instituto de cultura eclesial (ice) cristologia curitiba / pr 2008

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INSTITUTO DE CULTURA ECLESIAL (ICE)
FREI PEDRO CESÁRIO PALMA
(Elaboração)
DENILSON APARECIDO ROSSI
(Correção e Organização)
CRISTOLOGIA
CURITIBA / PR
2008
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
1 O MISTÉRIO PASCAL: PONTO DE PARTIDA DA CRISTOLOGIA
2 O ACESSO AO JESUS DA HISTÓRIA
3 ELEMENTOS CENTRAIS DO NÚCLEO HISTÓRICO DE JESUS
4 A FÉ CRISTOLÓGICA DA IGREJA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
INTRODUÇÃO
Há três maneiras de pensar e falar sobre Jesus Cristo. Duas delas são
incompatíveis com a fé cristã: Jesus Cristo visto como um ser humano qualquer,
destituindo-o de sua divindade, e Jesus concebido como Deus, esquecendo-se de
sua humanidade. A fé cristã afirma ao mesmo tempo a divindade e a humanidade de
Jesus, vê-o como Deus que se fez homem, como homem que é Deus, com o
crucificado que é ressuscitado.
Jesus, um homem qualquer
A maioria dos historiadores, jornalistas, repórteres, estudiosos da religião,
romancistas, religiosos gnósticos, tratam Jesus como um homem qualquer. Vêem
Jesus como o fundador de uma nova religião, o reformador da religião judaica, um
profeta de Israel, um místico, um conhecedor dos mistérios religiosos, um
contestador social, um líder político, um homem bom e simples, um amigo do povo,
um homem santo, um homem possuído por Deus... Não falam nem escrevem como
cristãos, como pessoas de fé. Por isso, não pressupõem a divindade de Jesus de
Nazaré. Às vezes até a negam. Por negarem ou menosprezarem a divindade de
Jesus, não aceitam as verdades de fé cristã. Todas elas se relacionam com a
pessoa divina de Jesus Cristo: a preexistência de Jesus na eternidade, a existência
de um só Deus em três Pessoas, a encarnação de Deus e a concepção virginal de
Maria, a virgindade perpétua de Maria, a consciência divina e messiânica de Jesus,
a morte redentora, a ressurreição, a oferta divina da salvação em Cristo, a
centralidade e unicidade de Jesus Cristo para a salvação de toda a humanidade, a
origem divina e a santidade da Igreja, a santidade dos meios de salvação, da
Palavra e dos sacramentos, a santidade dos mandamentos e da moral cristã, a
predestinação de todos à comunhão com Deus, etc. Como se percebe, a rejeição da
divindade de Jesus leva ao desmoronamento de todo o arcabouço do credo cristão.
Esta maneira de pensar e de falar sobre Jesus está muito presente nas
produções da mídia, da religião, da política e da ciência de hoje. Reportagens nas
revistas e na televisão, filmes, romances, histórias de Jesus, entre outras produções
culturais, pretendem ocupar espaço no mercado, satisfazer curiosidades e
futilidades descomprometidas com o engajamento religioso e com a dimensão social
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da prática religiosa. Não estão interessadas na dimensão divina de Jesus, nem na
confissão da fé cristã.
Muitas expressões religiosas atuais como o espiritismo, a maçonaria, os
movimentos gnósticos e esotéricos, a Nova Era, entre tantos outros, embora
apreciem os ensinamentos de Jesus de Nazaré como mestre espiritual, não
reconhecem sua divindade. Alguns movimentos sociais e políticos, com fortes
motivações para a transformação da realidade, recorrem à crítica profética de Jesus
à sociedade, vendo-o apenas como um mestre na contestação política e na
instauração de uma nova ordem social e não como o único divino salvador. Do
mesmo modo, muitos escritos científicos nas áreas da história, psicologia, da
sociologia, das ciências da religião, entre outras, por causa dos pressupostos do
método científico, não se interessam pela divindade de Jesus. Essas produções
literárias, científicas, políticas, religiosas, artísticas ou jornalísticas, despojam a
pessoa de Jesus de toda interpretação que sobre ele foi dada pela Igreja no decorrer
dos dois milênios do cristianismo. Segundo os autores dessa tendência, a
interpretação da Igreja está marcada por muita mitologia, jogos simbólicos,
fantasias, crendices, lendas. Despojando Jesus de todo esse arcabouço
interpretativo, chegaríamos a Jesus de Nazaré tal e qual, pura e simplesmente
homem. Ainda que dotado de qualidades espirituais peculiares.
É preciso reconhecer que há valores nesse modo de pensar e de falar sobre
Jesus. Há, aí, uma preocupação em resgatar a realidade concreta, histórica, social,
política, em uma palavra, humana, da pessoa de Jesus Cristo. Como veremos
adiante, a fé cristã também afirma a humanidade de Jesus. O credo cristão tem
como base a existência histórica do homem de Nazaré, com suas opções e causas,
seus conflitos e posicionamentos, com sua vida e morte. Mas, a negação da
divindade de Jesus Cristo, como foi dito acima, põe abaixo todo o conteúdo e o
sentido da fé cristã.
Se Jesus não é Deus, ele não pode ser o nosso salvador. Se Jesus não é
Deus, a Igreja por ele fundada é apenas uma instituição humana, uma entidade
filantrópica, uma agência de serviços religiosos. Se Jesus não é Deus, todas as
mediações religiosas do cristianismo (sacramentos, ritos, celebrações, orações,
mandamentos, virtudes, etc.) são apenas invenções humanas. Se Jesus não é
Deus, então não vale à pena segui-lo, dar a vida por ele, acreditar na sua Palavra,
orar a ele, dedicar-se ao anúncio e à prática do seu Evangelho.
Jesus Cristo: um Deus nas alturas
Embora seja mais difícil conceber Jesus de Nazaré apenas como Deus, por
causa da evidência de sua humanidade (seu corpo, sua inserção na geografia e na
história humanas, e, mais concretamente, seus sofrimentos e sua morte), há
pessoas e grupos, no interior do cristianismo que insistem demasiadamente na
divindade de Jesus, a ponto de esquecerem sua humanidade.
Este é o modo de tratar Jesus próprio de um grande número de movimentos
de igrejas cristãs, notadamente as de caráter fundamentalista, que teimam em
realçar as palavras e os fatos extraordinários de Jesus. Insistem no miraculoso e, às
vezes, no fantástico. Não se dão conta de que agindo assim, tratam da história de
Jesus de Nazaré como se fosse uma peça de teatro, escrita desde toda a eternidade
por Deus, dirigida pelo Pai, protagonizada por um homem que faz o papel de Deus
na história humana. Jesus seria visto como o ator de uma tragédia, uma encenação
terrena que reflete a luta sobrenatural entre Deus e o diabo. Jesus seria uma
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espécie de marionete, um fantoche, um robô. Desarticulado e desconectado de
inserções históricas e sociais, Jesus é tratado como uma idéia, um ideal, um mito,
uma representação, um simples conceito abstrato.
Embora não neguem teoricamente a humanidade de Jesus, acabam por
negá-la na prática. Por menosprezarem as conseqüências práticas da humanidade
de Jesus, não sabem articular importantes temas da cristologia e da vida cristã. Têm
dificuldades para entender e trabalhar realidades concretas de Jesus: as tentações,
as crises, as angústias e aflições, o desenvolvimento de sua consciência humana,
as mudanças de percurso, o crescimento na fé, o despertar para sua consciência
divina e para sua missão messiânica, os condicionamentos históricos e culturais de
sua mensagem e de sua prática, os conflitos com os donos da política e da religião
da época, a tomada de posição ao lado dos pequenos e pobres, as mediações
concretas de sua obra evangelizadora, a ignorância sobre a vinda definitiva do
Reino, as dores e o sofrimento, o grito de abandono e a morte de cruz.
Essas realidades tão humanas da vida de Jesus são vistas apenas como
práticas pedagógicas: “Jesus fez de conta que... para nos ensinar como...”. A
humanidade de Jesus seria uma peça teatral, uma paródia, uma farsa. Como se
pode constatar, a rejeição prática da humanidade de Jesus, além de contradizer
dados concretos e evidentes dos evangelhos, torna sua pessoa distante e desligada
da realidade humana cotidiana e, portanto, leva ao desmoronamento de todo
arcabouço da moral e da espiritualidade cristãs.
Essa maneira de pensar e de falar sobre Jesus está muito presente em
determinados movimentos e comunidades cristãs da atualidade que insistem no
elemento miraculoso da salvação oferecida por Jesus Cristo. Apresentam, a religião
cristã, como caminho de solução para todos os problemas: doenças, desemprego,
crises conjugais, problemas afetivos, desordens morais, vícios, etc. Na linha da
magia, Jesus é salvador na medida em que expulsa os demônios que estariam
impedindo a felicidade dos fiéis. A teologia da prosperidade vê Jesus como salvador
na medida em que compensa com bênçãos e soluções de problemas, às pessoas
que, abnegadamente, fazem doações à sua igreja-empresa. Segundo uma
recorrente escatologia da retribuição, Jesus está para voltar, em sua segunda vinda,
de modo apoteótico e triunfante, para intervir na realidade e arrebatar aos céus os
seus eleitos, condenando os perversos ao fogo dos infernos. Para uma veemente
teologia do sacrifício, Jesus salva os que renunciam aos prazeres do mundo, com
jejuns e penitências merecedores das boas graças do céu. Para os que propõem a
fuga do mundo, Jesus salva os que se refugiam nas sacristias em uma
espiritualidade intimista e interiorista. Segundo o fundamentalismo religioso cristão
ou um perigoso integrismo católico, Jesus salva somente os que se inscrevem na
única Igreja verdadeira.
Essas expressões cristãs despojam a pessoa de Jesus de toda inserção na
história, de todo engajamento no mundo. Desencarnam Jesus. Desligam Deus das
realidades mundanas. Despojando Jesus de sua encarnação histórica e social,
pretendem chegar ao Deus único, espírito perfeitíssimo, senhor absoluto, ser
supremo. Ainda que estranha e paradoxalmente marcado por vicissitudes humanas
e históricas.
Há valores, também, nesse modo de pensar e de falar sobre Jesus. Há, aí,
uma preocupação em retomar e relançar o fato inédito e inaudito da presença e da
ação de Deus na história humana. Como veremos adiante, a fé cristã também afirma
a divindade de Jesus. Mas a negação da humanidade de Jesus Cristo põe abaixo o
conteúdo e o sentido da fé cristã, naquilo que implica a prática de uma moral e de
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uma espiritualidade específicas, ou seja, de um modo novo e diferente de ser
humano.
Se Jesus não é verdadeiramente humano em tudo, nas tentações e
fraquezas, nos limites e condicionamentos, nos sofrimentos, crises e cruzes,
próprios do ser humano, ele não pode ser o nosso salvador. Se Jesus não assume
nossa real e concreta humanidade, então não somos real e totalmente redimidos. Se
Jesus não assume a história humana com seus conflitos e suas exigências de
posicionamentos e opções, suas mediações culturais e sociais, seus processos de
desenvolvimento e de amadurecimento, então, nossa humanidade não é
verdadeiramente transformada e libertada daquilo que ela tem de pecaminoso. Se
Jesus não é um ser humano, então, não é possível segui-lo, dar a vida como ele,
praticar a sua Palavra, dedicar-se à transformação das estruturas e à conversão das
pessoas na linha de seu Evangelho
Jesus, o Homem Deus
Jesus de Nazaré é a presença e a ação de Deus em nossa história. É desse
modo que os cristãos concebem e anunciam Jesus Cristo. Trata-se de um paradoxo,
de uma aparente contradição. Ou, como disse São Paulo, um escândalo para os
pagãos, uma loucura para os judeus. Afirmar que Jesus de Nazaré, o crucificado, é
o Senhor ressuscitado, o Cristo de nossa fé, é, para nós, cristãos, a sabedoria de
Deus (cf. 1Cor 1,20-25).
Este é o núcleo central e específico da fé cristã. É nisso que os cristãos se
diferenciam de todas as outras religiões. Nós cristãos cremos num homem que é
Deus, num crucificado que ressuscitou. Está claro que se ele é Deus, é porque ele já
era Deus, desde sempre, desde toda a eternidade. Cremos, portanto, num Deus que
se fez homem.
Nós cristãos cremos num homem que amou até o fim (Jo 13,1), que pagou
com a morte a promoção e a defesa da vida dos marginalizados, que morreu por
amor de seus irmãos, que foi vítima inocente na mão de gente ímpia (At 2,23). Essa
nossa fé é confirmada pela ressurreição. Aquele que tinha tanto amor para dar (Jo
15,13), que era o Senhor da vida (Jo 10,18), que veio trazer vida em abundância (Jo
10,10) não podia permanecer na morte. Tão humano assim, só pode ser Deus. A
morte não tinha poder sobre ele (Rm 6,9). Ao assumir a morte, ele a derrotou. O
crucificado ressuscitou. Ao assumir os pecados de seus assassinos e de todos os
seres humanos, ele os perdoou e os queimou no fogo de sua misericórdia. Tão
humano assim, só Deus pode ser. Quem ressuscitou foi aquele que se predispôs à
morte. O ressuscitado não caiu do céu, não é um mito, um ator de uma peça de
teatro, mas é alguém que morreu por uma causa, na fidelidade a um projeto, por
causa do Reino que anunciou e iniciou. A fé cristã se baseia neste escândalo: este
homem é Deus, este Deus fez-se homem.
Crucificado-ressuscitado, homem-Deus. Trata-se de uma identidade na
contradição. Jesus de Nazaré é o Cristo de nossa fé. O Senhor da história, o Cristo
de nossa fé, nosso único Salvador, o Deus de nossas vidas, é Jesus de Nazaré.
Trata-se de uma identidade: o morto está vivo, o crucificado é o ressuscitado, este
homem é verdadeiramente Deus. Mas na contradição: como pode um homem ser
Deus? Como pode um morto ressuscitar? É precisamente este escândalo, este
paradoxo, esta tensão, o centro de nossa fé. É o que desenvolveremos a seguir.
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1 O MISTÉRIO PASCAL: PONTO DE PARTIDA DA CRISTOLOGIA
Morte e ressurreição, eis aí o centro da fé cristã. Nós cristãos afirmamos que
Jesus de Nazaré morreu. Mas também afirmamos que ele ressuscitou. A passagem
de Jesus de Nazaré da morte para a vida é o mistério central de nossa fé. É o
mistério pascal, ponto de partida da fé explícita em Jesus Cristo e da reflexão
cristológica, a começar com as cristologias do Novo Testamento. Embora se fale de
cristologia, no singular, há, com efeito, diversas cristologias, porque cada uma delas
faz uma abordagem do mesmo Jesus de Nazaré a partir de óticas e preocupações
diferentes. Essa diversidade de cristologias, que já se faz presente no Novo
Testamento, se revela uma riqueza para a fé cristã.
1.1 Morte e ressurreição, centro da fé cristã
Se Cristo não tivesse ressuscitado seria vã a nossa fé (1Cor 15,15), ou, nem
sequer haveria fé cristã, não haveria reflexão cristológica. Cristo ressuscitou! Este é
o anúncio básico de todo o cristianismo (At 2,32;3,15). Como podemos constatar
pela leitura dos textos do Novo Testamento, principalmente no final dos quatro
evangelhos e nos Atos dos Apóstolos, esta notícia causou espanto e alegria nos
primeiros seguidores de Jesus, bem como preocupação e reação nos poderosos da
religião e da política da época. Com esta notícia, estranha e escandalosa, os
discípulos e discípulas do Senhor correram o mundo, angariando adeptos, formando
comunidades, suscitando esperanças e expectativas no meio de pessoas e povos
oprimidos, instaurando novos projetos de vida, transformando sociedades. Se tudo
tivesse terminado na cruz, o crucificado teria sido mais um entre tantos crucificados
do seu tempo, não teria havido nenhuma mudança na história, seríamos ainda
pessoas sem fé e, portanto, sem esperança. Cruz sem ressurreição é sinal de morte,
de fim, de desespero, de caminho fechado. O cristianismo não é uma religião da
morte, da dor, do absurdo desta vida, da renúncia aos valores deste mundo. O
cristianismo anuncia a transformação desta vida e deste mundo.
Professamos em nosso Credo cristão: Jesus de Nazaré padeceu sob Pôncio
Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. Mas ressuscitou. A vida venceu a morte; a
morte foi tragada pelo poder da vida (1Cor 15,54). O crucificado está vivo!
Mas quem ressuscitou não foi um homem qualquer. Foi uma vítima do poder
religioso e do poder político. Foi um mártir das causas sociais, alguém que havia se
colocado ao lado dos pobres, das mulheres, dos doentes, das multidões. Alguém
que se havia colocado contra os donos da religião e do poder, contra as autoridades
opressoras e dominadoras do povo. Ele era um homem credenciado por Deus, havia
feito sinais e prodígios em nome de Deus (At 2,22). Ele havia anunciado um Reino
diferente, o Reino de um Deus diferente. Falava de Deus como de um Pai amoroso,
próximo dos pecadores arrependidos, um Pai que queria vida em abundância para
todos.
Quem ressuscitou não foi uma idéia, um mito, um ideal, uma causa. Foi uma
pessoa que ressuscitou. Uma pessoa que havia sido morta, rejeitada, excluída.
Aquele que foi morto pela mão dos homens, Deus o ressuscitou! (At 2,23-24).
Ressurreição sem morte é teatro, representação apoteótica. O cristianismo não é
uma religião que põe panos quentes sobre os conflitos do mundo, não é uma religião
do espetáculo, um show. A fé cristã se fundamenta em uma morte, no fim trágico de
alguém que lutou pela vida. O ressuscitado é o crucificado!
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O mistério da páscoa – passagem da morte para a vida- é centro de nossa fé.
O que aconteceu com Jesus deve acontecer também conosco. A vida cristã é
passagem: do egoísmo para a solidariedade, da indiferença para a participação, do
ódio para o perdão, da divisão para a comunhão.
A Páscoa de Jesus foi, por isso, ponto de partida para a Páscoa de seus
discípulos e discípulas. Antes da Páscoa, eles tinham em Jesus uma fé embrionária,
bem pouco amadurecida. Eles o seguiam, apreciavam suas palavras, punham-se do
lado dele nas discussões contra os fariseus e sacerdotes, reconheciam-no como
alguém diferente. Percebiam nele alguém que valia a pena seguir, alguém que tinha
palavras de vida eterna (Jo 6,68), que saciava a sede de vida eterna (Jo 4,14) que
matava não somente a fome de pão material (Jo 6,1-13), mas também do pão
espiritual ( (Jo 6,51). As multidões viam nele um represente de Deus, um profeta, um
messias (Lc 7,16; Jo 6,14); queriam fazê-lo rei (Jo 6,15), corriam a ele pedindo
socorro nas necessidades (Mc 5,6.22-23.27-28; 7,25-26), traziam-lhe os doentes e
endemonhiados para serem curados (Mc 1,31), e as crianças para serem
abençoadas (Mt 19,13).
Acreditavam em Jesus, mas não havia ainda uma fé explícita, clara, firme.
Tanto é que quando Jesus foi preso, quase todos o abandonaram, Pedro o negou,
os discípulos de Emaús voltaram para seus afazeres normais. Uma fé explícita só se
desenvolveu após a experiência pascal, com a vinda do Espírito Santo, com a
percepção de que Jesus continuava vivo no meio deles. A partir de então, eles vão
compreendendo o sentido das atitudes, das opções, do comportamento, da
mensagem e da morte de Jesus de Nazaré. Começam, então, a anunciar e, depois,
a colocar por escrito sua mensagem de salvação. Fazem também a sua Páscoa: de
uma fé implícita para uma fé explícita, do escondimento e do medo para a coragem
pública e o anúncio do Cristo crucificado-ressuscitado.
Na experiência da Páscoa, encontra-se o fundamento do que será uma fé
explícita e amadurecida em Jesus Cristo. Na Páscoa, inicia todo o trabalho de
interpretação da vida, da paixão, da morte e da ressurreição de Jesus. Na Páscoa
tem início a cristologia. A existência terrena de Jesus de Nazaré, vivida na
obscuridade e na fraqueza, passa a ter um sentido profundamente libertador,
quando os cristãos a iluminam com a luz da experiência pascal. Em Jesus Cristo,
morto e ressuscitado, os primeiros cristãos percebem e confessam dois modos de
existir, que caracterizam duas etapas distintas da vida do Mestre: a etapa de
fraqueza, o modo humano e carnal de existir, a vida terrena, o Jesus de Nazaré prépascal; e a etapa da plenitude, o modo celestial e espiritual de existência, o Cristo da
fé, o Jesus pós-pascal (Rm 1,3-4; 1Tm 3,16; 1Pd 3,18; At 5,31).
Essas duas etapas ou modos distintos de existência de Jesus explicam as
duas orientações básicas da cristologia das comunidades cristãs do século I. Alguns
como João e Paulo, insistem no Verbo pré-existente, no mediador de toda a criação
(Jo 1,1-14; Fil 2,6-11; Col 1,15-20) ou no Cristo ressuscitado e glorificado (Rm 6,411; 1Cor 15,20). Trata-se de uma cristologia descendente, que desce do mistério
para a história, da divindade para a humanidade. Outros, como os evangelistas
sinóticos, olham preferencialmente para o Jesus terrestre e, a partir daí,
desenvolvem sua reflexão sobre o Cristo, Filho de Deus. Uma cristologia
ascendente, que sobe da história para o mistério, da humanidade para a divindade.
Todavia, todos partem da fé na ressurreição daquele Jesus que foi morto na
cruz. O mistério pascal, a passagem da morte para a ressurreição, une
inseparavelmente as duas orientações cristológicas. Na fé do Novo Testamento não
existe ruptura entre o Jesus histórico (terrestre) e o Cristo da fé (glorificado). Nas
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duas orientações básicas do Novo Testamento, está sempre presente o mesmo
sujeito, embora apresentado em duas distintas etapas de sua existência.
1.2 Uma cristologia, muitas cristologias
Assim sendo, temos diversas cristologias no Novo Testamento. Cada um dos
evangelistas tem um modo próprio de falar de Jesus Cristo. Poderíamos assim
resumir:
a) Marcos acentua o Jesus humano, rejeitado, pobre. Para ele, Jesus é Messias
justamente no sofrer e dar a vida, é Filho de Deus oculto nas condições
humanas do sofrimento. Seu Jesus é áspero com os discípulos, severo com
os fariseus e cauteloso com as multidões. Em seu Evangelho, Jesus faz
segredo de sua messianidade, para evitar que seu messianismo fosse
interpretado político-nacionalmente, no estilo dos zelotas ou de outros
movimentos revolucionários de época.
b) Mateus vê em Jesus o Mestre, o Messias esperado de Israel, o cumpridor
das promessas e profecias da Primeira Aliança, o verdadeiro intérprete da lei
mosaica, o novo Moisés, que proclama no monte a lei das bem-aventuranças
e re-interpreta a antiga lei, o novo Davi, o anunciador do Reino, indicador de
um novo movimento religioso, que é a semente do novo povo de Israel, a
Igreja.
c) Para Lucas Jesus é amigo do povo, um homem das multidões, que revela,
em palavras e atos, a face misericordiosa do Pai. É um homem de relações:
com os pobres, os pecadores, as mulheres, os marginalizados. Um homem
de oração, ungido pelo Espírito Santo, em profunda relação com o Pai. É o
senhor de toda a história e salvador de toda a humanidade.
d) João apresenta um Jesus místico, consciente de sua condição e missão
divinas. É o revelador de Deus na forma de sinais: luz, pão, água, pastor,
videira. O Jesus de João, ciente de sua filiação divina, afirma-se como aquele
que é, aplica a si o “eu sou” divino. Vive, por isso, em permanente conflito
com os chefes dos Judeus, que não o reconhecem como Filho de Deus.
e) Nos Atos dos Apóstolos Jesus é mostrado como o Senhor ressuscitado,
vivo e presente no meio das comunidades, pela força de seu Espírito. É o
Caminho a seguir, a Palavra a ouvir, a praticar e a anunciar. É o modelo a
seguir nas provações da fé.
f) O próprio Paulo, em seus escritos, produz diversas cristologias. Em breve
tempo de seu ministério releu o mesmo e único evento pascal de diversos
modos. Em seus primeiros escritos, as duas cartas aos Tessalonicenses,
Paulo está voltado para o futuro das comunidades. Apresenta-lhes o Cristo do
futuro, o juiz escatológico, o Senhor que vem. Nas Cartas maiores (Rm 1 e
2Cor, Gal), voltado para a vida presente da Igreja, com suas dificuldades e
desafios, Paulo mostra o Cristo do presente da vida cristã, o crucificadoressuscitado, o Senhor que vence a morte, que dá seu Espírito aos fiéis, o
Senhor presente no coração e na comunidade dos fiéis, que faz passar da lei
para a liberdade, do pecado para a graça. Nas Últimas cartas, nas cartas da
prisão (Ef, Col, Fil), voltado para as origens do plano da salvação, Paulo
apresenta o Cristo das origens o pré-existente, que sendo Deus se fez
homem, o mediador de toda a criação, o Primogênito de toda criatura, o
centro de todo ministério salvífico. Nas Cartas pastorais, atribuídas a Paulo (1
e 2 Tim, Tt, Fm), temos o Cristo mediador da salvação de toda a humanidade,
9
g)
h)
i)
j)
o Cristo que deve ser servido e seguido na organização da comunidade, no
pastoreio dos fiéis. É o único que possui a imortalidade e habita em luz
inacessível, o que apareceu entre nós para revelar os planos eternos do Pai,
para nos justificar por sua graça e nos fazer todos irmãos e irmãs uns dos
outros.
O autor da Carta aos Hebreus apresenta Jesus como irmão misericordioso
dos pecadores, disposto a morrer por todos. Aquele que aprendeu na
humilhação e no sofrimento a ter fé em Deus-Pai. Por isso é o único e
verdadeiro sacerdote, mediador entre Deus e os seres humanos. Tendo
ofertado sua vida em sacrifício, tornou-se o único mediador entre Deus e os
seres humanos.
Na Carta de Tiago, Jesus é o Senhor da glória que não admite favoritismos
pessoais e acepção de pessoas.
Nas duas Cartas de Pedro Jesus é o protótipo dos filhos e filhas de Deus, é
o Filho Unigênito enviado pelo Pai ao mundo, é verdadeiro Deus e verdadeiro
homem. Na união com ele, podemos viver, desde já, a vida eterna.
No Apocalipse temos o Cristo vencedor da morte, a testemunha fiel, o
primogênito dentre os mortos, o príncipe dos reis da terra, o primeiro e o
último, Aquele que é, que era e que vem.
1.3 Os títulos de Jesus
Os títulos de Jesus revelam também as várias cristologias existentes no
cristianismo primitivo:
a) Filho do Homem: É o título que Jesus mais usava para si e que nós usamos
menos para ele. A expressão "Filho do Homem" ocorre 77 vezes nos
evangelhos, uma só vez nos Atos (At 7,56), e nenhuma vez nos outros
escritos do Novo testamento. Este título vem do Antigo Testamento, onde
ocorre com dois sentidos aparentemente opostos: um em Ezequiel e outro em
Daniel. Em Daniel, ele ocorre numa das visões apocalípticas, quando o
profeta descreve os impérios dos babilônios, medos, persas e gregos. Estes
quatro impérios têm aí a aparência de "animais monstruosos" (Dn 7,3-8). São
impérios animalescos, brutais, que perseguem e matam (Dn 7,21.25). Depois
destes reinos desumanos, aparece o Reino de Deus que tem a aparência não
de um animal, mas sim de "um Filho de Homem". Ou seja, é um reino com
aparência de gente, reino humano, que promove a vida (Dn 7,13-14). Aqui em
Daniel a figura do Filho do Homem indica o Povo de Deus, "o Povo dos
Santos do Altíssimo" (Dn 7,18.27). A missão que o Filho do Homem recebe é
a missão de todo o Povo de Deus. Ela consiste em realizar o Reino de Deus
que é um reino humano, reino que não persegue a vida, antes a promove.
Usando o título Filho do Homem, Jesus assume esta missão, e ele a assume
não sozinho. Apresentando-se como Filho do Homem, ele está dizendo aos
discípulos e a todos nós: "Venham comigo! Vamos realizar a missão que
Deus nos entregou! Vamos realizar o Reino que ele sonhou! Esta missão não
é só minha. Ela é de todos nós!"
Em Ezequiel, o título Filho do homem ocorre mais de 90 vezes! É Deus que,
sem parar, chama o profeta de "Filho do homem!" Aqui a expressão indica o
aspecto humano do projeta. A Bíblia Pastoral a traduz acertadamente por
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Criatura humana. Usando este título, Jesus acentua a sua condição humana,
igual a nós em tudo, menos no pecado (Hb 4,15; FI 2,7).
b) Servo: Desde o exílio, este título estava associado à figura do Servo de Javé,
que aparece nos quatro cânticos de Isaías (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,49; 52,1353,12). Nele se manifesta a nova consciência de conceber a missão do povo
de Deus como um serviço à humanidade. O contexto dos capítulos 40-55 do
livro de Isaías deixa bem claro que o Servo é o povo (Is 41,8-9; 42,18-20;
43,10; 44,1-2; 44,21; 45,4; 48,20; 54,17). A figura do servo era um espelho
em que o povo descobria a sua missão. Jesus olhou neste espelho e por ele
se orientou na execução da sua missão. Instruído pelo Pai e pelos pobres,
percorreu os quatro passos dos quatro cânticos e realizou o ideal do Servo
(Mt 20,28). Deste modo, ele se tornou a chave definitiva da interpretação dos
quatro cânticos de Isaías. Foi assim que os primeiros cristãos os entendiam e
reliam. Para eles, Jesus era o Servo (At 3,13.26; 4,27.30; Mc 10,34). Usando
textos dos mesmos cânticos, procuravam explicar o significado de Jesus para
as suas vidas e para a sua missão (Mt 12,18; Mc 9,35; Lc 1,38.48).
c) Cristo: Cristo é uma palavra grega que traduz a palavra hebraica Messias.
Ambas significam Ungido. Ao contrário de Filho do Homem, é o título menos
usado pelo próprio Jesus e mais usado pelos cristãos. É tão freqüente que
chegou a ser nome próprio. O nome de Jesus de Nazaré passou a ser Jesus
Cristo.
No tempo de Jesus, todos esperavam a chegada do Reino, a vinda do
Ungido, do Messias (Mc 8,29). Mas nem todos o esperavam do mesmo jeito.
Uns esperavam um messias rei, filho de Davi (Mc 10,48; 12,35), que viria
combater os romanos (Mc 13,22; Mt 4,9). Outros, um messias sacerdote, o
"Santo de Deus" (Mc 1,24), ou um messias doutor da lei, que viria ensinar o
que faltava saber sobre a lei (Jo 4,25). Outros um messias juiz, para exercer o
julgamento (Lc 3,7-9), ou um messias profeta para guiar o povo como um
novo Moisés (Jo 6,14 e Dt 18,15)! Ninguém esperava um messias servo! Por
isso o título Cristo, Messias ou Ungido, era carregado de ambivalência.
Manipulado pela ideologia dominante, era associado ao messianismo régio e
nacionalisla. Jesus sempre evitou usá-lo para não ser mal interpretado.
Mesmo na bora do julgamento, interrogado explicitamente pelos seus acusadores, não se pronunciou claramente (Mt 26,64).
Depois da ressurreição, porém, este passou a ser o título mais usado,
sobretudo por Paulo. Ocorre mais de 500 vezes nos escritos do Novo
Testamento! Ele indica que Jesus recebeu a unção para ser aquele no qual
Deus realizou todas as suas promessas. Em Cristo e por'Cristo foi dado ao
povo o grande dom do Espírito Santo. O título Cristo indica o mistério da
presença de Jesus na vivência da fé. Nas cartas mais tardias, ele assume
dimensões cósmicas: tudo foi criado nele, por ele e pnra ele (CI 1,16).
d) Senhor: o título Senhor, junto com o título Cristo, é o primeiro nome dado a
Jesus depois da ressurreição, No dia de Pentecostes, Pedro o declara
solenemente: "Que todo o povo de Israel fique sabendo com toda a clareza: a
este Jesus que vocês crucificaram Deus o fez Senhor e Cristo" (At 2,36).
Ocorre mais de 140 vezes só no Novo Testamento. Tornou-se o nome mais
comum de Jesus, que passou a ser chamado de Nosso Senhor.
Senhor traduz o nome Adonai. Na Bíblia Hebraica, Adonai é o nome mais
freqüente de Deus. Depois do exílio, por causa de uma interpretação
demasiadamente rígida do segundo mandamento, que proíbe usar o nome de
11
Deus em vão (Ex 20,7; Dt 5,11), e por um respeito exagerado, inspirado nas
leis da pureza legal, os judeus passaram a substituir o nome Yahweh por
Adonai, que significa Senhor. O nome Yahweh ocorre mais de 6.000 vezes no
Antigo Testamento! O seu sentido é explicado por ocasião da vocação de
Moisés (Ex 3,11-15). Ele é o coração da Revelação. Sugere, evoca e afirma a
presença amiga e libertadora de Deus no meio do seu povo e com cada um
dos seus membros: "Vai, estou com você!" (Ex 3,12). Com outras palavras,
aplicando este nome a Jesus, os primeiros cristãos expressavam a fé de que
Jesus ressuscitado é a prova de que Deus continua sendo Yahweh, isto é,
presença libertadora no meio do seu povo!
Mas não era só isto. Naquele tempo, Senhor era um título imperial! A sua
aplicação a Jesus trazia consigo certos riscos, pois o único Senhor do mundo
era o Imperador de Roma. Sobretudo depois do ano 70, na medida em que
progride a hostilidade do Império contra os cristãos, cresce também o risco de
perseguição para todos os que pretendem que Jesus seja o Senhor. O uso
deste nome assume uma dimensão mais política ainda no livro do Apocalipse,
que insiste em dizer que Jesus é o "Rei dos reis e o Senhor dos senhores"
(Ap 19,16; 17,14).
e) Filho de Deus: Este título, tão importante para nós, é muito pouco usado no
Novo Testamento. Menos de 5 vezes! Inicialmente era um título comum.
Todos somos filhos de Deus! É só depois do ano 100 que os cristãos vão
aprofundar todo o seu significado e alcance e vão descobrir de que maneira
Jesus é Filho de Deus.
1.4 Diversidade de Cristologias: a riqueza da fé cristã
Diante dessa diversidade de cristologias presentes no Novo Testamento,
poderiam surgir, entre tantas outras, as seguintes perguntas: qual delas é mais fiel
aos fatos? Qual delas é mais ortodoxa? Qual delas é mais útil para a evangelização
hoje? O que fazer com tantas concepções diferentes de Jesus Cristo?
Antes de responder brevemente a cada uma delas, é preciso considerar o
seguinte:
a) Os Escritos do Novo Testamento, além de conterem diversas cristologias,
contêm também diversas pneumatologias, eclesiologias, antropologias,
mariologias, escatologias, etc. Encontramos aí a reflexão cristã fundamental
sobre Deus, Jesus Cristo, o Espírito Santo, Maria, a Igreja, o ser humano, a
vida futura, etc. Isso quer dizer que são fonte para toda a teologia cristã. No
Novo Testamento temos uma teologia originária, isto é, a primeira reflexão
feita sobre os dados da revelação e da fé. Tanto a palavra de Deus como a
nossa resposta à revelação divina só podem ser transmitidas por palavras e
conceitos humanos. Não há outro jeito de Deus se comunicar conosco e nós
nos correspondermos com ele. Por isso, os escritos do Novo Testamento já
são teologia, isto é, reflexão sobre essa Palavra e essa fé. Mas não são uma
teologia qualquer. São a teologia originante e, por isso, teologia normativa
para toda e qualquer reflexão.
b) Se os escritos do Novo Testamento contém diversas cristologias, é preciso
buscar e encontrar uma unidade de fundo entre elas. É preciso
discernimento, baseado na fé e no estudo, para encontrar o fio da verdade
sobre Jesus Cristo que costura todas as cristologias. Esse fio se encontra,
12
certamente, na concreta existência histórica de Jesus de Nazaré, de sua
pessoa e de sua práxis.
c) Uma vez que os escritos do Novo Testamento contêm diversas cristologias, é
preciso valorizá-las todas. Essa riqueza de perspectivas sobre o único
mistério de Cristo mostra que é possível fazer, também hoje, diversas
cristologias. Isso é feito a partir das interrogações, dos desafios e das
necessidades de cada comunidade, de cada país, de cada época, levando
em conta os sinais dos tempos.
d) Essas diversas cristologias são feitas com um único objetivo; mostrar a
intervenção salvífica de Deus em Cristo. Há, em todas elas, um interesse
soteriológico: em Jesus revela-se definitivamente quem é Deus e o que ele
quer. No evento Jesus Cristo se resume e se conclui, assim, toda a história
da salvação: revela-se, uma vez por todas, o ser e o agir de Deus.
e) Todas essas cristologias nascem da Páscoa. Centram-se na passagem de
Jesus Cristo da morte para a vida. Foram escritas na luz da Páscoa. Devem,
portanto, ser lidas à luz da Páscoa. Tudo o que dizem sobre Jesus de Nazaré
–o Cristo pré-existente, a encarnação do Verbo, o nascimento, a infância, o
batismo, o ministério público, a paixão e a morte – tudo foi escrito à luz da
ressurreição e, portanto, nessa luz deve ser lido.
f) Todas essas cristologias são pascais e, por isso, batismais; foram escritas em
vista da vida cristã, do mergulho do fiel em Cristo, da passagem que cada
cristão é chamado a fazer da incredulidade para a fé em Jesus Cristo como
Filho de Deus.
Voltemos agora, às perguntas com que iniciamos esta reflexão:
Qual das cristologias do Novo Testamento é mais fiel aos fatos?
Na verdade, não se pode exigir de nenhuma delas fidelidade aos fatos no
sentido em que hoje entendemos a ciência histórica. Os evangelhos não são
biografia. Os escritos do Novo Testamento narram a vida das comunidades, com
suas interrogações, problemas, soluções, perseguições, conquistas. Falam de Jesus
Cristo não com o olhar de historiadores, cientistas, pesquisadores. Falam com o
olhar e o coração convertidos. Esses livros foram escritos entre os anos 45 e 100 do
primeiro século. Portanto, a uma distância de 20 ou mais anos da morte de Jesus de
Nazaré.
Os escritos do Novo Testamento falam de Jesus a partir de uma janela,
através da qual se direcionam três olhares. A janela oferece a luz do mistério pascal
que ilumina o que se passou com Jesus de Nazaré, em seus últimos momentos, sua
paixão e morte. Os três olhares são: o presente em que os autores e suas
comunidades estão vivendo (o olhar da consciência do presente: a vida: a vida no
Espírito, as virtudes cristãs e o seguimento de Jesus); o futuro que tem pela frente (o
olhar da esperança no futuro: interrogações e desafios que motivam a fé no retorno
de Jesus); e o passado de Jesus de Nazaré, na Galiléia e em Jerusalém (o olhar
para a memória do passado: práticas e palavras de Jesus que fortalecem o presente
e despertam para o futuro). As cristologias do Novo Testamento, bom como todas as
que surgirão depois, estão mais preocupadas com a fidelidade de sua própria fé em
Jesus Cristo, do que com a fidelidade aos fatos que aconteceram com Jesus de
Nazaré.
13
Qual das cristologias do Novo Testamento é a mais ortodoxa?
Todas elas são ortodoxas, na medida em que se referem ao mesmo Jesus de
Nazaré. Embora cada uma delas aborde a pessoa de Jesus Cristo a partir de uma
determinada perspectiva, conforme as necessidades e interrogações da comunidade
em que nascem, todas apresentam a verdade da salvação, todas são caminho para
o encontro com Jesus Cristo vivo e com seu Espírito vivificador. O mistério da
salvação em Cristo é tão rico de graças, que uma só perspectiva não dá conta de
abrangê-lo.
Qual delas é mais útil para a Evangelização hoje?
Todas elas. Embora seja possível acentuar uma ou outra, conforme as
interrogações e desafios, as épocas e os lugares em que se vive a fé cristã nos dias
de hoje, não se pode privilegiar uma delas em detrimento de outras. Seria fazer uma
espécie de cânon dentro do cânon. É preciso estar atento a escolhas arbitrárias,
sem critério nem controle, que geralmente produzem ideologizações e
parcializações perigosas para a fé.
O que fazer com tantas concepções diferentes de Jesus Cristo?
Agradecer que haja, no interior mesmo do Novo Testamento, essa pluralidade
de teologias, de cristologias. Aproveitar-se de todas elas. Ver, nessa pluralidade de
visões sobre Jesus Cristo, a justificativa para a diversidade de abordagens
teológicas e cristológicas que sempre houve e sempre haverá na Igreja.
2 O ACESSO AO JESUS DA HISTÓRIA
A preocupação central da cristologia é o acesso ao Jesus da história. Se as
cristologias do Novo Testamento não são biografias, mas recordações espirituais
que servem mais à exortação religiosa que à confirmação histórica, que acesso
temos, então, ao Jesus da história? Além dos escritos do Novo Testamento, há
escritos não bíblicos que ajudam a chegar ao Jesus da história. Os próprios escritos
do Novo Testamento são fundamentais, desde que sejam estudados de modo
científico e se estabeleçam critérios que ajudem a definir o que realmente há de
histórico no que neles foi relatado.
2.1 Escritos não bíblicos
Além dos escritos do Novo Testamento, que veremos adiante, há outras
fontes cristãs que se referem a Jesus Cristo. São fontes extra-canônicas, nãobíblicas, que são muito úteis para o acesso ao Jesus da história. Podem ser assim
apresentadas.
a) Apócrifos (do grego: apócrifos: oculto, secreto): escritos do cristianismo
nascente que não foram aceitos no cânon, mas se referem pelo conteúdo ou
pelo gênero ao Novo Testamento. Não entraram no cânon por diversos
motivos: na sua maioria, foram escritos bem depois dos canônicos: não eram
usados na liturgia; não têm confiabilidade histórica, pois são impregnados de
lendas e narrativas em parte fantásticas; não garantem a tradição apostólica
sendo, alguns deles, infiltrados por desenvolvimento errôneos da doutrina e
até mesmo por heresias, como por exemplo, o gnosticismo. Mesmo não
14
pertencendo ao cânon, são úteis para o acesso ao Jesus histórico, contém
referências sobre palavras e feitos de Jesus. Foram escritos na primeira
metade do século II. É impossível enumerá-los todos. Citamos apenas alguns
deles: Evangelho de Tomé, Apócrifo de Tiago, Diálogo do Redentor,
Evangelho dos Egípcios, Evangelho de Pedro, Evangelho dos Nazarenos,
Evangelho dos Ebionitas, Evangelho dos Hebreus.
b) Padres Apostólicos: É um grupo de escritos do cristianismo nascente,
diferenciado do conjunto dos apócrifos por conterem com maior confiabilidade
histórica e ortodoxa. Foram escritos por discípulos dos apóstolos, no final do
século I e na primeira metade do século II. Entre eles citamos: as cartas de
Clemente de Roma, as cartas de Inácio de Antioquia, a Carta de Policarpo, a
Didaqué, a Carta a Diogneto e o Pastor de Hermas.
c) Ágrafos (do grego: agraphon: não escrito): são palavras de Jesus não
incluídas nos Evangelhos Canônicos, transmitidas oralmente pelos Padres da
Igreja, pelas liturgias do cristianismo primitivo. As palavras de Jesus que se
encontram no Novo Testamento, mas fora dos Evangelhos também são
chamados Ágrafos.
Há ainda fontes não cristãs, que também se referem a Jesus Cristo:
Flávio Josefo (38-100dC): Historiador judeu que, ao escrever a história dos
judeus dessa época, faz um relato benevolente sobre Jesus, tão neutro e objetivo
quanto o fez sobre João Batista ou sobre Tiago, o irmão do Senhor. Chama-o de
Cristo.
Mara Bar Sarapion: filósofo sírio, seguidor do estoicismo, que escreveu uma
carta a seu filho Serapion, pelo ano de 73 dC, contendo numerosos conselhos e
advertências em face de sua possível condenação. Nessa carta, fala
simpaticamente de Jesus como o “sábio rei dos judeus”.
Escritores romanos: Plínio Jovem, Tácito, Suetônio – do período entre 110 a
120 dC: deixam três curtas menções a Cristo. A partir de ocupações e preocupações
administrativas, acusam o cristianismo de superstição desprezível e perigosa para o
Império romano. Falam de Jesus como fundador da seita dos cristãos, um quasedeus, que foi executado sob Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos.
Fontes rabínicas, anteriores ao ano 220 dC: nelas, Jesus é acusado de
aliciador, justificando sua condenação pela prática de feitiçaria, por ter
desencaminhado Israel e por ter levado o povo judeu à idolatria.
É duplo o valor das fontes extra-cristãs sobre Jesus. Primeiro, deve-se notar
que tanto oponentes como observadores neutros ou simpáticos ao cristianismo
nascente pressupõem a historicidade de Jesus e não deixam espaço a dúvidas.
Além disso, as referências não-cristãs permitem checar dados e fatos de Jesus: sua
morte violenta é narrada por Josefo, pelos rabinos, por Mara e por Tácito; os
milagres de Jesus são mencionados por Josefo e pelos rabinos; sua atuação como
mestre é referida por Josefo e pelo filósofo Mara; o título de Cristo é trazido por
Josefo e pelos historiadores romanos. São dados e fatos que confirmam as fontes
cristãs, sobretudo os evangelhos.
Tanto as fontes cristãs extra-canônicas como as fontes extra-cristãs são
importantes para corroborar o acordo de fundo dos evangelhos sobre a historicidade
de fatos e palavras de Jesus.
15
2.2 Os escritos do Novo Testamento
Cada escritor do Novo Testamento acessou Jesus de Nazaré a partir de uma
perspectiva própria, mais preocupado com a fé de seus leitores do que com a
fidelidade aos fatos. Pergunta-se, então: que condições temos hoje de acessar,
através dos escritos do Novo Testamento, o Jesus da história? Os Evangelhos são
nossa principal fonte para o conhecimento do Jesus de Nazaré. Mas, se os próprios
evangelistas não se preocuparam com isso, que possibilidades temos, de definir os
fatos e palavras reais de Jesus de Nazaré?
A principal fonte do nosso conhecimento sobre o Jesus da história é também
o maior problema: os quatro Evangelhos Canônicos (Marcos, Mateus, Lucas e João)
que os cristãos aceitam como parte do Novo Testamento. Os Evangelhos não são e
nem pretendem ser uma biografia sobre Jesus. Seu objetivo é proclamar e reforçar a
fé em Jesus como o Cristo ou Messias, Filho de Deus, Senhor e Salvador da
humanidade. Não fazem uma narrativa completa, nem mesmo um sumário sobre a
vida de Jesus. Marcos e João apresentam o Jesus adulto, há no início do seu
ministério, que durou apenas alguns poucos anos. Mateus e Lucas introduzem o
ministério público com as narrativas da infância de Jesus, cuja historicidade é muito
discutida. Fica claro, portanto, que a partir dos evangelhos, é impossível escrever
uma biografia, no sentido moderno, desse homem que viveu cerca de trinta anos e
de quem conhecemos apenas alguns acontecimentos de três ou quatro anos do final
de sua vida.
Além disso, os evangelistas não tiveram a preocupação com uma verdadeira
seqüência histórica dos acontecimentos da vida de Jesus. Servindo-se de tradições
orais ou escritas, reunidas por formas e temas comuns ou palavras-chave, cada
evangelista fez sua compilação própria, elaborou seu escrito com uma estrutura
própria, que refletisse sua própria visão teológica. Podemos estar razoavelmente
seguros de que o ministério de Jesus, segundo os Evangelhos Sinóticos, começou
com seu batismo por João no rio Jordão e terminou com a ida, única, final e fatal, a
Jerusalém para a comemoração da Páscoa judaica. A duração exata desse período
e a exata ordem dos eventos de seu ministério não são conhecidas. Mas, de modo
diverso, o Evangelho de João concentra a atividade de Jesus na Judéia e em
Jerusalém, para onde teria ido pelo menos quatro vezes em sua vida adulta. Como
nenhum dos evangelistas se preocupou em dar uma seqüência cronológica
ordenada à vida de Jesus, é impossível que nós hoje a construamos.
Como se pode constatar através de material tão importante para a vida cristã,
como as palavras da instituição da Eucaristia (Mc 14,22-25; Mt 26,26-29; Lc 22,1920; 1Cor 11,23-26), a oração do Pai Nosso (Mt 6,9-13; Lc 11,2-4) e as BemAventuranças (Mt 5,3-12; Lc 6,20b-23), as comunidades primitivas não se
preocuparam com a exatidão das palavras de Jesus, que são diferentes entre as
diversas fontes. Estavam atentas apenas à substância do que ele disse. Se isso vale
para palavras tão centrais de sua vida (última ceia, oração do Pai-Nosso e do
sermão das bem-aventuranças), tanto mais vale para o conjunto de suas palavras.
Os próprios evangelistas, que escreveram décadas depois da morte do Mestre, não
nos dão detalhes. Detêm-se na forma mais original possível e disponível das
palavras e fatos de Jesus.
Há ainda a questão das fontes, bastante controversa entre os especialistas. A
maioria deles está de acordo no seguinte:
16
a) Há a fonte dos Ditos (abreviada como Q, do alemão Quelle =fonte), dos anos
40-50 dC, que contém palavras de Jesus: palavras de sabedorias, palavras
proféticas e apocalípticas, palavras sobre a Lei, regras comunitárias e
parábolas.
b) O Evangelho de Marcos, escrito pelo ano 70 dC, é uma coleção de materiais
tradicionais, orais e escritos.
c) Os Evangelhos de Mateus e Lucas, escritos entre os anos 80-90 dC,
serviram-se, de Marcos, da fonte Q e, além disso, de fontes pessoais,
chamadas fontes M e L respectivamente.
d) O Evangelho de João, escrito entre os anos 90-100 dC, parece ter se servido
dos Sinóticos, contudo, é mais provável, pelas muitas e grandes diferenças
que tem em relação a eles (p. exemplo, o prólogo introdutório, as várias
viagens a Jerusalém, a cronologia das festas judaicas, os grande complexos
narrativos), que tenha se servido de uma fonte própria.
Sobre o acesso ao Jesus da história, a partir dos Evangelhos, podemos
concluir dizendo que esses escritos não são obra de história, no sentido moderno da
palavra. Não fazem uma biografia sobre Jesus, não oferecem uma seqüência
cronológica exata dos acontecimentos, não reportam com precisão os fatos, nem
trazem as palavras exatas de Jesus, e, também, não se servem de uma única fonte.
Tudo o que os evangelistas escrevem sobre Jesus passa pelo filtro da sua fé
pessoal, do conhecimento que recebem sobre ditos e fatos de Jesus, do interesse
em proclamar e reforçar a fé da comunidade a que servem, da interpretação
teológica que elabora, da distância de algumas décadas em que vivem. Através
desse filtro, pode-se, contudo, chegar a um núcleo histórico que forma a base
concreta da vida do Jesus se Nazaré que hoje conhecemos.
Além dos Evangelhos, Paulo também fala sobre o Jesus histórico. As carta
paulinas, escritas entre os anos 45-65 dC, trazem referências a Jesus, que eram,
provavelmente, comuns no âmbito das primeiras comunidades cristãs e das quais
Paulo se serviu livremente em suas exortações apostólicas. Por exemplo, para
resolver alguma questão polêmica junto aos coríntios, o apóstolo Paulo cita, de
modo bastante livre, palavras e fatos de Jesus: o divórcio (1Cor 7,10-11); o sustento
do apóstolo (1Cor 9,14); as ações e palavras da última ceia (1Cor 11,23-26); a morte
e o sepultamento de Jesus (1Cor 15,3). Os outros escritos do Novo Testamento têm
pouco a dizer sobre o Jesus histórico.
2.3 O núcleo histórico de Jesus de Nazaré
Na busca do Jesus histórico a partir dos evangelhos e dos outros escritos do
Novo Testamento, os exegetas já não contam com a possibilidade de refazer a
história completa e exata de Jesus. Contentam-se com um núcleo histórico, uma
plataforma histórica mínima sobre a qual devem ser interpretadas todas as
referências evangélicas sobre Jesus. Para tanto, fundamentam-se em cinco critérios:
a) Critério de constrangimento, que aponta o material dos evangelhos que
dificilmente teria sido inventado pela Igreja primitiva, pois poderia criar
constrangimentos ou dificuldades teológicas para a própria Igreja durante o
período do Novo Testamento. Por esse critério, definem-se como certamente
históricos as palavras e os fatos que, apesar de causarem constrangimentos
aos primeiros cristãos, foram transmitidos por fidelidade à história. Por
exemplo, como explicar o batismo de Jesus, considerado Senhor e Salvador,
17
b)
c)
d)
e)
por João Batista? Como explicar que mulheres sozinhas acompanhassem o
celibatário Jesus e seus discípulos homens?
Critério da descontinuidade: enfoca palavras ou fatos de Jesus que não
podem ser originários nem do judaísmo do seu tempo, nem da Igreja
primitiva. Por esse critério, definem-se como históricos as palavras e os fatos
que encontram sua explicação somente em Jesus de Nazaré. Por exemplo: a
rejeição do jejum voluntário; o recurso a Êxodo 3,6 (“eu sou o Deus de
Abraão, Isaac e Jacó”) para explicar a ressurreição dos mortos.
Critério da múltipla confirmação: focaliza as falas e ações de Jesus atestadas
em mais de uma fonte literária independente (por exemplo: Marcos, Paulo,
João, a fonte Q, as tradições especiais de Mateus e de Lucas). Por esse
critério, têm-se como históricos as palavras e os fatos que, apesar da
diferença de linguagem e de contexto, aparecem em todos os escritos. Por
exemplo, a proibição do divórcio está atestada em Marcos, na fonte Q e em
Paulo, a cura de cegos é atestada na fonte Q, em Marcos e em João; a
existência de um discípulo chamado Simão – Pedro – Kefas é atestada em
todas as fontes.
Critério da coerência: dependente das anteriores e aponta para palavras e
ações de Jesus que são coerentes com o contexto global da realidade, com o
autoconceito e a pregação de Jesus. Por esse critério, têm-se como históricos
as palavras e os fatos que se encaixam no jeito de Jesus pregar e agir, e de
organizar o seu ministério. Por exemplo, a criação de um grupo de doze
discípulos é coerente com o autoconceito de Jesus como profeta
escatológico, enviado para reunir todo o povo de Israel.
Critério da rejeição e da execução de Jesus: volta-se para o padrão mais
amplo de seu ministério perguntando-se e explicando que palavras e efeitos
se enquadram em seu julgamento e crucificação. Por esse critério, têm-se
como históricos as palavras e os fatos que explicam as motivações que os
chefes dos judeus tiveram para assassinar Jesus. Por exemplo, a habilidade
em atrair multidões entusiastas, sobretudo quando em peregrinação até
Jerusalém para as grandes frestas, ajuda a explicar porque Caifás e Pilatos
teriam passado a considerá-lo perigoso. Um Jesus cujas palavras e ações
não ameaçassem ou perturbassem os poderosos não poderia ser o Jesus
histórico.
Com base no conjunto desses critérios, a pesquisa histórico-exegética elenca os
seguintes elementos como dotados de segura base histórica:
- a existência de Jesus, na Palestina, nos primeiros anos de nossa era;
- o batismo de Jesus, por João Batista, no rio Jordão;
- a relação especial com Deus-Pai, invocando com a palavra Abbá;
- o êxito inicial como pregador, seguido do enfrentamento de duros conflitos;
- as tentações;
- o anúncio da chegada do Reino de Deus;
- a centralidade do Reino; ele viveu toda a sua vida a serviço do Reino;
- os sinais da presença do Reino: curas, parábolas, banquetes...;
- a realização de curas;
- a utilização de parábolas em sua pregação;
- o relacionamento peculiar com os pobres, os pecadores e os marginalizados
em geral;
- a escolha e o envio de um grupo de seguidores;
18
- a atribuição do poder de perdoar pecados, de modificar a Lei de Moisés, de
violar prescrições sobre o sábado e de anunciar a vontade de Deus, com base
em sua própria autoridade;
- a experiência de uma profunda crise, mais ou menos na metade, ou perto do
final de sua vida de pregador;
- a consciência de uma missão única;
- a viagem para Jerusalém: entrada solene na cidade onde ceou com seus
discípulos;
- a prisão e a crucifixão;
- o motivo político da morte: cartaz colocado na cruz.
Concluímos essa seção considerando que há um acordo de fundo entre os
escritos do Novo Testamento, naquilo que é essencial sobre a vida de Jesus de
Nazaré. Esse acordo de fundo sobre a historicidade de seus fatos e palavras é mais
do que suficiente para fundamentar a fé em sua pessoa e práxis. A fé cristã não
paira no ar, não é uma ilusão, não é fruto de especulações filosóficas, não é produto
de desejos humanos. A fé cristã não é uma simples gnose, um conhecimento de
realidades sobrenaturais. O cristianismo baseia-se na história de Jesus de Nazaré,
que os cristãos reconhecem como a manifestação de Deus na história humana.
Em Jesus de Nazaré, em sua pessoa e práxis, em suas palavras e opções,
em suas tentações e crises, em seus conflitos e no seu martírio, nessa história tão
profunda e simplesmente humana, os cristãos vêem o ser e o agir de Deus. No mais
humano de Jesus, esconde-se o mais divino. Perceber isso e crer nisso, eis o que
diferencia os cristãos no conhecimento e no seguimento do homem de Nazaré.
Muitas outras pessoas também vieram ao conhecimento dele, a começar com
Herodes, os fariseus, os doutores da Lei, os sacerdotes de Jerusalém, Caifás,
Pilatos, e tantos outros. O passo do conhecimento para o seguimento se dá na fé.
Isso é graça e dom de Deus, que no seu Espírito Santo, faz reconhecer: Jesus é o
Senhor (1Cor 12,3; Rom 10,9).
O recurso ao Jesus histórico é importante como ponto de partida da
cristologia e da práxis cristã. Sem base histórica em Jesus de Nazaré, toda prática
espiritual ou moral, toda reflexão teológica e toda ação evangelizadora, que
pretendam-se cristãs, caem no abstrato do idealismo, da ilusão, do espiritualismo.
Sem história, não há fé cristã.
Desde seu enraizamento na história do povo de Israel e seu entroncamento
na história de Jesus de Nazaré, o cristianismo é uma religião caracteristicamente
histórica. Por ser histórica é também profética, ética, crítica, no sentido de
transformação da realidade social, política, econômica em que se encontram seus
fiéis. Por ser histórica, é também missionária, militante, expansiva, no sentido de
levar adiante a experiência da graça feita por seus fiéis. Por ser histórica é também
conflitiva, marcada por tensões, opções, tendências, que exigem discernimento e
coragem.
É precisamente por essas características – profética, ética, missão, militância
e conflitividade – justificadas em sua dimensão de historicidade, fundada em Israel e
em Jesus, que o cristianismo, juntamente com as outras duas religiões monoteístas
– o judaísmo e o islamismo – se diferencia das grandes religiões orientais, em cujos
livros sagrados a historicidade não aparece como fator fundante e constitutivo
dessas religiões. É na história que o cristianismo promove a junção entre o espiritual
e o material, a contemplação e a ação.
19
3 ELEMENTOS CENTRAIS DO NÚCLEO HISTÓRICO DE JESUS
O núcleo histórico de Jesus de Nazaré pode ser concentrado em alguns
elementos centrais: Deus Pai, que era a referência absoluta, pela qual Jesus de
Nazaré pautava todas as suas preocupações; o Reino de Deus, que Jesus anunciou
e iniciou através de sua mensagem e de sua práxis messiânica; a práxis profética de
denúncia do anti-reino; sua morte na cruz.
3.1 Deus Pai: a referência de Jesus de Nazaré
A peregrinação de Jesus de Nazaré sobre a terra teve Deus-pai como
bússola. Em muitas de suas palavras, Jesus deixou claro que veio fazer a vontade
do Pai (Jo 4,34; 5,30), anunciar o Reino de Deus-Pai (Mc 1,-15). Os Evangelhos
mostram que Jesus se encontra freqüentemente em atitude de oração (Lc 6,12), em
diálogo com o Pai, com quem procura discernir o caminho a seguir em meio às
incertezas e crises do apostolado. Deus-Pai era seu norte, sua referência
permanente, seu pólo referencial de sentido pessoal. Nossa fé em Jesus se
fundamenta na fé de Jesus. A fé que hoje temos em Jesus, como Deus feito homem
para nos salvar, se fundamenta na fé que ele mesmo tinha no Deus de Israel, o
criador do universo e senhor dos povos, Javé, a quem costumava chamar de AbbaPai.
Como bom judeu, Jesus conheceu as muitas imagens que o Antigo
Testamento elaborou sobre Deus: o Deus da terra, do êxodo e da aliança,
propagado pela tradição Javista; o Deus da transcendência, da tradição eloísta; o
Deus da lei, da tradição deuteronomista; o Deus da criação, da tradição sacerdotal;
o Deus dos pobres, dos órfãos e estrangeiros, do direito e da justiça, anunciado
pelos profetas; o Deus da intervenção gratuita e apoteótica da apocalíptica; o Deus
do cotidiano, do bem-viver, comunicado pelos sábios. Todas essas tradições do
Antigo Testamento sobre Deus são integradas por Jesus na imagem de um Deus ao
mesmo tempo próximo e transcendente, um Deus bom e exigente.
Para Jesus de Nazaré, Deus é bom. Com esse Deus, que é bom, Jesus
relaciona-se pela oração. Judeu piedoso, Jesus é um homem de oração: no louvor
(Mt 11,25) e na angústia (Mc 14,135-36); em decisões históricas (Lc 6,12-16); por
pessoas concretas (Lc 22,32; 23,24); em horas e lugares propícios (Mc 1,35; 6,46;
14,32; Lc 6,12). Critica a oração mecânica, vaidosa e hipócrita, alienante e
opressora (Mt 6,5-8; 7,21; Lc 18,11; Mc 12,38-40). Faz de Deus um pólo de
referência absoluta. Com esse Deus que é bom Jesus tem uma relação de extrema
confiança. Apresenta-o como Deus da misericórdia, do perdão, da ternura (Lc 6,36;
15,11-32). Um Deus à mercê dos seres humanos. Um Deus cujo acesso não se dá
pelo poder, mas pelo amor. O Deus de Jesus não á autoritário e opressor, como o
apresentavam o legalismo dos fariseus e o sacrificalismo dos sacerdotes. Os seus
gestos de carinho e bondade para com os pobres e doentes, para com os excluídos
da religião e da sociedade, Jesus é o proto-sacramento deste Deus compassivo e
indulgente. As multidões, que se sentiam afastadas de Deus, por não conseguirem
dar conta de todos os preceitos impostos pelos donos da religião, viam em Jesus a
visita de Deus, a aproximação de Deus (Lc 7,16).
Para Jesus de Nazaré, Deus-Pai é também exigente. A bondade e
aproximação de Deus não impediam que Jesus o experimentasse também como um
Deus transcendente, totalmente outro e, por isso, exigente. Um Deus, diante do qual
Jesus está disponível, vivendo sua humanidade concreta. Um Deus que não se
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deixa enredar e manipular pelas mediações humanas da lei e do sacrifício, como o
imaginavam os fariseus e sacerdotes. Não um Deus à mão do ser humano, mediado
pelo poder terreno da religião e da política, mas um Deus totalmente outro. Bom,
mas exigente..
A vida histórica de Jesus de Nazaré, as exigências de Deus se manifestaram
de diversos modos. A primeira exigência que Deus, transcendente e totalmente
outro, faz a Jesus é a da convergência total para com seu projeto: Jesus deve
buscar sempre a vontade de Deus, escolher sempre o bem concreto que Deus pede
dele, a cada momento. Jesus tem que deixar Deus ser Deus, não o pode manipular
a seu bel-prazer, mas deve deixar-se guiar por Deus.
Outra exigência passa pela prova de fidelidade: as tentações. Jesus precisa
vencer todo tipo de tentação: de fugir do projeto de Deus, do domínio e do poder
sobre os seres humanos, da pressa e do imediatismo na construção do Reino. Em
vez disso, deve dispor-se ao serviço e à entrega aos seres humanos, à paciência na
construção do Reino em meio a conflitos históricos. Além das tentações que os
sinóticos põem no início de seu ministério (Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13) Jesus
passa por outras tentações: Pedro promete tirá-lo do caminho da cruz (Mc 8,32), no
horto, sentiu o peso do cálice amargo (Mc 14,35-36), os sacerdotes e escribas o
tentaram a descer da cruz (Mc 15,31). Diante de cada tentação, Jesus reagiu,
permanecendo firme no caminho da fidelidade ao Pai.
Uma exigência característica que Deus-Pai faz a Jesus está na resistência às
crises do apostolado, e na solução dessas crises não pelo caminho da facilidade,
mas pelo caminho da fidelidade. Os evangelhos são concordes em mostrar que,
além de diversas crises que Jesus teve que suportar e resolver no decorrer de toda
a sua vida, uma delas exigiu dele mudança de rota em seu ministério: é a chamada
crise galilaica (Mc 8,27-33). No centro de seu ministério, Jesus propõe uma
avaliação a seus discípulos. Acompanhemos esse momento, intuindo os
sentimentos e decisões de Jesus. Ele pergunta: “quem dizem os outros que eu
sou?”; ouve como resposta: “uns dizem que..., outros que...,”, ou seja: “tanto faz..., é
mais um profeta...; pergunta então aos discípulos: “e vocês o que dizem de mim?”.
Ouve a confissão de fé de Pedro: Tu és o Messias”; pensa então que pode revelarse no seu messianismo sofredor e conflitivo: “o Filho do Homem vai sofrer...”; mas
ouve de Pedro: “nada disso, Senhor, isso não te acontecerá...”.
Essa indiferença das multidões com relação à sua pessoa, o interesse do
povo apenas pelos milagres que faz. Esse perceber-se reconhecido como apenas
mais um profeta, esse triunfalismo de Pedro que o imagina como um Messias
político e nacionalista que irá resolver os problemas do povo..., tudo isso põe Jesus
em Crise. Ele precisa tomar uma decisão. De fato, a partir desse momento ele dá
uma reviravolta em seu modo de pregar e agir. Resolve a crise, pondo-se
claramente no caminho da fidelidade ao projeto do Pai. Até aqui, ele vivia na
Galiléia, pregando às multidões, fazendo milagres, atuando junto às maiorias, sendo
bem acolhido, aplaudido. Daqui por diante, ele toma decididamente o caminho de
Jerusalém, onde vai sofrer o martírio e, nesse caminho, enfrenta com mais coragem
o conflito com os chefes religiosos, trabalha mais a formação das consciências dos
discípulos, assume a rejeição que as autoridades lhe opõem, percebe que o anúncio
e o início do Reino devem passar pelo caminho da cruz. E, nessa percepção, não
foge para a tranqüilidade de Nazaré, mas assume o projeto do Pai.
Outra exigência que Deus faz a Jesus passa pela ignorância de um tema
central de seu ministério: “Quando será a vinda do Reino?” (Mc 13,3-4). Pode-se
imaginar o impacto que Jesus sofreu quando lhe fizeram essa pergunta. Ele, que
21
vivia anunciando o Reino, que fez do Reino o centro de sua mensagem, que se
dedicou inteiramente à causa do Reino, não podia saber quando esse Reino de fato
viria: “Só o Pai sabe” (Mc 13,32). Jesus tem que respeitar os tempos e as demoras
de Deus.
Por fim, a grande exigência de Deus é a permanência na fé. Jesus teve que
aprender, entre muitos clamores e lágrimas, a ter fé em Deus, a ser o pioneiro da fé,
a pôr toda confiança em Deus (Hb 5,7-9; 12, 2).
Como vimos, de um lado o Deus de Jesus é bom e misericordioso, terno e
compassivo, tanto para Jesus, como, sobretudo, para os pequenos e pobres com
quem Jesus se relaciona. Com esse modo de ver a Deus, Jesus encontra a luz da
caminhada. Mas, de outro lado, o Deus de Jesus é exigente, mantém Jesus no
caminho da provação, da obscuridade, da crise e da cruz. Até o último instante,
Jesus se relaciona com Deus na noite escura da fé. Mesmo sentindo-se
abandonado, lança-se no amor do Pai, entrega-se a Ele.
Na luz e na noite, na clareza e na obscuridade, na confiança e no abandono,
Jesus está sempre diante de Deus e com Deus. Se hoje confessamos que Jesus é o
Deus dos homens e das mulheres de todos os tempos, é porque ele foi, em sua vida
terra, o homem de Deus. Se hoje temos fé em Jesus como nosso Senhor e salvador,
é porque ele, em sua vida terrena, teve fé em Deus. Nossa fé em Jesus, Deus feito
homem, se fundamenta na fé de Jesus, homem de Deus e para Deus.
A partir de sua relação com Deus-Pai de bondade, companheiro da
caminhada e amigo da humanidade, Jesus elabora sua práxis messiânica de
anúncio do Reino de Deus, como Reino de amor, de Justiça, de paz e de santidade.
A partir de sua relação com Deus-Pai transcendente, totalmente outro, indisponível
em seu mistério absoluto, exigente na realização de seu projeto, Jesus elabora sua
práxis profética de denúncia do anti-reino.
3.2 O Reino de Deus: mensagem e prática de Jesus
O centro da mensagem e da prática de Jesus é o Reino de Deus. Por Reino
de Deus deve-se entender o projeto de Deus para toda a humanidade, em que todos
tenham alegria, justiça e paz no Espírito Santo (Rm 14,17), sejam felizes em todas
as dimensões da existência humana. O Reino de Deus é a realização dos sonhos
divinos, transformados em sonhos humanos, em suas três grandes condições: há
uma condição mínima que se sintetiza no cuidado com a vida física, o bem estar do
corpo, a posse dos bens materiais necessários à integridade da existência. Mas isso
não é suficiente, pois a felicidade humana aponta para algo mais. Há, portanto uma
condição média, que se sintetiza no cultivo do espírito, na liberdade de locomoção e
de comunicação, nas expressões artísticas, esportivas e culturais, na promoção dos
direitos humanos, na construção da cidadania, na organização democrática, na
segurança e na paz. Mas isso ainda é pouco para o ser humano que tem dentro de
si um desejo de absoluto, um vazio que só será preenchido no encontro definitivo
com Deus. Então a condição máxima para a realização do Reino de Deus é o
encontro pessoal do ser humano com o próprio Deus, já nesta terra e um dia na
ressurreição final.
Jesus anuncia e revela o Reino de Deus que é vida para todos. “Vão dizer a
João o que estão vendo e ouvindo...” (Mt 11,24).
Naquele tempo todos esperavam o Reino. Cada um do seu modo. Para os
fariseus, o Reino só chegaria quando a observância da Lei fosse perfeita. Para os
essênios, quando o país fosse purificado. Todos esperavam a vinda de um messias
22
glorioso. Para todos, a chegada do Reino dependia do esforço que eles mesmos
deveriam fazer: da observância da lei, da purificação da terra, ou da luta. Jesus dizia
o contrário. Independentemente do esforço feito, o Reino estava chegando. “O Reino
de Deus já está no meio de vocês” (Lc 17,21). A sua chegada era pura gratuidade,
dom de Deus. O esforço a ser feito consistia em acolher este Reino e comprometerse com ele: “Mudem de vida e acreditem nesta boa notícia” (Mc 1,15). O próprio
João teve necessidade de mudar os olhos (Mt 11,2-3). Jesus o ajudou. “Vão dizer a
João que estão vendo e ouvindo: cegos vêem, coxos andam, leprosos são limpos,
surdos ouvem, mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados (Mt 11,4-5). João
devia compreender que o Reino estava chegando através do serviço que Jesus
prestava ao povo (Lc 11,20).
a) Jesus convive e acolhe os marginalizados: Jesus oferece um lugar aos
que não tem lugar na convivência humana. Acolhe os que não são acolhidos:
os imorais: prostitutas e pecadores (Mt 21,31-32; Lc 7,37-50); os hereges:
pagãos e samaritanos (Lc 7,2-10); os impuros: leprosos e possessos (Mt 8,24); os marginalizados: mulheres, crianças, doentes de todo tipo (Mt 1,32-34;
8,17; 19,13-15); os colaboradores do império: publicanos e soldados (Lc
18,19-14; 19,1-10); os pobres: o povo e os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc
6,20.24). Jesus defende a vida de todos. Mas o faz a partir dos excluídos. A
opção de Jesus é clara, o apelo também; não é possível ser amigo dele e
continuar apoiando o sistema que marginaliza tanta gente. E a quem quer
segui-lo ele mando escolher: “Ou a Deus ou ao dinheiro” (Mt 6,24).
b) Jesus acolhe e não discrimina a mulher: A mulher vivia marginalizada pelo
simples fato de ser mulher (cf. Lc 15,19-27; 12,1-5). Jesus toma posição
acolhendo e não discriminando a mulher. Ele cura a sogra de Pedro (Mc 1,2931); uma estrangeira de Tiro e Sidônia consegue mudar a cabeça de Jesus e
é atendida por ele (Mc 7,24-38); ressuscitado ele aparece para Maria
Madalena, enviando-a como mensageira da Boa Notícia da Ressurreição (Jo
16,18). Ao discípulo que quer segui-lo, ele não permite que se mantenha o
domínio do homem sobre a mulher (Mt 19,10-12).
c) Jesus combate as divisões injustas: Havia divisões legitimadas pela
religião oficial, que marginalizavam muita gente. Jesus, com palavras e gestos
bem concretos, denuncia ou ignora estas divisões.. Próximo e não próximo:
próximo é todo aquele de quem você se aproxima (Lc 10,29-37); judeu e
estrangeiro: Jesus atende ao pedido do centurião (Lc 7,6-10), e da cananéia
(Mt 15,21-28); santo e pecador: ele acolhe Zaqueu e rebate as críticas do
fariseu (Mc 2,15-17); puro e impuro: Jesus questiona, critica e até ridiculariza
a lei da pureza legal (mt 23,23-24; Mc 7,13,23); obras santas e profanas:
esmola (Mt 6,1-4), oração (Mt 6,5-8) e jejum (Mt 6,16-18) são
redimensionadas; templo sagrado e profano: Jesus coloca o sábado a serviço
do ser humano (Mc 2,27; Jo 7,23); lugar sagrado e profano: Jesus relativiza o
templo; Deus pode ser adorado em qualquer lugar (Jo 4,21-24; 2,19; Mc 13,2;
Jo 2,19); rico e pobre: denuncia o escândalo do abismo que separa rico e
pobre (Lc 16,19-31). Denunciando as divisões injustas,, Jesus convida as
pessoas a se definir diante dos novos valores do amor e da justiça. Alguns o
aceitam, outros o rejeitam. Ele é sinal de contradição (Lc 2,34). Aos que
querem segui-lo ele adverte que se preparem: irão sofrer a mesma
contradição (Mt 10,25).
d) Jesus combate os males que estragam a vida humana: Através da sua
ação e pregação, Jesus combate a fome (Mc 6,35-44), a doença (Mc 1,32-
23
34), a tristeza (Lc 7,13), a ignorância (Mc 1,22; 6,2), o abandono (Mt 9,36), a
solidão (Mt 11,28), a letra que mata (Mc 2,23-28), a discriminação (Mc 9,3840; Jo 4,9-10), as leis opressoras (Mt 23,13-15), a injustiça (Mt 5,20),, o medo
(Mc 6,50), os males da natureza (Mt 8,26), o sofrimento (Mt, 8,17), o pecado
(Mc 2,5), a morte (Mc 5,41-42), o demônio (Lc 4,13). Jesus luta para
recuperar a bênção da vida. Ele veio para que todos tenham vida ((Jo 10,10).
A quem quer segui-lo dá o poder de curar as doenças e de expulsar os maus
espíritos (Mc 3,15). O discípulo deve assumir o mesmo combate pela vida.
e) Jesus desmascara a falsidade dos grandes: Entre os males combatidos
por Jesus estão as falsas lideranças. Ele não teve medo de denunciar a
hipocrisia dos líderes religiosos da época: sacerdotes, escribas e fariseus (Mt
23,1-36). Condenou a pretensão dos ricos e não acreditava muito na sua
conversão (Lc 16-31). Ele percebe a mentalidade opressora dos líderes civis
(Lc 22,25) e religiosos (Mt 23,2-4). Aos que querem segui-lo, ele adverte:
“Entre vocês não seja assim” (Lc 22,26).
Com esta prática em favor da vida e contra tudo o que destrói, corrompe e
estraga a vida, Jesus se apresenta ao povo, anda pela Galiléia e anuncia a Boa
Notícia do Reino. Nestes gestos de solidariedade ele se revela Emanuel, Deusconosco (Mt 1,23) e se torna, ele mesmo, uma Boa Notícia para o povo. Por isso
atrai os pobres e marginalizados. É todo um movimento popular que se forma ao
redor da sua pessoa e mensagem (Mt 1,33-45).
(Expor aqui sobre a morte de Jesus, como um dos elementos centrais do
núcleo histórico de Jesus)
4 A FÉ CRISTOLÓGICA DA IGREJA
A partir da história de Jesus de Nazaré e da fé que as primeiras comunidades
cristãs nele depositaram, foi se elaborando, nos primeiros séculos, a fé cristológica
da Igreja. Na base de tudo está o mistério da Páscoa: Jesus morreu, Jesus
ressuscitou. Como entender esse mistério? Quem morreu? Um homem qualquer ou
o próprio Deus feito homem? Quem ressuscitou? Um Deus das alturas ou um
homem que é Deus? Nesse equilíbrio entre o humano e o divino, o terreno e o
celeste, o mortal e o ressuscitado, foi sendo forjada a fé cristológica da Igreja dos
primeiros séculos. Foi o primeiro processo de inculturação da fé, no encontro do
Evangelho com a cultura greco-romana. Nesse contexto, os grandes concílios
cristológicos dos primeiros séculos foram definindo que Jesus de Nazaré é
verdadeiramente Deus, que se faz verdadeiramente homem, para a nossa salvação.
A fé cristológica da Igreja passou a expressar-se em categorias conceituais e
metafísicas. A cristologia atual, sem abandonar o dogma cristológico, precisa voltar
ao querigma bíblico.
4.1 O primeiro processo de inculturação da fé
Nos séculos II a V, a fé cristológica da Igreja pode ser percebida através da
busca difícil do equilíbrio da afirmação seja da humanidade, seja da divindade de
24
Jesus Cristo. A fé cristológica se equilibra no vai-e-vem de um pêndulo que insiste
ora na humanidade ora na divindade de Jesus. Foi necessário um difícil processo de
inculturação da fé. Era necessário adaptar a nova fé à roupagem filosófica e às
exigências da cultura greco-romana no meio da qual o Evangelho se expandia.
Preservar a mensagem na mudança da roupagem, eis o desafio dos primeiros
séculos do cristianismo. Além de explicitar teologicamente o que era vivido e
celebrado na catequese, na liturgia e na espiritualidade cristãs, tratava-se ainda de
responder filosoficamente, em linguagem conceitual, a diversas questões que a
cultura greco-romana punha à fé cristã.
- Como explicar que Jesus de Nazaré é Filho de Deus?
- Como o Filho de Deus se torna homem?
- Como ficam a natureza e a vontade humanas de Jesus de Nazaré na sua união
com a pessoa divina do Verbo?
Ao responder essas perguntas, dever-se-ia preservar o monoteísmo judaico
herdado da primeira aliança e confirmado por Jesus e pelas primeiras comunidades
cristãs, e do outro lado confessar a divindade de Jesus Cristo e do Espírito Santo.
Na tentativa de resposta a essas intrigantes questões, surgiram muitas heresias, ou
seja, explicações racionais que ao optarem por uma parte da verdade, esqueciam
outras igualmente importantes.
As heresias cristológicas têm como fonte duas matrizes: o ebionismo e o
docetismo. Por influência da cultura judaica, havia que se defender o monoteísmo
javista. Como dizer que Jesus é Deus, diante da divindade única de Javé? Nesse
contexto surgiu a heresia básica do ebionismo (do hebraico ebyión: pobre) segundo
a qual Jesus é entendido como um servo de Deus, um homem justo e santo, um
pobre de Javé. Viveu de tal modo a santidade e a justiça de Deus, que em
recompensa foi adotado por Deus como Filho. Do ebionismo surge, pois, outra
heresia, o adopcionismo: Jesus é um homem santo, adotado por Deus, elevado à
condição divina: ele não é reconhecido como Deus no seu ser, apenas em sua
função salvífica, porque exaltado por Deus. Ambas as heresias – ebionismo e
adopcionismo – têm como problema radical a negação da divindade de Jesus. Sua
divindade é apenas funcional, não ontológica. Agiu como Deus, mas não era Deus.
Por outro lado, por influência do ambiente gnóstico da cultura grega, havia
que se defender a espiritualidade absoluta de Deus, concebido como ser
perfeitíssimo, imutável, impassível. Como dizer, então, que Jesus é Deus, se é
humano, material, se passou pela morte? Nesse contexto surgiu a heresia báscia do
docetismo (do grego: dokéin: parecer): Jesus é concebido como Deus, mas sua
humanidade é entendida como apenas uma aparência. Do docetismo surgiu o
modalismo que dizia que Jesus é apenas um modo de Deus revelar-se à
humanidade, um modo pelo qual o único e espiritualíssimo Deus aparece no meio
dos seres humanos; é uma máscara de Deus, portanto. Ambas as heresias negam a
humanidade de Jesus. Sua humanidade era apenas funcional, não ontológica. Agiu
como homem, mas não era homem; era uma aparência de homem.
(Expor os dogmas cristológicos dos primeiros concílios e concluir com o seguimento
de Jesus Cristo)
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Quase todo este estudo é do livro de:
- FELLER, Vitor G., Jesus de Nazaré, Homem que é Deus, Petrópolis, Vozes, 2004.
Para o estudo de cristologia pode se consultar também:
- SOBRINO, Jon, Jesus na América Latina, São Paulo, Loyola, 1985.
- _____________ Cristologia a partir da América Latina, Petrópolis, Vozes, 1983.
- BOFF, Leonardo, Jesus Cristo Libertador, Petrópolis, Vozes, 1985.
- FORTE, Bruno, Jesus de Nazaré, História de Deus, Deus da História, São Paulo,
Paulinas, 1985.
- BINGEMER, Maria Clara, Jesus Cristo: Servo de Deus e Messias Glorioso, São
Paulo, Paulinas, 2008.
- HAIGHT, Roger, O futuro da cristologia, São Paulo, Paulinas, 2008.
- RUBIO, Garcia, O encontro com Jesus Cristo vivo, São Paulo, Paulinas, 1994.
- DUPUIS, Jacques, Introdução à cristologia, São Paulo, Loyola, 1999.
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