Núcleo de Estudo e Atendimento Psicológico - NEAP CAMPUS PAULISTA Curso: Psicologia Sem. 10º- 2023 Estágio Supervisionado Específico em Psicoterapia Estagiário: Supervisora: Profa. Dr. Cesar Roberto Pinheiro Usuária: F. G. A. Sexo: Feminino Idade: 41 anos Número do Prontuário: 231 Data do Atendimento: 05/10/2023 Dia da Semana: Quinta feira Horário: 17h00 4ª SESSÃO I – Relato da Sessão: A estagiária terapeuta chegou para o atendimento faltando 5 minutos para às 17h, enquanto a paciente chegou dentro do horário combinado. Ao encontrá-la na recepção, a estagiária terapeuta perguntou se a paciente gostaria de ir ao banheiro ou beber água. A paciente recusou e ambas seguiram para a nova sala de atendimento, pois iriam fazer a sessão estendida. Uma vez acomodadas, a estagiária terapeuta perguntou se F. havia feito o registro de pensamento, F. disse que sim e mostrou o registro feito no celular para a estagiária. F. fez 2 registros de pensamentos, um sobre uma discussão com a filha e outro sobre a vinda de mãe para SP. Ao questionar qual assunto F. gostaria de abordar, ela disse que gostaria de falar sobre sua filha, pois tem notado que o relacionamento de ambas tem ficado bem difícil, pois há uma recorrência de brigas. 1/6 Núcleo de Estudo e Atendimento Psicológico - NEAP A estagiária solicitou que F. contasse como é a relação com sua filha, e o que os fatos que se desenrolaram até o momento. A filha de F. tem 23 anos, trabalha de forma autônoma com eventos e campanhas publicitárias. No momento, a filha de F. não está com muitos trabalhos, o que ocasionou na diminuição de sua renda e por esse motivo ela não está contribuindo com o pagamento das contas da casa. F. relatou que passaram por momentos difíceis durante a vida, julga que para filha as situações difíceis se iniciaram desde de sua gravidez, já que esse período foi muito difícil para ela e confidenciou que no início da gravidez ela rejeitou muito e acredita que isso possa ter contribuído com algo. Relatou que durante a infância e início da adolescência sua relação com a filha era muito boa, ressalta que sempre tiveram alguns problemas, mas considera problemas corriqueiros de convivência. F. julga que a filha é uma pessoa muito preguiçosa com os afazeres de casa, relata que sempre foi assim, desde a infância e esse comportamento a acompanha na vida adulta. Quando questionada o quanto essa situação de desorganização da filha a incomoda, F. disse que 10, pois ela é uma pessoa muito organizada e não gosta de ver sua casa de “pernas pro ar” - SIC. 2/6 Núcleo de Estudo e Atendimento Psicológico - NEAP Reconhece que durante a infância da filha contribui para o desenvolvimento de vários traumas, e ressalta que a maior parte desses traumas são advindos do relacionamento abusivo que F. sofreu com o pai de sua filha. Disse que se sente muito culpada, pois na sua visão atual, entende o ambiente hostil que a filha cresceu, ressalta inclusive que o pai era abusivo com a filha também, não fisicamente, mas psicologicamente, fazendo joguinhos mentais com a criança, controlando cada passo dado, a ofendendo e etc. Ressalta que já chorou várias noites por conta desse assunto, e considera que é um assunto muito sensível para ela, que a “toca em lugares muito profundos” SIC. A estagiária a acolheu e disse que com a maturidade e quando estamos fora da situação é muito fácil julgar, disse que chega a ser injusto F. se martirizar dessa forma, a estagiária disse para F. que ela fez o melhor que pode, com os recursos que tinha, e pediu para que toda vez que F. pensasse sobre esse assunto se lembrasse dessa fala. Nesse momento F. se emocionou, houve um tempo de pausa e deram continuidade ao atendimento. F. disse que a filha tem uma excelente relação com os avós maternos, inclusive ressalta que acha muito bonita a relação que a filha tem com sua mãe. Mas reconhece o quanto a mãe manipulou a filha, e disse que isso inclusive tem sido motivo de discussões recentes entre ela e a filha. 3/6 Núcleo de Estudo e Atendimento Psicológico - NEAP F. relata que a filha sofreu racismo por parte dos avós paternos, e que só foi descobrir essas situações que a filha viveu recentemente, e ressaltou que apesar de saber que não pode proteger a filha de tudo, se sente muito culpada e pensando se ela poderia ter feito algo sobre, ainda disse “quando nasce uma mãe, nasce uma culpa, não tem jeito” - SIC. Conta que a mudança para SP foi muito difícil para a filha, disse que a filha entrou em uma “depressão” que acarretaram várias coisas, ainda ressalta que nessa época difícil a filha teve sua primeira grande desilusão amorosa, por um rapaz que era da cidade natal em que residiam, mas que nesse período morava no RJ. O namoro era a distância e o rapaz acabou traindo a filha dela. Alguns anos depois, a filha de F. iniciou um novo relacionamento, que foi muito abusivo e desestabilizou ambas. F. relata que no começo acreditava que o ex namorado da filha era “a resposta de suas orações” - SIC, pois a filha sempre foi muito sozinha, pois tem um “gênio forte, igual o meu” - SIC. Quando questionado o que gênio forte significava para ela, respondeu que é muito sincera, o tipo de pessoa que ou amam ou odeiam. Como a filha e o rapaz faziam um curso juntos, passavam muito tempo juntos, o que fazia F. se sentir mais tranquila e feliz, pois acreditava que agora sua filha não ficaria mais sozinha. Ressalta que tratava esse rapaz como um filho, fazia tudo que estava ao seu alcance por ele, disse que tinha uma grande empatia por ele, pois ele é do interior de SP, e se compadecia com a preocupação da mãe do rapaz por ele viver longe. 4/6 Núcleo de Estudo e Atendimento Psicológico - NEAP Após um tempo de relacionamento, F. Começou a identificar vários comportamentos estranhos e perigosos, via como o ex namorado da filha a manipulava e estava “atrasando sua vida” - SIC, além de identificar uma forte dependência emocional por parte de sua filha, o ex namorado a fazia de “gato e sapato” - SIC. E a partir do momento que F. começou a querer alertar a filha, as brigas começaram, sempre por conta do ex namorado. A estagiária questionou como F. se sentiu por presenciar essa situação, F. disse que se sentiu muito triste, pois viu a filha repetindo exatamente o que ela passou, e ainda disse que sabe que provavelmente ela passou por isso por influência do que cresceu vendo. Disse que se sente muito culpada, pois acredita que se a filha tivesse bons exemplos durante sua infância, ambas não estariam passando por isso agora. A estagiária então pontua que F. havia comentado que a filha nunca havia mentido para ela, e questiona como a filha costuma abordar assuntos que são difíceis para ela. F. conta que a filha costuma levar um tempo para processar o que aconteceu e depois conta para ela casualmente. Nesse momento a estagiária faz uma observação, de que provavelmente a filha contará quando se sentir confortável. E que confrontá-la nesse momento pode gerar um problema muito grande de confiança no relacionamento delas e problemas para a amiga que contou para ela. 5/6 Núcleo de Estudo e Atendimento Psicológico - NEAP Para a próxima sessão, combinaram que F. faria o registro de pensamentos automáticos e também observaria como se sentiria em relação a filha e ao assunto abordado em sessão. A sessão se encerrou às 18h20. II – Análise Funcional e Conceituação Cognitiva Análise Funcional Antecedente/ Comportamento Situação Filha ter viajado com Ficar retraída e o ex namorado. calada Reforço / Consequência Estranheza na filha Punição R + Reforçamento Positivo Conceituação Cognitiva Estímulos Pensamentos Comportamentos Automáticos Relacionamento da filha com o Afetos/ sentimento Sou uma mãe Ficar retraída, Raiva de si ruim reflexiva e calada mesma ex namorado Crenças Subjacentes Fisiológico N/A Crença Central 6/6 Núcleo de Estudo e Atendimento Psicológico - NEAP Sou uma mãe ruim, pois se minha filha não tivesse crescido em um lar disfuncional não estaria passando por Desvalor/Desamor isso III - Fundamentação teórica Crescer em um ambiente disfuncional pode exercer um impacto significativo no relacionamento entre mãe e filha. Segundo Aaron Beck e Albert Ellis, nossas crenças, pensamentos e comportamentos são moldados por nossas experiências de vida, especialmente as ocorridas durante a infância e a adolescência (Beck, 1963; Ellis, 1962). Quando uma criança é criada em um ambiente disfuncional como a filha de F. foi criada, caracterizado por conflitos frequentes, negligência emocional, abuso físico ou verbal, ou instabilidade emocional, ela pode desenvolver uma série de padrões de pensamento e comportamento que afetarão seus relacionamentos, incluindo o vínculo com a mãe (Beck, 1989). Ela pode internalizar as disfunções como normais, levando a uma aceitação de padrões de comportamento prejudiciais, tal qual viver um relacionamento abusivo muito similar ao que sua mãe viveu. Esses padrões de pensamento e comportamento, enraizados na infância, podem persistir na vida adulta, influenciando diretamente a dinâmica entre mãe e filha. Ao fornecer a F. e sua filha as ferramentas para reexaminar e redefinir suas crenças e comportamentos, a terapia promove uma oportunidade de transformação e crescimento. Dessa forma, é possível vislumbrar um futuro onde o relacionamento entre mãe e filha se baseia em respeito, compreensão e apoio mútuo, rompendo com os ciclos de disfuncionalidade do passado. 7/6 Núcleo de Estudo e Atendimento Psicológico - NEAP IV- Orientações após a supervisão V- Referência Bibliográfica BECK, A. T. Pensamento e depressão: I. Conteúdo idiossincrático e distorções cognitivas. Arquivos de Psiquiatria Geral, v. 9, n. 4, p. 324-333, 1963. BECK, A. T. Terapia cognitiva: Passado, presente e futuro. Revista de Psicologia Clínica, v. 57, n. 2, p. 215-220, 1989. ELLIS, A. Razão e emoção na psicoterapia. Nova York: Lyle Stuart, 1962. _______________________________ Aline Oliveira Domingos da Silva RGM 20977565 ___________________________________ Supervisor Prof. Dr. Cesar Roberto Pinheiro CRP 06/74510 8/6