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100 anos
de Armistício
Grande
Guerra ENSAIOS
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Grande Guerra • Ensaios
ÍNDICE
Guerra sonhada e guerra vivida:
as contradições do intervencionismo
português
Filipe Ribeiro de Meneses, National University of Ireland, Maynooth
LER ARTIGO
Portugal e a Grande Guerra,
a questão militar
Aniceto Afonso, historiador
LER ARTIGO
Heróis do mar: a nação, o império
e a participação de Portugal na I Guerra
José Manuel Sobral, antropólogo e historiador
(Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa)
LER ARTIGO
2
Grande Guerra • Ensaios
A correspondência do
desassossego e da saudade
Isabel Pestana Marques
LER ARTIGO
A guerra e o sagrado
António Araújo
LER ARTIGO
Pela primeira vez todos
fotografaram a guerra
Filipa Lowndes Vicente, historiadora, Instituto de Ciências
Sociais da Universidade de Lisboa
LER ARTIGO
As mulheres foram activistas
na guerra, depois voltaram ao lar
Anne Cova, investigadora no ICS-ULisboa
LER ARTIGO
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Grande Guerra • Ensaios
Celebrar a vitória em dia de derrota
– afinal, a quem pertencem as políticas
da memória da I Guerra Mundial?
Sílvia Correia, professora do Instituto de História da Universidade
Federal Rio de Janeiro / Investigadora do IHC – UNL
LER ARTIGO
Portugal na Grande Guerra: memória
do passado desafios do futuro
Nuno Severiano Teixeira, professor Catedrático da Universidade
Nova de Lisboa; Visiting Professor na Georgetown University
LER ARTIGO
Lições económicas da Primeira Guerra Mundial
Pedro Lains, investigador coordenador do Instituto
de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
LER ARTIGO
A Primeira Guerra Mundial e a Queda
da República. Uma relação Complexa
António Costa Pinto, investigador no ICS-ULisboa
LER ARTIGO
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Grande Guerra • Ensaios
Guerra e revolução na Rússia de 1917
Fernando Rosas
LER ARTIGO
Os choques da civilização:
testemunhos, horrores e silêncios
Miguel Bandeira Jerónimo, investigador na ICS-UL
LER ARTIGO
Soldados portugueses na Flandres, 1917 AGENCE ROL / BIBLIOTHÉQUE NATIONALE DE FRANCE
5
Grande Guerra • Ensaios
Guerra sonhada e guerra
vivida: as contradições do
intervencionismo português
Embora Portugal seja contado entre as nações vitoriosas da
Primeira Guerra Mundial, a verdade é que o intervencionismo
português saiu claramente derrotado da contenda.
Ensaio de: Filipe Ribeiro de Meneses, National University of Ireland, Maynooth
Tropas portuguesas a caminho da Frente Ocidental
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Grande Guerra • Ensaios
V
ale a pena, por isso, determo-nos um pouco sobre essa
mesma corrente, os seus princípios e os seus objectivos, para
melhor entendermos as causas dos insucessos portugueses
e as suas consequências. Vale a pena também lembrar que o
intervencionismo português não foi um fenómeno isolado: em vários
outros países europeus – Itália, Grécia, Roménia – a intervenção na
guerra foi vista como o cortar do nó górdio, que permitiria resolver várias
questões domésticas e internacionais.
A frente interna
Parte importante do projecto intervencionista prendia-se ao fortalecimento
e afirmação definitiva do regime republicano. Queriam acreditar os
intervencionistas – políticos, militares, intelectuais, artistas – que o
esforço comum de uma guerra travada em nome de ideais democráticos e
mesmo humanitários (a guerra contra o militarismo) conduziria a um novo
entendimento entre todos, ou quase todos, os portugueses. Um sacrifício
comum, recompensado por uma Europa grata e reconhecida ao jovem
regime, que fizera renascer o Portugal nobre e altivo do passado: eis o
passaporte para a aceitação da República por todos os portugueses.
A ideia de que a participação portuguesa no conflito traria a pacificação
da família portuguesa, ou pelo menos da família republicana, não
sobreviveu aos primeiros meses da guerra. A União Sagrada, longe de
representar uma verdadeira fusão de todas as forças políticas do país,
saldou-se por uma coligação entre os democráticos de Afonso Costa
e os evolucionistas de António José de Almeida. Nem unionistas, nem
católicos, nem socialistas, nem, claro está, monárquicos, entraram
no Governo. Tendo em conta a rivalidade entre democráticos e
evolucionistas, o passo dado foi considerável. Foi, porém, insuficiente,
tendo em conta os efeitos políticos, económicos e sociais da guerra. A
máquina administrativa, cuja função principal era obter os resultados
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Grande Guerra • Ensaios
eleitorais que mais
convinham a Lisboa, viu-se
completamente ultrapassada
pelas necessidades da
mobilização militar e
económica.
A igualdade de sacrifício
entre todos os portugueses
(obrigatoriedade de serviço
militar, igual acesso a bens
de primeira necessidade)
não passou de uma
miragem. Lentamente
agravou-se a falta de
mantimentos e de carvão
mas os navios alemães,
apresados, segundo Afonso
Costa, para acudir à
economia nacional, foram
Desfile do CEP antes do embarque para França na Praça
postos à disposição da Grãdo Comércio, em Lisboa JOSHUA BENOLIEL/ARQUIVO
Bretanha. Questões como a
MUNICIPAL DE LISBOA
amnistia por crimes políticos
e sociais, a introdução da pena de morte no código militar e o papel
do Conselho Económico Nacional, no qual se reuniriam o Governo e
as ‘forças vivas’ do país, vieram envenenar o relacionamento entre os
grupos parlamentares dos dois partidos governamentais. Mas os golpes
decisivos contra a União Sagrada seriam desferidos pelos inimigos
da classe política republicana, alguns bem conhecidos, outros que
emergiram das sombras graças à guerra.
Não era segredo para ninguém que grande parte do Exército era contra o
envio de tropas portuguesas para a Frente Ocidental. O sentimento de revolta
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Grande Guerra • Ensaios
que se foi apoderando de muitos oficiais ao longo de 1916 foi explorado pelo
‘herói da Rotunda’, Machado Santos, que tinha velhas contas a ajustar com
os partidos políticos. Eram os partidos, segundo este oficial da Armada, os
responsáveis pelo caos político no qual o regime que ajudara a fundar se
encontrava mergulhado.
Machado Santos fora preso após a
A ideia de que
revolta de 14 de Maio de 1915, e desde
a participação
a sua libertação conspirara contra a
portuguesa no
União Sagrada a tempo inteiro. A 13 de
Dezembro de 1916 passou ao ataque,
conflito traria a
mas muitos dos que lhe garantiram o seu
pacificação da
apoio acabaram por nada fazer, sendo a
família portuguesa,
revolta facilmente dominada pelas forças
ou pelo menos da
leais ao Governo. Mas ficou o aviso e
assim largas dezenas de oficiais foram
família republicana,
presos. Os efeitos militares e políticos
não sobreviveu aos
não se fizeram esperar. No mês seguinte,
primeiros meses
oficiais de várias unidades recusaramda guerra
se a partir à frente dos seus homens
para Lisboa, onde embarcariam rumo
a França. Para espanto de muitos observadores, sobretudo nos exércitos
aliados, estes oficiais cumpriram o seu castigo a bordo dos navios que os
levaram até Brest, sendo depois devolvidos às suas unidades. As medidas
tomadas para punir os responsáveis do 13 de Dezembro, mais severas,
dividiram o partido evolucionista, tendo alguns deputados abandonado
António José de Almeida para reconstituir o velho ‘bloco parlamentar’
com os unionistas de Brito Camacho.
Em Abril de 1917 caiu o Governo de António José de Almeida, no
Parlamento, após um episódio ainda envolto em mistério, um voto de
confiança que nunca devia ter ocorrido. Seguiu-se-lhe o terceiro (e último)
Governo de Afonso Costa, ainda sob a égide da União Sagrada, mas agora
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Grande Guerra • Ensaios
“O “Moçambique” atracado à frente do Arsenal da Marinha, para receber tropas que vão para Moçambique,
assistido pelo rebocador “Tejo” MUSEU DA MARINHA
composto apenas de ministros democráticos. Tal executivo não conseguiu
mobilizar o patriotismo de todos os portugueses num momento de
emergência nacional – emergência essa que não teimava em não passar:
em Maio, motins populares em Lisboa com suspensão de garantias
constitucionais; em Julho, greve da construção civil com nova suspensão
de garantias (e com o parlamento reunido em sessão secreta); em Agosto,
greve na Companhia das Águas de Lisboa; em Setembro, greve dos
trabalhadores dos correios (um bastião republicano), à qual o Governo
responde com a mobilização militar da corporação, sendo a greve por
isso mesmo equacionada a deserção. A resposta foi imediata: greve geral
decretada pela União Operária Nacional. Por todo o país, distúrbios e
revoltas ocasionados pela falta de alimentos. Acossado por todos os lados,
Afonso Costa começou a ser contestado pelo seu próprio partido. Julgou o
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Grande Guerra • Ensaios
líder democrático ter resolvido os problemas económicos mais prementes
do país em Paris, em finais de Novembro/início de Dezembro, durante
uma conferência aliada; mas o seu regresso a Lisboa foi interrompido pelo
golpe de Sidónio Pais, apoiado por tropas prestes a partir para França.
A guerra em África
Uma segunda dimensão do intervencionismo português prendeu-se com
a defesa do império colonial, cuja partilha entre pela Alemanha e a GrãBretanha tinha sido discutida já durante o regime republicano. A defesa
activa das colónias portuguesas e a participação na conquista das colónias
alemãs era vistas como expedientes para calar definitivamente as críticas
que choviam sobre a administração colonial portuguesa, tida como brutal
e ineficiente.
É nas campanhas de África que a falta de discernimento do
intervencionismo português mais se faz notar: derrota após derrota,
desastre após desastre, até ao descrédito total entre os aliados. O Exército
parece não ter reflectido sobre as razões da derrota de Naulila, no
sul de Angola, em finais de 1914, muito antes da declaração de guerra
alemã. E enquanto outras potências coloniais mobilizavam o império
para melhor combater na Europa, Portugal viu-se forçado a mobilizar a
metrópole para defender as colónias, não só dos alemães como ainda das
populações locais, que viram na guerra a conjuntura ideal para se subtrair
à soberania portuguesa, nalguns casos bem recente.
Assim sendo, expedições foram enviadas umas após as outras para
Moçambique, sem se obter qualquer resultado decisivo no combate aos
alemães. A derrota de Nevala, em 1916, após um curto cerco à posição
ocupada pelos portugueses, pôs cobro à única invasão de território
alemão por forças portuguesas. Seguiu-se-lhe um longo período em
que o Exército assumiu uma posição defensiva ao longo do rio Rovuma,
esforçando-se, porém, por restaurar a ordem no resto de Moçambique,
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Grande Guerra • Ensaios
Desfile do CEP antes do embarque para França na Rua do Arsenal, em Lisboa JOSHUA BENOLIEL/ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
ameaçado por seríssimas revoltas indígenas – começando pela do Barué –
e por reconhecimentos em força alemães.
O desgaste de homens e oficiais foi tremendo e a escala das
baixas difícil de compreender numa força habituada a combater em
Moçambique. A esmagadora maioria das mortes sofridas pelo Exército
durante a Grande Guerra é-o em Moçambique, revelando-se a doença um
inimigo muito mais mortífero do que o alemão.
Em Novembro de 1917, ainda sob a vigência da União Sagrada, novo
desaire, mais perigoso do que Nevala: os restos do exército alemão,
comandados por von Lettow-Vorbeck e acossados por todos os lados,
atravessam o Rovuma e caem sobre a posição portuguesa de Negomano,
que capturam sem grande esforço, encontrando as armas e munições e os
mantimentos de que necessitam desesperadamente.
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Grande Guerra • Ensaios
Moçambique proporcionará a von Lettow-Vorbeck um novo campo de
batalha, onde ficará até Setembro do ano seguinte, vivendo à custa da
população local e das guarnições portuguesas. A frustração das forças
aliadas na colónia portuguesa é intensa. Adensam-se as nuvens contra
o domínio colonial português em face desta fraca prestação militar e da
ideia generalizada de que toda a campanha de 1918 teria sido evitada se os
portugueses tivessem defendido com sucesso a linha do Rovuma.
O CEP
A defesa do solo francês pelo exército português fez sempre parte
do projecto intervencionista, estreitando os laços entre as duas
repúblicas. Portugal rejeitou sempre sugestões de que o seu exército
fosse enviado para a frente de Salónica, ou para o Médio Oriente: só
a Frente Ocidental interessava, vincando a natureza ideológica da
participação portuguesa na Grande Guerra.
O Corpo Expedicionário Português (CEP) nasce da Divisão de Instrução
pensada por Norton de Matos após a
revolta de 14 de Maio de 1915, que abriu
É nas campanhas
as portas ao poder aos democráticos.
de África que a falta
Comandada pelo General Tamagnini
d’Abreu, tinha por missão permitir ao
de discernimento do
Governo dispor de uma força que lhe
intervencionismo
permitisse intervir no conflito europeu.
português mais se faz Embora há muito projectada, só depois da
notar: derrota após
declaração de guerra alemã começaram
os trabalhos de campo da Divisão, que se
derrota, desastre
prolongaram até ao Verão de 1916.
após desastre, até
A transformação da Divisão de
ao descrédito total
Instrução num Corpo Expedicionário
entre os aliados
acabou por ser aceite por Londres
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Grande Guerra • Ensaios
Desfile do CEP antes do embarque para França na Rua do Arsenal, em Lisboa JOSHUA BENOLIEL/ARQUIVO
MUNICIPAL DE LISBOA
(falaram mais alto as perdas sofridas pelos aliados em Verdun e no
Somme do que as dúvidas sobre o real valor da unidade) após um longo
compasso de espera. De divisão reforçada, o CEP passou a corpo de
exército, tendo Norton de Matos sonhado a certa altura no envio de uma
segundo corpo de exército.
Os intervencionistas portugueses, obcecados com a ideia de um sector
português na Frente Ocidental, que acabaram por conquistar, nunca se
interrogaram quer sobre a razão de ser de tal sector, quer sobre o contributo
que Portugal poderia dar na Frente Ocidental, e o seu preço. Verdun e o
Somme tinham demonstrado – se tal demonstração fosse ainda necessária
– que no espaço de um só dia grandes unidades podiam ser aniquiladas.
Porquê então enviar o CEP, que, pelo seu tamanho, pouco poderia
contribuir para a vitória aliada, mas que estaria sujeito a todos os perigos?
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Grande Guerra • Ensaios
A vida do CEP é assim a história de um sacrifício feito por oficiais e
soldados por razões de cariz político, oficiais e soldados esses que se
sentiram desprezados e abandonados à sua sorte. Ainda antes do golpe
sidonista o Governo sentia as maiores dificuldades em preencher os
quadros do CEP e garantir seu abastecimento; a partir do golpe, a situação
agravou-se, mercê do não regresso a França de oficiais em licença em
Portugal e do fim do envio de reforços. A batalha do Lys, a 9 de Abril de
1918, é travada por um exército desfalcado, desnorteado e votado pelo
comando britânico à saída das trincheiras nesse mesmo dia, de forma a
repor alguma ordem nas suas fileiras.
Conclusão: intervencionismo derrotado
Embora Portugal seja contado entre as nações vitoriosas da Primeira
Guerra Mundial, a verdade é que o intervencionismo português
saiu claramente derrotado da contenda. Em Março de 1919 Afonso
Costa substituiu Egas Moniz na presidência da delegação portuguesa
à Conferência de Paz. Julgou Costa que as suas credenciais
intervencionistas lhe permitiriam uma defesa mais eficaz do interesse
nacional do que a esboçada por alguém nomeado por Sidónio Pais. Nada
indica, porém, que assim tenha sido.
Portugal manteve as colónias (nenhum país aliado ou neutro perdeu
as suas) mas não recebeu um único mandato da Sociedade das Nações (a
Bélgica recebeu o Ruanda e o Burundi); as despesas militares não foram
incluídas nas reparações a pagar pela Alemanha, como Costa desejava –
o que significava que Portugal teria de saldar a sua dívida de guerra para
com a Grã-Bretanha, que tinha possibilitado financeiramente o esforço
de guerra português; e foi a Espanha (e não Portugal) convidada para
integrar o primeiro Conselho Executivo da Sociedade das Nações.
O que a delegação portuguesa realmente pensou do Tratado consta
das actas das suas reuniões, recentemente publicadas (Estratégia
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Grande Guerra • Ensaios
Portuguesa na Conferência de Paz 1918-1919: As actas da Delegação
Portuguesa) por Duarte Ivo Cruz. Um membro da delegação, Jaime
Batalha Reis, não se conteve: “Desde Alcácer-Quibir, esta nossa nova
vitória foi o nosso maior desastre”.
Afonso Costa passou ao lado do “momento Wilsoniano”, identificado
pelo historiador Erez Manela. Pouco se interessou pela criação de uma
nova ordem diplomática assente na Sociedade das Nações. O seu desejo era
punir a Alemanha de forma a compensar Portugal pelos sacrifícios feitos,
reabilitando a política intervencionista à custa da economia alemã. Mas
não o conseguiu e a sua autoproclamada vitória moral não convenceu o
país. Tentaria ainda justificar a beligerância portuguesa em Abril de 1921,
aquando das cerimónias, em Lisboa e na Batalha, relativas ao sepultar dos
dois Soldados Desconhecidos, mais uma vez sem grande sucesso.
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Grande Guerra • Ensaios
Portugal e a Grande Guerra,
a questão militar
No interior da força armada, a maioria dos oficiais
opunha-se à guerra, principalmente ao envio de tropas
para o teatro europeu.
Ensaio de: Aniceto Afonso, historiador
Desfile numa localidade em França depois da vitória ARNALDO GARCEZ/LIGA DOS COMBATENTES
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Grande Guerra • Ensaios
O
regime republicano precisava de transformar o Exército, porque
disso dependia a sua própria sobrevivência. Por isso, os seus
responsáveis iniciaram desde muito cedo uma extensa mudança da
estrutura militar herdada da Monarquia.
Logo a 2 de Março de 1911, o Governo Provisório publicou um decreto
determinando profundas alterações no sistema de recrutamento
militar, que passava a assentar em cinco princípios: impossibilidade de
remissão a dinheiro do serviço militar obrigatório; substancial redução
do tempo de serviço militar obrigatório; alteração dos conceitos de
reserva; estabelecimento de períodos de preparação militar anteriores e
posteriores ao tempo de serviço militar obrigatório; e desaparecimento
da noção de exército profissional para dar lugar à de exército miliciano.
A transformação continuou, em lei de 25 de Maio de 1911, com
a reorganização do Exército baseada na ideia de que “os exércitos
permanentes fizeram o seu tempo, são instituições liquidadas”. Seguiu-se
a definição de um sistema de instrução e treino das tropas, com a criação
da Instrução Militar Preparatória, por decreto de 26 de Maio de 1911.
O dispositivo do Exército, constituído por unidades espalhadas por
todo o território, continuava com um núcleo profissional que perdia
importância, mas devia servir de base à Nação em armas, constituída por
tropas de reserva, com um adequado sistema de recrutamento, instrução
e mobilização adaptado à nova realidade.
Podemos dizer que a grande reforma republicana do Exército baseada
no princípio do exército miliciano, sem os recursos necessários, com uma
população maioritariamente analfabeta, contra a vontade do seu núcleo
profissional, estava votada ao fracasso. De qualquer maneira, as incursões
monárquicas primeiro e a Guerra logo a seguir aniquilaram a reforma.
Em 1914, quando a guerra na Europa começou, os quadros e os
efectivos gerais do Exército tinham tido somente três curtos períodos
de treino. O recrutamento e a mobilização fazia-se dentro da respectiva
divisão ou comando militar, cabendo a cada unidade suprir as suas faltas
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Grande Guerra • Ensaios
em soldados ou graduados. Havia 35 regimentos de Infantaria, 8 de
Artilharia, 11 de Cavalaria e 8 grupos de metralhadoras.
Em suma, a República, entre 1911 e 1914, construiu um exército mais
orientado para a defesa do território nacional e para actuação interna,
I Guerra Mundial: estatísticas portuguesas PÚBLICO,
FONTE: ANICETO AFONSO, FERREIRA MARTINS, HISTÓRIA DO EXÉRCITO PORTUGUÊS (1910-1945)
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Grande Guerra • Ensaios
do que para qualquer tipo de intervenção além-fronteiras, mesmo nos
territórios coloniais.
No que respeita ao equipamento militar, a República beneficiava de
um conjunto de medidas levadas a efeito nos últimos anos da Monarquia,
como resposta ao ambiente internacional que se vivia.
O Exército possuía peças de artilharia modernas e eficientes, embora
de diversas qualidades. Quanto ao equipamento individual de infantaria
foi necessário adquirir, logo em 1911, à casa inglesa Mills, 25.000
equipamentos de tela verde, inteiramente semelhantes aos adoptados em
1908 pela infantaria inglesa.
De uma forma geral pode considerar-se que Portugal, para o nível de
ameaças que então se previam, possuía armamento credível, embora não
estivesse tão bem equipado e armado como a grande maioria dos estados
europeus. Mas foi a participação na Guerra, tanto nos campos africanos
como europeu, que ditou o nível de equipamento das forças militares
portuguesas, terrestres e marítimas.
Portugal, nem beligerante, nem neutral
Depois do início das hostilidades na Europa, nos primeiros dias de
Agosto de 1914, o Governo inglês solicitou ao Governo português
que se abstivesse “por agora de publicar qualquer declaração de
neutralidade”, tornando-se esta a posição oficial de Portugal — nem
neutral, nem beligerante. Esta situação manter-se-ia até 16 de Março
de 1916, dia em que, a seguir ao apresamento dos navios alemães
surtos nos portos portugueses feito a pedido da Inglaterra, a Alemanha
declarou guerra a Portugal.
Foram dois anos de profundas disputas internas e extensos conflitos
que envolveram não só as forças políticas, como toda a sociedade, e
que ultrapassarão a própria declaração de guerra, mantendo-se até à
assinatura do armistício, e mesmo para além dele.
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Grande Guerra • Ensaios
Desfile do CEP antes do embarque para França na Rua do Arsenal, em Lisboa JOSHUA BENOLIEL/ARQUIVO
MUNICIPAL DE LISBOA
Os republicanos dividiram-se quanto à intervenção militar de Portugal
na Europa, sustentando uns a necessidade política e moral de intervir ao
lado dos aliados e defendendo outros a utilização exclusiva das tropas
portuguesas na defesa das colónias. As pequenas minorias radicais
opuseram-se, de uma forma geral, à participação na guerra, assumindo as
suas atitudes enorme agressividade, com apreciável influência na opinião
pública nacional.
No interior da força armada, a maioria dos oficiais opunha-se à guerra,
principalmente ao envio de tropas para o teatro europeu.
Machado Santos, o “herói da Rotunda”, o “revolucionário do 5 de
Outubro”, o “pai da República” encabeçou um movimento, a partir de
Tomar, para impedir a partida de tropas para França em 13 de Dezembro
de 1916. Quando foi ouvido em auto de perguntas, declarou: “Que entrou
na actividade política em 1907 para combater a ditadura do Sr. João
Franco (…). Que foi a primeira vez que conspirou com o fim de então
derrubar a Monarquia; voltou agora a conspirar pela segunda vez para
derrubar um governo que, bem mais nefasto que o Sr. João Franco,
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Grande Guerra • Ensaios
ameaça derruir não só o regime, mas a
própria Nacionalidade”.
Podemos dizer que
Estas palavras revelam a profunda
a grande reforma
cisão que grassava na sociedade
republicana do
portuguesa e também entre os
Exército baseada no
militares. Enquanto uns, mais próximos
do Partido Democrático de Afonso
princípio do exército
Costa, pugnavam pela participação
miliciano, sem os
de Portugal na frente europeia, outros
recursos necessários,
exigiam que as tropas fossem enviadas
com uma população
exclusivamente para África. Será este
confronto, entre intervencionistas e nãomaioritariamente
intervencionistas, que marcará todo
analfabeta, contra a
o período de participação das tropas
vontade do seu núcleo portuguesas na frente europeia, entre
profissional, estava
1916 (preparação) e 1919 (regresso).
Contudo, desde muito cedo, Portugal
votada ao fracasso
enfrentou dificuldades em Angola e
Moçambique, territórios que tinham fronteiras com colónias alemãs. A
situação levou o governo português a preparar expedições militares para
as duas colónias, que saíram de Lisboa a 11 de Setembro, comandadas por
Alves Roçadas a de Angola e por Massano de Amorim a de Moçambique.
O primeiro incidente de guerra ocorreu em Moçambique, quando
a pequena guarnição portuguesa de Maziúa foi atacada por uma força
alemã, ainda em Agosto de 1914.
Em Angola, o primeiro acto de guerra ocorreu em Naulila, onde em 19 de
Outubro um incidente mal explicado conduziu à morte de alguns militares
alemães, seguido pela acção alemã contra Cuangar a 30 do mesmo mês.
Reforçada a primeira expedição a Angola, e repetida uma acção
inimiga sobre Naulila em 18 de Dezembro, a circunstância da rendição
das tropas alemãs perante o avanço das tropas sul-africanas levou ao
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Grande Guerra • Ensaios
fim do conflito do exército português em Angola, embora persistisse a
revolta dos povos locais.
Em Moçambique, a situação evoluiu de forma diferente. Ainda em
1914 foi organizada uma nova expedição, acompanhada desta vez
pelo novo governador-geral da colónia, Álvaro de Castro. Verificouse, contudo, que as tropas expedicionárias portuguesas, tal como
acontecera na anterior expedição, enfermavam de graves deficiências:
má instrução, deficiente equipamento e fraca acção de comando,
situação que se manteria até ao fim.
Em relação ao teatro europeu, a acção do governo português visou
sobretudo a preparação da intervenção portuguesa, tanto no sentido
de definir as formas de apoio aliado, em especial da Inglaterra, como
de preparar os contingentes militares e mobilizar a opinião pública.
Na sequência de uma primeira experiência efectuada em 1914, com
a concentração de uma Divisão Auxiliar em Tancos, que depois foi
desmobilizada, procedeu-se à formação de uma Divisão de Instrução
que se reuniu no mesmo campo militar, sob o comando do general
Tamagnini de Abreu e Silva e impulsionada por um grupo de jovens
oficiais colaboradores de Norton de Matos, entretanto nomeado
ministro da Guerra.
Portugal, país beligerante
A partir da declaração de guerra da Alemanha, a 9 de Março de 1916,
as medidas de mobilização foram aceleradas. Mas a concretização da
mobilização pôs a nu as inúmeras dificuldades estruturais – em efectivos,
em armamento, em equipamentos e, acima de tudo, em quadros.
E enquanto se ultimavam os preparativos para a partida das tropas
em direcção ao teatro europeu, foi necessário o envio de um novo
contingente com destino a Moçambique, com cerca de 4000 homens
sob o comando do general Ferreira Gil. Nesta colónia, onde logo a
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Grande Guerra • Ensaios
seguir à declaração de guerra as tropas portuguesas reocuparam o
triângulo de Quionga, abandonado pelas tropas alemãs, esta terceira
expedição levou a cabo as operações de maior fôlego, assinaladas pela
travessia do Rovuma e por uma penetração em território alemão com a
tomada de Nevala. Contudo, a situação criada com o avanço das tropas
portuguesas não resistiria à contraofensiva alemã, sob o comando do
A República, entre
general Von Lettow-Vorbeck.
1911 e 1914, construiu
Foi perante esta situação que em
princípios de 1917 se organizou uma
um exército mais
quarta expedição a Moçambique,
orientado para a
sob o comando do coronel Sousa
defesa do território
Rosa. Entretanto, a acção das tropas
nacional e para
alemãs no interior de Moçambique
vai prolongar-se até Setembro de 1918,
actuação interna,
do que para qualquer tendo a sua penetração ficado às portas
de Quelimane.
tipo de intervenção
As tropas portuguesas, em cooperação
além-fronteiras,
com forças inglesas, opuseram-se aos
mesmo nos territórios movimentos inimigos tanto quanto
lhes foi possível, travando alguns
coloniais
combates de maior relevância, como
o de Negomano, da Serra Mecula
e de Nhamacurra. Von Lettow, conduzindo a guerra conforme as
circunstâncias melhor aconselhavam, com o fim, que foi sempre o seu, de
fixar efectivos inimigos na região, acabou por abandonar Moçambique,
ficando assim o território português livre da presença de tropas inimigas.
Continuavam, ao mesmo tempo, os preparativos para a partida das
tropas portuguesas para a frente europeia, transformando-se a Divisão
de Instrução em Corpo Expedicionário Português (CEP), que, composto
inicialmente por uma Divisão e passando depois, por insistência
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Grande Guerra • Ensaios
Soldados de Infantaria em ordem de marcha em Tancos ARNALDO GARCEZ/LIGA DOS COMBATENTES
portuguesa e aceitação inglesa, a ser constituído por duas Divisões, se
organizou num Corpo de Exército.
O convite oficial do Governo britânico de 15 de Julho de 1916, para
que Portugal tomasse parte activa nas operações militares dos aliados
ainda conheceu oposições, como vimos, mas as tropas portuguesas
constituintes do CEP iniciaram o embarque em finais de Janeiro de 1917.
O efectivo total do CEP nesta primeira mobilização foi de 1551 oficiais
e 38.034 sargentos e praças. Estes números viriam a subir para mais de
50.000 embarcados, quando se constituiu a 2ª Divisão, que permitiu
completar o Corpo de Exército, com que Portugal participou na frente
europeia da guerra.
Em França, depois de um período de instrução e estágio nas linhas, foi
atribuído ao CEP um sector na frente, situado na Flandres francesa, em
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Grande Guerra • Ensaios
frente da cidade de Lille, entre Armentières e Béthune. Na opinião dos
comandos ingleses era um sector bastante calmo, onde não se previa a
ocorrência de grandes acções de combate.
O CEP assumiu a responsabilidade total do sector português no dia 5 de
Novembro de 1917, sob o comando do 1º Exército Britânico. Era uma zona
plana, tinha a forma de um quadrilátero irregular, com cerca de 12 km
de trincheiras. Foi aqui que até 9 de Abril de 1918 os soldados passaram
por uma dura experiência de guerra, que marcou indelevelmente uma
geração portuguesa.
As unidades portuguesas, antes do Corpo assumir em pleno o seu
sector, tiveram 352 mortos em combate, entre Abril e Outubro de 1917.
Marinha de guerra
Em relação à marinha de guerra, pode dizer-se que, nos anos que
precederam a guerra, houve uma substancial alteração de conceitos
estratégicos relacionados com a guerra no mar, e também em Portugal se
assistiu ao surgimento de novas orientações, com mais ou menos reflexos
no pensamento naval e na organização e meios navais.
A ideia de uma permanente aliança com a Inglaterra é constante, embora
se preveja a possibilidade de a marinha inglesa ficar demasiado ocupada
para poder auxiliar Portugal. Mas outras componentes não deixam de
reflectir-se na discussão interna, como a corrida naval, o crescente poder
naval da Espanha e a transferência da
esquadra britânica do Mediterrâneo para
Quando a guerra se
o Mar do Norte, na sequência dos acordos
inicia, a Marinha não entre a França e a Inglaterra.
O conceito essencial evoluiu para
está preparada para
a necessidade de uma esquadra com
enfrentar as ameaças capacidade oceânica, à dimensão das
que se desenham
possibilidades nacionais, que impedisse
26
Grande Guerra • Ensaios
o bloqueio dos portos portugueses e assegurasse a ligação entre Lisboa e
os Açores e, em consequência, a relação com as colónias.
O programa naval da República absorveu este conceito geral, embora na
prática os objectivos fixados fossem impossíveis de atingir, dado o alto custo
da opção. Mas o ambicioso plano republicano para a marinha de guerra
acabou por ficar apenas no papel, até ao início das operações na Europa.
Contudo, alguma coisa foi mudando na Marinha Portuguesa. Tal como
os programas navais de outros países, também em Portugal se pensou
no papel dos contratorpedeiros que, apesar das polémicas suscitadas,
começam a ser construídos no Arsenal em 1910, acabando Portugal por
lançar três navios desta classe, antes da beligerância portuguesa, em 1916.
Também os submarinos viriam a fazer parte das preocupações dos
responsáveis portugueses, sendo encomendada a primeira unidade a
Itália, em 1910, recebida em Lisboa em 1913, com o nome de Espadarte.
Portugal virá a receber ainda mais três submarinos em 1917, formando
as quatro unidades a primeira esquadrilha de submarinos portugueses,
como principal elemento da defesa naval de Lisboa, a partir do início de
1918. Era, apesar de tudo, um avanço significativo.
Quando a guerra se inicia, a Marinha não está preparada para
enfrentar as ameaças que se desenham. As principais preocupações,
defesa dos portos contra ameaças de superfície e protecção das tropas
expedicionárias para as colónias, dificilmente podiam ser asseguradas
pelos meios da marinha portuguesa.
Contudo, os navios existentes são
As tropas
utilizados para enfrentar os problemas
portuguesas viramde defesa e navegação, especialmente
na protecção dos portos de Lisboa e
se assim envolvidas
Leixões, dos Açores e da Madeira, das
num conflito
comunicações, da navegação para
que dificilmente
as colónias e do apoio possível às
compreendiam
operações em Moçambique.
27
Grande Guerra • Ensaios
Do Sidonismo a La Lys
Entretanto, com o agravamento da situação interna, a oposição à guerra
não conheceu tréguas, tudo se conjugando para criar um clima social
propício ao desenvolvimento de projectos conspirativos e violentos.
Foi neste ambiente que, em 5 de Dezembro, uma revolta militar saiu à
rua, chefiada por Sidónio Pais, major de Artilharia e ministro de Portugal em
Berlim até à declaração de guerra da Alemanha. Em menos de três dias, os
revoltosos conquistaram o poder e assumiram a direcção política do país.
A nova situação, a que os seus dirigentes chamaram República Nova,
não chegou a pôr em causa a continuação do empenhamento militar
ao lado dos aliados, tanto na Europa como em Moçambique, mas é
sintomático da nova disposição dos dirigentes portugueses o facto de se
não terem efectuado as rendições de efectivos normais (também pela
escassez de meios de transporte marítimos) e de um número significativo
de mobilizados, temporariamente regressados a Portugal para tratamento
ou de licença, não regressar à frente, apesar dos contínuos apelos dos
comandos militares do CEP.
As tropas portuguesas viram-se assim envolvidas num conflito que
dificilmente compreendiam. A retaguarda era débil, as condições de
emprego como força militar em operações extremamente fraca, o moral
foi sempre baixo, mas no início de 1918 desceu a níveis insuportáveis. As
unidades tinham falta de oficiais, a instrução tinha sido deficiente, o apoio
não estava ao nível do de outras unidades do mesmo escalão. Os soldados
não gozavam férias, estavam muito longe da sua terra, muitos nunca
chegaram a compreender porque estavam naquela guerra.
A actividade militar na zona intensificou-se de forma gradual mas
constantemente. O mês de Março foi extremamente penoso para as
unidades portuguesas.
Os comandos portugueses aperceberam-se desta situação, mas o
comando britânico manteve a ideia de que o ataque principal que as
28
Grande Guerra • Ensaios
forças alemãs preparavam não seria na região de Armentières. No
entanto, em 6 de Abril as tropas portuguesas receberam ordens para
manterem na linha da frente apenas a 2ª Divisão, comandada por Gomes
da Costa, passando para o comando do XI Corpo de Exército britânico.
Na prática, porém, a extensão da linha da frente manteve-se nos 12 km
anteriores, sendo retirado um batalhão. Ou seja, a frente ficou com
menos densidade de forças. O tempo também foi curto para consolidar
as inevitáveis mudanças tácticas resultantes desta decisão unilateral do
comando britânico.
Mas o pior estava para vir. As visitas a 6 e 7 de Abril do comandante do
XI Corpo, general Hacking, ao comando da 2ª Divisão coincidiram com
as notícias dos preparativos alemães e a constatação do nível moral e do
estado físico das tropas portuguesas, o que levou o comando britânico
à decisão lógica, que uma prudente análise de situação já deveria ter
aconselhado há bastante tempo. A 8 de Abril foi dada ordem para a
substituição da 2ª Divisão por uma divisão inglesa, movimento que
deveria iniciar-se a 9 de Abril. Era tarde e a decisão tardia desmoronou
o moral das primeiras linhas portuguesas. Se a vontade de lutar e a
disposição anímica era já extremamente baixa, a perspectiva de sair da
frente anulou toda a capacidade de resistência e de comando. A situação
só poderia conduzir a um desastre, se o ataque se realizasse nesse dia. Foi
o que aconteceu.
O ataque alemão de 9 de Abril inseriu-se na estratégia de rotura da
frente em sectores estreitos, com grande superioridade de meios. Os
comandos alemães sabiam que seria uma das últimas oportunidades de
o conseguirem. O ataque foi bem planeado, bem preparado e executado
de forma eficaz. A preparação da artilharia foi longa e intensa. Os gases
de combate foram usados da forma habitual. O assalto fez-se de acordo
com os princípios tácticos consolidados pela longa guerra de trincheiras
– preparação de fogos, ataque frontal, envolvimentos, contrabateria,
ataques profundos, consolidação do terreno conquistado.
29
Grande Guerra • Ensaios
A defesa do sector português, e de certa forma dos sectores vizinhos,
não pôde organizar-se de forma consistente. A capacidade de combate
dos portugueses estava diminuída pelas condições do terreno, pelo
desequilíbrio dos meios de combate e principalmente pela disposição
psicológica das tropas.
Houve resistências, mas os confrontos foram pontuais e não duraram
mais que escassas horas, o tempo necessário ao avanço das tropas alemãs.
Em seis horas ruiu toda a resistência das primeiras linhas; ao fim do dia
estava conquistado todo o sector português e consolidada a penetração
alemã. Só em Lacouture um pequeno núcleo anglo-português resistiu até
ao dia seguinte.
Como “Batalha de La Lys”, “9 de Abril”, “La Lys – a Batalha Portuguesa”
ou outro título semelhante, os combates da manhã de 9 de Abril de 1918
na frente ocupada pelo CEP encontram-se descritos e analisados em
múltiplos textos.
Depois de La Lys, o que restou das tropas portuguesas foi distribuído
por unidades inglesas, sendo os militares utilizados, de uma forma geral,
em trabalhos braçais, como a construção de trincheiras. Tanto o general
Tamagnini, enquanto manteve o comando, como o general Garcia
Rosado, que o substituiu a partir de Agosto, procuraram junto do governo
português e do governo inglês, mas também junto do comando britânico,
devolver alguma dignidade ao período final da presença das tropas
portuguesas na frente ocidental.
Este esforço permitiu que fossem constituídos três batalhões que de
novo foram integrados na frente, onde se mantiveram, juntamente com
outras unidades de apoio e de serviços, até à assinatura do Armistício a 11
de Novembro de 1918.
Foi assim que o Exército Português, mais por iniciativa no terreno de
alguns dos seus comandos do que por empenho do governo de Lisboa,
conseguiu ultrapassar com um resto de dignidade as contingências da
sua presença na frente europeia, o que lhe permitiu desfilar em Paris,
30
Grande Guerra • Ensaios
em nome de Portugal, quando ali se comemorou a vitória, em 14 de Julho
de 1919, e dar suporte político à participação do país, ao lado das outras
potências aliadas, na Conferência de Paz.
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31
Grande Guerra • Ensaios
Heróis do mar: a nação, o
império e a participação de
Portugal na I Guerra
O entendimento que fazia do império uma parte indissociável
da nação atravessou séculos e regimes distintos. Só viria a ser
posto em questão com a vaga de descolonização iniciada com o
fim da Segunda Guerra Mundial, produto em grande medida do
resultado da anterior.
Ensaio de: José Manuel Sobral, Antropólogo e historiador (Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa)
Regresso das tropas do Corpo Expedicionário Português em 1919
32
Grande Guerra • Ensaios
1.
Há vários factores, uns ancorados na história mais próxima,
outros na mais distante, que explicam a participação de Portugal
na Grande Guerra de 1914-1918. O estado português tem sólidas
relações com um dos dois grandes blocos em que se dividem os
contendores: o constituído pelo Reino Unido, pela França e pela Rússia,
ao qual se juntara ultimamente a Itália.
A Grã-Bretanha era o seu principal parceiro em termos económicos e
políticos, a França era-o em termos culturais. A relação com a primeira
emergira na Idade Média com a aliança com a Inglaterra e sedimentarase tanto pelos laços comerciais como no decurso de diversos conflitos,
entre os quais os que asseguraram a independência do estado português
- a começar pelos que tiveram lugar no decurso da crise dinástica aberta
com a morte de D. Fernando em finais do século XIV. Este vínculo
foi um esteio da manutenção da autonomia portuguesa na Península
Ibérica, onde primeiro Castela, e depois a Espanha, foram sempre mais
poderosas. Embora este laço fosse sentido como assimétrico após o
tratado de Methuen - e se assacasse ao poder britânico responsabilidades
na manutenção de Portugal num estatuto económico secundário, de
país agrícola, enquanto a Grã-Bretanha
se transformava na primeira potência
A Grã-Bretanha, a
industrial moderna -, ele nunca se
quebrou.
França e Portugal
As relações com a França haviam
eram potências
sido historicamente muito distintas e o
coloniais. E a questão estado francês chegou mesmo a invadir
colonial havia-se
Portugal no período napoleónico.
Todavia, as ligações mais profundas no
transformado num
plano cultural ocorriam exactamente
problema político
com esse país. Ele representava a língua,
maior nas décadas
a literatura, a cultura, a civilidade, a
prévias ao conflito.
cozinha, que as classes mais abastadas
33
Grande Guerra • Ensaios
e as mais dotados de capital
cultural, as com maior
influência no plano político,
procuravam emular. Paris
era o centro do mundo. As
afinidades crescem com o
regime republicano. Não só
Portugal era, com a França, um
dos raríssimos exemplos de
regime republicano na Europa,
como a III República inspira
profundamente a portuguesa,
no plano doutrinário e em
medidas políticas concretas,
como o laicismo militante
ou a importância conferida à
escola pública na socialização
dos cidadãos, entre outros
Partida de mais um contingente de militares para África,
exemplos.
em Junho de 1916 JOSHUA BENOLIEL
A Grã-Bretanha, a França
e Portugal eram potências
coloniais. E a questão colonial havia-se transformado num problema
político maior nas décadas prévias ao conflito. Não se pode compreender
a Grande Guerra sem ter em conta as dinâmicas conjugadas do
nacionalismo e do imperialismo, tivessem elas por palco a Europa, onde
impérios multinacionais se confrontavam com as aspirações de novos
estados-nações ou movimentos nacionalistas, como sucedia nos Balcãs,
ou outros continentes, como a África, em particular.
As colónias eram importantes para os estados europeus tanto
económica, como política e simbolicamente. Não eram apenas
mercados e fontes de matérias-primas, reais ou potenciais, eram
34
Grande Guerra • Ensaios
Interior do Pavilhão de Portugal na Exposição-Feira de Angola, 1938 ATRIBUÍDO A FIRMINO MARQUES DA COSTA
(1911-1992)
também um testemunho do seu estatuto político e simbólico e do dos
seus povos – ou das suas nações e raças, para referir palavras então
usadas como sinónimos.
O prestígio e o poder britânicos, por exemplo, não residiam apenas na
ilhas, mas num império à escala global, que se ampliara substancialmente
depois da independência norte-americana, em África e na Ásia. Depois
das perdas sofridas na América no século XVIII, a França reconstruíra um
império com grandes domínios em África e na Indochina. Até a Bélgica,
um país mais susceptível de comparação com Portugal, conquanto
apenas em termos de território e de população, adquirira um em África.
A Holanda conservara o seu.
35
Grande Guerra • Ensaios
Todavia, os novos estados nacionais, formados na segunda metade
de oitocentos, como a Itália e a Alemanha, encontravam obstáculos na
construção dos seus impérios. A última havia-se transformado numa
enorme potência em termos demográficos, económicos e militares, como
ficara demonstrado na derrota que infligira aos franceses em 1870. Mas,
em matéria imperial, via-se reduzida, para além de algumas ilhas no
Pacífico, a uma porção menor dos territórios africanos, entre os quais a
Namíbia a sul de Angola e o Tanganica a norte de Moçambique.
O estado português receava que as ambições alemãs fossem
satisfeitas através de um acordo com o Reino Unido, à custa das colónias
portuguesas, como já fora discutido em 1898 e nos anos imediatamente
anteriores à guerra. O Ultimato britânico de 1890, que pusera fim à
aspiração portuguesa de unir os territórios situados entre as duas costas
do continente africano, tivera efeitos traumáticos, levando a uma intensa
agitação nacionalista que beneficiou os republicanos, pois a monarquia
foi forçada a obedecer aos ditames do mais forte. Por isso, as expedições
militares para defender Angola e Moçambique são organizadas logo
em 1914, e os combates com as forças alemãs ocorrem antes de existir
uma situação formal de guerra entre Portugal e Alemanha, que só virá a
acontecer em Março de 1916.
2.
A participação no cenário de guerra europeu, envolvendo uma
mobilização incomparavelmente maior, viria a dar-se mais de dois
anos depois, em 1917. Embora a maior parte das forças partidárias
apoiassem a intervenção, esta acarretou divisões no campo
republicano português, bem como a oposição de meios germanófilos e
das correntes internacionalistas ligadas ao movimento operário.
As carências e sacrifícios impostos pelo conflito prolongado foram
enormes. Puseram fim ao equilíbrio orçamental conseguido pouco antes
pela governação democrática e atingiram dramaticamente as condições
36
Grande Guerra • Ensaios
O Ultimato britânico visto por Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, no jornal Pontos nos II
de subsistência da maioria. Gerou-se um forte descontentamento
que levou ao derrube do governo da União Sagrada, formada pelo
Partido Democrático e pelo Partido Republicano Evolucionista. Este foi
substituído a partir de Dezembro de 1917 por um regime presidencialista
chefiado por Sidónio Pais, cujas características ditatoriais se iriam
acentuar nos poucos meses em que esteve no poder.
Não nos cabe fazer aqui a crónica de eventos tão conhecidos, nem a
dos relativamente menos de África, em que os corpos expedicionários
portugueses tiveram não só de enfrentar forças militares mais capazes,
que lhes impuseram derrotas, como também de submeter a população
local, que aproveitava o ensejo para se tentar libertar do poder
português, pouco ou nada consolidado. O império africano português era
uma construção recente, pois só ao longo da segunda metade do século
XIX se investira na penetração no interior, no controlo das populações
37
Grande Guerra • Ensaios
e entidades políticas locais, na construção do Estado. As chamadas
“campanhas de ocupação” tinham poucas décadas.
Este novo surto imperial, ocorrido algumas décadas depois da
independência do Brasil, encontrara um apoio amplo em Portugal.
Embora houvesse no seio das elites políticas e intelectuais quem
defendesse o abandono de algumas das colónias, pelas despesas que
acarretavam, e a concentração dos esforços em outras, como Angola,
que pudessem ser rentáveis, no contexto intensamente nacionalista
das últimas décadas de oitocentos a maioria consagra a sua defesa e
inalienabilidade. Este credo era comum à elite política das últimas
décadas da monarquia e aos republicanos, que lhe iriam suceder.
A noção de que as colónias eram uma componente essencial da
identidade nacional era antiga. Estava incorporada na narrativa da
história portuguesa mais difundida, que comportava duas fases, de
duração variável: uma que ia do advento de Portugal até ao seu apogeu,
outra de declínio. Nessa narrativa, e pondo de lado o papel relevante
ocupado pelos antepassados míticos, os lusitanos, Portugal havia surgido
como reino independente em luta simultaneamente contra dois inimigos:
o castelhano-leonês – depois espanhol – e o muçulmano. Alcançara o seu
momento de maior glória com as conquistas em Marrocos e as navegações
marítimas do séculos XV e XVI, a Idade do Ouro da história portuguesa.
Seguira-se a decadência, cujas origens e causas eram objecto de debate,
mas que se tinha como uma característica indiscutível do Portugal
contemporâneo.
O poder asiático dos portugueses fora em grande medida liquidado
no século XVII, o império luso-brasileiro findara em 1822. Portugal
ficara então praticamente reduzido a um estado periférico no espaço
europeu e só lentamente se iniciaria a transformação dos empórios
comerciais, nomeadamente de escravos, e dos presídios, localizados
nas zonas costeiras de África ou nas suas proximidades, em verdadeiras
colónias. Mas o império permanecera sempre ao longo do tempo como
38
Grande Guerra • Ensaios
Preparativos para o embarque das tropas que vão combater na Primeira Guerra Mundial em Belém
JOSHUA BENOLIEL/ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
um elemento central na imaginação nacionalista do país. É de crer que
esta narrativa tivesse uma recepção mais alargada do que aquela que
encontramos nos testemunhos escritos dos mais instruídos, para os quais
ela constitui um elemento básico da sua identificação nacional.
Aliás, este tipo de narrativa ou imagem básica da história nacional
portuguesa não se difundia apenas pelo escrito, servido nas últimas
décadas do século pela difusão da imprensa. Para além da comunicação
oral, também os rituais comemorativos então promovidos contribuíram
para a sua popularização. O centenário da morte de Camões (1880) é
uma dessas cerimónias nacionalizadoras, em que se insere também
o da viagem de Vasco da Gama à Índia (1898), feito representado
nos Lusíadas como um momento supremo da história portuguesa.
39
Grande Guerra • Ensaios
Seguir-se-ia, entre os associados directamente à expansão, mas com uma
intensidade bem menor, o centenário da chegada de Pedro Álvares Cabral
ao Brasil, em 1900. O desfile em Lisboa do Ngungunhane (Gungunhana),
derrotado e exilado, em Março de 1896, insere-se também no projeto
colonial, mas como ritual de humilhação de alguém que ousou contrariar
a supremacia do colonizador.
Estas celebrações são parte de uma forte vaga nacionalista que se faz
sentir então a nível mundial e da qual fazem parte as indagações sobre o
carácter nacional, o estudo etnográfico das culturas supostamente menos
expostas às influências externas e mais fiéis às tradições – o campesinato –,
a procura das origens étnicas e das características raciais da população, que
revelariam as suas virtudes essenciais, transmitidas de geração em geração.
A par das comemorações opera-se uma nacionalização do próprio
espaço urbano, com a implantação de monumentos que promovem
uma identidade nacional oficial em que o Império tem um lugar central.
Isso ocorre, por exemplo, com os monumentos a Camões, a Afonso
de Albuquerque ou a Pedro Álvares Cabral em Lisboa e com a voga da
arquitetura neomanuelina, que inspira a ala acrescentada aos Jerónimos,
a estação do Rossio de Lisboa, e, fora de Portugal, o Gabinete Português
de Leitura, no Rio de Janeiro, o núcleo principal da Diáspora Portuguesa,
que partilhava o mesmo ideário nacionalista.
3.
Deve dizer-se que esta exaltação nacional começara muito antes
do século XIX, pois as grandes navegações e conquistas dos
séculos XV e XVI foram acompanhadas pelo desenvolvimento de
um nacionalismo etnocêntrico. O poema épico de Camões, o mais
importante dos textos em que este se revela, celebrou no século XVI o
carácter e o destino nacional excepcional dos portugueses narrados pelo
navegador que atingira a Índia. Os túmulos poeta e de Vasco da Gama nos
Jerónimos são um produto do nacionalismo finissecular oitocentista, mas
40
Grande Guerra • Ensaios
ligação do mosteiro de Belém à história ultramarina começara no próprio
momento culminante desta, pois ele fora erguido, simultaneamente,
para ser o panteão real de D. Manuel e dos seus descendentes, e para
lembrar a todas as outras “nações” o “esplendor de Portugal”, nos versos
significativos da marcha A Portuguesa, composta em resposta ao Ultimato
e que o regime republicano transformou em hino nacional.
Para entendermos adequadamente as razões que levaram ao
envolvimento de Portugal na Grande Guerra, temos, assim, de prestar
a devida atenção a factores relacionados com a conjuntura – e que vão
das afinidades e interesses de vária ordem que ligam o Estado português
ao bloco em que se encontram a França e o Reino Unido, à necessidade
de proteger mercados e matérias-primas ultramarinas, ao impacto do
nacionalismo que fazia do império uma parte nuclear do estatuto do país.
Nessa conjuntura, a percepção de ameaça sobre as colónias teve um papel
crucial. Mas os motivos ligados ao presente e ao passado próximo eram
reforçados por uma representação multissecular em que as conquistas
e navegações, de que haviam ficado como testemunho as colónias,
surgiam como o sinal mais evidente do destino histórico excepcional
dos portugueses. Este entendimento, que fazia do império uma parte
indissociável da nação, atravessou séculos e regimes distintos, e só viria a
ser posto em questão com a vaga de descolonização iniciada com o fim de
uma nova guerra, produto em grande medida do resultado da anterior.
VOLTAR AO ÍNDICE
41
Grande Guerra • Ensaios
A correspondência do
desassossego e da saudade
Nos momentos de descanso, os soldados portugueses
escreviam onde calhava: nas trincheiras, num celeiro ou num
hospital. Escreviam com o que tinham à mão, sobre o joelho ou
escrivaninhas improvisadas. Alguns viram-se forçados a aprender
a ler. Todos tiveram a sua correspondência sob o olho da censura.
Ensaio de: Isabel Pestana Marques
Todos os postais aqui reproduzidos foram enviados pelo soldado sapador ferroviário Felizardo Simões,
que combateu entre 1917 e finais de 1918, à sua mulher Maria José e filha Amélia COLECÇÃO DE MANUEL SIMÕES
R. MARQUES / BIB. MUN. DE FIGUEIRÓ DOS VINHOS
42
Grande Guerra • Ensaios
A
vivência das duras condições do quotidiano de guerra e a luta
constante entre a vida e a morte impôs-se aos expedicionários
portugueses durante a campanha, em França (1917-1919). Neste
ambiente opressor, a troca de correspondência particular tornouse fundamental para a construção/manutenção do equilíbrio físicopsicológico dos combatentes.
Desde cedo, os portugueses elegeram a escrita e a leitura de cartas,
enviadas ou recebidas, como meio de comunicação individual e privado,
ultrapassando obstáculos emergentes.
A vontade de comunicar motivou muitos expedicionários analfabetos
a aprenderem ou a aperfeiçoarem a leitura e a escrita da língua-mãe com
a ajuda de um camarada ou sozinhos, generalizando-se, então, o uso
da Cartilha de João de Deus em terras francesas. A aprendizagem do francês
fez-se com o auxílio das jovens francesas e a um ritmo célere, sem grandes
cuidados gramaticais. A necessidade fazia aguçar o engenho, recorrendo a
esquemas talentosos na construção de um original “francês de guerra”.
Nos momentos de descanso, escreviase nas trincheiras (sobretudo na 2ª
Para impedir a
linha), num celeiro ou no “estaminet” da
transmissão de
Linha de Aldeias e até num hospital da
informações valiosas
Base, utilizando os materiais disponíveis:
papel, caneta e tinta; sobre o joelho ou
para o inimigo ou
sobre escrivaninhas improvisadas com
que abalassem o
caixotes de corneed beef. A satisfação em
moral em Portugal,
escrever ou ler cartas fazia esquecer as
as autoridades
dificuldades da escrita e da leitura e até
a disposição do momento e, sobretudo,
criaram o Serviço de
a falta de liberdade na troca de
Censura Postal do
correspondência em tempos de guerra.
Corpo Expedicionário
Para impedir a transmissão de
Português
informações valiosas para o inimigo ou
43
Grande Guerra • Ensaios
que abalassem o moral em Portugal, as autoridades criaram o Serviço de
Censura Postal do Corpo Expedicionário Português (CEP), repressor da
liberdade de expressão e de informação. A censura de palavras ou frases,
a apreensão da carta e o julgamento do autor infractor podia terminar em
repreensões registadas, em adiamento de licenças e até em dias de prisão,
muitas vezes cumpridos na incerteza da 1ª Linha.
O conjunto de missivas reflectirá, então, um mundo privado de autores
e destinatários que procurou sobreviver às contingências impostas
pelo dia-a-dia de guerra e pelo poder estabelecido. A qualidade da
escrita, o acto de recepção e os conteúdos expressos no papel permitem
compreender a própria campanha do Corpo Expedicionário Português.
A maioria das cartas do CEP foi escrita por praças de pré [soldados e
cabos, os escalões mais baixos da hierarquia militar], em 1918 e em França.
Constituindo a troca de cartas um acto pessoal e de difícil realização
44
Grande Guerra • Ensaios
em campanha, os autores vão decidir escrever àqueles que lhes são mais
próximos, em quem confiam e com quem são íntimos.
Na prioridade familiar, os solteiros escreveram aos pais e irmãos e os
casados às mulheres. Na prioridade de amizade, os camaradas de armas
trocaram cartas entre si e escreveram cartas de sedução a mulheres civis
e militarizadas. Na prioridade de relacionamento amoroso, eles e elas
trocavam cartas de amor, já consolidado, independentemente do local e
da língua escrita.
Deste modo, a correspondência serviu para contactar um mundo
menos masculinizado, menos militarizado e, sobretudo, civil, numa
tentativa de contacto com o mundo exterior.
O destino das cartas confirma essa necessidade. A retaguarda portuguesa
ditou a maioria, expressando uma forte necessidade de contacto com
a ansiada e distante terra natal e os familiares. A solidariedade entre
45
Grande Guerra • Ensaios
camaradas decidiu a escrita para os campos de concentração alemães
nos quais os portugueses sofriam o cativeiro. As terras francesas e
inglesas ditaram outras tantas cartas pois aí estavam os camaradas de
armas e as namoradas de guerra.
Escritas em papel próprio, as cartas de 2 ou 4 páginas iniciavam-se,
geralmente, por um cabeçalho semelhante (“Meus queridos pais”) e
findavam com alguma criatividade mais individualizada.
Este processo confirma a existência de um modelo de escrita anterior à
guerra e o recurso a “escrevedores profissionais” que a troco de dinheiro
ou de favores escreviam as cartas pelos combatentes analfabetos.
Escritas, sobretudo, em português, e em francês ou inglês de acordo
com a nacionalidade do destinatário e as capacidades linguísticas dos
autores, a qualidade da escrita (ortografia, construção de frases, etc.)
era diversificada, mas predominava o nível baixo.
46
Grande Guerra • Ensaios
Sendo maioritariamente escritas por praças de reduzida instrução,
a escrita em português, em geral, era decalcada da oralidade (por
exemplo, trocando os b pelos v), sem grandes preocupações pelas regras
subjacentes à escrita e a escrita em francês fundia, em geral, a língua natal
com a estrangeira numa simbiose de má qualidade. Muitas vezes a leitura
da mensagem tornava-se impossível.
Sujeita à vivência de um dia-a-dia tão diferente do quotidiano de
paz, a guerra impôs-se como conteúdo das missivas, focalizando-se nas
preocupações e nas dificuldades mais sentidas pelos autores.
A ansiedade e o desejo de gozar licença de campanha, em Portugal,
justificaram as numerosas linhas escritas à família e amigos. Aí se
pediam favores em Lisboa e até se implorava dinheiro para a passagem
ferroviária por Espanha, na ausência de um lugar a bordo nos escassos
navios portugueses. A concessão irregular de licenças motivará protestos
e denúncias de discriminação e de
injustiça. Tal situação aguçará o engenho
redigindo-se propostas de “esquemas”
O pulsar e o rosto
facilitadores à obtenção das desejadas
humano emergem,
licenças – por exemplo, a recepção de
ainda hoje, das
uma carta relatando uma gravíssima
cartas portuguesas,
falsa doença familiar ou referindo
problemas graves jurídicos de herança,
amarelecidas pelo
ambos justificadores da urgência do
tempo, tintas de
regresso a Portugal.
sangue, suor e pó
A doença, o ferimento e os períodos
e sobreviventes
de hospitalização motivarão igualmente
as linhas escritas com a preocupação de
a uma guerra de
sossegar a família, omitindo-se muitas
consequências
vezes a gravidade ou as sequelas.
absolutas na História
A ansiedade e a necessidade de
de Portugal
passar a escrito o tema da dureza
47
Grande Guerra • Ensaios
dos “momentos de
combate” foi maior do que
qualquer risco… Diferentes
informações sobre a
campanha (operações
militares, deslocações de
unidades, relações entre
combatentes e com outros
exércitos, etc.) serão
prestadas com o intuito de
dar a conhecer o quotidiano
de guerra a terceiros,
de expressar críticas e
denunciar injustiças vividas
e, simultaneamente, de
aproximação ou rejeição
do conforto da retaguarda
distante. Igualmente dãose informações sobre
os camaradas de armas
para que os destinatários
informassem as respectivas famílias mas, também, com a intenção de
dar a conhecer os perigos e os sofrimentos vividos na zona de guerra.
Em suma, algum abatimento moral esquecerá os perigos de punição
por infracção do regulamento e levará a escrever linhas de desânimo face
às características originais dos combates, ao esforço físico da vida na zona
de guerra e à falta de meios humanos e materiais.
Dada a dimensão da batalha do Lys e o respectivo impacto na
evolução do Corpo Expedicionário Português, os autores vão escrever
sobre o tema, apesar do risco de prisão disciplinar: a simples referência
ao facto (em geral, por praças) ou extensas narrativas descritivas e
48
Grande Guerra • Ensaios
explicativas do 9 de Abril de 1918 (em geral por oficiais) permitiram
aos autores dar a conhecer informações cuja divulgação a censura da
imprensa, vigente em Portugal, impedia.
Muitas cartas prestaram informações sobre a política portuguesa de
guerra, dando eco a ressentimentos fracturantes dos combatentes face à
política dos governantes e das autoridades militares, e manifestando o anseio
de se manterem a par do desenrolar da inquietante política em Lisboa.
Por fim, algumas missivas expressam uma religiosidade muitas vezes
calada pelos oficiais republicanos anti-clericais. A referência às preces
individuais e às orações de familiares confirmam a religiosidade como
instrumento de sobrevivência à campanha.
Em suma, ao escreverem sobre o quotidiano vivido na Flandres, os
expedicionários elegeram as cartas como meio de comunicação das
preocupações mais prementes, das dificuldades mais sentidas e das
consequentes reacções individuais, com a retaguarda portuguesa.
Escritas com o intuito de partilhar experiências e sentimentos, numa
tentativa de comunhão; de dar a conhecer realidades diferentes das
vividas em tempo de paz, numa tentativa, simultânea, de identidade de
campanha e de rejeição do conforto
vivido na retaguarda, distante dos
Maioritariamente,
horrores da guerra.
Assim, as missivas testemunharam o
perguntava-se pela
desassossego dos entrincheirados que
família, pela saúde
elegeram a troca de correspondência
dos pais, da mulher e como um instrumento de evasão à
dos filhos e depois pelo realidade vivida.
O crescente divórcio entre os
destino das colheitas,
do gado e dos vizinhos entrincheirados e os militares da
retaguarda e o próprio país, a sensação
(casamentos, mortes, de abandono face às carências físicas
heranças)
e psicológicas vividas no “Front” e a
49
Grande Guerra • Ensaios
necessidade de construir e
controlar decisões privadas
num contexto em que
colectivizava qualquer acto da
campanha, tornaram urgente
encontrar soluções de autocontrolo para se impedir a
ruptura com o poder e as
autoridades estabelecidas.
Aqui as cartas vão unir os
combatentes a um exterior
distante geograficamente
mas teimosamente próximo.
As memórias dos tempos
de paz da família e da terra
natal, os afectos que se
deixaram em Portugal e as
cumplicidades emergentes
na campanha irão nortear
a escrita de palavras
emocionadas, de troca de
informações e de pedidos sinceros a um exterior que é chamado a
intervir em auxílio dos que sofrem.
Como único meio de comunicação com o exterior, os autores
raramente deixaram de reclamar resposta breve, finalizando sempre as
cartas com frases cheias de saudade: “Assim que esta tu recebas escrebem
idáme infirmações” ou “fico isprando resposta tua” ou ainda “Escreveme
na volta do correio”.
O pedido de notícias era constante.
Maioritariamente, perguntava-se pela família, pela saúde dos pais, da
mulher e dos filhos e depois pelo destino das colheitas, do gado e dos
50
Grande Guerra • Ensaios
vizinhos (casamentos, mortes, heranças), insistindo-se em conhecer
pormenores que aproximassem os militares à saudosa terra natal. Este
tipo de informações era tão importante que originou a troca de cartas
entre combatentes a darem conta do que sabiam, num processo de
partilha solidária. Muitos combatentes dão a conhecer a outros a boa ou
má saúde dos seus parentes ou vizinhos ou o sucesso na venda do porco
ou a celebração de um noivado na aldeia natal, confirmando igualmente
a construção de uma rede de informação de assuntos privados,
essencial para a manutenção da identidade individual e regional dos
expedicionários.
Em seguida, interrogava-se pelo país e pela actuação do governo,
silenciados pela censura e pela falta de jornais portugueses em França,
denunciando crescentes sentimentos de frustração e de abandono.
Por fim, perguntava-se pelo bem-estar dos cativos nos campos de
concentração alemães. Aqui a incerteza pelas notícias misturava-se com a
necessidade de manter contacto com aqueles que sofriam do outro lado
da linha inimiga, num processo de comunhão no sofrimento.
Quando a distância geográfica não se impunha, os combatentes vão
formular pedidos de “visitas breves”. Muitos solicitavam a visita de
camaradas colocados noutras unidades: em geral, amigos de longa data
e conterrâneos. Noutras cartas, em maior número, os expedicionários
apelavam à visita da namorada francesa ou inglesa.
Pedia-se, ainda, fotografias dos familiares, mas também de jornais,
comida (sobretudo iguarias regionais) e até roupa civil para a viagem
ferroviária de regresso. As fotografias eram as mais desejadas, recebidas
entre uma alegria contagiante e um silêncio emocionado de saudade.
As cartas afirmavam-se, então, como um meio de intervenção dos
destinatários na vida dos autores, ao cumprirem os desejos formulados,
e um meio de aproximação entre o exterior e o espaço de guerra,
através da partilha solidária, esbatendo-se por uns instantes a distância
entre a guerra e a paz.
51
Grande Guerra • Ensaios
Finalmente, as cartas permitiram construir relações amorosas,
essenciais à manutenção do moral das tropas.
As relações entre casados e de longa distância (marido combatente
e mulher em Portugal) sofrem maior desgaste provocando ora queixas
e ciúmes das mulheres, ora protestos e repreensões dos maridos que
valorizavam as agruras da guerra em detrimento dos sentimentos femininos.
As relações entre não casados e de curta distância constroem-se com
cartas apaixonadas. Aqui abundam as declarações de amor, num francês
muitas vezes atabalhoado; a organização de encontros amorosos, para o
próprio e até para os camaradas e pedidos de namoro ou de casamento
uma vez que o termo “fiancê” era banalizado pelos portugueses para
encantarem as francesas.
Por fim, a premência em comunicar justificará palavras muito
violentas em relação aos correios. Interdito o correio civil e o
52
Grande Guerra • Ensaios
clandestino pelas autoridades militares, competia ao correio militar
português levar as missivas dos combatentes aos destinatários tal como
fazer-lhes chegar às mãos as missivas a eles destinadas. Mas a tarefa será
muito dificultada devido à falta de navios e às greves dos funcionários
desencadeadas, em Portugal, em 1918.
A falta de confiança na acção dos correios oficiais originará o desespero
expresso, por um lado, pela sucessiva escrita de cartas (semanal e até
diária) numa tentativa inconsciente de pressionar a troca de missivas e,
por outro lado, pela construção de códigos de palavras-chave ou desenhos
para iludir a censura. Igualmente se recorre ao correio civil francês,
afrancesando o remetente ou pedindo à população civil feminina para
enviar as cartas para Portugal, ou ao correio clandestino. Por fim, aqueles
que regressavam a Portugal transportavam consigo, clandestinamente,
cartas dos camaradas.
A troca de correspondência no Corpo Expedicionário Português permitiu,
na época, calar o desassossego e viver a saudade do quotidiano de paz
num ténue equilíbrio para impedir a ruptura com o quotidiano de guerra
e o consequente aniquilamento psicológico dos combatentes e possibilita,
actualmente, dar voz e construir a memória dessa experiência singular.
O pulsar e o rosto humano emergem, ainda hoje, das cartas
portuguesas, amarelecidas pelo tempo, tintas de sangue, suor e
pó e sobreviventes a uma Guerra de características originais e de
consequências absolutas na história de Portugal, da Europa e do mundo.
Carta 1
“França, 11 do 8 de 1918
Minha Crida e Saudosa mãe Comuito gosto e prazer lancei mão há pena
Somente para Saver da sua p emportente Saude e Juntamente atoda a
nossa família pois que eu fico bem Graças A Deus […] peço-lhe que me
mande 30 milrreis que com algum que eu tenho para ver se lá vou que
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Grande Guerra • Ensaios
este dinheiro não se gasta
todo mas é preciso mostralo
para-se [ilegível] Alguma
demora / Pellos Cumboios
tellos para gostar […] mandemo o mais breve que possa
que tem de vir num chéque
mande-mo numa carta
rezistada que elle não-se
perde que os meus colegas
também o teem recevido
aver-se vou a essas terras
que estes lêdroes não nos
deixão lá ir que as tropas
já-se revoltarão que até os
entregarão as englezes que
eu [riscado] ahi não gostava
de ver os defuntos mas agor
já não me custa nada que se
vêem morrer todos os dias. /
Minha mãe tenho para
lhe dizer que no dia nove de Abril que tevemos um combate que tivemos
de Cavar todos que todo o C.E.P. cavou e os Alemães dão outro avanço
o C.E.P. acavou que atté tive de [ilegível] a minha roupa toda que andemos 5 dias que não comenos nada e a nossa roupa de cama erao chão
andemos 22 dias com mantas e a nave e o gelo a cair que o encoentro nos
escapmos muitas graças que muitos meus camaradas lá ficarão como foi o
Antonio Pialho que ficou com a cabeça cortada./
E o Albaro da tia Izabêl também morreu ó está prezioneiro e o Elias
e outro cabo de Rebordondo estes morrerão da nossa terra hòra o José
Chiscaro ficou bôm e o Antonio Jorge ficou Sem novidade que eu estive
54
Grande Guerra • Ensaios
depoes do combate com eles agora já há muito tempo que não estive
com eles e não esteja com quidado em mim que eu estou muito longe das
trincheiras que estou ao pé de Paris num depozito de Pagagens não me
falta couza alguma muitos abraços deste Seu filho José Martins.
A Deus A Deus/”
Fonte: Carta de José Martins, França, 11Ag1918, pp.4 para Anna Baltezara
de Jesus Correia de Chaves, Cazas Novas (mãe) in Isabel Pestana
Marques, Os Portugueses nas Trincheiras. Um Quotidiano de Guerra,
Lisboa, Comissão Portuguesa de História Militar, 2002, Anexo XLV, p.390
Carta 2
“França 15 de Agosto de 1918
Meus queridos paes do coração.
Os meus mais ardentes votos é que a receber desta minha carta estejam
na posse duma perfeita e felis saúde assim como meus queridos manos,
eu bem felizmente.
[…] ouve aqui grande bombardeamento o qual fez muitos estragos e
agumas mortes mas pela minha parte não ouve novidade.
Eu já sabia que não me acontecia mal, porque tenho mandado ler a
minha sina e dis-me o seguinte; muito tempo em guerra e morrer na pátria
[…]. Meus queridos pães: em vistas disto também devem ficar satisfeitos
e nunca perderem a esperança de me ver, porque algum dia será; tenho
sido felis e heide ser até ao fim. O que tive mais á contra fôe a doença que
me deixou muito atrapalhado, mas como adoeço em França, tão em bem
adoeço em Portugal, assim o mal venha não á mais remedio que é aceitarse. […] escapei porque estou guardado para maiores tormentos.
Vou contar a minha mãe mais um motivo porque não tenho ido de
licença; não é porque eu não tenha direito, que já tenho direito a 3
55
Grande Guerra • Ensaios
licenças, porque já conto 18 meses de campanha, mas é outro caso. Em
campanha fazem-se injustiças como se fazem em Portugal, as quais
têem-se que gramar e calar a bôca. Aqui da minha formação foram
muitos sargentos de licença, assim como de todas as outras e nem mais
cá voltaram: nós aqui não básta termos muito trabalho porque somos
poucos como também não podemos ir de licença por fazer falta ao
serviço. Isto agradese-se ao senhor ministro da guerra, porque nem só
não rende a gente, como também não torna a mandar os que vão com
licença: isto é próprio do governo Portuguez que nunca o fez por menos;
faz do direito torto, e do torto direito. […] é uma sussia de canalhas que só
pençam em robar e não se lembram daqueles que vivem na amargura á 18
meses, separados de suas famílias e dando a ultima pinga de sangue pela
sua pátria. […] tenham passiensia e conformen-se com a sorte que Deus
me deu: convensan-se que o mais projudicado sou eu e com tudo eu cá
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Grande Guerra • Ensaios
vou indo. As horas que mais sofro são aquelas em que me lembra minha
família, minha mocidade e liberdade [riscado]. Nessas horas até quido de
estalar de paixão, vingo-me em chorar assim como muitos meus colegas,
mas não temos outro remedio que é disfarçar-mos uns com os outros.
No dia em que recebi as voças fotografias, não calculam o abalo que
me deu, ao ver aqueles que tantos beijos me deram e tantos tormentos
passaram para me criar e encontar-me longe e muito longe […]
Muitos abraços aos meus manos, beijinhos ao Jose e ao Almiro; muitas
recomendações a toudos os meus tios e tias, primos e preimas, a todos os
rapases e raparigas do meu tempo e a toda a nossa vesenhança.
Meus queridos pães recebam uma [riscado] viva saudade e um grande
Abraço d’este seu querido filho que já mais os esquesse e lhe deseja
pedir a bênção.
Manuel Martinho […]”
Fonte: Carta de Manuel Martinho, França, 15Ag1918, pp.4 para Jose
Bartolomeu da Silva, Ourique (pai) in Isabel Pestana Marques, Os
Portugueses nas Trincheiras. Um Quotidiano de Guerra, Lisboa, Comissão
Portuguesa de História Militar, 2002, Anexo XLII, pp.385-387.
Carta 3
“Laventie 15-9 1917
Mademousel Catherine
Moá goute que vu dite se gout de fiancê avec moa.
Moá esperê que vu reponde a moá na bolta de lá posta. Escusamoá de
moá nan enquerer bien Francês […]
Belarmino de Figueiredo […]”
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Grande Guerra • Ensaios
Fonte: Carta de Belarmino de Figueiredo, Laventi, 15Set1917, pp.1 para
Catherine Pintaine, Revoir la Gorgue (jovem francesa) in Isabel Pestana
Marques, Os Portugueses nas Trincheiras. Um Quotidiano de Guerra,
Lisboa, Comissão Portuguesa de História Militar, 2002, Anexo LIII, p.401.
Bibliografia
Isabel Pestana Marques, “A correspondência de guerra e a vivência nas
trincheiras da Flandres”, in Actas do VI Colóquio de História Militar,
Lisboa, Comissão Portuguesa de História Militar, 1995.
Idem, Os Portugueses nas Trincheiras. Um quotidiano de guerra, Lisboa,
Comissão Portuguesa de História Militar, 2002.
Idem, Memórias do General. “Os Meus Três Comandos” de Fernando
Tamagnini, Viseu, SACRE/Fundação Mariana Seixas, 2004.
Idem, Das Trincheiras, com Saudade. A vida quotidiana dos militares
portugueses durante a Primeira Guerra Mundial, Lisboa, A Esfera dos
Livros, 2008.
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Grande Guerra • Ensaios
A guerra e o sagrado
A Grande Guerra trouxe um “regresso aos altares”
em Portugal. Foi a resposta ao desconcerto do mundo
à volta. Em cada 13 famílias portuguesas, uma teve um soldado
mobilizado; em cada 39,6 famílias, um morto ou um ferido.
Ensaio de: António Araújo
Missa para soldados franceses na frente de Champagne, no Leste da França, em 1915
DENISE FOLLVEIDER/COLLECTION ODETTE CARREZ/REUTERS
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Grande Guerra • Ensaios
A
Grande Guerra e o surto da pneumónica foram dois elementos
essenciais para a redescoberta do espírito religioso nos alvores
da década de vinte do século passado, fenómeno que teria
influência decisiva na reconfiguração das relações entre a Igreja
e o Estado e também no surgimento de uma militância católica mais
activa no plano político.
A presença da Guerra, seja nas trincheiras, seja na home front,
contribuiu para um “regresso ao sagrado”, aquilo que em França se
designou por “regresso aos altares”. Os soldados vieram “melhores,
maiores, vivendo mais perto de Deus”, dizia Mário de Almeida (O
Clarão da Epopeia, 1919). Augusto Casimiro, um membro do Corpo
Expedicionário Português (CEP) escreveria numa carta: “Nunca, nunca
senti Deus como agora, nem a minha alma respirou um ar mais puro e
forte...”. Casimiro afirmava que “os calvários redimem” e que os soldados
eram os “cristos desta guerra”, porventura numa aproximação ao célebre
Cristo das Trincheiras, actualmente exposto no Mosteiro da Batalha.
Outros, como o escritor Aarão de Lacerda, iam ao ponto de afirmar: “A
guerra actual deve ter sido uma límpida fonte de inspiração sagrada.” Não
foi coincidência o facto de a União Gráfica ter publicado uma novela, da
autoria de Ricardo Cruz, que envolve um médico abastado de ascendência
aristocrática, Jacques d’Hautenay, uma religiosa francesa, a irmã Suzanne,
um clérigo, frei Agostinho, e o personagem central, o capitão Maurício
Estêvão Garcia que, ferido em combate, beneficia da assistência da
Igreja, que o encaminha no sentido da fé cristã. A novela – com o título
expressivo Da Parte de Deus! – termina com o falecimento do herói
lusitano e a frase lapidar: “Compreendi a grande lição da Morte.” A ideia da
necessidade de amparo espiritual, que provoca nos descrentes uma espécie
de inveja da fé, está especialmente presente na peça Os Cegos, de Joaquim
Leitão. São curiosíssimos os diálogos aí travados entre um alferes agnóstico
e um capelão militar. O alferes diz que, apesar de não temer a Deus,
permitia a acção do sacerdote (“Bem sabe que não contrario a sua missão”),
60
Grande Guerra • Ensaios
e o padre reconhece o facto (“Esse favor lhe devo. Deus lh’o agradecerá”).
No final, o alferes confessará, obviamente, que lamentava não crer em Deus
e que tinha inveja dos que foram tocados por essa graça.
Os relatos literários e memorialísticos da Grande Guerra – e da
religiosidade na frente – pecam por algum exagero ou, na melhor das
hipóteses, não retratam com fidedignidade as dificuldades vividas pelos
(poucos) capelães militares que faziam a assistência religiosa às tropas
portuguesas. No seu “diário”, o Pde. Lopes de Melo queixava-se que era
olhado com “desconfiança” e “tanta indiferença”; dias depois, confessa
a “triste impressão” com que ficou por ter detido na estrada os soldados
que tentavam escapar à missa que iria ser celebrada numa capelinha em
ruínas, sob uma chuva de granadas do inimigo.
A questão que se coloca é a de saber se o frémito religioso nasceu
apenas com o temor da guerra ou se já estava latente na sociedade
portuguesa. Alguns, mais empenhados, não têm dúvidas, como sucede
com António Corrêa d’Oliveira, possivelmente o autor dos poemas
alusivos à guerra onde a marca da fé católica é mais visível. O seu livro
Soldado que vais à guerra fala em verso de um carteiro que ao crepúsculo
distribuía as cartas vindas da Flandres nas aldeias de Portugal. Aí, era
indiscutível que a fé não se perdera, apesar de todos os esforços do
doutor Afonso Costa:
Então, há lá pela aldeia
Quem se esqueceu de rezar?
Oh, Senhor! Que nem o creia:
Comerem o pão da ceia,
Sem louvor ao Pão do altar!
Também na frente de batalha os soldados não esqueceram o
catolicismo que trouxeram de Portugal, como numa mensagem em verso
que um ferido envia à mulher que deixou na aldeia:
61
Grande Guerra • Ensaios
Vim parar ao Hospital...
(Não tenhas pena, Maria!
Tratou de mim, noite e dia,
Um Anjo de Portugal,
Que me falava e sorria...).
A ideia de que a religiosidade era algo que já estava impregnado no
espírito de muitos portugueses surge igualmente na peça 9 de Abril,
de António Botto; num bairro pobre de Lisboa, uma das personagens
femininas, Florinda, assoma à janela quando ouve as tropas a marchar
para a guerra, e logo exclama “Nossa Senhora os acompanhe!”. É
extremamente difícil – e relativamente secundário – saber se a I Grande
Trincheiras do sector português na frente ocidental: Portugal terá redescoberto a fé católica com
a I Guerra Mundial ARNALDO GARCEZ / LIGA DOS COMBATENTES
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Grande Guerra • Ensaios
Guerra fez nascer sentimentos
religiosos novos ou se se limitou a
É difícil –
despertar convicções que a política da
e relativamente
República não conseguira erradicar.
secundário – saber
O importante é notar o impacto social
de um conflito em que, segundo os
se a I Grande Guerra
fez nascer sentimentos dados oficiais, compilados em 1926,
55 mil homens integraram o C.E.P., 30
religiosos novos ou se mil combateram em Moçambique e 23
se limitou a despertar mil em Angola. No C.E.P., morreriam
mais de 2200 militares. Em cada 13
convicções que a
política da República famílias portuguesas, uma teve um
soldado mobilizado; em cada 39,6
não conseguira
famílias um morto ou um ferido; e
erradicar
em cada 182 famílias uma teve um
prisioneiro de guerra. Uma realidade
com esta dimensão não pode deixar de ter tido uma tradução no plano
dos comportamentos, das atitudes e das mentalidades. Se ocorreu
um recrudescimento do interesse pelo espiritismo, logo condenado
pela Santa Sé, se em alguns países, como o Reino Unido, se verificou
uma simplificação dos rituais fúnebres e um incremento da defesa da
cremação, ao mesmo tempo que a morte passou a ser evocada em lieux
de mémoire como os cemitérios ou os memoriais de guerra, se, enfim,
há toda uma natural atracção pelo sobrenatural e pelo religioso, não é
improvável que em Portugal se tenha assistido a uma redescoberta da fé
católica perante o desconcerto do mundo envolvente.
Para mais, o Papa Bento XV desde o início manifestara a posição da
Igreja em favor da imparcialidade da Igreja e do restabelecimento da
paz, como ficou patente na encíclica Ad Beatissimi, logo de Novembro
de 1914, na alocução ao Consistório de Janeiro de 1915, em diversas
proclamações sobre a situação dos soldados e dos capelães militares,
63
Grande Guerra • Ensaios
Em cada 39,6 famílias portuguesas, uma teve um soldado morto ou um ferido COLLECTION ODETTE CARREZ / REUTERS
na mensagem aos beligerantes Allorchè fummo ( Julho de 1915), na
famosa exortação à paz de Agosto de 1917 e, enfim, através de inúmeras
diligências diplomáticas e negociações secretas, algumas das quais
levadas a cabo na Alemanha pelo Núncio Pacelli. Entre nós, o católico
Artur Bívar, num livro intitulado A Religião e a Guerra, escrevia
em 1918 que “a guerra, com todo o seu cortejo de calamidades, é
uma grande missionária. Inegáveis consequências tem, por certo, o
chamamento de tantos milhões de homens à realidade dos supremos
sacrifícios – para uns, o da imolação da própria vida nos campos de
batalha; para outros o da resignação ao rompimento dos laços que lhe
faziam a existência menos agra de levar”. Dizia ainda “que nas horas
acerbas da tribulação volve o homem com mais empenho seus olhares
para Deus”, concluindo pela existência de um “justo quinhão à guerra
no actual renovamento religioso”.
64
Grande Guerra • Ensaios
Se há quem afirme que movimentos culturais como o modernismo
são indissociáveis da guerra de 1914-1918, esta é igualmente responsável
pelo renascimento de um conjunto de valores tradicionais, ligados
a conceitos como “patriotismo”, “glória de combater”, a par de um
novo nacionalismo e de uma nova religiosidade. A grande catástrofe
europeia cria uma atmosfera favorável à emergência de visões fantásticas
e oníricas, algumas das quais impregnaram também o microcosmos
cultural português, em novelas para consumo de massas que relatavam
sonhos apocalípticos, alucinações com Joana d’Arc ou freiras que
asseveravam ter visto anjos nos campos de batalha.
Uma das histórias mais populares da altura dizia que, em Mons, grupos
de anjos protegeram os soldados britânicos em 1914; em contrapartida,
muitos asseguraram que tinham visto demónios ao lado das tropas
alemãs. Nas páginas da Revue Spirite, escrevia-se que os mortos tinham
formado um batalhão próprio, “para apoiar os soldados nesta contenda
épica”. Outro cultor do espiritismo garantia que viu mortos a marchar
na parada de celebração do armistício. Por seu turno, a novela de
cariz espírita Raymond, da autoria de
Oliver Lodge, escrita em homenagem
Por todo o lado se
a um filho morto em Ypres, tornouviam as sequelas
se um best-seller com várias edições
do conflito,
entre 1916 e 1919, sendo muito popular
nas trincheiras. Eram ainda muito
irreversivelmente
impressas nos corpos populares as fotografias de espíritos,
que mostravam imagens nebulosas de
dos mutilados
mortos que gentilmente se deixavam
captar pelas câmaras. E poder-se-ia
citar ainda, mas agora num plano diverso, a famosa cena dos mortos
de guerra que se levantam das campas no filme J’Accuse (1919), de Abel
Gance, tema também explorado literariamente por Roland Dorgèles na
novela Le retour des morts, ou o muito popular Os Quatro Cavaleiros
65
Grande Guerra • Ensaios
do Apocalipse (1919), baseado na obra homónima de Blasco Ibañez, em
que o herói de guerra, protagonizado por Rudolfo Valentino, morto em
combate, aparece em sonhos à sua amante e diz-lhe que volte para o
marido, um senador francês que ficara cego na linha da frente.
Existiam, a par disso, crenças mais sintonizadas com a ortodoxia, que
emergiram, aliás, do início ao fim do conflito. Aquando da mobilização,
os ingleses que se alistavam erigiram, nas ruas de Londres, o que
designaram por “santuários de rua”, que tiveram grande êxito junto da
população católica de origem irlandesa mas foram igualmente apoiados
pela Igreja Anglicana. A revista católica francesa Frères d’armes contava
a história de uma piedosa marraine
de guerre, que se destacara por enviar
Milhões de preces
cartas e pacotes de víveres aos soldados,
foram dirigidas
e dedicava agora os seus esforços do
pós-guerra a rezar pelas almas dos
aos Céus para que
militares mortos que se encontravam
chegassem cartas
no Purgatório, de modo a apressar a sua
dos entes queridos
ida para o Céu. São também exemplares
ou, quando ocorria
os milhares de monumentos aos mortos
da Grande Guerra que se ergueram por
o pior, para que não
toda a Europa, sendo mais exuberantes
fosse verdade o que
os dos países católicos do que os das
estava escrito nas
terras protestantes (nestas, preferiammensagens vindas
se memoriais simples, normalmente
obeliscos em vez de cruzes e sem
do “front”
grandes ornatos). Não só muitos deles
têm motivos religiosos, contendo figuras
como a Pietà, cruzes ou alusões à Paixão de Cristo, como à cerimónia
da sua inauguração, a que compareciam desde veteranos e mutilados
de guerra às crianças das escolas, assistia normalmente a autoridade
eclesiástica local, que não raras vezes benzia o monumento ou dedicava
66
Grande Guerra • Ensaios
uma oração às vítimas da
beligerância humana.
Mesmo quando os
discursos eram deixados
a cargo das autoridades
locais ou dos presidentes
das comissões que lançaram
os memoriais de guerra
eram frequentes as alusões
religiosas, citando-se muitas
vezes trechos do Antigo
Testamento – como a luta
de David e Golias – ou do
Evangelho. Em França, foram
reconstruídas dezenas ou
mesmo centenas de igrejas
que a guerra destruíra, e
muitas delas foram decoradas
com claras referências ao
conflito bélico: na Notre
O soldado português José Ribeiro Barbosa e os seus
Dame de Bertincourt, uma
camaradas junto a um Cristo das Trincheiras DINO
RAMALHETE / PORTUGAL 1914.ORG
imagem da Virgem a pedir
a Cristo pela alma de um
soldado morto; em Ecourt-Saint-Quentin, anjos a acompanhar aos céus
as almas dos caídos em combate. Em Inglaterra, em certas igrejas foram
mesmo colocados vitrais com imagens de tanques, peças de artilharia e
aviões de guerra. Na Alemanha, na catedral de Kemnath, um vitral mostra
um monge beneditino ajoelhado junto ao féretro de um soldado morto.
Os traumas do pós-guerra marcaram a consciência europeia de uma
forma absolutamente nova: por todo o lado se viam as sequelas do
conflito, irreversivelmente impressas nos corpos dos mutilados, que em
67
Grande Guerra • Ensaios
França ganhariam o epíteto de les gueules cassées, ou, entre nós, dos
jovens conhecidos como “gaseados da Flandres”.
No norte de França e na Flandres, entre outros locais, improvisaramse milhares de cemitérios ad hoc, e as famílias tiveram de batalhar
para conseguirem exumar os corpos dos seus entes queridos. Perante
a irredutibilidade das autoridades francesas – que se recusavam a
deixar que os pais, mesmo às suas custas, levassem os cadáveres dos
filhos para as suas terras – criou-se mesmo uma indústria clandestina
de exumações, através da corrupção dos coveiros, o que enfureceu os
militares, responsáveis pela guarda dos cemitérios, e os mais pobres, que
consideravam ser a exumação dos entes queridos um privilégio reservado
aos ricos. A questão cruzou argumentos nos dois sentidos - “não separem
aqueles que a morte uniu”, diziam uns; “o sacrifício destes jovens foi
feito em nome dos laços familiares”, replicavam outros – e acabou por ser
discutida pelo Conseil d’État; no final, o Ministro da Guerra, em Junho de
1919, proibiu todas as exumações na zona das operações militares, não
atendendo àqueles que defendiam a então chamada “desmobilização dos
mortos”, inclusivamente por motivos religiosos.
Para muitos católicos, a exumação dos mortos era a única forma de os
retirar de cemitérios secularizados e de lhes dar um enterro conforme às
suas convicções religiosas; alguns chegaram mesmo a avançar argumentos
anti-semitas, sugerindo que o Ministério da Guerra não permitia as
exumações porque a maioria dos seus altos funcionários eram judeus.
E quando, em Setembro de 1920, o Ministério da Guerra permitiu a
recuperação dos cadáveres, não só foi necessário montar uma imensa
estrutura para proceder à remoção e transporte de cerca de 300 mil
corpos reclamados pelas famílias, como se abriram novas controvérsias,
nomeadamente em torno da questão de saber quem tinha o direito a ficar
com os corpos, se os pais – cujas associações diziam serem preponderantes
os laços de sangue – se as viúvas (venceram os primeiros). Além das
numerosas cerimónias em honra dos soldados desconhecidos que
68
Grande Guerra • Ensaios
ocorreram um pouco por todo o lado – desde o Arco do Triunfo, em Paris,
à Abadia de Westminster, em Londres, passando pelo Mosteiro da Batalha,
em Portugal, ou locais congéneres na Nova Zelândia, Bélgica, Estados
Unidos, Canadá, Itália ou Austrália – o gigantesco movimento de exumações
e os milhares de serviços fúnebres a que deu lugar foram naturalmente
pretexto quer para uma rememoração da
Guerra, quer para uma revivescência de
Calcula-se que 3 dos
sentimentos religiosos associados à dor
9 milhões de mortos
pela perda dos entes próximos.
Durante o conflito bélico
deixaram viúvas,
propriamente dito, tais sentimentos
além de cerca de 6
desenvolveram-se de forma muito
milhões de órfãos.
profunda não apenas em face da
Foram um grupo
morte – ou da possibilidade da morte
– mas também das notícias da morte.
bastante permeável
Explicando melhor, as dificuldades de
ao proselitismo
comunicação e a lonjura da frente de
religioso
combate faziam com que, em muitos
casos, às famílias fossem dadas notícias
tardias ou pouco claras sobre o que acontecera aos seus filhos. A isto
acresce o facto de, em muitos casos, ser difícil ou impossível identificar
os cadáveres e de milhares de soldados que pura e simplesmente tinham
desaparecido, engolidos nas trincheiras pelas explosões dos obuses ou
mortos nos campos de prisioneiros. Só na batalha do Somme cerca de 73
mil corpos de militares dos Aliados nunca foram descobertos.
Mesmo quando era possível resgatar os corpos, o caos instalado na
frente de combate dificultava as tarefas de identificação dos cadáveres.
Corriam, por isso, rumores de que as notícias vindas da Flandres não
eram fiáveis; circularam histórias sobre soldados que tinham falsamente
sido dados como feridos ou mortos e que, miraculosamente, reapareciam
dias depois junto dos seus camaradas – a que não será estranha a
69
Grande Guerra • Ensaios
circunstância de se verificarem muitas deserções temporárias na linha
da frente – ou que posteriormente se sabia terem sido aprisionados pelo
inimigo. Dizia-se às famílias que os seus parentes tinham sido feridos ou
que haviam morrido mas muitos não acreditavam na fria singeleza com
que, em duas ou três linhas, as mensagens oficiais os informavam do que
se passara nas trincheiras.
As mensagens raramente precisavam o grau de gravidade dos
ferimentos, as partes do corpo atingidas ou sequer em que local os
soldados se encontravam a ser tratados, o que contribuía para aumentar
a ansiedade das famílias. Os
que viviam mais perto dos
pontos de combate ou os
mais abastados não hesitaram
em deslocar-se para lá, em
busca dos seus familiares
ou, mais frequentemente,
para os acompanhar
enquanto se encontravam
hospitalizados. A esperança
de que os seus filhos ou
maridos continuassem vivos
ou perdidos nas neblinas da
Flandres, mesmo posta contra
o que diziam as autoridades
militares, levou muitos a
refugiarem-se no sagrado.
Milhões de preces foram
dirigidas aos Céus para
que chegassem cartas
dos entes queridos ou,
quando ocorria o pior, para
70
Grande Guerra • Ensaios
que não fosse verdade o que estava escrito nas mensagens vindas do
“front”. É sintomático que na Austrália tenham escolhido sacerdotes
para comunicar às famílias as notícias das mortes em combate.
Compreender-se-á melhor o peso que a religiosidade adquiriu se a tudo
isto juntarmos a acção de numerosos
grupos de voluntários, uns ligados
A pulsão religiosa era à Cruz Vermelha, outros às diversas
sentida de forma tão
confissões religiosas, que se dirigiam
junto das famílias enlutadas ou dos
veemente que alguns
mutilados para lhes prestar auxílio
chegavam a criticar
espiritual e, em certos casos, material.
a atitude passiva dos
Os feridos de guerra, por sua vez,
bispos portugueses
começaram a constituir associações
praticamente logo que chegaram da
frente, muitas delas com ligações às igrejas. As viúvas tornaram-se um
grupo social importante – calcula-se que 3 dos 9 milhões de mortos na
Grande Guerra deixaram viúvas, além de cerca de 6 milhões de órfãos
– e, de um modo geral, bastante permeável ao proselitismo religioso,
tanto mais que a esse proselitismo estavam associadas actividades
caritativas e de apoio material que se revelavam indispensáveis para
minorar a situação economicamente débil das viúvas, num tempo em
que o homem era o único sustento do lar e a assistência do Estado tinha
uma expressão assaz reduzida.
Salvo nos casos de famílias mais abastadas, enviuvar significava cair na
pobreza e ter de abandonar quase todos os hábitos de vida que se tinham
antes de o marido partir para a frente de combate. Como a mortalidade
incidiu em especial nas patentes mais baixas, ou seja, naqueles que,
em princípio, provinham dos estratos inferiores da sociedade, é fácil
perceber a dimensão social que este fenómeno adquiriu. Para lidar com
ele, adoptaram-se soluções diferenciadas: em Inglaterra, prevaleceu
a tradição filantrópica vitoriana, centralizada na Soldiers’ and Sailors’
71
Grande Guerra • Ensaios
Families Association; na Alemanha, o Estado, na linha da política social
de Bismarck, tomou a si o encargo, através das autoridades locais,
de proteger as viúvas e os órfãos, ainda que posteriormente a espiral
inflacionista dos anos vinte tenha desbaratado o valor das pensões de
guerra; em França, foram as organizações de caridade, na maioria ligadas
à Igreja, quem se ocupou da situação das viúvas, facto que certamente
terá contribuído para um fortalecimento do catolicismo. É legítimo supor
que o mesmo terá sucedido em Portugal.
A organização da memória da Grande Guerra foi também fortemente
marcada pelas igrejas. Em França, por exemplo, foram criadas
hospedarias, com o nome de santos, para albergar a preços módicos os
milhares de viajantes que iam em peregrinação visitar as campas dos
seus familiares. Na cidade de Paris, o clérigo Fred Keller levou a cabo um
ambicioso programa de assistência que consistia na construção de casas
para famílias pobres – a Cité de souvenir, que ainda hoje existe. Cada uma
das famílias “adoptava” um soldado morto na Guerra, cujo nome era
colocado numa placa à entrada da respectiva habitação; no pátio, uma
capela decorada com murais de Desvallières que comparavam a vivência
dos soldados à via crucis de Cristo lembrava à posterioridade a marca da
Igreja nesse projecto social.
A recomposição do campo católico
Tendo um profundo impacto espiritual e religioso, a guerra teria um
efeito decisivo na recomposição do catolicismo português, permitindo o
seu regresso à esfera pública de uma forma que teria sido impensável nos
tempos da Lei da Separação, de Abril de 1911.
Num elogio às virtudes militares dos soldados portugueses, feito em
1921, o marechal Gomes da Costa centrar-se-á num “pobre herói, que
meteram num navio com uma arma ao ombro, sem lhe dizerem para
onde ia”; morrerá dignamente em combate, recordando “a religião que a
72
Grande Guerra • Ensaios
Mãe lhe ensinara, e o heroísmo que o seu coronel lhe pregara”. As crenças
religiosas e as convicções patrióticas fundiam-se, assim, no espírito
do soldado português que o cabo-de-guerra comovidamente evocava.
A mesma comoção percorre as páginas que Jaime Cortesão dedica ao
florescimento da fé religiosa, a alternativa possível de que o povo simples
dispunha ao culto patriótico personificado em Camões.
A pulsão religiosa era sentida de forma tão veemente que alguns
chegavam a criticar a atitude passiva dos bispos portugueses. Em
França, Adelino Mendes enternece-se ao assistir a um serviço religioso
em Notre Dame de Paris, onde se implorava a protecção divina para os
exércitos que enfrentavam os alemães. Questiona, então, a razão pela
qual os prelados portugueses não fariam o mesmo. Era uma crítica algo
injusta. De facto, já em Janeiro de 1915 o Patriarca Mendes Belo escrevia
ao Presidente da República propondo o envio de capelães militares para
a frente de combate, e também não foi por acaso que a Associação do
Registo Civil e a Federação Portuguesa do Livre Pensamento lançaram
a campanha “Sem Deus!”, que protestava pela presença de padres nos
regimentos e a distribuição de símbolos religiosos aos soldados.
A participação de capelães militares na Grande Guerra, com efeito,
contribuiu de forma decisiva para melhorar a imagem da Igreja e para
engrandecer o prestígio de alguns sacerdotes. Um deles é o padre Luís
Lopes de Melo, assistente eclesiástico do C.A.D.C., que se voluntaria como
capelão militar e regressará ferido da Flandres. Outro, o do padre José
Ferreira de Lacerda, que esteve em França com o Corpo Expedicionário
Português entre Maio e Setembro de 1917 e se tornará um dos mais activos
propagandistas da causa de Fátima.
O caso mais emblemático é, todavia, o do futuro bispo de Beja, D.
José do Patrocínio Dias, que para sempre ficará conhecido como “bisposoldado”. Um dos fundadores do C.AD.C. – instituição que, de resto, se
orgulhará da participação dos seus associados no conflito de 1914-18 –
Patrocínio Dias fora preso durante a I República, mas com a permissão
73
Grande Guerra • Ensaios
de assistência religiosa na frente de guerra será designado chefe do corpo
voluntário de capelães. Toda a sua carreira futura será marcada pela
experiência na Grande Guerra, onde conquistou diversas condecorações.
Assim, será membro do Conselho Superior da Liga dos Combatentes da
Grande Guerra, fundada em 1924, e da Comissão dos Padrões da Grande
Guerra. A celebração de exéquias em memória dos mortos da guerra
constitui mais um pretexto para aproximar a Igreja e a República.
Em 9 de Abril de 1921, celebra-se missa por alma dos soldados
desconhecidos, a que comparece o Patriarca Mendes Belo e quase todos
os prelados do continente, tendo a missa sido celebrada pelo cónego
Manuel Anaquim com pregação de D. Manuel Mendes da Conceição
Santos. No dia seguinte, realiza-se a trasladação dos restos mortais do
Soldado Desconhecido para o Mosteiro
da Batalha, numa cerimónia solene
O conflito levou
presidida por António José de Almeida
ao alinhamento
e em que estão presentes o marechal
dos católicos e à
Joffre, o generalíssimo Diaz e José
do Patrocínio Dias, este envergando
sua progressiva
vestes episcopais e ostentando ao peito
autonomização
as medalhas que distinguiram a sua
em face do campo
heroicidade na frente de combate.
monárquico
Num gesto impensável pouco
tempo antes, Afonso Costa conversou
amigavelmente com o Cardeal Patriarca e felicitou de forma calorosa
o bispo de Beja. “Dispensaram o Senhor Presidente da República e o
Governo as atenções devidas ao clero. Tanto na Basílica da Estrela como
no mosteiro de Santa Maria da Vitória, assistimos às cerimónias religiosas.
Prestaram-se todas as homenagens ao Sr. Cardeal Patriarca, que foi, de
resto, duma impecável correcção. No banquete oferecido às missões
estrangeiras pelo Senhor Presidente da República, estiveram presentes
o Arcebispo de Mitilene em representação do Cardeal Patriarca, doente,
74
Grande Guerra • Ensaios
e o Bispo de Beja. Tornou-se público o entendimento entre o Estado e
a Igreja” – escreveu Domingos Pereira ao Ministro de Portugal junto da
Santa Sé, em 21 de Abril de 1921.
Dois anos depois, em Abril de 1923, D. José do Patrocínio Dias
falará sobre “as virtudes do soldado português” na Sociedade de
Geografia de Lisboa, na sessão comemorativa da batalha do Lys, a
que comparece o Presidente da República, António José de Almeida.
Na altura, já havia sido sagrado bispo de Beja, ocasião em que,
significativamente, recebeu um telegrama de felicitações de António
José de Almeida em que este relembrava “o dedicado e brioso capelão
militar em cujo peito justamente se ostenta a Cruz de Guerra da
República Portuguesa”.
O processo que o conduziu à chefia da diocese pacense ilustra bem
o estado das relações entre a Igreja e o Estado no pós-guerra. Recordese que o Patriarca escreve ao Papa pedindo-lhe a sua intercessão
pelos portugueses (“vos enfants portugais”) prisioneiros dos alemães.
Originalmente, pensava-se que na diocese de Portalegre seria colocado
Patrocínio Dias e na de Beja Domingos Frutuoso, mas o Ministro dos
Negócios Estrangeiros escreve ao Vaticano pedindo-lhe que as respectivas
colocações fossem trocadas, o que a Santa Sé aceita. O Estado português
dará sinais de reconhecimento: António José de Almeida acede ao pedido
que lhe é feito para restaurar a Sé da Guarda para que aí fosse sagrado,
como bispo de Beja, José do Patrocínio Dias.
A trajectória do prelado pacense é, pois, um bom exemplo do impacto
da Grande Guerra na situação religiosa em Portugal. Deve notar-se,
além disso, que a “guerra” não se cingiu ao que se passava na frente de
batalha. O conflito levou ao alinhamento dos católicos e à sua progressiva
autonomização em face do campo monárquico, que culminaria na
adopção de uma estratégia de ralliement, com a bênção da Santa Sé, de
que os homens do Centro Católico, como Lino Neto e Oliveira Salazar,
seriam os principais expoentes.
75
Grande Guerra • Ensaios
Se não existem dados que permitam sustentar, de forma inequívoca,
a ideia de que foi a guerra que começou a abrir fissuras entre
católicos e monárquicos, há muitos elementos que comprovam o
antigermanismo de destacados fiéis. O caso mais expressivo é o de
Fernando de Souza, que numa volumosa obra publicada em 1918, com
o título A Grande Guerra (Aspectos christãos e patrioticos), retrata
o conflito armado, em que o “mundo se transmudou em colossal
lioneira de feras”, como um choque de civilizações entre paganismo
e cristianismo – ou, para usar as suas expressões, entre o “cesarismo
pagão e o imperialismo dominador” e os “direitos das pequenas
nações” e as “doutrinas fundamentais da civilização cristã”.
Para alicerçar esta tese, que correspondia no essencial à linha
defendida pela Igreja Católica em França, e mesmo por personalidades
dos meios culturais como Charles Maurras ou Jean Cocteau (que a partir
de 1914 lançou nas páginas do seu jornal, Le Mot, uma campanha contra
a influência germânica na arte moderna), Fernando de Souza fornece
exemplos terríficos do martírio de sacerdotes – como os do padre Vouaux,
a quem um oficial alemão vazou os olhos
com a ponta de uma espada ou o dos
O afervoramento da
clérigos que leccionavam em Lovaina e
crença religiosa é a
foram encarcerados nus numa pocilga
de porcos – e, bem assim, de inúmeras
fonte por excelência
destruições sacrílegas perpetradas
da força moral, do
pelas tropas germânicas nos templos
desprezo dos perigos, da Bélgica. não hesita em falar no
da aceitação da morte surgimento de um “neo-paganismo”,
que mergulhava as suas raízes na “orgia
para bem servir a
filosófica” da Alemanha do século XIX,
pátria. Quem pode,
responsável pelo “atoleiro materialista”
com verdade, negá-lo? que legitimou a Kulturkampf
Artur Bívar
bismarckiana.
76
Grande Guerra • Ensaios
Em contraste, são apresentadas as inúmeras iniciativas do Vaticano
em prol da paz: a encíclica de 1 de Novembro de 1914; os discursos no
Consistório em 22 de Janeiro e 6 de Dezembro de 1915; a nota de Gasparri
de 6 de Julho de 1915; a carta de 4 de Março de 1916 ao Cardeal Vigário de
Roma; o encontro do cardeal Mercier com o Papa, no princípio de 1916,
no decurso do qual é entregue ao Santo Padre uma carta colectiva do
Episcopado belga; a nota pontifical de 5 de Maio de 1917 dirigida por Bento
XV ao cardeal Gasparri.
Fernando de Souza exalta ainda o papel de figuras católicas como o
cardeal Mercier, Mons. Braudillart, reitor do Instituto Católico de Paris, o
cardeal Luson, de Reims, e, bem assim, de personalidades como Barrès
ou Clémenceau. Sustenta ainda, numa argumentação que ocupa diversas
páginas, a matriz essencialmente católica do direito das gentes, que a
Alemanha desrespeitara, e a tese de que a Maçonaria e suas figuras de
proa, como Magalhães Lima, eram germanófilas. A resposta ao avanço
da ímpia Germânia – que, entre o mais, punha em causa o “renascimento
católico” que se vivia em França, como acentuou Artur Bívar – só poderia
ser encontrada na fé: “O afervoramento da crença religiosa é a fonte
por excelência da força moral, do desprezo dos perigos, da aceitação da
morte para bem servir a pátria. Quem pode, com verdade, negá-lo?”.
Nesse sentido, e virando-se para a realidade portuguesa, Fernando de
Souza pede aos católicos que rezem pelos combatentes (“oremos pelos
nossos valentes soldados. Que Deus os proteja e lhes dê a vitória final”) e
enaltece o papel da assistência religiosa em campanha e das iniciativas
lançadas pelos fiéis: as madrinhas de guerra (“a caritativa influência da
madrinha torna mais familiar ao soldado o pensamento de Deus”), a
Festa da Flor, a Liga de Acção Social Cristã, a Comissão Pro-Pátria, do
Brasil, a Liga Nacional, presidida pelo conde de Bertiandos, a Comissão
Central de Assistência Religiosa em Campanha, fundada em Fevereiro
de 1917, que tinha como presidente o arcebispo de Mitilene e como vicepresidente Aires de Ornellas, contando ainda nos seus corpos dirigentes
77
Grande Guerra • Ensaios
com personalidades como o conde das Alcáçovas, Mons. Amadeu Ruas,
os cónegos António Moita, Aires Pacheco e Martins Pontes, o conde de
Caria, Henrique de Mendonça, Tomás de Mello Breyner, Domingos Pinto
Coelho, Lino Neto, Pereira dos Reis, D. António Serpa Pimentel e D.
Thomaz Manoel de Vilhena. E é com regozijo que Fernando de Souza dá
conta da presença das autoridades civis, com destaque para o Chefe do
Estado e o Governo, em actos religiosos ligados à participação de Portugal
na Guerra, como as exéquias celebradas na Sé em 16 de Maio de 1918 ou o
Te Deum de 24 de Novembro do mesmo ano.
Isto não comprova a ideia de que foi a Grande Guerra que autonomizou
os católicos da órbita monárquica, mas é um bom testemunho de
que, além do que se passava na frente de combate, o conflito tinha
consequências no plano interno, nomeadamente o claro alinhamento dos
católicos com a causa dos Aliados.
A vitória destes daria um contributo decisivo para o “renascimento
católico” dos anos subsequentes – e para a afirmação pública de certas
personalidades ligadas à Igreja. Entre todos, destacou-se um nome:
António de Oliveira Salazar.
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Grande Guerra • Ensaios
Pela primeira vez todos
fotografaram a guerra
Nunca nenhuma guerra fora tão fotografada. O enorme
desenvolvimento tecnológico da fotografia, ao longo da segunda
metade do século XIX e na primeira década do século XX,
permitiu que as imagens da Guerra 1914-18 se multiplicassem
com uma velocidade nunca vista
Ensaio de: Filipa Lowndes Vicente, historiadora, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
A passagem das tropas portuguesas sob o Arco do Triunfo, em Paris, após vitória dos Aliados, como
testemunhou a câmara de Arnaldo Garcez ARNALDO GARCEZ / LIGA DOS COMBATENTES
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Grande Guerra • Ensaios
O
que são as fotografias da I Guerra Mundial? As fotografias oficiais
tiradas pelos militares de ambos os lados da barricada, em vários
momentos do seu novo quotidiano? As imagens pessoais daqueles
soldados que levaram as suas próprias máquinas fotográficas para
a frente de batalha? Os retratos dos jovens soldados, feitos longe de casa,
e enviados às mães e mulheres - a última imagem para muitos deles? As
fotografias oficiais, sujeitas ao crivo da censura, consciente do poder das
imagens como arma de guerra, que depois eram impressas em jornais ou
em folhetos? As fotografias, horríficas, para uso exclusivo de médicos, a
mostrar as feridas dos soldados e os efeitos, desconhecidos, das novas
tecnologias de combate? Ou as fotografias dos mortos, enquanto prova
mais dura do conflito, do que de pior tinha acontecido? Todas elas são
fotografias da guerra. Todas são produzidas nos diferentes contextos
da guerra. E todas podem ser pensadas como objectos históricos para
melhor se compreender os diversos aspectos do conflito.
Nunca nenhuma guerra fora tão fotografada como a I Guerra Mundial.
O enorme desenvolvimento tecnológico da fotografia, ao longo da
segunda metade do século XIX e na primeira década do século XX,
permitiu que as imagens da Guerra 1914-18 se multiplicassem com uma
velocidade nunca vista e que o seu impacto tivesse lugar ainda durante
o decurso do conflito. O uso da máquina fotográfica e a impressão de
imagens democratizaram-se. Passara a ser fácil e barato tirar fotografias.
O postal fotográfico, inventado na transição do século, tornara-se uma
forma de comunicação comum. E os exércitos e governos também já
sabiam como as imagens podiam ser uma arma de guerra.
Os progresso da tecnologia
Em 1854, o fotógrafo britânico Roger Fenton esteve na Guerra da Crimeia
e, um ano depois, os visitantes da Exposição Universal de Paris de 1855
puderam já ver as suas imagens. Não uma guerra mostrada através da pintura
80
Grande Guerra • Ensaios
Foi pela lente de garcez que ficou gravada uma dança tradicional na partida de soldados portugueses
para África ARNALDO GARCEZ / LIGA DOS COMBATENTES
ou da gravura, mas um conflito representado através de uma nova técnica de
reprodução que fora patenteada em 1839 - a fotografia. Em meados do século
XIX a discussão ainda ia no adro - a fotografia pertencia à “indústria” ou às
“belas-artes”? Era um meio mecânico ou um meio artístico? Na Exposição
Universal de Paris de 1855, a primeira de várias que tiveram lugar nas
décadas seguintes, a fotografia foi exposta no edifício dedicado à indústria.
No livro Esquisses Photographiques a propos de l”Exposition Universelle
et de la Guerre d”Orient, Ernest Lacan tratou a exposição, a fotografia e a
guerra da Crimeia numa só abordagem. “Graças ao Monsieur Fenton, esta
moderna Ilíada já tem o seu pintor, tal como um dia terá os seus poetas.»
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Grande Guerra • Ensaios
As guerras faziam parte da história e tanto a literatura como a pintura
contribuíam para preservar a sua memória. Em meados do século XIX, a
fotografia surgia como um novo instrumento deste processo, mesmo que
a identidade profissional daquele que realizava as fotografias fosse ainda
ambígua. O mesmo crítico chamava “pintor” a Roger Fenton, mas as suas
obras estavam expostas no edifício dedicado à indústria.
Ao longo da segunda metade do século XIX, as guerras, conflitos
armados, acções políticas e todos aqueles acontecimentos que eram
considerados “históricos” foram fotografados. Não apenas na Europa
onde as técnicas de reprodução fotográfica tinham sido inventadas - por
Daguerre, em França, ou por Nièpce, em Inglaterra - mas num mundo
global que logo se apropriou das múltiplas possibilidades da fotografia.
O mesmo veio a suceder com
a I Guerra Mundial. Ou seja, as
transferências de conhecimento
que possibilitaram a divulgação
globalizada da fotografia,
em 1914, transformaram
um conflito europeu na
primeira guerra “mundial”. O
desenvolvimento dos meios
de reprodução, a mobilidade
e a comunicação associados às
múltiplas conexões territoriais,
proporcionadas pelos
impérios coloniais, criaram
os novos espaços e tempos
que acabaram por multiplicar
os cenários de guerra e os
envolvimentos de tantas nações
O próprio Arnaldo Garcez de câmara na mão CPF
e respectivas colónias.
82
Grande Guerra • Ensaios
Quando em 1914 rebentou o conflito, o fundador da Kodak, George
Eastmann, já lançara no mercado a “Vest Pocket”, ou “soldier”s camera”.
Uma máquina que, tal como o nome sugere, se podia guardar num bolso
de casaco. Ou num uniforme militar. O seu carácter portátil permitia
uma nova mobilidade, bem distinta da que era permitida pelas câmaras
de madeira e tripé. Podiam ser levadas em viagens ou excursões. Mas
também podiam ser levadas para a guerra. A fotografia estivera, desde os
seus começos, associada aos momentos excepcionais da vivência humana
- uma ida com os filhos ao estúdio fotográfico, uma visita real ao país
vizinho, o dia do casamento, a visita à Torre Eiffel.
A guerra também era um evento excepcional e temporário. Embora
quase sempre menos temporário do que se pensava à partida. As guerras
implicavam quase sempre viagens, sendo estas momentos que deviam
ser preservados na memória, oral, escrita ou material dos indivíduos.
Aqueles que viajavam por lazer partiam com a obrigatoriedade da escrita
(de diários de viagem ou de correspondência) e, mais tarde, com a
obrigatoriedade de trazerem imagens para casa. O aristocrata britânico
do século XVIII que trazia o seu auto-retrato pintado durante o Grand
Tour italiano; a norte-americana que se fazia fotografar em Paris durante
o seu tour europeu na segunda metade do século XIX; o casal moderno
que obrigava a família a longas sessões de slides nos anos 1970, ou os
jovens que transformam o seu Erasmus em feeds diários de selfies onde
apenas variam os cenários. Os soldados também viajavam para a guerra.
E, quando regressavam, também traziam as cartas, postais, fotografias ou
mesmo diários com que tinham registado a sua experiência.
Fotografar na linha da frente
O controle sobre a produção de imagens passou a estar não apenas
nas mãos dos fotógrafos profissionais, mas de um número muito mais
alargado de homens e, em menor número, também de mulheres.
83
Grande Guerra • Ensaios
Nos cenários de guerra ou nos países envolvidos no conflito podemos
identificar sobretudo três tipos de fotógrafos: os fotógrafos oficiais,
contratados pelo exército ou pelas autoridades; os repórteres
fotográficos, ao serviço de jornais; e os amadores, que se dedicavam à
fotografia por iniciativa própria.
O exército português também teve o seu fotógrafo oficial em Arnaldo
Garcez (Santarém, 1885-1964). Quando no Cais de Santa Apolónia se deu o
primeiro embarque das tropas nacionais para França, em Janeiro de 1917,
com os soldados partiram três homens cuja função não era a de combater,
mas a de representar a experiência de guerra através da fotografia, do
desenho e da pintura. Ao acompanhar o Corpo Expedicionário Português,
o pintor Sousa Lopes, que se especializara em pintura de história
durante os vários anos da sua estadia em Paris, pôde pôr em prática a
sua especialidade. A história em directo,
vivida, e sofrida, sobretudo através
Nas trincheiras, com
de águas-fortes, a preto e branco tal
como as fotografias da guerra. Cristiano
as condições de vida
limitadas aos mínimos Cruz, artista que já se destacara com
os seus desenhos e traço satírico com
da sobrevivência,
que apreendia a contemporaneidade. E
um postal permitia
Arnaldo Garcez.
Quando se deu a República em 1910,
enviar uma imagem,
Garcez era já um fotógrafo profissional
fotográfica ou
que colaborava com vários jornais da
desenhada, com umas capital. Na altura em que se começou
breves palavras
a ponderar a participação de Portugal
no conflito, Norton de Matos, ministro
da Guerra, convidou-o a fotografar os treinos militares que decorriam em
Tancos. Tomada a decisão de avançar para Flandres, Garcez tornou-se a
escolha natural para fotografar a participação portuguesa na guerra. Partiu
com o exército mas não voltou com ele após o Armistício de 1918, pois
84
Grande Guerra • Ensaios
Joshua Benoliel retratou o desfile do CEP no Parque Eduardo VII em 1917 JOSHUA BENOLIEL / AML
continuou por França até ao ano de 1921. O casamento com uma francesa e
o nascimento de três filhos também terão adiado o seu regresso.
Quer em França, quer já em Portugal, continuou a documentar os
resquícios e destroços do conflito, contribuindo para a construção,
imediata, da memória da guerra. Escolhido para membro da Comissão
de Padrões da Grande Guerra, organizou exposições fotográficas sobre
a guerra; envolveu-se na construção dos cemitérios em França onde
ficaram tantos portugueses e fotografou as transladações de corpos,
inauguração de monumentos aos mortos e todas as cerimónias de luto
e lembrança. Isto, claro, depois da euforia da vitória aliada - que ele
também testemunhou, ao acompanhar as tropas portuguesas a passar sob
o Arco do Triunfo de Paris, ou nas ruas engalanadas de Londres.
A “guerra” de Garcez desobedeceu a algumas das instruções superiores
que decidiam aquilo que podia ou não podia ser fotografado e aquilo
85
Grande Guerra • Ensaios
que podia ou não ser visto. O estatuto do exército português - entre
uma afirmação nacional que queria defender as suas colónias africanas
da ameaça alemã, e a dependência da Inglaterra, que secundarizava o
seu poder militar - também teve implicações na prática da fotografia.
As imagens de Arnaldo Garcez tinham que passar no crivo censório do
exército britânico.
Os 16 fotógrafos oficiais britânicos, deslocados em vários teatros de
guerra, já estavam sujeitos a uma política de propaganda que decidia
aquilo que permanecia nos arquivos militares ou o que deveria ser visto
pelo público. Havia que mostrar os aspectos negativos do inimigo, sem
revelar o pior da guerra, e sem abalar o espírito combativo e entusiasta
que as populações deveriam manter. O esforço de guerra afectava todos,
incluindo aqueles que não estavam na frente da batalha, e que sabiam da
guerra sobretudo pela imprensa. Para os muitos que, em Portugal, não
sabiam ler, as fotografias impressas em jornais eram a guerra visível.
Postal fotográfico
Em 1916, um ofício confidencial da Secretaria da Guerra ordenava
à Comissão de Censura que não se publicassem fotografias sobre
assuntos militares em jornais “sem que apresentem uma prova vizada
neste Ministério”. O principal jornal a publicar imagens da guerra - em
desenho ou em fotografia - era a Ilustração Portuguesa, tal como a França
tinha L”Illustration e a Inglaterra o Illustrated London News. A primeira
capa que a Ilustração Portuguesa dedicou à guerra foi logo em Outubro
de 1914. Não uma fotografia, mas um desenho de um soldado feito por
Stuart de Carvalhais. Era o momento da mobilização das tropas por toda a
Europa, mas não deixava de ser ainda um acontecimento estrangeiro.
Perante a ameaça alemã às fronteiras coloniais de Moçambique e
Angola, pouco depois, Portugal enviou as primeiras tropas portuguesas
para um cenário de guerra. O embarque dos navios para África foi
86
Grande Guerra • Ensaios
fotografado pelo prestigiado
fotojornalista Joshua Benoliel,
juntamente com Garcez,
Novais e outros, testemunha
dos acontecimentos políticos
e públicos portugueses das
primeiras décadas do século
XX. Desfiles das tropas
destinadas às colónias, navios
atulhados de soldados ou,
num registo distinto, um
soldado abraçado à sua
mãe já velha. A Ilustração
Portuguesa colocou esta
imagem na capa e legendou
o soldado com «um sorriso,
misto de ternura, de coragem
e da consciência do dever.»
Que saibamos não partiu
nenhum fotógrafo oficial para
Soldado do cigarro, o cabo Sementes ARNALDO GARCEZ
as colónias africanas, tendo
ficado o registo fotográfico da
experiência nas mãos dos amadores, quase sempre oficiais do exército. João
Alves de Melo, por exemplo, “soldado-repórter”, terá regressado à metrópole
com as imagens que depois enviou para a Ilustração. Os registos da presença
militar em África são assim mais fragmentados e dispersos, sem a unidade
do trabalho de Garcez que, dos treinos em Tancos antes da partida, até ao
enterro dos mortos, contou da experiência militar portuguesa na Europa
uma história reflexiva, intimista e com preocupações totalizantes.
As centenas de fotografias realizadas por Garcez mostram tudo
menos a morte (ou as da morte foram feitas e não se sabe do seu
87
Grande Guerra • Ensaios
Desfile do Corpo expedicionário Português pela Avenida da Liberdade JOSHUA BENOLIEL / AML
paradeiro): os treinos com a máscara antigás a que as novas tecnologias
de guerra obrigavam; os acampamentos provisórios, onde a logística
do quotidiano se tivera de reinventar em espaços inóspitos; os
momentos de espera entre batalhas, em que se partilhavam cigarros
e conversas; o transporte, o movimento entre diversas frentes; os
encontros oficiais entre o exército português e o inglês; uma igreja
na Flandres arruinada por um bombardeamento; as crianças locais a
brincarem entre escombros; os vários momentos da visita do Presidente
Bernardino Machado à frente de batalha, como aquela onde visita
um ferido no hospital militar; os repórteres de guerra a escrevinhar
desconfortavelmente deitados no chão. Ou os retratos emblemáticos de
88
Grande Guerra • Ensaios
Desfile do Corpo expedicionário Português pela Rua Augusta, a caminho do embarque JOSHUA BENOLIEL / AML
dois soldados de cigarro na boca. Um, o cabo “Sementes”, sem nome
e sem esperança. Outro, sem nome mas com a identidade militar de
pertencer ao batalhão do regimento de Infantaria n.º 7, a mostrar na
lapela a condecoração da Cruz de Guerra.
Quem é que viu estas imagens ? Onde é que foram reproduzidas? Logo
em 1916, Arnaldo Garcez participa com outros fotógrafos da sua geração
na Primeira Exposição Nacional de Photographia realizada em Novembro
de 1916 no Palácio Nacional de Bellas Artes Lisboa e promovida pela
revista Arte Photographica. Ao lado de Domingos Alvão, Jorge de Almeida
Lima ou Villarinho Pereira, apresenta 12 fotografias mas, apenas com os
89
Grande Guerra • Ensaios
seus títulos, não sabemos se a guerra já aparecia exposta - mesmo com
uma das legendas denominada “raça heróica”.
Em França, no entanto, 75 das suas fotografias foram utilizadas
numa colecção de postais fotográficos sobre a guerra editados pelo
Corpo Expedicionário Português. A transformação da fotografia em
postal fotográfico, para venda e circulação massificada, era já uma
prática corrente. Nascido em finais do século XIX, o postal era ainda
um meio recente, mas a guerra acabou por lhe dar um forte impulso.
Ao forçar a mobilidade de milhões de pessoas em diversas regiões
do mundo e ao afastar famílias e amigos durante longos espaços
de tempo, a guerra acabou por ser um espaço privilegiado para o
desenvolvimento do postal.
Nas trincheiras, com as condições de vida limitadas aos mínimos da
sobrevivência, um postal permitia enviar uma imagem, fotográfica ou
desenhada, com umas breves palavras. Texto e imagem, num pequeno
rectângulo viajavam dos cenários de guerra para as moradas dos que
tinham ficado e de quem se tinha saudades. As mães e os pais, mas
também as mulheres, e as noivas que não se deveriam esquecer deles
e deveriam esperar pelo seu regresso. Os postais amorosos - com
encenações realistas de casais em fotografias por vezes pintadas e
decoradas - conheceram uma grande popularidade durante a guerra.
Eram a ligação possível. Foi uma guerra onde se escreveu muito de
sofrimento mas também se escreveu muito de amor.
Mulheres na guerra
As mulheres ficaram - quase todas - mas não ficaram paradas. Christina
Broom, por exemplo, uma das primeiras mulheres britânicas fotógrafas
de reportagem, especializou-se em fotografar os soldados em Londres,
antes de partirem para a guerra (Exposição no Museum of London, em
2015). A ausência dos homens e as necessidades de alimentar os teatros
90
Grande Guerra • Ensaios
de guerra com armamento e logística militar obrigaram-nas a assumir
novos tipos de trabalho.
A fotografia deste período dá conta deste fenómeno um pouco por toda
a Europa, embora os casos britânico e francês sejam talvez aqueles com
maior visibilidade. Mulheres a conduzirem transportes públicos enquanto
os maridos faziam de soldados. Sentadas em uniforme, às dezenas, em
fábricas improvisadas ou a lidar mais directamente com os resultados da
guerra, nos hospitais improvisados que acolhiam os mutilados e feridos
que proliferavam com os novos tipos de ataques.
Com o exército português também partiram mulheres - as “damas
enfermeiras auxiliares” da Cruz Vermelha Portuguesa, “senhoras da
melhor sociedade” que tinham feito o curso de enfermagem e que
se voluntariaram para trabalhar nos hospitais da frente de batalha
francesa. Garcez fotografou-as várias vezes, contribuindo assim para
a multiplicação de imagens de mulheres a prestar serviços de saúde
durante a guerra.
As mulheres que ficavam usavam a fotografia como a memória dos que
tinham partido. Os usos privados da fotografia, a unir aqueles que a guerra
afastara na projecção da dor e da saudade, na troca de correspondência,
na memória, individual, de cada família são um fenómeno que, apesar de
menos visível, não deve ser descurado. Para as famílias daqueles que não
regressaram da guerra, a fotografia do morto quando ainda estava vivo
tornou-se num dos objectos mais olhados e preservados da memorialística
intíma. Vestidos com o uniforme militar antes de partirem, muitos não
puderam voltar a ser fotografados. Estas fotografias de guerra permanecem
sobretudo nos arquivos familiares. Outras foram preservadas em museus
de fácil acesso, como o Imperial War Museum londrino, onde as fotografias
portuguesas da primeira guerra são uma ínfima parte de um espólio que
possui quase 11 milhões de fotografias. Outros conjuntos de imagens da I
Guerra continuam a ser descobertos, como aquele que se encontrou há uns
anos num celeiro abandonado de uma aldeia no Nordeste da França.
91
Grande Guerra • Ensaios
Mas, 100 anos depois, nem a fotografia guarda todas as memórias - não
se sabe quem foi o autor das 400 chapas fotográficas de vidro, um amador
provavelmente, nem quem são as centenas de soldados britânicos que
para ele posaram. Os arquivos de guerra continuam a ser desenterrados
para enriquecer a cultura visual do primeiro conflito a ser tão fotografado
na história da humanidade. Depois de 1918, nos muitos conflitos armados
que se seguiram, a fotografia continuou a assumir todas as suas facetas e a
ser usada tanto como um instrumento nas estratégias de guerra, como um
antídoto para a dor.
Bibliografia
Catálogo da primeira Exposição Nacional de Photographia realizada em
Novembro de 1916 no Palácio Nacional de Bellas Artes Lisboa e promovida
pela revista Arte Photographica.
Gen. Ferreira Martins, dir., Portugal na Grande Guerra (Lisboa: Ática, 1934).
António Pedro Vicente, Arnaldo Garcez. Um repórter fotográfico na 1.ª
Grande Guerra (Porto: Centro Português de Fotografia, 2000).
Cor. Cav.ª Conde Falcão, Imagens da I Guerra Mundial (Lisboa: EstadoMaior do Exército, 2004).
Jorge Pedro Sousa, A Grande Guerra. Uma crónica visual - Parte I. Estudo
do discurso em imagens da Ilustração Portuguesa (1914-1918) sobre a
participação portuguesa na I Guerra Mundial (Porto: Media XXI, 2013).
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92
Grande Guerra • Ensaios
As mulheres foram activistas
na guerra, depois voltaram ao lar
As feministas acreditaram que, devido ao empenho das
mulheres no esforço de guerra, viriam a ser recompensadas no
mercado do trabalho, teriam acesso a novas profissões e a uma
maior igualdade profissional, conseguiriam alguns direitos,
nomeadamente o do voto — o que não vai acontecer em Portugal
e duma maneira geral nos países da Europa do Sul.
Ensaio de: Anne Cova, investigadora no ICS-ULisboa
Fábrica de munições em França REUTERS / ARCHIVE OF MODERN CONFLICT LONDON / HANDOUT VIA REUTERS
93
Grande Guerra • Ensaios
D
urante todo o período da Grande Guerra, uma ideia que dominou
os movimentos feministas nos países beligerantes foi a de que as
mulheres adquiriram hábitos de iniciativa e responsabilidade tais
que seria desperdício não os aproveitar findo o conflito, como
sintetiza a historiadora Anne Cova, do Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa
Uma ideia muito difundida é que as mulheres, graças ao seu activismo
durante a Grande Guerra, conseguiram obter vários direitos. Assim, a
guerra teria produzido um efeito benéfico para os direitos das mulheres.
Por exemplo, no que diz respeito à cidadania política, com a obtenção do
direito de voto feminino em muitos países - Dinamarca (1915), Países Baixos
(1917), Alemanha (1918), Áustria (1918), Reino Unido (1918), Polónia (1918),
Rússia (1918), Bélgica (1919), Suécia (1919) - parece corroborar esta asserção.
No entanto, outros países, incluindo Portugal, concederam o voto para todas
as mulheres muito mais tarde: em Portugal depois do 25 de Abril de 1974,
Suíça (1971), Grécia (1952), Itália (1945) e França (1944). À leitura da Primeira
Guerra Mundial como um período que terá gerado grandes oportunidades
para as mulheres - nomeadamente no mercado do trabalho - enaltecendo
o lado positivo do conflito, opõe-se uma outra abordagem, que destaca
o carácter conservador da guerra em termos de relações entre homens e
mulheres. De facto, nos anos vinte, as mulheres são “convidadas” a regressar
ao lar. Tendo em conta estas duas perspectivas, pretende-se analisar, de
maneira sucinta, a mobilização das mulheres portuguesas bem como os
seus efeitos, numa perspectiva comparada e transnacional : “L’histoire des
femmes en temps de guerre (...) est un sujet aujourd’hui mieux compris dans
une optique transnationale” [1 - Ver Bibliografia no final do texto].
Atrás das linhas da frente
A guerra não se desenrolou apenas com os homens na frente. Ocorreu
94
Grande Guerra • Ensaios
Mão-de-obra feminina numa fábrica em França, 1916 ARCHIVE OF MODERN CONFLICT LONDON/REUTERS
também “behind the lines”, onde as mulheres desempenharam vários
papéis [2]. Esta mobilização sem precedentes não foi contudo tão
elevada como pode parecer à primeira vista: a mão-de-obra feminina
em França cresceu apenas 8%, passando de 32% antes da guerra a
40% durante o conflito; em Inglaterra, de 24% a 38%. Em Portugal,
a mobilização aconteceu mais tarde do que na maioria dos países
beligerantes porque só a 9 de Março de 1916 o país entrou no conflito,
com a declaração de guerra da Alemanha. De uma maneira geral, “com
excepção das enfermeiras (...), a mobilização da mão-de-obra feminina
é, por todo o lado, lenta e tardia” [3]. Isso verificou-se também nos
EUA, onde não houve um salto importante da população trabalhadora
feminina com a intervenção tardia no conflito, em Abril de 1917. A
mobilização das americanas vai crescer somente em 1918, incentivada
95
Grande Guerra • Ensaios
pelas várias associações feministas (em vários países, as feministas, na
sua larga maioria, pediram a mobilização das mulheres, sendo este um
dever e querendo mostrar as suas capacidades).
Agosto de 1914 marca a data do início da guerra. É também nesse ano
que é fundado o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP),
que tinha por objectivo federar o máximo de associações de mulheres
afim de “coordenar, dirigir e estimular todos os esforços tendentes à
dignificação e à emancipação das mulheres” - o CNMP estava, por sua
vez, filiado no International Council of Women (ICW), fundado em
Washington em 1888 para “estabelecer uma comunicação constante entre
as associações de mulheres de todos os países”.
Quando Adelaide Cabete (1867-1935) fundou o CNMP, em Abril de 1914,
Piquenique de oficiais alemães da força aérea, em 1918 REUTERS / ARCHIVE OF MODERN CONFLICT LONDON /
HANDOUT VIA REUTERS
96
Grande Guerra • Ensaios
em Lisboa, tinha já experiência enquanto militante feminista: fazia parte
do Grupo Português de Estudos Feministas (criado em 1907 por Maria
Veleda); tinha participado, em 1909, com Ana de Castro Osório e Fausta
Pinto da Gama, na criação da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas,
movimento ligado ao partido republicano, que apoiou a queda da monarquia
constitucional; e tinha fundado, em 1911, com Carolina Beatriz Ângelo, a
Associação de Propaganda Feminista, liderada por Ana de Castro Osório.
Durante a Grande Guerra, foram fundadas várias associações de
auxílio aos combatentes, federadas pelo CNMP. Entre elas, a Cruzada
das Mulheres Portuguesas (CMP) e o Núcleo Feminino de Assistência
Infantil da Junta Patriótica do Norte foram as que tiveram mais
As acções de beneficência, como a Venda da FLor, em Lisboa, eram uma ocupação das mulheres
JOSHUA BENOLIEL / AML
97
Grande Guerra • Ensaios
impacto e maior longevidade.
A 27 de Março de 1916, menos de vinte dias depois da declaração
de guerra da Alemanha a Portugal, nasce a CMP, por iniciativa de
Elzira Dantas Machado, mulher do Presidente da República [4]. Com
o objectivo de apoiar os soldados e os prisioneiros de guerra, a CMP
tinha origem na Associação de Propaganda Feminista. Esta última tinha
também participado com outras feministas na criação da Comissão
Feminina “Pela Pátria”, que, como o nome indica, pretendia fazer
propaganda patriótica. A CMP conseguiu fundar várias comissões e
subcomissões, espalhadas pelo país e pelas colónias. Apoiou ainda
a criação de Escolas de Enfermagem, incrementando um corpo de
enfermeiras de guerra, e fundou três hospitais de rectaguarda. Em
Agosto de 1916 é criado o Núcleo Feminino de Assistência Infantil da
Junta Patriótica do Norte, no Porto, presidido por Filomena Nogueira
de Oliveira, com o objectivo de dar apoio aos órfãos dos soldados.
Todas estas associações provinham
do campo republicano. Do lado das
1914 teria podido ser
monárquicas e católicas, a 20 de Março
o ano das mulheres,
de 1916, onze dias depois da entrada de
Portugal no conflito, coube-lhes fundar,
mas foi o ano da
guerra, que veio repor a Assistência das Portuguesas às Vítimas
da Guerra, presidida pela Condessa
cada sexo no seu
Maria Amélia de Carvalho Burnay.
lugar.”
A primeira década do século XX
é considerada a Belle Époque dos
Françoise Thébaud,
in “A Grande Guerra”
feminismos, que se tornaram
movimentos transnacionais. É nesse
período que surgem homólogos do CNMP como o Conseil National des
Femmes Françaises, fundado em Paris em 1901, e o Consiglio Nazionale
delle Donne Italiane, criado em Roma em 1903 . De facto, “1914 teria
podido ser o ano das mulheres, mas foi o ano da guerra, que veio repor
98
Grande Guerra • Ensaios
Enfermeiras cuidam de ferido REUTERS
cada sexo no seu lugar” [5].
Um mês antes do deflagrar da guerra, no dia 5 de Julho, as feministas
francesas fizeram uma grande manifestação sufragista junto à estátua
de Condorcet, em Paris, marcando o apogeu do movimento feminista.
Também nessa altura, em Londres, a National Union of Women’s
Suffrage Societies organizou um imenso desfile. Este período de ouro
acabou com o desencadear do conflito e as feministas pedem então às
mulheres para servir os seus países e deixar de lado as reivindicações e,
consequentemente, a obtenção de direitos.
A União Sagrada prevalece e, na imprensa, não faltam apelos dos
grandes nomes dos feminismos à mobilização das mulheres (apesar das
dificuldades que enfrenta a imprensa em geral e os jornais feministas
em particular). É paradigmático o caso da imprensa feminista francesa:
a 1 de Setembro, o editorial de Marguerite Durand em La Fronde é
99
Grande Guerra • Ensaios
censurado; La Française, de Jane Misme, suspende a sua publicação
entre 5 de Julho e 15 de Novembro de 1914; Le Droit des femmes não foi
publicado até Março de 1915; L’Action féministe reduz o seu formato; Le
Bulletin de l’Union Française pour le Suffrage des Femmes deixa de ser
publicado; Le Féminisme intégral foi publicado irregularmente; La
Suffragiste não foi publicado durante a guerra. Em Portugal, o Boletim
Oficial do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (que passou a
intitular-se Alma Feminina a partir de Janeiro de 1917), publicou apenas
sete números durante a guerra.
Os artigos oscilam entre o patriotismo - apelando ao dever da
mobilização e do auxílio – e o pacifismo - denunciando os horrores da
guerra. As hesitações entre os dois “ismos” - patriotismo e pacifismo
- estiveram presentes quando as feministas portuguesas do CNMP
ponderaram a sua participação no congresso pacifista de Haia em 1915
– o único organizado durante o conflito - para, finalmente, desistirem
seguindo a recomendação da presidente do ICW, Lady Aberdeen, enviada
a todos os conselhos nacionais de mulheres. Do lado das francesas do
CNFF, onde a retórica do patriotismo era muito exaltada, a recusa foi
imediata. O CNFF ordenou rapidamente às francesas o cumprimento dos
seus deveres contribuindo para o esforço de guerra e excluiu do conselho
a feminista pacifista Gabrielle Duchêne. Minoritárias eram as vozes
pacifistas mesmo no seio das feministas tais como a inglesa Vera Brittain
ou a francesa Hélène Brion.
Servir a União Sagrada
“Servir” ficou lema para as associações de mulheres que queriam
mostrar o seu patriotismo e o cumprimento dos seus deveres. Um apoio
que tomou diversas formas: assistência, beneficência, caridade, criação
de ateliers de costura, confecção de agasalhos, recolha de donativos,
apoio moral aos soldados com as madrinhas de guerra, visitas aos
100
Grande Guerra • Ensaios
Enfermeiras da Cruz Vermelha portuguesa destacadas em França LIGA DOS COMBATENTES
feridos nos hospitais, etc. As fontes iconográficas e orais testemunham
a mobilização das mulheres como condutoras de eléctricos ou de
ambulâncias e auxiliares do Exército. Não há dúvida de que as mulheres
entraram no mercado de trabalho assumindo todos os papéis que os
homens deixaram de poder exercer.
Dependendo do sector de serviços, a mobilização teve variações - a
indústria de munições tornou-se obviamente prioritária e, em França,
a personagem da munitionnette, operária de fábricas de munições, foi
frequentemente evocada na imprensa. Outras actividades consideradas
como prerrogativas das mulheres foram glorificadas: a figura da
enfermeira recebeu mais elogios representando a abnegação, “A maior
mãe do Mundo”, segundo um cartaz americano da Cruz Vermelha. Não
é fortuita a ênfase colocada nas enfermeiras e nas mães - e, em geral, na
101
Grande Guerra • Ensaios
prestação social - porque evocam as qualidades “naturais” das mulheres
como a caridade e a compaixão. Uma leitura das fontes introduzindo o
conceito de género mostra que as enfermeiras - este “exército branco”
segundo a expressão da historiadora Stefania Bartoloni - ficaram sempre
subordinadas aos médicos [6].
No dia 25 de Agosto de 1914, Julie Siegfried, presidente do CNFF, emite
um comunicado pedindo a mobilização das mulheres em torno da guerra.
Em Dezembro desse ano, o CNFF organiza, sob a direção de Marguerite
Pichon-Landry, o gabinete de informações das famílias dispersas, e, no
início de 1915, o gabinete da actividade feminina, subvencionado pelos
Ministérios da Guerra e do Armamento. São igualmente criadas creches,
especialmente nas fábricas de guerra.
Em 1916 é fundada uma Secção de Estudos Femininos (SEF) no Museu
Social, onde o ministro socialista
do Armamento, Albert Thomas, vai
Exército branco”
escolher dez mulheres, num total de
era, segundo
quarenta e cinco membros, para formar
a expressão da
um comité do trabalho feminino na
historiadora Stefania Subsecretaria de Estado da Artilharia e
das Munições, cuja finalidade é gerir a
Bartoloni, como
mão-de-obra feminina nas fábricas de
ficaram conhecidas as guerra, e que está na origem da criação
enfermeiras durante
da Escola Técnica das superintendentes
de fábricas. Em Agosto desse ano, uma
a Grande Guerra
delegação de operárias inglesas visita
fábricas francesas onde existe mão-de-obra feminina. Três meses mais
tarde é a vez de uma delegação francesa do comité do trabalho feminino
se deslocar a Inglaterra, a fim de estudar o papel da lady superintendant,
também chamada lady welfare supervisor. Destes contactos resulta a
criação, por cinco mulheres, da Escola Técnica das superintendentes
de fábricas. A Escola, fundada a 1 de Maio de 1917, em Paris, sob
102
Grande Guerra • Ensaios
Enfermeiras portuguesas em França e as enfermeiras militares do Triângulo Vermelho REUTERS, IP
patrocínio dos ministros Albert Thomas e Léon Bourgeois, ocupar-se-ia
da gestão dos serviços sociais destinados às operárias. Algumas leis foram
promulgadas durante a guerra para proteger as trabalhadoras: é o caso da
lei sobre o trabalho ao domicílio, de 10 de Julho de 1915, em França, que
permitiu combater o sweating system.
O facto das mulheres terem deixado o lar para substituírem os homens
nas fábricas não foi tema pacífico e depressa se instalou a crença de que
esta mudança era acompanhada de um enfraquecimento dos valores
morais. Existiu ainda o medo da “masculinização” da mulher, que poderia
conduzir a uma inversão dos papéis [7]. Angústias que culminaram com
os ataques contra o trabalho das mulheres fora de casa. “O regresso ao
lar” foi leitmotiv dos anos vinte.
Regresso ao lar
Durante todo o período da guerra, uma ideia que dominou os
movimentos feministas nos países beligerantes foi a de que as mulheres
adquiriram hábitos de iniciativa e responsabilidade tais que seria
desperdício não os aproveitar findo o conflito. Acreditaram que, devido
ao seu empenho, viriam a ser recompensadas no mercado do trabalho,
103
Grande Guerra • Ensaios
teriam acesso a novas profissões e a uma maior igualdade profissional,
conseguiriam alguns direitos, nomeadamente o do voto - o que não vai
acontecer em Portugal e duma maneira geral nos países da Europa do Sul.
Por parte das feministas portuguesas, era recorrente a ideia de defender
“os interesses morais e materiais da mulher em geral, e trabalhar tanto
quanto possível pelo desenvolvimento da sua instrução e educação moral
e profissional” [8]. Aliás, depois do fim da guerra, o primeiro e o segundo
congresso feminista do CNMP, que tiveram lugar em Lisboa em 1924 e em
1928, serão dedicados à educação.
Nos anos vinte, em vários países, a palavra de ordem passou a ser a
reposição de cada sexo no seu devido lugar. Era valorizada a presença
da mulher no lar e, findo o conflito, a desmobilização aconteceu muito
rapidamente. Se, até pela sua longa duração, a Grande Guerra exigiu
a mobilização das mulheres e lhe permitiu acesso à esfera pública, as
mudanças duraram tão somente o tempo do conflito. “Pensar a Grande
Guerra numa perspectiva das mulheres e de género” [9] significa
introduzir uma perspetiva sexuada na análise dos acontecimentos que
enriquece a história contemporânea.
Bibliografia
[1] Jay Winter, Avant-propos des volumes 1, 2 et 3. L’histoire de la Première
Guerre mondiale: le moment transnational, in Jay Winter (dir.), La Première
Guerre mondiale, Paris, Fayard, 2013- 2014, 3 vols. Anne Cova (dir.),
História comparada das mulheres. Novas abordagens, Lisboa, Livros
Horizonte, 2008.
[2] Para retomar o título do livro seguinte: Margaret Randolph Higonnet,
Jane Jenson, Sonya Michel, Margaret Collins Weitz (Eds), Behind the lines:
Gender and the Two World Wars, New Haven, Yale University Press, 1987.
[3] Françoise Thébaud, A Grande Guerra: o triundo da divisão sexual, in
104
Grande Guerra • Ensaios
Georges Duby, Michelle Perrot (dir.), História das Mulheres no Ocidente,
Porto, Afrontamento, 1995, p. 38.
[4] Natividade Monteiro, Pela Pátria e pela República”. As Mulheres
republicanas na I Guerra Mundial, in Zília Osório de Castro, João Esteves e
Natividade Monteiro (dir.), Mulheres na Iª República. Percursos, Conquistas
e Derrotas, Liboa, Colibri, 2011, pp. 179-215.
[5] Françoise Thébaud, A Grande Guerra... op. cit., p. 35.
[6] Stefania Bartoloni, Donne nella Croce Rossa Italiana tra guerra e
impegno sociale, Venezia, Marsilio, 2005.
[7] Susan R. Grayzel, Women’s Identities at War: Gender, Motherhood
and Politics in Britain and France during the First World War, Chapel Hill,
University of North Carolina Press, 1999.
[8] Alma Feminina, Janeiro de 1917, nº1, p. 1.
[9] Título da conferência de Françoise Thébaud no seminário de pósgraduação de História do ICS-ULisboa, 20 de Junho de 2014.
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105
Grande Guerra • Ensaios
Celebrar a vitória em dia
de derrota – afinal, a quem
pertencem as políticas da
memória da I Guerra Mundial?
Acabada a guerra, o que havia em Portugal para comemorar?
A polémica entre a responsabilização política da “derrota”
ou de uma “vitória mutilada” estendeu-se por três regimes
Desfile de antigos combatentes da Primeira Guerra Mundial junto à estação do Rossio, Lisboa FOTÓGRAFO NÃO
IDENTIFICADO/ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
106
Grande Guerra • Ensaios
(o Sidonismo, de novo a República, depois o Estado Novo) e
inviabilizou a possibilidade de se estabelecer uma memória
consensual da participação portuguesa na I Guerra Mundial.
Poucos anos mais tarde, o esquecimento acabaria por se impor.
Ensaio de: Sílvia Correia, Professora do Instituto de História da Universidade Federal Rio de Janeiro /
Investigadora do IHC – UNL.
Em vão busquei um sorriso na multidão, dificilmente achei
o das mulheres perdidas. Francamente, para vir para Lisboa
não vale a pena a gente ter-se batido[i].
P
ercorrer os lugares que chamam a si os mortos da Grande Guerra,
passados 100 anos do início do conflito que lhe deu origem, é olhar
para o esquecimento que compôs a sua memória em Portugal.
Menção a um tempo que a memória histórica incorporara já como
esquecimento. Pensar esses lugares de memória equivale a pensar o
esforço que implica alguma referência ou identificação entre os mortos
representados e aqueles que hoje se cruzam com eles.
Discursos e memoriais servem processos de disseminação da morte,
transformando o soldado morto no herói de salvação da pátria. Tratase, ontem como hoje, de aniquilar o impacto sobre a opinião pública
da massa de mortos, neutralizando-a em novas estruturas materiais e
imateriais de tradição local, simulando um novo léxico da morte, uma
nova retórica - “em guerra não se morre mas sim cai-se, a vida não se
perde mas doa-se, não desaparece no nada mas vive-se eternamente
no império do heroísmo patriótico”[ii]. Procura-se, assim, evitar a
consternação pelo injustificado sacrifício em massa. O luto individual é
metamorfoseado pelo ritual do culto dos mortos no orgulho consensual
pela morte em nome da pátria. Uma tentativa idílica e metafórica
107
Grande Guerra • Ensaios
de revalorizar a morte, num sentido religioso, político e ideológico.
A experiência fundamental da guerra moderna é, não sem alguma
perturbação, “o assassinato de massa sancionado pelo estado”[iii].
Dulce et decorum, pro patria mori…
De que forma a I República Portuguesa conseguiu dissimular o peso da
sua responsabilidade pela massa de mortos na projeção de uma política
memorial agregadora, consoladora e terapêutica? Conseguiria mesmo?
Afinal, a quem pertencem as políticas da memória?
Em Portugal, foram mobilizados cerca de cem mil homens, primeiro
para África (1914) e depois para a frente europeia (1917), dos quais
resultariam mais de sete mil mortos e cerca de treze mil feridos. Não
obstante os números serem menores em comparação com a maioria
dos Aliados, isso não diminui o impacto de uma guerra total. Porém,
ironicamente, ou talvez não, a memória da I Guerra Mundial caiu no
esquecimento dos portugueses. E não apenas porque alguns daqueles
mortos e heróis foram depostos e abandonados. Os seus combatentes
foram desaparecendo ao longo do século XX. As lutas memoriais por eles
travadas foram sendo, também elas,
substituídas por outras.
Em 1924, aquando do definitivo
Tal como o Soldado
sepultamento dos Soldados
Desconhecido,
Desconhecidos, o periódico monárquico
também os
– O Dia – publica: «A responsabilidade
monumentos aos
da nossa intervenção militar no teatro
europeu da guerra cabe essencialmente
mortos da guerra
ao partido democrático, embora sob
servem para ‘(re)
a falaz tabuleta de uma suposta União
escrever’ valores
Sagrada arrancada à desorientação
republicanos.”
política dos antigos evolucionistas e ao
108
Grande Guerra • Ensaios
Antigos combatentes da Primeira Guerra Mundial no rancho de confraternização que decorreu durante a
Semana do Combatente, 1929-06-30 ATRIBUÍDO A FERREIRA DA CUNHA/ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
instinto da conservação dos unionistas. [...] Deriva para este partido a
necessidade política de comemorar o 9 de Abril como uma data festiva,
embora para tanto seja preciso fazer tábua rasa dos factos. […] A verdade
é que o 9 de Abril é na História de Portugal, que tantas datas gloriosas
pode festejar, uma data de pesado luto […]. É o impudor dessa mentira
que a Nação nunca perdoará, porque ao mais tacanho ocorrerá perguntar
– Se comemoramos o 9 de Abril como uma data gloriosa, que demónios
farão, nesta data, os alemães?»
No imediato pós-guerra, a responsabilização política da “derrota”
ou de uma “vitória mutilada” – apontada à União Sagrada e ao Partido
Democrático – enchia as páginas da imprensa, revelando que, para além
da generalizada crise, a I República falhou numa propaganda eficaz que
109
Grande Guerra • Ensaios
Desfile de tropas portuguesas em Londres, 1918 AGENCE ROL / BIBLIOTHÉQUE NATIONAL DE FRANCE
justificasse a intervenção e, mais do que isso, num projeto memorial
que legitimasse o sacrifício. A concretização rememorativa constitui,
assim, um espelho da vida política nacional, refletindo uma inevitável
instrumentalização da memória de guerra.
Realizada em Lisboa a grande parada de 1921, que consumava a
ratificação internacional da vitória portuguesa ao lado dos Aliados, o
definitivo enterro dos Soldados Desconhecidos na Batalha, passados três
anos, sepultaria também a crença num mito de uma República vitoriosa.
Desde a pouco aplaudida chegada dos soldados a Lisboa, às grandes
cerimónias de receção das tropas, tardiamente introduzidas por Sidónio
Pais, até à dificuldade da determinação oficial do dia comemorativo
da Grande Guerra, entre o Dia do Armistício, a Tomada da Bastilha e
futuramente o 9 de Abril, são visíveis as divisões no seio da sociedade.
110
Grande Guerra • Ensaios
Familiares de soldados mortos em França, a caminho da igreja dos Mártires onde se realizaram exéquias
religiosas, em Abril de 1918 JOSHUA BENOLIEL/ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
Caberá a instituições – como, inicialmente, a Junta Patriótica do Norte
e a Comissão dos Padrões da Grande Guerra e, mais tarde, a Liga dos
Combatentes da Grande Guerra – o levantamento de importantes
realizações na fundamentação de uma memória de guerra heróica.
As comemorações da Grande Guerra transformam-se num turbilhão
de polémicas, tentando incendiar a opinião pública. O temporal do
golpe militar que se avizinhava fazia-se já sentir fortemente nas
efemérides da guerra. A 9 de Abril do ano de 1925, Trindade Coelho,
diretor de O Século, antecipa as argumentações dos homens do 28 de
Maio: «Porque o 9 de Abril constituiu uma das mentiras oficiais do nosso
Estado Político, responsável único pelo desastre das legiões portuguesas
que heroicamente se bateram». Nesse mesmo número, Sinel de
Cordes e Gomes da Costa denunciam o quão foi inglório o esforço do
111
Grande Guerra • Ensaios
Exército: não pela derrota sofrida, mas pela lição que continua perdida,
“prova-o o facto de que a comemoração oficial na batalha consistir
exclusivamente… em comemorações fúnebres”.
As comemorações são, assim, uma simbiose de jogos políticos: cada
tendência política teve a sua posição perante a guerra, assim como teve
diante da instrumentalização da sua recordação. A guerra moderna
reclama uma escala diferente de compensação oficial pelas perdas,
dada a dimensão das mesmas e o seu impacto. Todavia, não se pense
que uma generalização dos fenómenos memoriais aporta, só por si,
uma modernização dos meios e das respostas a utilizar. A apologia da
modernidade, que aparece durante a guerra e em alguns dos primeiros
monumentos aos mortos de guerra, desaparece com a necessidade
de se mascarar a morte, substituindo as formas “mecanizadas” por
moldes mais tradicionais. Serão os temas cristãos clássicos a dominar
os monumentos aos mortos da guerra em Portugal, como já havia sido
manifestamente preponderante nas estruturas cemiteriais militares.
Ultrapassa-se, assim, o universo da religião civil tradicional, em nome de
uma conceção de crença mais alargada.
A desestruturação provocada pela “guerra total” cria um espaço
para novos heróis – conciliadores ideológicos de uma interpretação
oficial do passado histórico – cuja abstração permitiria não só agregar o
número de mortos, bem como se lhe imputar as características dignas
do herói desejável. Ser excecional que se sacrifica em nome da pátria,
oferecendo um ensinamento de solidariedade, o herói é chamado à
função de regenerar a nação. Em Portugal, tratou-se, pois, de recriar
um “Olimpo”, fornecendo um universo de heróis de guerra ao panteão
nacional republicano. O simbolismo deste acontecimento teve impacto e
evidenciou “corrompidas” as bases mais revolucionárias da I República
e da União Sagrada. A violenta secularização de inícios do regime tinha
esmorecido em contexto de guerra, fenómeno que salta à vista nas
iniciativas oficiais de comemoração, face à participação e destaque que
112
Grande Guerra • Ensaios
O Presidente António José de Almeida lançando a primeira pedra do monumento aos mortos da Grande
Guerra, em Lisboa, 1923 FOTÓGRAFO NÃO IDENTIFICADO / ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
membros da Igreja e espaços a ela associados assumem na consagração
do Soldado Desconhecido. Existe em todo este processo memorial uma
tentativa de apaziguamento político e social por parte dos republicanos.
O Soldado Desconhecido concretiza o duplo universo, moderno
e tradicional, dos processos memoriais. A consagração do mais
simbolicamente agregador dos heróis – o Soldado Desconhecido – a 9 de
Abril de 1921, desde a parada em Lisboa à deposição na Batalha, seria a
mais grandiosa manifestação de reconhecimento da vitória portuguesa
do lado aliado da guerra com a participação das mais importantes
representações nacionais e internacionais. Enganam-se, porém,
aqueles que acreditam que a magnificência do acontecimento arrasta,
113
Grande Guerra • Ensaios
por si só, um acordo generalizado.
As comemorações são, Na verdade, não só neste dia, mas ao
longo dos aniversários desta data,
assim, uma simbiose
as contestações faziam-se às opções
de jogos políticos:
formais comemorativas, às implicações
cada tendência
mais gerais do significado da celebração
ou, mesmo, da perda de significado.
política teve a sua
O Soldado Desconhecido são,
posição perante a
afinal, dois. A necessidade de dois
guerra, assim como
Soldados Desconhecidos resultava do
teve diante da
esforço importante em dois campos
de batalha. Um soldado vinha da
instrumentalização
Flandres – a frente europeia – e o outro
da sua recordação.
do império em África, dois campos de
A guerra moderna
interesse e influência internacional
reclama uma
portuguesa crescentemente em
conflito. Porém, a escolha simbólica
escala diferente de
– excecional entre os beligerantes –
compensação oficial
de dois Soldados Desconhecidos não
pelas perdas, dada a
bastou para serenar a divisão interna
dimensão das mesmas que suscitou a intervenção na frente
europeia, diferenciando-se dos demais
e o seu impacto.”
intervenientes na guerra pela primazia –
reinante internamente – dada à ingerência em África.
Apesar de tudo, o elemento que daria azo a maior debate seria a
escolha do lugar para a deposição dos féretros, chegando mesmo a
controvérsia a prolongar-se além da tumulização definitiva no Mosteiro
de Santa Maria Vitória. A Batalha atraiu consensos desejados. Não só se
remetia a um herói de “renovado” consenso nacional – Nuno Álvares
Pereira –, nascido de uma vitória contra as tropas castelhanas – elemento
subjacente à beligerância na frente europeia (o reconhecimento perante
114
Grande Guerra • Ensaios
a Espanha neutral), mas também se trazia simbolicamente ao domínio
público Aljubarrota e um dos seus símbolos. Retirava-se, assim, os
Soldados Desconhecidos das discussões que emanavam dos panteões de
Lisboa das acesas lutas políticas da capital.
Tal como o Soldado Desconhecido, também os monumentos aos mortos
da guerra servem para “(re)escrever” valores republicanos. Salvo as raras
exceções da responsabilidade da Comissão dos Padrões da Grande Guerra,
consagradas à projeção do império além-mar, os monumentos revelam uma
veneração geral pela pátria, desde a representação do serrano às alegorias
(pátria, república e vitória, esta última em menor número), sendo as alusões
à guerra apresentadas como uma dedicação apaixonada, numa apropriação
representativa da liturgia de tradição religiosa. Na verdade, as possibilidades
expressivas dos memoriais escaparam ao controlo oficial, sendo na
generalidade delineadas por instituições republicanas que responderam
aos múltiplos desejos das entidades oficiais e locais e ao universo das
comunidades de luto. Pela necessidade de transcendência da dor e de
compensação universal, os monumentos aos mortos revelam um profundo
conservadorismo, evidenciando, mais do que qualquer outro fenómeno
comemorativo, a natureza da religião cívica. Existe uma necessidade de
perpetuar os rituais de tradição cristã, garantindo uma familiaridade, a
crença no futuro e a transcendência da experiência da guerra.
Em Portugal, é falacioso atribuir a uma iniciativa do Estado Novo qualquer
projeto que apresente características de agigantamento ou de modernismo.
Os conjuntos projetados durante a década 30 são resultado de iniciativas
locais/privadas e politicamente desprovidos de conotação fascizantes.
Estratégia ou condição: celebrar a vitória
política em dia de derrota
De todas as componentes rememorativas, o 9 de Abril sintetiza a
multiplicidade de polémicas em torno da representação da participação
115
Grande Guerra • Ensaios
portuguesa na guerra: por um lado, pela evocação de uma derrota; por
outro lado, por aludir, exclusivamente, ao esforço na frente europeia,
esquecendo, segundo a oposição ou mesmo segundo alguns militares,
a diligência dos soldados em África. Donde, os homens do 28 de Maio
terem procurado afastar-se desta efeméride, centrando as comemorações
no 11 de Novembro, numa desejada procura de consenso, onde a
religião retoma o seu lugar e os próprios sacerdotes adaptam a liturgia,
comparando o sacrifício de Cristo aos dos soldados mortos
O que levaria o governo republicano a comemorar numa data de
derrota, quando tinha o – nacional e internacionalmente consensual –
11 de Novembro?
Tratando-se de uma data alusiva ao momento da guerra em que mais
mortes de portugueses foram infligidas, o 9 de Abril transpõe para
o centro da rememoração o culto dos mortos, elemento aglutinador
116
Grande Guerra • Ensaios
de consenso e respeito, inibindo-se (à partida) manifestações e
contestações da oposição, uma vez que seria facilmente (mesmo por
uma estratégia de identificação e vitimização) invocado o desrespeito
pelos mortos.
Esta justificação não é totalmente satisfatória se for tida em
consideração a proximidade do 11 de Novembro ao dia dos fiéis defuntos
(2 de Novembro). Porém, este, para além de transferir elementos
característicos do culto dos mortos, comportaria a centralidade da
Igreja nas cerimónias, retirando protagonismo ao governo republicano
e à possibilidade de que estas fossem uma celebração laica e secular
onde a celebração litúrgica seria da responsabilidade dos “sacerdotes”
da religião civil. Mais ainda, o fim da guerra encontrou no poder
Sidónio Pais que, imediatamente, se apropriou da vitória dinamizando
e encabeçando os desfiles de celebração e comemoração. Isto inibiu os
republicanos de se associar ao 11 de Novembro, temendo incentivar uma
regular reminiscência do consulado sidonista, associando-o à vitória
portuguesa na Grande Guerra.
A Ditadura Militar traria consigo a oficialização do 11 de Novembro,
retirando do palco das celebrações os políticos republicanos e dando
o protagonismo às Forças Armadas, mas acima de tudo suprime a
centralidade de uma data (irremediavelmente) alusiva a uma derrota do
exército português.
Rutura e continuidade
Jornadas como o 11 de Novembro e o 9 de Abril, em Portugal, exprimem uma
parte da tradição comemorativa e da memória nacional, estabelecendo uma
continuidade com regimes anteriores. Mas são também extraordinariamente
novas, pois resultam, já durante a guerra, de elementos de fusão da
experiência de guerra total e das experiências locais. O choque memorial da I
Guerra em Portugal tem uma estranha forma de vida.
117
Grande Guerra • Ensaios
Os resquícios mais evidentes da guerra – sociais e culturais –
permanecem profundamente agarrados às tradições, temendo uma
rutura e construindo uma memória histórica garante de continuidade
na identidade nacional. Novos e velhos grupos políticos, sociais e
culturais fazem o seu aparecimento ou reaparecimento neste quadro
comemorativo da guerra, como é o caso da Igreja. A forte laicização
que caracterizou a República seria agora desvanecida, uma vez
que num país de forte tradição católica, seria abusivo pensar-se um
processo de instrumentalização da dor e da morte, sem recorrer
à transcendente compensação pelas perdas e às soluções da liturgia
cristã, oficialmente adaptada pelos formatos temporais e espaciais de
enquadramento oficial da representação da guerra.
Terminada a guerra, a realidade portuguesa afigurava-se
extremamente desfavorável e embrenhada numa profunda dialética
entre os divergentes interesses precursores da intervenção na
contenda e as dramáticas consequências. Desde a eufórica e imediata
celebração da vitória, levada a cabo pela apropriação sidonista, à
frágil perpetuação memorial pelas profundas dissidências políticas e
sociais, inviabilizou-se a possibilidade de se estabelecer uma memória
consensual da participação portuguesa na I Guerra Mundial, embora
sem impedir que os republicanos colocassem Portugal no quadro dos
formatos comemorativos europeus.
Durante o Estado Novo, as comemorações da Grande Guerra
gradualmente desaparecem, o que é estranho considerando a forma
como a guerra e a sua memória foram apropriadas durante a Ditadura
Militar. No ano de 1941, por determinação de Salazar, a data do “9 de
Abril” deveria ficar inteiramente esquecida, limitando-se as comemorações
à deslocação ao talhão de combatentes nos respetivos cemitérios[iv].
A incapacidade republicana em estimular um reconhecimento na
causa intervencionista e, de forma mais controversa, na vitória aliada,
precipitou o declínio e a banalização comemorativa, esgotando-se as
118
Grande Guerra • Ensaios
possibilidades de um ideológico reforço identitário da I República,
enquanto legítima representante do povo português.
A Ditadura Militar e o Estado Novo irão, respetivamente, moldar e
amputar a apropriação política das representações da guerra. Estas foram
perpetuadas, até o limite possível e no seu formato republicano pela
Liga dos Combatentes da Grande Guerra, associação que sobreviveu às
concentrações do regime corporativo, mas não na sua forma original.
Interessava, não propriamente o aniquilamento público do esforço
português da Grande Guerra, mas o fim do reconhecimento da vitória na
guerra enquanto esforço de uma União Sagrada, de um partido, ou de
um regime político específico. Este esvaziamento memorial – a criação de
um espaço neutro – é um efeito paradoxal da própria deriva republicana.
As políticas da memória da guerra durante a I República
determinariam, mais uma vez, que esta não culminaria, linearmente, na
brutalização da política. A experiência de guerra e respetiva memória
não serviram à ascensão do fascismo, na medida em que se projeta um
conjunto de processos rememorativos fúnebres, mais do que vitoriosos,
centrados no culto dos mortos, reforçando o seu sacrifício em prol da
pátria republicana, mais do que pela nação. Contrastando visivelmente
com o que se verificou na maioria dos antigos beligerantes europeus,
em Portugal, mais do que uma apropriação da guerra, as ditaduras
procuraram negligenciá-la enquanto importante e reutilizável facto da
liturgia nacional.
A política da memória da I Guerra Mundial em Portugal foi
irreversivelmente marcada por uma dimensão trágica e por um –
adotado ou imposto – silêncio. Os tempos os lugares de rememoração
aglutinaram inconsistências e tensões entre a necessidade dos
indivíduos integrarem a incomensurável dimensão escatológica
da guerra e a incapacidade do Estado em oferecer uma estrutura
consistente que os unisse na partilha de uma memória oficial. Este
fracasso contribuiu, de certa forma, para a queda da I República,
119
Grande Guerra • Ensaios
inapta na consistente apropriação da experiência da guerra e no
correspondente reforço dos alicerces de uma liturgia cívica republicana.
* O texto parte do livro Entre a morte o mito a ser publicado em 2015
pela Temas&Debates.
Bibliografia
[i] Manuel de Oliveira, Notas de um soldado em campanha.
Apontamentos factos e impressões da guerra europeia, colhidos nos
campos de Batalha de França (Aveiro: Tipografia Nacional, 1919), 138-142;
[ii] Gibelli, António. La Grande Guerra degli Italiani. Milano: Sansoni,
1998, 341;
[iii] Mosse, George L. Le guerre mondiali dalla tragedia al mito dei
caduti. Roma: Laterza, 1990, 3.; [iv] ANTT, AOS, CP 49, Arquivo Pessoal,
Abril de 1943.
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Grande Guerra • Ensaios
Portugal na Grande Guerra:
memória do passado
desafios do futuro
Portugal entrou na Grande Guerra num contexto em situação
internacional da República era, extremamente, frágil. Ameaçado
pela Espanha na Europa e pela Alemanha nas Colónias, Portugal
tinha a sua soberania e a integridade do território colonial em
risco. A beligerância foi um caminho para o mitigar. Do conflito
ficou uma lição válida para as operações de paz do presente:
121
Grande Guerra • Ensaios
Portugal não deve partir para intervenções internacionais sem
um largo consenso político e sem o apoio da opinião pública.
Ensaio de: Nuno Severiano Teixeira, professor Catedrático da Universidade Nova de Lisboa;
Visiting Professor na Georgetown University
A
entrada de Portugal no século XX ficou marcada, por dois
acontecimentos matriciais: primeiro, a fundação da República,
em 1910, segundo, a entrada de Portugal na Grande Guerra, de
1914-1918. São dois momentos distintos, mas que têm em comum
o mesmo significado histórico: a entrada de Portugal no novo século
e a sua adaptação às dinâmicas internacionais em desenvolvimento e,
particularmente, à dinâmica europeia.
No início do século XX, o pensamento estratégico português encarava
Portugal como um país de vocação, exclusivamente marítima - atlântica
e colonial - e sem interesses estratégicos no continente europeu.
Um pensamento que se manteve ao longo do século e permaneceu,
inalterado, até à dupla transição, pós autoritária e pós imperial, na
segunda metade da década de 80.
Como resultado de condicionantes geopolíticas e de movimentos de
longa duração histórica, Portugal conheceu, de um ponto de vista do
seu lugar no mundo e da sua inserção internacional, uma forte corrente
de matriz antieuropeia. Esta matriz, que foi historicamente dominante,
teve reflexos numa longa tradição política e diplomática, assim como na
formulação do pensamento estratégico e militar.
Esta matriz antieuropeia tinha por base duas ou três ideias fundamentais:
em primeiro lugar, uma percepção contraditória, e em certos momentos
históricos, mesmo, dilemática entre a Europa e o Atlântico; em segundo
lugar, e como consequência, considerava que Portugal não tinha interesses
estratégicos na Europa, porque a sua vocação era vocação marítima e
122
Grande Guerra • Ensaios
Instrução de militares do Corpo de Artilharia Pesada em Inglaterra, 1917 AGENCE ROL / BIBLIOTHÉQUE
NATIONALE DE FRANCE
nunca continental; e, finalmente, em terceiro lugar, essa vocação marítima
traduzia-se em dois vectores, quase exclusivos, na orientação estratégica da
inserção internacional do país: o Atlântico e o Império.
Mas se não existia interesse político e diplomático, nem tradição militar,
na participação portuguesa em teatros europeus, é legítima a pergunta: por
que razão entrou Portugal na Primeira Guerra e, em particular, na guerra
europeia? Nunca o compreenderemos se não tivermos em consideração
o contexto político e internacional em que se inseria a jovem República
Portuguesa. A situação internacional da República era, extremamente,
frágil. Frágil na Europa e frágil nas Colónias.
No plano europeu, entre Outubro de 1910, quando foi instaurada a
República, e Setembro de 1911, Portugal teve um regime republicano
123
Grande Guerra • Ensaios
Chegada de militares do CEP a Brest, França, no início de 1917 AGENCE ROL / BIBLIOTHÉQUE NATIONALE DE FRANCE
que não era reconhecido, internacionalmente, pelas grandes
potências europeias. Nem “de facto” nem “de jure”. Ou seja, durante
quase um ano, entre Outubro de 1910 e Setembro de 1911, Portugal
não foi reconhecido, formalmente, do ponto de vista internacional.
A partir de Setembro de 1911, o regime republicano português
passa a ser reconhecido, formalmente, mas não é aceite, política e
diplomaticamente, pelas outras potências europeias. Não era aceite,
como se dizia na época, “no concerto das nações”. Portugal atravessou,
então, um longo período de marginalidade internacional que afectou,
penosamente, a credibilidade da República portuguesa, que, ao
mesmo tempo se viu ameaçada, por duas vezes, na Península Ibérica,
124
Grande Guerra • Ensaios
Regresso a Lisboa das tropas do Corpo Expedicionário Português que combateram na Flandres, em Janeiro de
1919 ATRIBUÍDO A JOSHUA BENOLIEL / ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
por incursões monárquicas, vindas de Espanha e com a tolerância da
monarquia espanhola, em 1911 e 1912.
Não era mais fácil a situação no plano colonial. Também em África,
por duas vezes, em 1898 e 1912, a Inglaterra e a Alemanha tinham
concluído acordos secretos sobre a partilha das colónias portuguesas.
Por razões de ordem política e diplomática e finalmente, pelo
desencadear da própria guerra, em 1914, nunca se concretizaram. Mas
o seu espectro nunca se dissipou e havia, por isso mesmo, em Portugal,
a consciência plena do risco que corria, a soberania e a integridade do
território colonial português.
Mas também, no plano interno, a situação não era fácil. No que toca
à estabilidade governativa e no que toca à própria legitimidade política
125
Grande Guerra • Ensaios
do regime. Desde a implantação da República em 1910, o país vivia
um regime político marcado pela instabilidade democrática. Basta
dizer que entre 1910 e 1914, a estabilidade média dos Governos era da
ordem do ano e meio. E que nos anos da guerra, e precisamente, por
causa da guerra, entre 1914-1916, a média da estabilidade governativa
se centrava na ordem dos seis meses. Sucede que à questão da
instabilidade acrescia a questão da legitimidade. A República tinha
sido instaurada pela Revolução. Tinha legitimidade revolucionária,
mas não tinha conquistado plena legitimidade nacional. Nem todos se
reviam no regime e a radicalização progressiva da República deixou
nas suas margens, à esquerda e à direita, largas franjas da sociedade
portuguesa. Nada disto, como é óbvio, fortalecia o regime, ou
consolidava a República.
Ora, é neste contexto, de extrema fragilidade, que o governo
republicano decide a intervenção de Portugal na Grande Guerra.
Fragilidade política do regime, no plano interno e fragilidade
internacional do país, no plano externo: ameaçado pela Alemanha,
nas colónias; ameaçado pela Espanha, na Península; e consciente da
transigência de Inglaterra, a sua fiel aliada e garante da sua soberania, em
relação à Alemanha e em relação à Espanha.
Situação mais grave e crise mais profunda é difícil de imaginar: não
estava só em causa a sobrevivência do regime; estava em causa, mais do
que isso, a soberania do Estado.
A decisão da intervenção de Portugal na guerra europeia faz-se,
pois, segundo uma estratégia intervencionista, ou seja, uma estratégia
diplomática que forçou, deliberadamente, a entrada em guerra. Uma
estratégia que, aproveitando uma conjuntura internacional favorável,
obrigou a Inglaterra, contra a sua própria vontade e quiçá contra o seu
próprio interesse, a aceitar a entrada de Portugal na Grande Guerra.
Como é que tal foi possível? Em 1915 tinha começado a
guerra submarina que afectara, pesadamente, a frota britânica.
126
Grande Guerra • Ensaios
Soldados portugueses na Flandres, 1917 AGENCE ROL / BIBLIOTHÉQUE NATIONALE DE FRANCE
Consequentemente, a Inglaterra começou a sofrer uma enorme carência
de tonelagem para efeitos, quer logísticos, quer operacionais. Quando
solicita ao Governo português que requisite os navios alemães surtos em
portos portugueses, a diplomacia portuguesa aproveita a oportunidade
para dizer que “sim, mas…”, isto é, Portugal requisitaria os navios, mas
sob a condição de que tal se fizesse ao abrigo da Aliança Inglesa.
De acordo com a estratégia intervencionista do governo português,
ao entrar em guerra, ao lado dos Aliados e ao abrigo da Aliança inglesa,
Portugal conseguiria, num só gesto, reforçar a aliança luso-britânica,
neutralizar as pretensões alemãs e espanholas e alcançar os seus
objectivos, tanto no plano colonial e como no plano europeu. No plano
colonial, não só garantia a integridade do Império, sob a protecção
inglesa, como lograva, ao mesmo tempo, comprometer a possibilidade de
127
Grande Guerra • Ensaios
Militares do CEP em Brest, França, no início de 1917 AGENCE ROL / BIBLIOTHÉQUE NATIONALE DE FRANCE
a Inglaterra vir jogar a sorte das colónias portuguesas na mesa futura das
negociações de paz. No plano europeu, diversificava, diplomaticamente,
a posição estratégica de um Portugal beligerante, por oposição a uma
Espanha neutra. E julgava, com isso, conquistar o tão almejado o
reconhecimento no “Concerto das Nações”.
Conseguiria, finalmente, um desígnio inconfessado, de natureza política
interna: a consolidação e a legitimação nacional do regime. Na Conferência
da Paz, em Versalhes, Portugal conseguiu, por inteiro, o seu objectivo
colonial: o Império ficou intacto. Mas falhou, pelo contrário, também
por inteiro, o seu objectivo europeu: o reconhecimento no Concerto das
Nações, significava na política internacional do pós-guerra um lugar no
Conselho Executivo da Liga das Nações que Portugal beligerante jamais
conseguiu, quando, ao contrário, o conseguiu a Espanha neutra. Foi a grande
128
Grande Guerra • Ensaios
derrota de Portugal. Mas houve pior, no plano interno, não só o regime
não se consolidou, como não sobreviveu às consequências devastadoras
da guerra: à crise económica e financeira e às suas consequências sociais;
à desagregação político partidária e à deslegitimação das instituições
democráticas; à desmoralização da sociedade e ao seu divórcio do regime.
Acabaria por cair, pela força das armas, às mãos de um golpe militar que
abriu caminho a 48 anos de autoritarismo. Mas essa é uma outra história.
Na entrada de Portugal em guerra, na sociedade, nas forças políticas
e na opinião pública portuguesa foi consensual a intervenção militar
em África. Porque estava em causa o território nacional e no imaginário
político da época, as colónias eram parte integrante do território
nacional. Não foi consensual – pelo contrário e abriu clivagens profundas
na sociedade portuguesa – a participação militar no teatro europeu. Estas
clivagens podem sintetizar-se em três grandes fracturas:
- A primeira, no seio do regime republicano, entre os partidos
republicanos moderados, não intervencionistas, e o partido mais radical
do republicanismo, intervencionista.
- A segunda linha de fractura, fora do sistema político, à direita do
regime republicano, com os monárquicos divididos entre aliadófilos e
germanófilos.
- E, finalmente, a terceira linha de fractura, também ela fora do sistema
político mas à esquerda do regime republicano, com o movimento
operário, o movimento socialista e o movimento anarquista, dividido
entre, guerristas e pacifistas.
A estas clivagens na sociedade, acrescem as clivagens no interior do
sistema político. E durante os anos da guerra, a República conheceu
vários Governos. Todos eles com posições diferentes perante a Guerra.
Mais, os governos caem por causa da guerra e chegam ao poder para
mudar a política de guerra. Todos com diferentes objectivos. Todos com
diferentes estratégias. Sem que, por isso mesmo, Portugal pudesse ter
uma estratégia nacional.
129
Grande Guerra • Ensaios
Ora, é este o contexto em que Portugal entra em guerra, em Maio de
1916, em que as tropas portuguesas chegam às trincheiras da Flandres,
em Janeiro de 1917 e em que participa na guerra até ao armistício em
Novembro de 1918. No imaginário político de então, era difícil perceber
que, nas trincheiras da Flandres, se jogava a defesa da Pátria. Esta não
era uma missão tradicional de defesa do território, era, em boa verdade,
avant la lettre, uma missão de apoio à política externa do Estado, em
tudo, percursora do tipo de missões militares internacionais que são nos
nossos dias, as chamadas missões de paz.
A presença de Portugal na Grande Guerra é a marca da intervenção
militar portuguesa no teatro europeu no princípio do século XX, teatro a
que só regressaria, no fim do século numa missão com a mesma natureza
de apoio à política externa, agora, sob a égide das Nações Unidas e no
quadro da operação de paz nos Balcãs.
Certamente, a História não é mestra da vida. Mas talvez possa ajudar
a evitar, hoje, os erros de ontem. Nesse sentido, o conhecimento
que se produz na academia é um “bem público” e deve ser posto
ao serviço da sociedade. Ora, olhando para o passado, a pensar no
futuro, talvez o que os historiadores escreveram sobre a experiência
portuguesa em 1914/1918 nos possa ajudar, pelo menos, a reflectir
sobre os erros que cometemos na Primeira Guerra que talvez não
devêssemos cometer nas Operações de Paz. Em primeiro lugar, não
partir para uma intervenção internacional desta natureza sem um
largo consenso político e sem o apoio da opinião pública. Em segundo
lugar, não partir para uma intervenção internacional desta dimensão
sem o treino completo e o equipamento militar de acordo com os
standards internacionais das Forças Armadas ao lado das quais as
forças portuguesas vão operar. Em terceiro lugar, manter constante
a posição política do país e estreita a relação entre os responsáveis
políticos e as chefias-militares, no apoio às forças no terreno. Isto é,
assegurar uma estratégia nacional.
130
Grande Guerra • Ensaios
E, finalmente, depois do regresso, não esquecer o reconhecimento,
material e simbólico, aos combatentes e, em particular, à memória
dos que caíram. Os contextos são diferentes: ontem, tratava-se de
campanhas de guerra. De uma guerra entre nações. Hoje, tratase de operações de paz. Muitas vezes, para pôr fim à guerra entre
nações. Mas, ontem como hoje, do que se trata é do apoio à política
externa e do lugar de Portugal no mundo.
VOLTAR AO ÍNDICE
131
Grande Guerra • Ensaios
Lições económicas
da Primeira Guerra Mundial
O governo da República teve de financiar a aventura da guerra
através da emissão monetária e de dívida. O aumento da circulação
monetária traduziu-se em níveis de inflação dos mais elevados da
Europa, numa forte desvalorização cambial, e no agravamento do
desequilíbrio externo do país. Paradoxalmente, o período a seguir
ao fim da primeira Guerra Mundial, que ocorreu num contexto de
proteccionismo generalizado, foi palco de uma transformação de
certo modo excepcional da economia portuguesa.
Ensaio de: Pedro Lains, Investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
Preparativos para o embarque das tropas que vão combater na Primeira Guerra Mundial, Rua Augusta, Lisboa,
1916 JOSHUA BENOLIEL/ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
132
Grande Guerra • Ensaios
O
século que começou com a paz de Viena e acabou com a primeira
Guerra Mundial foi marcado pela industrialização do continente
europeu, pautada por progressos em todas as frentes. A guerra
alterou as regras do jogo económico internacional, deixando
marcas que trazem lições até aos dias de hoje.
Dado o mote da primeira revolução industrial, os países ou regiões
mais próximos da Grã-Bretanha seguiram um caminho de imitação ou
substituição dos elementos que estruturam essa grande transformação
económica. Por trás desse impulso industrial esteve a possibilidade que a
paz de 1815 trouxe ao crescimento das trocas intra-europeias de produtos,
serviços, capitais e, então em menor grau, pessoas, pautado pelo padrãoouro, o regime de estabilidade cambial mais conseguido da história.
O facto de a Europa ser cada vez mais o continente de monarquias ou
repúblicas constitucionais, regimes em que os cidadãos têm alguma voz,
embora muitas vezes imperfeita, foi também de grande importância ao
contribuir para o clima de abertura de fronteiras.
Entre os elementos do crescimento oitocentista contam-se, não
necessariamente por esta ordem, economias à época já relativamente
avançadas, elevados níveis de
capital físico e humano, instituições
O período a seguir
financeiras experientes, recursos
naturais de exploração competitiva,
ao fim da primeira
sectores agrícolas capitalizados e
Guerra Mundial
virados para os mercados locais,
foi palco de uma
regionais ou internacionais, tradições
transformação
manufactureiras seculares e redes
de estradas e canais a ligar cidades,
de certo modo
campos, minas e portos. Este padrão
excepcional da
favorável à industrialização era comum
economia portuguesa nas regiões do noroeste europeu, do
em muitas frentes.”
norte de França à Bélgica, do ocidente
133
Grande Guerra • Ensaios
da futura Alemanha às cidades do norte de Itália e foi potenciado pelas
possibilidades abertas pelo desenvolvimento de novas tecnologias,
formas de organização do trabalho e financiamento.
Houve todavia regiões da Europa que, apesar de também terem
conhecido algum crescimento económico e desenvolvimento institucional
e abertura ao exterior, não conseguiram acompanhar de perto os avanços
nas partes que se destacaram do continente europeu. Portugal, como
outros países das periferias mais distantes a Sul e a Leste, foi um desses
casos de relativo atraso no progresso geral. A industrialização portuguesa
oitocentista não trouxe convergência económica.
A primeira Guerra Mundial teve consequências humanas trágicas,
que precisam de ser recordadas, e interrompeu gravemente o
desenvolvimento da economia internacional. Todavia, uma vez terminado
o conflito, em poucos anos as principais economias beligerantes
puseram-se novamente de pé, o que deve ser compreendido à luz
dos desenvolvimentos precedentes que tinham tornado a Europa no
continente mais evoluído do Mundo. Terminada a guerra, os agricultores
e os industriais franceses, suecos, catalães, italianos, alemães ou
checoslovacos voltaram-se para a economia da paz, apesar de todas as
dificuldades. Em meados da década de 1920 já se havia atingido, um
134
Grande Guerra • Ensaios
pouco por todo o lado, os
níveis de produção – e de
produtividade – existentes
nas vésperas da guerra.
Mas a recuperação
económica das nações
não foi acompanhada
pela recuperação da
economia internacional,
o que acabou por revelar
problemas insanáveis. A
disfunção registada prendese directamente com o
impacto da guerra nos
equilíbrios financeiros e
económicos internacionais,
e pela incapacidade dos
governos nacionais de
levarem a cabo políticas de
coordenação internacional.
Casa Old England, Lisboa
JOSHUA BENOLIEL/ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
Esses efeitos traduziramse, em primeiro lugar, em
níveis elevados de inflação, decorrentes da necessidade que os estados
tiveram de financiar as despesas de guerra com recurso aos défices
públicos e à correspondente emissão monetária e de dívida pública,
interna e externa. A inflação não subiu da mesma maneira em todo o
lado, já que a forma e o esforço de financiamento da guerra variaram
de país para país, o que levou a disparidades elevadas na evolução do
valor das moedas nacionais. Por isso, tornou-se virtualmente impossível
restabelecer um novo regime de paridades cambiais internacionais que
replicasse o padrão-ouro do século XIX.
135
Grande Guerra • Ensaios
Sem finanças internacionais equilibradas, os estados recorram ao
proteccionismo alfandegário e de outros tipos, limitando severamente
as trocas internacionais de produtos, capitais e, ulteriormente, de
pessoas. O mundo voltou a ficar compartido, só que desta vez as barreiras
às trocas internacionais separavam economias evoluídas com fortes
interdependências que assim foram interrompidas.
A economia portuguesa acompanhou os passos do resto da Europa, na
medida da distância a que estava do coração económico do continente.
O governo da primeira República entrou na guerra, de forma talvez
inesperada, em 1916, tendo sido igualmente obrigado a financiar a
aventura através de emissão monetária e de dívida, esta em grande parte
contraída junto do aliado britânico. O aumento da circulação monetária
traduziu-se em níveis de inflação dos mais elevados da Europa de então,
e implicaram uma forte desvalorização cambial, e o agravamento do
desequilíbrio externo do país. Os problemas financeiros acabariam por
levar a uma grande instabilidade política e eventualmente à mudança de
regime, alguns anos depois de terminada a guerra.
Mas a instabilidade financeira e política escondia algo de positivo.
Com efeito, o período a seguir ao fim
da primeira Guerra Mundial foi palco
Sem finanças
de uma transformação de certo modo
excepcional da economia portuguesa
internacionais
em muitas frentes, transformação
equilibradas, os
que ocorreu num contexto de
Estados recorreram
proteccionismo generalizado, o que
ao proteccionismo,
de certa forma a torna paradoxal.
Esse crescimento, detectado apenas
limitando as trocas
recentemente através de estimativas
de produtos, capitais
da evolução da economia, ainda não
e, ulteriormente,
foi suficientemente compreendido e
de pessoas
integrado nas interpretações gerais
136
Grande Guerra • Ensaios
Militares do CEP em Brest, França, no início de 1917 AGENCE ROL / BIBLIOTHÉQUE NATIONALE DE FRANCE
sobre o período de entre as guerras, que ainda são dominadas pela
análise dos efeitos do permanente estado de crise financeira e política que
o país então viveu. As crises financeiras e políticas são evidentes mas não
dominaram a situação económica do país.
Efectivamente, o PIB per capita nacional cresceu a um ritmo médio
de cerca de 1,5% ao ano, em muito superior ao registado ao longo das
melhores décadas do século XIX, e pela primeira vez em linha com o
que aconteceu contemporaneamente em outros países europeus. Ao
mesmo tempo, a produção industrial expandiu de forma generalizada,
tendo surgido sectores tecnologicamente mais avançados, à escala
do país atrasado que Portugal era, tais como os adubos químicos, os
cimentos, a metalurgia ou algumas indústrias alimentares. A agricultura
também cresceu razoavelmente, sofrendo transformações estruturais
137
Grande Guerra • Ensaios
na produção, com o aumento do peso de culturas mais produtivas.
E o sector dos serviços, dos transportes ao comércio, dos bancos aos
serviços de educação e assistência na doença, acompanharam de perto o
desenvolvimento das demais actividades. O único sector, considerado de
forma generalizada, que não conheceu estes sinais positivos foi o sector
externo, incluindo as relações económicas com as colónias. E aí reside,
precisamente, a fonte do paradoxo do crescimento económico português
a seguir à primeira Guerra Mundial.
Apesar dos avanços da economia portuguesa durante o período em
causa, o rol de problemas manteve-se enorme no contexto europeu, já
que duas décadas não permitiram ultrapassar o fosso de desenvolvimento
que separava o país dos seus principais parceiros ocidentais, incluindo
naturalmente a Espanha ou a Itália. Todavia, esses lentos progressos
preparam de forma inequívoca o forte crescimento que se viria a
registar a seguir à segunda Guerra Mundial, durante a idade de ouro do
crescimento económico europeu e mundial, entre 1950 e 1973.
O desenvolvimento da economia portuguesa pouco se distingue do
que aconteceu em muitos países da Europa, onde o período de entre as
guerras também foi de crescimento e também criou bases de crescimento
futuro. Assim, o paradoxo português tem de ser compreendido no
contexto europeu e de certa forma a sua explicação poderá ajudar a
compreender o crescimento com fronteiras fechadas, crises financeiras
e cambiais, políticas instáveis e graves manifestações de repressão
política. Todavia, dado que o período foi relativamente curto, pois viria a
ser interrompido pelo novo conflito internacional, de proporções ainda
maiores, as lições que dele se retiram são necessariamente breves.
Mesmo assim, uma das principais conclusões será a de que, afinal, a
abertura económica pode não ser determinante do progresso económico.
A abertura será provavelmente mais importante para o entendimento e
a paz entre as nações do que para a prosperidade de cada nação, tomada
isoladamente. O século XIX mostrou crescimento sustentado ao longo
138
Grande Guerra • Ensaios
de décadas e dependente da liberdade económica e política a nível
internacional. A guerra interrompeu esses desenvolvimentos, dando lugar
a um período de crescimento de fronteiras fechadas e substancialmente
mais curto. Se alguma lição há a tirar desta comparação, será que a
abertura de fronteiras é mais importante para a estabilidade e a paz
internacionais do que para o crescimento económico de cada nação. Esta
lição não foi ainda cabalmente compreendida, a nível internacional. Mas
devemos seguramente prestar-lhe a devida atenção num momento como
o actual, em que alastram em alguns países políticas de austeridade de
índole marcadamente isolacionista.
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139
Grande Guerra • Ensaios
A Primeira Guerra Mundial
e a Queda da República.
Uma relação Complexa
O fim da guerra esteve no centro do projecto autoritário de
Sidónio Pais, mas as sequelas do conflito estiveram longe de
ser essenciais no percurso político da direita e da extremadireita que culminaram no golpe do 28 de Maio. Nem o apelo
aos militares, constante na vida política da República no pósguerra por parte da oposição ao Partido Democrático, nem as
críticas ferozes aos erros das campanhas militares da República
impediram que, nos anos 20, os rumos da política se traçassem
sobre uma memória já longínqua da Grande Guerra.
Ensaio de: António Costa Pinto, investigador no ICS-ULisboa
140
Grande Guerra • Ensaios
1
Quase tudo foi dito sobre a Primeira Guerra Mundial entre os
especialistas, mas a memória contemporânea desta é escassa em
Portugal. Para dizer a verdade, se fossem alvo de um inquérito,
poucos portugueses saberiam que Portugal participou nesta guerra
apoteótica da modernidade, que interrompeu aquilo a que muitos
cientistas sociais chamaram a primeira vaga da democratizações,
afogando essa gloriosa etapa de uma globalização optimista do
capitalismo liberal e do hoje tão atormentado capital financeiro.
O Portugal republicano e nacionalista conseguiu participar nesta
guerra (mais europeia do que mundial, apesar do nome), com grande
esforço e à revelia dos sentimentos da sociedade portuguesa, no que
aliás não foi singular. Portugal não só participou nela em África e na
frente europeia como a terminou com um enorme número de mortos e
feridos, bem maior dos da guerra de que todos se lembram. Pequenos
monumentos de homenagem aos mortos, de Naulila a La Lys, também
não faltaram, mas a longa duração do Salazarismo conseguiu apagar esta
“guerra republicana” de que não gostava.
Os factores que levaram a elite republicana a forçar a participação
militar na Guerra mobilizaram os historiadores portugueses e deram
origem a várias explicações, mais complementares, do que alternativas.
Reconheça-se que o debate era importante. O que levou um País
pequeno, periférico e pobre como Portugal, sem que o tenham
chamado, a “querer” entrar a sério na Guerra deste 1914? A defesa do
património colonial africano, sempre periclitante e ameaçado, era um
factor óbvio, mas para Afonso Costa e para o Partido Democrático, o
partido dominante da jovem Primeira República, outras motivações
também estiveram presentes, mas a “União Sagrada” cedo se esboroou
e os partidos republicanos conservadores tiraram o tapete ao ensaio de
mobilização patriótica do partido dominante. Um ano e meio depois de o
Governo mandar apresar os barcos alemães no Tejo já a elite republicana
era apeada do poder por um bem sucedido golpe de estado conservador.
141
Grande Guerra • Ensaios
A complexa relação entre a participação portuguesa na Primeira Guerra
Mundial e a emergência do autoritarismo moderno não pode ser reduzida
àquela intuição sempre dita e redita sobre a Guerra como causa da queda
da Iª República. No caso português o mais interessante em comparação foi
vitória quase imediata de um golpe de Estado que tenta institucionalizar o
que poderia ter sido uma bem-sucedida experiência autoritária, mas que
vai sucumbir por outras clivagens que pouco têm a ver com ela.
2
Sidónio Pais, um militar e professor universitário reconvertido à vida
política, membro de um partido republicano conservador, deputado
e ex-embaixador em Berlim, dirigiu o golpe de Dezembro de 1917,
com um programa relativamente simples: retirar Portugal da guerra.
A Ditadura de Sidónio seria derrubada um ano depois, quando o
assassínio do seu chefe colocou o País à beira da guerra civil, com uma
revolta monárquica no Norte. Após algumas hesitações programáticas,
Sidónio enveredou por um presidencialismo populista. Ao mesmo tempo
que limitou a actividade dos partidos republicanos, alterou a lei eleitoral
proclamando o sufrágio universal e fez-se plebiscitar presidente. Inspirado
pelos integralistas, apresentou um esboço de representação corporativa,
tentou agregar alguns partidos conservadores num partido único,
permitindo apenas a organização autónoma dos monárquicos e do pequeno
partido católico. Após algumas hesitações iniciais perante o novo regime,
dada a sua pretensão de afastar Portugal da guerra, os sindicatos foram
violentamente reprimidos enveredando por uma tentativa de greve geral.
O discurso político de Sidónio, em plena crise de abastecimentos
devida à guerra, foi o do antiplutocratismo, da luta contra as oligarquias
partidárias, e o de um nacionalismo messiânico. Sidónio conseguiu
unir conjunturalmente monárquicos e republicamos conservadores,
ao mesmo tempo que utilizou os seus recursos carismáticos de forma
eficaz, rodeando-se de um grupo de jovens oficiais do exército que
142
Grande Guerra • Ensaios
Revolução de Sidónio Pais, 1917 ALBERTO CARLOS LIMA/ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
o acompanhavam nas manifestações. Após o seu assassínio por um
sindicalista rural em finais de 1918, declarou-se uma revolta monárquica
no Norte, os republicanos mobilizaram o universo urbano e várias
unidades militares declararam-se neutrais, permitindo a vitória dos
democráticos e o regresso ao regime constitucional.
O breve consulado de Sidónio, com a sua presença carismática,
com a sua mobilização da província, com o seu discurso populista,
representou a primeira tentativa conseguida de mobilização popular da
direita portuguesa, desde a revolução de 1910. Mas a ditadura de Sidónio,
que poderia ter constituído o cimento sociológico para um fascismo
mobilizador nos anos 20, foi abalada pela reabertura da clivagem
monarquia-república, com a instauração da chamada Monarquia do
Norte, abrindo uma chaga fatal na unidade de direita antidemocrática.
143
Grande Guerra • Ensaios
O Sidonismo constituiu no pós-guerra uma referência para o fascismo
português, sobretudo para os jovens oficiais, intelectuais e estudantes
republicanos de direita, que criaram diversos partidos onde o exemplo
do partido de Mussolini era crescentemente referido, mas que foram
sempre marginais. O outro pólo, mais importante veio do Integralismo
Lusitano, este movimento de intelectuais e activistas monárquicos
tradicionalistas que foram os pais ideológicos de quase tudo à direita
nos primórdios do Século XX.
As primeiras tentativas golpistas dos anos 20 foram acompanhadas
por um segmento civil onde pontificavam intelectuais nacionalistas.
Muitos destes intelectuais eram activos
participantes no movimento modernista
português, caso de António Ferro, que
As primeiras
mais tarde moderou os seus ímpetos
tentativas golpistas
fascistas como chefe da propaganda do
dos anos 20 foram
regime de Salazar.
Em 1923, surgiram as primeiras
acompanhadas por
publicações que se reivindicavam
um segmento civil
«do fascismo português», e criou-se o
onde pontificavam
primeiro partido fascista, o Nacionalismo
intelectuais
Lusitano, onde pontificava Castro
Osório, filho de uma conhecida figura
nacionalistas.
republicana, Ana de Castro Osório.
Muitos destes
Recém-licenciado em Direito, estreou-se
intelectuais eram
no campo literário com algumas peças
activos participantes
de teatro de cariz ultranacionalista.
António de Cértima, escritor prolífero e
no movimento
colaborador regular de A Ditadura, seria
modernista
o grande explorador do tema da guerra
português, caso
e do soldado traído pelos governos de
de António Ferro
Lisboa. Este apelo ao ex-combatente
144
Grande Guerra • Ensaios
associava-se também ao apelo à juventude, à nova geração «que tem
ideias para melhorar o Portugal moralmente doente» e que, como geração
do «aprés guerre, é uma geração de sacrifício». Mas os Republicanos não
deixaram fugir para estas caricaturas do fascismo lusitano a memória da
Guerra que não foi deles.
3
Parte integrante da vaga autoritária dos anos 20 na Europa, o golpe
de Estado de 28 de Maio de 1926 não foi apenas uma intervenção
militar de tipo pretoriano na vida política. Não foi a hierarquia
militar estabelecida que decidiu derrubar mais um governo, mas
uma coligação heterogénea de militares, com o apoio decidido de diversos
partidos e grupos de pressão. O liberalismo republicano foi derrubado por
um exército dividido e politizado, sofrendo apelos golpistas de fracções
organizadas no seu interior, que iam desde os republicanos conservadores,
aos católicos-sociais e à extrema-direita integralista e correlativos apêndices
fascistas, particularmente influentes junto dos jovens oficiais.
O apelo aos militares foi uma constante na vida política da República
no pós-guerra, por parte da oposição ao partido dominante, o Partido
Democrático. Quase por definição, o sistema político republicano não
teve uma “oposição leal”, para usar a terminologia de um politólogo
recentemente falecido, Juan Linz, já que era patente para os actores
políticos que a possibilidade de chegada ao poder por via eleitoral era
nula. Desde cedo que os partidos republicanos conservadores, pequenos
agrupamentos de notáveis ligados a grupos de interesses, se tinham
habituado a recorrer a meios extraparlamentares para se aproximarem do
poder. No pós-guerra existiram alguns governos de coligação ou mesmo
conservadores, mas sempre ligados a situações de crise. A radicalização
dos pequenos partidos republicanos conservadores (Nacionalistas,
Reconstituintes, União Liberal Republicana, etc.) foi um factor
fundamental na queda da República, levando-os a “apelar aos militares”,
145
Grande Guerra • Ensaios
General Gomes da Costa e a oficialidade saindo da tenda de campanha onde foi servida uma taça de
champagne, para comemorar a vitória do golpe militar de 28 de Maio, Junho de 1926 FERREIRA DA CUNHA/
ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
quando, na sequência das eleições de 1925, o Partido Democrático as
ganhou mais uma vez. Neste espectro de pequenos partidos de quadros,
emergiram algumas figuras carismáticas que juntaram a sua voz à
pequena, aguerrida e elitista extrema-direita, como a Cruzada Nuno
Álvares, no apelo à intervenção militar e, mais do que isso, à constituição
de grupos organizados no interior das Forças Armadas. Cunha Leal foi
talvez, entre os dirigentes republicanos, o mais importante.
O papel de grupos como os integralistas foi importante. Em termos de
conspiração e propaganda da opção ditatorial seguramente mais do que o
Centro Católico, ligado à hierarquia da Igreja e mais prudente. O movimento
conducente ao 28 de Maio esboça-se como um golpe militar que cooptou
uma parte da elite política do regime liberal (que, tal como muitos dos
146
Grande Guerra • Ensaios
militares, tinha como objectivo expresso o futuro restabelecimento de uma
ordem constitucional reformada), integrando também a “oposição desleal”,
e que excluiu do poder o partido dominante. O produto foi uma ditadura
militar que afastou rapidamente uma parte da componente republicana, em
golpes posteriores, e que viria a ser incapaz de se institucionalizar.
Portugal teve tudo o que os clássicos apontaram como as “origens”
do fascismo: modernismo e futurismo, nacionalismo, traumas da
primeira guerra, ofensiva operária, anticomunismo, jovens militares
politizados pela extrema-direita, o fascismo avant la lettre de Sidónio
Pais, massificação da política, crise de legitimidade do liberalismo e,
mesmo, fascistas… Mas aqui a coligação de forças políticas que apoiaram
este derrube caracterizou-se, desde o seu início, pela predominância
dos partidos conservadores e de direita radical, sendo o fascismo, agora
entendido como movimento, um parceiro fragmentado e menor.
Portugal chegou ao turbilhão desencadeado pela Grande Guerra sem
alguns dos factores perturbadores, determinantes em outros Países
Europeus. Tinha resolvido, no fundamental, a “questão nacional”:
“Estado” e “Nação” andavam de boas relações e coincidiam com
significativa homogeneidade cultural;
não conhecia minorias nacionais ou
A participação
étnico-culturais no seu interior; não
tinha reivindicações territoriais a
portuguesa na I
Guerra não provocou fazer no espaço europeu; encontravase na esfera de influência britânica
danos na estrutura
que garantia o seu vasto património
produtiva e social
colonial; chegou à “era das massas”
sem alguns dos temas mobilizadores do
comparáveis aos
radicalismo geralmente associados aos
sofridos pelos
movimentos fascistas. Acresce ainda que
contendores no
esta “massificação da política” deve ser
centro da Europa
moderada no caso português.
147
Grande Guerra • Ensaios
Por outro lado a participação portuguesa na I Guerra não provocou
danos na estrutura produtiva e social, comparáveis aos sofridos pelos
contentores no centro da Europa. Não favoreceu também as condições
para a emergência de grupos susceptíveis de constituir uma primeira base
para movimentos fascistas, alargando o núcleo original de intelectuais
que lhe deram origem. A clivagem da secularização foi talvez a mais
importante das abertas pela Iª República. Desde os anos 10 que um
pequeno núcleo de católicos se organizou em torno de um programa
político que unia a restauração dos direitos da Igreja com uma alternativa
autoritária ao liberalismo. Mesmo em termos culturais, Portugal foi
um claro exemplo de como existe pouco espaço para a emergência de
uma intelligentsia fascista e a Igreja e o centro católico constituíram um
competidor poderoso à fascização das elites universitárias e intelectuais,
ocupando um espaço político determinante na reacção antidemocrática.
Outra clivagem importante foi a do regime. O restauracionismo
monárquico continuou a inibir, quer ideologicamente, via integralismo,
quer no campo político, ao destruir a mobilização populista da ditadura
de Sidónio Pais, a unificação política da direita antidemocrática. O IL
protagonizou as bases ideológicas para um fascismo português no pósguerra mas, preso pelo seu restauracionismo, limitou as potencialidades de
mobilização do Sidonismo. Foi também a questão do regime que fracturou
o entendimento entre integralistas e católicos sociais, ambos defensores de
um corporativismo autoritário como alternativa ao liberalismo. No meio
disto a memória da Guerra, mesmo ali tão perto, já andava longe.
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148
Grande Guerra • Ensaios
Guerra e revolução
na Rússia de 1917
A impreparação do exército russo impôs-lhe pesadas derrotas na
guerra, o que, com o agravamento das condições de vida, ditou
o surto insurrecional que afastou os Romanov. O novo regime,
porém, dividir-se-ia entre a continuidade da guerra e a celebração
da paz. No final, a exigência do fim do conflito imposta pelos
bolcheviques triunfou com a revolução de Outubro. O armistício
com a Alemanha seria assinado em Dezembro de 1917, mas o
tratado teria de esperar por Fevereiro. A Rússia conquistou a paz à
custa de pesadas cedências territoriais.
Ensaio de: Fernando Rosas
Revolucionários em Petrogrado CORBIS
149
Grande Guerra • Ensaios
F
oram de curta duração a euforia nacionalista e o ardor fanático com
que a Rússia czarista se lançou na Grande Guerra, alinhada com
as potências da Entente contra os impérios centrais, soprada pelo
consenso da “união sagrada” em torno da “defesa da pátria”. Ao
qual não faltou o apoio dos liberais, dos mencheviques (a ala direita do
movimento social-democrata russo) e do partido camponês, herdeiro do
populismo russo, que dava pelo nome de socialista revolucionário (SR).
Apesar de alguns ilusórios sucessos iniciais, a falta de preparação, a
brutal prepotência da oficialidade, o défice de treino e municiamento,
a incapacidade de poder armar um imenso exército de 16 milhões de
soldados (a larga maioria camponeses analfabetos) “dirigidos por uma
nobreza cuja arrogância só era equivalente à incompetência”, tudo
rapidamente degenerou em desastre. “Desde as primeiras batalhas
na ofensiva de Tannenberg, a primeira fila entrou em combate com
espingardas e botas, a segunda com espingardas e sem botas e a terceira
sem botas nem espingardas” [1 - Ver notas em final de texto]. A tática
das “vagas humanas” fez disparar as baixas que, em 1917, atingiam os 4
milhões de soldados. Faltavam armas adequadas, munições, transportes,
oficialidade sintonizada com a guerra moderna, cuidados decentes para
os feridos, logística eficaz, respeito pelos soldados.
A revolução de Fevereiro de 1917
No outono de 1916 começaram as deserções em larga escala. Para a
imensa massa de soldados camponeses a guerra transformara-se numa
terrível agonia sem sentido e os seus mandantes, desde logo o czar, o
czarismo, a oficialidade aristocrática (muitos deles poderosos terratenentes), em inimigos a abater. A situação militar era desesperada: a
tropa russa só não fora levada de roldão porque a resistência francesa na
frente ocidental impedia o reforço alemão a leste, e a entrada da Itália
no conflito, em 1915, agarrava parte das forças austríacas nos Alpes.
150
Grande Guerra • Ensaios
Rendição de tropas russas aos alemães CORBIS
Mas, nesse ano de 1916, os territórios ocidentais do império czarista
economicamente mais relevantes tinham já sido, quase todos, ocupados
pelos alemães na sequência de pesadas derrotas militares.
A elas juntava-se o descontentamento generalizado nos centros
urbanos e no mundo rural contra os dramáticos efeitos económico-sociais
do conflito. A aguda escassez de géneros para os trabalhadores e mesmo
para as camadas inferiores das classes médias, a inflação sem controlo,
a especulação, a incúria do governo, os escândalos e a decadência da
corte czarista alimentavam a revolta. O redespertar da agitação grevista
em 1916 e as manifestações operárias de Janeiro de 1917 nas principais
cidades russas (em Petrogrado parte dos soldados fazem causa comum
com os manifestantes) prenunciam a tempestade. A 18 de Fevereiro [2],
em Petrogrado, a gigantesca metalúrgica Putilov entra em greve. Quatro
dias depois aderem os operários da maioria das grandes empresas. E a
23 de Fevereiro, assinalando o dia internacional da mulher, as operárias
têxteis descem à rua contra a fome, a guerra e o czarismo. Desencadeiase então a greve geral política na cidade, desdobrada em manifestações
151
Grande Guerra • Ensaios
e confrontos com a polícia que a 26 de Fevereiro, com o armamento
dos operários, se transformam em tentativa insurrecional. Parte da
tropa chamada a reprimi-la abre fogo sobre a polícia a cavalo. A 27
de Fevereiro há já mais de 60 000 soldados revoltosos ao lado dos
trabalhadores e isso decide a sorte da autocracia czarista: os sublevados
prendem os ministros e generais czaristas e libertam os presos políticos.
A notícia da vitória da revolução em Petrogrado leva, nas outras
cidades e na frente, à deposição das autoridades czaristas. Cinco dias
consecutivos de luta nas ruas de Petrogrado – de 23 a 27 de Fevereiro
de 1917 – derrubavam a dinastia dos Romanov: a 2 de Março o czar
abdica a favor do grão-duque Miguel que recusa a regência do trono.
Atabalhoada e apressadamente a Duma[3] forma um governo provisório
presidido pelo príncipe Lvov que reúne políticos liberais e um deputado
aparentado com os socialistas revolucionários moderados, ponte com os
movimentos populares, Kerenski.
Decreta-se a amnistia para os presos políticos e exilados e
estabelecem-se as liberdades fundamentais. É a fase pacífica da
revolução russa que começa.
O duplo poder
Uma das características historicamente essenciais da revolução de
Fevereiro é que o seu triunfo cria uma situação de duplo poder. Por
um lado, os sovietes[4] de operários, soldados e camponeses que
tinham reaparecido em força nos dias da revolução e depois dela
em Petrogrado, no seu centro vital, mas também nas fábricas, nos
bairros, nos quartéis, na frente e nos meios rurais de toda a Rússia.
Eram os órgãos de vontade popular, eleitos de baixo para cima e
progressivamente coordenados, através dos seus deputados, à escala
local, sectorial, regional e nacional. Constituíam uma gigantesca
organização armada do poder popular vitorioso.
152
Grande Guerra • Ensaios
Depositários das aspirações populares à paz e ao fim da guerra, à
reforma agrária e à divisão da terra pelos camponeses, ao pão (8 horas de
trabalho, salário mínimo, melhoria de condições de vida dos operários),
à autodeterminação das nacionalidades subjugadas pelo czarismo,
os sovietes tinham aceitado, sob influência dos socialistas de direita,
maioritários no soviete de Petrogrado e no Comité Executivo dos sovietes,
entregar o poder ao governo provisório. E ainda que não participando
inicialmente nele, pretendiam fiscalizá-lo e, se necessário, pressioná-lo no
sentido das suas aspirações.
No outro polo o governo provisório, arranjado entre os partidos
liberais burgueses e a ala moderada da social-democracia e dos SR. A
sua prioridade absoluta era continuar a guerra, rechaçar e vencer os
alemães, agora em nome de salvar a revolução democrática (era, como
Lenine o designaria, o “defensismo
revolucionário”). As reformas que
A aguda escassez
o povo reclamava viriam depois. A
tensão evidente que esta estratégia
de géneros para
originava face às aspirações populares
os trabalhadores
que os sovietes veiculavam só pôde ser
e mesmo para as
arbitrada pela influência preponderante
camadas inferiores
dos mencheviques e SR nos meio
populares e nos sovietes nos primeiros
das classes médias, a
inflação sem controlo, meses após a queda do czarismo.
Os mencheviques eram guerristas e,
a especulação, a
sobretudo, agarravam-se à concepção
incúria do governo,
etapista da revolução bebida numa
certa ortodoxia marxiana segundo
os escândalos e a
a qual, sendo essa a etapa burguesa
decadência da corte
da revolução, era a burguesia que a
czarista alimentavam devia conduzir, dela resultando um
a revolta
desenvolvimento de forças produtivas
153
Grande Guerra • Ensaios
e do proletariado que, numa segunda etapa futura, permitiria instalar
uma ordem socialista num país atrasado. Na prática, o seu papel seria
o de subordinar os sovietes às prioridades da nova ordem liberal e
consequentemente, à continuação da guerra.
Convém referir que os bolchevistas[5], sendo vigorosamente
adversários da continuação da “guerra imperialista” (sem isso nenhuma
reforma progressista seria possível), mobilizando os operários, os
soldados e os camponeses em torno de um programa radical para a paz,
pela expropriação e divisão das terras do latifúndio, pelos direitos dos
operários e das nacionalidades oprimidas à separação e criticando o
caracter “conciliador” da política menchevique-SR, em substância, e até
à guinada tática das “teses de Abril”, como veremos, não estavam longe
dessa política etapista. Isto é, exigiam a paz, pressionavam criticamente,
mas não punham em causa o governo provisório, nem a condução da
revolução democrática pelos partidos burgueses.
Toda a história da revolução russa neste curto e crucial ano de 1917
se resume a essa contradição essencial: entre a onda crescente das
reivindicações da vasta rede de poder popular onde se cruzam sovietes,
sindicatos, assembleias, comités, milícias armadas e a intransigência
e insensibilidade do governo provisório em crescente perca de pé,
condicionando as reformas desejadas à prioridade da guerra ou, depois, à
reunião de uma futura assembleia constituinte.
As “teses de Abril” e as “jornadas de Julho”
Dois acontecimentos, quase simultâneos, marcam a radicalização deste
processo. O primeiro é a chegada de Lenine à gare da Finlândia em
Petrogrado, a 3 de Abril, regressado do exílio com a sua controversa
proposta de uma nova política para o partido bolchevista. São as famosas
“teses de Abril” que, no meio de viva polémica na direção bolchevique,
são adotadas pela Conferência Nacional do partido reunida a 24 de Abril.
154
Grande Guerra • Ensaios
Basicamente, retomando escritos anteriores e demarcando-se do
etapismo ortodoxo dominante, Lenine vem defender que o proletariado
russo e os seus aliados deviam tomar o comando da revolução burguesa
e transformá-la, num processo ininterrupto, numa revolução socialista. A
forma concreta de o fazer seria chamar os sovietes de operários, soldados
e camponeses a conquistar revolucionariamente o poder de Estado, em
vez de continuar a “pugnar” pela inadmissível e ilusória “exigência” de
que o governo provisório “deixasse de ser imperialista”, pusesse fim
à guerra ou cumprisse as suas promessas. “Nenhum apoio ao governo
provisório!”, “todo o poder aos sovietes!” são agora as palavras de ordem
dos bolcheviques. A revolução socialista estava na ordem do dia e havia
que mobilizar e conquistar os sovietes para a tarefa da tomada do poder,
única forma que teriam de alcançar a paz, a terra, o pão.
Precisamente, a 20 de Abril, uma nota aos aliados do ministro dos
Negócios Estrangeiros, P. Miliukov, declarando que a Rússia democrática
mantinha os objetivos de guerra do regime czarista, levanta uma
gigantesca onda de indignação popular. Cerca de 100 mil pessoas, uma
enorme massa de operários e soldados, desce as ruas de Petrogrado
para protestar contra o governo provisório e reclamar a paz. Miliukov
é forçado a demitir-se e o novo governo provisório tenta reforçar a sua
estratégia de neutralização de sovietes, cooptando para o seu elenco, pela
primeira vez, deputados do executivo do soviete de Petrogrado numa
coligação formal com os mencheviques e os SR, destes saindo o ministro
da guerra e futuro chefe do governo, Kerenski.
Talvez o aparente sucesso com que se ultrapassa esta primeira crise,
levasse o novo governo, contra a corrente geral a favor do fim da guerra, a
decidir lançar as tropas russas numa “última ofensiva” contra os alemães,
a 18 de Junho. O desastre era previsível e quando a notícia chega à capital,
a indignação popular explode espontaneamente. Os marinheiros da
base de Krondstadt em revolta avançam sobre a capital, e durante o
dia 3 de Julho as manifestações populares massivas assumem aspetos
155
Grande Guerra • Ensaios
insurrecionais. Destacamentos de junkers[6] e tropas vindas da frente
abrem fogo sobre a multidão e controlam a situação. O governo tem de
demitir-se. Mas Kerenski, agora à frente do ministério, responsabilizará
o partido bolchevique pela tentativa de um golpe de Estado e por “alta
traição”: as sedes e inúmeros jornais bolcheviques são encerrados,
pretende-se desarmar os guardas vermelhos, ordena-se a marcha para a
frente das unidades militares revolucionárias da capital, vários dirigentes
bolcheviques são presos (Kamenev, Trotsky), Lenine é obrigado a passar à
clandestinidade.
O golpe de Kornilov e alteração da relação de forças
Parecia ser o momento certo para a direita mais conservadora, reunida
em torno do general Kornilov, desencadear um golpe fulminante: marchar
sobre Petrogrado, esmagar os sovietes e impor uma ditadura militar. A 25
de Agosto Kornilov lança sobre a capital a 3º Corpo de Cavalaria. Com uma
energia inesperada, respondendo ao apelo dos bolcheviques, os sovietes de
operários e camponeses preparam-se para ripostar: rearmam-se as guardas
vermelhas, mobilizam-se os marinheiros de Kronstadt e os soldados das
guarnições revolucionárias, cavam-se trincheiras e enviam-se delegações
de soldados ao encontro das tropas de Kornilov que, informadas por elas,
se recusam a marchar sobre Petrogrado. O golpe é derrotado, Kornilov e
os seus generais são presos. Kerenski que se dessolidarizara do golpe e os
chefes mencheviques e SR, eles próprios acabaram por se abrigar sob a
proteção dos bolcheviques, reconhecendo-os objetivamente como a única
força na capital capaz de derrotar Kornilov.
Sob a influência destes acontecimentos opera-se, então, uma
decisiva alteração da correlação de forças: a maioria dos sovietes das
grandes cidades (Petrogrado, Moscovo) passa a apoiar o programa dos
bolcheviques, o mesmo acontecendo em vários pontos da frente e até
no mundo rural. A maioria dos deputados ao II Congresso Pan-russo dos
156
Grande Guerra • Ensaios
Sovietes (convocados para 24 de Outubro) apoia os bolcheviques. Nos
campos, os mujiques passam à ação, os comités camponeses ocupam e
dividem as terras (entre 1 de Setembro e 20 de Outubro registam-se 5 140
conflitos nos campos em mais de 300 distritos); os soldados, camponeses
fardados, sabendo disso e sendo época de semeaduras, desertam em
massa da frente e regressam às suas terras, o Exército desintegra-se.
Conservadores, liberais, socialistas moderados, passam à defensiva.
A revolução de Outubro
O desenlace aproximava-se. Kerenski organiza ainda, a 12 de Setembro,
um Conselho Provisório da República (o “pré-parlamento”) para
reinventar um arremedo de legitimidade face à maioria dos sovietes
agora sob hegemonia bolchevique e convoca eleições para a assembleia
Constituinte. Era uma corrida contra o tempo, mas o tempo esgotara-se
para o governo provisório.
A 10 de Outubro, não sem alguma oposição e controvérsia, Lenine
convence o Comité Central do partido bolchevique de que, face à
favorável correlação e forças descrita, perante a ameaça do governo
abandonar Petrogrado aos alemães e com as potências imperialistas
envolvidas na guerra entre si, o momento da insurreição chegara. Adiála podia deitar tudo a perder. A 24 de Outubro de 1917 (6 de Novembro),
respondendo a uma medida de encerramento do órgão central do partido
bolchevique, o Robotchi Pout (Via Operária), e pretextando a defesa
da liberdade das organizações populares, o Comité Revolucionário do
Soviete de Petrogrado, presidido por Trostsky, ordena a ocupação pelos
destacamentos dos guardas vermelhos, pelos marinheiros, pelos soldados
das unidades revolucionárias, dos pontos estratégicos da cidade. O
estado-maior da revolução instala-se no palácio Smolny, sede do soviete
de Petrogrado, onde Lenine chega nessa noite. A 25 de Outubro (7 de
Novembro), a cidade é ocupada quase sem oposição. O couraçado Aurora
157
Grande Guerra • Ensaios
Parada à frente do palácio do czar CORBIS
bombardeia o palácio de Inverno e nessa noite forças da infantaria
revolucionária tomam-no de assalto, vencendo a solitária resistência dos
junkers e prendendo o governo provisório.
O II Congresso Pan-russo dos sovietes inicia-se no Smolny nessa noite
de 25 de Outubro (7 de Novembro), quando a insurreição triunfa na
capital, e, ratificando-a, proclama que o poder passou para as mãos dos
sovietes e para as suas próprias mãos. A 26 de Outubro (8 de Novembro)
são aprovados os 2 decretos-chaves da revolução emergente: o Decreto
sobre a Paz propondo a imediata assinatura de um armistício e o início
de conversações de paz, e o Decreto sobre a Terra nacionalizando toda a
terra, confiscando a propriedade dos latifundiários, da família real e da
Igreja que seriam entregues ao usufruto gratuito dos camponeses e por
158
Grande Guerra • Ensaios
eles distribuídos pelos seus comités: o campesinato recebia assim 150
milhões de hectares de terra.
O poder não passou para os sovietes nem fácil nem repentinamente.
Em Petrogrado haveria ainda confrontos com os cossacos fiéis a Kerenski
nos dias seguintes, em Moscovo lutou-se durante vários dias com pesadas
baixas para os insurrectos e com Moguilev, no Grande Quartel-general
dos Exércitos, o general Doukhonine tentou rebelar-se contra o governo
soviético e foi morto pelos soldados, sendo o QG desmantelado. O poder
executivo foi delegado no Conselho dos Comissários de Povo eleito
pelo II Congresso dos sovietes. O novo governo impunha-se na capital,
em Moscovo e em outras cidades apoiado no operariado e nas guardas
vermelhas, mas estava cercado por um oceano de ruralidade em ebulição
e ao sabor das legiões de milhões de soldados que abandonavam a
frente. Os decretos sobre a paz e a terra, precisamente, materializavam
uma aliança política e social que, em termos imediatos, assegurava a
viabilidade da revolução e do governo dos sovietes. O II Congresso PanRusso camponês, reunido em dezembro de 1917, ratificou a revolução de
Outubro e o seu programa. Os SR de esquerda autonomizaram-se e são
então integrados no Conselho de Comissários do Povo.
A consolidação do governo revolucionário. A paz de Brest-Litovsk
Forte desse apoio e da legitimidade da representação soviética, o novo
governo dissolve a Assembleia Constituinte que entretanto fora eleita (e
onde os socialistas não bolchevistas eram maioritários) quando esta se
recusa a ratificar os decretos do II congresso dos sovietes. A democracia
dos sovietes impunha-se sobre a parlamentar.
Faltava ainda firmar a paz com os alemães. O armistício fora assinado
em 5 de Dezembro de 1917, mas as negociações arrastavam-se devido às
duríssimas condições que a Alemanha queria impor e porque Trotsky,
chefe da delegação soviética, as arrastava na espera da eclosão da
159
Grande Guerra • Ensaios
revolução alemã. A 5 de Janeiro de 1918 há um ultimato germânico com
condições draconianas. Os dirigentes bolchevistas dividem-se e segue-se
a posição de Trotsky: parar a guerra, mas sem assinar a paz. Resultado:
ofensiva alemã quase até às portas de Petrogrado. O ataque é travado,
mas os sovietes são obrigados a assinar a paz de Brest-Litovsk, a 23 de
Fevereiro, em condições ainda mais duras: perdem 26% da população do
país, 27% das terras férteis, 26% dos caminhos-de-ferro, 75% do carvão e
50% da indústria do ferro e do aço. Salva-se a revolução. Esta, entre 1918 e
1922 ainda teria que travar uma cruente guerra civil e enfrentar a invasão
dos exércitos da Grã-Bretanha, dos EUA, da França, da Itália e do Japão.
Para surpresa do mundo inteiro, a Rússia soviética sairia dela vencedora.
Mas o preço dessa vitória seria terrivelmente pesado e marcaria
definitivamente a natureza do regime que dela emergiria.
Notas
[1] Ottaviano de Fiore, “Guerra Civil. Trostky e o Exército Vermelho” in, 90
anos. Os Anos da Revolução Russa, ed. História Viva, S. Paulo, pág 51 e segs.
[2] Na Rússia czarista funcionava o calendário Juliano que tinha uma
desfasagem de 13 dias relativamente ao Gregoriano, usado no ocidente
e adotado pelo governo soviético em 1918. Neste texto usaremos a
datação do calendário Juliano, o que vigorava à data dos acontecimentos
descritos.
[3] A Duma (assembleia deliberativa do Estado) era um arremedo de
parlamento fruto das tímidas concessões da autocracia czarista após a
revolução de 1905;
[4] Soviete: palavra derivada do termo russo sove’t (soviet), que significa
conselho. Os primeiros sovietes de deputados operários e soldados
surgiram espontaneamente na revolução russa de 1905, reaparecendo
na de Fevereiro de 1917 e espalhando-se depois, como órgãos de poder
popular, por toda a Rússia e na frente de guerra;
160
Grande Guerra • Ensaios
[5] Bolchevistas: ala leninista e revolucionária da social-democracia
russa autonomizada como partido em 1912, quando organizativamente
se separa dos menchevistas. O termo bolchevique (partidário da maioria)
e menchevique (partidário da minoria) exprimia a relação de forças
entre as duas correntes saída do segundo congresso do Partido Social
Democrata Russo em 1903;
[6] Junkers: soldados cadetes da escola de guerra
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161
Grande Guerra • Ensaios
Os choques da civilização:
testemunhos, horrores
e silêncios
A guerra europeia em África foi essencialmente protagonizada
por africanos, os soldados e participantes mais desconhecidos de
todos. Como carregadores ou como soldados, foram vítimas de
horrores que só agora estão ser devidamente reconhecidos, ainda
que tardiamente, na Europa. O “imposto de vidas” assim o exige.
Ensaio de: Miguel Bandeira Jerónimo, investigador na ICS-UL
Trincheiras junto ao Rio Rovuma ARQUIVO HISTÓRICO MILITAR
162
Grande Guerra • Ensaios
“O
s indígenas mais válidos da Província têm sido violentamente
recrutados para fins expedicionários e já há hoje quem calcule
o número de mortos em perto de 50 mil. Porque os indígenas
só voltam quando moribundos ou estropiados, a repugnância
pelo recrutamento e pelo nome português tem-se espalhado através do
sertão; contam as vicissitudes porque passam, dias sem alimentação
muitas vezes, ou com alimentação imprópria; os mortos e os moribundos
abandonados pelo caminho como animais; a lenda funesta alastra-se, os
pretos emigram em massa, a agricultura e a indústria Zambeziana lutam
com falta de braços, e o Governo é vítima dos seus próprios métodos,
só pela violência encontra quem o sirva, e chegará o momento, se os
métodos não mudarem, em que nem carregadores encontre e em que
as empresas da Zambézia tenham de assistir à ruína e transformação
de tanto esforço e dinheiro empregado em puras perdas por falta de
indígenas para o trabalho”. Assim sendo, não era de estranhar que o
“indígena” tivesse começado a “odiar os que o arrancam ao seu lar e
às suas florestas para o ir matar sem piedade, à míngua de tudo, nos
trabalhos forçados das expedições”. Era este o retrato sombrio constante
numa carta, datada do dia 6 de Maio de 1918, enviada conjuntamente
pelo Grémio de Proprietários e Agricultores da Zambézia, pela Companhia
do Boror e pela Sociedade de Recrutamento de Indígenas ao Governadorgeral de Moçambique, Manuel Luís Moreira da Fonseca.
A citação é longa mas descreve e resume, de modo assertivo, os
principais processos que resultaram da extensão da primeira guerra
mundial aos contextos coloniais, sobretudo chamando a atenção para o
papel, infelizmente desvalorizado e ignorado por muitos, desempenhado
pelas populações coloniais, neste caso africanas.
Os acordos feitos pelas autoridades portuguesas com o General Jacob
van Deventer, comandante militar sul-africano que liderava as forças
imperiais britânicas, para o recrutamento de carregadores em função
das necessidades destas estavam, há muito, a ter consequências nefastas.
163
Grande Guerra • Ensaios
Posto de observação junto ao Rio Rovuma, 1916 ARQUIVO HISTÓRICO MILITAR
O envolvimento coincidente de “gente portuguesa” no recrutamento de
“levas de milhares de carregadores (...) compelidos à força a irem servir as
expedições inglesas” reforçava o seu efeito nocivo. Face à inconsequência
mobilizadora da legislação vigente na Niassalândia (protectorado colonial
britânico, hoje Malawi), que apenas autorizava o recrutamento voluntário,
os territórios coloniais portugueses tornaram-se o principal reservatório de
mão-de-obra para os esforços de guerra. “Sabendo que recrutamos à força
e tão à força que os nossos carregadores vêm amarrados como servos ou
como animais para os locais de recrutamento, sem o que não se conseguiria
um só”, as autoridades administrativas e militares imperiais britânicas
viravam-se para o “melhor sangue”, leia-se, os melhores braços, da colónia.
Conscientes de que não se “consentiriam tais processos de servidão” na
164
Grande Guerra • Ensaios
Niassalândia e contando com a “complacência e cumplicidade da soberania
portuguesa”, “um papel humilhante que aceitamos”, as autoridades
britânicas “vêm estimulá-lo no nosso território”, concluíam os signatários.
O desrespeito pelos africanos e a avidez pelos seus braços compelidos eram
os mesmos. O grau de envolvimento na
Atrás de nós deixamos sua mobilização e a tolerância para com
os procedimentos desumanos associados
campos destruídos,
é que pareciam variar.
lojas saqueadas e,
A tudo isto juntava-se o problema da
num futuro imediato, “fome”, que ameaçava tornar-se uma
realidade generalizada, e, mais tarde, o
a fome. Já não somos
da pneumónica. Na ânsia de evitar “ser
agentes de cultura; o
apanhado à força pelas autoridades,
nosso caminho está
escondido pelo mato, ou ao abrigo das
leis inglesas do Nyassaland”, o “indígena
marcado pela morte,
foragido ou emigrante (...) não culima
pela pilhagem e por
[cultiva], não trabalha”. As pilhagens e a
aldeias evacuadas”.
costumeira estratégia de terra queimada
Ludwig Deppe, no seu diário
decerto não ajudavam. A “fome com
todos os seus horrores” já tinha invadido a
região, “mortos de fome” eram encontrados “pelos caminhos e pelo mato”.
Na mesma altura, a 15 de Setembro de 1918, Ludwig Deppe, médico
que acompanhou as movimentações militares alemã na África Oriental
lideradas pelo General alemão Paul von Lettow-Vorbeck, a quem muitos
atribuem grandiosas qualidades militares, escreveu no seu diário: “Atrás
de nós deixamos campos destruídos, lojas saqueadas e, num futuro
imediato, a fome. Já não somos agentes de cultura; o nosso caminho está
marcado pela morte, pela pilhagem e por aldeias evacuadas”.
Quase um ano depois, a 15 de Março de 1919, o Grémio de Proprietários
e Agricultores da Zambézia reincidia na descrição de um bárbaro estado
de coisas, juntando, no entanto, novos dados. Mais uma vez, um longo
165
Grande Guerra • Ensaios
excerto que merece ser reproduzido pelo seu carácter elucidativo: “Veio
há pouco a guerra com a ‘German East Africa’ em que a nossa infeliz
província sofreu o mais cruel imposto de vidas que é lícito conceber. Para
alimentar de carregadores as forças inglesas, e de carregadores e soldados
as forças portuguesas, não houve recurso nem violência de que se não
lançasse mão, pondo em risco e prejudicando não só o prestígio da nossa
soberania, mas obrigando a prejuízos inenarráveis todas as indústrias e os
imensos interesses e sacrifícios que significam a nossa acção económica
e civilizadora naquela província. Não se pode avaliar em menos de 80 mil
os indígenas portugueses mortos por virtude da guerra contra o alemão,
e para cúmulo da desgraça, o flagelo da pneumónica, ao findar a guerra,
veio completar a obra de devastação iniciada, por vezes com perfeita
inconsciência, pelas próprias autoridades”. Por vezes, apenas por vezes,
com “perfeita inconsciência”, note-se.
Impressões semelhantes foram transmitidas para Lisboa
pela Companhia do Boror: abusos em excesso, sem controlo oficial
ou protagonizado mesmo pelas autoridades; uma pressão constante
e agressiva para garantir o recrutamento forçado de carregadores
africanos ao serviço de britânicos e portugueses; revoltas “indígenas”
generalizadas; e, por fim, a “morte de cerca de 80 mil carregadores”.
É certo que ambas as companhias procuravam, acima de tudo, bloquear
o desvio de mão-de-obra africana das suas plantações para as necessidades
insaciáveis das forças militares. Procuravam ainda questionar, como faziam
com frequência, as políticas e a economia, formal e informal, da circulação
de trabalhadores africanos para as minas do Transvaal. A deslocação da
“população válida” para o serviço militar, para servir de carregadores e
“nunca mais voltarem”; a sua utilização “em grande número” para suprir
as “necessidades da administração”; a sua emigração para a Niassalândia e
a sua fuga para o “mato” constituíam uma combinação de factores danosos
insuperável. O uso de “braços para tão desvairadas aplicações” tinha de
ser imediatamente restringido. O recrutamento forçado enquanto “acção
166
Grande Guerra • Ensaios
Coluna apeada de reabastecimento de géneros, entre Mocímboa do Rovuma e Negomano, 1917 DR
económica e civilizadora” era certamente aceitável. Se este representasse
a cedência a interesses económicos externos, tornava-se questionável
enquanto política. Já o seu usufruto para esforços de guerra era intolerável,
mesmo se por forças aliadas.
Para os ingleses, contudo, as causas da resistência e insatisfação
generalizadas residia noutro sítio: na natureza débil da soberania colonial
portuguesa e do seu aparato administrativo, na inexistência de uma rule
of law (com mecanismos de regulação, inspecção e justiça) e na escassa
qualidade dos seus funcionários. A autocracia não vigiada dos chefes
de posto, cuja acção era no essencial determinada pela aquisição de
benefícios económicos, e a acção descontrolada dos cipaios (polícia
nativa) que “aterrorizavam o nativo, batendo, assassinando, violando
e roubando”, eram sublinhadas em vários memorandos britânicos
como exemplos maiores da inaceitável administração portuguesa de
Moçambique, e não apenas em contexto de guerra. Esta “forma brutal e
autocrática de governo” explicava o “estado de guerra permanente entre
as autoridades portuguesas e os desafortunados nativos”.
A concorrência por trabalhadores africanos conduziu a conflitos vários
entre os múltiplos interesses europeus e as comunidades locais. Provocou
ainda momentos de inflamada competição interimperial e de indignação
internacional, como os casos do Congo Belga de Leopoldo II e do cacau
167
Grande Guerra • Ensaios
escravo de São Tomé, ambos com o seu auge no início do século XX,
demonstram. A dinâmica militar da guerra só acentuou esses processos. O
escasso desenvolvimento infra-estrutural e comunicacional nas colónias,
marcado pela quase ausência de estradas, rios navegáveis e caminhosde-ferro, exigia um recurso desmesurado aos carregadores, cujo
recrutamento assentava em violentas operações de resgate por cipaios e
por outro tipo de recrutadores, públicos e privados (ainda que esta
distinção fizesse pouco sentido a maior parte das vezes).
Calcula-se que cerca de 60 mil a 90 mil carregadores tenham sido
usados pelos portugueses durante a guerra em Moçambique. Cerca de 30
mil terão sido fornecidos às forças expedicionárias britânicas, o que não
impediu inúmeras acusações britânicas de incumprimento dos acordos
estabelecidos. A procura suplantava a oferta. Em virtude do conflito
que envolveu os alemães, os britânicos (incluindo a África do Sul) e os
portugueses na África Oriental, calculase que tenham sido mobilizados entre
Por ordem superior
500 mil a 700 mil carregadores
foram enforcados
africanos. Destes, calcula-se que
bastantes pretos e
tenham falecido entre 200 mil a 400
mil: em combate, por subnutrição (em
pretas (...). Os pretos
1917, os carregadores recebiam apenas
eram enforcados
1000 calorias por dia), por doenças
nas árvores e para
várias (incluindo as disseminadas
isso utilizaram, por
em campos de concentração), por
vezes, arame farpado. deserção (que era endémica e conduzia
a execuções sumárias). Não sabemos
Eram os landins
quantos ficaram inválidos ou para
os executantes dos
sempre com a marca das agruras e
enforcamentos.
crueldades associadas a este processo.
Uma outra estimativa considera que
Testemunho de Joaquim Pinto
(Março de 1917)
as forças britânicas sozinhas recrutaram
168
Grande Guerra • Ensaios
mais de um milhão de trabalhadores para a campanha na África Oriental,
provenientes do Congo Belga, do Ruanda, do Quénia, do Uganda, da
Rodésia, da Niassalândia, da África Oriental Alemã e, claro, do norte
de Moçambique. Só no Tanganica, cerca de um terço da população
masculina taxável foi recrutada. Contrariamente ao que pensavam (ou
alegavam) as companhias da Zambézia, na Niassalândia cerca de 4/5
da mão-de-obra disponível (200,000 homens) foi utilizada. No total,
estima-se que cerca de dois milhões de Africanos estiveram directamente
envolvidos no conflito, tanto como soldados como como “trabalhadores”.
A guerra contra os nativos
Em 1917, como em 1914, a soberania colonial continuava a ser
uma soberania de jure, não de facto, feita de fronteiras instáveis e
turbulentas, de entendimentos frágeis e clientelares, sustentada na
violência exemplar, onde pontuavam regularmente as expedições
punitivas. E mesmo do ponto de vista estritamente legal, esta soberania
não era rigorosa. Por exemplo, a fronteira entre os Portugueses e os
alemães no sul de Angola estava tenuemente definida. Ao contrário
da retórica civilizadora, esta soberania restrita visava essencialmente
dois grandes objectivos. Por um lado, assegurar, de modo coercivo
se necessário, o contínuo recrutamento, uso e distribuição, para
fins públicos e privados, de mão-de-obra nativa. Esta operação era o
principal mecanismo de extracção colonial, uma receita importante
para a administração colonial. Por outro, garantir um aparato
administrativo capaz de estabelecer mecanismos eficazes para a
execução da exacção fiscal. A dimensão imperial da guerra, constitutiva
do conflito europeu, constituiu uma oportunidade de prolongamento
e intensificação desta soberania colonial. Em certo sentido, o estado
de excepção que a guerra sempre acarreta foi particularmente benéfico
para a prossecução dos interesses do Estado-império português, como
169
Grande Guerra • Ensaios
de outros impérios coloniais. Em contextos coloniais, a Grande Guerra
facilitou o enraizamento imperial. O argumento que concebe este conflito
como o início do fim dos impérios coloniais europeus tem de ser tomado
com muitas reservas.
A guerra reforçou conflitos já existentes e estimulou motivações e
formas de protesto e resistência antigas, revelando, de modo claro,
a natureza e o alcance da soberania colonial portuguesa, que era,
no essencial, uma mera realidade legal. Por exemplo, a segunda
expedição para Angola (15 de Março de 1915), liderada pelo General
Pereira d’Eça, tinha um duplo objectivo: reagir ao desastre de
Naulila e pacificar insurreições nativas, nomeadamente a dos Cuamatas
e dos Cuanhamas, reforçando a presença colonizadora. A batalha de
Môngua, entre 18 e 20 de Agosto de 1915, foi um dos mais violentos
conflitos, marcado pela maciça conscrição forçada de mão-de-obra
africana para combater...comunidades africanas, não alemãs. Cerca
de quatro mil soldados africanos foram mobilizados no início de 1915,
sendo, de forma notória, deficientemente dirigidos e violentamente
tratados. Mais de 50% foram mantidos em serviço para lá do tempo
legalmente permitido e o número de soldados jovens (com 10, 15 e
18 anos de idade) era bastante elevado. A expedição foi, assim, um
mecanismo de sedimentação do poder coercivo da administração colonial
e uma conclusão violenta de conflitos antigos, iniciados aquando do
começo das campanhas de pacificação em finais do século XIX.
As sessões secretas ocorridas na Câmara dos Deputados em Julho
de 1917 são esclarecedoras. No dia 18 de Julho de 1917, Alexandre de
Vasconcelos e Sá, que esteve nas campanhas no Sul de Angola, declarava
ser “verdade que se enforcaram pretos adultos Humbes Cuamates e
Cuanhamos” e não negava a “morte de mulheres grávidas abaionetadas,
de crianças, enterramento delas vivas ainda”, “horrores” que tinham
sido confirmados por oficiais e soldados portugueses sob juramento.
Tais comportamentos, que não testemunhara, eram “represálias”
170
Grande Guerra • Ensaios
relativas aos “massacres cruéis” feitos pelos nativos “após a revolta
depois do desastre de Naulila nos nossos soldados”. O deputado militar
português compreendia ainda “as selvajarias praticadas no inimigo pelos
auxiliares indígenas que em todas as campanhas africanas as praticam”.
A “necessidade da sua utilização” era
motivo suficiente para “se fechar os
Calcula-se que
olhos a barbaridades”. Estas palavras
cerca de 60 mil a 90
faziam parte de uma resposta a inúmeros
mil carregadores
documentos que comprovavam as
iniquidades, apresentados na Câmara
tenham sido usados
pelo deputado coronel Tomás de Sousa
pelos portugueses
Rosa.
durante a guerra em
Eis alguns exemplos de testemunhos
Moçambique. Cerca
de militares portugueses envolvidos nas
campanhas do sul de Angola.
de 30 mil terão sido
A 19 de Março de 1917, Joaquim Pinto
fornecidos às forças
testemunhou que “por ordem superior
expedicionárias
foram enforcados bastantes pretos e
britânicas
pretas (...). Os pretos eram enforcados
nas árvores e para isso utilizaram, por
vezes, arame farpado. Eram os landins os executantes dos enforcamentos
(...). Consta-me que foram enterrados vivos uma criança e um homem
(...). Consta-me também que muitos enforcamentos eram feitos sem que
os pretos ou pretas hostilizassem as forças. Matavam-se os pretos que
eram encontrados e parece até que isso se fazia por divertimento”.
A 28 de Março de 1917, Frutuoso Alves declarou: “vi enterrar crianças
semi-vivas, esfaquear mulheres grávidas”. Tal como Frutuoso Alves,
Francisco Filipe de Sousa também mencionou, numa declaração sob
compromisso de honra datada de 18 de Março de 1917, a existência do
“imbundeiro fatal”, uma “árvore no Humbe” onde estava um “verdadeiro
cacho humano” de enforcados. Outros “pretos eram enterrados antes
171
Grande Guerra • Ensaios
de completamento mortos”, sendo que o “preto carrasco” indicara o
“manéputo” – o General, nesta ocasião o General Pereira d’Eça – como
responsável pelo sanguinário procedimento. Francisco Filipe de Sousa
declarou ainda: “Tenho conhecimento que houve ordem para se lascarem
as ogivas das balas para as transformarem em balas “Dun-Dun” por forma
a causarem os maiores destroços no organismo humano, dando lugar
a que ao espalhar-se entre os pretos o nome do general, nunca mais o
esquecessem ou o conservassem na memória, pelo menos durante cinco
anos, após a vitória das armas portuguesas”.
Perante estes testemunhos, Afonso Costa advertiu: “nãos nos
deixemos mover por idealismos nem esqueçamos o conceito e
impressão dos pretos perante respeitos humanitários que ele considera
como fraqueza ou pusilanimidade”. Já Brito Camacho argumentou que
“civilizar com a navalha e a carabina, não é humanitário nem científico”.
As atrocidades e os massacres de africanos, por portugueses e por
africanos sob comando português, resultaram, em larga medida, dos
ciclos de violência associados à ocupação colonial efectiva, não apenas
da dinâmica cruel da grande guerra.
Como seria de esperar, o impacto local destas dinâmicas
combinadas foi significativo: reactivação e acréscimo de tensões
várias entre autoridades coloniais e comunidades locais (europeias
e africanas), redundando em numerosos e violentos conflitos e em
êxodos maciços, forçados e voluntários, nas comunidades africanas.
Estas tensões foram decerto ampliadas pelas movimentações
das forças alemãs: as promessas de término da exacção forçada
de impostos e de mão-de-obra foram certamente acolhidas com
entusiasmo em inúmeros locais. Mas estas tensões não se podem
compreender com o mero recurso a esta explicação, que foi usada
então para desresponsabilizar as autoridades portuguesas e para
justificar o descontentamento nativo com causas em nada relacionadas
com a acção civilizadora dos portugueses.
172
Grande Guerra • Ensaios
O recrutamento forçado de africanos para serem carregadores, militares
e para trabalhar na construção de estradas (que reforçavam a comunicação
de guerra e também o alcance do aparelho coercivo da administração
colonial) reacendeu numerosos conflitos. Alguns destes adquiriram um
carácter pan-étnico, como sucedeu, por
exemplo, na Zambézia. A agitação e as
Não nos deixemos
revoltas em Tete e no Barué em 1917, que
mover por idealismos envolveram cerca de 15,000 combatentes
nem esqueçamos
africanos numa região que fora objecto
de pacificação uns anos antes, estiveram
o conceito e
certamente relacionadas com as
impressão dos pretos
movimentações da guerra, embora não
perante respeitos
se possam compreender senão num
humanitários
enquadramento histórico mais amplo,
do ponto de vista cronológico, e mais
que ele considera
aprofundado, de um ponto de vista
como fraqueza ou
analítico.
pusilanimidade
As revoltas tornaram-se assim
Afonso Costa
momentos importantes na história
Presidente do Ministério
da insurreição anticolonial, tendo
sobrevivido ao fim da Grande Guerra.
Foram também sintomas da prolongada e violenta consolidação da
administração colonial. Como em Angola, onde em 1917 ocorreram os
violentos conflitos nas plantações de café de Amboim e Novo Redondo,
as dinâmicas e particularidades do contexto de guerra acarretaram o (re)
questionamento da ténue soberania colonial Portuguesa em Moçambique.
Como em Angola, a dinâmica da guerra encontrou-se umbilicalmente
ligada aos esforços de décadas de consolidação da ocupação colonial. E é
esta intersecção de eventos e processos, que importa, mais do que nunca,
compreender, nomeadamente no que concerne às causas, motivações e
desideratos dos ciclos de violência que ambos os processos espoletaram.
173
Grande Guerra • Ensaios
1917 foi um ano importante na história da Grande Guerra em contextos
coloniais e nas histórias da resistência, protesto e revolta contra a
investida colonizadora. Foi ainda um ano particularmente relevante nas
histórias da colonização portuguesa, nomeadamente no que concerne
aos projectos de expansão da dominação colonial, em parte baseados
no recrutamento local de soldados auxiliares africanos, fornecidos
por clientes regionais, em resultado das costumeiras políticas de aliança
com potentados locais, por vezes relacionadas com estratégias de dividirpara-reinar, por via da instigação e uso instrumental de conflitos locais.
Por exemplo, cerca de 10 mil a 15 mil Angunes foram decisivos na
resolução da revolta do Barué; nas revoltas de Amboim, cerca de três
mil auxiliares africanos participaram na resposta portuguesa. Em
Moçambique, ao lado dos militares portugueses, estavam cerca de
11 mil soldados africanos e várias dezenas de milhar de carregadores
“indígenas”; em Angola calcula-se que cerca de 10,000 soldados nativos
tenham sido mobilizados. Os soldados africanos eram mal pagos, quando
o eram de todo. Devido a uma alimentação desadequada ou escassa,
entre outros factores de relevo, os problemas de saúde foram numerosos:
pneumonia, disenteria, subnutrição. Cerca de 2487 morreram por doença
(dos dois mil soldados portugueses que faleceram, apenas 142 morreram
em combate). Os carregadores carregavam cerca de 30 quilos de carga,
estando usualmente presos entre si, com arame no pescoço.
O uso de tropas nativas não foi apenas mais um exemplo da
improvisação generalizada que caracterizou o esforço de guerra
nacional. Foi também mais uma entrada no vasto catálogo de
atrocidades que pautaram a acção portuguesa (e europeia) na altura.
Os voluntários da corda – ou seja, os africanos “vadios” e “indolentes”
que eram capturados, atados a uma corda e conduzidos a instalações
militares, num processo em muito semelhante ao recrutamento de
mão-de-obra para trabalhos públicos e privados – detiveram um papel
fundamental nestes conflitos.
174
Grande Guerra • Ensaios
A guerra europeia em África foi essencialmente protagonizada por
africanos. Estes, sim, são os soldados e participantes mais desconhecidos
de todos. Um pouco por toda a Europa estão ser devidamente
reconhecidos, ainda que tardiamente. O “imposto de vidas” assim o exige
Bibliografia sumária
Richard Fogarty e Andrew Jarboe, eds., Empires in World War I: shifting
frontiers and imperial dynamics in a global conflict (London: I.B. Tauris,
2014)
Robert Gerwarth e Erez Manela, eds., Impérios em Guerra: 19111923 (Lisboa: Dom Quixote/Leya, 2014).
Filipe Ribeiro de Meneses, Portugal 1914-1926: From the First World War
to Military Dictatorship (Bristol: Hispanic, Portuguese & Latin American
Monographs, 2004)
Ana Mira, ed., Actas das sessões secretas da Câmara dos Deputados e
do Senado da República sobre a participação de Portugal na I Grande
Guerra (Lisboa: Assembleia da República/Afrontamento, 2002)
René Pélissier, Les guerres grises. Résistances et révoltes en Angola (18451941) (Orgeval: Éditions Pélissier, 1978)
René Pélissier, Naissance du Mozambique.Résistances et révoltes
anticoloniales (1854-1918) (Orgeval: Éditions Pélissier, 1984)
Hew Strachan, The First World War in Africa (Oxford: Oxford University
Press, 2004).
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