditar. Rir reduz a ansiedade, a tensão e o stress e pode
torná-lo 1,7 a 8 anos mais jovem. Com a meditação, os
benefícios são muitos. A meditação ajuda a preservar as
células cerebrais e as funções
relacionadas com a memória. Além disso, a componente de redução do stress que
envolve a meditação contribui para prevenir doenças
como a depressão e os distúrbios de ansiedade. Para
meditar, tudo o que necessita é de um quarto silencioso.
Com os olhos parcialmente
fechados, concentre-se na
respiração e repita lenta e indefinidamente a mesma palavra ou frase - por exemplo,
"óm" ou "um". O cardiologista Dean Ornish inicia esse
processo com uma pequena
barra de chocolate preto. O
processo de repetir a mesma
palavra é o que ajuda a clarificar e a relaxar a mente e é o
que tem o efeito positivo glo-
bal na saúde, a não ser que se
ponha a repetir "calulu", ou
"mufete" :-)
Passo 4:
Seja Natural
Seguem-se as principais vitaminas e os principais suplementos que podem beneficiar o funcionamento cerebral, melhorando o humor,
a memória e outros aspectos
da mente, contribuindo ao
mesmo tempo para 'que esta
se mantenha jovem.
FOLATOS, B6 E B12 Níveis elevados de homocisteína são perigosos, uma vez
que duplicam o risco de
AVC. Pensa-se que a homocisteína provoca pequenas
aberturas entre as células endoteliais (que constituem o
forro interior das artérias),
conduzindo à deterioração
da parede arterial, à formação da placa aterosclerótica
e inflamação. Tomar 800 micro¬gramas de suplementos
de folatos por dia, ou 1.400
micro gramas através da ali-
“Outro elemento a
ter em conta é a
formação. Quanto
mais souber, mais
estimulará a
capacidade de
aprendizagem”
mentação, pode reduzir os
níveis de homocisteína drasticamente - o excesso de homocisteína é removido da
corrente sanguínea, suspendendo-se assim os seus efeitos do envelhecimento. Isto é
importante porque, à medida que envelhecemos, vamos assimilando menos folatos a partir dos alimentos, e
consequentemente o teor de
folatos no sangue diminui;
não será por acaso que esta é
a carência vitamínica mais
comum entre os mais idosos.
Alimentos como espargos,
alcachofras, couves de Bruxelas, feijão branco e semen-
tes de girassol contêm folatos. Muitas pessoas apresentam também níveis insuficientes das vitaminas B6 e
BI2. Entre os alimentos com
vitamina B6 estão o frango,
as bananas e a polpa de tomate; com vitamina BI2 temos o salmão, o atum, o borrego, as fibras e os flocos de
trigo. Se tomarmos diariamente 800 microgramas de
folatos, 6 miligramas de vitamina B6, e 800 micro gramas
de vitamina B12 através dos
alimentos ou 25 micro gramas através de suplementos
(os suplementos de B12 são
mais fáceis de absorver), podemos subtrair 1,2 anos à
RealAge [Idade Real] em
apenas três meses e, provavelmente, 3,7 anos em três
anos.
COENZIMA Q10 A coenzima Q10 foi alvo de todas as
atenções e conseguiu ter
mais destaque do que o casamento de qualquer celebridade - isto tudo porque
previne o envelhecimento
JSA Julho/Agosto 2016
23
Mito ou Facto?
Podemos
ficar mais
inteligentes
do que
já somos?
Para perceber o poder que
tem de exercitar o seu cérebro, repare neste estudo
que mediu o tamanho do
cérebro dos taxistas ingleses. Porquê dos taxistas?
Apesar dos habituais insultos aos transeuntes que têm
a mania de passar fora das
passadeiras, os taxistas têm
um trabalho muito desgastante.Além de decorar a
complexa disposição das cidades, têm de conhecer os
caminhos mais rápidos para
chegar aos sítios. O resultado da pesquisa indicou que
os taxistas mais experientes
- e, por conseguinte, os que
continuavam a evoluir para
conseguir sempre mais bandeiradas - estavam constantemente a exercitar o cérebro para poderem sobreviver numa indústria tão
competitiva e a verdade
é que apresentavam os lobos temporais direitos
maiores do que o habitual.
O cérebro deles era maior
porque era usado todos os
dias, a toda a hora
e de muitas maneiras.
cardiovascular (para além de
ajudar doentes em estado
crítico que aguardam por
um transplante de coração).
Acredita-se que a coenzima
Q10 tem efeitos benéficos sobre o coração e que pode
igualmente prevenir o envelhecimento cerebral. Presente naturalmente nos órgãos do nosso corpo, a coenzima Q10 estimula os
mecanismos de produção
de energia a nível celular,
particularmente no tecido
muscular e nas células dos
tecidos nervoso e cerebral.
Os nossos corpos produzem
naturalmente esta coenzima
- mas só quando não temos
falta de vitamina C ou das vitaminas do complexo B, como a BI2, B6 e folatos.
ÁCIDO ALFA LIPÓICO E
L-CARNITINA Através de
experiências realizadas em
ratos, ficou demonstrado
que estas duas substâncias
melhoravam a função cognitiva. Os ratos mais velhos,
que recebiam uma dose des-
tas duas substâncias, conseguiam encontrar a comida
no labirinto tão depressa
quanto os ratos mais jovens e mais rápido que os ratos
que não recebiam dose alguma.
A L-carnitina é um aminoácido que ajuda a transportar energia entre as células e, em estudos realizados
com animais, ficou demonstrado que diminui o envelhecimento arterial e melhora a memória. Para pessoas
com mais de 60 anos, recomendamos 1.500 miligramas de L-carnitina por dia.
Quanto ao ácido alfa-lipóico (que também ajuda o
corpo a produzir energia),
acredita-se que contribui para atenuar o envelhecimento
do nosso ADN, provocado
pela glicose e pelo oxigénio, e
que promove a circulação de
ambos (glicose e oxigénio)
para as fontes de energia do
nosso corpo. Actualmente,
não foi ainda divulgada informação suficiente, mas, assim
que forem publicados novos
dados, faremos algumas recomendações. Fique atento.
RESVERATROLTrata-se
de um flavonóide que se encontra no vinho tinto que parece inibir o envelhecimento
do ADN na mitocôndria - a
fonte de energia da célula.
Este flavonóide actua como
antioxidante, o que contribui
para reduzir o envelhecimento das artérias e do sistema imunitário. Encontra-se
sobretudo no vinho tinto
porque a pele das uvas contém resveratrol e o vinho tinto esteve em contacto com a
pele da uva por mais tempo
do que o vinho branco (por
isso é que é vermelho). Para
obter o máximo benefício
(até 1,9 anos mais jovem),
consuma álcool com moderação - um ou dois copos de
vinho por dia, para os homens, meio copo ou um copo por dia, para as mulheres.
SAM Um aminoácido natural, a S-adenosilmetionina
trata a depressão alterando a
reacção química dos neurotransmissores associados a
esta doença. Algumas autoridades mostram preocupação pelo facto de se receitarem demasiados antidepressivos com efeitos secundários graves. A SAM parece ter
menos efeitos secundários.
Se sentir que necessita de
um antidepressivo, procure
ajuda. Dose normal para a
SAM: 800 a 1.200 miligramas
diários (em jejum). Muitos
estudos focaram a sua atenção no hipericão como anti-
depressivo; o problema é
que ele interage com outros
medicamentos. Por exemplo, no caso da pílula contraceptiva, o hipericão aumenta o metabolismo de certas
substâncias e a pílula deixa
assim de fazer efeito, tornando-se inútil para 25 por cento
das pessoas que tomam os
dois medicamentos ao mesmo tempo. A SAM é tão eficaz como o hipericão nas depressões menos graves, com
a vantagem de não interagir
com outros medicamentos.
Passo 5:
Pense no Mussulo
Você está numa praia, com
uma bebida fresca numa
mão e o último livro de
Luandino Vieira na outra. A
brisa marítima beija-lhe a face enquanto o mar lhe faz
cócegas nos pés. Ouve as gaivotas a conversar, as ondas a
rebentar e a banda lá ao fundo a improvisar. No ar, o
cheiro a água salgada e a óleo
de coco. Soa-lhe a paraíso? É
muito mais do que isso. Essa
imagem que lhe assolou o
espírito acabou de estimular
o seu cérebro. Sonhar acordado torna a mente flexível.
Ao agitar essa parte do cérebro que lida com a imaginação, você põe o pensamento
a funcionar fora do seu decurso habitual e isso, como
você já sabe, estimula a função cognitiva. Encare o sonhar acordado como uma
parte importante do seu plano de acção mental. Só queremos que a sua mente este-
“As gorduras
saturadas obstruem
as artérias que
conduzem ao
cérebro,
aumentando o risco
de AVC. Ao
contrário, os ácidos
gordos ómega 3 (o
tipo de gorduras
que encontramos
no peixe) são
benéficos para o
coração, porque
ajudam a manter as
artérias limpas,
além de intervirem
na formação dos
neurotransmissores
e diminuírem a
depressão”
ja activa, por isso aquilo com
que sonha é exclusivamente
da sua conta - seja as praias
do Mussulo, nas quedas de
Calandula, ou uma noite
com a sua vedeta preferida.
Passo 6:
Consulte os Profissionais
Tal como não existe nenhum
comprimido que nos ensine
a falar chinês, ou que derreta
a gordura num segundo,
também não existe nenhuma panaceia exclusiva para
as perturbações da personalidade. Cada pessoa (e cada
perturbação) é única, tal como as riscas de uma zebra
são únicas. Por isso mesmo,
as pessoas que sofrem de
perturbações de personalidade precisam de saber como reestruturar o cérebro
com ajuda profissional. Já
agora, versões moderadas de
perturbações de personalidade podem contribuir para
o sucesso, se acertarmos na
carreira que escolhemos.
Passo 7:
Use o Capacete
Não devia ser necessário,
mas já vimos muitas cabeças
despidas ao volante de motorizadas para saber que
nunca é demais repetir:
usem o capacete sempre que
andarem de bicicleta, de patins, de skate, moto, sempre
que fizerem escaladas ou outros desportos do género.
Porque o cérebro tem a consistência de um ovo cozido,
qualquer traumatismo craniano, por menor que seja (e
por "menor" entenda-se um
impacto que nos deixa atordoados, sem nos conseguirmos lembrar bem do que
aconteceu) é como se esborrachássemos o ovo, o que
pode causar um apagão em
partes do circuito eléctrico
que estão relacionadas com
a memória a longo prazo.
Desligar uma central eléctrica com uma cabeçada não
pode fazer bem à rede de
electricidade, e muitas vezes
nem nos apercebemos dos
efeitos a longo prazo durante
décadas.
24 reSponSAbilidAde SociAl
Julho/Agosto 2016 JSA