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A TRINDADE NAS ESCRITURAS

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A TRINDADE NAS ESCRITURAS
TEXTOS: Gn 1.1-26; 3.22; 11.7; Is 6.8-10, Mt 3.16-17; 28.19; Jo 1.18; 14.16; At 2.3233; 5.3-4; 10.38; 2 Co 13.13; Cl 1.15-17; 1 Jo 5.20.
“A razão nos mostra a unidade de Deus; apenas a Revelação nos mostra a Trindade
de Deus” (Strong).
A palavra trindade em si não aparece na Bíblia. Sua forma grega TRIAS parece ter
sido usada primeiro por Teófilo de Antioquia (181 d.C.), e sua forma latina, TRINITAS,
por Tertuliano (220 d.C.). Com Trindade queremos dizer que há três distinções eternas
em uma essência divina, conhecidas como PAI, FILHO e ESPÍRITO SANTO. Aqueles
que descreem na trindade divina, o fazem por um monoteísmo exclusivista na acepção da
palavra, em cuja prática pecam contra o mandamento cristão que determina: “Examinai
todas as coisas, retende o bem” (1 Ts 5.21).
Embora Deus seja um só, ele nunca está só. Diz Irineu: “Estão sempre com ele a
palavra e a sabedoria, o Filho e o Espírito Santo, por meio dos quais tudo fez livre e
espontaneamente”. Segundo Irineu, esses três são um só Deus porque possuem uma só
dynamis, um só poder de ser, uma só essência, a mesma potencialidade. “Potencialidade”
e “dinâmica” são termos latinos e gregos para significar o que expressamos em nossa
língua pelo termo “poder do ser”.1
Os pais capadócios, especialmente Gregório de Nazianzo, faziam claras distinções
entre os conceitos empregados para definir o dogma trinitário. Havia duas séries de
conceitos: a primeira dizia “uma divindade”, “uma essência” (ousia - οὐσία), e “uma
natureza” (phiysis); a segunda, “três substâncias” (hypostaseis - ὑποστάσεις), “três
propriedades” (idiotetes), e “três pessoas” (prosopa, personae). A divindade era entendida
como uma essência ou natureza em três formas, três realidades independentes. Todas as
três tinham a mesma vontade, a mesma natureza e a mesma essência.2
O ESPÍRITO SANTO NO ANTIGO TESTAMENTO 3
Uma primeira velada referência ao Espírito encontra-se nas primeiras linhas da
Bíblia, no hino a Deus Criador com que se abre o livro de Gênesis: “E a terra era sem
forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre
a face das águas” (Gn 1.2). Para dizer “espírito” usa-se aqui a palavra hebraica ruach que
significa “sopro” e pode designar tanto vento como o respiro. Emerge daí o papel do
Espírito, cuja percepção é favorecida pela mesma analogia da linguagem que, por
associação, vincula a palavra ao sopro dos lábios: “Mediante a palavra do Senhor foram
feitos os céus, e os corpos celestes, pelo sopro de sua boca ” (Sl 33.6). Este sopro vital e
vivificante de Deus não está limitado ao instante inicial da criação, mas sustém em
permanência e vivifica toda criação, renovando-a continuamente: “Envias o teu Espírito,
e são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104.30).
TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. Edições Paulinas, Editora Sinodal, 1987, p. 61.
TILLICH, Paul. Op. Cit., p. 92.
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PAULO II, João. O ESPÍRITO SANTO. 2ª ed. Lorena, SP: Editora Cléofas, 2003, p. 8-10.
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A novidade mais característica da revelação bíblica é ter divisado na história o
campo privilegiado da ação do Espírito de Deus. Em cerca de 100 passagens do Antigo
Testamento o ruach IAHWEH indica a ação do Espírito do Senhor que guia o Seu povo,
sobretudo nos grandes momentos do seu caminho. Assim, no período dos juízes, Deus
fazia descer o seu Espírito sobre homens débeis e transformava-os em guias carismáticos,
investidos de energia divina: é o que aconteceu com Gideão, Jefté e em particular com
Sansão (cf. Jz 6.34; 11.29; 13.25; 14.6,19).
Com o advento da monarquia davídica esta força divina, que até então se
manifestara de modo imprevisível e intermitente, alcança uma certa estabilidade. Isto é
bem constatado na consagração régia de Davi, a propósito do qual a Escritura diz: “e
daquele dia em diante o Espírito do Senhor se apoderou de Davi” (1 Sm 16.13).
Durante e depois do exílio na Babilônia toda a história de Israel é relida como um
longo diálogo estabelecido por Deus com o povo eleito, “pelo Seu Espírito, pelo
ministério dos profetas do passado” (Zc 7.12). O profeta Ezequiel torna explícito o
ligame entre o Espírito e o profeta, por exemplo quando diz: “Então o Espírito do Senhor
veio sobre mim, e mandou-me dizer: “Assim diz o Senhor...”. (Ez 11.5)”.
Mas a perspectiva profética aponta sobretudo no futuro o tempo privilegiado em
que se cumprirão as promessas no sinal do ruach divino. Isaías anuncia o nascimento de
um descendente, sobre o qual “repousará o Espírito... de sabedoria e de entendimento,
espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor” (Is 11.2).
“Este texto é importante para toda a pneumatologia do Antigo Testamento, porque
constitui como que uma ponte entre o antigo conceito bíblico do espírito, entendido
primeiro que tudo como a pessoa. O Messias da estirpe de Davi (do tronco de Jessé) é
precisamente essa pessoa, sobre a qual “pousará” o Espírito do Senhor.
Já no Antigo Testamento emergem dois traços da misteriosa identidade do Espírito
Santo, depois amplamente confirmado pela revelação do Novo Testamento.
O primeiro traço é a absoluta transcendência do Espírito, que por isso é chamado
“santo” (Is 63.10,11; Sl 51.13). Para todos os efeitos o Espírito de Deus é “divino”. Não é
uma realidade que o homem pode conquistar com as suas forças, mas um dom que vem
do alto: só se pode invocá-lo e acolhê-lo. Infinitamente “outro” a respeito do homem, o
Espírito é comunicado com total gratuidade a quantos são chamados a colaborar com Ele
na história da salvação. E quando esta energia divina encontra um acolhimento humilde e
disponível, o homem é arrancado do seu egoísmo e libertado dos seus temores, e no
mundo florescem o amor e a verdade, a liberdade e a paz.
Outra característica do Espírito de Deus é o poder dinâmico que Ele revela nas Suas
intervenções na história. Às vezes corre-se o perigo de projetar sobre a imagem bíblica do
Espírito concepções ligadas a outras culturas como, por exemplo, a concepção do
“espírito” como algo evanescente, estático e enerte. A concepção bíblica do ruach está ao
contrário, a indicar uma energia supremamente ativa, poderosa, irresistível: o Espírito do
Senhor – lemos em Isaías – “é torrente transbordante” (Is 30.28). Por isso, quando o Pai
intervém com o seu Espírito, o caos transforma-se em cosmo, no mundo acende-se a vida,
e a história põe-se novamente em caminho.
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A TRINDADE NO ANTIGO TESTAMENTO
1. O vocábulo hebraico ELOHIM (Deus), aparece mais de 2000 vezes no A. T. É este
um substantivo, personativo, masculino, plural. Elohim é o divino autor de tudo (Gn 1.13).
2. Para aqueles monoteístas exclusivistas, Elohim é apenas um plural nobre, o que nada
mais é do que um escapismo, uma farsa, pois não cremos que o Espírito Santo, ao dar a
revelação a Moisés, tenha deixado-nos um mistério, um enigma. Ao contrário, havendo
na língua original por ele usada os vocábulos EL e ELOHÁ (Deus), substantivo
personativo, masculino, singular, usou o plural destes vocábulos, a saber, Elohim, com a
finalidade de nos dar através dele, já no início da história humana, conhecer a raiz da
maravilhosa doutrina da Trindade.
3. Além do plural (Elohim), o texto do Antigo Testamento utiliza-se de verbos, adjetivos
e pronomes também no plural em plena concordância em gênero e número com o
substantivo plural Elohim. Ex: Gn 1.26; 3.22; 11.7; Js 24.19. Não podeis servir a Iahweh,
pois Ele é um Deus santo... A frase deste texto é no hebraico Elohim Kdoxim, o adjetivo
Kadosh (ְׁ‫ = )קדַּ ש‬santo, pluralizado em Kdoxim (‫)קדֹ ִׁ֔שים‬, concorda com o plural Elohim.
4. A linguagem do Antigo Testamento alude a trindade divina atribuindo os títulos PAI,
FILHO e ESPÍRITO SANTO, às três pessoas divinas. Ex: Is 63.16; Sl 2.7; Gn 1.2; Is
11.2; Ml 2.10; Sl 45.6-7l; Pv 30.4; Is 63.10.
5. Há na língua hebraica dois adjetivos que expressam o sentido de unidade: ERRAD
(‫ = )אֶ ָֽחד‬um e IRRID (‫ = )י ָֽחיד‬único.
O monoteísmo exclusivista tem por base fundamental o texto constante de Dt 6.4,
que em hebraico diz: (‫“ )שמַּ עְׁישראֵ לְׁיהוהְׁאֱ ֹלהֵ ינּוְׁיהוהְׁאֶ ָֽחד‬Ximah Israel Iahweh Eloheinu
Iahweh Errad”, que traduzido fielmente significa: “Escuta Israel: O eterno é nosso Deus,
O Eterno é um” (Tradução do rabino Meir Masliah Melamed). Este texto hebraico foi
traduzido por 70 rabinos para o grego comum do seu tempo, fielmente, conforme consta a
Septuaginta: Ἄκουε, Ισραηλ· κύριος ὁ θεὸς ἡµῶν κύριος εἷς ἐστιν· = “Akoue Israel,
kurios o Theon emon eis esti” - que traduzido literalmente significa: “Ouve Israel, o
Senhor o Deus nosso, o Senhor é um”. Jerônimo traduziu o grego dos 70 para o latim,
conforme consta da Vulgata: “Audi, Israel, Dominus Deus noster, Dominus inis est”. A
tradução inglesa diz: “Hear, o Israel, the Lord our God is one Lord”. A tradução
espanhola diz: “Oye Israel, Jehová nuestro Dios, Jehová uno é”. Isto significa que o texto
hebraico exprime precisamente ser a divindade Criadora, Eterna, uma unidade composta,
posto que é isto que exprime o adjetivo ERRAD, conforme comprovam os seguintes
exemplos: Gn 2.24 - “Por isso deixa o homem pai e mãe, e se une à sua mulher, tornandose os dois uma (ERRAD) só carne”. Neste texto o adjetivo ERRAD admite a associação
de dois em um só: Jz 20.1-11; 1 Sm 11.7; Ed 3.1; 6.20. Em todos estes textos, o adjetivo
ERRAD demonstra que admite associação de dois e de muitos sem lhe alterar o sentido.
E, pasmem os monoteístas exclusivistas, é este adjetivo ERRAD, que é aplicado a
Divindade em todo o Antigo Testamento.
IRRID (‫ = )י ָֽחיד‬único. IRRID é uma unidade absoluta, exclusiva, que em absoluto,
não admite qualquer associação para poder exprimir o seu sentido restrito, absoluto, posto
que, qualquer associação que se lhe fizer, altera-lhe 100% o sentido que tem. Veja as
referências: Gn 22.2,16; Jz 11.34; Jr 6.26; Am 8.10. Todos estes textos e outros que
3
poderíamos acrescentar à relação evidenciam o adjetivo - IRRID (único). Este adjetivo é
um adjetivo absoluto que não admite associação com ninguém, porque qualquer
associação lhe altera o sentido, deixando de ser único para ser apenas um entre outros.
Este adjetivo IRRID nunca é usado (aplicado) em relação a Deus no texto hebraico do
Antigo Testamento.
É impossível, até o momento, descobrir a razão porque os tradutores da Bíblia para
o português haverem traduzido o vocábulo ERRAD (um), como o sentido de IRRID
(único): “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é único Senhor”. Chegamos a pensar: será
que Jesus ao citar este texto em resposta à pergunta do escriba, conforme Mc 12.29, haja
dado ao mesmo este sentido, motivando assim a tradução constante de nossas versões?
Mas consultando a versão hebraica do Novo Testamento e o Novo Testamento Grego
Koinê, verificamos que Jesus foi 100% fiel ao texto hebraico e a seu valor literal, citando
sem nenhuma alteração.
O ESPÍRITO SANTO NO NOVO TESTAMENTO 4
A revelação do Espírito Santo, como pessoa distinta do Pai e do Filho, velada no
Antigo Testamento, torna-se clara e explícita no Novo.
É verdade que os escritos neotestamentários não nos oferecem um ensinamento
sistemático sobre o Espírito Santo. Contudo, recolhendo os muitos dados presentes nos
escritos de Lucas, Paulo e João, é possível captar a convergência destes três grandes
filões da revelação neotestamentárias concernente ao Espírito Santo.
Em relação aos outros dois sinópticos, o evangelista Lucas apresenta-nos uma
pneumatologia muito mais desenvolvida.
No Evangelho ele tem em vista mostrar que Jesus é o único a possuir o Espírito
Santo em plenitude. Certamente, o Espírito intervém também em Isabel, Zacarias, João
Baptista e sobretudo em Maria, mas só Jesus, ao longo de toda a Sua existência terrena,
detém plenamente o Espírito de Deus. Ele é concebido por obra do Espírito Santo (Lc
1.35). A respeito d’Ele João Batista dirá: “Eu, na verdade, vos batizo em água, mas vem
aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de desatar a correia das
alparcas; ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo” (Lc 3.16).
Antes de batizar no Espírito Santo e no fogo, Jesus mesmo é batizado no Jordão,
quando desce “sobre Ele o Espírito Santo em forma corpórea, como uma pomba” (Lc
3.22). Lucas sublinha que Jesus não só vai ao deserto “levado pelo Espírito Santo”, mas
Se dirige para ali “cheio do Espírito Santo” (Lc 4.1), e ali vence o tentador. Ele
empreende a Sua missão, Jesus aplica a si mesmo a profecia do livro de Isaías (Is 61.1,2):
“O Espírito do Senhor está das sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas
aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos
cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor”
(Lc 4.18,19). Toda a atividade evangelizadora de Jesus é posta assim sob a ação do
Espírito.
Este mesmo Espírito sustentará a missão evangelizadora da Igreja, segundo a
promessa do Ressuscitado aos seus discípulos: “Eu vou mandar sobre vós o que Meu Pai
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PAULO II, João. O ESPÍRITO SANTO. 2ª ed. Lorena, SP: Editora Cléofas, 2003, p. 11-14.
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Prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com o poder do alto”
Lc 24.49). Segundo o livro dos Atos, a promessa cumpre-se no dia do Pentecostes:
“Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o
Espírito lhes inspirava que se exprimissem (At 2.4). Realiza-se assim a profecia de Joel:
“E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda
a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos mancebos terão
visões, os vossos anciãos terão sonhos” (Lc 2.17). Lucas vê nos apóstolos os
representantes do povo de Deus dos tempo finais, e ressalta com razão que este Espírito
de profecia envolve o inteiro povo de Deus.
Apóstolo Paulo, por sua vez, evidencia a dimensão renovadora e escatológica da
obra do Espírito, que é visto como a fonte da vida nova e eterna comunicada por Jesus à
sua Igreja.
Na 1ª Carta aos Coríntios lemos que Cristo, novo Adão, em virtude da ressurreição,
Se tornou “Espírito vivificante” (1 Co 15.45); Isto é, foi transformado pela força vital do
Espírito de Deus de maneira que Se tornou, por sua vez, princípio de vida nova para os
crentes. Cristo comunica vida precisamente através da efusão do Espírito Santo.
A existência dos crentes já não é a de escravos, sob a Lei, mas uma vida como
filhos, pois receberam o Espírito do Filho nos seus corações e podem exclamar: “Abbá,
Pai (Pater)! (Gl 4.5-7; Rm 8.14-16). E uma vida “em Cristo”, isto é, de pertença exclusiva
a Ele e de incorporação à Igreja: “Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em
um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos quer livres; e a todos nós foi dado
beber de um só Espírito” (1 Co 12.13). O Espírito Santo suscita a fé (1 Co 12.3), derrama
o amor (ágape) nos corações (Rm 5.5) e guia a oração dos cristãos (Rm 8.26).
Enquanto princípio de um novo ser, o Espírito Santo determina no crente um novo
dinamismo operativo: “Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também segundo o
Espírito” (Gl 5.25). Esta nova vida está contraposta à da “carne”, cujos desejos
desgostam a Deus e fecham a pessoa na prisão sufocante do eu que se dobra em si mesmo
(Rm 8.5-9). Abrindo-se, ao contrário, ao amor doado pelo Espírito Santo, o cristão pode
saborear o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade,
fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5.16-24).
Segundo Paulo, contudo, aquilo que agora possuímos é só um “sinal” ou primícias
do Espírito (Rm 8.23; 2 Co 5.5). Na ressurreição final, o Espírito completará a sua obra
prima, realizando para os crentes plena “espiritualização” do seu corpo (1 Co 15.43-44) e
envolvendo de algum modo na salvação o universo inteiro (Rm 8.20-22; At 3.21).
Na perspectiva joanina o Espírito Santo é sobretudo o Espírito da verdade, o
Paráclito.
Jesus anuncia o Dom do Espírito no momento de concluir a Sua obra terrena:
“Quando vier o Consolador, que procede do Pai, Ele testificará de Mim. E vós também
dareis testemunho, pois estivestes Comigo desde o princípio” (Jo 15.26 s). E ao
esclarecer ulteriormente o papel do Espírito, Jesus acrescenta: “Ele vos guiará para a
verdade total, porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos
anunciará o que há de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é Meu, para
vo-lo anunciar” (Jo 16.13,14). O Espírito, portanto, não trará uma nova revelação, mas
guiará os fiéis para uma interiorização e uma mais profunda penetração da verdade
revelada por Jesus.
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A TRINDADE NO NOVO TESTAMENTO
No progresso da Revelação o único Deus Verdadeiro aparece claramente no Novo
Testamento existindo em três Pessoas Divinas chamadas: PAI, FILHO e ESPÍRITO
SANTO (Mt 28.19; 2Co 13.13; Mt 3.16-17; Ef 2.18; 4.4-6; 5.18-20; 1 Pe 1.2; Jd 20-21).
1. Cada uma destas Divinas Pessoas possui Suas próprias características pessoais e se
distinguem claramente das outras Pessoas (comp. Jo 14.16,17,26; 15.26; 16.7-15).
Contudo as três Pessoas são iguais no ser, no poder e na glória; cada uma sendo chamada
de Deus (Jo 6.27; At 5.3-4); cada uma possuindo todos os atributos divinos (Tg 1.17; Hb
13.8; 9.14); cada uma realizando as obras divinas (Jo 5.21; Rm 8.11); e cada uma
recebendo honras divinas (Jo 5.23; 2 Co 13.13).
2. Com referência à ordem de suas atividades, o Pai é o primeiro, o Filho é o segundo, e
o Espírito Santo é o terceiro; a fórmula geral sendo a seguinte: do Pai (1 Co 8.6); Através
do Filho (Jo 3.17), pelo Espírito Santo (Ef 3.5) e para o Pai (Ef 2.18). Mesmo assim,
entretanto, nenhuma das Pessoas age independentemente das outras pessoas; mas sempre
há uma concorrência mútua, como disse o Senhor: “O meu Pai trabalha até agora, e eu
trabalho também (Jo 5.17); e o filho nada pode fazer de si mesmo (Jo 5.19)”; e
novamente, “Eu e o Pai somos um (Jo 10.28-30)”.
3. Na revelação de Deus no Novo testamento como um ser tri-pessoal, não há
afastamento do rigoroso monoteísmo do Velho Testamento (comp. Dt 6.4-5 com Mc
12.29-30; Rm 3.30). As três Pessoas Divinas são um Deus, não três deuses. Foi preciso
que o Velho Testamento enfatizasse primeiro a unidade Divina a fim de resguardar contra
as tendências politeístas. Mas mesmo no Velho Testamento, quando lido à luz do Novo
Testamento, surge a pluralidade de Pessoas dentro do Único Deus Verdadeiro (comp. Gn
1.26; Is 6.8; 48.12 com 48.16).
4. A Trindade de Deus é reconhecidamente um grande mistério, algo totalmente além da
possibilidade de uma explicação completa. Mas podemos nos resguardar do erro
apegando-nos firmemente aos fatos da Revelação Divina, que: 1º) quanto ao Seu Ser ou
essência, Deus é um; 2º) quanto à Sua Personalidade, Deus é três; 3º) não podemos nem
dividir a essência, nem confundir as Pessoas. Mas, apesar do seu mistério, a doutrina da
Divina Trindade sempre comprovou ser rica em valores espirituais e práticos.
5. A importância atribuída à Divina Trindade, na Revelação do Novo Testamento,
aparece no fato de que a doutrina está firmemente embebida em duas fórmulas que são
constantemente repetidas para o povo ouvir na igreja:
1ª) a fórmula do batismo (Mt 28.19);
2ª) a fórmula da bênção apostólica (2 Co 13.13).
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AS TRÊS PESSOAS CONSIDERADAS SEPARADAMENTE:
a) O Pai, ou a Primeira Pessoa da Trindade - o Nome Pai em sua aplicação a Deus. (1Co
8.6; Ef 3.15; Hb 12.9; Tg 1.17; Dt 32.6; Is 63.16; 64.8; Jr 3.4; Ml 1.6; 2.10; Mt 5.45;
6.6-15; Rm 8.16; 1Jo 3.1; Jo 1.14,18; 5.17-26; 8.54; 14.12,13). A primeira pessoa é o
Pai da Segunda num sentido metafísico. Esta é a paternidade originária de Deus, da
qual toda paternidade terrena é apenas um pálido reflexo.
b) O Filho, ou a Segunda Pessoa da Trindade - o Nome Filho em sua aplicação à
Segunda pessoa. A Segunda pessoa da trindade é chamado Filho ou Filho de Deus em
mais de um sentido do termo. (Jo 1.14,18; 16,18 ; Gl 4.4; 2Sm 7.14; Jó 2.1; Lc 3.38;
Jo 1.12; Jo 5.18-25; Mt 6.9; 7.21; Jo 20.17; Mt 8.29; 11.27; 26.63; 27.40; Jo 10.36; Jo
1.49; 11.27; 2Co 11.31; Ef 1.3; Jo 17.3 ; 1Co 8.6; Ef 4.5,6 ; Lc 1.32,35; Jo 1.13; Cl
1.15; Hb 1.6; Jo 1.1-14; 1 Jo 1; 1-3 ; 2 Co 4.4; Hb 1.3 ; Jo 1.14,18 ; 3.16,18; 1Jo 4.9;
Mq 5.2; Jo 1.14,18 ; 3.16; 5.17,18,30,36; At 13.33; Jo 17.5 ; Cl 1.16; Hb 1.3; At
13.33; Hb 1.5; 2 Sm 7.14; Jo 5.26; Jo 1. 3,10; Hb 1. 2,3; Jo 1.9; Sl 40.7,8; Ef 1.3-14.
c) O Espírito Santo, ou a Terceira Pessoa da Trindade - O nome aplicado à terceira
pessoa da trindade. (Jo 4.24; Gn 2.7; 6.17; Ez 37.5,6; Gn 8.1; 1Rs 19.11; Jo 3.8; Sl
51.11; Is 63.10,11; Sl 71.22; 89.18; Is 10.20; 41.14; 43.3; 48.17; Jo 14.26; 16.7-11;
7
Rm 8.26; Jo 16.14; Ef 1.14; Jo 15.26;16.7; 1Jo 1.1; Jo 14; 16-18; Rm 8.16; At 16.7;
1Co 12.11; Is 63.10; Ef 4.30; Gn 1.2; 6.3; Lc 12.12; Jo 15.26; 16.8; At 8.29; 13.2; Rm
8;11; 1Co 2.10,11; Lc 1.35; 4.14; At 10.38; Rm 15.13; 1Co 2.4. A relação do Espírito
Santo com as outras pessoas da trindade, são controvérsias trinitárias que levaram a
conclusão de que o Espírito Santo, como o Filho, é da mesma essência do Pai e,
portanto, é consubstancial com Ele. E a longa discussão acerca da questão, se o
Espírito Santo procedeu somente do Pai ou também do Filho, foi firmada finalmente
pelo Sínodo de Toledo em 589, pelo acréscimo da palavra. Filioque (e do Filho) à
versão latina do Credo de Constantinopla: Credimus in Spiritum Sanctum que a Patre
Filioque procedidit. (Cremos no Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho).
A Trindade na Experiência Humana5
No centro da fé cristã não está o ser humano, nem a Igreja, mas Deus. Este Deus
único, todavia, é percebido de maneiras diversas por nós.
Segundo a concepção bíblica, Deus é um Ser Tripessoal. Como, porém, Deus é um
Ser Pessoal, o único caminho para conhecê-lo, de modo a corresponder ao “objeto de
conhecimento”, é por um encontro pessoal. Quem pode dizer que “conhece” uma pessoa
antes de encontrá-la, cultivar a comunicação com ela e ter com ela um relacionamento
pessoal? Não é possível imaginar a fé cristã sem a dimensão da experiência. Deus não
pode ser conhecido “em si”, ele pode ser compreendido unicamente na relação conosco.
É esclarecedor ver que o Antigo Testamento usa para “conhecer” a mesma palavra
(Yāda’ - ‫ )יְׁדַּ ע‬que usa para ter “relações sexuais” (Gn 4.1; 19.8; Nm 31.17,35; Jz 11.39;
21.11; 1 Rs 1.4; 1 Sm 1.19). O conhecimento de Deus, portanto, na concepção bíblica,
pode ser comparado, sem problemas, ao encontro intenso e prazeroso entre um marido e
sua esposa! O professor de teologia enterrado em seus livros dificilmente é um modelo
apropriado de “conhecimento” no sentido bíblico, mas a relação sexual entre marido e
mulher sim.
O significado da revelação 6
O Antigo Testamento fala com freqüência em “conhecer” (Yāda’) ou “não
conhecer” Iavé (compare Is 1.3; Jr 2.8; 4.22; 31.34; Os 2.20; 4.1,6; 5.3,4; 6.6; 13.4). O
conhecimento no Antigo Testamento é bem diferente de nosso entendimento do termo.
Para nós, conhecimento implica compreender coisas pela razão, analisar e buscar relações
de causa e efeito. No Antigo Testamento, conhecimento significa “comunhão”,
“familiaridade íntima com alguém ou algo”.
Falando em Nome de Deus a Israel, Amós disse: “De todas as famílias da terra a
vós somente conheci; portanto, todas as vossas injustiças visitarei sobre vós” (Am 3.2,
ARC).
Vriezen disse que o Antigo Testamento faz do “conhecimento de Deus” a primeira
exigência da vida, jamais explica o significado do termo. O propósito da revelação divina
não é declarado especificamente no Antigo Testamento. A revelação não se baseia em
5
6
SCHWARZ, Christian. Nós diante da Trindade.Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1999, p. 6.
SMITH, Ralph L. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 95-96.
8
alguma necessidade de Deus. Deus não criou o mundo nem revela a si mesmo para ter
alguém que guarde o sábado, como diziam alguns rabinos antigos. O conhecimento de
Deus é mais que um mero conhecimento intelectual; diz respeito à vida humana como um
todo.
É essencialmente uma comunhão com Deus e é também fé; é um conhecimento do
coração que exige o amor do homem (Dt 4); sua exigência vital é que o homem aja de
acordo com a vontade de Deus e ande humildemente nos caminhos do Senhor (Mq 6.8). É
o reconhecimento de Deus como Deus, a rendição total a Deus como Senhor.
A expressão hebraica “o conhecimento de Deus” traz assim pelo menos três
conotações: (1) o sentido intelectual, (2) o sentido emocional e (3) o sentido volitivo. O
verbo “conhecer” (yada’) refere-se basicamente ao que chamamos atividade intelectual,
cognitiva; mas a psicologia hebraica não conhecia uma faculdade específica que
compreendesse o intelecto ou a razão.
“Conhecer a Deus” significava ter um entendimento intelectual de quem ele era, ter
um relacionamento pessoal e emocional com ele e ser obediente a sua aliança e
mandamentos.
O CREDO DE ATANÁSIO
Adoramos um Deus em Trindade, a Trindade em unidade. Não confundimos as
Pessoas, nem separamos a substância. Pois a Pessoa do Pai é uma, a do Filho outra e a do
Espírito Santo outra. Mas no Pai, no Filho e no Espírito Santo há uma Divindade, glória
igual e majestade coeterna. Tal qual é o Pai, o mesmo são o Filho e o Espírito Santo. O
Pai é incriado, o Filho é incriado, o Espírito Santo é incriado. O Pai é imensurável, o
Filho é imensurável, o Espírito Santo é imensurável. O Pai é eterno, o Filho é eterno, o
Espírito Santo é eterno. E, no obstante, não há três eternos, mas sim um Eterno. Da
mesma forma não há três seres incriados, nem três imensuráveis, mas um incriado e um
imensurável. Da mesma maneira o Pai é onipotente, o Filho é onipotente e o Espírito
Santo é onipotente. No entanto não há três seres onipotentes, mas sim um Onipotente.
Assim o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. No entanto, não há três
deuses, mas um Deus. Assim o Pai é Senhor, o Filho é Senhor e o Espírito Santo é
Senhor. Todavia não há três senhores, mas um Senhor. Assim como a verdade cristã nos
obriga a confessar cada Pessoa individualmente, como sendo Deus e Senhor, assim
também ficamos privados de dizer que haja três deuses ou Senhores. O Pai não foi feito
de coisa alguma, nem criado, nem gerado. O Filho procede do Pai somente, não foi feito,
nem criado, mas gerado. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, não foi feito, nem
criado, nem gerado, mas procedente. Há portanto, um Pai, não três Pais; um Filho, não
três Filhos; um Espírito Santo, não três Espíritos Santos. E nessa Trindade não existe
primeiro nem último; maior nem menor. Mas as três Pessoas coeternas são iguais entre si
mesmas; de sorte que por meio de todas, como foi dito acima, tanto a unidade na trindade
como a trindade na unidade devem ser adoradas.
“Na Trindade há um só Espírito (Ef 4.4), três almas ou Pessoas, e depois da
encarnação um corpo (o do Filho)” (Aldery Nelson).
9
“Assim como aquele que nega a doutrina da trindade pode perder a sua alma;
aquele que luta demasiadamente para entendê-la pode perder o seu juízo” (Dr. Robert
South).
O Princípio Trinitário das Relações e a Complexidade Ecológica 7
A fórmula trinitária utilizada em toda Igreja, até os nossos dias, procede da
terminologia grega. Não se conforma em afirmar a unidade da substância ou da natureza,
e por isso canoniza o emprego do termo consubstancial, não somente aplicado ao Filho,
mas um qualificativo comum às três pessoas divinas, numa tentativa de responder à
linguagem das três hipóstases, identificadas sem nenhuma ambiguidade com as três
pessoas (SESBOÜÉ, 1977, p. 93-124). Santo Agostinho (1995) trata a questão trinitária a
partir do amor, mostrando que as pessoas divinas não são mais do que três: um amando
aquele que dele procede; outro amando aquele do qual procede; e por fim, aquele que é a
própria caridade. Há a mais perfeita igualdade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sem
dúvida, Agostinho parte do fundamento da consubstancialidade trabalhado em Nicéia
325.
Seguindo a trilha de Agostinho, não podemos duvidar de que a Trindade, em seu
mistério de comunhão, é amor e caridade em plenitude. Do ponto de vista de Agostinho,
o amor supõe alguém que ame e alguém que seja amado. Dessa forma, temos três
realidades: o que ama, aquele que é amado, e o próprio amor (AGOSTINHO, 1995, p.
284). Diante dessa afirmação, podemos atribuir-lhe um caráter pericorético, visto que
essa relação perpassada pelo amor recíproco das três pessoas divinas equipara-se à
categoria de pericórese trabalhada por João Damasceno. Há um movimento amoroso,
inter-relacional, entre Pai, Filho e Espírito Santo na teologia trinitária de Agostinho.
A compreensão relacional e de comunhão das pessoas divinas está intimamente
relacionada com o conceito grego de pericórese. Em sua origem, o conceito designa
dança; o que significa: um dança girando, rodeando em torno do outro; e o outro
rodeando o primeiro. Como conceito reflexivo, pericórese provém do pensamento estóico
e neoplatônico, utilizado aqui para significar a relação, a união e a penetração recíproca
de corpo e alma. Na teologia, o conceito surge desde Gregório Nazianzeno em contextos
cristológicos. Máximo Confessor desenvolve o termo pericórese na tentativa de expressar
a penetração recíproca do divino e humano em Jesus Cristo, ou melhor, para pensar
communio (comunhão) como comunicatio (comunicação).
Essa compreensão era tomada pela teologia da Trindade. Foi o que aconteceu a
João Damasceno e a partir dele, pois antes dele, a encontramos originando-se da raiz de
Jo 18.38 e 14.10; encontramos seu conteúdo em Atanásio e nos padres capadócios. No
contexto teológico-trinitário, pericórese significa que o Pai, o Filho e o Espírito Santo
estão de tal forma unidos que se interpenetram e interagem mutuamente e se abraçam
completamente numa entrega recíproca. O Filho está totalmente no Pai e vice-versa.
No Ocidente, Mário Victorino formula na mesma linha acerca da Trindade dizendo
que essa existe alter in altero, ou seja, omnia simul existunt in counitione. Porém, segue
sempre associado, desde o ponto de vista da representação, o significado fundamental de
7
Maria Freire da Silva. Doutora em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e leciona na
Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção em São Paulo.
10
que as três pessoas divinas estão em comunidade tal, que podem ser compreendidas
metaforicamente só como dançarinos comunitários em uma dança em comum. Isso leva à
afirmação de que, consequentemente, as pessoas divinas se caracterizam por um estar
face a face com o outro numa perfeita intimidade, que uma pessoa está presente e atua na
outra.
Boaventura trata a realidade trinitária afirmando que a verdade trinitária é o
princípio fundante e explicativo de todas as demais verdades cristãs e humanas. A
Trindade como comunidade é a resposta e a solução à sociedade humana e a seu impulso
de abertura vinculante e de interligação. O mistério da Trindade não é uma verdade
ahistórica, atemporal e abstracta, e sim iluminadora e paradigmática com implicações
históricas. Porém, devemos compreender que o esquema teológico de Boaventura é
entrelaçado pela filosofia e mística em um sistema unitário, compacto e inseparável. Para
ele, a Trindade é um Tu tripessoal que é fonte e modelo da mais profunda relação
comunitária (MERINO, 1977, p. 178-210).
A nossa fé se encaixa na consciência plena de nossa identidade cristã e de nossa
responsabilidade ante os desafios. Para escapar ao círculo vicioso da sociedade, é preciso
tentar estabelecer uma comunicação, um diálogo, ou melhor ainda, uma espécie de
pericórese.
Deus é em si unidade e pluralidade, e na superabundância do seu amor, do amor
que é em si, pode dar-se ao mundo, esse amor por nós (LADARIA, 1999).
O Concílio de Florença, em decreto aos Jacobitas, ensina que Cristo dá testemunho
de que o Pai está n’Ele e ele no Pai (Jo 10,30). “O Pai e eu somos uma mesma coisa”
(10,38) – a existência do Espírito Santo no Pai. A concepção grega de pericórese
desempenha um papel muito amplo, tomando como ponto de partida a pessoa do Pai,
como princípio único, Origem e Fonte da divindade, ensina que a vida divina flui do Pai
ao Filho e por meio do Filho ao Espírito Santo. Acentuando a compenetração mútua das
três pessoas divinas, salva a unicidade da substância divina. A concepção latina parte da
natureza divina e espiritual, Deus é antes de tudo um Espírito Absoluto que pensa e ama.
Partindo da unidade da substância divina, explica como essa, pelas processões divinas
imanentes, se constitui em Trindade de pessoas. Aparece, portanto, em primeiro lugar a
idéia de consubstancialidade.
O Concílio de Latrão IV (1215) ensina que as três pessoas divinas constituem um
único princípio de todas as coisas (Dz 704; cf. Dz 254, 281, 284).
A tradição cristã afirma que a pessoa se realiza cabalmente e se salva na
comunhão-koinonia. Por isso, faz da comunhão-koinonia com Deus, e entre os seres
humanos, o cosmos, a essência da salvação.
No contexto bíblico, o ser humano é por natureza relacional, voltado para o outro,
porque criado à imagem e semelhança de Deus. Sobre essa base, a tradição estabelecerá
uma distinção entre indivíduo e pessoa, a partir do mistério da Trindade. Santo Atanásio,
Basílio e os capadócios, Dídimo, após terem defendido a divindade do Filho e, em
seguida, do Espírito Santo, elaboraram uma teologia da Trindade. Para o Oriente, tudo em
Deus é relacional. No século XI, o concílio de Toledo (675) declara: “O que é o Pai, ele é
para o Filho, não para ele; o que é o Filho, ele é para o Pai, não para ele” (DS 528)
Esse estar com e estar no outro de índole relacional mostra que o Deus dos cristãos
segundo sua essência é communio. Portanto, os três são a divindade (GRESHAKE,
11
2001). Ricardo de São Victor compreende que se Deus é amor supremo, esse amor
necessita como um destinatário outro ser amado, que por sua vez deve corresponder a
esse amor.
De outro modo, Deus permaneceria solitário, enclausurado e envergonhado diante
dos anjos. Esse amor, para ser coerente com o ser divino em sua perfeição, carece ser
caridade ordenada, o destinatário desse amor tem que ser ele mesmo uma pessoa divina.
Sem dúvida, tampouco o amor entre os dois pode ser uma realização suprema do amor.
O próprio amar e ser amado, o amor mútuo, deve abrir-se a um terceiro. Assim, a
comunidade de amor (communio amoris) não pode ser realizada por menos de três
pessoas, quando os dois que se amam reciprocamente se abraçam em supremo
entrelaçamento e cada um encontra seu embelezamento no amor recíproco, amor que
reside no mais íntimo do outro e vice-versa. Porém, o ápice da alegria está no terceiro a
quem ambos amam. Só o terceiro é condilectus, o co-amante e co-amado, se mostra
propriamente a generosidade e a grandeza do amor, que ultrapassa o face a face de dois
para no terceiro alcançar a perfeição. Boaventura, seguindo as trilhas de Ricardo de São
Victor, se separa da corrente comum dos latinos aderindo à dos gregos.
Os latinos partem da unidade de Deus e seu problema é mostrar que a Trindade de
pessoas não diminui essa unidade fundante e primeira. Os gregos partem da índole e do
modo de ser de cada pessoa, e tratam de demonstrar que o tripessoal participa de uma e
mesma natureza e não cria problema ao uno. Os latinos veem em Deus uma só natureza
que subsiste em três pessoas; distintas por sua relação de origem, as pessoas ante o todo
se opõem.
Os gregos veem que Deus, ao realizar-se como pessoa, se tripersonaliza, de tal
sorte que a trindade de pessoas é justamente a maneira metafísica de ter uma substância
idêntica; as pessoas não se opõem, mas se implicam em sua respectiva distinção. Para o
pensamento latino cada pessoa está na outra no sentido de que as três têm natureza
idêntica, enquanto, para os gregos, cada pessoa não pode existir sem “produzir” a outra, o
que assegura a idêntica natureza de um só Deus.
Do ponto de vista grego, a Trindade é o modo mesmo de ser do Deus infinito, uno
por natureza. Na concepção dos latinos, a Trindade é o modo misterioso como a unidade
subsiste em três pessoas. Boaventura, servindo-se dessa corrente, sublinha que o princípio
das processões divinas é a fecundidade de Deus que se manifesta como princípio
dinâmico de amor expansivo, comunicativo e compartilhado na unidade dentro da
diversidade.
A TRINDADE E A COMUNHÃO 8
2 Co 13.13: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do
Espírito Santo seja com todos vós. Amém”.
8
SOUSA, Ricardo Barbosa. O CAMINHO DO CORAÇÃO. Encontro Publicações, 2002, p. 59.
12
“Deus não poderia existir em nenhuma forma a não ser a tripessoal” (Berkhof).
“Deus não poderia contemplar-se a si mesmo, conhecer-se e comunicar-se Consigo
mesmo, se não fosse trino em Sua constituição” (Shedd).
Deus é amor (1Jo 4.16). A maior comunhão que existe está na trindade, pois estas
três Pessoas se amam mutuamente.
“Antes que houvesse o universo, antes que se movesse o mínimo átomo de matéria
cósmica, antes que emergisse a primeira réstia de inteligência, antes que começasse a
haver tempo, o Pai, o Filho e o Espírito Santo estavam em si em erupção vulcânica de
vida e amor. Existia a trindade imanente. Nós como criaturas, filhos e filhas, existíamos
em Deus como projetos eternos, gerados pelo Pai no coração do Filho com o amor do
Espírito Santo” (Leonardo Boff).
“Sob o nome de Deus a fé cristã vê o Pai, o Filho e o Espírito Santo em eterna
correlação, interpenetração e amor; de tal sorte que são um só Deus Uno. A unidade
significa a comunhão das Pessoas divinas. Por isso, no princípio não está a solidão do
Uno, mas a COMUNHÃO das três Pessoas” (Leonardo Boff).9
“Deus, antes mesmo da criação, já era; e era todo amor e comunhão porque existia
eternamente como Trindade. Antes mesmo que houvesse qualquer objeto criado para ser
alvo do amor divino, Deus já era amor e relacionava-se em amor por ser esta a natureza
da Trindade. O Deus revelado na Bíblia não pode ser compreendido a não ser através da
experiência comunitária do amor”.10
“Nosso ingresso na igreja de Jesus Cristo dá-se em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo. Ser salvo por Cristo e tornar-se membro da sua igreja é penetrar no
mistério da Trindade e ser envolvido por um Deus que é comunhão”. “O Deus cristão e
bíblico não existe solitariamente, ele é sempre a comunhão das três pessoas divinas”.11
É nesta relação de amor, neste dar e receber, nesta eterna e perfeita comunhão que
fomos criados conforme a imagem e semelhança do Deus trino. Fomos criados para amar,
conviver em amizade e comunhão com o Criador e toda a sua criação. Conhecer a Deus é
mergulhar neste mistério e participar desta comunhão eterna que nutre a alma humana e
resgata o sentido da nossa verdadeira humanidade.
“O Ser de Deus é um ser relacional, e sem o conceito de comunhão é impossível
falar sobre a realidade de Deus. A partir da Trindade nada existe por si mesmo,
individualmente. Comunhão é a razão de ser do homem”. 12
A TRINDADE E A IGREJA PERICORÉTICA
A Teologia Moderna parte das três Pessoas juntas. Realça o fato de que as três
estão sempre inter-relacionadas e em eterna comunhão (pericórese) [on-line]. Esta relação
é tão absoluta que os divinos Três se unificam sem se fundirem, sendo então um único
Deus vivo.
BOFF, Leonardo. A Trindade e a Sociedade. 3ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1986, p. 74.
SOUSA, Ricardo Barbosa. Op. Cit, p. 59.
11
SOUSA, Ricardo Barbosa. Op. Cit, p. 60.
12
SOUSA, Ricardo Barbosa. Op. Cit, p. 60.
9
10
13
Queremos propor uma breve introdução sobre termo teológico denominado
pericorese, bem como sua contribuição tanto para a vida dos cristãos em suas respectivas
comunidades de fé, como também para a vida em sociedade, no tocante ao enfrentamento
de seus desafios de convivência pacífica.
Muito antes de se tornar um termo religioso ou teológico, a palavra pericorese (do
grego περιχώρησις) descreve uma dança de roda, característica das crianças em momento
de brincadeiras [1]. Esta palavra é composta de três radicais: 1) peri, que significa “à
volta de”, ou “movimento circular” (como por exemplo perímetro, periférico); 2) corea,
que significa “dança”, ou “bailado” (como por exemplo coreografia); e por fim, 3) esis,
que é um sufixo usado para formar palavras de ação ou processo. Assim, PERICORESE
era a palavra designada para o nome de uma dança tradicional em que um grupo de
pessoas dançava de maneira circular e de mãos dadas.
“A palavra pericorese (gr. περιχώρησις, dança de roda), foi usada no séc. IV por
Gregório Nazianzeno, que procura explicar a interpenetração, a coabitação do Pai no
Filho e no Espírito Santo; do Filho no Pai e no Espírito Santo; e do Espírito Santo no Pai
e no Filho. Não é possível entender plenamente este mistério, muito menos é possível
falar adequadamente sobre ele. Mas podemos crer no Deus que é Pai, Filho e Espírito
Santo, o único Deus, como declarado nas Antigas Escrituras: “Ouça, Israel, o Senhor
nosso Deus é o único Senhor. Ame, pois, o Senhor seu Deus de todo o seu coração, e de
toda a sua alma, e de todas as suas forças” – Dt 6.4-5. Posteriormente, o Autor destas
sagradas palavras, significativamente, acrescentou: “e de todo o seu entendimento” – Mc
12.30. Que o tenhamos!
Queremos dar apenas dois exemplos bíblicos de pericorese:
1. Filipe pediu para Jesus lhe mostrar o Pai. A resposta foi direta: “Estou há tanto
tempo com vocês e não me têm conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como
você diz: Mostra-nos o Pai?” – Jo 14.8-9. Imediatamente antes, o Senhor já havia
declarado: “Se vocês me conhecessem a mim, também conheceriam a meu Pai; e já desde
agora o conhecem e o têm visto”– Jo 14.7.
2. “Vocês ouviram que eu lhes disse: Vou, e venho para vocês” – Jo 14.28”.13
No séc. VIII, a partir da teologia de João Damasceno (675-749), a pericorese estava
relacionada à cristologia, descrevendo a mútua interpenetração de duas naturezas
heterogêneas, mas posteriormente passou a ser interpretada como a comunhão, interrelação e inter-habitação das Pessoas da Trindade [2]. Denomina uma relação co-igual e
co-eternal de pessoas iguais e diferentes. É o processo pelo qual cada Pessoa existe com
uma personalidade, mas que não é fechada em si mesma, pois está aberta a uma relação
igualitária, cuja marca mais profunda é a mutualidade (Jo 10.30; 17.20-23). Nenhuma das
Pessoas da Trindade, por exemplo, presta subordinação cega às outras, mas respeito e
confiança. Nessa relação, vive-se integralmente o reconhecimento da autoridade de cada
uma das Pessoas, e não a imposição do poder de uma sobre a outra.
Não se trata, portanto, de um conceito abstrato ou meramente de palavras
sofisticadas, mas de demonstrar a beleza do Deus Pai que dança, não isoladamente, mas
acompanhado e de mãos dadas com o Filho e com o Espírito Santo. A pericorese é a
13
+José Moreno, um bispo anglicano em busca da pericorese com Deus.
14
dança extraordinária do Deus Trino e Uno, de tal forma sincronizada que demonstra uma
reciprocidade sem limites e uma unidade que não se pode dissolver. É nessa dança,
realizada face a face e marcada sempre pelo amor que se fundamenta o vínculo da
unidade divina.
O uso mais antigo sobrevivente do substantivo, perichoresis (περιχώρησις), foi
encontrado em um manuscrito que foi atribuído a Cirilo de Alexandria.
Acredita-se que João de Damasco usou este termo de Cirilo e trouxe à
proeminência como um termo teológico. Se Deus fosse um só haveria a solidão e a
concentração na unidade e unicidade. Se Deus fosse dois, uma díade (Pai e Filho
somente), haveria a separação (um é distinto do outro) e a exclusão (um não é o outro).
Mas Deus é três, uma Trindade. O três evita a solidão, supera a separação e ultrapassa a
exclusão. A Trindade permite a identidade (o Pai), a diferença de identidade (o Filho) e a
diferença da diferença (o Espírito Santo). A Trindade impede um frente-a-frente do Pai e
do Filho, numa contemplação “narcisista”. A terceira figura é o diferente, o aberto a
comunhão. A Trindade é inclusiva, pois une o que separava e excluía (Pai e Filho). O uno
e o múltiplo, a unidade e a diversidade se encontram na Trindade como que circunscritos
e reunidos. O três aqui significa menos o número matemático do que a afirmação de que
sob o nome de Deus se verificam diferenças que não se excluem, mas incluem; que não
se opõem, más se põem em comunhão; a distinção é para a união. Por ser uma realidade
aberta, esse Deus trino inclui também outras diferenças; assim o universo criado entra na
comunhão divina. Quando falamos em perichoresis, não devemos tentar encontrar uma
exclusiva definição ou, o que realmente ele quer dizer, estamos dizendo no verdadeiro
espírito, que a sua única definição é: “está incluído!”; as três pessoas se inter-relacionam
entre si. É precisamente neste sentido que, para nós cristãos, deveria se fundamentar
também as relações humanas e as organizações sociais, especialmente nossa estrutura
eclesiástica. Tal tese é defendida por Miroslav Volf, teólogo protestante que escreveu
sobre os aspectos da influência da estrutura Trinitária sobre a estrutura eclesiástica. Volf
afirma que a estrutura da Trindade é essencialmente policêntrica e relacional, onde não há
centralização ou hierarquização. Em seus escritos Volf criticou a ideia da natureza
hierárquica da igreja, afirmando que sua estrutura deve, necessariamente, refletir a
imagem da comunhão trinitária descrita na pericorese. A reciprocidade na igreja depende
de um status de igualdade e unidade entre seus membros, leigos ou clérigos. O
testemunho da presença na igreja no mundo será mais confiável, e até mesmo mais
aceitável, se internamente ela vivenciar relações que expressem o potencial cooperativo e
solidário de seus membros. Infelizmente, muitas igrejas padecem do vício de sacralizar
sua estrutura, seu corpo doutrinário e seus agentes sacerdotais, estabelecendo uma relação
de dominação entre seus membros. As críticas a esse corpo sacerdotal são, em regra
geral, desqualificadas como heresias e até mesmo demonizadas. A partir desse
provocante pensamento, proponho algumas perguntas para reflexão.
Por que as igrejas geralmente aceitam um juízo sobre seus membros, em relação à
sua vida pessoal – no sentido mais específico sobre sua santidade ou pecaminosidade –,
mas dificilmente um juízo crítico sobre si mesmas enquanto instituição, ou sobre suas
decisões doutrinárias, rituais, princípios morais e estruturas hierárquicas?
Por que conseguimos facilmente compreender a Imago Dei como um referencial
para a vida humana – ainda que não plenamente experimentada pela humanidade –, mas
15
dificilmente compreendemos a pericorese como um referencial para a vida comunitária,
no tocante à transformação de nossas estruturas eclesiásticas?
Por que estamos testemunhando em nosso tempo o ressurgimento de uma série de
fundamentalismos eclesiásticos, enraizados na tese da infalibilidade de seus líderes?
Por que a estrutura hierárquica tem sido encarada como a base imutável da igreja,
em detrimento da comunhão e da unidade na diversidade?
A nossa vocação é, antes de qualquer coisa, para a vida e não para a morte, e vida
vivida em comunhão. A natureza da relação entre a Trindade através da pericorese nos
ensina que, por um lado, devemos abandonar e enfrentar projetos de poder pessoal e
social, que geram desigualdade, isolamento, violência e morte. E por outro lado, nos
ensina e nos desafia a experimentar cotidianamente relações igualitárias que promovem a
vida, a participação solidária na vida do outro e da sociedade. Há uma dinâmica familiar e
comunitária na manifestação de amor de Deus. Se o pecado, em suas múltiplas
manifestações, agride a Deus, o próximo e a nós mesmos, a vida redimida e relacional é
uma das múltiplas manifestações da graça de Deus.
Ao nos colocarmos diante do desafio da libertação de toda forma de desigualdade,
violência e domínio de uns sobre os outros, como por exemplo, o sexismo, o racismo, a
intolerância e opressão religiosa, etc., nos colocamos também no caminho rumo à
comunhão e imagem do Deus uno e trino. É preciso, pois, aprender o ritmo, acertar o
passo e entrar na dança.
Igreja Pericorética
O cristianismo se distingue dos outros monoteísmos por sua fé trinitária. Esse é um
grande mistério, como já cantou o poeta: “Quem me dera, ao menos uma vez, entender
como um só Deus ao mesmo tempo é três”. Já, no “façamos” de Gênesis 1.26 é possível
vislumbrar a ação criativa do Deus Uno e Trino. Ou seja, na criação do universo, Deus se
revela como comunhão perfeita do Pai com o Filho e o Espírito Santo.
Contudo, a expressão do Deus Trindade está presente na experiência histórica de
Jesus, que diversas vezes falou a respeito de sua união com o Pai (Jo 14.7-11), pela ação
do Espírito Santo. No Verbo encarnado, ponto climático da revelação divina, o Deus
Trino, que na tradição do Antigo Testamento, sempre apareceu de maneira velada, recebe
sua mais completa declaração. Além disso, nas suas origens, as comunidades cristãs
celebravam o Deus Uno e Trino, através de suas liturgias e fórmulas batismais (Mt 28.1620; 1Co 12.4-6; 2Co 13.13; 2Ts 2.13-14). Com o passar do tempo, diante das
necessidades apologéticas, foi elaborada uma profissão de fé sistematicamente refletida.
Muitas foram as tentativas de traduzir em linguagem lógica essa experiência inefável da
fé cotidiana, algumas inclusive de maneira extremamente especulativa e árida. Entretanto,
uma, designada pelo termo pericórese, é especialmente bela. Foi o pai da igreja, João
Damasceno, que a desenvolveu. Essa palavra grega, expressa a habitação mútua (interhabitação) das pessoas da Santíssima Trindade. A ideia de pericórese vem de uma dança
própria das crianças (brincadeira), em que uma ficava no meio e as outras dançavam ao
seu redor, quando então, por escolha ou verso recitado, a que estava no centro saía e
trocava de lugar com alguma que compunha a roda. A partir dessa imagem, Damasceno
afirmou que as pessoas da Trindade se relacionam de forma dinâmica, se interpenetram
16
(coabitam) sem perderem as suas identidades e se circundam criando o espaço vital para o
protagonismo das outras. Mas, o que isso tem a ver conosco?
Fomos criados à imagem e semelhança de um Deus que não é solitário, apesar de
ser Uno. Parafraseando o prólogo de João poderíamos dizer: No princípio Ele era a
relação! Dito de outro modo, o Deus cristão é o Deus-Comunidade que não se fecha em si
mesmo e nos convida para participarmos de sua dança amorosa (Jo 17.20-23). Crer nesta
realidade significa afirmar nossa esperança na realização do pleno ideal de comunhão
entre os seres humanos, apesar de suas diferenças. Significa professar que no Deus Trino
está a chave para a superação dos egoísmos humanos, geradores da violência e exclusão.
É como igreja, comunidade do Reino, que somos convocados a tornar visível, na história,
o amor trinitário. Como corpo vivo de Cristo, somos conclamados a desenvolver relações
não hierárquicas e colaborativas (1Pe 2.9; Fp 2.5-11), e, ainda, como Povo de Deus,
orientados a preservar a unidade na diversidade. Afinal, como ressaltou o apóstolo Paulo:
“Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea;
porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28). Em suma, somos chamados a ser
igreja pericorética!
17
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