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A Escrita da História

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A ESCRITA J)A HISTÓRIA
N O V A S P E R S P E C T IV A S
FUNDAÇÃO EDITORA DA UNESP
Presidente do C onselho C u ra d o r
Jo s é C a r lo s S o u z a T r in d a d e
Diretor-Presiden Ce
Jo s é C a stilh o M arq u es N e to
E ditor Executivo
Jézio H e rn a n i B o m fim G u tie rre
C onselho E d ito rial A cadêm ico
A lb e r to Ik ed a
A n to n io C a rlo s C a rre ra de So u z a
A n to n io d e P ád u a P ith o n C y rin o
B e n e d ito A n tu n e s
Isab e l M aria F. R . L ou reiro
L íg ia M . V e tto r a to T r e v isa n
L o u rd es A . M . d o s S a n to s P in to
R a u l B o rg e s G u im a rã e s
R u b e n A ld r o v a n d i
T a n ir. R e g in a d e L u ca
PETER BURKE (O rg.)
A ESCRITA DA HISTÓRIA
NOVAS PERSPECTIVAS
T rad u ção de
M agda Lopes
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Class
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Tombo
Dat a
O d i+ o v r r
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C o p y rig h t © 1991 by B asil B lack w ell L im ited , E n g lan d
T ítu lo o rig in al e m in glês: N e w P ersp ectiv es o n H isto ric a l W ritin g
C o p y rig h t © 1992 d a trad u ç ão brasileira:
E d ito ra U n e sp , d a F u n d ação p ara o D e se n v o lv im e n to
d a U n iv e rsid a d e E stad u al P au lista (F U N D U N E SP )
P raça d a S é , 108
0 1 0 0 1 -9 0 0 - S ã o P au lo - S P
T e L : (0 1 1 )3 2 4 2 -7 1 7 1
F a x :( 0 1 1 ) 3 2 4 2 - 7 1 7 2
H o m e page: w w w .ed itora.u n esp.b r
E -m ail: feu @ ed itora.u n esp .b r
D a d o s In te rn a c io n a is d e C a ta lo g a ç ã o n a P u b lic a ç ã o (C IP )
(C â m a r a B rasileira d o L ivro, SP, B rasil)
A Escrita a história: novas perspectivas / Peter Burke (org.); tradução de
M agda Lopes. - São Paulo: Editora da U niversidade Estadual Paulista,
1992. - (Biblioteca básica)
dISBN: 85-7139-027-4
1. Historiografia 1. Burke, Peter. II. Série.
CDD-907.2
92-1978
ín d ic e s p ara c a tá lo g o sistem ático :
o
1. Escola dos Annales: Historiografia 907.2
2. Historiografia 907.2
3. N ova história: Historiografia 907.2
E d ito ra afiliad a:
^AMOCWV
B D R
ÇXOflB«a«JW onciiot «cmocnuieot
m
Asociaclón de Edltoriales Unlversltarlas
de América Latina y el Caribe
Associação Brasileira de
Editoras Universitárias
SUMÁRIO
7
Abertura: a nova história, seu p assado e seu futuro
Peter Burke
39
A história vista de baixo
Jim Sharpe
63
H istória das m ulheres
Joan Scotc
97
,
H istória de além-mar
Henlc Wesseling
133
Sobre a micro-história
G iow nn i Leví
163
H istória oral
G u^n Prins
199
H istória da leitura
Robert Darnton
6
237
PETER BURKE
H istória das im agens
Ivan Gaskell
273
H istória do pensam ento político
Richard Tuck
291
H istória do corpo
Roy Porter
321
A história dos acontecimentos
e o renascim ento da narrativa
Peter Burke
349
índice rem issivo
ABERTURA: A NOVA HISTÓRIA,
SEU PASSADO E SEU FUTURO1
Peter Burke *
M ais ou m en os n a últim a geração, o universo dos historiadores
se expandiu a um a velocidade vertiginosa.2 A história nacional,
dom inante n o século dezenove, atualm ente tem de com petir com
a história m undial e a história regional (antes deixada a cargo
de “ an tiqu ário s” 3 amadores), para con seguir atenção. H á m uitos
* D ocente de H istória C ultural da U n iversidade de C atnbridge c M em bro d o Emmanuel C ollegc
1. C o m referência à nom en clatura utilizada neste volum e, desejo registrar m eus
agradecim entos iis P ro f's M aria IJg ia Prado e M aria H elen a C apelato, docentes de
H istória d a U n iversid ade de S ão Paulo, pelo inestim ável auxilio na tradução dos
term os específicos, qu ase tod os neologism os ou expressões ad aptadas d a linguagem
com u m . Su a contribuição foi fundam ental para a clareza do texto. (N .T .)
2. Este en saio deve m uito a discu ssões com R aphael Sam u el durante m uitos an os; a
Gwyn Prins e a várias gerações de estudantes d o E m an n u el C ollege, em C am b rid ge;
e m ais recentem ente a N ilo O d ália e à participante audiência em m inh as conferências
n a U n iversid ad e Estadual d e S ão Paulo, em A raraquara, em 1989.
3. N o século dezessete, vários estudiosos - posteriormente cham ados de “antiquários”
(antiquariam) - começaram a coletar documentos antigos visando a comprovação de fatos
históricos. A partir dessa atividade - o “ antiquarianism o” - iniciaram u m a contestação à
realeza, pregando um m aior poder ao parlamento, o que provocou sua perseguição
durante o reinado de C arlos I. Contrapunham -se aos historiadores da época, que não
verificavam a veracidade dos fatos e limitavam-se ao relato da história da nobreza. (N .T.)
8
PETER BURKE
cam pos novos, freqüentem ente patrocinados por publicações es­
pecializadas. A história social, por exem plo, tornou-se independen­
te da história econôm ica apenas para se fragmentar, com o algum a
nova nação, em dem ografia histórica, história do trabalho, história
urbana, história rural e assim por diante.
M ais um a vez, a história econôm ica dividiu-se em antiga e nova.
A nova história econôm ica dos an os 50 e 60 (agora de meia-idade,
se não m ais velha) é suficientemente conhecida para necessitar aqui
de um a discu ssão.4 T em havido tam bém um a m udança, entre os
historiadores econôm icos, de um a preocupação com a produção
para um a preocupação com o consum o, m udança esta que cria
um a dificuldade crescente na separação entre a história econôm ica
e a história social e cultural. A história do gerenciam ento é um
interesse recente, m as fica obscura se não se dissolvem as ligações
entre a história econôm ica e a administrativa. O utra especialização,
a história da publicidade, abarca a história econôm ica e a história
da com unicação. Atualm ente, a verdadeira identidade da história
econôm ica está am eaçada por um a proposta de controle de um
em preendim ento jovem , m as am bicioso: a história do m eio am­
biente, às vezes conhecida com o eco-história.
A história política tam bém está dividida, não apenas nas
cham adas escolas de grau superior e elementar, m as tam bém entre
os historiadores preocupados com os centros de governo e aqueles
interessados na política em suas raízes. O território da política
expandiu-se, n o sentido de que os historiadores (seguindo teóricos
com o M ichel Foucault) estão cada vez m ais inclinados a discutir a
luta pelo poder na fábrica, na escola ou até m esm o n a família.
Entretanto, o preço de tal expansão é u m a espécie de crise de
identidade. Se a política está em toda parte, será que há necessidade
de história política?5 O s historiadores culturais estão diante de um
problem a sim ilar, n a m edida em que se afastam de u m a definição
4 . Para u m exem plo fam o so (e discutível), ver R .W . Fogel e S . E ngerm an , Time on the
Cross, B oston , 1 974. H á u m a avaliação criteriosa d a posição atual d a história
econôm ica em D .C . C o lem an , Hístory and the Economic Past, O xford , 1987.
5. J. V incen t, The Formation o f the British Liberal Parfy, Lon dres, 1966.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
9
estreita m as precisa de cultura, em term os de arte, literatura, m úsica
etc., para um a definição m ais antropológica do cam po.
N este universo que se expande e se fragmenta, há um a
necessidade crescente de orientação. O que é a cham ada nova
história? Q u an to ela é nova?, E um m odism o tem porário ou um a
tendência de longo prazo? Ela irá - ou deverá - substituir a história
tradicional, ou as rivais podenj coexistir pacificamente?
O presente volum e é destinado a responder a essas questões.
U m exam e abrangente das variedades da história contem porânea
não deixaria espaço para m ais do que um a discussão superficial.
Por isso, tom ou-se a decisão de concentrar a atenção em alguns
m ovim entos relativamente recentes.6 O s ensaios sobre esses m ovi­
m entos estâo preocupados, pelo m en os implicitamente, com m ui­
tos dos m esm os problem as fundam entais. Pode ser útil confrontar
de início esses problem as e situá-los n o contexto de m udanças de
longo prazo n a escrita da história.
O que é a nova história?
A expressão “ a nova história” é m ais bem conhecida n a França.
La nouvelle histoire é o título de um a coleção de en saios editada
pelo renom ado m edievalista francês Jacques Le G off. Le G o ff
tam bém auxiliou n a edição de u m a m aciça coleção de ensaios de
três volum es acerca de “ novos problem as” , “ novas abordagen s” e
“ novos objetos” .7 N esses casos está claro o que é a nova história:
é um a história made in France, o país da nouvelle vague e do nouveau
roman, sem m encionar la nouvelle cuisine. M ais exatamente, é a
história associada à cham ada École des Annales, agrupada em torno
da revista Annales: économies, societés, civilisations.
6. O u tras variedades são exam in adas em W hat is History T odayl J. G ard in e j, Londres,
1988.
7. J. Le G o ff (ed.), L a nouvelle histoire, Paris, 1 9 78; J. Le G off, P. N o ra (ed.), Faire de
Vhistoire, Paris, 1 974, 3. v. A lg u n s d o s en saios desta coleção estão d ispon íveis em
inglês: J. Le G off, P. N o ra (eds.), Constructing the'Past, C am b rid ge, 1985.
10
PETER BURKE
O qjae é essa nouvelle histoire? U m a definição categórica n ão é
fácil; o m ovim ento está unido apenas naquilo a que se opõe, e as
páginas que se seguem irão dem onstrar a variedade das novas
abordagens. E por isso dificil apresentar m ais que um a descrição
vaga, caracterizando a nova história com o história total (histoire
totale) ou história estrutural. Por isso pode ser o caso de se imitar
os teólogos m edievais, diante do problem a de definir D eus, e optar
po r um a via negativa; em outras palavras, definir a nova história
em term os do que ela não é, daquilo a que se op õem seus
estudiosos.
A nova história é a história escrita com o um a reação deliberada
contra o “ paradigm a” tradicional, aquele termo útil, em bora im­
preciso, posto em circulação pelo historiador de ciência am ericano
T h o m as K uhn.8 Será conveniente descrever este paradigm a tradi­
cional com o “história rankeana” , conform e o grande historiador
alem ão Leopold von Ranke (1795-1886), em bora este estivesse
m en os lim itado por ele que seus seguidores. (A ssim com o M arx
não era um m arxista, Ranke não era um rankeano.) Poderíam os
tam bém cham ar este paradigm a de a visão do sen so com um da
história, não para enaltecê-lo, m as para assinalar que-ele tem sido
com freqüência - com m uita freqüência - considerado a m aneira
de se fazer história, ao invés de ser percebido com o um a dentre
várias abordagens possíveis do passado. Em prol da sim plicidade
e d a clareza, |o contraste entre a antiga e a nova história pode ser
resum ido em seis pontos.
1.
D e acordo com o paradigm a tradicional, a história diz resp
essencialm ente à política. N a ousada frase vitoriana de Sir John
Seeley, Catedrático de História em Cam bridge, “ História é a política
passada: política é a história presente” . A política foi admitida para
ser essencialmente relacionada ao Estado; em outras palavras, era
m ais nacional e internacional, do que regional. N o entanto, não
incluía a história da Igreja com o um a instituição e tam bém o que o
teórico militar Karl von Clausewitz definiu com o “ a continuação da
8. T .S . K u h n , The Structure of Scientific Revolucions, N o v a Y ork, 1961.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
11
política p o r outros m eios” , ou seja, a guerra. E m bora outros tipos
de história - a história da arte, por exem plo, ou a história da ciência
- não fossem totalm ente excluídos pelo paradigm a tradicional,
eram m arginalizados no sentido de serem considerados periféricos
aos interesses dos “verdadeiros” »historiadores.
Por outro lado, a nova história com eçou a se interessar por
virtualm ente toda a atividade hum ana. “T u d o tem u m a história” ,
com o escreveu certa ocasião o cientista J.B .S . H aldane; ou seja,
tudo tem um passad o que pode em princípio ser reconstruído e
relacionado ao restante do passado .9 D aí a expressão “ história
total” , tão cara aos historiadores dos Armaíes. A prim eira metade
do século testem unhou a ascensão da história das idéias. N o s
últim os trinta an os n os deparam os com várias histórias notáveis
de tópicos que anteriorm ente não se havia pen sado possuírem um a
história, com o, por exem plo, a infância, a morte, a loucura, o clima,
os odores, a sujeira e a limpeza, os gestos, o corpo (com o apresen­
tado por Roy Porter, p. 291), a fem inilidade (discutida por Jo an
Scott, p. 63), a leitura (discutida por Robert D arnton, p. 199), a
fala e até m esm o o silêncio.10 O que era previamente considerado
imutável é agora encarado com o um a “ construção cultural” , sujeita
a variações, tanto no tem po quanto n o espaço.
O relativism o cultural aqui im plícito merece ser enfatizado. A
base filosófica da nova história é a idéia de que a realidade é social
ou culturalm ente constituída. O com partilhar dessa idéia, ou sua
suposição, por m uitos historiadores sociais e antropólogos sociais
ajuda a explicar a recente convergência entre essas duas discipli­
nas, citadas m ais de um a vez nas páginas que se seguem . Este
9. J.B .S . H ald an e, Ever>thin# has a History, Lon dres, 1951.
10. P. A riès, Centuries of Ch.iIdh.ood, trad. de R. Baldick, Londres, 1 962; P. A riès, The
Hour o /O u r D eath, trad. de H . W eaver, Lon dres, 1981; M . Foucault, Maciness and
Civilisation, trad. de R. H ow ard, Lon dres, 1 967; E. Le Roy Ladurie, Times ofFeast,
Times o f Famine, trad. de B . Bray, N ova Y ork, 1971; A . C o rb in , The Fouland the
Fragrant, tradução, Leam ington, 1 9 86; G . V igarello, Concepts of Cleanliness, tradu­
ção, C am b rid ge, 1988; J.C . Schm itt (ed.), Gestures, publicação especial, Historçi and
Anthropology 1, 1 9 8 4 ; R. B au m an , Let Your Words be Few, C am b ridge, 1984.
12
PETER BURKE
relativism o tam bém destrói a tradicional distinção entre o que é
central e o que é periférico na história.
2. Em segundo lugar, os historiadores tradicionais pen sam na
história com o essencialm ente um a narrativa dos acontecim entos,
en quanto a nova história está m ais preocupada com a análise das
estruturas. U m a das obras m ais fam osas d a história de n o ssa época,
o Mediterranean de Fernand Braudel, rejeita a história dos aconte­
cim entos (histoire événementielle) com o não m ais que a esp um a nas
on d as do m ar d a história.11 Segundo Braudel, o que realmente
im porta são as m udanças econôm icas e sociais de longo prazo (la
longue durée) e as m udanças geo-históricas de m uito longo prazo.
E m b ora recentemente tenha surgido algum a reação contra este
ponto de vista (discutido adiante n a p. 327) e os acontecim entos
não sejam m ais tão facilmente rejeitados quanto costum avam ser,
a história das estruturas de vários tipos continua a ser considerada
m uito seriam ente.
*
3. Em terceiro lugar, a história tradicional oferece um a visão de
cima, no sentido de que tem sem pre se concentrado nos grandes
feitos dos grandes hom ens, estadistas, generais ou ocasionalmente
eclesiásticos. A o resto da hum anidade foi destinado um papel
secundário no dram a da história. A existência dessa regra é revelada
pelas reações a sua transgressão. Q uando o grande escritor russo
Alexandre Pushkin estava trabalhando em um relato de um a revolta
de cam poneses e de seu líder Pugachev, o com entário do czar Nicolau
foi que “tal hom em não tem história” . N o s anos 50, quando um
historiador britânico escreveu um a tese sobre um movimento popu­
lar n a Revolução Francesa, u m de seus exam inadores perguntou-lhe
“Por que você se preocupa com esses bandidos?”12
Por outro lado (com o m ostra ]im Sh arpe, p. 40), vários n o­
vos historiadores estão preocupados com “ a história vista de
11. F. B rau del, The Mediterranean and the Mediterranean World in the Age of Philip U,
trad. de S . R eynolds, 2. ed., Lon dres, 1972-3, 2. v.
12. O n o m e d o exam in ad or era Lewis N am ier. R. C o b b , The Police and the People,
O xfo rd , 1 9 7 0 , p. 81.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
13
baixo” ;13 em outras palavras, com as op in iões das pessoas com uns
e com su a experiência da m u dan ça social. A história da cultura
popu lar tem recebido bastante atenção. O s historiadores d a Igreja
estão com eçan do a estu dar su a história vista tanto de baixo, com o
de cim a.14 O s historiadores intelectuais tam bém têm deslocado
sua atenção do s gran des livros ou d as gran des idéias - seu
equivalente aos gran des homens- - para a história das mentalidades coletivas ou para a história d o s discu rsos ou “ lin guagen s” , a
linguagem d a escolâstica, por exem plo, ou a linguagem forense
(cf. com o en saio de R ichard Tuck, m ais adiante n a p. 2 7 3 ).15
4.
Em quarto lugar, segundo o paradigm a tradicional, a história
deveria ser baseada em docum entos. U m a das grandes contribui­
ções de Ranke foi su a exposição das limitações das fontes narrativas
vam os chamá-las de crônicas - e sua ênfase n a necessidade de
basear a história escrita em registros oficiais, em anados do governo
e preservados em arquivos. O preço dessa contribuição foi a
negligência de outros tipos de evidência. O período anterior à
invenção da escrita foi posto de lado com o “pré-história” . Entre­
tanto, o m ovim ento da “história vista de baixo” por sua vez expôs
as lim itações desse tipo de docum ento. O s registros oficiais em
geral expressam o ponto de vista oficial. Para reconstruir as atitudes
dos hereges e d o s rebeldes, tais registros necessitam ser suplem en­
tados por outros tipos de fonte.
13. O p ta m o s pelas expressões “ história vista de b aix o” e “ história vista de cim a” para as
originais historyfrom below e history from above, para as qu ais os h istoriadores franceses
utilizam as expressões histoire vue d ’un haut e histoire vue d'un bas. E m b o ra u m a
tradução literal, pareceu-nos a m ais ad equ ad a aos propósitos d o s autores, qual seja
a d o estabelecim ento d a perspectiva do historiador ao narrar a história. (N .T .)
14. E. H oorn aert et al., História da Igreja no Brasil: ensaio de interpretação a partir do povo,
Petró polis, 1977.
15. J.G .A . Pocock, “T h e C o n ce p t o f a Language” , em The Language of Political Theorji
(ed.), A . Pagden, C am b ridge, 1987. C f. D . Kelley, “ H orizons o f Intellectual H istory” ,
Journal of the History of Ideas, 4 8 , p.143-69, 1 987, e “W h at is H ap p en in g to the
H istory o f Ideas?” , "Journ al of the History of Ideas?" Journal of the History of Ideas 51,
p. 3-25, 1990.
‘
14
PETER BURKE
D e qualquer m odo, se os historiadores estão m ais preocupados
que seus antecessores com um a m aior variedade de atividades
h um an as, devem exam inar um a m aior variedade de evidências.
A lgu m as dessas evidências são visuais, outras orais (ver Ivan
G askell e Gwyn Prins, p. 237 e 163, respectivamente). H á tam bém
evidência estatística: dados comerciais, dad os populaçionais, dados
eleitorais etc. O ponto alto da história quantitativa foi provavel­
m ente os an os 50 e 60, q u an d o alguns entusiastas afirm aram que
apenas os m étodos quantitativos eram confiáveis. H ouve um a
reação contra tais afirm ações, e de certa form a tam bém contra os
m étodos, m as o interesse em um a história quantitativa m ais
m odesta continua a crescer. N a Grã-Bretanha, por exem plo, foi
fundada em 1987 um a A ssociação para a H istória e C om putação.
5.
D e acordo com o paradigm a tradicional, m em oravelm en
enunciado pelo filósofo e historiador R .G . Collingw ood, “ Q u an d o
um historiador pergunta ‘Por que Brutus apunhalou C ésar?’ ele
quer dizer ‘O que Brutus pensou, o que fez com que ele decidisse
apun halar C ésar?’” 16 Esse m odelo de explicação histórica foi criti­
cado por historiadores m ais recentes em vários cam pos, principal­
m ente porque ele falha na avaliação da variedade de questionam en­
tos dos historiadores, com freqüência preocupados, tanto com q s
m ovim entos coletivos, quanto com as ações individuais, tanto com
as tendências, quanto x o m os acontecim entos.
Por que, por exem plo, os preços se elevaram na E sp an h a no
século dezesseis? O s historiadores econôm icos não concordam em
su a resposta a essa questão, m as suas várias respostas (em term os
de im portações de prata, crescim ento da população etc.) estão
m uito distantes do m odelo de C ollingw ood. N o fam oso estudo de
Fernan d Braudel sobre o M editerrâneo do século dezesseis, publi­
cado pela prim eira vez em 1949, apenas a terceira e últim a parte,
dedicada à história d o s acontecim entos, faz perguntas rem otam ente
sem elhantes às de C ollingw ood, e m esm o aí o autor apresenta um
tipo m uito diferente de resposta, enfatizando os constrangim entos
16. R .G . C ollingw ood , The Idea of History, O xford, 1 9 46, p. 213f.
A ESCRITA DA H ISTÓRIA
15
do seu protagonista, o Rei Felipe II, e a ausência de influência do
rei sobre a história de su a época.17
6.
Segu n d o o paradigm a tradicional, a História é objetiva. A
tarefa do historiador é apresentar aos leitores os fatos, ou, com o
apontou Ranke em um a frase m uito citada, dizer “ com o eles
realm ente aconteceram ” . Su a m odesta rejeição das intenções filo­
sóficas foi interpretada pela posteridade com o u m presun çoso
m anifesto à história sem tendências viciosas. Em u m a fam osa carta
a seu grupo internacional de colaboradores da Cambridge Modem
History, publicada a partir de 1902, seu editor, Lord A cton, insistiu
com eles que “o n o sso W aterloo deve ser tal que satisfaça do
m esm o m odo a franceses e ingleses, alem ães e h olan deses” e que
os leitores deveriam ser incapazes de dizer onde um colaborador
iniciou e outro con tin u ou .18
’ H oje em dia, este ideal é, em geral, considerado irrealista. Por
m ais que lutem os arduam ente para evitar os preconceitos associa­
dos a cor, credo, classe ou sexo, não podem os evitar olhar o p assado
de um pon to de vista particular. O relativism o cultural obviam ente
se aplica, tanto à própria escrita da história, quanto a seus cham a­
dos objetos. N o ssas m entes não refletem diretam ente a realidade.
S ó percebem os o m u n d o através de um a estrutura de convenções,
esquem as e estereótipos, um entrelaçam ento que varia de um a
cultura para outra. N essa situação, n ossa percepção dos conflitos
é certam ente m ais realçada por um a apresentação de pontos de
vista op osto s do que p o r um a tentativa, com o a de A cton, de
articular um consenso. N ó s nos deslocam os do ideal da V oz da
H istória para aquele da heteroglossia, definida com o “vozes varia­
das e o p o stas” (adiante, p. 3 3 6 ).19 Por isso, foi m uito apropriado
17. B rau del, 1949.
18. C itad o em Varieties of History, ed. F. Stern, N ova York, 1956, p. 2 4 9 .
•
19. T irei a expressão d o fam oso crítico ru sso M ikhail B akhtin, em seu Dialogic Imagination, trad. de C . E m erson e M . H olquist, A u stin, 1 981, p. xix, 4 9 , 5 5, 2 6 3 , 2 7 3 . C f.
M . de C erteau, Heterologies: Discourse on the Other, trad. de B. M assu m i, M inneapolis, 1 9 8 6 .
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16
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PETER BURKE
que este volum e tom asse a form a de um a obra coletiva e que seus
colaboradores falassem línguas m aternas diferentes.
A história rankeana era o território dos profissionais. O século
dezenove foi a época em que a história se tornou profissionalizada,
com seus departam entos nas universidades e suas publicações
específicas, com o a Historische Zeitschrift e a English Historical
Review. A m aior parte dos principais novos historiadores são
tam bém profissionais, com a notável exceção do falecido Philippe
A riès, que gostava de descrever a si próprio com o “um historiador
dom ingueiro” . U m a m aneira de descrever as realizações do grupo
dos Annales é dizer que eles m ostraram que a história econôm ica,
social e cultural pode atingir exatamente os padrões profissionais
estabelecidos por Ranke para a história política.
Seja com o for, su a preocupação com toda a abrangência da
atividade hum an a os encoraja a ser interdisciplinares, n o sentido
de aprenderem a colaborar com antropólogos sociais, econom istas,
críticos literários, psicólogos, sociólogos etc. O s historiadores de
arte, literatura e ciência, que costum avam buscar seus interesses
m ais ou m enos isolados do corpo principal de historiadores, estão
agora m antendo com eles um contato m ais regular. O m ovim ento
da história-vista-de-baixo tam bém reflete um a nova determ inação
para considerar m ais seriam ente as opiniões das pessoas com uns
sobre seu próprio passad o do que costum avam fazer os historiado­
res profission ais.20 O m esm o acontece com algum as form as de
história oral (adiante, p. 163). N este sentido, tam bém a heteroglossia é essencial à nova história.
Quanto é nova a nova história?
Q uem inventou - ou descobriu - a nova história? A expressão
é às vezes utilizada para os desenvolvim entos ocorridos n os anos
70 e 80, período em que a reação contra o paradigm a tradicional
20. V er q u ase tod os o s en saios d o History Workshop Journal.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
11
tornou-se m undial, envolvendo historiadores do Japão, d a índia,
ila A m érica Latina e de vários outros lugares. O s en saios deste
volum e focalizam este período em particular. E claro, n o entanto,
que m uitas das m udanças ocorridas n a escrita da história nestas
duas décadas são parte de um a .tendência m ais antiga.
Para m uitas pessoas, a nova história está associada a Lucien
[;ebvre e a M arc Bloch, que fundaram a revista Annales em 1929
para divulgar su a abordagem , e na geração seguinte, a Fernand
Braudel. N a verdade, seria difícil negar a im portância do m ovim en­
to para a renovação d a história, liderado por esses hom ens.
Todavia, eles não estavam sozinhos em sua revolta contra os
rankeanos. N a G rã-Bretanha dos an os 30, Lewis N am ier e R.H .
rawney rejeitaram am bos a narrativa dos acontecim entos para
alguns tipos de história estrutural. N a A lem anha, por volta de
1900, Karl Lam precht tornou-se im popular, expressando seu de­
safio ao paradigm a tradicional. A desden hosa expressão histoire
cvénementielle, “ história centralizada n os acontecim entos” , foi in­
ventada n essa ocasião, um a geração antes da época de Braudel,
Bloch e Febvre.21 Expressa as idéias de um grupo de estudio­
sos concentrados em torno do grande sociólogo francês Emile
Durkheim e su a revista Annçe Sociologique, publicação que ajudou
a inspirar os Annales.
M esm o a expressão “ a nova história” tem um a história própria.
O prim eiro u so da expressão por m im conhecido data de 1912,
q u an d o o estudioso am ericano Jam es Harvey R obin son publicou
um livro com este título. O conteúdo correspondia ao título:
História, escreveu R obin son, “ inclui todo traço e vestígio de tudo
o que o h om em fez ou pensou desde seu prim eiro aparecim ento
sobre a terra” . E m outras palavras, ele acreditava n a história total.
Em relação ao m étodo, “A N ova H istória” - estou novam ente
citando R obin son - “vai servir-se de todas aquelas descobertas que
estão sendo feitas sobre a hum anidade pelos antropólogos, econo-
I . C f. P. Burke, The French Histórica! Revoíution, C am b’ridge, 1 9 90, p. 113.
18
PETER BURKE
m istas,*psicólogos e sociólogos” .22 Este m ovim ento para um a nova
história não foi bem sucedido nos E stados U n id o s, na época, m as
o en tusiasm o am ericano m ais recente pelos Annales torna-se mais
inteligível, se recordarm os essa experiência local.
„
N ão há um a boa razão para se parar em 1912 ou m esm o em
1900. T em sido recentemente argum entado que a substituição de
u m a história antiga p o r um a nova (m ais objetiva e m en os literária)
é um tem a recorrente na história da escrita da história.23 T ais
afirm ações foram feitas pela escola de Ranke no século dezenove,
pelo grande estudioso beneditino Jean M abillon, que form ulou
novos m étodos de crítica da fonte no século dezessete, e pelo
historiador grego Políbio, que denunciou alguns de seus com pa­
nheiros com o m eros retóricos, cento e cinqüenta an os antes do
n ascim ento de C risto. N o prim eiro caso, pelo m enos, a reivindi­
cação da novidade foi consciente. Em 1867, o grande historiador
h olandês Robert Fruin publicou um ensaio cham ado “A N ova
H istoriografia” , um a defesa da história científica, rankeana.24
T am bém rem ontam a um longo percurso as tentativas de
escrever um a história m ais abrangente que aquela 'dos aconteci­
m entos políticos. Foi n a segunda m etade do século dezenove que
a história econôm ica se estabeleceu na A lem anha. Em 1860, o
estu dioso suiço Jacob Burckhardt publicou um estudo de The
Civilization of the Renaissance in Italy, concentrado n a história
cultural e descrevendo m ais as tendências do que n arrando os
acontecim entos. O s sociólogos do século dezenove, com o A uguste
C om te, H erbert Spencer - sem m encionar Karl M arx - eram
extrem am ente interessados pela história, m as desprezavam os
historiadores profissionais. Estavam interessados nas estruturas,
22. J.H . R o b in so n , The New History, N ova York, 1 912; cf. J.R . Pole, “T h e N ew H istory
an d the Sen.se o f Social P urpose in. A m erican H istorical W riting” , 1 9 7 3 , reeditado
em seu Pachs to the American Past, N o v a York, 1 979, p. 271-98.
23. L. O rr, “T h e Revenge o f Literature” , New Literary History, 18, p. 1-22, 1986.
2 4. R. Fruin, “ D e N ieuw e historiograph ie” , reeditado em seu Verspreide Geschriften 9,
H aia, 1 9 0 4 , p. 410-18.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
19
não n os acontecim entos, e a nova história tem um débito para com
eles, que freqüentem ente não é reconhecido.
Eles, p o r sua vez, têm um débito para com seus antecessores,
que freqüentem ente não reconhecem; os historiadores do Iluminism o, entre eles Voltaire, G ib b o n (apesar da observação que citei
antes), Robertson, V ico, M õser e outros. N o século dezoito houve
u m m ovim ento internacional para a escrita de um tipo de história
que não estaria confinada aos acontecim entos militares e políticos,
m as relacionada às leis, ao com ércio, à manière de penser de um a
determ inada sociedade, com seus hábitos e costum es, com o
“ espírito d a época” . N a A lem anh a em particular houve u m vivo
interesse pela história m undial.25 Estudos da história das m ulheres
foram publicados pelo escocês W illiam A lexander e por C h ristoph
M einers, professor d a U niversidade de G õttingen (um centro da
nova história social n o final do século dezoito).26
A ssim , a história alternativa discutida neste volum e tem um a
ancestralidade razoavelmente longa (ainda que os antepassados
pudessem n ão reconhecer seus descendentes). O que é novo não
é su a existência, m as o fato de seus profissionais serem agora
extrem am ente n um erosos e se recusarem a ser m arginalizados.
Problemas de definição
o
O propósito deste volum e n ão é celebrar a nova história (a
despeito do s colaboradores concordarem que pelo m en os alguns
de seus tipos são valiosos, realmente necessários), m as estabelecer
seus pon tos fortes e fracos. O m ovim ento de m udan ça surgiu a
partir de u m a percepção difundida da inadequação d o paradigm a
tradicional. E sta percepção d a inadequação só pode ser com preen­
dida, se olharm os além d o âm bito d o historiador, para as m u dan ­
2 5 . M . H arb sm eier, “W orld H istories before D om estication” , Culture and History, 5,
p .9 3 - 1 3 1 ,1 989.
26. W . A lexan d er, The History of Women, Lon dres, 1 779; C . M einers, Geschcchte des
weiblichen Geschlechts, H anover, 1788-1800, 4. v.
20
PETER BURKE
ças n o m u n d o m ais am plo. A descolonização e o fem inism o, por
exem plo, são dois m ovim entos que obviam ente tiveram grande
im pacto sobre a escrita histórica recente, o que fica bastante claro
n os capítulos de autoria de H enk W esseling e Jo an Scott. N o
futuro, é provável que o m ovim ento ecológico tenha cada vez m ais
influência sobre a form a com o a história é escrita.,
N a verdade, ele sem pre inspirou vários estudos. A fam o­
sa m onografia de Braudel sobre o M editerrâneo cham ou a atenção,
q u an d o foi pela prim eira vez publicada em 1949, pela quantida­
de de espaço dedicado ao am biente físico - terra e m ar, m on tanh as
e ilhas. A tualm ente, entretanto, o quadro de Braudel parece
curiosam ente estático, porque o autor não considerou de m odo
sério as m aneiras pelas quais o am biente foi m odificado pela
presença do hom em destruindo florestas, por exem plo, para
construir as galeras que aparecem com tanto destaque nas páginas
de The Mediterranean.
°
V ários autores têm apresentado um a eco-história m ais dinâm i­
ca. W illiam C ro n o n escreveu um belo estudo a respeito da N ova
Inglaterra colonial, focalizado nos efeitos da chegada dos europeus
sobre as plantas e as com unidades anim ais da região, observando
o desaparecim ento de castores e ursos, cedros e pinheiros-brancos,
e a crescente im portância dos anim ais de pasto de origem européia.
Em u m a escala bastante diferente, A lfred C rosb y discutiu o que
ele cham a de “ a expan são biológica da E uropa” entre 9 0 0 e 1900
e o lugar das doenças européias, abrindo cam inho para o estabe­
lecim ento bem -sucedido das “ N eo-Europas” , da N ova Inglaterra à
N ova Zelândia.27
D o m esm o m odo, por razões internas e externas, n ão é fora
de propósito falar-se d a crise do paradigm a tradicional da escrita
d a história. T odavia, o novo paradigm a tam bém tem seus proble­
m as: problem as de definição, problem as de fontes, problem as de
m étodo, problem as de explicação. Esses problem as irão reaparecer
2 7 . W . C ro n o n , Changes in the Lanei, N ova Y ork, 1 983; A .W . C rosby , Ecological
Imperialism, C am b rid ge, 1986.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
21
ao s capítulos específicos, m as pode ser im portante neste m om ento
apresentar um a breve discu ssão de todos eles.
O s problem as de definição ocorrem porque os novos historia­
dores estão avançando em território não familiar. C o m o n orm al­
mente fazem os exploradores de outras culturas, eles com eçam com
um a espécie de im agem negativa daquilo que estão procurando. A
história do O riente tem sido percebida pelos historiadores ociden­
tais com o o oposto de su a própria história, elim inadas as diferenças
entre o Extrem o O riente, a C h in a e o Jap ão etc.28 C o m o observa
mais adiante H en k W esselin g (p. 97), a história m undial tem sido
com freqüência encarada - pelos ocidentais - com o o estudo das
relações entre o O cidente e o resto, ignorando as interações entre
a Á sia e a África, a Á sia e a A m érica etc. M ais um a vez, a história
vista de baixo foi originalm ente conceitualizada com o a inversão
da história vista de cima, com a “ baixa” cultura no lugar da cultura
erudita. N o decorrer de sua pesquisa, contudo, os estudiosos
tornaram-se cada vez m ais conscientes dos problem as inerentes a
essa dicotom ia.
Por exem plo, se a cultura popular é a cultura “ do povo” , quem
o o povo? São todos: o pobre, as “classes subalternas” , com o
costum ava chamá-las o intelectual m arxista A ntonio G ram sci? São
os analfabetos ou os incultos? N ão podem os presum ir que as
divisões econôm icas, políticas e culturais em um a determ inada
sociedade necessariam ente coincidam . E o que é educação? A pen as
o treinam ento transm itido em algum as instituições oficiais com o
escolas ou universidades? A s pessoas com uns são ignorantes ou
sim plesm ente têm um a educação diferente, um a cultura diferente
das elites?
Evidentem ente n ão deveria ser su posto que todas as pessoas
com uns têm as m esm as experiências, e a im portância de distin­
guir a história das m ulheres daquela dos hom ens é enfatizada
por Jo an Scott (p. 63). E m algum as partes d o m undo, da Itáli^ ao
.’ M. H á algun s com entários perspicazes sobre este problem a em E. S aid , Orientaiism,
Lon dres, 1978.
'
22
PETER BURKE
Brasil, a história do povo é com freqüência cham ada “ a história do
do m in ad o” , assim assem elhando as experiências das classes su ­
bordin adas n o ocidente àquelas das colonizadas.29 N o entanto,
as diferenças entre essas experiências tam bém necessitam ser
discutidas.
A expressão “ história vista de baixo” parece oferecer um a
escapatória a essas dificuldades, m as gera problem as próprios. Ela
m u da seu significado em contextos diferentes. U m a história polí­
tica vista de baixo deveria discutir os pontos de vista e as ações de
todos que estão excluídos do poder, ou deveria lidar com a política
em um nível local ou popular? U m a história da Igreja vista de baixo
deveria encarar a religião d o ponto de vista d o leigo, seja qual for
a sua condição social? U m a história da m edicina vista de baixo
deveria se preocupar com os curandeiros em oposição aos m édicos,
ou com as experiências dos pacientes e os diagnósticos de doença?30
U m a história militar vista de baixo deveria lidar com o A gincourt
ou o W aterloo do soldado com um , com o fez Jo h n Keegan tão
m em oravelm ente, ou deveria concentrar-se n a experiência civil da
guerra?31 U m a história da educação vista de baixo deveria deslocarse dos m inistros e teóricos da educação para os professores
com uns, com o fez Jacques Ozouf, por exem plo, ou deveria apre­
sentar as escolas do ponto de vista dos alunos?32 U m a história
econôm ica vista de baixo deveria focalizar o pequeno com erciante
ou o pequeno consum idor?
U m a razão para a dificuldade de definir a história d a cultura
popu lar é que a noção de “cultura” é algo ainda m ais difícil de
precisar que a noção de “ popu lar” . A cham ada definição “ operah o u se” de cultura (com o arte erudita, literatura erudita, m úsica
erudita etc.) era restrita, m as pelo m enos era precisa. U m a noção
2 9 . E. D e Decca, 1 930: o silêncio dos vencidos, São Paulo, 1981.
3 0 . C f. R . Porter, “T h e Patient’ s View : D o in g M edicai H istory from Below ” , Theory and
Society, 14, p. 1 7 5 -9 8 ,1 9 8 5 .
3 1 . So b re o s sold ad os co m u n s, v e r j. Keegan, The Face of Batde, Lon dres, 1976.
3 2 . J. O z o u f (ed.), Nous les maitres decole, Paris, 1967, exam in a a experiência d o s
professores de escola elem entar, c. 1914.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
23
am pla de cultura é central à nova história.33 O estado, os grupos
sociais e até m esm o o sexo ou a sociedade em si são considerados
com o culturalm ente construídos. C on tud o, se utilizamos o termo
em um sentido am plo, tem os, pelo m enos, que nos perguntar o
que não deve ser considerado com o cultura?
O utro exem plo de um a nova abordagem que gerou problem as
de definição é a história da vida cotidijina, Alltagsgesch.ich.te, com o
a cham am os alem ães. A expressão em si não é nova: la vie
quotidienne era o título de um a série lançada pelos editores franceses
Hachette n os an os 30. O novo é a im portância dada à vida
cotidiana n os escritos históricos contem porâneos, especialm ente
desde a publicação do fam oso estudo de Braudel da “ civilização
m aterial" em 1 9 6 7 .34 O utrora rejeitada com o trivial, a história da
vida cotidiana é encarada agora, por alguns historiadores, com o a
única história verdadeira, o centro a que tudo o m ais deve ser
relacionado. O cotidiano está tam bém nas encruzilhadas de abor­
dagens recentes n a sociologia (de M ichel de Certeau a Erving
G offm an) e n a filosofia (seja ela m arxista ou fenom enológica).35
O que essas abordagens têm em com um é sua preocupação
com o m u n d o da experiência com um (m ais do que a sociedade
por si só) com o seu ponto de, partida, juntam ente com um a
tentativa de encarar a vida cotidiana com o problem ática, n o sentido
de m ostrar que o com portam ento ou os valores, que são tacitamente aceitos em um a sociedade, são rejeitados com o intrinsecam ente
absu rdos em outra. O s historiadores, assim com o os antropólogos
sociais, tentam agora pôr a nu as regras latentes da vida cotidiana
(a “ p o esia” do dia-a-dia, com o a expressou o sem iótico russo Juri
Lotm an) e m ostrar a seus leitores com o ser um pai ou um a filha,
33. Lc H u n t(e d .), The N ew C ultural History, Bcrkeley, 1989.
34. F. Braudel, Civilisation matérielleetcapicalisme, Paris, 1967; ed. revisada Les structures
duquotidien, Paris, 1 9 7 9 ; The Structures ofEveryday Life, trad. de M . K och an, Lon dres,
1 9 8 1 . C f. J. Kuczynski, Geschichte des Alltags des Deutschen Volkes, Berlim , 1980-2,
v. 4.
35. M . de C erteau, L ’inuention du quotidien, Paris, 1 9 80; E. G offm an , The Presentation of
Self in Everyday Life, N ova York, 1959; H . Lefebvre, Critique de la vie quotidienne,
Paris, 1946-81, 3. v. C f. F. M ackie, The Status of Everyday Life, Lon dres, 1985.
24
PETER BURKE
um “juiz ou um santo, em um a determ inada cultura.36 N este ponto,
a história social e a cultura parecem estar se dissolvendo um a na
outra. A lguns profissionais definem-se com o “ n ovos” historiadores
culturais, outros com o historiadores “ socioculturais” .37 Seja com o
for, o im pacto do relativismo cultural sobre o escrito histórico
parece inevitável.
Entretanto, com o observou o sociólogo N orbert Elias em um
im portante ensaio, a noção do cotidiano é m enos precisa e m ais
com plicada do que parece. Elias distingue oito significados atuais
do termo, desde a vida privada até o m u n d o das pessoas com u n s.38
O cotidiano inclui ações - Braudel o define com o o reino da roti­
na - e tam bém atitudes, o que poderíam os cham ar de hábitos
m entais. Pode até incluir o ritual. E o ritual, indicador de ocasiões
especiais na vida dos indivíduos e das com unidades, é com freqüên­
cia definido em oposição ao cotidiano. Por outro lado, os visitantes
estrangeiros m uitas vezes observam rituais cotidianos n a vida de
toda sociedade - m od os de com er, form as de saudação etc. - que
os habitantes locais não encaram de form a algum a com o rituais.
Igualm ente difícil de descrever ou analisar é a relação entre as
estruturas do cotidiano e a m udança. V isto de seu interior, o
cotidiano parece eterno. O desafio para o historiador social é
m ostrar com o ele de fato faz parte da história, relacionar a vida
cotidiana aos grandes acontecim entos, com o a R eform a ou a
Revolução Francesa, ou a tendências de longo prazo, com o a
ocidentalização ou a ascensão d o capitalism o. O fam oso sociólogo
M ax W eber criou um termo fam oso que pode ser útil aqui:
“ rotinização” (Veralltüglichung, literalmente “ cotidianização”). U m
foco de atenção para os historiadores sociais poderia ser o processo
36. J. Lotm an, “T h e Poetics o f Everyday Behaviour in R u ssian Eighteenth-Century
C ulture” , em The Semiotics of Russian Cuiture, ed. ]. Lotm an e B .A . U sp en sk ii, A n n
A rbo r, 1 9 8 4 , p. 231-56. U m a d iscu ssão m ais am p la do problem a de se escrever a
h istória d as regras culturais está em P. Burke, Histórica! Anthropology o f Early Mociern
Italy, C am b rid ge, 1987, p. 5f, 21 f.
37. L. H un t, ed., The New C ultural History, Berkeley, 1989.
38. N . Elias, “Zum B egriff des A lltags” em Materiellen zur Soziologie des Alltags, ed. K.
H am m erich e M . K lein, O plad en , 1 978, p. 22-9.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
25
de interação entre acontecim entos im portantes e as tendências por
u m lado, e as estruturas da vida cotidiana por outro. Até que ponto,
por que m eios e durante que período a Revolução Francesa ou a
Revolução R u ssa (por exem plo) penetraram n a vida cotidiana dos
diferentes grupos sociais, até que ponto e com -que sucesso eles
resistiram?
Problemas das fontes
O s m aiores problem as para os n ovos historiadores, n o en ­
tanto, são certam ente aqueles das fontes e dos m étodos. Já foi
sugerido que q u an d o os historiadores com eçaram a fazer novos
tipos de perguntas sobre o passad o , para escolher n ovos objetos
de pesqu isa, tiveram de b uscar novos tipos de fontes, para
su plem en tar os docum en tos oficiais. A lgu n s se voltaram para a
h istória oral (cf. p. 163); outros à evidência d as im agens (cf. 237);
outros à estatística. T am b ém se provou possível reler alguns tipos
de registros oficiais de novas m aneiras. O s historiadores da
cultura popular, po r exem plo, têm feito grande u so de registros
judiciais, especialm ente os interrogatórios de su speitos. D ois
estu dos fam o so s d a história vista de baixo são basead ps em
registros de in quisição, o M ontaillou (1 9 7 5 ) de Le Roy L adu rie
(cf. Jim Sh arp e, p. 39) e The Cheese and the Worms (1 9 8 6 ) de
G in zbu rg.
T odavia, todas essas fontes suscitam problem as em baraçosos.
O s historiadores d a cultura popular tentam reconstruir as su p o si­
ções cotidianas, com uns, tendo com o base os registros do que
foram acontecim entos extraordinários nas vidas do acusado: inter­
rogatórios e julgam entos. T entam reconstruir o que as pessoas
pensavam , baseando-se naquilo que os acusados, que podem não
ter sido u m grupo típico, tinham preparado para dizer n a situação
incom um (para n ão dizer terriíicante) em que se encontravam . Por
isso é necessário ler os docum entos nas entrelinhas. N ão há nada
de errado em tentar ler nas entrelinhas, particularmente q u an d o a
26
\ O i
* < /
PETER BURKE
tentativa é realizada por historiadores com a sutileza de um
G inzburg ou de um Le Roy Ladurie.
Seja com o for, os princípios subjacentes a tal leitura n ão são
sem pre claros. Só é razoável adm itir que retratar o socialm ente
invisível (as m ulheres trabalhadoras, por exem plo) ou ouvir o '
inarticulado, a m aioria silenciosa dos m ortos (entretanto necessá­
rios com o parte da história total), é um em preendim ento m ais
arriscado do que em geral é o caso n a história tradicional. N em
sem pre esse é o caso. A história política d a época de C arlo s M agno,
por exem plo, é baseada em fontes pelo m enos tão esparsas e
não-confiáveis quanto à história da cultura popular no século
dezesseis.39
B o a parte da atenção tem sido dada à evidência oral, um a
parcela por historiadores da África, com o Jan V an sin a, preocupado
com a confiabilidade das tradições orais através dos séculos, e outra
por historiadores con tem porân eos com o Paul T h o m p son , recons­
truindo a experiência da vida n a época edw ardiana. O problem a
da influência do historiador-entrevistador e da situação da entre­
vista sobre o depoim ento da testem unha tem sido discutido.40 M as
é apenas razoável adm itir que a crítica das testem unhas orais ainda
não atingiu a sofisticação da crítica de um docum ento, que os
historiadores têm praticado durante séculos. Pode-se ter algum a
idéia d a distância percorrida em um quarto de século - e da longa
distância ain da por percorrer - com parando-se a prim eira edição
do estudo de V an sin a sobre a tradição oral, publicado pela prim eira
vez em 1961, com a versão com pletam ente reescrita de 1 9 8 5 .41
A situação é um pouco sem elhante no caso de fotografias, de
im agens e m ais com um ente da evidência de cultura material. U m a
obra recente sobre fotografia (incluindo cinem a) desm ascarou a
presunção de que a câm era é um registro objetivo da realidade,
3 9 . C f. P. Burke, Popular Culture in Early Modem Europe, Lon dres, 1 978, capítulo 3.
4 0 . R. Sam u el e P. T h o m p so n (ed.), The Mjit/is We Live By, Lon dres, 1990.
4 1 . P. T h o m p so n , The Voice of the Past, 1 978; ed. revista, O xford , 1988; J. V an sin a,
O ral Tradition, trad. H .M . W right, Lon dres, 1965 e O ral Tradüion as History,
M ad iso n , 1985.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
27
enfatizando n ão apenas a seleção feita por fotógrafos segundo seus
interesses, crenças, valores, preconceitos etc., m as tam bém seu .
débito, consciente ou inconsciente, às convenções pictóricas. Se
algum as fotografias vitorianas d a vida rural parecem paisagens
h olan desas d o século dezessete, isso pode m uito bem ocorrer
porqu e os fotógrafos conheciam as pinturas e colocavam seus
m odelos em conform idade com elas para produzirem , com o
expressou T h o m as H ardy n o subtítulo a Under the Greenwood Tree,
“ u m a pintura da escola h olan desa” . A ssim com o os historiadores,
o s fotógrafos n ão apresentam reflexos d a realidade, m as represen­
tações d a realidade. A lguns passos im portantes foram dados em
direção a um a crítica da fonte das im agens fotográficas, m as ãí
tam bém ain da h á u m longo cam inho a percorrer.42
N o caso das im agens pictóricas, discutidas m ais adiante por
Ivan G askell, o clim a de en tusiasm o para a decodificação de sua
iconografia ou iconologia em m eados d o século vinte, período de
virtuoses com o Erwin Panofsky e Edgar W ind, foi sucedido por
um período gelado de relativo ceticism o.^O s critérios para a
interpretação d o s significados latentes, em particular, são na ver­
dade difíceis de ser form ulados/13 O s problem as da iconografia
tom am -se ainda m ais em baraçosos quando os historiadores de
outros tópicos tentam utilizar gravuras para seus próprios propósitos,
com o evidência de atitudes religiosas ou políticas. E m uito fácil
discutir em u m grupo, interpretando um a imagem de Albrecht Dürer
(por exemplo) com o um sintom a de um a crise espiritual, e depois
apresentar a im agem com o um argumento para a existência da crise.44
4 2 . P. Sm ith (ed.), The H istorân and Film, C am b rid ge, 1 976; A . Trachtenberg, “ A lb u m s
o fW a r ” , Represencacions, 9, p. 1 -3 2 ,1 9 8 5 . J.T a g g , The Burden of Representation: Essays
on Photographies an d Histories, A m herst, 1988.
4 3 . E . Panofsky, Essays in Iconology, N o v a Y ork, 1 939; E . W in d , Pagan Mysteries in the
Renaissance, Lon dres, 1 958. U m pon to de vista m ais cético é expressad o p o r E .H .
G om b rich , “ A im s and Lím its o f Iconology” , em seu Symbolic Images, Lon dres, 1 9 72,
p. 1-22.
4 4 . C . G inzburg, “ D a Aby W arbu rg a E .H . G o m b rich ” , Studi medievali, 8, p. 1015-65,
1 9 6 6 . S u a crítica foi dirigida em particular contra Fritz Saxl. S o b re a iconografia para
o s h istoriadores d as m entalidades, ve? M . V ovelle (ed.), Iconographie et histoire des
mentalités, A ix, 1979.
°
28
PETER BURKE
A cultura material é evidentemente o cam po de ação tradicional
do s arqueólogos, que estudam períodos para os quais não existem
registros escritos. N o entanto, não há nenhum bom m otivo para
se restringir os m étodos arqueológicos à pré-história, e os arqueó­
logos têm, de fato, se m ovim entado para estudar a Idade M édia; o
início da Revolução Industrial e, m ais recentemente, u m a varieda­
de m ais am pla de períodos, desde a A m érica colonial até à
sociedade de con su m o atual.45
O s historiadores estão com eçando a com petir com eles, se não
escavando o passad o (Versailles e outras construções im portantes
do início do período m oderno felizmente não necessitam de
escavação), pelo m en os prestando m ais atenção aos objetos físicos.
O s argum entos sobre a ascensão do individualism o e da privaci­
dade no início do período m oderno estão agora b aseados não
som ente na evidência da m anutenção de um diário, m as tam bém
em m udanças com o a criação de xícaras individuais (em lugar de
tigelas de u so coletivo) e cadeiras (em lugar de bancos coletivos) e
o desenvolvim ento de quartos específicos para dorm ir.46
N este caso, entretanto, é difícil não im aginar se a cultura
m aterial está sen do utilizada para fazer algo m ais do que confirm ar
um a hipótese fundam entada no prim eiro caso sobre a evidência
literária. Pode o arqueólogo do período posterior a 1500 (no
O cidente, pelo m enos) aspirar a algo m ais? O falecido Sir M oses
Finley, certa vez, sugeriu que “ alguns tipos de docum entação
tornam a arqueologia m ais ou m enos desnecessária” , varrendo a
arqueologia industrial para a cesta de lixo em u m a única frase.47
Seu desafio m erece um a resposta séria, porém um a avaliação
m in uciosa do valor da evidência da cultura material para a história
pós-medieval ain da perm anece por fazer.
D e form a bastante irônica, a história da cultura material, área
qu e tem atraído grande interesse n os últim os an os, é baseada
4 5 . K . H u d so n , The Archaeology of the Consumer Society, Londres, 1983.
4 6 . J. Deetz, In Sm all Things Forgotten: the Archaeology of Early American Life, N o v a York,
1977.
4 7 . M .I. Finley, The Use and Abuse of History, Lon dres, 1 9 7 5 , p. 101.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
29
m en os n o estudo dos artefatos em si, do que nas fontes literárias.
O s historiadores preocupados com o que tem sido cham ado de
vida social dos objetos - ou m ais exatamente, com a vida social
dos grupos, revelada por seu u so dos objetos - confiam profunda­
m ente em evidências tais com o descrições de viajantes (que nos
dizem m uito sobre a localização e as funções de determ inados
objetos) ou inventários de propriedades, acessíveis à análise por
m étodos quantitativos.48
A m aior - e m ais controvertida - inovação n o m étodo na
últim a geração certam ente foi o crescim ento e a difusão dos
m étodos quantitativos, às vezes ironicam ente descritos com o
uC liom etria” , ou seja, a estatística vital d a deu sa d a história. E
claro que a abordagem é u m a das m ais antigas entre os historia­
dores econ ôm icos e os dem ógrafos históricos. O que é ou foi
novo, foi su a difusão n os an os 60 e 70 para outros tipos de
história. N o s E stados U n id o s, por exem plo, há um a “ nova
história política” cujos profission ais fazem contagem de votos,
sejam eles con tados em eleições ou em parlam entos.49 N a França,
a “história serial” (histoire sérielle), assim den o m in ad a porque
os d ad os são d isp o sto s em séries através d o tem po, gradativamente se estendeu do estudo do s preços (n os an os 30) para o estudo
i a popu lação (n os an os 50), até o ch am ado “ terceiro nível” da
nistória d as m entalidades religiosas ou seculares.50 U m estudo
fam o so d a ch am ad a “ descristianização” da França m od ern a m o s­
tra a m agnitude de su a evidência, a partir dos d ad os declinantes
para a com u n h ão d a Páscoa. O utro, concentrado n a Provença no
século dezoito, estu da as atitudes m odificadas em relação à m orte,
com o foram reveladas n as tendências, nas form ulações de cerca
de 3 0 .0 0 0 testam en tos, observan do-se o declín io n as referências
4 8 . A . A p p ad u rai (ed.), The Social Life o f Things, C am b rid ge, 1986.
4 9 . W . Aydelotte, Q uantification in History, M ass., 1 9 7 1 ; A . B ogue, Clio and the Bitch
Goddess: Q uantification in American Political History, Beverly H ills, 1983.
5 0 . P. C h a u n u , “ Le qu an titatifau 3e niveau” , 1973; reeditado em su a Histoire quantitatif,
histoire sérielle, Paris, 1978.
PETER BURKE
30
ao “ tribunal do céu” , ou em legados para funerais elaborados ou
m issas para o m orto.51
N o s últim os anos, a estatística, auxiliada pelos com putadores,
chegou m esm o a invadir a cidadela da história rankeana - os
arquivos. O s A rquivos N acionais A m ericanos, por exem plo, têm
agora um a “ D ivisão de D ado s C om p utadorizados” , e os arquivistas
estão com eçando a preocupar-se com a conservação e o armazena­
m ento de fitas perfuradas, assim com o a dos m anuscritos. Em
conseqüência disso, os historiadores estão cada vez m ais inclinados
a encarar os arquiyos anteriores, tais com o os arquivos da Inqui­
sição, com o “ bancos de d ad o s” que podem ser explorados por
m étodos quantitativos.52
A introdução no discurso histórico de grande quantidade de
estatística contribuiu para polarizar a profissão em defensores e
oponentes. A m b os os lados tenderam a exagerar a novidade dos
problem as criados pela utilização de dados. A estatística pode ser
falsificada, m as isso tam bém pode ocorrer com os textos. A
estatística pode ser facilmente m al interpretada, m as com os textos
pode acontecer o m esm o. O s dados com putadorizados não são
am igáveis, m as o m esm o se aplica a m uitos m anuscritos, escritos
em caligrafias q u ase ilegíveis ou a ponto de desintegração. O
necessário é u m a ajuda n a discrim inação, na descoberta dos tipos
de estatística m ais confiáveis, em que extensão utilizá-los e para que
propósitos. A noção da série, fundam ental para a história serial,
precisa ser tratada com o problem ática, especialm ente qu an d o as
m udanças são estudadas a longo prazo. Q uan to m ais extenso o
período, m en os provável que as unidades n a série - testam entos,
registros de com unhões n a Páscoa ou seja o que for - sejam
hom ogêneas. M as se elas próprias estão sujeitas a se m odificar,
com o podem ser utilizadas com o m edidas de outras m udanças?
5 1 . G . Le B ras, Etudes de sociologie religieuse, Paris 1955-6, 2. v. e M . V ovelle, PieCé baroque
et déchristianisation, Paris, 1973.
5 2 . G . H en n in gsen , “ El 'B an c o de d ato s’ dei San to O ficio” , Boletin de 1a Real Academ ia
de Historia, 174, p. 5 4 7 -7 0 ,1 9 7 7 .
A ESCRITA DA HISTÓRIA
31
Em outras palavras, o requerido (com o n o caso das fotografias
e de outras fontes novas já discutidas) é um a nova “ diplom ática” .
E sse foi o term o u sado pelo estudioso beneditino Jean M abillon
em seu guia para o u so de títulos, em u m a época (final do século
dezessete) em que o apelo a esse tipo de evidência era novo e
despertava a suspeita de historiadores m ais tradicionais.53 Q uem
será o M abillon d a estatística, das fotografias ou da história oral?
Problemas de explicação
Já foi sugerido que a expan são do cam po do historiador im plica
o repensar da explicação histórica, um a vez que as tendências
culturais e sociais n ão podem ser analisadas d a m esm a m aneira
que os acontecim entos políticos. Elas requerem m ais explicação
estrutural. Q uer gostem , quer não, os historiadores estão tendo de
se preocupar com questões que por m uito tem po interessaram a
sociólogos e a outros cientistas sociais. Q uem são os verdadeiros
agentes n a história, os indivíduos ou os grupos? Será que eles
podem resistir com sucesso às pressões das estruturas sociais,
políticas ou culturais? São essas estruturas m eram ente restrições à
liberdade de ação, ou perm item aos agentes realizarem m ais
escolhas?54
,
N o s an os 5 0 e 60, os historiadores econ ôm icos e sociais
foram atraídos p o r m od elos m ais ou m en os determ inistas de
explicação histórica, tenham eles d ad o prim azia aos fatores eco­
nôm icos, com o o s m arxistas, à geografia, com o Braudel, o u aos
m ovim entos d a popu lação (com o n o caso do cham ado “ m odelo
m alth u sian o” de m u dan ça social). H oje em dia, entretanto, com o
sugere G io v an n i Levi em seu en saio sobre a m icro-história, os
m od elos m ais atraentes são aqueles que enfatizam a liberdade de
53. ]. M ab illon , De re diplomatica, Paris, 1681.
54. C . Lloyd, Exfiianation in Social History, O xford , 1 986, apresenta um exam e geral.
M ais acessível a não-filósofòs é S . Jam es, The Content of Sociai Expianation,
C am b rid ge, 1984.
32
PETER BURKE
e sc o lh i das pessoas com uns, suas estratégias, sua capacidade de
explorar as inconsistências ou incoerências dos sistem as sociais e
políticos, para encontrar brechas através das quais po ssam se
introduzir ou frestas em que consigam sobreviver (cf. m ais adiante,
n a p. 133).
'
A expan são do universo histórico tam bém tem tido repercus­
sões sobre a história política, pois tam bém os acontecim entos
políticos podem ser explicados de várias m aneiras. O s historiado­
res que estudam a Revolução Francesa, por exem plo, vista de baixo,
provavelm ente dão-lhe um tipo m uito diferente de explicação do
que aqueles que se concentram nos feitos e intenções dos líderes.
M esm o os estudiosos que se concentram nos líderes às vezes
divergem dos m odelos tradicionais da explicação histórica, invo­
cando seus m otivos inconscientes, assim com o os conscientes,
tendo em vista que esses m odelos superestim am a im portância da
conscientização e da racionalidade.
Por exem plo, um grupo de cham ados psico-historiadores, a
m aior parte deles vivendo nos Estados U n id o s (onde a psicanálise
penetrou na cultura m ais profundam ente do que em qualquer
outra parte), tentou incorporar os insights de Freud à práticaij
histórica. Eles vão desde o psicanalista Erik Erikson, que causou certa
sensação nos anos 5 0 com seu estudo dos problem as de identidade
do “Jovem Lutero” , até o historiador Peter Gay, que ao m esm o tempo
exalta e pratica a psico-história. N ão surpreende m uito descobrir q u e !
sua abordagem despertou controvérsias e eles foram acusados de
“ reducionism o” ; em outras palavras, de reduzir as complexidades d e ,
um adulto individual (ou de um conflito entre adultos) ao relaciona­
m ento de um a criança pequena com seus pais.55
Para ilustrar as atuais controvérsias sobre a explicação histórica,
pode ser útil tom ar o exem plo de Hitler. O s debates iniciais, com o
aquele entre H .R . Trevor-Roper e A .J.P. Taylor sobre a im portância
relativa dos objetivos de curto e longo prazo de Hitler, presum iam
5 5 . E. E rikson, Young M an Luther, N ova York, 1958; P. Gay, Freud for Historians, N ova
York, 1985; D . Stan n ard, Shrinking History, N o v a York, 1980.
A ESCRITA t»A HISTÓRIA
33
a validade d o m odelo tradicional de explicação histórica em term os
de intenções conscientes. M ais recentemente, no entanto, o debate
foi am pliado. Em prim eiro lugar, alguns historiadores, com o
R obert W aite, apresentaram interpretações de Hitler em term os de
intenções inconscientes e até de psicopatologia, enfatizando sua
sexualidade anorm al, o traum a da morte de sua m ãe (após trata­
m ento com um m édico judeu) etc.5®
O utro grupo de historiadores rejeita com pletam ente o que
cham am de “ intencionalism o” , n o sentido de que tratam o proble­
m a d o s m otivos ou atuações de Hitler com o relativamente m argi­
nal. Segu n d o estes “ funcionalistas” , com o têm sido cham ados (eu
preferiria o term o “ historiadoreá1estruturais” para descrevê-los), as
explicações históricas das políticas do Terceiro Reich necessitam
se concentrar n os h om en s em torno de Hitler, na m áq u in a de
^governo e n o processo de decisão, e no nazism o com o um m ovi­
m ento social.57 H á tam bém historiadores que com binam as abor­
dagens estruturais com as psico-históricas e concentram-se na
explicação do que havia n os nazistas que os atraía a H itler.58
O que é ao m esm o tem po excitante e confuso no debate a
respeito de Hitler - com o m uitos outros debates históricos nos
últim os an os - é que ele não é m ais conduzido segundo as regras.
O acordo tradicional sobre o que constitui um a b oa explicação
histórica foi rom pido. Será esta u m a fase de transição, a ser
substituída por um novo consenso, ou o cam inho em que os
debates históricos serão conduzidos no futuro?
Se houver tal con sen so, a área do que pode ser cham ado de
“ psicologia histórica” (psicologia coletiva) provavelmente será de
particular im portância, visto que ela vincula os debates sobre a
56. R .G .L . W aite, The Psychopachic God: A dolf Hitler, N o v a York, 1977.
57. Extraí a distinção entre “ intencionalistas” e “ funcionalistas” d e T . M a so n , "In ten d on
and E xplan atio n ” em The Fuhrer Scace, Myth and Reality, ed. G . H irschfeld e L.
Kettenacker, Stuttgart, 1 9 8 1 , p. 23-40. M eus agradecim entos a Ian K ershaw por
ch am ar a m in h a atenção para este attigo.
‘>'8. P. Low enberg, “T h e Psychohistorical O rigins o f the N azi Youth C o h o rt” , American
Historical Review, 76, p. 1 4 5 7 -5 0 2 ,1 9 7 1 .
’
PETER BURKE
34
m otivação consciente e inconsciente àqueles sobre as explicações
individuais e coletivas. E estim ulante perceber um interesse cres­
cente nesta área. U m conjunto recente de m onografias está centra­
lizado n a história da am bição, da raiva, da ansiedade, d o m edo, da
culpa, da hipocrisia, do am or, do orgulho, da segurança e de outras
em oções. D o m esm o m odo, os problem as de m étodo envolvidos
na busca de tais objetos ardilosos de estudo estão longe de ter sido
resolvidos.59
N a tentativa de evitar o anacronism o psicológico, em outras
palavras, a presunção de que as pessoas no passad o pensavam e
sentiam exatam ente da m esm a form a que nós, há um perigo de se
chegar ao outro extremo e “desfam iliarizar” tão com pletam ente o
passado, que ele venha a tornar-se ininteligível. O s historiadores
estão diante de um dilema. Se explicarem as diferenças no com ­
portam ento social nos diferentes períodos pelas diferenças nas
atitudes conscientes ou nas convenções sociais, correm o risco da
superficialidade. Por outro lado, se explicarem as diferenças no
com portam ento pelas diferenças n a profunda estrutura do caráter
social, correm o risco de negar a liberdade e a flexibilidade dos
atores individuais n o passado.
U m a m aneira possível de se sair da dificuldade é utilizar a
noção de “hábito” de um grupo social particular, form ulada pelo
sociólogo Pierre Bourdieu. Por “ hábito” de um grupo, Bourdieu
entende a propen são de seus m em bros para selecionar respostas
de um repertório cultural particular, de acordo com as dem andas
de um a determ inada situação ou de um determ inado cam po.
Diferentem ente do conceito de “ regras” , o hábito tem a grande
vantagem de perm itir que seus u su ários reconheçam a extensão da
liberdade individual dentro de certos limites estabelecidos pela
cultura.60
5 9 . J. D elum eau, L a peuren occident, Paris, 1 9 7 8 ; e Rassureret proteger, Paris, 1 989; P .N .
e C .Z . Stearn s, “ Em otionology” , American Histórica! Revieiv, 9 0, p. 813-36, 1986;
C .Z . e P .N . Stearn s, Anger, C hicago, 1 9 8 6 ; T . Zeldin, France 1848-1945, O xford,
1973-7, 2. v.
6 0 . P. B ou rdieu , Outline of a Tfieory ofPractice, trad. R. N ice, C am b rid ge, 1977.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
35
Seja com o for, o problem a perm anece. Em m inha opinião, os
novos historiadores - de Edward T h o m p so n a Roger C hartier foram m uito bem -sucedidos ao revelar as inadequações das expli­
cações m aterialistas e determ inistas tradicionais do com portam en­
to individual e coletivo de curto çrazo, e n a dem onstração de que
tanto na vida cotidiana, quanto nos m om entos de crise, o que conta
é a cultura.61 Por outro lado, pouco fizeram para desafiar a
im portância dos fatores materiais, do am biente físico e de seus
recursos, de longo prazo. A in d a parece útil considerar estes fatores
m ateriais com o determ inantes da ordem do dia, dos problem as
aos quais os indivíduos, os grupos e, metaforicamente falando, as
culturas tentam se adaptar ou responder.
Problemas de síntese
E m bora a expan são do universo d o historiador e o diálogo
crescente com outras disciplinas, desde a geografia até a teoria
literária, certamente devam ser benvindos, esses desenvolvim entos
têm seu preço. A disciplina da história está atualmente mais
fragm entada que nunca. O s historiadores econôm icos são capazes
de falar a linguagem d o s econom istas, os historiadores intelectuais,
a linguagem dos filósofos, e os historiadores sociais, os dialetos dos
sociólogos e dos antropólogos sociais, m as estes grupos de histo­
riadores estão descobrindo ser cada vez m ais difícil falar um com
o outro. T erem os de suportar esta situação ou há um a esperança
de síntese?
E im possível apresentar m ais que um a visão parcial e pessoal
do problem a. A m in ha própria pode ser resum ida em dois pontos
opostos, m ais com plem entares que contraditórios. Em prim eiro
lugar, a proliferação de subdisciplinas é virtualm ente inevitável.
Este m ovim ento n ão está confinado à história. A profissão histórica
6 1 . O argum ento está excepcionalm ente explícito em G . Sider, Culture and C lass in
Anthropalogy and History, C am b rid g e e Paris, 1 986.
‘
sim plesm ente oferece um exem plo dentre m uitos da crescente
divisão *do trabalho em n ossa sociedade industrial tardia (ou
pós-industrial). A proliferação tem suas vantagens: contribui para
o conhecim ento h u m an o e encoraja m étodos m ais rigorosos,
padrões m ais profissionais.
T an to há custos quanto benefícios, m as podem os fazer algo
para m anter aqueles custos intelectuais os m ais baixos possíveis.
A não com unicação entre as disciplinas ou subdisciplinas n ão é
inevitável. N o caso específico da história, há alguns sinais anim a­
dores de rapprochement, se não, de síntese.
E verdade que, no prim eiro fluxo de en tusiasm o pela história
estrutural, a história dos acontecim entos esteve m uito próxim a de
ser posta de lado. D e m aneira sim ilar, a descoberta da história
social foi às vezes associada a um desprezo pela história política,
um a inversão do preconceito dos historiadores políticos tradicio­
nais. N ovos cam pos, com o a histófia das m ulheres e a história da
cultura popular, foram às vezes tratados com o se fossem indepen­
dentes (ou m esm o opostos) da história da cultura erudita e da
história d o s hom ens. A micro-história e a história d a vida cotidiana
foram reações contra o estudo de grandes tendências sociais, a
sociedade sem um a face hum ana.
Em todos os casos que citei, é possível observar-se um a reação
contra essa reação, um a busca pelo centro. O s historiadores da
cultura popu lar estão cada vez m ais preocupados em descrever e
analisar as m udanças das relações entre o erudito e o popular, “ a
intersecção da cultura popular e da cultura das pessoas edu cadas” .62
O s historiadores das m ulheres têm am pliado seus interesses, para
incluir as relações entre os gêneros em geral e a construção
histórica, tanto da m asculinidade quanto da fem inilidade.63 A
oposição tradicional entre os acontecim entos e as estruturas está
sen do substituída por um interesse por seu inter-relacionamento,
6 2 . A . Gurevich, Medieval Popular Culture, trad. d e J.M . B ak e P.A. H ollingsw orth,
C am b rid ge, 1988.
6 3 . C oletiva editorial, “W hy G en d er an d H istory?” Gender and History, 1, p. 1-6, 1989.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
37
e alguns historiadores estão experim entando form as narrativas de
análise ou form as analíticas de narrativa (ver adiante, p. 327).
O m ais im portante de tudo, talvez, é que a oposição há m uito
estabelecida entre os historiadores políticos e não políticos está
finalm ente se dissolvendo. A fam osa definição de história social
de G .M . Trevelyan com o “a história com a política posta de lado”
é atualm ente rejeitada por quase todo m undo. Em vez d isso nos
percebem os preocupados com o elem ento social n a política e com
o elem ento político n a sociedade. Por um lado, os historiadores
políticos n ão m ais se restringem à alta política, aos líderes, às elites.
D iscutem a geografia e a sociologia das eleições e “ a república na
aldeia” .64 E studam as “ culturas políticas” , as suposições sobre
política que fazem parte d a vida cotidiana, m as diferem am plam en­
te de u m período para outro, ou de u m a região para outra. Por
outro lado, a sociedade e a cultura são agora encaradas com o arenas
para a tom ada de decisões, e os historiadores discutem “ a política
da fam ília” , “ a política d a linguagem ” ou as. m aneiras com o o ritual
pode expressar-se ou até, em certo sentido, criar poder.65 O
h istoriador am ericano M ichael K am m en pode bem estar certo em
su a sugestão de que o conceito de “cultura” , em seu sentido am plo,
antropológico, pode servir com o um a “ base possível” para a
“ reintegração” de diferentes abordagens à história.66
A in d a estam os a u m a longa distância d a "h istória total”
defendida p o r Braudel. N a verdade, seria irrealista acreditar que
esse objetivo poderia um dia ser alcançado - m as alguns p assos a
m ais foram d ad os em sua direção.
6 4 . M . A gu lh on , The Republic in the Village, trad. de J. Lloyd, C am b ridge, 1982.
6 5 . M . Segalen, Lote and Power in the Peasant Family, trad. de S . M atthew s, C am b rid ge,
1 9 8 3 ; O . S m ith , The Politics of Language 1 7 9 1 1 8 1 5 , O xford, 1 9 8 4 ; D . C an n ad in e
e S . Price (eds.), Rituais o f Royalty, C am b rid ge, 1987.
6 6 . M . K am m en , “ E xtending the R each o f A m erican C ultural History” , American Stwtlíes,
29, p. 1 9 4 2 ,1 9 8 4 .
A HISTÓRIA VISTA DE BAIXO
Jim Sharpe *
Em 18 de ju n h o de 1815, houve u m a batalha próxim o à aldeia
belga de W aterloo. C o m o sabem todos aqueles qu e estudaram a
história britânica, o resultado daquela batalha foi que u m exército
aliado, com an dado pelo D uqu e de W ellington, com a ajuda tardia,
m as decisiva das forças prussian as lideradas por Blücher, derrotou
um exército francês, com an dado por N apoleão Bonaparte, sendo
assim decididos os destinos da Europa. N o s dias que se seguiram
à batalha, u m daqueles que ajudou a determ inar o destino de um
continente, o soldad o W illiam W heeler, da 51 ~ Infantaria Britâni­
ca, escreveu várias cartas a su a esposa:
Os três dias de luta terminaram. Estou salvo, isto é o que importa.
Descreverei agora, e em toda oportunidade, os detalhes do grande aconte­
cimento, ou seja, o que pude dele observar... A manhã do dia 18 de junho
surgiu sobre nós e nos encontrou ensopados de chuva, entorpecidos e
tremendo de frio ... Você muitas vezes me censurou por fumar, quando eu
estava em casa no ano passado, mas devo dizer-lhe que, se eu não tivesse
um bom estoque de tabaco nessa noite, poderia ter morrido.1
* A ssistente-sênior de H istória d a U n iversid ad e de York.
1. The Letters of Private Wheeler 1 8 0 9 1 8 2 8 , ed. B . H . Liddell H art, L on dres, 1951,
p. 168-72.
‘
40
PETER BURKE
W heeler prosseguiu, fornecendo a sua esp osa um a descrição
da Batalha de W aterloo, a partir do violento final: a experiência de
suportar o fogo da artilharia francesa, seu regim ento destruindo
um corpo de couraceiros inim igos com um a rajada de tiros, o
espetáculo de m ontes de corpos queim ados de soldad os britânicos
nas ruínas do castelo de H ougoum ont, o dinheiro saqueado de um
oficial h u ssardo francês, alvejado por um m em bro de um destaca­
m ento a cargo de W heeler. O s livros de história n os contam que
W ellington venceu a batalha de W aterloo. D e certa maneira,
W illiam W heeler e m ilhares, com o ele, tam bém a venceram.
D urante as duas últim as décadas, vários historiadores, traba­
lh ando em um a am pla variedade de períodos, países e tipos de
história, conscientizaram-se do potencial para explorar novas pers­
pectivas d o passado, proporcion ado por fontes com o a correspon­
dência do soldad o W heeler com su a esposa, e sentiram-se atraídos
pela idéia de explorar a história, d o ponto de vista do soldado raso,
e não do grande com andante. Tradicionalm ente, a história tem
sido encarada, desde os tem pos clássicos, com o um relato dos feitos
dos grandes. O interesse na história social e econôm ica m ais am pla
desenvolveu-se no século dezenove, m as o principal tema da
história continuou sendo a revelação d as opiniões políticas da elite.
Havia, é claro, vários indivíduos que se sentiam infelizes com essa
situação, e, já em 1936, Bertold Brecht, em seu poem a Perguntas
de um Operário que Lê, apresentou aquela que provavelmente ainda
é a afirm ação m ais direta da necessidade de um a perspectiva
alternativa ao que poderia ser cham ado de “ história da elite” .2 M as
provavelm ente é justo dizer que u m a declaração séria da possibili­
dade de transform ar essa necessidade em ação só surgiu em 1966,
q u an d o Edward T h o m p so n publicou um artigo sobre 'The History
from Below’ em The Times Literary S u p p le m e n tD aí em diante, o
2. Bertold Brecht, Poems, ed. Jo h n W illett e R alph M an h eim , Lon dres, 1976, p. 252-3.
3. E.P. T h o m p so n , “ H istory from Below ” , The Times Literary Supplement, 7 dc abril de
1 9 6 6 , p. 279-80. Para um a d iscu ssão d a base para o p en sam en to do T h o m p so n , ver
Harvey J. Kaye, The British M arxist H istoriam : an Introductory A ndhsis, C am b rid ge,
1 984.
A ESCRITA DA H ISTÓRIA
41
conceito da história vista de baixo entrou n a linguagem com um
d o s historiadores. Em 1985 foi publicado um volum e de ensaios
intitulado History from Below4, en quan to em 1989, um a nova
edição de um livro referente à historiografia das G uerras C ivis
Inglesas e às suas conseqüências den om in ou u m capítulo sobre a
obra recente d o s radicais do período de History from Below.5 A ssim ,
durante m ais ou m en os os últim os vinte anos, foi encontrado um
rótulo para aquela perspectiva do passado, oferecida pelas cartas
de W illiam W heeler.
E ssa perspectiva atraiu de im ediato aqueles historiadores an­
sio so s por am pliar os limites de sua disciplina, abrir novas áreas
de pesqu isa e, acim a de tudo, explorar as experiências históricas
daqueles hom en s e m ulheres, cuja existência é tão freqüentem ente
ignorada, tacitam ente aceita ou m encionada apenas de passagem
n a principal corrente da história. M esm o hoje, grande parte da
história en sin ada nas sextas classes e nas universidades da GrãBretanha (e tam bém , supõe-se, em instituições sim ilares por toda
parte), ain da considera a experiência da m assa do povo no passado
com o inacessível ou sem im portância; n ão a considera u m proble­
m a histórico; ou, n o m áxim o, considera as pessoas com uns com o
“ um dos problem as com que o governo tinha de lidar” .6 O ponto
de vista op osto foi vigorosam ente apresentado por Edward T h o m p ­
so n em 1965, no prefácio de u m a d as principais obras de história
inglesa:
Estou procurando resgatar o pobre descalço, o agricultor ultrapassado,
o tecelão do tear manual ‘obsoleto’, o artesão ‘utopista’ e até os seguidores
enganados de Joanna Southcott, da enorme condescendência da posterida­
de. Suas habilidades e tradições podem ter-se tornado moribundas. Sua
hostilidade ao novo industrialismo pode ter-se tornado retrógrada. Seus
4. History from Below: Studies in Popular Protest and Popular Ideology, ed. FrederjckK rantz,
O xfo rd , 1 9 8 8 . E sta foi a edição inglesa de u m a coleção prim eiro publicada em
M ontreal em 1985.
5. R .C . R ich ard son , The Debate on the English Revolution Revisíted, Lon dres, 1988,
capitulo 10, “T h e Tw entieth C entury: ‘ H istory from Below ’ ” .
6. T h o m p so n , “ H istory from Below ” , p. 279.
42
PETER BURKE
ideais comunitários podem ter-se tom ado fantasias. Suas conspirações
insurrecionais podem ter-se tornado imprudentes. Mas eles viveram nesses
períodos de extrema perturbação social, e nós, não.7
Portanto, T h o m p so n não se lim itou apenas a identificar o
problem a geral da reconstrução d a experiência de um grupo de
pessoas “ com u n s” . Percebeu tam bém a necessidade de tentar
com preender o povo n o passado, tão distante n o tem po, quanto
o historiador m oderno é capaz, à luz de sua própria experiência e
de suas próprias reações a essa experiência.
M eu objetivo neste ensaio será explorar, o m áxim o possível
com referência ao que poderia ser considerado um núm ero con­
sistente das obras-chaves publicadas, parte do potencial e dos
problem as inerentes à escrita da história vista de baixo. A ssim
fazendo, entrarei em contato com dois tem as bem diferentes, se
bem que em grande m edida em aranhados. O prim eiro deles é
introduzir o leitor na absoluta diversidade de temática produzida
pelo trabalho sobre o que poderia ser descrito, em term os am plos,
com o um a história vista de baixo. Ele se estende desde a recons­
trução das experiências dos pastores medievais d o s Pireneus, até
àquelas dos prim eiros trabalhadores industriais de certa idade,
cujas rem iniscências form am o principal elem ento da história oral.
O segundo é isolar algum as das questões, evidenciais, conceituais
e ideológicas, suscitadas pelo estudo da história vista de baixo. A
idéia de um a tal abordagem d a história é m uito sedutora, m as,
com o tão freqüentem ente acontece, os problem as envolvidos no
estudo do passado, rapidam ente tornam-se m ais com plexos do que
podem parecer à prim eira vista.
A perspectiva de se escrever a história vista de baixo, resgatando
as experiências passadas d a m assa da população, seja da total
negligência d o s historiadores ou da “enorm e condescendência da
posteridade” de T h o m p son , é, portanto, um a perspectiva atraente.
M as, com o sugerim os, a tentativa de estudar a história dessa
m aneira envolve m uitas dificuldades. A prim eira gira em torno da
7. E.P. T h o m p so n , The Malcing of the English Working C lass, Lon dres, 1965, p. 12-13.
A ESCRITA DA H ISTÓRIA
43
evidência. Tem -se apenas que ler o estudo de T h o m p so n sobre os
an os form adores da classe trabalhadora inglesa para com preender
que, sejam quais forem as críticas que po ssam ser feitas à sua
interpretação da questão, pouca dúvida existe de que ela seja
baseada em u m a quantidade de material de fonte maciçam ente
am pla e rica. Em geral, entretanto, quanto m ais para trás vão os
historiadores, bu scan do reconstruir a experiência das classes so­
ciais inferiores, m ais restrita se torna a variedade de fontes à sua
disposição. C o m o verem os, um excelente trabalho tem sido feito
com relação aos m ateriais que realmente persistem para os tem pos
prim itivos, m as o problem a é real: os diários, as m em órias e os
m anifestos políticos, a partir dos quais podem ser reconstruídas as
vidas e as aspirações das classes sociais inferiores são escassos, antes
do final do século dezoito, com exceção de alguns poucos períodos
(com o as décadas de 1 640 e 1650 n a Inglaterra). Em segundo lugar,
há vários problem as de conceituação. O n d e exatamente o “ baixo”
deve ser alocado, e o que seria feito com a história vista de baixo,
u m a vez escrita?
A s com plicações inerentes à questão de se precisar que história
vem de baixo, estão finam ente ilustradas em um a das áreas de
crescim ento da história social nos últim os anos: o estudo da cultura
popu lar n o início da E uropa m oderna. T an to quanto posso
perceber, além de encará-la com o um a espécie de categoria residual,
nenhum historiador chegou ainda a um a definição com pletam ente
abrangente do que era na verdade a cultura popu lar naquele
período.8 A principal razão d isso é que “o povo” , m esm o há tanto
tem po atrás com o n o século dezesseis, com pun ha um grupo m uito
variado, dividido por estratificação econôm ica, culturas profissio­
nais e sexo. T ais considerações invalidam qualquer idéia sim plista
8. V er, por exem plo, a d iscu ssão em : Peter Burke, Popular Cuíture in Early Modem
Europe, Lon dres, 1 9 7 8 , p. 23-64; e Barry Reay, “ Introduction: P opular C ulture in
Early M o d e m E n g lan d ” , em Popular Culture in Seventeenth-Century England, ed. B.
Reay, Lon dres, 1 985.
■
44
PETER BURKE
do que o “ baixô” poderia significar na m aior parte dos contextos
históricos.9
E igualm ente im portante a questão do significado m ais am plo
ou dos propósitos de um a abordagem da história vista de baixo.
O s problem as ficam talvez m ais bem ilustrados tom ando-se por
referência o trabalho dos historiadores que escrevem dentro da
tradição m arxista ou dentro da tradição da história britânica do
trabalho. É óbvio que a contribuição dos historiadores m arxistas,
aqui e em qualquer outra parte, tem sido enorm e: n a verdade, um
filósofo m arxista declarou que todos aqueles que escrevem a
história vista de baixo, assim o fazem na som bra da conceituação
m arxista da história.10 Em bora tais afirmações po ssam parecer um
tanto hiperbólicas, a dívida do historiador social para com as idéias
de M arx e para com os historiadores m arxistas deve ser reconhe­
cida, e certamente não é m inha intenção juntar-me à tendência
atualm ente em m od a de depreciar um a das m ais ricas tradições
intelectuais do m undo. A in d a que pudesse parecer que os histo­
riadores m arxistas, antes de outros escritores, que escrevem a partir
de tradições diferentes, sugerirem a am plitude da temática que o
historiador social poderia estudar, tenham tendido a restringir o
estudo da história vista de baixo àqueles episódios e m ovim entos
em que as m assas se engajaram n a atividade política m anifesta ou
em áreas fam iliares de desenvolvim ento econôm ico. E m bora ele
fosse transcender tais limitações, este foi em grande extensão o
ponto de partida do ensaio de T h o m p so n de 1966. A fundam en­
tação histórica para tal linha de pensam ento foi descrita m ais
9. U m a m aneira de contornar este problem a é exam in ar a experiência de diferentes
setores d as classes inferiores, às vezes através do estudo de caso isolado. Para duas
ob ras qu e utilizam esta abordagem , am b as constituindo im portantes contribuições à
história vista de baixo, ver: N atalie Zem on D avis, Society and Culture in Earíy Modem
France, Lon dres, 1 9 7 5 e D avid Sab ean , Power in the Blood: Popular Culture and Víllage
Discourse in Early M oáem Germany, C am b rid ge, 1984.
10. A lex C allin icos, The Revolutionary Ideas o f K arl M arx, Lon dres, 1 9 83, p. 8 9. A o
contrário, pod eria ser observado que n ão h á razão por qu e a abordagem m arxista
n ão p u d esse produzir u m a “ história vista de baixo” bastante efetiva: ver os com entá­
rios de Perry A n d erso n , Lineages of the Absolutist State, Lon dres, 1979, p. 11.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
45
recentemente por Eric H obsbaw m . H obsbaw m declarou que, a
possibilidade do que ele cham a de “ história das pessoas com u n s”
só se tornou realm ente aparente m ais ou m enos em torno de 1789.
“A história das pessoas com uns com o um cam po especial de
estu do” , escreveu ele, “tem início com a história dos m ovim entos
de m assa n o século dezoito ... Para o m arxista, ou m ais com um ente
o socialista, o interesse n a história das pessoas com uns desenvol­
veu-se com o crescim ento do m ovim ento trabalhista.” C o m o ele
prosseguiu para observar, essa tendência “ im pôs algum as luzes
bastante eficazes para os historiadores socialistas” .11
A lgo da natureza dessas luzes foi sugerido em um livro de
Richard H oggart publicado em 1957, The Uses of Literacy, que
poderia bem ter recebido o subtítulo de ‘The Breaking of the English
Working C lass'. D iscutindo diferentes abordagens no estudo da
classe trabalhadora, H oggart pediu cuidado aos leitores das histó­
rias dos m ovim entos d a classe trabalhadora. C o m o m uitos outros,
H oggart se afasta de m uitas dessas histórias, com a im pressão “de
que seus autores supervalorizam o lugar da atividade política na
vida da classe trabalhadora, que nem sem pre têm um a noção
adequada da rotina diária dessa vida” .12 Em 1966, T h o m p so n
observou um a m udan ça das preocupações m ais antigas dos histo­
riadores do trabalho com as instituições do trabalho e com os
líderes e a ideologia aceitos, em bora tam bém tenha observado que
esse processo estava tendendo a subtrair da história do trabalho
parte de sua coerência.13 H obsbaw m , escrevendo à luz da subse­
qüente am pliação da história do trabalho, conseguiu fazer com en­
tários m ais centralizados neste ponto. O problem a era (com o
sugeriu H obsbaw m ) que os historiadores do m ovim ento trabalhis­
ta, m arxistas ou não, estudaram “ não exatamente as pessoas
com uns, m as as p essoas com uns que poderiam ser consideradas
11. E.]. H obsbaw m , “ H istory from Below - S o m e Reflections1’ , em History from Below,
ed. Krantz, p. 15.
12. R ichard H oggart, The Uses of Literacy: Aspects o f Working-Class Life u/ith Special
Re/erence to Publications and Entertainments, H arm on dsw orth, 1958, p. 15.
13. T h o m p so n , “ H istory from Below ” , p. 280.
46
PETER BURKE
os ancestrais do* m ovim ento; não os trabalhadores com o tais,
porém m ais com o cartistas, sindicalistas, militantes trabalhistas” .
A história do m ovim ento trabalhista e de outros desenvolvim entos
institucionalizados, declarou ele, não deveria “ substituir a história
das pessoas com uns em si” .14
O utra lim itação que a corrente principal da história do trabalho
cria para a história vista de baixo é aquela de um a restrição no
período. O s leitores do ensaio inicial de T h o m p so n e da posterior
contribuição de H obsbaw m poderiam facilmente ter ficado (apesar
das intenções dos autores) com a im pressão de que a história vista
de baixo só pode ser escrita para os períodos da Revolução Francesa
em diante. H obsbaw m , com o observam os, acreditava que foi o
desenvolvim ento dos m ovim entos de m assa no final do século
dezoito que prim eiro alertou os estudiosos para a possibilidade de
se escrever a história vista de baixo, e prosseguiu declarando que
“ a Revolução Francesa, especialm ente desde°que o jacobin ism o foi
revitalizado pelo socialism o e o Ilum inism o pelo m arxism o, tem
sido o cam po de prova para esse tipo de história” . In dagando um
pouco m ais adiante “ por que tanta história m oderna popular
em ergiu do estudo da Revolução Francesa?” , H obsbaw m citou a
ação conjunta d a m assa populacional e os arquivos criados por
“um a vasta e diligente burocracia” , que docum entava os atos das
p essoas com uns e depois p assou a classificar e preencher seus
registros “em beneficio do historiador” . Esta docum entação pro­
porcionava um rico filão para a pesqu isa posterior e era tam bém ,
segundo H obsbaw m , “ perfeitamente legível, ao contrário das cali­
grafias intrincadas dos séculos dezesseis e dezessete” .15
Entretanto, a história vista de baixo não tem sido m eram ente
escrita a respeito da história política familiar m oderna, por histo14. H obsbaw n , “ S o m e Reflections” , p. 15.
15. Ib id ., p. 16. A p e sar d o ceticism o qu e se poderia experim entar sob re a singularidade
d a contribuição de h istoriadores d a Revolução Francesa,-perm anece claro qu e as
o b ras basead as n aquele período deram u m a substancial contribuição ao cân one da
h istória vista de baixo, d esde estudos pioneiros co m o G eorges Lefebvre, Les Paysans
du Nord, Paris, 1 9 2 4 e The Great Fear of 1 789, Paris, 1 932, trad. ingl., N ova York,
1 973, até a ob ra m ais recente de Richard C o b b .
A ESCRITA DA HISTÓRIA
47
ríadores incapazes de enfrentar os desafios paleográficos. N a
verdade, em bora o conceito da história vista de baixo tenha sido
essencialm ente desenvolvido por historiadores m arxistas ingleses,
que escreviam dentro dos limites cronológicos tradicionais da
história britânica do trabalho,» talvez o livro, que utiliza essa
perspectiva no p assado a criar m aior im pacto, tenha sido escrito
por u m estudioso francês que tom ou com o sua temática um a
com unidade medieval cam pon esa dos Pireneus. M ontaillou, de
Em m anuel Le Roy Ladurie, pela prim eira vez publicado n a França
em 1975, despertou m aior atenção, foi m ais vendido e teve m aior
alcance de leitores que a m aior parte das obras de história m edie­
val.16 Evidentem ente, ele tem suscitado algum a crítica no interior
da com unidade erudita, e várias questões foram levantadas sobre
a m etodologia de Le Roy Ladurie e a abordagem por ele utilizada
de suas fontes.17 O s historiadores que trabalham com a visão de
baixo devem, é claro, ser tão rigorosos nessas questões quanto em
qu aisqu er outras, m as M ontaillou se situa com o u m a espécie de
m arco na escrita da história vista dessa perspectiva. C o m o observou
seu autor, “em bora haja m uitos estudos históricos relacionados às
com unidades cam pon esas, há m uito pouco m aterial disponível
que po ssa ser considerado ,o testem unho direto do s próprios
cam pon eses” .18 Le Roy Ladurie contornou esse problem a basean do
seu livro n os registros inquisitoriais produzidos por Jacques Fournier, B isp o de Poitiers, durante sua investigação da heresia entre
1318 e 1325. Sejam quais forem seus inconvenientes, M ontaillou
não apenas dem onstrou que a história vista de baixo poderia atrair
o público leitor em geral, m as tam bém que alguns tipos de registro
oficial poderiam ser utilizados para explorar o m u n d o m ental e
m aterial das gerações passadas.
16. P ublicado em inglês co m o Montaillou: C athars and Catholics in a French Village
1294-1 3 2 4 , Lon dres, 1978.
17. V er, p o r exem plo: L E . Boyle, “ M on taillou Revisited: Mentalité and M eth odalogy” ,
in Pathways to Medieval Peasants, ed. J.A . Raftis, T o ro n to , 1981 e R . R osald o, “ From
the D o o r o f h is T ent: the Fieldw orker an d the In qu isitor” , em Writing Culture: the
Poetics and Politics of Ethnography, ed. J. C lifford e G . M arcus, Berkeley, 1986.
18. Le R oy Ladurie, Montaillou, p. vi.
48
PETER BURKE
N a verdade*, os historiadores sociais e econôm icos estão em ­
pregando cada vez m ais tipos de docum entação, cuja real utilidade
com o evidência histórica repousa no fato de que seus com piladores
não estavam deliberada e conscientem ente registrando para a
posteridade. Supõe-se que m uitos desses com piladores ficariam
surpresos, e talvez preocupados, com o u so que os historiadores
recentes fizeram dos casos judiciais, registros paroquiais, testam en­
tos e transações de terras feudais que registraram. Tal evidência
pode ser em pregada, adequadam ente, para explorar ações e idéias
explícitas ou suposições im plícitas, e tam bém para propiciar um a
base quantitativa às experiências do passado. C o m o observou
Edward T h o m p son :
A s p e s s o a s p a g a v a m im p o s t o s : a s lista s d e im p o s t o s s ã o a p r o p r ia d a s ,
n ã o p e lo s h is to r ia d o r e s d a ta x a ç ã o , m a s p o r d e m ó g r a f o s h istó r ic o s . A s
p e s s o a s p a g a v a m d íz im o s: o s in v e n tá r io s s ã o a p r o p r ia d o s c o m o e v id ê n c ia
p e lo s d e m ó g r a f o s h istó r ic o s . A s p e s s o a s e r a m a r r e n d a tá r ia s c o n s u e a id in á r ia s o u e n fite u ta s; se u s títu lo s d e p o s s e e r a m in sc r ito s e c o n s ta v a m d o s
r e g is tro s d a c o rte fe u d a l: e s s a s f o n te s e s se n c ia is s ã o e x a u s tiv a m e n te in te r ­
r o g a d a s p e lo s h is to r ia d o r e s, n ã o s o m e n te e m b u s c a d e n o v a e v id ê n c ia , m a s
e m u m d iá lo g o e m q u e ele s p r o p õ e m n o v a s p e r g u n t a s .19
’
Pelo que sugere esta citação, tais materiais são m uito variados.
O casionalm ente, com o ocorre com os materiais em que Montaillou
foi baseado, perm item que o historiador consiga chegar tão próxi­
m o às palavras das pessoas, quanto consegue o gravador do
historiador oral. A história oral tem sido m uito u sada pelos
historiadores que tentam estudar a experiência das pessoas co­
m u n s, em bora, é claro, não haja razão por si só evidente do motivo
pelo qual o historiador oral não deva gravar as m em órias das
duquesas, dos plutocratas e dos bispos, da m esm a form a que dos
19. E.P. T h o m p so n , The Poverty ofTheory and Other Essays, Lon dres, 1978, p. 219-20.
Para u m a d iscu ssão m ais am pla do s tipos de registros sob re os q u ais os historiadores
d a Inglaterra poderiam basear a h istória vista de baixo, ver A lan M acfarlane, Sarah
H arrison e C h arles Jardine, Reconstructing Historical Communicies, C am b rid ge, 1977.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
49
m ineiros e dos operários fabris.20 M as o historiador oral tem
problem as óbvios ao tratar com pessoas que m orreram antes de
serem gravadas ou cuja m em ória foi perdida por seus sucessores,
e o tipo de testem unho direto que pode obter é negado aos
historiadores dos períodos m ais antigos. A o contrário, com o
sugerim os, existem fontes que perm item aos historiadores de tais
períodos chegarem m ais perto d as experiências das pessoas das
classes inferiores.
Le Roy Ladurie utilizou um a fonte desse tipo: o registro de
Jacques Fournier. O utro trabalho, que m ostra com o este tipo de
registro legal poderia ser em pregado por um tipo bem diferente
de história vista de baixo, foi publicado em 1976, a edição italiana
de The Cheese and the Worms, de C ario G inzburg.21 O objetivo de
G inzburg não era reconstruir a m entalidade e o m odo de viver de
u m a com unidade cam ponesa, m as antes explorar o m u n d o inte­
lectual e espiritual de um m oleiro cham ado D om enico Scandella
(apelidado de M enocchio), nascido em 1532, que viveu em Friuli,
n o nordeste da Itália. M enocchio teve com plicações com a In qui­
sição (foi afinal executado, provavelmente em 1600) e a volum osa
docum entação que se refere ao seu caso permitiu que G inzburg
reconstruísse grande parte de seu sistem a religioso. O livro em si
é um a realização notável, o prefácio de G inzburg apresenta um a
proveitosa discu ssão dos problem as conceituais e m etodológicos
da reconstrução da cultura das classes subalternas n o m undo
pré-industrial. Ele foi particularmente insistente para “ o fato de
u m a fonte não ser ‘objetiva’ (para aquele tema, nem u m inventário
o é) não significar que ela seja inútil ... Em sum a, m esm o a
20. A lgu m as im p ressões d o tipo de áreas tem áticas cobertas pelos h istoriadores orais
pod em ser ob tid as através d a leitura d o s registros regulares d o trabalho em an d am en ­
to co n tid os em O ral History: the Journal of the O ral History Society, q u e é publicado
d esd e 1972.
21. Publicado em inglês, traduzido por A n n e e Jo h n T edeschi, com o The Cheese and the
Worms: the Cosmos of a Sixteenth-Century Miller, Londres, 1980. O u tra ob ra de
G inzburg, The Night Battles: Witchcraft and Agrarian Cults in the Sixteenth and
Seventeenth Centuries, Lon dres, 1983 (ed. italiana, 1966), tam bém d em on stra com o
os registros inquisitoriais pod em ser u sad o s p ara esclarecer as crenças populares.
50
PETER BURKE
docum entação*escassa, dispersa e obscura pode ter um bom u so ” 22,
e o estudo dos indivíduos nesse tipo de profundidade é tão valioso
quanto as abordagens coletivas m ais familiares à história social.
Resta o problem a, é claro, da representatividade de tais indivíduos,
m as os estudos de caso desse tipo, tratados de form a adequada,
podem ser im ensam ente esclarecedores.
M as, em seus esforços para estudar a história vista de baixo,
o s historiadores utilizaram outros tipos de docum entação oficial ou
semi-oficial, além de um a fonte rica isolada. U m exem plo d isso é
B arbara A . Hanawalt, que fez u m u so extensivo de u m a das grandes
fontes negligenciadas da história social inglesa, a inquirição do
coroner23 n a reconstrução da vida familiar cam pon esa medieval.24
H anaw alt declara que esses registros estão isentos das tendências
encontradas n os registros das cortes reais, eclesiásticas ou feudais,
além de apontar (voltando a um tema anterior) que os detalhes da
vida material e das atividades familiares” neles assinalados são
incidentais ao principal propósito dos registros, daí a im probabi­
lidade de serem distorcidos. C o m o é tão freqüente q u an d o se trata
de registros oficiais, eles têm su a m aior utilidade q u an d o em prega­
dos para propósitos que seus com piladores jam ais sonharam .
C o m b in ad as com outras form as de docum entação, H anaw alt usou
as inquirições para com por um quadro do am biente material, da
econom ia familiar, das etapas n o ciclo de vida, n os padrões de
educação do s filhos e de outros aspectos da vida cotidiana dos
cam pon eses m edievais. Em certo sentido, seu trabalho dem onstra
u m a estratégia alternativa àquela seguida por Le Roy Ladurie e
Ginzburg: o exam e m inucioso de um vasto corpo de docum enta­
ção, em vez da construção de um estudo de caso baseado em um a
22. G inzburg, The Cheese and the Worms, p. xvii.
2 3 . O ficial de justiça anglo-saxão (cargo criado n o fim d o século X II), com parte das
atribuições d o xerife e cujas funções estão atualm ente lim itadas à investigação da
cau sa d a s m ortes violentas, n ão naturais o u m isteriosas. (N .T .)
24. B arbara A . H anaw alt, The Ties that Bound: Peasant Families in Medieval England,
N ov a Y ork e O xford , 1986. Para u m a apresentação m ais breve d o s objetivos de
H anaw alt, ver seu artigo “ Seeking the F lesh and B lood o f M an orial F am ilies” , Journal
of Medieval History, 14, p . 3 3 4 5 , 1988.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
51
lonte excepcionalm ente rica. M as o resultado final é u m a demons! ração de com o m ais um a forma de docum entação oficial pode ser
u sada para construir a história vista de baixo.
Esta am pliação do alcance cronológico da história vista de
baixo, assim com o o m ovim ento em direção a u m âm bito m ais
am plo das preocupações históricas do que as ações políticas e os
m ovim entos políticos das m assas, levou a um a busca de outros
m odelos, além daqueles proporcionados pelo m arxism o tradicio­
nal, ou pelo velho estilo da história do trabalho. A necessidade de
se m anter um diálogo com os estudiosos m arxistas é essencial, m as
perm anece claro que até a aplicação, para o m undo pré-industrial,
de um conceito m arxista básico com o aquele, é problem ática, ao
m esm o tem po em que é difícil imaginar-se um a linha distintam ente
m arxista em u m processo de difam ação em Yorkshire, n o século
dezesseis, ou em um a fraude em W iltshire, no século dezessete.
Infelizmente, a busca de um m odelo alternativo (adm itidam ente,
ain da em seus escassos prim órdios) até agora alcançou m uito
pouco sucesso. M uitos historiadores, especialm ente n a Europa
continental, foram in spirados pela escola francesa dos Annales.25
Sem dúvida, m uitos dos vários trabalhos produzidos por escritores,
que operam dentro d a tradição do s Annales, não apenas aprofun­
daram n o sso conhecim ento do passado, m as tam bém proporcio­
naram incríveis reflexões m etodológicas dem onstran do o u so
inovador que pode ser feito das form as familiares de docum entação
e o m od o com o novas questões sobre o p assado podem ser
form uladas. A lém disso, a clarificação dos annalistas do conceito
de mentalité com provou-se de grande valor para os historiadores
que tentaram reconstruir o m u n d o m ental das pessoas das classes
inferiores. Entretanto, eu gostaria de afirm ar que a m aior contri­
buição d a abordagem dos Annales tem sid o a dem onstração de
com o com por o contexto dentro do qual poderia ser escrita a
história vista de baixo. Por exem plo, o conhecim ento de u m a queda
2 5 . A m elh ot introdução para a o b ra d essa escola é Traian*Stoianavitch, FrencK Historical
Method: the Annales Paradigm, Ithaca e Londres, 1976.
52
PETER BURKE
nos preços dos grãos, em u m a determ inada sociedade durante um
dad o período, ajuda a com por o pano de fundo essencial para a
com preen são da experiência do pobre: tal evidência quantificada,
n o entanto, pode não ser toda a história.
O utros buscaram m odelos na sociologia e na antropologia. Aí,
tam bém , em m ãos com petentes e sensíveis, os gan h os têm sido
grandes, em bora m esm o n essas m ãos alguns problem as ainda
perm aneçam , enquanto em outras ocorreram alguns desastres.
Poderia ser argum entado que a sociologia é de m aior relevância
para os historiadores da sociedade industrial, enquanto algum as
de suas suposições nem sem pre têm sido m uito facilmente aplicá­
veis ao tipo de m icroestudo da preferência dos profissionais da
história vista de baixo.26 A antropologia tem atraído m uitos histo­
riadores que estudam tópicos medievais e do início do m odernis­
m o, em bora aqui tam bém o resultado tenha apresentado alguns
problem as.27 A lgum as dessas questões são esclarecidas pelo traba­
lho de A lan M acfarlane sobre as acusações de bruxaria na Essex
de T u d o r e Stuart.28 M acfarlane decidiu escrever o que poderia ser
descrito com o um a história da bruxaria vista de baixo. A interpre­
tação elitista do tem a foi anteriorm ente apresentada pór H ugh
Trevor-Roper, que, em seu próprio estudo da bruxaria na Europa,
n o início d a era m oderna, declarou sua falta de interesse em “ m eras
crenças, em bruxarias: aquelas credulidades aldeãs elementares que
os antropólogos descobrem em todas as épocas e em todos os
2 6 . Para d iscu ssões gerais do relacionam ento entre as d u as disciplin as, ver: Peter Burke,
Sociology and History, Londres, 1 9 8 0 e Philip A b ram s, Historical Sociology, Sh epton
M allet, 1982.
2 7 . D u as exposições clássicas d a im portância d o s possíveis elos entre a história e a
antropologia são E .E . Evans-Pritchard, Anthropology and History, M anchester, 1961
e K eith T h o m a s, “ H istory and A n thropology” , Past and Present, 2 4 , p. 3-24, 1 963.
Para u m a v isão m ais cética, ver E.P. T h o m p so n , “A n thropology and the D iscipline
o f H istorical C on tex t” , M idland History, 3, n. 1, p. 41-56, prim avera de 1972.
28. A lan M acfarlane, Witchcraft in Tudor and Stuart England: A Regional ancí Comf>arative
Study, Lon dres, 1 9 7 0. A obra de M acfarlane deveria ser lida em conju nto com Keith
T h o m a s, Religion and the Decline of Magic: Studies in Popular Beliefs in Sixteenth and
Seventeenth-Century England, Lon dres, 1971, trabalho abrangente qu e tam bém deduz
consideráveis reflexões d a antropologia.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
53
lugares” .29 M acfarlane, ao contrário, imergiu ele próprio nas “ mei.is crenças em bruxarias” e produziu um livro que se constituiu
m i um im portante aprofundam ento de n ossa com preensão do
issunto. U m dos elem entos m ais notáveis em seu projeto foi a
aplicação de estudos antropológicos ao material histórico. O resul­
tado foi um aprofundam ento de n ossas reflexões n a função da
1iruxaria no interior da sociedade da aldeia e a percepção do quanto
.is acusações de bruxaria eram geradas na m aior parte d as vezes por
um conjunto razoavelmente padronizado de tensões interpessoais.
M as a abordagem antropológica ajudou pouco aos leitores na
com preensão daquelas dim ensões m ais am plas do tópico e que são
exteriores à com unidade da aldeia; por que foi aprovada um a lei
no parlam ento perm itindo a perseguição da bruxaria m aléfica em
1563 e por que outra legislação, tornando im possível a perseguição
legal da bruxaria, foi aprovada em 1736? A abordagem microhistórica utilizada preferencialmente pelos m odelos antropológicos
pode facilmente obscurecer o problem a m ais geral do lugar, onde
o poder está concentrado na sociedade com o um todo e da natureza
de sua operação.
Por trás de toda a n ossa discussão ocultou-se um a questão
fundam ental: a história vis,ta de baixo constitui um a abordagem da
história ou um tipo distinto de história? O ponto pode ser enfocado
de am bas as direções. C o m o abordagem , a história vista de baixo
preenche com provadam ente duas funções im portantes. A prim eira
é servir com o um corretivo à história da elite, para m ostrar que a
batalha de W aterloo envolveu tanto o soldado W heeler, quanto o
D uqu e de W ellington, ou que o desenvolvim ento econôm ico da
G rã-Bretanha, que estava em plena atividade em 1815, envolveu
o que T h o m p so n descreveu com o “ a pobre e sangrenta infantaria
da Revolução Industrial, sem cujo trabalho e perícia ela teria
perm anecido u m a hipótese não testada” .30 A segunda é que,
oferecendo esta abordagem alternativa, a história vista de baixo
2 9. H .R . Trevor-Roper, The European Witch-Craze of the Sixteenth and Seventeenth
Centuries, H arm on dsw orth, 1967, p. 9.
30. T h o m p so n , “ H istory from Below ” , p. 280.
_
54
PETER BURKE
abre a possibilidade de um a síntese m ais rica da com preensão
histórica, de u m a fusão da história da experiência do cotidiano das
pessoas com a temática dos tipos m ais tradicionais de história.
Inversam ente, poderia ser argum entado que a temática da história
vista de baixo, os problem as de su a docum entação e, possivelm en­
te, a orientação política de m uitos de seus profissionais criam um
tipo distinto de história. Em certo sentido, é claro, é difícil
estabelecer-se um a divisão precisa entre um tipo de história e um a
abordagem à disciplina em geral: a história econôm ica, a história
intelectual, a história política, a história militar etc., têm um a
eficácia m ínim a q u an d o confinadas em caixas hermeticamente
fechadas. Q ualq u er tipo de história se beneficia de um a abertura
n o pensam ento do historiador que a está escrevendo.
Poderia parecer, então, que a história vista de baixo tem sua
m aior eficácia q u an d o está situada dentro de um contexto. A ssim ,
n o prim eiro núm ero de um a revista destinada em grande m edida
a este tipo de história, o editorial coletivo do History Workshop
Journal declarou que “ n osso socialism o determ ina n ossa preocu­
pação com as pessoas com uns n o passado, com sua vida, seu
trabalho, seu pensam ento e sua individualidade, assim com o com
o contexto e com as causas determ inantes de sua experiência de
classe” e, prosseguiu, “ determ ina igualmente a atenção que deve­
m os prestar ao capitalism o” .31 C o m o n o sso s sentim entos nos
recordam , a expressão “história vista de baixo” im plica que há algo
acim a para ser relacionado. Esta suposição, por sua vez, presum e
que a história das “ pessoas com u n s” , m esm o q u an d o estão envol­
vidos aspectos explicitamente políticos de sua experiência passada,
não pode ser dissociada das considerações m ais am plas da estru­
tura social e do poder social. Esta conclusão, por sua vez, leva ao
problem a de com o a história vista de baixo deve ser ajustada a
concepções m ais am plas da história. Ignorar este ponto, ao se tratar
da história vista de baixo ou de qualquer tipo de história social, é
arriscar a em ergência de um a intensa fragm entação da escrita da
31. “ E ditorial” , History Workshop, 1, p. 3, 1971.
55
A ESCRITA DA HISTÓRIA
111 stória, talvez m esm o de algum tipo de “ an tiqu arian ism o”
m oderno. O s perigos foram bem apon tados em 1979 por Tony
|udt. N ão é n ecessário que com partilhem os inteiram ente d-a
posição de Ju d t para sim patizar com a su a preocupação de que
"n ão há lugar para a ideologia política n a m aior parte da história
social m oderna, n ão m ais do que havia n a sociologia d a qual esta
ultim a derivou ... a história social’, com o indiquei anteriorm ente,
(oi transform ada em u m a espécie de antropologia cultural retros­
pectiva” .32
O tipo de história vista de baixo introduz outra questão,
aquela da am pliação d a audiência d o historiador profission al, de
perm itir um acesso m ais am plo à história de u m padrão profis­
sion al do que aquele norm alm ente perm itido pelos nobres
acadêm icos profission ais e seus alunos. Em seu artigo de 1966,
T h o m p so n observou que Taw ney e outros historiadores de sua
geração tinh am “um relacionam ento incom um ente am plo e
participante com u m público externo aos cam pos da academ ia” ,
e obviam ente lam entou que isso não fosse um a prática com um
aos profission ais m ais recentes.33 Esta questão foi levantada m ais
recentem ente po r alguém que trabalha em um a posição ideológi­
ca bastante diferente daquela de T h o m p so n , D avid C an n ad in e.
C o n statan d o a m aciça expan são d a história com o u m a disciplina
universitária n a G rã-Bretanha do pós-guerra, C an n ad in e com en­
tou qu e
grande parte desta nova versão profissional da história britânica foi
completamente afastada da grande audiência leiga, cuja satisfação de sua
curiosidade sobre o passado nacional foi um dia a principal função da
história. U m resultado paradoxal deste período de expansão sem prece­
dentes foi que cada vez mais os historiadores acadêmicos estavam cada vez
3 2 . T o n y Ju dt, “A C low n in Regai Purple: Social H istory and the H istorian ” , History
Workshop 7, p. 8 7 , 1979.
3 3 . T h o m p so n , “ H istory from Below ” , p. 279.
_
56
PETER BURKE
mais escreveftdo uma história acadêmica que cada vez menos pessoas
realmente l ia m . 34
U m dos principais objetivos daqueles que escrevem a história
vista de baixo, particularmente daqueles que trabalham com um a
postura socialista ou de história do trabalho, era tentar rem ediar
esta situação, am pliando seu público e, possivelm ente, proporcio­
n ando um a versão do povo daquela nova síntese de n ossa história
nacional, cujo fim C an n ad in e lamentava. A m edida que seus
esforços não foram bem-sucedidos e a história da elite ainda parece
estar m uito ao gosto público, o próprio H obsbaw m adm itiu seu
engano na leitura variada de biografias de figuras políticas proem i­
nentes.35
M esm o assim , a idéia do acesso am pliado a um conhecim ento
de n osso passado, através da história vista de baixo, ainda é atrativa.
Entretanto, perm anece o perigo de se -cair em algo com o a
fragm entação d o conhecim ento histórico e a despolitização da
história que tanto contrariaram Ju d t O interesse popular na
história vista de baixo, com o qualquer pessoa, que teve de lidar
com questões sobre tais tópicos nos encontros da A ssociação
H istórica irá saber, está freqüentemente restrito ao que poderia ser
cham ado de um a visão “ porão-sótão” da sociedade do passado,
sen do este problem a exacerbado por alguns aspectos do que
atualm ente estam os nos acostum ando a descrever com o história
pública. T al visão é a tom ada de consciência de que as pessoas
fizeram coisas diferentes (e então, implicitamente estranhas) no
passado, e que m uitas delas sofreram privações materiais e supor­
34. D avid C an n ad in e, “ British H istory: Past, Present - and Future” , Past and Present,
116, p. 177, 1987. O trabalho de C an n ad in e inspirou “ C o m m e n ts” , de autoria de
P.R. C o ss, W illiam L a m o n te N eil Evans, Past and Present, 119, p. 171-203, 1988.
O s po n tos de vista de Lam ont, especialm ente aqueles expressos n as páginas 180-193,
sugerem u m a abordagem da história vista de baixo para um a nova h istória nacional,
en q uan to E vans, n a p. 197, declara explicitam ente que “ a história britânica ... precisa
ser m old ad a através de u m a visão de baixo e transformar-se gradualm ente em u m a
com preen são d o estado.”
3 5. H obsbaw n , “ So m e Reflections” , p. 13.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
57
taram sofrim entos, o que nos permite com parar os dissabores do
passad o com n ossas atuais condições m ais am enas. M as há pouca
tentativa de se levarem os temas adiante ou de se abordarem os.
problem as históricos em um nível bem m ais elevado que a anedota
ou a experiência local isolada. M çsm o aqueles com um a visão mais
desenvolvida do p assado do povo não escaparam daquelas acusa­
ções de “ an tiquarian ism o” que os, historiadores acadêm icos gos­
tam tanto de lançar sobre seus com panheiros m enos bem aqui­
n h oados conceituai e ideologicamente. Por isso, Roderick Floud,
criticando a posição de u m grupo com idéias m uito nitidamente
definidas sobre a im portância da história do povo, pôde declarar
que “ às vezes, n a verdade, o estilo de um G ru p o de T rabalho de
H istória tendeu para o ‘an tiquarian ism o’ da esquerda, para a
reunião e publicação de coisas sem im portância da vida da classe
trabalhadora” .36 E m bora não se po ssa simpatizar com o sentido
total do argum ento de Floud, pouca dúvida pode haver de que ele
cham ou a atenção para u m problem a genuíno.
U m a possível resposta a essa crítica é, evidentemente, que até
que algum “ antiquarianism o de esqu erda” tenha permitido a
construção de u m conjunto sólido de material importante, até
m esm o através da reunião e publicação de coisas sem importância,
pouca esperança pode haver de se desenvolver um a síntese m adura
ou um a visão significativa m ais am pla. U m a segunda resposta, e
talvez m ais válida, poderia ser que estudos de caso isolados ou
outros estudos sim ilares, se contextualizados, poderiam conduzir
a algo m ais significativo que o “ an tiquarianism o” . So b circunstân­
cias apropriadas (o estudo de C ario G inzburg sobre D om enico
Scandella pareceria fornecer um bom exemplo) o escritor da
história vista de baixo pode se beneficiar m uito do uso daquilo que
os antropólogos poderiam cham ar de descrição den sa.37 O proble­
m a intelectual que um a técnica desse tipo suscita será familiar aos
36. R od erick Floud, “Q uantitative H istory and People’s H istory” , History Workshop, 17,
p. 1 1 6 ,1 9 8 4 .
3 7 . V e r C lifford Geertz, The Interfjretation of Cultures, N ova York, 1973, capítulo 1,
“ T h ick D escription: Tow ard an Ineerpretative T h e o r y o f C ulture".
58
PETER BURKE
historiadoreá sociais: o de situar um acontecim ento social dentro
de seu contexto cultural pleno, de form a a ele poder ser estudado
m ais em u m nível analítico qu e apenas em um nível descritivo.
M as, obviam ente, este processo pode ser revertido, e um a vez que
foi estabelecido um dom ínio d a sociedade em questão, o aconteci­
m ento social ou individual isolados (com o foi o caso do único, m as
bem docum entado, m oleiro de Friuli) podem ser u sados para
proporcionar um a base para um a com preensão m ais profunda
daquela sociedade. O historiador não necessita adotar o conceito
sem iótico de cultura defendido por antropólogos com o Clifford
Geertz para apreciar a utilidade potencial desta técnica. E o
problem a básico a que Geertz se refere, aquele do quanto estam os
aptos a com preender as pessoas culturalmente diferentes de nós,
e do quanto estam os aptos a traduzir u m a realidade cultural para
as idealizações eruditas de livros, artigos ou conferências, certamen­
te é fam iliar ao estudante da história vista de baixo.
Espera-se que as páginas precedentes tenham , pelo m enos,
convencido o leitor de que a escrita da história vista de baixo é um
projeto que se com provou extraordinariam ente frutífero. Atraiu a
atenção de historiadores que estão trabalhando em várias socieda­
des passadas, tanto geograficamente variadas quanto cronologica­
m ente estendendo-se dos séculos treze ao vinte. Esses historiadores
são oriun dos de vários países e de várias tradições intelectuais e
posições ideológicas. A o escrever a história vista de baixo, esses
historiadores buscaram socorro de form as tão variadas, quanto a
quantificação, com a ajuda do com putador e da teoria antropoló­
gica, e seus achados apareceram em form atos tão diferentes quanto
o artigo erudito técnico e o livro best-seller. C h egou o m om ento de
se tirarem algum as conclusões gerais sobre os trabalhadores que
operaram neste canto frutífero, em bora confuso, do vinhedo de
C lio.
Está, pelo m enos, claro que vários historiadores foram bem
sucedidos n a superação dos obstáculos não insignificantes que
im pedem a prática da história vista de baixo. M ais especificamente,
vários estu diosos reconheceram a necessidade de dar um salto
A ESCRITA DA HISTÓRIA
59
conceituai para aum entar sua com preensão das pessoas das classes
inferiores nas sociedades passadas, e tiveram então de prosseguir
para realizar com sucesso aquela proeza de ginástica intelectual.
Edw ard T h o m p so n , C ario G inzburg, Em m anuel Le Roy Ladurie
e outros, partindo de pontos diferentes e tendo em vista objetivos
históricos diferentes, foram todos capazes de dem onstrar com o a
im aginação pode interagir com a,erudição, para am pliar n ossa visão
do passado. A lém disso, o trabalho desses e de outros historiadores
m ostrou com o a im aginação histórica pode ser aplicada não
som ente para estruturar novas conceituações sobre a temática da
história, m as tam bém para questionar de outra form a os docum en­
tos e fazer coisas diferentes com eles. H á duas ou três décadas atrás,
m uitos historiadores teriam negado a possibilidade, com base em
evidências, de se escrever um a história séria sobre vários tem as que
agora são fam iliares: crime, cultura popular, religião popular, a
fam ília cam ponesa. D esde medievalistas tentando reconstruir a
vida das com unidades históricas até historiadores orais, registrando
e descrevendo a vida das prim eiras gerações no século vinte, os
historiadores que trabalham com esta visão de baixo m ostraram
com o o u so im aginativo do m aterial da fonte pode esclarecer muitas
áreas da história, que de outra form a poderia se su por estarem
m ortas e con den adas a perm anecer n a escuridão.
M as a im portância da história vista de baixo é m ais profunda
do que apenas propiciar aos historiadores um a oportunidade para
m ostrar que eles podem ser im aginativos e inovadores. Ela propor­
ciona tam bém u m m eio para reintegrar sua história aos grupos
sociais que podem ter pen sado tê-la perdido, ou que nem tinham
conhecim ento da existência de sua história. C o m o já observam os,
a colocação inicial da história vista de baixo, n a história da
Revolução Francesa ou n a história do m ovim ento trabalhista
britânico, causa aqui alguns problem as, em bora perm aneça verda­
deiro que o trabalho sobre a m assa populacional n o séculotdezoito
ou a classe trabalhadora do século dezenove tenha proporcionado
alguns dos m ais significativos exem plos de com o a história inopin ad a de setores d a população pode ser descoberta. O s propósitos
60
PETER BURKE
da história sãô variados, m as um deles é prover aqueles que a
escrevem ou a lêem de um sentido de identidade, de um sentido
de sua origem . Em um nível m ais am plo, este pode tom ar a form a
do papel da história, em bora fazendo parte da cultura nacional, na
form ação de um a identidade nacional. A história vista de baixo
pode desem penhar um papel im portante neste processo, recordan­
do-nos que n o ssa identidade não foi estruturada apenas por
m onarcas, prim eiros-m inistros ou generais. Este ponto tem outras
im plicações. Em u m livro sobre a história de um grupo que era
inegavelm ente “ de baixo” , os escravos negros n os Estados U n id o s
no período pré-Guerra Civil, Eugene D . G enovese declarou que o
seu principal objetivo era explorar “a questão da nacionalidade da ‘ identidade’ [que] seguiu furtivamente a história afro-americana
desde seus prim órdios colon iais” .38 M ais um a vez, com o, por
exem plo, no trabalho de T h o m p so n sobre a classe trabalhadora
inglesa, o u so da história para auxiliar a auto-identificação é
fundam ental. M as poderia ser observado que o livro de G enovese
tem o subtítulo de “O M un do que os Escravos C on stru íram ” . Para
G enovese, os seres hum anos que form avam sua temática, em bora
sem dúvida socialm ente inferiores, foram capazes de construir um
m u n d o para si: por isso, eram atores históricos, criaram história,
m uito m ais do que foram apenas um “problem a” que contribuiu
para envolver políticos e soldados brancos em u m a guerra civil, e
que os políticos brancos iam finalm ente “ resolver” . A m aior parte
daqueles que escreveram a história vista de baixo aceitariam, em
um sentido am plo, a opinião de que um dos resultados de terem
seguido essa abordagem tem sido dem onstrar que, os m em bros
das classes inferiores foram agentes, cujas ações afetaram o m undo
(às vezes lim itado) em que eles viviam. V oltam os à argum entação
de Edward T h o m p so n de que as pessoas com uns não eram apenas
“um dos problem as com que o governo tinha de lidar” .
M as, lamentavelmente, tem os de adm itir que em bora o con­
ceito tenha estado conosco p o r m ais de duas décadas, a história
3 8 . Eugene D . G en ovese, Roll, Jordan, Roll: the World the Slaves M ade, Lon dres, 1975,
p. xv.
A ESCRITA DA H ISTÓRIA
61
vista de baixo até agora causou com parativam ente pouco im pacto
na história da corrente principal ou n a alteração das perspectivas
dos historiadores da corrente principal. Encarando o problem a por
um de seus níveis básicos, os com pêndios de iniciação à história
têm pouco a dizer sobre o assunto. A m aior parte dos estudantes
que deseja descobrir de que trata a história, ou com o ela deve ser
feita, ainda se volta ou é dirigida pára o que é atualmente um a obra
absolutam ente obsoleta, What is History?, de E.H . C arr. Lá encon­
trarão um a visão bastante limitada do que poderia ser a resposta a
essa intrigante pergunta. Em particular, descobrirão que C arr não
tem a im aginação aberta em relação à temática da história que
historiadores posteriores dem onstraram , e que Braudel e outros
escritores da tradição inicial dos A nnales já haviam estabelecido
antes de ele ter escrito o seu livro. Por isso, su a declaração de que
“A travessia de C é sa r daquele pequen o riacho, o Rubicão, é um
fato histórico, en quan to a travessia do Rubicão por m ilhares de
pessoas, antes ou depois dele não interessa absolutam ente a
n in guém ” sugere que a história do transporte, da m igração e da
m obilidade geográfica não lhe ocorreram . Sim ilarm ente, seus
problem as de aceitação d a m orte a pontapés de um vendedor de
pão de gengibre, em Stalybridge W akes em 1850, com o u m fato
histórico (insinua-se que o vendedor de p ão de gengibre pode ter
tido u m a visão m ais clara do tema) dem onstra que ele não havia
con siderad o a história do crim e com o um tem a.39 Se u m a obra
for escrita para su bstituir a de C a rr com o u m com pêndio de
iniciação à história, é óbvio que seu autor, à luz da história vista
de baixo e d o s desenvolvim entos recentes m ais am plos da
história social, necessariam ente terá u m a visão m ais am pla do
p assad o .
Por conseguinte, n o sso ponto final deve ser que, por m ais
valiosa que a história vista de baixo p o ssa ser no auxílio ao
estabelecim ento da identidade das classes inferiores, devet ser
retirada do gueto (ou da aldeia de cam poneses, das ruas da classe
39. E .H . C arr, W hat is History?, H arm on dsw orth, 1 9 6 1 , p. 11-12.
62
PETER BURKE
i-
trabalhador^, dos bairros miseráveis ou dos altos edifícios) e usada
para criticar, redefinir e con solidar a corrente principal da história.
A queles que escrevem a história vista de baixo não apenas propor­
cionaram um cam po de trabalho que nos permite conhecer m ais
sobre o passado: tam bém tornaram claro que existe m uito m ais,
que grande parte de seus segredos, que poderiam ser conhecidos,
ainda estão encobertos por evidências inexploradas. D esse m odo,
a história vista de baixo m antém sua aura subversiva. H á um perigo
distante de que ela, com o ocorreu com a escola dos A nnales, possa
se tornar um a nova ortodoxia, m as no m om ento ainda faz troça
da corrente principal. Certam ente existirão historiadores, tanto
acadêm icos quanto populares, que planejarão escrever livros que
im plícita ou explicitamente neguem a possibilidade de um a recria­
ção histórica significativa d as vidas das m assas, m as seus m otivos
para agir assim serão cada vez m ais duvidosos. A história vista de
baixo ajuda a convencer aqueles de nós-nascidos sem colheres de
prata em n o ssas bocas, de que tem os um passado, de que viem os
de algum lugar. M as tam bém , com o passar do s anos, vai desem ­
penhar um im portante papel, ajudando a corrigir e a am pliar
aquela história política da corrente principal que é ainda o cânone
aceito nos estudos históricos britânicos.
HISTÓRIA DAS MULHERES
Joan Scott*
A história qu e se pode escrever d o s estudos sobre
as m ulheres pertence tam bém ao m ovim ento; não
é um a m etalinguagem , e irá atuar, tanto co m o um
m om ento conservador, qu anto co m o um m om ento
subversivo ... não h á um a interpretação
teoricam ente neutra da h istória d o s estud os sobre
as m ulheres. A história terá aí u m papel atuante.1
*
Jacques Derrida, 1984
A história das m ulheres apareceu com o um cam po definível
principalm ente nas duas últim as décadas. A pesar das enorm es
diferenças nos recursos para ela alocados, em sua representação e
em seu lugar n o currículo, n a posição a ela concedida pelas
universidades e pelas associações disciplinares, parece n ão haver
m ais dúvida de que a história das m ulheres é um a prática estabe­
lecida em m uitas partes do m undo. Em bora a situação d o s Estados
U n id o s seja única pelo fato de a história das m ulheres ter atingido
* Professora de C iências Sociais n o Instituto de E studos A van çados, em Princenton.
1. “ W o m en in the Beehive: A sem in ar with Jacqu es D errida” , transcrito d o sem inário
co m D errida p rom ovid o pelo C en tro Pem broke p ara o E n sin o e a P esquisa, em
Subjects/Objects, Prim avera de 1 984, p. 17.
64
PETER BURKE
um a presenea visível e influente na academia, há evidência clara em artigos e livros, n a auto-identificação dos historiadores que se
pode encontrar em conferências internacionais, e nas redes infor­
m ais que transm item as notícias do m undo intelectual - da
participação internacional no m ovim ento da história das m ulheres.
Utilizo o termo “ m ovim ento” , deliberadam ente, para distin­
guir o fenôm eno atual dos esforços anteriorm ente dissem in ados
por alguns indivíduos para escrever n o p assado sobre as m ulheres,
para sugerir algo da qualidade dinâm ica envolvida nos intercâm­
bios n o nível nacional e n os interdisciplinares pelos historiadores
das m ulheres, e ainda, para evocar as associações com a política.
A conexão entre a história das m ulheres e a política é ao m esm o
tem po óbvia e com plexa. Em um a das narrativas convencionais
das origens deste cam po, a política fem inista é o ponto de partida.
E sses relatos situam a origem do cam po na década de 60, q u an d o
as ativistas fem inistas reivindicavam um a história que estabelecesse
heroínas, prova da atuação das m ulheres, e tam bém explicações
sobre a opressão e inspiração para a ação. Foi dito que as fem inistas
acadêm icas responderam ao cham ado de “ su a” história e dirigiram
sua erudição para um a atividade política m ais am pla; no início,
houve um a conexão direta entre política e intelectualidade. M ais
tarde - em algum m om ento entre a metade e o final da década de
70 - continua o relato, a história das m ulheres afastou-se da
política. A m pliou seu cam po de questionam entos, docum entando
todos os aspectos d a vida das m ulheres n o passado , e d essa form a
adquiriu u m a energia própria. O acúm ulo de m onografias e artigos,
o surgim ento de controvérsias internas e o avanço de diálogos
interpretativos, e ainda, a em ergência de autoridades intelectuais
reconhecidas foram os indicadores familiares de u m novo cam po
de estudo, legitim ado em parte, ao que parecia, por sua grande
distância da luta política. Finalm ente (assim prossegue a trajetória),
o desvio para o gênero2 n a década de 80 foi um rom pim ento
definitivo com a política e propiciou a este cam po conseguir o seu
2. G ên ero aqui co m o divisão natural d o s sexos. (N .T .)
A ESCRITA DA HISTÓRIA
65
próprio espaço, pois gênero é um term o aparentem ente neutro,
desprovido de propósito ideológico imediato. A em ergência da
história das m ulheres com o um cam po de estudo envolve, nesta
interpretação, um a evolução d o fem inism o para as m ulheres e daí
para o gênero; ou seja, da política para a história especializada e
daí para a análise.
C ertam ente, esta narrativa tfem variações significativas, depen­
den do de quem a relata. Em algum as versões, a evolução é encarada
positivam ente com o um resgate da história, tanto de princípios
políticos de interesses estreitos, quanto de um enfoque dem asiado
exclusivo sobre as m ulheres ou de suposições filosoficamente
ingênuas. Em outras, a interpretação é negativa, a “ retirada" para
a academ ia (para não falar do desvio para o gênero e para a teoria)
sen do encarada com o um sinal de despolitização. “ O que ocorre
com o fem inism o q u an d o o m ovim ento d as m ulheres está m orto?”
perguntou recentemente Elaine Showalter. “Torna-se estudos so­
bre as m ulheres - apenas outra disciplina acadêm ica.” 3 Entretanto,
apesar das diferentes valências colocadas no relato, a trajetória em
si é com partilhada por m uitas fem inistas e seus críticos, com o se
fosse, incontestavelmente, o m od o com o as coisas aconteceram.
G ostaria de argum entar que a narrativa necessita de algum a
reflexão crítica, não apenas por não ser tão sim ples, m as tam bém
porque representa m al a história da história das m ulheres e seu
relacionam ento, tanto com a política, quanto com a disciplina da
história. A história deste cam po não requer som ente um a narrativa
linear, m as u m relato m ais com plexo, qu e leve em conta, ao m esm o
tem po, a posição variável das m ulheres n a história, o m ovim ento
fem inista e a disciplina d a história. Em bora a história das m ulheres
esteja certamente associada à em ergência do fem inism o, este não
desapareceu, seja com o um a presença n a academ ia ou n a sociedade
em geral, ain da que os term os de sua organização e de su a existência
tenham m udado. M uitos daqueles que u sam o term o gênero, na
3. C itad o em K aren W inlder, “W o m en ’s Studics A fter Tw o D ecades: D ebates over
Politics. N ew D irections for R esearch” , The Chromcle of Higher Educacion, 28 de
setem bro d e 1988, p. A 6.
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PETER BURKE
verdade se denQminam historiadores fem inistas. Isso não é som en­
te u m a su b m issão política, m as tam bém um a perspectiva teórica
que os leva a encarar o sexo com o um m odo m elhor de conceituar
a política. M uitos daqueles que escrevem a história das m ulheres
consideram -se envolvidos em um esforço altamente político, para
desafiar a autoridade dom inante na profissão e n a universidade e
para m udar o m od o com o a história é escrita. E grande parte da
atual história das m ulheres, m esm o qu ando opera com conceitos
de gênero, está voltada para as preocupações contem porâneas da
política fem inista (entre eles, nos Estados U n id o s atualmente, o
bem-estar, o cuidado dos filhos e o direito ao aborto). N a verdade,
h á um a razão im portante para se argum entar que os desenvolvi­
m entos na história das m ulheres estão fortemente relacionados “ à
força crescente e à legitimidade do fem inism o com o um m ovim en­
to político”4, com o tam bém para insistir que está aum entando a
distância entre o trabalho acadêm ico e o político. M as tomar-se a
história das m ulheres sim plesm ente com o um reflexo do cresci­
m ento da política fem inista externa à academia, tam bém é falho.
M ais do que postular um a sim ples correlação, precisam os pensar
sobre este cam po com o um estudo dinâm ico na política da
produção de conhecim ento.
A palavra política é u sada atualmente em vários sentidos.
Primeiro, em su a definição m ais típica, ela pode significar a
atividade dirigida p ara/o u em governos ou outras autoridades
poderosas, atividade essa que envolve um apelo à identidade
coletiva, à m obilização de recursos, à avaliação estratégica e à
m an ob ra tática. Segundo, a palavra política é tam bém utilizada para
se referir às relações de poder m ais gerais e às estratégias visadas
para mantê-las ou contestá-las.5 Terceiro, a palavra política é
4. N ancy F raser e L in d a N ich olson , “Social C riticism W ith ou t P hilosophy” , m anuscrito
inédito, 1 9 8 7 , p. 29.
5. "P olitics in the p rofou n d sense, as the en sem ble o f h u m an relations in their real,
social structure, in their ability to construct the w orld” , R olan d Barthes, Mythologies,
Paris, 1 9 5 7 , p . 2 3 0 . V e r tam bém M ichel Foucauk, The History ofSexuality, v. I, An
íntroduction, N o v a York, 1 980, p. 92-102.
A ESCRITA DA H ISTÓRIA
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aplicada ain da m ais am plam ente a práticas que reproduzem ou
desafiam o que é às vezes rotulado de “ ideologia” , aqueles sistem as
de convicção e prática que estabelecem as identidades individuais
e coletivas que form am as relações entre indivíduos e coletividades
e seu m undo, e que são encaradas com o naturais, norm ativas ou
auto-evidentes.6 E ssas definições ^correspondem a diferentes tipos
de ação e diferentes esferas de atividade, m as a m inha utilização da
palavra “ política” para caracterizar tu d o isso sugere qu e os limites
de definição e es paço são indistintos, e que, inevitavelmente,
qualqu er utilização tem m últiplas ressonâncias. A narrativa da
história das m ulheres que eu desejo fazer depende dessas m últiplas
ressonân cias; é sem pre um a narrativa política.
“Profissionalismo” versus “política”
O fem inism o tem sido, nas últim as décadas, u m m ovim ento
internacional, m as possu i características particulares, regionais e
nacionais. Parece-me útil focalizar os detalhes do caso que m elhor
eu conheço - o dos Estados U n id o s - para fazer algum as observa­
ções gerais.
N o s E stados U n id o s, O' fem inism o ressurgiu n os an os 60,
estim ulado em parte pelo m ovim ento dos D ireitos C ivis e pelas
políticas d o governo destinadas a estabelecer o potencial fem inino,
para ir ao encontro da expan são econôm ica através da sociedade,
incluindo as profissões e a academ ia. M oldou seu apelo e sua
autojustificativa n os term os da retórica prevalecente de igualdade.
N o processo, o fem inism o assum iu e criou um a identidade coletiva
de m ulheres, indivíduos do sexo fem inino com um interesse
com partilhado n o fim da subordinação, da invisibilidade e da
6. Gayatri C hakravorty Spivak, “T h e Politics o f Interpretation” , em W .J.T . M itchell,
The Politics of Interpretation, C hicago, 1 9 8 3 , p. 347-66; M ary Poovey, tUneven
Deve(of>ments: The Ideological W orkofGender in mid-Victorian England, C hicago, 1988.
V er tam bém “ ideologia" n o glossário de Louis A lth usser e E tienne B alib ar, Reading
C apital, trad. de B e n Brew ster, Lon dres, 1 9 79, p. 314.
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PETER BURKE
im potência, criando igualdade e gan h an do um controle sobre seus
corpos e sobre suas vidas.
Em 1961, por ordem de Esther Peterson, dirigente da D ivisão
de M ulheres do D epartam ento de Trabalho, o presidente Kennedy
estabeleceu um a C o m issão sobre a C on dição da M ulher. Seu
relatório em 1963 docum entou o fato de que eram negados às
m ulheres am ericanas iguais direitos e oportunidades, e recom en­
dou a criação de cinqüenta com issões estaduais. Em 1964, quando
a C o m issão para O portunidades Iguais de Em prego (Equal Employm ent O pportunity C o m m issio n - EEOC) foi estabelecida pelo
A to d o s D ireitos C ivis, a discrim inação sexual foi incluída em sua
jurisdição (acrescentada por um legislador hostil para desacreditar
o sétim o direito do Ato). Em 1966, delegados do terceiro encontro
da C onferência N acional das C o m issõ es Estaduais sobre a C o n d i­
ção da M ulher votaram um a resolução que pressionava a EEOC
para fazer valer a proibição contra a discrim inação sexual tão
seriam ente quanto ela o fez contra a discrim inação racial. A s
m ulheres que apresentaram a em enda derrotada encontraram-se
então para decidir sua próxim a ação e form aram a O rganização
N acional das M ulheres.7 M ais ou m enos na m esm a época, as
jovens do grupo Estudantes por u m a Sociedade D em ocrática e do
M ovim ento d o s Direitos C ivis com eçaram a articular seus agravos,
exigindo reconhecim ento de seu papel de m ulheres com o partici­
pantes ativos (e iguais) n os m ovim entos políticos para a m udança
social.8 N o reino d a política tradicional, as m ulheres tornaram-se
u m grupo identificável (pela prim eira vez desde o m ovim ento
sufragista n a virada do século).
D urante os an os 60, tam bém as faculdades, as escolas de
graduação e as fundações com eçaram a estim ular as m ulheres a
obterem PhD s, oferecendo bolsas de estudo e u m considerável
apoio financeiro. “ E claro” , com entou um autor, “ que as m ulheres
7 . J o Freem an, “W o m en on the M ove: R oots o f Revolt” , em Alice S. R o ssi e A n n
C ald erw ood (ed.), Academic Women on the Move, N ova York, 1 973, p. 1-37. V er
tam bém os en saios de A lice R ossi e Kay Klotzburger n o m esm o volum e.
8 . S a ra E van s, Personal Politics, N o v a Y ork, 1 979.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
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constituem u m a im portante força latente para as faculdades e as
universidades carentes de bon s professores e p esqu isadores.”9
E m bora autores tão diversos quanto diretores de faculdades e
acadêm icos fem inistas reconhecessem que tinha havido “precon­
ceitos contra as m ulheres nas «profissões intelectualizadas” , eles
tendiam a concordar que os obstáculos cairiam por terra, se as
m ulheres b u scassem um a form ação de nivel superior.10 É interes­
sante (à luz das discussões teóricas subseqüentes) que a atuação das
m ulheres foi aqui presum ida; com o opção espontânea, atores
racionais, as m ulheres eram cham adas para se inserirem em
profissões que previam ente as havia excluído ou subutilizado.
N o esp açaab e rto pelo recrutamento de m ulheres, o fem inism o
logo apareceu para reivindicar m ais recursos para as m ulheres e
para denunciar a persistência da desigualdade. A s fem inistas na
academ ia declaravam que os preconceitos contra as m ulheres não
haviam desaparecido, ainda que elas tivessem credenciais acadêm i­
cas ou profissionais, e se organizaram para exigir um a totalidade
de direitos, aos quais suas qualificações presum ivelm ente lhes
davam direito. N a s associações das disciplinas acadêm icas, as
m ulheres form avam facções para pression ar suas exigências. (Essas
incluíam m aior representação nas associações e n as reuniões de
intelectuais, atenção às diferenças salariais entre hom en s e m ulhe­
res e u m fim à discrim inação nos contratos, n os títulos e nas
prom oções.) A nova identidade coletiva das m ulheres n a academ ia
anunciava um a experiência com partilhada de discrim inação basea­
d a na diferenciação sexual e tam bém adm itia que as historiadoras,
com o u m grupo, tinham necessidades e interesses particulares que
n ão poderiam ser su bordin ados à categoria geral d o s historiadores.
Sugerindo que as historiadoras eram diferentes dos historiadores,
9 . C itação d e B arnaby Keeney, R eitora d a Brow n University, Pembroke Alumnae 27,
n. 4, p. 1, ou tu bro de 1 962.
'
10. Keeney, Ibid. p. 8-9; Je ssie B ernard, Academic Women, C levelan d, 1 966; Lucille
A d d iso n Pollard, Women on College and University Faculties: A Historical Survey and
a Study of the ir present Academic Status, N ova Yorjc, 1977. V er especialm ente a
p. 29 6 .
70
PETER BURKE
e que seu sexo influenciava suas oportunidades profissionais, as
fem inistas disputavam os term os universais e unitários qu e em
geral designavam os profissionais e lançavam a acusação de que
eles haviam “ politizado” previamente organizações não-políticas.
Em 1969, o recém-formado C om itê de C oorden ação de M u­
lheres na Profissão H istórica apresentou, no encontro profissional
da A ssociação H istórica A m ericana (AHA), resoluções dirigidas a
m elhorar a condição das m ulheres, o que ocorreu dentro de um a
atm osfera tensa e altamente carregada. N orm alm ente destinada a
d iscussões de leis secundárias e política organizacional - o papel
(não a política) da associação - esses encontros eram em geral um
m odelo de b oa cam aradagem e decoro. A s discordâncias, q u an d o
ocorriam , poderiam ser atribuídas às diferenças de opinião pessoal,
preferência ou m esm o de persuasão política, à prioridade institu­
cional ou regional, m as nenhum a delas era fundam ental, nenhum a
delas a plataform a de um “ interesse” identificável, em desacordo
com o todo. Por seu tom, sua prontidão para a luta e su a exigência
em representar um a entidade coletiva a quem sistem aticam ente
foram negados os seus direitos, as m ulheres rom peram as norm as
de conduta e desafiaram as im plicações de “ trabalho, com o-sem ­
pre” . N a verdade, acusaram que o trabalho, com o sem pre, era em
si um a form a de política, pois ignorava e assim perpetuava a
sistem ática exclusão (em term os de gênero e raça) de profissionais
qualificados. O ataque ao poder entrincheirado teve pelo m enos
dois resultados: obteve concessões da AH A so b a form a de um
com itê ad hoc para averiguar as questões levantadas (um comitê
que publicou um relatório em 1970 reconhecendo a condição
inferior das m ulheres e recom endando várias m edidas puniti­
vas, incluindo a criação de u m com itê perm anente sobre as
m ulheres) e resultou na crítica da conduta das m ulheres com o
não-profissional.
A oposição entre “ profission alism o” e “ política” não é um a
oposição natural, m as parte da autodefinição da profissão com o
u m a prática especializada, baseada n a po sse com partilhada de
extensivo conhecim ento adquirido através da educação. H á dois
A ESCRITA DA HISTÓRIA
71
aspectos distintos, m as em geral inseparáveis, da definição de um a
profissão. U m deles envolve a natureza d o conhecim ento produzi­
do, neste caso do que se considera com o história. O outro envolve
as funções de barreira que estabelecem e reforçam os padrões
m antidos pelos m em bros da profissão, neste caso os historiadores.
Para os historiadores profissioYiais d o século vinte, a história é o
conhecim ento do p assad o obtido por m eio de investigação desin ­
teressada e im parcial (o interesse e a parcialidade são a antítese do
profissionalism o) e universalm ente disponível para quem quer que
tenha d om in ado os procedim entos científicos requeridos.11 O
acesso repousa então neste dom ínio, cuja p o ssessão se supõe
evidente àqueles que já são profissionais e que por si só podem
julgar. O dom ín io não pode ser um a questão de estratégia ou de
poder, m as apenas de educação e treinam ento. A qualidade de
m em bro na profissão histórica confere responsabilidade aos indi­
víduos que se tornam os guardiães daquele conhecim ento que é o
seu cam po de ação especial. A guarda e o dom ínio são portanto a
base para a auton om ia e para o poder de determ inar o que conta
com o conhecim ento e quem o possui.
E além disso, é claro, as profissões e as organizações profissio­
nais são estruturadas hierarquicam ente: os estilos e padrões dom i­
n antes operam para incluir alguns e excluir outros da qualidade
de m em bros. O “ d o m ín io” e a “excelência” podem am bos explici­
tar julgam entos de capacidade e desculpas implícitas para tendên­
cias viciosas; n a verdade, os julgam entos de capacidade estão com
freqüência entrelaçados com avaliações de um a identidade social
d o indivíduo qu e são irrelevantes à com petência profission al.12
C o m o separar esses julgam entos, e realmente se eles podem ser
afinal separados, são questões não apenas de estratégia, m as de
11. Peter N ovick, T hat Noble Dream: The “Objectivity Q uestion" and the American
Historical Profession, N o v a York, 1988.
12. So b re a q u estão d o acesso, ver M ary G . Dietz, “ C on text is A li: F em in fsm and
T h eo ries o f C itizen sh ip” ; Jill K. Conw ay, “ Politics, Pedagogy, and G en d er”; e Jo a n
W . Scott, “ H istory and D ifferen ce", tod os em Daedalus, ou ton o de 1 9 8 7 , p. 1-24,
137-52, 93-118, respectivam ente.
.
72
PETER BURKE
ep iste m o lo g ia/A oposição entre “ política” e “ profission alism o”
conseguiu pouco a pouco obscurecer a questão epistem ológica.
N a AHA, as mulheres, os negros, os judeus, os católicos e os
“não-cavalheiros” foram sistematicamente sub-representados durante
anos.13 Esta situação era periodicam ente observada e protestada,
alguns historiadores com binaram esforços para rem ediar a discri­
m inação, m as os term os e o estilo de protesto eram diferentes
daqueles utilizados após 1969. N o s prim eiros tem pos, seja se
recusando a com parecer a um a convenção m arcada em um hotel
segregacionista, seja insistindo para que as m ulheres fossem incluí­
das nos encontros profissionais, os historiadores que participavam
do protesto alegavam que a discrim inação baseada em raça, reli­
gião, etnia ou sexo prejudicava o reconhecim ento de historiadores
qualificados. A ceitando o conceito do que a profissão deveria ser,
argum entavam que a política não tinh^ espaço ali; sua ação,
declaravam , estava direcionada à realização dos verdadeiros ideais
profissionais. E m contraste, a im plicação dos protestos de 1969 e
posteriores era que as profissões eram organizações políticas (nos
múltiplos significados da palavra “ política”), apesar do decoro de seus
membros, e apenas a ação coletiva poderia modificar as relações de
poder prevalecentes. Durante os anos 70, as mulheres da AHA (e de
outras associações profissionais) uniram suas lutas locais por
reconhecim ento e representação às cam panhas nacionais das m u­
lheres, especialm ente àquela para a Em enda dos D ireitos Iguais à
C onstituição (Equal Rights A m en dm en t - ERA), e insistiram em
que as associações profissionais com o um todo tom assem um a
posição n essas questões nacionais. Rejeitavam a sugestão de que a
ERA fosse irrelevante para as questões d a AHA, argum entando que
ciência n ão era neutralidade, m as cum plicidade com discrim ina­
ção. N o interior das organizações, noções sagradas com o “ excelên­
cia intelectual” e “ qualidade da m ente” foram investidas por tantas
capas de tratam ento discrim inatório, que deveriam ser substituídas
13. H ow ard K . Beale, “T h e P rofessional H istorian: H isT h e o ry a n d H is Practice” , Pacific
Historical Revieiv, 2 2, p. 2 3 5 , agosto d e 1953.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
73
po r m edidas quantitativas de ação afirmativa. O s padrões profis­
sionais de im parcialidade e desinteresse estavam sen do derrubados
por interesses particulares, ou assim parecia àqueles que m anti­
n ham a visão norm ativa.
N o entanto, outra m an eira de ver o problem a é tratar o
desafio d as m ulheres com o u m a questão de redefinição p rofissio­
nal, pois a presença de m ulheres organizadas contestava a noção
de que a p rofissão d a história fosse u m corpo unitário. In sistin do
em qu e havia u m a identidade de historiadoras em desacordo com
aqu ela dos hom en s (e sugerindo tam bém que a raça separava os
historiadores brancos d o s negros), as fem inistas questionavam se
algum dia poderia haver avaliações im parciais do saber, sugerin­
d o que elas n ão eram m ais que a atitude hegem ônica de u m ponto
de vista interessado. Elas não puseram de lado os padrões profis­
sionais; n a verdade, continuaram a defender a necessidade da
educação e de julgam entos de qualidade (instituindo, entre outras
coisas, con cursos para trabalhos de valor sobre a história das
m ulheres). E m bora certamente se po ssa citar evidência de tendenciosidade entre os historiadores das m ulheres, isso não caracteri­
zava o cam po com o um todo, nem era (ou é) algo peculiar às
fem inistas. E m esm o o tendencioso não defendia a distorção
deliberada dos fatos ou á su pressão da inform ação em prol da
“cau sa” . 14 A m aior parte do s historiadores das m ulheres não
14. Esta qu estão surgiu d e várias m aneiras diferentes, m ais recentem ente em conexão
com o caso d a Sears. N o decorrer de um processo de discrim inação de sexo, m ovido
contra a cadeia de lojas Sears R oebuck and C om pan y, d u as h istoriadoras das
m ulheres, R o salin d R osen b erg e Alice K essler-H arris, testem unharam em lados
op o sto s. O caso provocou u m a enorm e controvérsia entre o s h istoriadores a respeito
d as im plicações políticas d a história d as m ulheres e do s com prom etim entos políticos
d as h istoriad oras fem inistas. H ouve acusações de m á fé de am b os o s lad os, m as as
acusações m ais recentes (e bem m ais contundentes) de San ford L evinson e T h o m as
H askell em defesa de R osenberg, insistem em qu e Kessler-H arris distorceu delibera­
dam ente a h istória n o interesse da política, en q u an to R osenberg defendeu bravam en­
te a “verdade” . A op o sição entre “ política” e “verdade, ” ideologia" e “ história” com põe
a estrutura de seu en saio (e lhe proporcion a seu tom aparentem ente ■objetivo e
d esap aixon ad o), en q u an to lhes perm ite p assàr p o r cim a de todas as difíceis dificul­
d ad es epistem ológicas qu e o caso levantou (e isso eles apontam n a nota de rodapé
n. 136). V er “A cad em ic Freedom an d E xpert W ifn essin g: H istorian s an d the Sears
C a se ” , Texas Law Review, 6 6 :7 , p. 301-31, ou tu bro de 1988. So b re o caso da Sears,
74
PETER BURKE
rejeitava a questão do saber e do conhecim ento, que é a base
fundam ental de um a profissão. N a verdade, aceitavam as leis da
academ ia e buscavam reconhecim ento com o intelectuais. Em pre­
gavam as regras de linguagem, exatidão, evidência e investigação
que tornavam possível a com unicação entre os historiadores.15 E
no processo, buscavam e adquiriam posição com o profissionais no
cam po da história. A o m esm o tem po, no entanto, desafiavam e
subvertiam aquelas regras, question an do a constituição da discipli­
na e as condições de sua produção de conhecim ento.16 Su a
presença contestava a natureza e os efeitos de um corpo uniform e
e inviolável de padrões profissionais e de um a única figura (o
hom em branco) para representar o historiador.
D e fato, as historiadoras fem inistas in sistiram em que não
havia op osição entre “ p rofission alism o” e “ política” , introduzin­
do um con jun to de questões profundam ente perturbadoras sobre
as hierarquias, as bases e as hipóteses qu e governavam o em ­
preendim ento histórico: Q u e padrões, qu e definições de “ profis­
sio n a lism o ” estão em voga? Q u e con sen so representam ? C o m o
se chegou ao consen so? Q u e outros pontos de vista foram
excluídos o u suprim idos? Q u e perspectiva determ ina o que se
con sidera com o sen do um a b oa história ou, para aquela questão,
com o história?
C a se ” , Texas Law Review, 6 6 :7 , p. 301-31, outubro de 1988. So b re o caso d a Sears,
vet tam b ém R uth M ilk m an , “ W o m en ’ s H istory an d the Se ars C a se ” , Feminist Studies,
12, p. 3 7 5-400, verão de 1986; e Jo an W . Scott, “T h e Sears C a se ” , em Scott, Gender
and the Politics of History, N ova York, 1 988, p. 167-77.
15. Ellen Som ekaw a e Elizabeth A . Sm ith , “T heorizing the W riting o f H istory or ‘ I can ’t
think why it sh ou ld be so dull, for a great deal o f it m u st be invention’” , Journal of
Social History, 2 2 :1 , p. 149-61, ou ton o de 1988.
16. S o b re o potencial d a história d as m ulheres para transform ar a história, ver A n n
G o rd o n , M ari Jo B u h le e N ancy Sch rom Dye, “T h e Problem o fW o m e n ’s H istory” ,
em Berenice C arro ll (ed.), Liberating Women’s History, U rb an a, 1976; N atalie Zem on
D avis, “W o m en ’s H istory in T ran sition : T h e E u ropean C a se ", Feminist Studies, 3,
p. 83-103, 1 9 7 6 ; Jo a n Kelly, Women, History, and Theory, C hicago: University o f
C h icago Press, 1 9 8 4 ; C arl D egler, “W h at the W o m en ’s M ovem en t h as d o n e to
A m erican H istory” , Soundings, 6 4, p. 4 1 9 , inverno de 1981.
75
A ESCRITA DA HISTÓRIA
“História” versus “ideologia”
A em ergência da história das m ulheres com o um cam po-de
estudo acom panh ou as cam pan has fem inistas para a m elhoria das
condições profissionais e envolveu a expansão dos limites da
história. M as esta não foi um a operação direta ou linear, não foi
sim plesm ente um a questão de adicionar algo que estava anterior­
mente faltando. Em vez disso, há um a incôm oda am bigüidade
inerente ao projeto da história das m ulheres, pois ela é ao m esm o
tem po um suplem ento inócuo à história estabelecida e um deslo­
cam ento radical dessa história.
Este gum e duplo é visível em m uitas declarações feitas pelos
proponentes do novo cam po no início dos anos 70, m as foi mais
bem expresso por V irginia W o o lf em 1929. Em A Room of O n es
O um, W o o lf abordou a questão da história das m ulheres, com o
m uitos de seus contem porâneos fizeram no período que se seguiu
à concessão d o direito de voto às m ulheres n a Inglaterra e nos
Estados U n id o s.17 Ela divaga sobre as inadequações da história
existente, um a história que necessita ser reescrita, diz ela, porque
“ freqüentem ente parece u m pouco estranho, com o se fosse irreal,
desequ ilibrado” , ou seja, Carente, insuficiente, incom pleto. A p a­
rentem ente se afastando da reescrita d a história, ela apresenta com o
tentativa o que parece ser outra solução: “ Por q u e ... não acrescentar
um suplem ento à história? cham ando-o, é claro, por algum nom e
discreto, de form a que as m ulheres pudessem ali aparecer sem
im propriedade?” A invocação de W o o lf de um suplem ento parece
apresentar um com prom isso, m as n ão o é. O delicado sarcasm o
de seus com entários sobre um “ nom e discreto” e a necessidade de
propriedade sugere um projeto com plicado (ela o cham a de “ am ­
bicioso, além da m in ha coragem ”), que, m esm o q u an d o ela tenta
circunscrever as dificuldades, evoca im plicações contraditórias.18
*
1 7. Entre essas estavam Ivy Pinchbeck, Women Workers and the Industrial Revolution
1750-1 8 5 0 , Lon dres, 1 9 3 0 e M ary Beard, O n Understanding Women, N ova York,
1931 e America Through Women's Eyes, N o v a York, 1934.
1 8. V irgin ia W oolf, A Room o fO n e's O um, N o v a Y ork, 1929, p. 47.
PETER BURKE
A s mulhereg estão ao m esm o tem po adicionadas à história e
provocam sua reescrita; elas proporcionam algo extra e são neces­
sárias à com plem entação, são supérfluas e indispensáveis.
O u so que W o o lf faz do termo suplem ento recorda a análise
de Jacques D errida, o que me auxilia a analisar o relacionam ento
da história das m ulheres com a história. N o projeto de desconstrução da m etafísica ocidental, D errida apontou certos “ indicado­
res” que resistem e desorganizam as oposições binárias, “ sem
chegarem a constituir um terceiro term o” ou um a resolução
dialética. São dilacerados devido a sua indefinição; im plicam ,
sim ultaneam ente, significados contraditórios, que são im possíveis
até de serem classificados separadam ente. O suplem ento é um a
d essas “ indefinições” . N a França, com o na Inglaterra, ele significa
tanto um a adição, quanto u m a substituição. E algo adicionado,
extra, supérfluo, acim a e além d o qu e já está inteiram ente presente;
é tam bém um a substituição para o que está ausente, incom pleto,
carente, por isso requerendo com plem entação ou integralidade.
“ O suplem ento não é algo a m ais ou a m enos, nem algo externo
ou o com plem ento a algo interno, nem tam bém um acidente ou
u m a essência.” 19 Ele é (nas palavras de B arbara Jo h n so n ) “ supér­
fluo e necessário, perigoso e redentor” . “T an to com o significante
quanto com o significado, n ão é possível precisar a distinção entre
excesso e falta, com pensação e corrupção.”20
Eu gostaria de dizer que, pen san do em term os da lógica
contraditória do suplem ento, podem os analisar a am bigüidade da
história das m ulheres e sua força política potencialm ente crítica,
um a força que desafia e desestabiliza as prem issas disciplinares
estabelecidas, m as sem oferecer u m a síntese ou um a resolução fácil.
O desconforto subjacente a tal desestabilização conduziu não
apenas à resistência por parte d o s historiadores “ tradicionais” , m as
19. Jacqu es D errida, Posicions, trad. de A lan B ass, C hicago, 1 9 8 1 , p . 4 3. V e t tam bém
D errida, O f Grammatology, trad. de Gayatri Chakravorty Spivak, Baltim ore, 1 9 74, p.
141-64.
20. B arbara Jo h n so n , introdução a sua tradução de Disseminations, de D errida, C hicago ,
1 9 8 1 , p. xiií.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
77
tam bém a u m desejo de resolução, por parte dos historiadores das
m ulheres. Entretanto, não há resolução sim ples, m as apenas a
possibilidade de constante atenção aos contextos e significados no
interior dos quais são form uladas as estratégias políticas subversi­
vas. É dentro desse tipo de estrut-ura analítica, que podem os m elhor
com preender os contextos sobre poder e conhecim ento que carac­
terizam a em ergência deste cam po.
A m aior parte d a história das m ulheres tem buscado de algum a
form a incluir as m ulheres com o objetos de estudo, sujeitos da
história. T em tom ado com o axiom átíca a idéia de que o ser
h u m an o universal poderia incluir as mulheres e proporcionar
evidência e interpretações sobre as várias ações e experiências das
m ulheres no passado. Entretanto, desde que na m oderna historio­
grafia ocidental, o sujeito tem sido incorporado com m uito m ais
freqüência com o um hom em branco, a história das m ulheres
inevitavelmente se confronta com o “ dilem a da diferença” (assim
den om in ado pela jurista teórica am ericana M artha M inow ).21 Este
dilem a se apresenta, porque a diferença é construída “ através da
verdadeira estrutura d a n o ssa linguagem , que em bute ... pontos de
com paração não estabelecidos no interior de categorias que ocul­
tam sua perspectiva e im plicam erroneam ente um ajustam ento
natural com o m u n d o” .22 O “ universal" im plica um a com paração
com o específico ou o particular, h om en s brancos com outros que
não são brancos ou não são hom ens, h om en s com m ulheres. M as
essas com parações são m ais freqüentem ente estabelecidas e com ­
preendidas com o categorias naturais, entidades separadas, do que
com o term os relacionais. Por isso, reivindicar a im portância das
m ulheres na história significa necessariam ente ir contra as defi­
nições de história e seus agentes já estabelecidos com o “verda­
d eiro s", ou pelo m enos, com o reflexões acuradas sobre o que
aconteceu (ou teve im portância) no passado . E isso é lutar contra
2 1 . M arth a M in ow , “ T h e Su prem e C o u rt 1 9 8 6 T e rm : Forew ord: ju stice E ngendered” ,
H arvard Law Review 101, n. 1, p. 9-95, novem bro dç 1987.
2 2. Ib id ., p. 13.
78
PETER BURKE
padrões con solidados por com parações nunca estabelecidas, por
pontos de vistá jam ais expressos com o tais.23
A história das m ulheres, sugerindo que ela faz um a m odificação
da “ história” , investiga o m odo com o o significado daquele termo
geral foi estabelecido. Q uestiona a prioridade relativa dada à
“ história d o hom em ” , em oposição à “ história da m ulher” , expon­
do a hierarquia implícita em m uitos relatos históricos. Ê, m ais
fundam entalm ente, desafia tanto a com petência de qualquer rei­
vindicação da história de fazer um relato com pleto quanto à
perfeição e à presença intrínseca do objeto da história - o H om em
universal. E m bora todos os historiadores das m ulheres não apre­
sentem diretam ente estas questões, seu trabalho implica-as: A tra­
vés de que p rocessos as ações d o s h om en s vieram a ser con side­
radas um a n orm a, representativa da história h u m an a em geral, e
as ações das m ulheres foram subestim adas, su b ordin adas ou
con sign adas a um a arena particularizada, m en os im portante?
Q ue com parações não estabelecidas estão im plícitas em term os
com o “ h istória” e “ o h istoriador” ? Q ue perspectiva estabelece os
hom en s com o atores históricos prim ários? Q ual é o efeito sobre
as práticas estabelecidas da história de se olhar os acontecim entos
e as ações pelo lado de outros sujeitos, as m ulheres, p o r exem plo?
Q ual o relacionam ento entre o historiador e os sujeitos sobre os
q u ais ele/ela escreve?
M ichel de Certeau vê o problem a da seguinte forma:
O fato de a particularidade do lugar onde o discurso é produzido ser
relevante ficará naturalmente mais evidente quando o discurso historiográfico tratar das questões que focalizam o sujeito-produtor da história: a
história das mulheres, dos negros, dos judeus, das minorias culturais etc.
Nesses campos, pode-se, é claro, sustentar que a condição pessoal do autor
é indiferente (em relação à objetividade do trabalho dele ou dela) ou que
somente ele ou ela autoriza ou invalida o discurso (se ele ou ela ‘faz parte’
ou não dele). Mas esta discussão requer o que tem sido dissimulado por
23. So b re a qu estão d as representações d a história, ver Gayatri C hakravorty Spivak, “ C an
the Su b altern Sp eak ?", em C ary N elso n e Lawrence G ro ssb erg, M arxism and the
Interpretation of Culture, U rb an a, 1 988, p. 271-313.
79
A ESCRITA DA HISTÓRIA
uma epistemologia, a saber, o impacto das relações sujeito-a-sujeito (mulhe­
res e homens, negros e brancos etc.), sobre a utilização de técnicas
aparentemente ‘neutras’ e na organização de discursos que são, talvez,
igualmente científicos. Por exemplo, partindo-se do fato da diferenciação
dos sexos, deve-se concluir que uma mulher produz uma historiografia
diferente daquela do homem? E claro que eu não respondo a essa questão,
mas afirmo que essa pergunta coloca em questão o lugar do sujeito e requer
um tratamento diferente da epistemologia que construiu a ‘verdade’ do
trabalho, baseando-se na irrelevância do narrador.24
O que D e Certeau aí enfatiza não é que apenas as mulheres
possam escrever a história das mulheres, m as que a história das
mulheres traz à luz as questões de dom ínio e de objetividade sobre
as quais as norm as disciplinares são edificadas. A solicitação supos­
tamente m odésta de que a história seja suplem entada com informa­
ção sobre as mulheres sugere, não apenas que a história com o está
é incompleta, m as também que o dom ínio que os historiadores têm
do passado é necessariamente parcial. E, o que é m ais perturbador,
abre à sondagem da crítica a verdadeira natureza da história com o
um a epistemologia centralizada no sujeito.25
N a m aioria das vezes, a discussão dessas questões filosóficas
desconcertantes tem sido deslocada para outro tipo de terreno. O s
cham ados historiadores “tradicionais” defenderam seu poder com o
guardiães da disciplina (e por implicação, seu dom ínio da história),
invocando um a oposição entre “história” (que o conhecimento
obteve através da inquisição neutra) e “ ideologia” (conhecimento
distorcido por considerações de interesse). Por sua própria natureza,
a “ ideologia” é descrita com o contaminadora, e, por isso, desqualifica
o trabalho intelectual. O rótulo “ ideológico” proporciona às opi­
niões dissidentes u m a idéia de inaceitabilidade e dá às opiniões
predom inantes um a condição de lei indiscutível ou “verdade” .26
2 4 . M ichel de C erteau, “ H istory: Science and Fiction” , em Hecerologies: Discourse on the
Other, M in n eap olis, 1 9 8 6, p. 217-18.
25. M ary H aw kesw orth, “ Know er, Know ing, K n ow n ...” , Signs, prim avera de 1989,
p. 533-557.
.
2 6 . “ O su cesso ideológico é alcançado, q u an d o apen as as opin iões d issid en tes são
co n sid erad as co m o ideologias; a opinião predom inante é a verdade.” M arth a M inow ,
“Justice E n gen d ered ” , H arvard Law Review, 101, p. 6 7, novem bro de 1987.
80
PETER BURKE
N orm an H am pso n jam ais admitiria que sua caracterização
pejorativa de tim livro sobre as m ulheres, com o “ história uterina” ,
im plicasse para ele um contraste com a história fálica; em sua
opinião, o contraste era com a história “real” . E o ataque gratuito
de Richard C o b b a Sim on e de Beauvoir, em u m a crítica do m esm o
livro, sugeria que as fem inistas não podiam ser boas historiadoras.
O s dez m an dam en tos de Lawrence Stone para a história das
m ulheres foram m uito m ais adiante d a aceitação d o cam po com o
um todo, m as enfatizavam os perigos da “evidência distorcida” para
“ apoiar a ideologia fem inista m oderna” , com o se o significado da
evidência fosse inequívoco e de form a algum a apresentasse proble­
m as quanto à posição, ponto de vista e interpretações dos historia­
dores. C o m um a rejeição sim ilar a essas questões, Robert Finley
acusou N atalie D avis de desprezar a “soberania das fontes” e
transgredir “ o tribunal dos docum en tos” com o propósito de
prom over um a leitura fem inista da vida de M artin G uerre.27
D ificilm ente pode-se dizer que as tentativas das fem inistas, para
expor as “ tendências m achistas” ou a “ ideologia m asculinista”
incorporadas n a escrita da história, tenham com freqüência sido
ridicularizadas ou rejeitadas com o expressões de “ ideologia” .28
Relações de poder desiguais no interior da disciplina tornam
as acusações de “ ideologia” perigosas para aqueles que buscam
posição profissional e legitim idade disciplinar. Isso (e as regras de
form ação disciplinar) inicialm ente desencorajou m uitos historiado-
27. N o rm an H a m p so n , “ T h e B ig Store” , London Review o f Books, p . 18, 21 d e janeiro 3 d e fevereiro d e 1982; Richard C o b b , “T h e D iscreet C h arm o f the B ou rgeoisie” ,
New York Review of Books, p. 5 9, 17 d e dezem bro de 1 981; Law rence Ston e, “O nly
W o m e n ” , New York Review of Books, p. 21-7, 11 de abril de 1 9 8 5 ; R obert Finlay,
“ T h e R efash ion in g o f M artin G u erre” , e N atalie Zem on D avis, ‘“ O n the L am e’” ,
am b o s em American Historical Review 93 :3 , p. 553-71 e 572-603, respectivam ente,
ju n h o d e 1 9 8 8 .
28. “ A intratabilidade d o liberalism o ocidental para fazer justiça às lutas basead as em
gênero e raça ... m o stra algo q u e as fem inistas têm de conhecer bem : a resistência
d o indivíduo liberal - do H om em - às intim ações de deficiência, especialm ente
q u a n d o essa s intim ações são em si m esm as expressas por m eio d o gênero.” Elizabeth
W eed, In trodu ção a Corning to Terms: Feminism, Theory, Politics, N o v a York, 1988,
p. 6 (d a transcrição datilografada).
A ESCRITA DA HISTÓRIA
81
ics das m ulheres de confrontar as implicações epistem ológicas
m ais radicais de seu trabalho; em vez disso, enfatizaram as m ulhe­
res com o um sujeito histórico adicional, e não seu desafio aos
pressupostos m etodológicos d a disciplina. (N aquele m om ento,
buscávam os aparecer com o cidadãs respeitadoras da lei, não com o
agentes de subversão.) A o defender novos cursos sobre as m ulhe­
res, diante de um com itê curricular universitário em 1975, argu­
mentei com o exem plo que a história das m ulheres era u m a área
recente de pesquisa, assim com o os estudos da região ou as relações
internacionais.29 E m parte, esse foi um artifício tático (um a jogada
política) que tentava, em um contexto específico, separar os estudos
das m ulheres daqueles intim am ente associados ao m ovim ento
fem inista. Em parte, resultou da crença de que o acúm ulo de
bastante inform ação sobre as m ulheres no passado, inevitavelmen­
te atingiria su a integração n a história-padrão. Este últim o motivo
foi estim ulado pela em ergência da história social, com seu foco nas
identidades coletivas de um a am pla variedade de grupos sociais.
A existência do cam po relativamente novo da história social
proporcion ou um im portante veículo para a história das m ulheres;
a associação de um novo tópico com um novo conjunto de
abordagens enfatizou a reivindicação da im portância, ou pelo
m enos, a legitim idade d o estudo das mulheres. A pelan d o para
algum as pré-concepções disciplinares sobre a análise científica
desinteressada, ele, não obstante, pluralizou os objetos da investi­
gação histórica, adm itindo a grupos sociais com o cam poneses,
operários, professores e escravos um a condição de sujeitos históri­
cos. N esse contexto, os historiadores das m ulheres poderiam
apontar para a realidade da experiência vivida pelas m ulheres e
presum ir seu interesse inerente e sua im portância. C olocaram as
m ulheres em organizações políticas e em locais de trabalho, e
introduziram novas arenas e instituições - famílias e cuidados com
2 9 . T e stem u n h o de Jo an Scott para a U n iversidade d a C aro lin a do N orte - C om itê de
C u rrícu lo de C h ap ei H ill, m aio de 1 975, citado em Pam ela D ean , Women on the
Hill: A History of Women at the University of North Carolina, C h ap ei H ill, 1987,
p. 23.
•
82
PETER BURKE
a casa - com o dignos de estudo. Parte da história das m ulheres
buscava dem onstrar a sim ilaridade da atuação das m ulheres e dos
hom ens, e parte enfatizava a diferença das m ulheres; am bas as
abordagens consideravam as “ m ulheres” com o um a categoria
social fixa, um a entidade separada, um fenôm eno conhecido eram pessoas biologicam ente fem ininas que se m oviam dentro e
fora de contextos e papéis diferentes, cuja experiência m udava, m as
cuja essência - com o m ulher - não se alterava.30 A ssim , os
historiadores sociais (eu, dentre eles) docum entaram os efeitos da
industrialização sobre as m ulheres, um grupo cuja identidade
com um nós pressupom os. (Q uestionávam os m en os freqüente­
mente naquela época sobre a variabilidade histórica do próprio
term o “m ulheres” , com o ele se alterou, com o no decorrer da
industrialização, por exemplo, a designação de m ulheres “ trabalha­
d o ras” com o um a categoria separada de “ trabalhadores” criou
novas percepções sociais do que significava ser um a m ulher.)31
O utros voltaram-se para a cultura das m ulheres com o o produto
tangível da experiência social e histórica das m ulheres e, eles
30. N ão qu ero dizer que se deva su bestim ar a variedade de abordagen s à história das
m ulheres e as diferentes posições interpretativas e teóricas assu m id as. D entro da
história d as m ulheres h av ia/h á m uita divergência entre as m arxistas-fem inistas,
fem inistas liberais, aquelas que u sam o s enfoques de várias escolas psicanalistas etc.
M eu objetivo aqu i n ão é criticar a variedade, m as indicar alguns d o s cam pos com u n s
entre todas elas - a preocupação com a m ulher co m o um sujeito, com a identidade
d as m ulheres - assim com o o relacionam ento d o cam po, co m o um todo, com a
d iscip lin a d a história. Já critiquei em outro m om ento a diversidade. V er Jo an W .
Scott, “W o m e n ’s H istory: T h e M o d e m Period” , Past and Present, 1 0 1 , p. 141-57,
1 9 8 3 ; e “ G en d er: A U sefu l C ategory o f H istorical A n alysis” , American Historical
Review 9 1 :5 , p. 1053-75, dezem bro de 1986.
3 1. Para as h istórias d o trabalho das m ulheres, ver Louise A . T illy e Jo an W . Scott,
Women, Work and Family (N ova Y ork, 1 978; 1987); Alice K essler-H arris, O ut to
Work: A History o f Wage-Earning Women in the United States, N o v a York, 1982;
T h o m a s D u b lin , Women at Work: The Transformation of Work and Communiry in
Lowell, M assachusetts, 1826-60, N o v a York, 1979; Sally A lexander, “W o m e n s W ork
in N ineteenth-Century L on do n : A Study o f the Years 1829-50” , em Juliet M itchell
e A n n O akley (eds.), The Rights and Wrongs of Women (Londres, 1976); Patricia A .
C oop er, Once a C igar Malcer: Men, Women and Work Culture in American C igar
Factories 1 9 0 0 1 9 1 9 , U rb an a, 1987.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
83
tam bém , tenderam a supor que as “ m ulheres” eram um a categoria
hom ogênea.32 C o m o resultado, a categoria “ m ulheres” assum iu
um a existência com o entidade social separada de seu relacionam en­
to conceituai historicam ente situado com a categoria “ h o m en s” .33
A história das m ulheres passoti m en os tem po docum entando a
vitimização das m ulheres e m ais tem po afirm ando a distinção da
“cultura das m ulheres” , criando a°ssim um a tradição histórica a que
as fem inistas poderiam apelar, com o exem plos de atividade das
m ulheres, para provar su a capacidade de fazer história.34
A docum entação da realidade histórica das m ulheres ecoou e
contribuiu para o discurso da identidade coletiva que tornou
possível o m ovim ento das m ulheres n os anos 70. E sse discurso
produziu um a experiência fem inina com partilhada que, em bora
levasse em conta as diferenças sociais, enfatizava o den om inador
com um da sexualidade e as necessidades e interesses a ela vincu­
lados. O aum ento da consciência acarretou a descoberta da “ver­
dadeira” identidade das m ulheres, a qu eda das viseiras, a obtenção
de autonom ia, de individualidade e, por isso, de em ancipação. O
m ovim ento das m ulheres pressupôs a existência das m ulheres
a m o um a categoria social separada, definível, cujos m em bros
necessitam apenas ser m obilizados (ao invés de se ver um a coleção
de pessoas biologicam ente sim ilares, cuja identidade estava em
processo de ser criada pelo movim ento). A história das m ulheres
i onfirm ou assim a realidade da categoria “ m ulheres” , sua existêni ia anterior ao m ovim ento contem porâneo, suas necessidades
12. L in d a Kerber, “ Separate Spheres, Fem ale W orld s, W o m an ’s Place: T h e Rhetoric o f
W o m en ’s H istory” , Journal of American History, 7 5 :1 , p. 9-39, ju n h o de 1988.
15. Isto não significa q u e o s h istoriadores d as m ulheres não escrevessem sobre as
m ulheres em relação aos h om en s - com o esp o sas, m ães, filhas, em pregadas,
pacientes etc. Significa que eles tendiam a pôr d e lado a questão principal - qu e as
“ m ulh eres” n ão p ossu em u m a definição intrínseca, m as apen as u m a definição
contextual (que é sem p re contestada em su a idealização e atualização) e q u e n ão pode
ser elaborada, exceto por m eio do contraste, em geral com os “ h o m en s” . So b re isso,
ver D en ise Riley, “Am 1 that name?”, Feminism and the Category o f “women" in History,
Lon dres e M in n eapolis, 1988.
t'1 V er, p o r exem plo, o sim p ó sio sob re “W o m en ’s G ulture” e política em Feminist
Studies, 6, p. 2 6 - 6 4 ,1 9 8 0 .
84
PETER BURKE
inerentes, setis interesses e suas características, dando-lhe um a
história.
A em ergência da história das m ulheres ficou então entrelaçada
com a em ergência da categoria das “ m ulheres” com o um a identi­
dade política, e esta foi acom panhada por um a análise que atribuía
a opressão das m ulheres e su a falta de visibilidade histórica à
tendenciosidade m asculina. C o m o as “ m ulheres” , os “ h o m en s”
julgaram -se um grupo de interesse hom ogêneo cuja resistência às
exigências de igualdade foi atribuída a um desejo intencional de
proteger o poder e os recursos que sua dom inância lhes propor­
cionava. A atenção à diversidade, à classe, à raça e à cultura
produziu variações sobre o tema do patriarcado, m as, não obstante,
fixou a op osição h om em /m u lh er. M enos atenção foi dada às bases
conceituais de “ patriarcado” , às m aneiras com o a diferença sexual
foi transform ada em conhecim ento cultural, do que aos efeitos dos
sistem as da dom inância m asculina sobre as m ulheres, e à resistên­
cia das m ulheres a eles. O antagonism o hom em versus m ulher foi
um foco central da política e d a história, e isso teve vários efeitos:
tornou possível um a m obilização política im portante e dissem in a­
da, ao m esm o tem po que implicitamente afirmava a natureza
essencial da oposição binária m acho versus fêmea. A am bigüidade
da história das m ulheres parecia estar resolvida por essa oposição
direta entre dois grupos de interesse separadam ente constituídos e
conflitantes.
Paradoxalmente, em bora esse tipo de conflito fosse um anátema
àqueles que concebiam as profissões com o com unidades unificadas,
ele foi aceitável com o um a caracterização da história. (Isso ocorreu
em parte porque o próprio cam po em si estava se modificando, seus
focos se deslocando, suas ortodoxias reinantes desafiadas e substituí­
das.) N a verdade, poderia ser dito que a história das mulheres atingiu
um a certa legitimidade com o u m em preendimento histórico, quan­
do afirmou a natureza e a experiência separadas das mulheres, e
assim consolidou a identidade coletiva das mulheres. Isso teve o
duplo efeito de assegurar um local para a história das mulheres na
disciplina e afirm ando sua diferença da “história” . A história das
A ESCRITA DA HISTÓRIA
85
mulheres foi tolerada (em parte porque a pressão de historiadoras
0 estudantes fem inistas tornou-a digna de ser tolerada) p o r plura­
listas liberais que estavam desejando obter credenciais para ò
interesse histórico de m uitos tópicos; m as perm aneceu fora das
preocupações dom inantes da disciplina, seu desafio subversivo
aparentem ente contido em um a esfera separada.
“Política” versus “teoria”
A aparente restrição e segregação da história das m ulheres
1am ais foi com pleta, m as no final dos an os 70 com eçou a ser
obviam ente m in ada por várias tensões, algum as delas no interior
da disciplina, outras no m ovim ento político. E ssas com binaram
para desafiar a viabilidade da categoria das “ m ulheres” e introdu­
ziram a “ diferença” com o um problem a a ser analisado. O foco na
diferença tornou explícita parte da am bigüidade que sem pre esteve
im plícita na história das m ulheres, apontan do para os significados
inerentem ente relacionados das categorias de gênero. T rou xe à luz
questões sobre os elos entre o poder e o conhecim ento e dem on s­
trou as interconexões entre a'teoria e a política.
O objetivo d o s historiadores das m ulheres, m esm o q u ando
estabeleceram a identidade separada das mulheres, era integrar as
m ulheres à história. E o im pulso para a integração prosseguiu com
verbas do governo e fundações privadas n os an os 70 e início dos
80. (E ssas agências estavam não apenas interessadas n a história,
m as tam bém n a luz que os estudos históricos poderiam lançar
sobre a política contem porânea a respeito das m ulheres.) A inte­
gração presum ia não somente que as mulheres poderiam ser acom o­
dadas nas histórias estabelecidas, m as que sua presença era requerida
para corrigir a história. A qui estavam em ação as implicações
contraditórias d a condição suplementar da história das mulheres. A
história das mulheres - com suas compilações de dados sobre as
mulheres no passado, com sua insistência em que as periodiza­
ções aceitas não funcionavam, quando as rfiulheres eram levadas
PETER BURKE
86
em conta, com £ua evidência de que as mulheres influenciavam os
acontecimentos e tomavam parte na vida pública, com sua insistência
de que a vida privada tinha um a dim ensão pública, política implicava um a insuficiência fundamental: o sujeito da história não
era um a figura universal, e os historiadores, que escreviam com o se
ele o fosse, não podiam m ais reivindicar estar contando toda a
história. O projeto de integração tom ou essas implicações explícitas.
T om ad a com grande en tusiasm o e otim ism o, a integração se
com provou difícil de ser atingida. Parecia m ais um a resistência dos
historiadores do que um a sim ples tendência ou preconceito,
em bora isso certamente fizesse parte do problem a.35 Sem dúvida,
os próprios historiadores das m ulheres acharam difícil inscrever as
m ulheres n a história e a tarefa de reescrever a história exigia
reconceituações que eles não estavam inicialmente preparados ou
treinados para realizar. Era necessário um m od o de pen sar sobre
a diferença e com o sua construção definiria as relações entre os
indivíduos e os grupos sociais.
“G ên ero” foi o termo usado para teorizar a questão da diferença
sexual. N o s Estados U n id o s, o termo é extraído tanto da gramática,
com suas im plicações sobre as convenções ou regras (feitas pelo
hom em ) do u so da lingüística, quanto dos estudos de sociologia
dos papéis sociais designados às m ulheres e aos hom ens. Em bora
os u sos sociológicos de “gênero” po ssam incorporar tônicas funcionalistas ou essencialistas, as fem inistas escolheram enfatizar as
conotações sociais de gênero em contraste com as conotações físicas
de sexo.36 T am bém enfatizaram o aspecto relacionado do gênero:
3 5 . S u sa n H ardy A ik e n e ta l., “T ry in gT ran sform ation s: C urricu lum Integration and the
Problem o f R esistan ce” , Signs, 12:2, p. 255-75, inverno de 1 987. V er tam bém sobre
a m esm a qu estão M argaret L. A n d erso n , “ C h an gin g the C urricu lu m in H igher
E d ucation ” , p. 222-54.
3 6 . V er G ail R u b in , “T h e Traffic in W om en : N otes on the Political Econom y o f S e x ” ,
em R ayna R. Reiter (ed.), Tou/ards an Anthropology ofW om en, N ova York, 1975. V er
tam bém Jo a n W . Scott, “ G en der: A U sefu l Category o f H istorical A n alysis” ,
American Historical Revieiv 9 1 :5, dezem bro de 1 986; e D o n n a Haraway, “ Geschlecty,
G en d er, G en re: Sexualpolitik eines W ortes” , em Vieíe O ne überall? Feminismus in
Bewegung (Festschrift: für Frigga H aug), ed. K ornelia H auser, Berlim , 1 9 87, p. 2 2 4 1 .
A ESCRITA DA HISTÓRIA
87
não se pode conceber m ulheres, exceto se elas forem definidas em
iclação aos hom ens, nem hom ens, exceto qu ando eles forem
diferenciados das m ulheres. A lém disso, um a vez que o gênero foi
. lefinido com o relativo aos contextos social e cultural, foi possível
pensar em term os de diferentes sistem as de gênero e nas relações
daqueles com outras categorias com o raça, classe ou etnia, assim
com o em levar em conta a m udança.
A categoria de gênero, u sada prim eiro para analisar as diferen­
ças entre os sexos, foi estendida à questão das diferenças dentro
da diferença. A política de identidade dos an os 80 trouxe à tona
alegações m últiplas que desafiaram o significado unitário da cate­
goria das “ m ulheres” . N a verdade, o termo “ m ulheres” dificilmente
poderia ser usadb sem m odificação: m ulheres de cor, mulheres
judias, m ulheres lésbicas, m ulheres trabalhadoras pobres, mães
solteiras, foram apenas algum as das categorias introduzidas. Todas
desafiavam a hegem onia heterossexual da classe m édia branca do
term o “ m ulheres” , argum entando que as diferenças fundamentais
da experiência tornaram im possível reivindicar um a identidade
isolada.37 A fragm entação de um a idéia universal de “ mulheres”
por raça, etnia, classe e sexualidade estava associada a diferenças
37. T eresa de Lauretis, “ Fem in ist S tu d ies/C ritical Studies: Issu e s,T e rm s, and Contexts”;
C h errie M oraga, “ From a L on g Line o fV e n d id a s: C h ican as an d F èm in ism ” ; Biddy
M artin e C h an d ra T a o p ad e M ohanty, “ F em inist Politics: W h at’ s H om e G o t to Do
with Ití” , tod os em T eresa d e Lauretis (ed.), Feminist Studies/C ritical Studies
B loo m in gto n , 1 9 8 6 , p. 1 -1 9 ,1 7 3 -1 9 0 ,1 9 1 -2 1 2 , respectivam ente. V ertam b ém , “The
C o m b a h ee River C ollective, A B lack Fem in ist Statem ent” , em G lo ria T . H ull, Patricia
B ell Scott e B arbara Sm ith (eds.), But Some of Us are Brave: Black W om ens Studies
N o v a Iorqu e, 1 982; B arb ara Sm ith (ed.), Home Girls; A Black Women’s Antholog^
N o v a Iorque, 1 9 8 3 . V er tam bém , B arbara Sm ith , “Tow ard a B lack Feminist
C riticism ” ; D eborah E. M cD ow ell, “N ew D irections for Black F em in ist Criticism” ;
B o n n ie Zim m erm an, “W h at h as N ever Been; A n O verview o f L esbian Feminist
C riticism ” ; tod os em E laine Show alter (ed.), The New Feminist Literary Criticism’
E ssays on Women, Literature, Tfieorj, N ova Iorque, 1 9 85, p. 168-224; N ancy Hofirnan
“ W h ite W om en , Black W om en : Inventing an A d equate Pedagogy” , W omens S t u d ie s
Neuisletter, 5, p. 21-4, prim avera de 1 977; M ichele W allace, “A Black F e m ir u V s
Search for S isterh o od ” , Village Voice, 28 de julho de 1 975, p. 7; T eresa de Lauretis
“ D isp lacin g H egem oníc D iscou rses: Reflections o n Fem in ist Th eory in the 1980s”
Inscriptions, n. 3 /4 , p. 127-41, 1988.
•
88
PETER BURKE
políticas sérias no interior d o m ovim ento das m ulheres sobre
questões qúe variavam desde a Palestina até à pornografia.38 A s
diferenças cada vez m ais visíveis e veementes entre as m ulheres
questionavam a possibilidade de um a política unificada e sugeriam
que os interesses das m ulheres não eram auto-evidentes, m as um a
questão de disputa e de discussão. D e fato, todas as exigências de
reconhecim ento das experiências e das histórias de diversos tipos
de m ulheres representam a lógica da suplem entação, desta vez em
relação à categoria universal d as m ulheres, o bastante para qualquer
história geral das mulheres e para a com petência de qualquer
historiador das m ulheres cobrir todo o cam po.
A questão das diferenças dentro da diferença trouxe à tona um
debate sobre o m odo e a conveniência de se articular o gênero
com o um a categoria de análise. U m a dessas articulações serve-se
do trabalho nas ciências sociais sobre os sistem as ou estruturas do
gênero; presum e um a oposição fixa entre os hom ens e as m ulheres,
e identidades (ou papéis) separadas para os sexos, qu e operam
consistentem ente em todas as esferas da vida social. T am bém
presum e um a correlação direta entre as categorias sociais m asculina
e fem inina e as identidades de sujeito dos hom ens e das m ulheres,
e atribui sua variação a outras características sociais estabelecidas,
com o classe ou raça. A m plia o foco da história das m ulheres,
cuidan do dos relacionam entos m acho/fêm ea e de questões sobre
com o o gênero é percebido, que processos são esses que estabele­
cem as instituições geradas, e das diferenças que a raça, a classe, a
etnia e a sexualidade produziram nas experiências históricas das
3 8 . A lgu m as d as rupturas ocorreram em seguida à derrota da E m en d a d o s D ireitos C ivis
(E qual Rights A m en d m en t - ERA) à C onstitu ição A m erican a, u m a cam pan h a que
prom oveu um a frente u n ida entre vários grupos de fem inistas. Evidentem ente, a
cam p an h a em si d a ERA m ostrou co m o eram p rofu n d as as diferenças entre as
fem inistas e os antifem inistas e pôs em dúvida qu alqu er idéia de solidariedade
fem in in a inerente. A lgu m as d as diferenças foram atribuídas à “ consciência falsa",
m as n ão inteiram ente. Sob re a cam p an h a da ERA, ver M ary Francês Berry, Why ERA
Faãed, Bloom in gto n, 1986; Jan e M an sbridge, Why We Lost the ERA, C h icago, 1986;
D o n a ld G . M athew s e Jan e Sh o rro n d e H art, E ra and the Politics of C ultural Conflict:
North Carolina, N o v a York, 1989.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
89
m ulheres. A abordagem da ciência social ao gênero pluralizou a
categoria das “ m ulheres” e produziu um conjunto brilhante de
histórias e de identidades coletivas; m as tam bém esbarrou em um
conjunto aparentem ente intratável de problem as que se seguiram
ao reconhecim ento das diferenças entre as m ulheres. Se há tantas
diferenças de classe, raça, etnia e sexualidade, o que constitui o
cam po com um em que as fem inistas podem organizar um a ação
coletiva coerente? Q u al é o elo conceituai para a história das
m ulheres ou para os cursos de estudos das m ulheres, entre o que
parece ser u m a proliferação in fin ita'd e diferentes histórias (de
mulheres)? (O s dois problem as estão ligados: será que há um a
identidade com um para as m ulheres e será que há um a história
delas que p o ssam o s escrever?)
A lgum as fem inistas tentaram abordar essas questões, analisan­
do o gênero com as abordagens literárias e filosóficas que, p o r m ais
diversas que sejam , estão conjuntam ente agrupadas sob a rubrica
do pós-estruturalism o. A q u i a ênfase se afasta da docum entação da
oposição binária m acho versus fêmea, para questionar com o ela é
estabelecida, da suposição de um a identidade preexistente das
“ m ulheres” para investigar o processo de su a construção, do
estabelecim ento de um significado inerente para as categorias^om o
“ h o m en s” e “ m ulheres” , para analisar com o seu significado é
assegurado. E ssa análise assum e a significação com o seu objeto,
exam in ando as práticas e os contextos dentro dos quais os signifi­
cados da diferença sexual são produzidos. Freqüentem ente u sa a
teoria psicanalítica (particularmente as leituras lacanianas de
Freud), para discutir a com plexidade e a instabilidade de quaisquer
identificações de sujeito. A m asculinidade e a fem inilidade são
encaradas com o posições de sujeito, não necessariam ente restritas
a m achos ou fêm eas biológicos.39
M ais im portante foram as m aneiras com o as fem inistas se
apropriaram do pós-estruturalism o para pen sar sobre a diferença.
39. V e rJu d ith B u d e r, GenderTrouble: Fèminism and the Subversion ofldentity, N ova York,
1989.
90
PETER BURKE
A diferença está n o âm ago d as teorias lingüísticas de significação.
Diz-se que todos os significados são produzidos diferencialmente,
através de contrastes e de oposições, e hierarquicamente, através
da designação de prim azia a um termo e de subordinação a outro.
A interconexão do relacionam ento assim étrico é im portante de ser
considerada, porque sugere que a m udança é m ais que um a
questão de ajustam ento dos recursos sociais para um grupo subor­
dinado, m ais que um a questão de justiça distributiva. Se a definição
do H om em perm anece na subordinação da M ulher, então um a
m odificação na condição da M ulher requer (e provoca) um a
m odificação em n ossa com preensão do H om em (um sim ples
pluralism o cum ulativo não funciona). A am eaça radical colocada
pela história das m ulheres situa-se exatamente neste tipo de desafio
à história estabelecida; as m ulheres não podem ser adicionadas
sem um a rem odelação fundam ental dos term os, padrões e su posi­
ções daquilo que passou para a história*objetiva, neutra e universal
n o passado, porque essa visão da história incluía em sua própria
definição de si m esm a a exclusão das m ulheres.
A queles que se dedicam ao en sin o do pós-estruturalism o
afirm am que o poder deve ser com preendido em term os dos
processos discursivos que produzem diferença. C o m o é produzido,
legitim ado e dissem in ado o conhecim ento da diferença? C o m o as
identidades são construídas e em que termos? A s historiadoras
fem inistas encontram respostas para essas questões em particular,
exem plos contextuais, m as elas não produzem sim plesm ente nar­
rativas separadas. O cam po com um , politica e academicamente,, é
um cam po de preferência das fem inistas, on de elas produzem
análises da diferença e organizam resistência contra a exclusão,
dom inação ou m arginalidade, que são os efeitos dos sistem as de
diferenciação.
Diferentem ente da abordagem da ciência social, que aceita
tacitam ente a identidade e a experiência das m ulheres, a abordagem
pós-estruturalista relativiza a identidade e a priva de suas bases em
um a “ experiência” essencializada, am bos elem entos cruciais, na
m aior parte das definições padronizadas de política, para a mobi-
A ESCRITA DA HISTÓRIA
91
Iização dos m ovim entos políticos. Problematizando os conceitos de
identidade e experiência, as fem inistas que utilizam a análise
pós-estruturalista apresentaram interpretações dinâm icas do gêne­
ro que enfatizam a luta, a contradição ideológica e as com plexidades
das relações de poder em mutação. D e m uitas m aneiras seu
trabalho insiste em m aior variabilidade histórica e especificidade
contextual para os term os do «próprio gênero, do que o faz o
trabalho daqueles que se baseiam em conceituações científicas
sociais. M as o trabalho influenciado pelo pós-estruturalism o esbar­
ra em alguns dos m esm os problem as encontrados por aqueles que
preferem as abordagens científicas sociais. C o m o declarou D enise
Riley, se a categoria das “ m ulheres” , e assim a identidade e a
experiência das m ulheres, são instáveis, porque são historicam ente
variáveis, quais são os cam pos para a mobilização política? C o m o
escrever um a história coerente das m ulheres, sem um a idéia
determ inada e com partilhada do que são as mulheres? Riley
responde, corretam ente a m eu ver, que é possível pensar-se e
organizar-se a política com categorias instáveis, o que na verdade
sem pre tem sido feito, m as exatamente com o fazê-lo é algo que
necessita de discussão. Ironicam ente, entretanto, m ais que o
reconhecim ento da sim ilaridade dos dilem as confrontados pelas
historiadoras do sexo fem inino nos anos 80, os dilem as causados
por n ossa necessidade de pensar a política em novos term os,
desenvolveu-se um debate polarizado sobre a utilidade do pósestruturalism o para o fem inism o, que é engastado em um contexto
entre a “ teoria” e a “ política” .
A s fem inistas hostis ao pós-estruturalism o generalizaram sua
crítica com o um a denúncia da “ teoria” e o rotularam com o
abstrato, elitista e m achista. Em contraposição, insistiram em que
su a posição é concreta, prática e fem inista, e por isso politicamente
correta. T u d o o que for teórico a respeito do fem inism o é redenom in ado de “ política” nesta oposição, porque (de acordo cpm um
relato recente) suas introjeções vêm “ direto da própria reflexão de
n ós m esm as, ou seja, da experiência das m ulheres, das contradi­
ções que sentim os entre as diferentes m aneiras em que fom os
92
PETER BURKE
representadas até para nós m esm as, das injustiças que tem os há
tanto tem po suportado em n ossas situações” .40 C olocan do o
problem a em termos de um a oposição binária intratável, esta
form ulação afasta a possibilidade de considerar a utilidade de várias
abordagens teóricas à história fem inista e à política fem inista, assim
com o a possibilidade de conceber a teoria e a política com o
intrincadam ente ligadas.
C reio que a oposição entre “teoria” e “política” é um a oposição
falsa, que busca silenciar os debates que devem os realizar sobre que
teoria é m ais útil para o fem inism o, para tornar apenas u m a teoria
aceitável com o “ política” . (N a linguagem daqueles que utilizam esta
dicotom ia, “ política” realmente significa um a boa teoria; e “ teoria”
significa um a m á política.)41 A “ b oa” teoria encara as “ m ulheres”
e sua “ experiência” com o os fatos auto-evidentes que são a origem
da identidade e da ação coletivas. C o m efeito, (em um a m udança,
que é o inverso da reação d a história à história das m ulheres)
aqueles que u sam essa op osição estabelecem a “ política” com o a
posição norm ativa, para alguns, sendo o teste ético da validade do
fem inism o e da história das mulheres. E os historiadores das
m ulheres que rejeitam a “ teoria” em nom e da “ políticâ” , estão
curiosam ente aliados àqueles historiadores tradicionais que consi­
deram o pós-estruturalism o (e consideravam a história das m ulhe­
res) um a antítese aos princípios de sua disciplina.42 Em am bos os
4 0 . Ju d ith N ew ton, “ H istory as U sual?: Fem n in ism an d th e ‘ N ew H isto ricism ” ’ , C ultural
Critique, 9 , p. 9 3 , 1988.
4 1 . A o po sição entre “ teoria” e “ politica” sugere tam bém u m a o posição entre idealism o
e m aterialism o que desvirtua as qu estões filosóficas atualm ente em voga. S o b re a
invalidade d a o posição íd ealism o/m aterialism o, ver Jo an Scott, “A Reply to C riti­
c ism ” , International Labor and Working C lass History, 3 2 , p. 39-45, ou ton o de 1987.
A op o sição "teoria” versus “ politica” tam bém se refere indiretam ente à questão da
atuação h u m an a, m uito enfatizada atualm ente pelos historiadores. A teoria pósestiuturalista não nega qu e as pessoas atuam ou que têm algum controle sob re su as
ações; antes critica a teoria individual liberal que presum e que os indivíduos são
totalm ente au tô n o m o s, racionais e autogerados. A qu estão n ão ê a atuação per se,
m as o s lim ites d a teoria liberal d a atuação.
4 2 . A ironia é notável. O s h istoriadores d as m ulheres q u e aceitaram as idéias de
universalidade d a d isciplin a (acrescentando a categoria universal das “ m u lh eres” à
já existente d o s “ h o m en s” ) e d o d om ín io (presu m in d o qu e o s h istoriadores podem
A ESCRITA DA HISTÓRIA
93
casos, esses historiadores estão defendendo o conceito da “ expe­
riência” , recusando-se a problematizá-lo; opon do “ teoria” e “ polí­
tica” , rem ovem a “ experiência” da sondagem da crítica e a prote­
gem, com o o cam po de origem e sem problem as da política e da
explicação histórica.43
Todavia, o conceito da experiência tem-se tornado problem áti­
co para os historiadores e necessita ser criticamente discutido. N ão
som ente o pós-estruturalism o questionou se a experiência tem um a
posição externa à convenção lingüística (ou construção cultural),
m as o trabalho do s historiadores das m ulheres tam bém pluralizou
e com plicou os cam inhos que os historiadores usaram convencio­
nalm ente para a experiência. A lém disso, e m ais im portante para
m in h a argum entação aqui, o m undo diferente do m ovim ento
político fem inista n os an os 80 to m o u im possível um a única
definição d a experiência das m ulheres. C o m o tem sem pre ocorri­
do, as questões colocadas para a teoria são questões sobre política:
h á u m a experiência das m ulheres que transcenda os limites de
classe e raça? C o m o as diferenças de raça ou etnia afetam a
“experiência das m ulheres” e as definições das necessidades e
interesses fem ininos em to m o dos quais podem os n os organizar
ou sobre os quais podem os escrever? C o m o podem ôs determ inar
o que aquela “ experiência” é ou foi n o passado? Sem algum
cam inho para pen sar teoricam ente sobre a experiência, os histo­
riadores n ão podem responder a essas questões; sem algum
cam in ho para pen sar teoricamente sobre o relacionam ento da
história das m ulheres com a história, os efeitos potencialm ente
críticos e desestabilizantes do fem inism o serão m uito facilmente
perdidos e renunciarem os à oportunidade de transform ar radical­
alcançar u m conhecim ento desin teressad o ou com pleto d o p assado ), n ão obstante
caracterizam su a posição co m o “ política” - term o qu e indica seu relacionam ento
subv ersivo com a disciplina. C reio qu e este é m ais u m exem plo d a lógica do
suplem ento: o s h istoriadores d as m ulheres (seja qu al for su a posição epístem ológica)
n ão estão nem inteiram ente dentro nem inteiram ente fora d a profissão d a história.
4 3 . V er Jo h n T o ew s, “ Intellectual H istory After the Linguistic T u m : T h e A u ton om y o f
M ean in g an d the Irreducibility o f Experience” , American Historical Review, 92,
p. 8 7 9-907, ou tu bro de 1987.
94
PETER BURKE
m ente o cenhecim ento que constitui a história e a política que
praticam os.
O pós-estruturalism o n ão deixa de ter seus dilem as para as
historiadoras fem inistas. C reio que aquelas que insistem em que
o pós-estruturalism o não pode lidar com a realidade ou que seu
foco n os textos exclui as estruturas sociais, não com preendeu o
pon to principal d a teoria. M as creio que ele n ão proporcion a
respostas pron tas para os historiadores, para alguns d o s proble­
m as que levanta: com o invocar a “experiência” sem im plicitam en­
te san cion ar conceitos essencializados, identidades a-históricas;
com o descrever a atuação hum an a, en quan to reconhece suas
determ inações lingüísticas e culturais; com o in corporar a fantasia
e o inconsciente em estudos de com portam ento social; com o
reconhecer diferenças e elaborar processos de diferenciação do
foco da an álise política, sem term inar com relatos m últiplos e
desconectados ou com categorias protegidas com o classe ou “o
o p rim id o ” ; com o reconhecer a parcialidade da história de vida
de alguém (na verdade de todas as histórias d e vida) e ain d a
contá-la com autoridade e convicção? Estes são problem as não
resolvidos, pondo-se de lado a “teoria” ou declarando-a um a
antítese à “ política” ; antes de tudo, requerem u m a d iscu ssão
con tinuada e sim ultânea (discussão que é ao m esm o tem po
teórica e política), po is n o fim eles são os prob lem as de todos
aqueles que escrevem a história das m ulheres, seja qual for a su a
abordagem .
S ã o problem as com uns, porque seguem a lógica da suplementação que caracteriza a história das m ulheres e que lhe proporcio­
nou sua força crítica. A m edida que as historiadoras fem inistas
resolveram produzir um novo conhecim ento, elas necessariam ente
questionaram a adequação, não apenas da substância da história
existente, m as tam bém de suas bases conceituais e prem issas
epistem ológicas. N isso encontraram aliados entre os historiadores
e ou tros estu d io so s de h u m an id ad es e n as ciências sociais que
estão discu tin d o entre si q u estões de cau salidade e explicação,
atuação e determ in ação. M as as fem inistas, em su a m aio r parte,
A ESCRITA DA HISTORIA
95
não têm sido consideradas parceiras plenas nesses debates.44 M esm o
nesses discursos críticos, sua posição permanece suplementar: ao
m esm o tem po um exemplo particular de um fenôm eno geral e um
com entário radical da (in)suficiência de seus termos e práticas. A
posição suplem entar é um a indeterminação recorrente e um a desestabilização potencial. Requer atenção constante aos relacionamentos
de poder, um a certa vigilância diante das tentativas de implementar
um a ou outra de suas posições contraditórias. O s historiadores das
mulheres constantemente se deparam protestando contra as tentati­
vas de relegá-los a posições que são meramente estranhas; também
resistem aos argumentos que põem de lado o que eles fazem com o
sendo tão diferente que não pode ser qualificado de história. Suas
vidas profissionais e seu trabalho são, por isso, necessariamente
políticos. N o final, não há jeito de se evitar a política - as relações
de poder, os sistemas de convicção e prática - do conhecimento e
dos processos que o produzem; por essa razão, a história das
m ulheres é um cam po inevitavelmente político.
N este ensaio, utilizei-me das operações da lógica do suplem ento
para que m e facilitassem a com preensão e a análise d a natureza
inerentem ente política do cam po da história das m ulheres; final­
m ente, eu diria que é tal “teoria” que pode nos ilum inar a política
de n o ssa prática.45
4 4 . U m exem plo d esse desprezo pelas contribuições fem inistas para o s debates historiográficos pod e ser encontrado n o fórum especial sob re história e teofia crítica em
Am erican Historical Review, 9 4, ju n h o de 1989. N en h u m d o s artigos reconhece o
im pacto qu e a h istória fem inista (ou a história afro-americana, ou a história “ gay” e
lésbica) tem tido sob re as questões epistem ológicas confrontadas pela disciplina. V er
D avid H arlan , “ Intellectual H istory and the Return o f Literature” , D avid H ollinger,
“T h e R e tu m o fth e Prodigal: T h e Persistence o f H istorical K now ing” e A lan Megill,
“ R ecounting the Pasfc ‘D escriptiori’ , E xplanation, and N arrative in H istoriography” ,
p. 581-609, 610-21, e 627-53, respectivam ente.
4 5 . Gostaria de agradecer a Cliflòtd Geertz por ter colocado algumas das questões que levaram
à elaboração deste ensaio, e também por seus esclarecedores comentários sobre um a
primeira versão realizada. D onald Scott auxiliou-me na articulação de muitos pontos cruciais
e Elizabeth W eed apresentou inestimáveis sugestões críticas. Tam bém apreciei os comen­
tários e conselhos de Judith Buder, Laura Engelstein, Susan Hardíng, Ruth Leys e Mary
Louise Roberts. A s críticas de H ilda Romer, Tania U rum e Karin W iderberg provocaram
desafios difíceis que melhoraram e reforçaram o argumento. Estou grata por elas.
H ISTÓ RIA DE ALÉM-MAR
Henk Wesseling*
E sta contribuição é sobre a história de além -m ar, tem a interes­
san te m as de m odo algum fácil. Pois o que é história de além -m ar?
F alan do estritam ente, n ão h á um a definição adequada para ela, ou
m elh o r, o qu e e la é d ep en d e de on d e se está. D a p e rsp e c tiv a
britân ica, por exem plo, p raticam en te toda a h istória é h istória de
além -m ar, in clu in d o p arte d a próp ria h istó ria d o R e in o U n id o .
P arafraseando um a expressão fran cesa bem con h ecid a: a h istória
de to d o m u n d o é h istó ria de além -m ar para algu ém de fora.
O bv iam en te n ão é isso o que tem os em m ente, quando utilizam os
o term o; e n tã o , o q u e é? U m a so lu ção p rátic a p ara este p ro b le m a
pode ser encontrado, exam inando-se os conteúdos de pu blicações
qu e ap resen tam este term o em seu título. A Revue fran ç aise
d ’histoire d ’outre-mer, publicada pela sociedade de m esm o n om e, é
essen c ialm en te u m a p u b lic aç ão d ed icad a à h istó ria eu ropéia, e
particularm ente a francesa, da expansão ultram arina e da fo rm ação
das possessões francesas. Isso n ão é surpreendente, pois seu n om e
o rig in al era Revue d ’histoire des colonies. D o m esm o m od o, as
Académies de sciences d’outre-mer francesas e belgas costumavarti ser
*
Professor de H istória d a U n iversid ad e de Leiden e D iretor do In stitu to d e H istó ria
d a E x p a n sã o E u ro p é ia.
•
98
PETER BURKE
conhecidas com o as Académies des sciences coloniales. A série de
língua alem ã Beitràge zur Kolonialund Uberseegeschichte com bina
os dois term os. O s britânicos são bastante afortunados por terem
sua commonwealth, motivo pelo qual há um Journal of Imperial and
Commonwealth History, um a com binação m uito m ais elegante do
que História Imperial e História de Além-Mar. N a H olanda, o
Instituto C olon ial Real trocou seu nom e para Instituto Tropical
Real, m as de certo m odo a “ história tropical” não foi aceita.
N ão é difícil com preender o que estava ocorrendo aqui. A p ó s
1945, o term o “colonial” tornou-se cada vez m ais sem atrativos, e
os institutos que queriam continuar sua existência tiveram de
encontrar nom es diferentes (de preferência m ais neutros). Entre­
tanto, não era sim plesm ente um a questão de trocar nom es. H ouve
tam bém u m a m udança de abordagem e de interesse. A história de
além-mar desenvolveu-se em u m cam po de estudo m uito m ais
am plo do que costum ava ser a história colonial. T rata não som ente
dos sistem as coloniais e do encontro entre europeus e não euro-'
peus em geral, m as tam bém da história econôm ica, social, política
e cultural dos povos não europeus. E precisam ente aí que surge o
problem a, porque não apenas teoricamente, m as tam bém na
prática real, a história de além-mar desenvolveu-se em u m a questão
tão vasta, que se tornou im possível de ser identificável. E claro que
há alguns elem entos que proporcionam um a certa coesão ao
cam po. Em prim eiro lugar, o historiador de além-mar trata nor­
m alm ente com dois tipos de fontes, por um lado as fontes
européias, em sua m aior parte arquivísticas, e por outro, as
não-européias, escritas ou, com o freqüentemente é o caso na
história africana, não escritas. D evido à ausência das fontes tradi­
cionais, é necessária a assistência de outras disciplinas, daí o papel
de disciplinas com o arqueologia, lingüística e antropologia na
história de além-mar. Por isso, a história de além-mar tende a ser
interdisciplinar.
A parte isso, o historiador de além-mar deve tam bém se
familiarizar com outras civilizações além da sua própria. Isso
geralm ente supõe um a educação m ais am pla - e um pouco
A ESCRITA DA HISTÓRIA
99
diferente - do qu e em geral ocorre, assim com o um a exigência
m aior de habilidades lingüísticas. Por essa razão os historiadores
de além-mar são com freqüência encontrados em departam entos
orientalistas ou africanistas, pelo m enos na Europa (a situação nos
E stados U n id o s é diferente). B m e sm o q u an d o estão alocados em
departam entos de história, os historiadores de além-mar sentem
a necessidade de colaborar com outros especialistas da m esm a
área, com o lingüistas, an tropólogos ou historiadores de arte. Isso
n ão acontece com os historiadores da Europa. U m especialista
em história da França em geral n ão vai trabalhar em um depar­
tam ento de estudos franceses, nem se sentirá estim ulado a
com parecer a,conferências sobre estudos franceses. C o m o é típico
para o s h istoriadores de além-mar aprenderem sobre civilizações
outras, além da su a própria, têm de colaborar com outras
disciplin as para atingir um a com preen são m elhor daq u ela civili­
zação ou sociedade particular. M as tam bém têm de se m anter em
contato com outros historiadores, para com preender o qu e está
acontecendo em su a própria disciplina. A tensão entre a aborda­
gem d a área e a abordagem disciplin ar é um fenôm eno bastante
conhecido.
H á outra razão por que, “h istoricam ente falando, há um a certa
unidade n o cam po da história de além-mar. A m aior parte do
m u n d o ultram arino pertencia anteriorm ente ao m u n d o colonial,
e agora supõe-se fazer parte do Terceiro M un do. Por isso em alguns
círculos está em u so a expressão “ história do Terceiro M u n d o ” .1
M as a idéia real de um “Terceiro M u n d o ” está agora se desinte­
grando, e não m ais reflete a realidade. Retrospectivamente, parece
até estranho que países com o a ín d ia e a In don ésia pudessem
form ar u m m u n d o com o Su dão e com M ali, pela única razão de
terem sid o todas ex-colônias e sejam ain da relativamente pobres.
Por isso, equiparar a história de além-mar com a história do
Terceiro M un do não parece um a b oa idéia, sobretudo porque a
1. V er, p o r exem plo, M . M órn er e T . Sven sson (ed.), The History of the Third World in
Nordic Research, G õteborg, 1986.
100
PETER BURKE
história dos Estados U n id o s pertence à história de além-mar e na
verdade à história colonial, m as não à história do Terceiro M undo.
Pode ser levan tada a q u estão se a h istória de além -m ar, u m a
vez qu e ela su p o n h a a in clu são da h istória de todo o m u n d o
exterior à E u ro p a (ou ao “ O cid en te”), é afinal u m objeto de
estudo. E sse prob lem a é resu ltado do su cesso da h istória de
além -m ar ap ó s a Segu n d a G u erra M un dial, q u an d o a ascen são
d a h istória de além -m ar deveu-se até certo po n to a u m a reação
à antiga h istória colon ial. U m gran de acú m ulo de m aterial teve
de ser organ izado e foi dad o um gran de salto para frente. A s
novas n ações reivindicavam seu próp rio p assad o n acion al. O s
“ povos sem h istó ria” finalm ente en contravam u m a e os resul­
tados d esse m ovim en to foram im p ressio n an tes. A h istória de
além -m ar tornou-se tão vasta e tão variada, que n ão pode m ais
ser co n sid e rad a com o um cam po específico da história. Para
sobreviver, a h istória de além -m ar vai -necessitar de algum a
form a de reconceituação. A n tes de discu tir isso, devem os traçar
um breve esb o ço da h istória d o sujeito.
A h istória d a h istória d e além -m ar:
u m a v isão geral
D e um a form a ou de outra, a história tem sido praticada na
m aioria d as civilizações. N a Indonésia, as crônicas ou babads
rem ontam há m uito tem po atrás. O s hindus, n a índia, têm pouco
interesse em história, m as os m aom etanos têm um grande interesse
em um a idéia m ais consistente de cronologia, em bora eles tam bém
só façam crônicas dos acontecim entos. N o Jap ão e n a C h in a foi
desenvolvida u m a historiografia com parável à história européia
tradicional, que, em sua form a científica m oderna, só foi desenvol­
vida n o O cidente n o século dezenove. E caracterizada pelo cham a­
d o “ m étodo histórico” (cronologia, filologia, crítica de texto, her­
m enêutica) e tam bém por um tipo particular de pensam ento
histórico. A consciência da singularidade dos acontecim entos, a
A ESCRITA DA HISTÓRIA
101
n oção de desenvolvim ento e sucessão através dos tem pos, m as
tam bém a noção de que cada período tem um caráter específico
com seus próprios valores e padrões, são características deste.- A
escola histórica germ ânica desem penhou um papel im portante
n esse desenvolvim ento, m otivo pelo qual alguns d o s conceitos
históricos m ais fam osos são ainda m ais bem conhecidos em sua
form a germ ânica: Historismus, Verstehen, Zeitgeíst.
A interpretação histórica que resultou d isso foi extremamente
eurocêntrica. A Welgeschichte realmente veio a se tornar a história
européia, pois n a estrutura d a história geral os povos não-europeus
não desem pen ham n enh um papel. Eram con siderados povos sem
história (Hegel) ou povos de im obilização eterna (Ranke). À parte
as civilizações antigas tradicionais, eles só vinham à luz no
m om en to em que se subm etiam ou eram con q u istados pelos
europeus. Isso não significa que n ão houvesse n enh u m interesse
em outras civilizações além das ocidentais, pois esse existiu sob
a form a do que é conhecido com o estudos orientais. O que
im p u lsion ou estes estudos foi, por um lado, a Bíblia e a lingüís­
tica; por outro, o colon ialism o. D epois do Renascim ento, m uitas
universidades européias n ão apenas criaram cadeiras de grego e
latim , m as tam bém de hebreu e árabe. M ais tarde, departam entos
de estu dos d o O riente M édio e /o u Á rabes em an aram dessas
disciplin as. A lingüística com parada e histórica, assu n to popular
n o século dezenove, estim ulou o estudo do sânscrito, que por sua
vez deu origem a cadeiras e institutos para o estudo d a civilização
in diana.
U m estím ulo ain da m ais im portante veio do colonialism o. O
treinam ento dos criados civis coloniais tornou-se u m a parte da
educação universitária n o século dezenove. C u rso s de línguas e
adm inistração colonial podiam ser encontrados ao lado de cursos
de história im perial ou colonial. E m bora focalizassem prim aria­
m ente o ponto de vista europeu, esses cursos tam bém prestavam
algum a atenção aos povos de além-mâr. E interessante observar
qu e já em 1897, um com itê de seleção para um a cadeira de história
das ín d ias H olan d esas deu preferência a u m candidato, porque ele
102
PETER BURKE
conseguia tam bém ver as coisas “ do ponto de vista nativo” .2 À parte
os próprios súditos coloniais, outros povos de além-mar tornaramse objetos de estudo. N a H olanda, por exem plo, os chineses eram
estudados devido à im portante com unidade chinesa nas índias
O rientais, os japoneses, devido ao “ perigo am arelo” e os islâm icos,
devido ao perigo do “ fanatism o m uçulm ano” . O resultado disso
foi o surgim ento de dois grupos de historiadores: um pequeno
grupo em departam entos de estudos orientais que estudavam
outras civilizações, por direito próprio, e outro, m uito m aior, que
ensinava a própria história, ou seja, a história da Europa e de suas
colônias. A in d a que situados dentro da m esm a universidade,
raram ente os dois grupos colaboravam entre si.
A situação modificou-se radicalmente após 1945, em parte por
razões externas, em parte por razões internas. A s razões externas
eram óbvias: a descolonização, o declínio da Europa, a emergência
de novos superpoderes. T u d o isso levou "a um repensar do papel
da Europa na história m undial e a um questionam ento da aborda­
gem eurocêntrica. O declínio da Europa tornou-se um tem a de
estudo tão im portante quanto sua ascensão. O historiador holan­
dês Jan R om ein proclam ou o fim da Era Européia e o início do
Século Asiático.3
M as além d as razões políticas e ideológicas, houve tam ­
bém desen volvim en tos in tern os, m odificações n a m an eira
com o a h istó ria era estu dad a. O período pós-guerra testem u­
n h ou a ascen são d a h istória so cial e econ ôm ica. O s h istoria­
dores tornaram -se m en os in teressad o s n a h istória política e
m ilitar e m ais in teressad o s em q u estões com o civilização m ate­
rial, mentalités, vida cotidiana, o h o m em com u m etc. N e sse
aspecto, p elo m en os até o sécu lo dezoito, a h istória eu ropéia
n ão era tão diferente da h istó ria não-européia. S o b o im pacto
d a esco la d o s Annales, a h istória tornou-se m en os teleológica,
2. V er C . F asseur, “ Leiden and E m pire: University an d C o lo n ial O ffice, 1825-1925” ,
em W . O tterspeer (ed.), Leiden Oriental Connections, 1850-1940, Leiden, 1 989, p.
187-203.
3. J. R om ein, A era van Europa, Leiden, 1 9 5 4 e De eeuw van Aziê, Leiden, 1956.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
103
m en os wfiiggisfi.4 A estru tu ra substituiu a evolução com o a preo­
cupação central. A continuidade tornou-se tão im portante quanto
a m udan ça e, por isso, a oposição entre a Europa (m udança) e a
Á sia (continuidade) tornou-se m enos relevante. N essa abordagem ,
o estado-nação não era m ais ít unidade central da análise histórica
e, portanto, a op osição entre terra-mãe e colônia era m enos
im portante. A nova abordagem era m ais em termos de aldeias,
cidades, regiões, grupos sociais. Isso tornou m enos acentuado o
antagonism o entre as abordagens colonialista e nacionalista e tam­
bém ocorreram m udanças práticas. H ouve um a crescente influência
por parte dos historiadores americanos, pois seus departamentos de
história sem pre haviam sido m enos paroquiais que os europeus, e
eles desem penhavam um papel cada vez m aior na história asiática e
africana. A lém disso, as próprias ex-colônias desenvolveram seus
próprios departam entos de história. Certamente, durante um longo
período os historiadores ocidentais ainda dom inaram o campo, pois
eram m ais bem form ados e tinham um acesso mais fácil a im por­
tantes dom ínios nos arquivos europeus. A s elites nativas estavam
m ais interessadas em outros cam pos do que n a história. A tarefa
de desenvolver a econom ia e construir a nação era m ais urgente e m ais com pensadora - do que aquela de escrever a história.
D aí resultou um a situação curiosa. Por um lado, o im pacto da
E u ropa n o conceito da própria história tornou-se ain da m ais forte
que antes. H istoriadores da Á sia e d a África freqüentem ente iam
para a E uropa para estudar história, ou pelo m en os para concluir
su a educação. T rabalhavam em arquivos ocidentais e se valiam dos
m odelos ocidentais para aprender com o a história deveria ser
estudada e escrita. A ssim , com o os japoneses após a revolução
M eiji, eles aprenderam a história a partir do ponto de vista
ocidental.5 E m su a própria civilização, não encontravam referên­
4. Relativo aos tvhigs, m em b ros de u m partido político d a G rã-Bretanha q u í, d ep ois da
revolução de 1 6 8 8 , pretendia su bo rd in ar o poder d a C o ro a ao do Parlam ento; no
século X IX foi su ced id o pelo Partido Liberal. (N .T .)
5 . L. B lu ssé, “Ja p a n e se H istoriography and E u ropean So u rces” , em P .C . E m m er e H .L
W esselin g (ed.), Reappraisals in Overseas History, Leiden, 1 979, p. 193-222.
104
PETER BURKE
cias. Por outro lado, su a interpretação era evidentemente m uito
diferente e às vezes fortemente anti-ocidental. A s nações jovens
necessitavam de “um p assado usável” e “usável” significava nacionalístico e anti-colonial.6 A ssim , a questão não era apenas de
historiografia colonialista versus historiografia nacionalista. Dizia
respeito ao lugar do O cidente na história do m undo em gèral. O s
próprios historiadores europeus tam bém questionaram a aborda­
gem eurocêntrica à história de além-mar. U m novo im pulso para
este debate surgiu a partir da discussão sobre as origens do
subdesenvolvim ento causado pelo desapontam ento com a m udan ­
ça pós-colonial. O otim ism o original sobre um novo futuro bri­
lhante, agora que o colonialism o havia term inado, desapareceu,
qu an d o ficou claro que os problem as econôm icos e sociais das
ex-colônias não eram tem porários, m as antes perm anentes (ou
estruturais). O otim ism o liberal foi substituído pelo pessim ism o
radical, para parafrasear a adequada form ulação de A . G . H opk in s.7
N e ssa época a oposição n ão era aquela de colonialism o versus
n acionalism o, m as de esquerda versus direita. A crítica neom arxista
do colonialism o tornou-se m uito influente n o próprio m undo
ocidental.
A ssim , o desenvolvim ento d a história de além-mar após 1945
foi um processo dialético. Primeiro, houve um m ovim ento de
em ancipação n a historiografia não ocidental, que resultou em um a
significativa explosão de pesqu isa e produção histórica na Á sia e
na África. O s países não-europeus descobriram seu próprio passa­
do e apresentaram sua própria interpretação dele, m as foi exata­
m ente então que o problem a da história de além-mar se m anifestou
so b um a nova forma. H oje em dia todo m u n d o aceita que os
africanos e os asiáticos possu em su a própria história, tão rica e
interessante quanto a da Europa. A questão, entretanto, é se
6 . V er T .O . R an ger, “T o w ard s a U sab le African Past” , em C . Fyfe (ed.), African Studies
Since 1 9 4 5 : a Tribute to B asil Davidson, Londres, 1976, p. 17-29.
7. V er A .G . H o p k in s, “ E uropean E xpan sion into W est A frica: a H istoriographical
Survey o f E n glish Language Publications since 1945", em E m m er and W esseling,
Reappraisals, p. 56.
A ESCRITA DA H ISTÓRIA
105
podem os n os deter aqui e sim plesm ente considerar a história
m undial com o a so m a de um grande núm ero de histórias regionais
autônom as. A m aioria dos historiadores concordaria que devería­
m os tentar prosseguir e estudar com o, de um m od o ou de outro,
essas várias civilizações tornaram-se interligadas, com o a situação
m undial atual chegou onde está. O verdadeiro desafio da história
de além-mar é apresentar u m afo rm a m oderna da história m undial.
E sse é um objetivo am bicioso, m as com o disse Fernand Braudel,
precisam os de historiadores am biciosos.8 O prim eiro esboço disso
pode talvez ser encontrado n a nova história da expan são européia,
desenvolvida m ais ou m enos nas últim as três décadas. A ntes de
examiná-la, devem os observar prim eiro o desenvolvim ento espeta­
cular da história asiática e africana n o m esm o período.9
História asiática e africana
T an to n a ín d ia quanto n a Indonésia, a história, em sua form a
científica m oderna, foi introduzida pelo poder colonial. N a índia,
a fundação da Sociedade A siática de Bengali em 1784 pode ser
considerada o ponto de partida. A historiografia britânica oficial
da ín d ia era altamente anglocêntrica. C o m o certa vez N ehru
observou sobre os britânicos: “ Para eles, a verdadeira história
com eça com a chegada dos ingleses n a índia; tudo o que houve
antes é, em um a espécie de trajetória mística, um a preparação para
sua divina con su m ação.” 10 Entretanto, logo com eçou a se desen­
volver um interesse nos estudos históricos n o novo ambiente
intelectual indiano. Em m eados do século dezenove, com o um a
8. F. B rau del, L a Méditerranée et le monde méditerranéen à 1’époque de Philippe II, 3 ed.,
2 v., Paris, 1 9 7 6 , v. I, p. 17.
9. T an to p o r razões práticas, qu anto teóricas, deixarem os de lad o a h istória d as A m éricas
e d o C arib e. N o qu e diz respeito à Á sia, vam os nos restringir às d u as ex-colônias
européias, on d e a em ancipação de u m a historiografia nacional foi m ais im pressio­
nante, o u seja, a ín d ia e a In don ésia.
_
10. J. N eh ru , The Discovery o /ín d io , Lon dres, 1956, p. 28.
106
PETER BURKE
reação à abordagem m uito condescendente dos historiadores colo­
niais, os historiadores indianos desenvolveram su a própria histo­
riografia, e no final do século a ascensão do m ovim ento naciona­
lista proporcionou-lhe um forte im pulso, de form a que n os an os
20 e 30 já existia aí um grupo considerável de historiadores
profissionais. O s nom es bastante conhecidos de estudiosos com o
R.K. M ookerjii e R .C . M ajum dar atestam isso. Portanto, quando
ocorreu a independência em 1947, a historiografia profissional
indiana já ocupava um a posição forte. A transferência do poder
em si tam bém estim ulou a escrita da história, tendo havido um a
dem anda por textos populares e livros didáticos. O governo
estim ulou o estudo do passado recente e particularmente do
m ovim ento nacionalista. Em 1952, o M inistério da Educação
ordenou a compilação de um a história do movimento libertador
indiano, e R .C . M ajum dar foi nom eado diretor do projeto. A s
conclusões de M ajum dar foram muito diferentes daquelas que o
governo esperava, mas m esm o assim ele publicou a sua interpreta­
ção. Esta derrubada do mito nacionalista foi um a indicação clara do
alto padrão de profissionalism o alcançado pelos historiadores india­
n o s." Em bora os historiadores britânicos ainda ocupem um papel
de liderança, senão o papel de liderança na história indiana, os
próprios historiadores indianos tornaram-se cada vez m ais impor­
tantes. A Cambridge Economic History of índia, assim com o a New
Cambridge History of Índia são dem onstrações convincentes disso.
N a Indonésia, o desenvolvim ento foi um pouco diferente. Em
com paração com a índia, havia m enos pessoas treinadas em
universidades, de m odo geral, e praticamente n ão houve nenhum
historiador profissional durante o período colonial. O m ovim ento
nacionalista tam bém foi m ais fraco do que na índia, e os intelec­
tuais nacionalistas expressavam su a sensibilidade m ais n a literatura
do que em trabalhos intelectuais. A ssim , praticamente não houve
historiadores in don ésios profissionais antes d a independência. O
11. V er S . Ray, “ ín d ia: After In dependence” , Journal of Contemporary History, 2,
p. 1 2 5 -4 2 ,1 9 6 7 .
A ESCRITA DA H ISTÓRIA
107
governo da República estim ulou o estudo do passado, m as de um a
perspectiva política clara (as pressões ideológicas eram fortes). Em
1957, teve lugar o prim eiro congresso nacional de historiadores.
Tornou-se clara a escassez de pesqu isa realizada, m as daí em diante
a história foi-se desenvolvendo com o um a disciplina intelectual. A
principal figura n essa área era Sartono Kartodirdjo, que introduziu
u m a nova form a de história inspirada n a ciência social, que cuida
especialm ente da história rural.12
N esse m eio tem po, foi a história indonésia que provocou um
interessante debate sobre a nova abordagem asiacêntrica à história
asiática. Jo h n Bastin, em sua conferência inaugural em Kuala
Lum pur em 1959, sobre The Study of Modem Southeast Asian
History, estirftulou m uito essa d iscu ssão13, m as a questão em si já
havia surgido m uito antes. Foi introduzida por J.C . van Leur, na
dissertação sobre o início do com ércio asiático, publicada em
1 9 3 4 .14 V an Leur, que m orreu m uito jovem , aos trinta e quatro
an os, na Batalha do M ar de Java, teria um a duradoura influência
sobre a história in don ésia e, n a verdade, sobre a história asiática
em geral. A originalidade de seu trabalho está em duas coisas: o
ab an don o do ponto de vista eurocêntrico e a aplicação de categorias
sociológicas. Ele reagiu contra a abordagem exclusivam ente colo­
nial, que constituía um a perspectiva distorcida, e ignorou várias
áreas de realidade histórica. “A m aior parte dos historiadores” ,
escreveu ele, “enxerga o m undo asiático através dos olhos do
governante holandês: do convés do navio, da m uralha da fortaleza,
da alta galeria da câm ara do com ércio.” 15
12. H .A .J. K looster, Indonesiérs schrijven hun geschiedenis. De ontu/ikkeling van de lndone■
sische geschiedbeoefening in cheorie en praktijk, 1900-1980, Leiden, 1985.
13. ]. B astin , The Study of Modem SoutheasC A sian H istory (K u ala Lumpur, 1959). V er
tam bém The Western Elsment in Modem Southeast A sian History, K u ala Lum pur,
1963.
1 4. J.C . V an Leur, Eenige bescHouwingen betreffende den ouden AjiatiscKen hantlel,
M iddelburg, 1 9 3 4 . U m a tradução desta obra, assim com o de seus outros escritos
p o d e ser en contrada em J.C . V an Leur, Indonesian Trade and Society: Essays in A sian
Social and Economic History, H a ia/B an d u n g , 1955.
15. V a n Leur, Trade and Society, p. 162.
'
108
PETER BURKE
Entretanto,' a crítica de V an Leur é, ao m esm o tem po, m ais
geral e m ais fundam ental. Ele questiona a periodização da história
e o local on de nela está repartida a Á sia. Por exem plo, em um artigo
bastante conhecido, ele exam ina por que rótulos de período com o
“o século dezoito” eram aplicados à história indonésia. C on clui
que não havia razão para isso, pois nenhum a das grandes m udan­
ças que tipificam a história européia desse período pode ser
esboçada no p assado indonésio. A té 1800, ela sim plesm ente faz
parte da Á sia .16
Isso nos conduz à segunda característica principal da aborda­
gem histórica de V an Leur, ou seja, a aplicação dos conceitos da
sociologia, particularmente aqueles de M ax W eber. U san d o o
conceito de W eber do tipo ideal - por exem plo, aqueles de “cultura
cam pon esa” , “estados burocráticos patrim oniais” , “com ércio am ­
bulante” - ele tenta descrever a história asiática com o parte da
história universal, m as com seu caráter próprio. D esse m odo é
possível se fazer justiça às peculiaridades das várias culturas sem
envolvê-las em um conjunto de categorias m uito abstratas e m ui­
to gerais ou discuti-las com o sim plesm ente exóticas e incom preen­
síveis.
A questão do papel da Europa n a história asiática foi eviden­
temente de vital im portância para a historiografia pós-independência. N esse aspecto, podem os distingüir duas escolas: a m inim alista
e a sentim entalista. A escola m inim alista m inim iza o papel do fator
ocidental n a história asiática, afirm ando que este virtualmente não
existiu, en quanto a escola sentim entalista m axim iza os crim es e os
delitos do O cidente. Em bora, logicamente falando, as duas escolas
pareçam ser contraditórias, elas podem às vezes estar am bas
fundam entadas na obra de um m esm o estudioso (por exem plo, o
sociólogo holan dês W .F. W ertheim ou o historiador indiano K.M .
Panikkar).17 A ssim , o debate n ão ficava inteiram ente claro e os
16. Ibid., p. 268-89.
17. K .M . Panikkar, A Survey of Indian History, Lon dres, 1947; W .F . W ertheim , “A sian
H istory and the W estern H istorian. R ejoinder to Professor B astin ” , Bijdragen tot de
T a a l, Land- en Volkenkunde, 119, p. 149-60, 1963.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
109
próprios conceitos eram am bíguos. M as as duas questões: “ Foi boa
ou m á a influência ocidental?” e “ Seu im pacto foi grande ou
pequeno?” são ainda intensivam ente debatidas hoje em dia, o que
é com preensível. Elas são tão vitais para n ossa interpretação do
passado, quanto para n o s s a ‘ com preensão do presente, com o
verem os m ais adiante.
N o século dezenove, a abordagem européia à história asiática
tornou-se cada vez m ais dom inada pelos sentim entos de superio­
ridade européia e por um a convicção do atraso asiático. Isso, no
entanto, foi apenas um fenôm eno bastante recente, pois os histo­
riadores europeus tradicionalm ente dem onstraram um grande
respeito pelais antigas civilizações da Á sia. Foi m uito diferente da
atitude européia para com a África, que foi sem pre considerada um
continente a-histórico e o povo africano um povo sem civilização
e, por isso, sem história. A m ais fam osa form ulação desta opinião
pode ser encontrada nas conferências de Jena proferidas por Hegel
em 1830-1 e publicadas com o a Pkylosophy of History. N esta obra
ele escreveu: “ N este ponto deixam os a África, para não m ais a
m encionarm os. Pois ela não é parte histórica do M un do; não tem
m ovim ento ou desenvolvim ento para m o stra r... O que com preen­
dem os apropriadam ente por África é o Espírito Não-Histórico,
Subdesenvolvido, ain da envolvido nas condições da sim ples natu­
reza, que só tem de ser apresentada aqui com o situada no limiar
da história do M u n d o .” 18
Evidentemente, Hegel teve um a grande influência sobre Karl
M arx e os escritos m arxistas clássicos refletem a m esm a linha de
pensam ento. U m eco tardio d isso pode ser encontrado n a obra do
h istoriador m arxista húngaro da África, E ndre Sik, que escreveu
em 1966:
Antes do seu encontro com os europeus, a maioria dos povos africanos
ainda vivia uma vida primitiva, bárbara, muitos deles, até mesmo no nível
mais baixo do barbarismo. Alguns deles viviam em completo, ou quase
completo isolamento: os contatos, se é que ocorriam, com outras pessoas
18. G .W .F . Hegel, The Philosophy o f History, N ova York, 1944, p. 99.
110
PETER BURKE
eram apenaS conflitos esparsos com povos vizinhos. O Estado, tomado no
verdadeiro sentido da palavra, era uma noção desconhecida para a maior
parte dos povos africanos, uma vez que também não existiam classes. Ou
melhor - ambos já existiam, mas apenas em embrião. Por isso é irrealístico
falar-se de sua ‘história’ - no sentido científico da palavra - antes do
surgimento dos invasores europeus.19
N ão há dúvida de que tais opiniões não eram de form a algum a
um m on opólio dos historiadores m arxistas. A pen as um ano antes
do aparecim ento do livro de Sik, o catedrático de H istória M oderna
de O xford, H . R. Trevor-Roper, com parou as histórias da Grã-Bre­
tanha e da África, descrevendo a última com o sen do pouco m ais
que “ as rotações sem sentido de tribos bárbaras em locais pitores­
cos, m as irrelevantes do globo” .20
C o m o as coisas m udaram em vinte anos! N in guém em seu
juízo perfeito poderia m ais afirm ar que. a história africana não
existe, nem m esm o em O xford. O desenvolvim ento da história
africana tem sido espetacular. Talvez tenha sido o cam po m ais vivo,
dinâm ico e inovador da história, desde a em ergência da nova
história social e econôm ica nas décadas de 20 e 30. Pode-se dizer
que o Journal of African History foi a publicação m ais inovadora
desde a fundação dos Annales. N a verdade, os dois desenvolvim en­
tos são de certo m odo com paráveis. O s historiadores sociais, com o
aqueles dos Annales e outros, com eçaram a se fazer perguntas que
jam ais haviam feito antes e que não haviam sido m encionadas nas
fontes tradicionais. N ovas fontes tiveram de ser descobertas e novas
técnicas desenvolvidas para reexam inar as velhas fontes sob um a
nova luz. A m esm a situação ocorre com a história africana. A s
fontes são escassas, pelo m enos as tradicionais. Por razões culturais,
os africanos produziram m enos material escrito sobre história
africana, que os europeus, e, por razões clim áticas, pouco desse
m aterial chegou até n ossas m ãos. Isto significa que a m aioria das
fontes é exógena. Elas provêm de estrangeiros, sejam eles viajantes
19. E. Sik, The History of Black Africa, 2 v., Budapest, 1966, v. I, p. 17.
2 0 . H . Trevor-R oper, The Rise of Christian Europe, Londres, 1 965, p. 9.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
111
gregos, rom an os ou árabes, geógrafos, comerciantes ou adm inis­
tradores europeus. Tecnicam ente falando, a m aior parte da história
africana é pré ou proto-história (ou etno-história, com o tem sido
às vezes cham ada).21
A absoluta escassez de fcfntes proporcionou um enorm e estí­
m ulo ao desenvolvim ento de novas técnicas e m étodos. O passado
tinha de ser interrogado p o r“ outros m eios. M ais um a vez, é
relevante a com paração com os Annales e sua nouvelle histoire. Em
am bos os casos têm sido aplicadas a arqueologia, a cartografia, a
lingüística e a onom ástica. A antropologia tam bém desem penhou
um papel im portante na história africana. N a verdade, a distinção
entre o antropólogo e o historiador não é de form a algum a m uito
aguda.
A m ais fam osa das técnicas desenvolvidas para prom over
novas fontes para a história africana foi, é claro, o estudo da tradição
oral. N este caso, a publicação de Jan V an sin a, De la tradition orale.
Essai de méthode historique, em 1961, m arcou época. Rapidam ente
traduzida para o inglês (O ral tradition, 1965), o livro teve um
trem endo im pacto sobre a história africana.22 N o m eio term o entre
o ingênuo e o cético, V an sin a desenvolveu um m étodo para a
utilização da tradição oral de um m od o crítico, assim propiciando
o seu em prego em escritos históricos sérios. V an sin a dividiu a
tradição oral em cinco categorias (form ulários, poesia, inventários,
narrativas, com entários), cada um a com várias subdivisões. D ecla­
rava que a história oral não deveria ser aceita tacitamente, só
devendo ser utilizada após um a verificação crítica, prestando-se
atenção ao im pacto da im portância social, dos valores culturais e
da personalidade dos escritores. Deveria tam bém , tanto quanto
possível, ser colocada em confronto com outras fontes, com o, por
exem plo, achados arqueológicos ou docum entos escritos. A lguns
historiadores (e antropólogos) eram m ais céticos a respeito da
2 1 . H . Brunschw ig, “ U n fauxprob lèm e: 1’ethnohistoire” ,A n n alesE .S .C ., 20, p. 291-300,
1965.
2 2 . J. V an sin a, De la tradition orale. E ssai de méthode historique, Tervueren, 1961.
T rad u ção inglesa: O ral Tradition, A Study in Historical Methodology, Lon dres, 1965.
112
PETER BURKE
tradição oral e acreditavam, com o devido respeito a V an sin a, que
ele superestim ava suas possibilidades, m as é inegável que sua obra
e suas idéias influenciaram enorm em ente a história africana.23
Sejam quais forem as possibilidades oferecidas pela tradição
oral e por outras fontes não ortodoxas, perm anece o fato de que,
n o que se refere a docum entos escritos, a África é bastante carente.
Evidentem ente é verdade que isso tam bém ocorre para alguns
períodos da história européia, para os quais os docum entos são
tam bém m uito escassos, assim com o para a A m érica pré-colombiana, a A ustrália pré-cookiana etc., e por isso a história africana é
excepcional, m as não única. D o m esm o m odo, parece im possível
um a com paração entre a historiografia da Á frica e aquela da
Europa. Podem ser estudados desenvolvim entos de longo prazo,
m as um a história estritamente factual ou événementiel é com
freqüência im possível. N o m om ento está tam bém em voga a
abordagem estrutural ou de longo prazo’ na história européia, m as
isso é um a questão de escolha. N a África, a história estrutural não
é um a escolha, m as a única possibilidade. N ão se é seduzido por
ela, m as con den ado a ela.24
N as últim as décadas surgiram vários historiadores africanos
no fórum internacional, e seu papel torna-se cada vez m ais
proem inente. D a m esm a form a, deve-se reconhecer que o grande
salto para diante n a história africana é, em grande parte, devido
a historiadores europeus e am ericanos, especialm ente os britâni­
cos. O Journal of African History - cujo prim eiro núm ero apareceu
em 1 9 6 0 - foi, com o disse Terence Ranger, “ um com b in ad o de
m anifesto, alvará, program a e vitrina para o cam p o ” .25 O sem i­
nário de R olan d Oliver, n a Escola de Londres de Estudos
O rientais e A frican os, foi ch am ad o de “a prim eira proclam ação
n o m u n d o para a apresentação d a nova obra sobre o passad o da
2 3. E m algum as de su as últim as ob ras o próprio V an sin a parece m ais cético qu e antes.
V er P. Salm o n , lntroduction à Vhistoire de 1’Afrique, Bruxelas, 1986, 126f.
2 4. V er H . Brunschw ig, “ U n e histoire de 1’A frique noire est-elle possible?” , em Mélanges
en 1’honneur de Fernand Braudel, 2 v., T o u lou se, 1973, v. I, p. 75-87.
2 5. V e r T . R anger, “ U sa b le Past” , p. 17.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
113
Á frica” .26 Short History ofA frica, de O liver e Fage, vendeu m ais de
um m ilhão de exem plares e foi provavelmente o livro m ais
influente publicado sobre a história africana.
■
O s historiadores franceses tam bém desem penharam um papel
importante, ainda que maiS m odesto. Em 1961, H enri Brunschwig, ex-aluno de M arc Bloch e Lucien Febvre em Estrasburgo,
foi convidado por Fernand Braudel para apresentar a história
africana na École de H autes Etudes. Seu sem inário tornou-se um
local de encontro para estudiosos franceses e africanos. Yves
Person, autor de um a história m onum ental e inovadora de Sam ori,
e C atherine Coquery-Vidrovitch, não apenas escreveram eles m es­
m os livros» im portantes, m as tam bém levaram o tema à U niversi­
dade de Paris.27 O utras universidades (Abc, Bordeaux) tam bém
ofereceram cursos e sem inários sobre história africana, além de um
grande núm ero de estudantes africanos ter apresentado disserta­
ções de doutorado nas universidades francesas.
A contribuição das universidades am ericanas foi significativa,
particularm ente aquela das três principais escolas de Yale, U CLA
e, acim a de tudo, M adison (W isconsin). A queles historiadores
am ericanos que desem penharam um papel de liderança n a segun­
da e terceira gerações dfe historiadores africanos foram em sua
m aioria alunos de C u rtin e V an sin a em M adison. N o m om ento,
im portantes escolas de história existem tam bém em várias univer­
sidades da própria África (Nigéria, Kenya, Zaire). O período de
dom ínio europeu está claram ente superado.
Retrospectivam ente, grande parte do debate sobre as possibili­
dades e im possibilidades d a história africana e asiática parece
frívolo, n ão som ente devido ao decréscim o n a sensação da supe­
rioridade européia, m as tam bém às m udanças n o estudo da própria
história. O an tagonism o colonialista versus nacionalista faz sentido
2 6 . The Blackwell Dictionary of Historians, O xford , 1 988, p. 30 8 s.v. O liver* R.
2 7 . C . Coquery-V idrovitch, Le Congo au temps des grandes comf>agnies concessionnaires,
Paris, 1 9 7 2 ; Y . Person, Samori: une Révolution dyula, 3 v., D akar, 1 9 6 8 ,1 9 7 0 , 1976.
V er sob re isso tam bém : H . Brunschw ig, “ French H istoriography Since 1945
C o n ce rn in g B lack Á frica” em E m m er and W esselin g, Reappraisals, p. 84-97.
114
PETER BURKE
na estrutura*da história política, m as em outros cam pos da história
encontram os um a abordagem diferente. A história social é estuda­
da a nível da aldeia, da região, do grupo étnico. A história cultural
é analisada em um a escala m uito m ais am pla que aquela do
estado-nação. C onceitos com o civilização hindu ou javanesa ou “ o
m u n d o do Islão” são im portantes aqui. A história econôm ica
trabalha com grandes unidades, com o o O ceano Indico, o Sudeste
da Á sia ou m esm o a econom ia m undial. N este tipo de abordagem ,
a oposição colonial versus anticolonial não faz m uito sentido.
Será que isto significa que o im pacto do colonialism o sobre a
história de além-mar está superado e que as atitudes ocidentais e
não ocidentais encontraram um com pleto equilíbrio? N ão neces­
sariam ente, pois em dois aspectos ainda existe um dom ínio
ocidental. Em prim eiro lugar, com o resultado da expan são colo­
nial, grande quantidade de livros, docum entos e outros materiais
sobre o m u n d o de além-mar tem sido levado para a Europa e está
agora disponível em arquivos e bibliotecas europeus. Isso significa
que para estudar seu próprio passado, os historiadores não-europeus terão de continuar a ir à Europa. Em segundo lugar, e tam bém
em grande parte com o conseqüência do colonialism o, n o m undo
ocidental um a grande tradição foi fundam entada no cam po de
estudos não ocidentais, em que ele ainda desem penha u m papel
preponderante. Por outro lado, praticamente não há historiadores
africanos ou asiáticos que estudem a história e a sociedade européia.
D esde que o O cidente tem seus orientalistas, m as o O riente não
p o ssu i “ ocidentalistas” , não pode haver um real equilíbrio.
Para contrabalançar, pode-se dizer que o desenvolvim ento da
história africana e asiática foi um fenôm eno natural e necessário.
M as tam bém nos deixa com u m problem a. Em bora seja verdade
que a história africana e asiática é em grande parte autônom a, é
tam bém verdade que desde cerca de 1500, a história da África e
da Á sia tornou-se relacionada àquela da Europa. A história asiática
é m uito m ais que um a extensão da história da Europa, m as tam bém
não pode ficar com pletam ente isolada da história européia. O
desenvolvim ento central da história m oderna é a crescente inter-
A ESCRITA DA HISTÓRIA
115
relação e o entrelaçam ento de várias civilizações e econom ias
anteriorm ente isoladas. Isso resultou n o “ sistem a m undial m oder­
n o ” (W allerstein) e na “civilização da m odernidade” (Eisenstadt)
que possu ím os hoje. N ão se pode com preender este processo,
con sideran do apenas partes isoladas da história, pois isso seria
deixar escapar o tem a central da história m undial m oderna. A
história m undial não pode ser considerada idêntica à história
européia ou ocidental; nem pode ser concebida com o um a série
de desenvolvim entos isolados. Enfrentar este problem a é a preo­
cupação central da história da expan são européia com o ela se
desenvolveu n o período pós-descolonização.
,
Expansão e reação
O estudo d a expansão européia foi tam bém influenciado por
fatores externos e internos. A queda rápida dos im périos coloniais,
po r exem plo, levou ao questionam ento de sua prévia estabilidade
aparente. A ascensão do im pério am ericano, u m im pério sem
colônias, estim ulou u m repensar de am bas as técnicas, inform al e
form al, do im perialism o. A em ergência da C h in a levou a um a
reavaliação das possibilidades científicas e navais do país e, assim ,
a novas questões sobre as diferenças entre a expansão chinesa e o
início d a expan são européia.
0
Por outro lado, os fatores internos m udaram a natureza tam ­
b ém dos estudos de expansão, e tam bém se m anifestando nesse
cam po a tendência geral em prol da história social e econôm ica.
A s questões sobre monetarização, transporte m arítim o, ouro e
prata, os lucros do im pério etc., eram colocadas de um a nova
m aneira e estas poderiam com freqüência ser respondidas com a
ajuda de u m com putador.28 A história social tornou-se um assunto
2 8 . U m inform e útil sob re esta qu estão é T . Lindblad, “C o m p u ter A pplications in
E xp an sio n H istory: A Survey” , Second Bulletin of the E S F Network on the History of
European Expansion, Su plem ento d e itinerário, 12, p. 2-61, 1988.
PETER BURKE
116
em m od a e isso estim ulou o estudo da migração, do tráfico de
escravos, das relações raciais, d a urbanização e das mentalitês. A
ciência política influenciou a história política, sugerindo o estudo
de tópicos, com o tom ada de decisões, opinião pública, o papel de
grupos de interesse especial etc.
Em bora, n o nível teórico, tenha sido question ada a distinção
tradicional entre um a prim eira e um a segunda fase de expansão,
n a prática real a divisão do trabalho entre os m odernistas e os
estudantes de história contem porânea é ainda m uito visível. T ra­
dicionalm ente, n o início da expan são m oderna, a ênfase está
colocada sobre as grandes descobertas, os navios e a navegação, as
com panhias e o com ércio, a migração, os sistem as de plantação e
as sociedades escravagistas. C harles Boxer e J.H . Parry escreveram
livros bem sucedidos buscando apresentar um a visão geral dos
im périos m arítim os.29 A série de M innesota sobre a história da
Europe and the World in the Age of Expansion tam bém lançou um a
série de livros sobre esses tópicos. Em m uitos desses cam pos, novas
abordagens foram apresentadas, novas perguntas colocadas e n o­
vas técnicas aplicadas. G lam an n , Steensgaard e C h audh u ri publi­
caram estudos pioneiros sobre as C om p an h ias das índias, C urtin
realizou um trabalho desbravador sobre o tráfico de escravos,
C h au n u sobre o m undo adântico, Bailyn sobre a migração, e
m uitos m ais poderiam e deveriam ser m en cion ados.30 M uitas das
questões aqui discutidas estão intim am ente relacionadas a tópicos
2 9 . C .R . B oxer, The Portuguese Seaborne Empire, 1418-1825, N o v a York, 1 969; C .R .
Boxer, The Dutch Seaborne Empire, 1 6 0 0 1 8 0 0 , Londres, 1 965; J.H . Parry, The
Spanish Seaborne Empire, N ova York, 1966.
3 0 . K . G lam an n , Dutch-Asiatic Trade 1 6 2 0 1 7 4 0 , 2 ed., H aia, 1 9 8 0 ; N . Steensgaard, The
A sian Trade Revolution of the 1 7th Century. The E a st Índia Companies and the Decline
o/t/le C aravan Trade, C h ic ago /L o n d res, 1974; K .N . C h au d h u ri, The Trading World
o fA sia and the English E ast índia Com/xm^y, 1660-1 760, C am b rid ge, 1 978; P. C urtin,
The Atlantic Slave Trade: a Census, M ad iso n , W is., 1 969; P. e H . C h au n u , Séville et
l’Atlantique, 1 5 0 4 1 6 5 0 , 12 v., Paris, 1956-60; B . Bailyn, Voyagers to the West;
Emigration from Britain to America on the Eve ofthe Revolution, Londres, 1 987. U m a
síntese recente é G .V . Scam m ell, The First Imperial Age: European Overseas Expansion,
c.1400-1715, Lon dres, 1989.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
117
ile debate im portantes n a história européia, tais com o as teorias
sobre as origens do capitalism o, as “ Fases I e 11” , a depressão geral
ilo século dezenove, a revolução dos preços etc. Entretanto, deveria
ser reconhecido que não foi oferecida nenhum a teoria geral da
expansão européia. E m bora n a .história da expansão dos séculos
dezenove e vinte o debate fosse dom inado pelo conceito do
im perialism o, não havia tal coisa n os estudos iniciais de expansão,
pelo m enos até Im m anuel W allerstein apresentar sua teoria sobre
o m oderno sistem a m undial.
„ Sistema mundial de Wallerstein
Im m anuel W allerstein, cientista social da U niversidade de
C olu m bia, estudou inicialmente a descolonização africana e os
problem as de desenvolvim ento. Su a m aneira de pen sar sobre esses
tópicos foi influenciada pela dependência e pelas teorias de subde­
senvolvim ento. N o entanto, W allerstein voltou-se para a história,
porque acredita que esses problem as de desenvolvim ento só po­
dem ser inteiram ente com preendidos em seu contexto global e sob
u m a perspectiva histórica. O trabalho histórico com o qual ele está
m ais familiarizado é aquele do grupo d o s Annales, particularmente
o de Fernand Braudel. H á n a verdade u m a forte sim ilaridade entre
as idéias de W allerstein e a estrutura conceituai do terceiro volum e
da ob ra de Braudel sobre M aterial Civilization, Economy and
Capitalism .31 A té agora, a principal publicação de W allerstein é um
(planejado) estudo de quatro volum es do que ele den om ina de The
Modem World Sustem. O prim eiro volum e, publicado em 1974,
apresentou a estrutura analítica do projeto.32 Foi u m a fonte de
31. F. Braudel, Civilisation matérielle, économie et capitalisme, X V e'X V IIIe siècle, Paris,
1 979.
3 2 . I. W allerstein, The Modem World System: C apitalist Agriculture and the Origins of the
European World System: C apitalist Agriculture and the Origins of the European
World-Economy in the Sixteenth Century, N ovaY ork, 1574.
118
PETER BURKE
inspiração para m uitos outros estudiosos e levou a um interessante
debate sobre as origens da expansão européia e do capitalism o.
W allerstein declara que a econom ia m undial atual rem onta ao
final d o século quinze. A í encontram os os prim órdios de um
sistem a m undial que se desenvolveu inteiramente nos séculos
dezesseis e dezessete e já estava m aduro antes da Revolução
Industrial. O “ ponto crítico sistêm ico” pode ser localizado na
resolução da crise do feudalism o, que ocorreu aproxim adam ente
entre 1450 e 1550. N o período 1550-1650 todos os m ecanism os
básicos do sistem a m undial capitalista estavam no devido lugar.
Em vista disso, a Revolução Industrial de cerca de 1760 a 1830
não pode m ais ser considerada com o um ponto crítico im portante
na história d a econom ia m undial capitalista.
Segundo W allerstein, o sistem a m undial é caracterizado por
um a ordem econôm ica internacional e.um a divisão internacional
do trabalho. C on siste de u m âm ago, um a semiperiferia e um a
periferia, cuja determ inação de posição m uda através do tem po
(regiões podem ascender ao âm ago ou descer à periferia). A história
m oderna é, n a verdade, a história da integração con tín ua de cada
vez m ais partes do m undo neste sistem a m undial. O sistem a
m undial opera de m aneira tal, que faz com que o centro receba os
lucros, assim explodindo a periferia. Isso é realizado pelo com ércio
internacional, considerado um jogo de som a zero: os lucros de um a
parte são iguais às perdas da outra. O s lucros do com érció
internacional tornaram possível a Revolução Industrial, que por
su a vez só confirm ou a existência de relações desiguais e reforçou
o desenvolvim ento do subdesenvolvim ento.
A obra de W allerstein foi bem recebida pelos cientistas sociais,
m as m ais criticamente pelos historiadores, que, em particular,
criticaram a grande ênfase que o m odelo coloca n o com ércio
internacional. A lguns argum entaram que as econom ias pré-industriais não eram capazes de produzir um superávit significativo a
ponto de tornar possível u m com ércio internacional. A ntes dos
navios a vapor, as disponibilidades de transporte eram m uito
lim itadas. Por volta de 1600, o conjunto das frotas m ercantes dos
A ESCRITA DA HISTÓRIA
119
Estados europeus p o ssu ía apenas a tonelagem de um ou dois
(cerca de 1 8 0 0 de sete ou oito estados) dos supertanques de
hoje.33 M esm o n as nações com erciais par excellence, com o a
G rã-Bretanha e a R epública H olandesa, o com ércio de exportação
representava u m a porcentagem m uito pequen a d o produto n a­
cional bruto (e a exportação para a periferia era apen as um a
pequ en a porcentagem d o com ércio ultram arino total).34 O capital
acum ulado na G rã-Bretanha com o conseqüência d o com ércio
ultram arino n ão pode ter representado m ais de 15% d o s gastos
brutos durante a Revolução In du strial.35 Falan do de m od o geral,
os efeitos d a expan são européia sobre as regiões u ltram arinas foi
apen as regional. T an to n a ín d ia (produtos têxteis), quanto na
In don ésia (colheitas de grãos), apenas regiões lim itadas foram
afetadas pela dem an da européia. N o que tange à África, o
com ércio de produtos era m uito lim itado. M uito m ais im portante
era o tráfico de escravos no A tlântico. Entretanto, a pesqu isa
recente tende a m inim izar as con seqüên cias dem ográficas de
lo n go prazo d esse tráfico. N as A m éricas e n o C aribe, o im pacto
da ex pan são européia foi o m ais dram ático, n ão tanto devido ao
com ércio, m as por causa d o declínio dem ográfico da população
original.
U m p o n to in teressan te d a teoria de W allerstein é seu
qu estio n am en to d o verdadeiro conceito de u m a Revolução
In d u strial e, assim , d a distin ção entre co lo n ialism o pré-industrial e in du strial. E ssa distin ção foi um argum en to central n a
teoria clássica d o im perialism o, teoria qu e tem d o m in a d o a
h istoriografia d a ex p an são eu ropéia d o final do século dezenove
e d o século vinte.
3 3 . V er J. de V ries, The Economy of Europe in an Age of Crisis, 1600-1 750, C am b rid ge,
1 9 7 6 , p. 192-3.
,
3 4 . V er R. Floud e D . M cC loskey (ed.), The Economic History of Britain since 1 700, 2 v.,
C am b rid ge, 1 9 8 1 , v. I, p. 87-92.
3 5 . V e r P. 0 ’Brien, “ E u ropean E con om ic D evelopm ent: T h e C on tribu tion o f the
Periphery” , Economic History Review, 3 5, p. 9, 1982.
120
PETER BURKE
*
Imperialismo
E m bora a palavra im perialism o exista desde a década de 1860,
o im perialism o com o conceito histórico só teve início com a
publicação de Imperialism: a Study, de J.A . H obson , em 1 9 0 2 .36
Para explicar o im perialism o, H ob son declarou que, em conse­
qüência do sistem a capitalista, a econom ia britânica sofria de
subconsum o. Isso significava que o capital excedente não poderia
ser lucrativamente investido na própria Inglaterra. Por isso, em
suas fam osas palavras, os capitalistas estavam “ buscando m ercados
estrangeiros e investim entos estrangeiros para adquirir os bens e
o capital que eles não podiam vender ou utilizar internam ente” .37
A ssim nasceu a teoria do im perialism o capitalista.
A teoria de H ob so n foi logo absorvida, adaptada e tornada m ais
sofisticada pelos pensadores m arxistas, em especial, os alem ães,
com o Karl H ilferding e R osa Luxemburg. A ssim fazendo, esses
autores tam bém m odificaram o argum ento de H obson . Enquanto
para H o b so n a evasão do capital era um a conseqüência típica, m as
não necessária do capitalism o, para os m arxistas o im perialism o
tornou-se algo inevitável. A fórm ula m ais fam osa vai ser encontrada
em Lênin, que em 1919 denom inou o im perialism o de “ o m ais
alto estágio do capitalism o” . Em bora as diferenças entre H ob so n
e Lênin sejam evidentes, logo virou lugar-comum a referência às
“teses de H obson-Lênin” . N a verdade, esta se tornou um a expli­
cação padronizada do im perialism o europeu, durante os anos
20 e 30.
Som ente nos an os 60 foi reaberta a discussão geral sobre o
im perialism o. A descolonização, assim com o a ascensão do im ­
pério econôm ico am ericano, tem claramente m uito a ver com isso.
Em 1961, os historiadores britânicos J. G allagher e R. Robinson publicaram o livro que iria ser o reexame m ais influente do
36. J.A . H o b so n , Imperialism: a Study, Lon dres, 1902.
3 7 . Ib id ., p. 85.
121
A ESCRITA DA HISTÓRIA
im perialism o britânico: Africa and the Victorians,38 U m ano antes,
H enri Brunschw ig havia publicado Mythes et réalités de Uimpérialisme colonial français, 1871-1914, ensaio que estabeleceu a tônica
para todos os estudos posteriores sobre o im perialism o francês.39
Seguiram-se novas interpretações d o im perialism o belga, alemão,
italiano, português e, finalmente, do holandês. Poderíam os falar
de um a revolução historiográfiGa, cujas conclusões podem ser aqui
resum idas apenas m uito brevemente para os dois poderes mais
im portantes envolvidos.
G allagher e R o bin so n , prossegu in do n a m esm a linh a que
haviam desenvolvido em seu artigo ‘ The Imperialism of Free
Trade’40, declararam que o cham ado período im perialista (1880­
1914) só era diferente do período m édio vitoriano de comércio
livre a ele precedente e supostam ente antiim perialista, em seus
m eios, não em seus fins: os vitorianos dessa época podiam atuar
sem m edidas políticas. O s últim os vitorianos tiveram de formalizar
seu im pério. Esta formalização foi induzida por crises locais e
situações de fronteira que criaram vácuos políticos que tiveram de
ser preenchidos pelos britânicos. Su as ações tinham um motivo
estratégico, e não econôm ico, e sua política era essencialm ente
defensiva e relutante. Em resum o, G allagher e R obin son dem oli­
ram o conceito de um período im perialista e tam bém a explicação
econôm ica tradicionalm ente a ele relacionada.
Em bora suas conclusões fossem em alguns aspectos sim ilares,
a revisão de Brunschw ig do im perialism o francês foi bem diferente.
Brunschw ig aceitava que, n o caso d a França, houve um período
im perialista definido, ou seja, m ais ou m enos entre 1880 e 1914.
Isso, na verdade, dificilmente poderia ser negado. M as em bora ele
fosse tradicional n esse aspecto, era revolucionário n a interpretação
3 8 . R. R o b in so n , ]. G allagh er (com A . Denny), A frica and the Victorians: the O fficial
M ind o f Imperialism, Lon dres, 1961.
,
3 9 . H . Brunschw ig, M ythes et réalités de 1’im périalism ecolonialfrançais, 1871-1914, Paris,
1 960.
4 0 . R. R o b in so n e J. G allagh er, “ T h e Im perialism o f Free T rad e” , Economic History
Review, 6, p. 1-15, 1953.
122
PETER BURKE
do fenôm eno. D epois de um cuidadoso exame dos interesses
econôm icos dos colonialistas franceses, assim com o do quadro do
equilíbrio econôm ico do im perialism o francês, chegou à conclusão
de que explicá-lo em termos econôm icos seria um mito. O im pério
não com pensava, não havia elos entre protecionism o e im perialis­
m o, e os im perialistas franceses não possuíam m otivos ou interes­
ses econôm icos. C onseqüentem ente, devia haver um a explicação
diferente. Segundo Brunschwig, esta seria encontrada na época de
ascensão do nacionalism o na Terceira República, profundam ente
afetada pela derrota de 1870. A ssim , com o aquele de G allagher e
R obin son, seu livro é basicam ente um a refutação da teoria econô­
m ica do im perialism o.
O s livros acim a m encionados aboliram a explicação sim ples e
tradicional do im perialism o em term os das necessidades econôm i­
cas, em bora não apresentassem um a análise dos aspectos econô­
m icos do im perialism o. Para tentar resolver esta im ensa questão
n ão apenas é preciso resolver um grande núm ero de problem as
teóricos e m etodológicos, m as tam bém coletar e analisar um a
enorm e quantidade de dados. M ais um a vez o com putador torna
isso possível. D ois historiadores am ericanos, L. D avis e R. Huttenback, m uito adequadam ente vinculados ao Instituto de T ecnologia
da C alifórnia, fizeram exatamente isso para a questão do im peria­
lism o britânico. Reuniram u m a enorm e quantidade de dad os e os
analisaram através de m étodos m uito sofisticados. Seu livro Mammon and the Pursuit of Empire41 parece apresentar a resposta
definitiva à velha e fam osa interrogação: O im pério com pensava?
A resposta é um pouco desapontadora. N ão! D epois de 1880, os
índices de lucro, inicialmente altos, sobre os investim entos colo­
niais caíram abaixo dos retornos com paráveis de outros destinos
além-mar, ou m esm o da própria Grã-Bretanha. A ssim , H ob so n e
Lênin estavam errados a respeito da relação entre o capital exce­
dente e a urgência de expansão além-mar. A s colônias dependentes
4 1 . L.A . D avis e R .A . H uttenback, M ammon and the Pursuit o f Empire: the Political
Econom^ of Britisk Imperialism, 1860-1912, C am b rid g e, 1 986.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
123
não eram recipientes im portantes do capital de Londres. N ão pode
haver dúvida de que esta não é toda a resposta, pois Davis e
H uttenback tam bém declaram que para alguns capitalistas esses
investim entos estavam longe de ser lim itados.42
N a França, so b a influência dos argum entos de Brunschwig,
m esm o os autores m arxistas aceitaram sua visão de que os aspectos
econôm icos d o im peralism o francês eram negligenciáveis. Em um a
tentativa de resgatar a interpretação marxista, declararam que o
im perialism o francês podia ser encontrado em qualquer parte, na
R ússia, no Im pério O tom an o etc. Este exercício dialético resultou
na conclusão de que o colonialism o francês não era imperialista e
o im perialism o francês não era colonial.43 Para encontrar um a
resposta m ais em pírica para a questão de econom ia e império, a
Professora C atherine Coquery-Vidrovitch tom ou a iniciativa de
com por um banco de dados do com ércio colonial francês (1880­
1960). Seu colega parisiense, Jacques M arseille, foi o primeiro a
fazer um u so extensivo dessa rica docum entação para sua disserta­
ção Empire colonial et capitalisme français: histoire d'un divorce,44 A
conclusão de M arseille é de que houve um rom pim ento na relação
entre capitalism o e colonialism o. N o período inicial, 1880-1930,
a indústria francesa precisava do escoadouro do m ercado colonial
protegido, e o casam ento do colonialism o com o capitalism o teve
um resultado feliz. N o segundo período, 1930-60, o protecionism o
tornou-se um obstáculo para a m odernização industrial intensa­
m ente necessária. O divórcio foi inevitável. M as a descolonização
já estava a cam inho. O fim do Im pério em 1960 foi um a bênção
para o capitalism o.
A ssim foi para a Europa, m as qual foi o im pacto do imperia­
lism o n o m u n d o de além-mar? Esse é um tem a com plicado, sobre
o qual prossegue um apaixonado debate desde que a questão foi
4 2 . V er tam bém o s artigos de P.J. C ain e A .G . H o p k in s sobre esta questão em Edbnomic
History Review, 33, p. 4 6 3 - 9 0 ,1 9 8 0 , 39, p. 5 0 1 -5 2 5 ,1 9 8 6 e 4 0, p. 1 -2 6 ,1 9 8 7 .
4 3 . V er J. Bouvier e R. G irault (ed.), L'Impérialisme français d'avant 1914, P aris/H aia,
1976.
.
4 4 . ]• M arseille, Emf>ire colonial et capitalisme /rançais: Kistoire d 'un divorce, Paris, 1984.
124
PETER BURKE
levantada». H á poucas coisas sobre as quais os debatedores concor­
dam , m as um feto é inegável: o verdadeiro im pacto do O cidente
sobre os territórios de além-mar ocorreu depois da Revolução
Industrial. Q uais foram os efeitos disso? E claro que o colonialism o
foi organizado de m aneira a prom over os interesses do poder
colonial. E claro que isso im plicou ôn us de vários tipos para os
povos colonizados. Entretanto, além do dom ínio das verdades
básicas com o essas, há um a vasta zona de problem as que não
podem ser respondidos de form a sim ples. H á o fenôm eno bem
estabelecido da desindustrialização (especialm ente no caso da
indústria têxtil indiana). H á tam bém o problem a da especialização
em colheitas de grãos. Por outro lado, h á desenvolvim entos de
longo prazo, que resultaram de investim ento na infra-estrutura
(m ineração, estradas, portos), na m elhoria da adm inistração, da
educação, da saúde. Traçar um quadro do equilíbrio econôm ico
do colonialism o é extremam ente difícil. N ão som ente devido à falta
de dad os, m as tam bém devido a problem as teóricos.
Se é inaceitável, com o foi convincentemente dem onstrado pela
pesqu isa m oderna, a explicação sim ples de que o im perialism o foi
o resultado do capitalism o, perm anece a questão: Q ual foi a razão?
Por que houve afinal “um a época de im perialism o”? N o que diz
respeito à Grã-Bretanha, a resposta a esta questão é fornecida
tam bém por G allagher e R obin son. Eles declararam que n ão havia
nenhum a. O próprio conceito de um a época de im perialism o
(1880-1914) é um a falácia. C on sid erar esse período com o o zênite
do im perialism o britânico é interpretar mal su a verdadeira nature­
za. O núm ero crescente de áreas verm elhas no m apa m undial
durante as décadas de 1 8 8 0 e 1890 parece sugerir que o poder da
G rã-Bretanha estava aum entando. Entretanto, na realidade esta
n ão era u m a indicação de força, m as de fraqueza. A G rã-Bretanha
era m ais poderosa no início do século dezenove q u an d o regida por
m eios inform ais, do que n os últim os an os de dom ínio político
form al.45
4 5 . R o b in so n e G allagher, “ Im perialism o f Free T rad e” (ver nota 40).
A ESCRITA DA HISTÓRIA
125
O conceito de im pério inform al é m uito atraente e m uito
inspirador, porque explica um grande núm ero de im portantes
fenôm enos. T am bém proporciona um significado m uito m ais
am pío ao term o im perialism o. N este tipo de análise, o im perialis­
m o existe em diferentes períodos e em diferentes form as. A tarefa
do historiador é explicar a transição de um a form a para outra. N o
argum ento de G allagher e R obin son, as razões d isso não serão
encontradas com os políticos da Europa - que de qualquer m odo
preferiam o im pério inform al - m as em situações que se alteram
no além-mar. O im perialism o é considerado u m sistem a de cola­
boração entre as forças européias e as não-européias. A s form as em
m utação do im perialism o'resultam de m udanças em term os de
colaboração.46 E óbvio que em u m a análise desse tipo, a descolo­
nização tam bém perde m uito de sua im portância com o um ponto
crítico. Se existe um im perialism o inform al antes do Im pério,
logicam ente pode tam bém haver um im perialism o inform al depois
do Im pério.47 A q u i o debate sobre o im perialism o está relacionado
com aqueles sobre descolonização e subdesenvolvim ento.
A descolonização e o período posterior
S ó recentem ente a descolonização tom ou-se um tem a de
análise e debate histórico. E evidente que m uita coisa já havia sido
escrita a respeito, m as tudo isso foi m uito em caráter événementiel
e escrito sob um a perspectiva claram ente ideológica. A m esm a
canção foi cantada em toda parte. O s povos colonizados queriam
se to m ar independentes. D epois da Segunda G uerra M undial, eles
lutaram contra seus opressores e rejeitaram o jugo do dom ínio
colonial. D urante um longo tem po pareceu que n ada m ais im por­
4 6 . R. R o b in so n , “ N on-E uropean F ou n d ation s o f Eu ropean Im perialism : Sketch for a
Th eory o f C ollab oration ” , em R, O w en e B. Su td iffe (ed.), Studies in the Theory of
Imperialism, Lon dres, 1 972, p . 117-40.
4 7 . V er W .J. M o m m sen e J. O sterh am m el (ed.), Imperialism and A/ter: Continuities and
Discontinuities, Lon dres, 1986.
126
PETER BURKE
tava. Recentemente, foram publicados vários estudos coletivos e
com parativos que oferecem novas interpretações e colocam novas
questões. A descolonização está finalm ente em ergindo, m ais com o
um tem a de análise histórica, do que com o um ato de D eus ou o
resultado das leis da natureza.48
A s questões discutidas são basicam ente m uito sim ples. P o rq u e
a descolonização ocorreu naquele m om ento, e por que assum iu
aquelas várias formas? A descolonização não é m ais exclusivamente
descrita com o a história dos atos de líderes políticos em um curto
período de tem po (1947-62). Seus aspectos de longo prazo, estru­
turais e conjunturais, tam bém têm de ser levados em conta. A
análise das várias form as de descolonização centraliza-se em torno
das três forças que estavam em atividade: o poder colonial, a
situação na colônia e o fator internacional. A interação dessas forças
decidiu as form as, m as não o resultado do processo, porque, apesar
das diferenças, o resultado foi sem pre o m esm o: a independência.
M as m ais um a vez surge aqui um a questão. O que realmente
significa a independência? Será que o fim do Im pério foi tam bém
o fim do im perialism o, ou sua continuação por m eios diferentes?
A qui, a questão da descolonização está relacionada a outro tópico,
a teoria da dependência.
A teoria da dependência foi apresentada pela prim eira vez pelo
econom ista argentino Raul Prebish, em 1947, e posteriorm ente
desenvolvida n os anos 60 por estudiosos latino-americanos e por
norte-am ericanos interessados n a A m érica Latina. A teoria nasceu
da observação da perm anência dos problem as da A m érica Latina:
pobreza, desigualdade, favelas, dívidas externas, a dom inação do
capital estrangeiro: em um a palavra, dependência. A teoria da
dependência declara que essa situação não é o resultado de um a
falta de desenvolvim ento, m as do subdesenvolvim ento. O riginária
de estudos latino-americanos, a teoria foi m ais tarde organizada e
elaborada, até se tornar um a teoria universal, aplicável não som ente
4 8 . V er H .L W esseling, “Tow ards a H istory ofD ecolon ization ", Itinerário, 11, p. 94-106,
A ESCRITA DA HISTÓRIA
127
.1 A m érica Latina m as a todo o Terceiro M un do. O Terceiro
M undo é encarado com o a periferia de um sistem a econôm ico
m undial, em que o centro, ou seja, o O cidente, está acum ulando
os lucros e m antendo a periferia em um a situação de perm anente
dependência. Portanto, o subdesenvolvim ento não é um a situação,
m as um processo. O Terceiro M un do não é subdesenvolvido, m as
está sen do subdesenvolvido pelo O cidente. A ndré G u n d er Frank
apresentou sua form ulação m ais interessante: “ o desenvolvim ento
do subdesenvolvim ento” .49
A teoria da dependência foi logo aplicada a várias partes do
Terceiro M undo, particularm ente à África. Sam ir A m in escreveu
extensivam ente sobre a questão e W alter Rodney publicou seu
fam oso livro sobre o problem a, com o título sugestivo Hovu Europe
Underdeveloped A frica.50 O problem a com a teoria é que explicar o
(sub)desenvolvim ento particular da África é tornar o continente
dependente de influências estrangeiras, durante a m aior parte de
sua história. Esta linha de pensam ento era um pouco contraditória
à tendência principal que desenvolvia a história africana n o m esm o
período, salientando a autonom ia da história africana. O s africanos
não eram m ais encarados com o m eras vítim as da expan são euro­
péia, m as em grande parte com o don os de seu próprio destino.
Enquanto os neom arxistas abraçavam a teoria da dependência, os
historiadores e antropólogos m arxistas clássicos enfatizavam a
autonom ia da história africana e tentavam m esm o descobrir um
“m od o de produção africano” .51
T an to a teoria da dependência, quanto o conceito de im pério
inform al foram de grande valor heurístico, porque questionaram
4 9 . A .G . Frank, “T h e D evelopm en t o f U n derdevelopm en t" em R.I. R h odes (ed.),
Imperialism and Underdevelopment: a Reader, N o v a Y ork e Lon dres, 1 960, p. 5-16.
V er sob re isso L. B lu ssé, H .L . W esselin g e G .D . W in iu s (ed.), History and Underde­
velopment, Leiden e Paris, 1980.
•
5 0 . W . R odney, How Europe Underdeveloped Africa, Lon dres, 1972.
5 1 . H á u m a vasta literatura sob re este tem a. Para u m a breve introdução, ver A .G .
H o p k in s, “C lio-A ntics: A H oroscope for A frican Econom ic H istory” em Fyfe, African
Studies, p. 3 1 4 8 .
128
PETER BURKE
algum as das'h ip ó teses fundam entais da história de além-mar e
assim m udaram n o ssa interpretação. O próprio conceito de um a
época de im perialism o com um início e um fim nítidos pode ser
derrubado, pelo m enos n o que diz respeito à Grã-Bretanha. O
zênite do Im pério Britânico está agora às vezes colocado no século
dezoito, com seu declínio já se iniciando n o dezenove. N ão
surpreende a questão colocada: “Por que o Im pério Britânico
durou tanto?”52 O perigo de conceitos e teorias com o esses é que
seu significado é superestim ado e eles se tornam a nova ortodoxia.
E um corretivo útil às interpretações existentes relativizar a im por­
tância de pontos críticos com o o início do im perialism o ou a
transferência de poder, m as não devemos tam bém subestim ar sua
im portância histórica. A perda e finalmente a recuperação da
independência política são cesuras históricas suficientemente im­
portantes, e n ão é conveniente deixar que sua im portância histórica
concreta desapareça em algum conceito m ais abstrato de depen­
dência. A q u i nos defrontam os com outro problem a com conceitos
com o este: eles são form ulados de um a m aneira tão abstrata que
cobrem todos os tipos de dom inação. A m ais recente contribuição
de R onald R obin son à teoria do im perialism o, a teoria “excêntri­
ca” , com ou sem im pério, sofre deste mal. N esta, seu últim o
m odelo, o im perialism o é concebido em “ term os do jogo dos
m ercados econôm ico e político internacionais, em que os graus de
m on opólio e com petição nos negócios nos níveis m undial, metro­
politano e local decidem sua necessidade e lucratividade” .53 E sta é
provavelm ente um a descrição correta, m as tam bém um a descrição
m uito abstrata do im perialism o. A assim etria do poder e as
m udanças nas form as de colaboração podem ser encontradas
através de toda a história. Talvez seja m ais conveniente ficar um
pouco m ais próxim o do processo histórico concreto e dar inteira
atenção aos aspectos específicos e singulares da expansão européia.
5 2 . P.M . Kennedy, “W hy D id the British E m pire L ast S o Lon g?” em P .M . Kennedy,
Strategy and Diplomacy, 1870-1945: Eight studies, Lon dres, 1 983, p. 197-218.
5 3 . R. R o b in so n , “T h e Excentric Idea o f Im perialism , W ith o r W ithou t E m pire” , em
M o m m sen and O sterham m el, Imperialism and After, p. 267-89.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
129
Isso nos traz de volta à questão com que com eçam os: “O que é
história de além-mar?" ou, preferivelmente, “ O que será ela no
futuro?”
Conclusão
Em 1979, q u an d o P.C. Em m er e eu publicam os um volum e
de ensaios intitulado Reappraisals in Overseas History, tam bém
tivemos de fazer a n ós m esm os a pergunta: “ O que é história de
além-mar?” C on clu ím os então que é um conceito m uito m ais
am plo do que a história da expansão européia, pois “ trata não
apenas dos encontros entre europeus e não-europeus, m as tam bém
dos sistem as econôm icos, sociais, políticos e culturais dos próprios
não-europeus” .54 Isso é verdade. C o m o observam os nesta contri­
buição, há de fato duas form as diferentes e claramente distintas de
história de além-mar: a história autônom a da Á sia e d a África e a
história da expan são européia. M as com o tam bém observam os,
esta situação não é satisfatória. Se há histórias autônom as da África,
da Á sia, da A m érica, da A ustrália etc., n ão há m otivo para se jogar
todas essas histórias n a cesta de lixo, pela única razão de elas não
serem européias, e cham ar isso de “história de além-mar” . A razão
de ter acontecido isso foi que depois de 1945 a história de além-mar
teve de encontrar u m novo foco, e os historiadores coloniais e seus
alun os voltaram-se para a própria história asiática e africana. Foi
pouco antes desses cam pos provarem seu direito de existência.
N esse m eio tem po, o termo "história de além-mar” serviu com o
um a cobertura neutra e por isso conveniente para suas atividades.
Esta form a de história de além-mar pode, por isso, ser considerada
com o um m ovim ento de em ancipação. Pode ser com parada com
a em ergência da história das m ulheres ou da história dos negros
ou, em um período anterior, com a história das classes trabalha­
5 4 . P .C . E m m er e H .L W esseling, “W h at is O verseas H istory?” em E m m er e W esseling,
Reappraisals, p. 3.
130
PETER BURKE
doras, dos cam poneses etc. A ssim que a em ancipação se conclui,
o tem a m u da o seu caráter. D o ponto de vista do historiador
profissional, ele continua a existir com o um a especialização, um
cam po especial de interesse, m as para o público torna-se parte da
história “geral” .
E sse é claram ente tam bém o caso da história africana e asiática.
Elas provaram seu direito de existência, assim com o a história
européia ou am ericana. A ssim sendo, este ram o particular da
história de além-mar está prestes a se desintegrar na história
africana ou asiática etc. M as isso tam bém tem um outro lado. A ssim
com o parte, m as não toda a história européia, pode ser entendida
com o história autônom a, o m esm o acontece com o m undo de
além-mar. D urante m ais ou m enos os últim os cinco séculos, as
histórias de várias partes do m undo tornaram-se interligadas e
várias civilizações influenciaram um a à outra. Este é o outro tópico
da história de além-mar e a im portância deste aspecto da história
m oderna está cada vez m ais evidente. So b esse aspecto, a história
de além-mar ganhou um lugar distinto n o cam po da história
m oderna, não com o um a disciplina especial ou um a subdisciplina,
m as com o um a form a particular de história m undial.
N o m om ento, parece que há duas abordagens, duas m aneiras
de se tratar o problem a da história m undial. U m a delas pode talvez
ser rotulada de m acrossociologia histórica. Este tipo de história é
caracterizado por um a abordagem de ciência social. D estaca um
fenônem o ou tópico social específico, assim com o a form ação, a
revolução ou a ditadura, e o analisa em vários contextos históricos.
D esse m od o pode-se distinguir sim ilaridades e dissim ilaridades
entre, por exem plo, acontecim entos n a Europa do século dezesseis
e na C h in a do século vinte. O objetivo do jogo é aprender m ais
sobre o processo histórico em geral.55 A outra abordagem é m ais
tradicional, n a m edida em que tenta distinguir um certo padrão
no desenvolvim ento da história m oderna e considera a escrita da
5 5. V er T . Sk ocp o l e M . Som er, “T h e U se s o f C om patative H istory in M actosocial
Inquiry” , Comparative Studies in SocieCy and History, 22, p. 174-97, 1980.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
131
história com o a descrição de processos e acontecim entos históricos
concretos. A história é tam bém estudada de um m od o com parati­
vo, m as dentro da estrutura de desenvolvim entos cronológicos. H á
m ais interesse nas diferenças entre vários desenvolvim entos e a
singularidade de alguns acontecim entos do que em suas sim ilari­
dades. A estrutura conceituai é aquela da unificação do m undo
com o um a conseqüência da expan são da Europa e da ascensão do
O cidente.56 A m b as as abordagens são caracterizadas por um forte
desejo de transcender os limites tradicionais, os pontos de vista
provincianos e as tendências viciosas nacionalistas. N o fim, elas
têm o m esm o objetivo, ou seja, tornar a disciplina ocidental
específica d a história aplicável à história m undial. Isso é necessário,
porque “ n ossa civilização é a prim eira a ter por seu p assado o
p assad o do m undo, n ossa história é a primeira a ser a história do
m u n d o” . E ssas palavras foram escritas por Huizinga há m ais de
m eio século atrás.57 O desafio de se extrair em suas conseqüências
é algo que ain da hoje estam os enfrentando.
56 . Próxim o a W allerstein, Eric R. W olf, Europe and the People Without History, Berkeley,
1 9 8 2 e P. C u rtin , C ross C ultural Trade in World History, C am b rid ge, 1 985, assim
co m o W . M cN eill, The Rise of the West: a History of the Hum an Community, C hicago,
1 9 6 3 , são relevantes p ara esta questão.
5 7 . ]. H u iiin g a, “ A D efinition o f the C o n ce p t o f H istory” , em R . K libansky an d H .J.
Paton (ed.), Philosophy and History, O xford, 1936, p. 8.
J
SOBRE A MICRO-HISTÓRIA
Giovanni Levi*
'
U m a dúvida sem u m fim não é nem
m esm o u m a dúvida.
L Wittgenstein, 1 9 6 9
N ão é por acaso que o debate sobre a micro-história não tem
sido baseado em textos ou em m anifestos teóricos. A micro-história
é essencialm ente um a prática historiográfica em que suas referên­
cias teóricas são variadas e, em certo sentido, ecléticas. O m étodo
está de fato relacionado em prim eiro lugar, e antes de m ais nada,
aos procedim entos reais detalhados que constituem o trabalho do
historiador, e assim , a micro-história n ão pode ser definida em
relação às m icrodim ensões de seu objeto de estudo. Por isso, o
leitor pode talvez se surpreender pela natureza um tanto teórica
deste artigo. N a verdade, m uitos historiadores que aderem à
m icro-história têm-se envolvido em contínuos intercâm bios com
as ciências sociais e estabelecido teorias historiográficas sem, con­
tudo, sentir qualquer necessidade de se referirem a qualquer
sistem a coerente de conceitos ou princípios próprios. A micro-
P rofessor de H istória d a U n iversidade de V eneza.
PETER BURKE
134
t
história, assim com o todo trabalho experimental, não tem um
corpo de ortodoxia estabelecida para dele se servir. A am pla
diversidade de material produzido dem onstra claram ente o quanto
é lim itada avariedade de elem entos com uns. Entretanto, em m inha
opinião, estes poucos elem entos com uns, com o ocorre na microhistória, são cruciais, e são eles que vou tentar exam inar aqui.
H á algum as características distintas na micro-história que
derivam daquele período nos anos 70, q u an d o se iniciou um
debate político e cultural m ais geral. N ão há nada particularmente
incom um n isso, pois os anos 70 e 80 foram, em quase todo o
m undo, an os de crise para a crença otim ista prevalecente de que
o m undo seria rápida e radicalm ente transform ado em linhas
revolucionárias. N aquela época, muitas das esperanças e m itologias
que antes haviam orientado um a parte im portante do debate
cultural, incluindo o dom ínio da historiografia, estavam se com ­
provando, não tanto inválidas, m as inadequadas diante das im pre­
visíveis conseqüências dos acontecim entos políticos e das realida­
des sociais - acontecim entos e realidades que estavam longe de
estar em conform idade com os m odelos otim istas propostos pelos
grandes sistem as m arxista ou funcionalista. A in d a estam os vivendo
as fases dram áticas iniciais deste processo e os historiadores têm
sido forçados a colocar novas questões sobre suas próprias meto­
dologias e interpretações. A lém de tudo, a suposição do automatism o da m udança foi corroída: mais especificamente, o que tem sido
posto em dúvida é a idéia de um a progressão regular, apesar de um a
série de estágios uniformes e previsíveis em que se imaginava que os
agentes sociais se alinhavam, conforme as solidariedades e os
conflitos em algum determinado sentido, naturais e inevitáveis.
O aparato conceituai com que os cientistas sociais de todas as
convicções interpretavam a m udan ça atual ou passad a foi sobrecar­
regado po r u m a carga de positivism o herdado. O s prognósticos de
com portam ento social estavam se com provando demonstravelm ente errôneos e esta falência do s sistem as e paradigm as existentes
requeria n ão tanto a construção de um a nova teoria social geral,
m as um a com pleta revisão dos instrum entos de pesqu isa atuais.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
135
Por m ais banal e sim plista que esta colocação p o ssa parecer, esta
percepção da crise é tão geral que apenas a mais sim ples m enção
pareceria necessária.
'
Havia, contudo, várias reações possíveis para a crise, e a
micro-história em si nada tnais é que um a gam a de possíveis
respostas que enfatizam a redefinição de conceitos e um a análise
aprofundada dos instrum entos e m étodos existentes. A o m esm o
tem po, têm havido outras soluções propostas, absolutam ente m ais
drásticas, que com freqüência desviam para um relativismo deses­
perado, para o neo-idealismo ou m esm o para o retorno a um a
filosofia repleta de irracionalidade.
A queles historiadores que aderiram à micro-história1 em geral
tinham suas raízes n o m arxism o, em um a orientação política para
a esquerda e em um secularism o radical com pouca inclinação para
a metafísica. A pesar do fato dessas características estarem m anifes­
tadas de m od os am plos e diversos, acredito que serviram para
ancorar firm em ente esses historiadores à idéia de que a pesquisa
histórica não é um a atividade puram ente retórica e estética.
*$ e u trabalho tem sem pre se centralizado na busca de um a
descrição m ais realista do com portam ento hum ano, em pregando
u m m odelo de ação e conflito do com portam ento d o hom em no
m u n d o qu e reconhece sua - relativa - liberdade além, m as não
fora, das lim itações d o s sistem as norm ativos prescritivos e opres­
sivos. A ssim , toda ação social é vista com o o resultado de um a
constante negociação, m anipulação, escolhas e decisões do indiví­
duo, diante de u m a realidade norm ativa que, em bora difusa, não
obstante oferece m uitas possibilidades de interpretações e liberda­
des pessoais. A questão é, portanto, com o definir as m argens - por
m ais estreitas que po ssam ser - da liberdade garantida a um
indivíduo pelas brechas e contradições dos sistem as norm ativos
que o governam . Em outras palavras, u m a investigação da extensão
1. A ob ra centralizada em torno de du as publicações, a série Microstorie publicada por
E inaudi em T u rim a partir de 1981 e, em parte,.a revista Q uadem i Storici, publicada
pelo II M u lin o de B olo n h a.
136
PETER BURKE
e da natureza da vontade livre dentro da estrutura geral da sociedade
hum ana. N este tipo de investigação, o historiador não está sim ­
plesm ente preocupado com a interpretação do s significados, m as
antes em definir as am bigüidades do m undo sim bólico, a plurali­
dade das possíveis interpretações desse m u n d o e a luta que ocorre
em torno dos recursos sim bólicos e tam bém dos recursos materiais.
A ssim , a micro-história possu ía um a posição m uito específica
dentro d a cham ada nova história. N ão era sim plesm ente um a
questão de corrigir aqueles aspectos da historiografia acadêm ica
que pareciam não m ais funcionar. Era m ais im portante refutar o
relativismo, o irracionalism o e a redução do trabalho do historiador
a um a atividade puram ente retórica que interprete os textos e não
os próprios acontecimentos.
Segundo W ittgenstein, “ U m a dúvida sem u m fim não é sequer
um a dúvida” .2 O problem a está em se-ach ar um a m aneira de
reconhecer os limites do conhecim ento e tam bém da razão, en­
quanto ao m esm o tem po se constrói um a historiografia capaz de
organizar e explicar o m undo do passado. Por isso, o principal
conflito não é entre a nova história e a história tradicional, m as
antes d o significado da história encarada com o um a prática interpretativa.3
.
A m icro-história com o u m a prática é essencialm ente baseada
na redução da escala da observação, em um a análise m icroscópica
e em um estudo intensivo do material docum ental. E ssa defini­
ção já suscita possíveis am bigüidades: não é sim plesm ente um a
questão de cham ar a atenção para as causas e os efeitos do fato, de
2. L. W ittgenstein, O n Çertainty, O xford , 1969, parágrafo 6 2 5 .
3. Por isso disco rd o d a p osição assu m id a p o r Jo an Scott (“ H istory in C risis? T h e O th ers’
Sid e o fth e Story” , em American Historical Review, 94, p. 6 8 0 -9 2 ,1 9 8 9 ), qu e considera
positivo todo o trabalho histórico de vanguarda. Seu artigo term ina evocando um a
frase de renovação sem qu alqu er perspectiva: “ Se as m uitas histórias diferentes do
p assad o , b asead as em experiências históricas diferentes, são n a verdade inconciliá­
veis, será que n ão existe o m en or m o d o de se pen sar coerente e sistem aticam ente
sob re o passado ? ... E ssas qu estões têm resposta, m as som ente se aceitam os a noção
de qu e a própria história é u m a disciplin a em m utação” (p. 691-2). M as qu e resposta
existe além d as “ inquirições criativas” ?
A ESCRITA DA H ISTÓRIA
137
dim ensões diferentes coexistirem em cada sistem a social; em outra"S
palavras, o problem a de descrever vastas estruturas sociais com ple­
xas, sem perder a visão da escala do espaço social de cada indivíduo,
e a partir daí, do povo e de su a situação na vida. N ão é, por isso,
um a questão de conceituar sridéia de escala com o um fator inerente
em todos os sistem as sociais e com o um a característica im portante
d o s contextos de interação scfcial, incluindo diferentes dim ensões
quantitativas e espaciais. Este problem a tem sido am plam ente
discutido entre antropólogos que tôm apresentado o conceito de
escala exatam ente nesta perspectiva: a escala com o um objeto de
análise que serve para m edir as dim ensões n o cam po dos relacio­
nam entos, Para Fredrik Barth, por exem plo, que organizou um
sem inário fundam ental sobre o tema, o problem a é o de n ossa
“ capacidade para descrever diferentes com binações da escala em
diferentes organizações sociais em píricas, para m edir o papel que
desem pen ham n os diferentes setores das vidas que elas m oldam ” .4
Para a micro-história, a redução da escala é um procedim ento
analítico, que pode ser aplicado em qualquer lugar, independente­
m ente das dim ensões d o objeto analisado.
D esejo por um instante encarar m ais de perto este problem a,
pois a idéia da escala ser um objeto de estudo é um a fonte de m á
interpretação para m uitas pessoas, em discussões sobre a microhistória. Freqüentem ente se supõe, por exem plo, que as com uni­
dades locais p o ssam ser adequadam ente estudadas com o objetos
de sistem as de pequena escala, m as que as escalas m aiores deveriam
ser usadas para revelar as conexões entre as com unidades dentro
de um a região, entre as regiões dentro de um país, e assim por
diante. Sem dúvida, fica im ediatam ente óbvio que m esm o a ação
aparentem ente m ais insignificante, com o por exem plo a de alguém
sair para com prar um pão, realmente envolve o sistem a bem m ais
am plo dos m ercados de grão de todo o m undo. E apenas um a
distorção paradoxal e significativa da perspectiva sugeriria que a
vida com ercial de um a aldeia não tem interesse, além de seu
4 . F. Barth (ed.), Scale and Social Organfeatíon, O slo , Bergen, T ro m so , 1978, p. 273.
138
PETER BURKE
significado em um a escala local. U m exem plo desse tipo de
perspectiva pode ser vislum brado em um a divertida investida de
Franco V enturi contra os estudos de com unidade e em particular
contra a m icro-história5:
Estudar as crônicas de uma aldeia, o que é feito com enorme freqüência
hoje em dia, é algo completamente sem sentido. O dever do historiador é
estudar as origens daquelas idéias que moldam nossas vidas, não escrever
novelas. Basta eu citar um exemplo: há muita conversa atualmente sobre
a necessidade de retorno ao mercado. Quem inventou o mercado? Os
homens do século dezoito. E na Itália quem se preocupava com isso? Os
pensadores do Iluminismo, Genovese e Verri. É importante situar firme­
mente no centro de nossos estudos as raízes de nossa vida moderna.
Seria possível replicar isso, parafraseando Geertz: “ O s historia­
dores não estudam as aldeias, eles estudam em aldeias.”6
Naturalm ente, a descrição de com binações de escala diferentes,
em bora congruentes, é im portante no fenôm eno social, ainda que
apenas com o u m m eio de atribuir dim ensões internas ao objeto
de análise. Entretanto, é auto-evidente e até banal afirm ar que as
dim ensões particulares do objeto de análise não refletem necessa­
riam ente a escala distintiva do problem a colocado. A idéia de que
a escala tem sua própria existência na realidade é aceita, até por
aqueles que consideram que a micro-análise só opera através do
exem plo, ou seja, com o um processo analítico sim plificado - a
seleção de um ponto específico da vida real, a partir d o qual se
exem plificam conceitos gerais - em vez de funcionar com o um
ponto de partida para um m ovim ento m ais am plo em direção à
generalização. O que as dim ensões dos m u n d os sociais de diferen­
tes categorias de pessoas e de diferentes cam pos estruturados de
relacionam entos dem onstram é a natureza precisa d a escala que
opera n a realidade. N esse sentido, portanto, a segm entação de
5. F. V enturi, “ Lum i di V enezia” , La Stampa, T u rim , 27 de janeiro de 1990.
6. O texto com pleto diz: “ O s an tropólogos n ão estudam a s aldeias (tribos, cidades,
vizinhanças ...); eles estud am em ald eias.” V er C . Geertz, The Interpretation of
Cultures, N ova York, 1973, p. 22.
A ESCRITA D A HISTÓRIA
139
sociedades com plexas é delineada sem se recorrer a suposições e
estruturas consideradas a priori, m as esta abordagem é capaz apenas
de construir um a generalização que é m ais metafórica que dem on s­
trada, generalização esta baseada som ente na analogia. Parece-me,
em outras palavras, que deferíam os discutir o problem a da escala,
não só com o aquele da escala da realidade observada, m as tam bém
com o u m a questão de u m a escala variável de observação para
propósitos experim entais. E natural e correto que a irredutibilidade
das pessoas individuais às regras dos sistem as de grande escala
tivesse situado o problem a d a escala n o âm ago do debate. Em
oposição a um funcionalism o supersim ples, é im portante enfatizar
o papel das contradições sociais na geração da m udança social; em
outras palavras, enfatizar o valor explanatório das discrepâncias
entre as restrições que em anam dos vários sistem as norm ativos (ou
seja, entre as norm as do estado e da família) e do fato de que, além
disso, um indivíduo tem um conjunto diferente de relacionam en­
tos que determ ina suas reações à estrutura norm ativa e suas
escolhas com respeito a ela.
E m bora a escala com o um a característica inerente da realidade
certamente n ão seja um elemento estranho, no debate da microhistória ela é, sem dúvida, tangencial7; porque o problem a real está
n a decisão de reduzir a escala de observação para propósitos
experim entais.'O princípio unificador de toda p esqu isa micro-histórica é a crença em que a observação m icroscópica revelará fatores
previam ente não observados. A lguns exem plos desse procedim en­
to intensivo são a reinterpretação do caso contra G alileu com o um a
defesa das noções aristotélicas de substância, e da Eucaristia contra
um atom ism o que teria tornado im possível a transform ação de
vinh o e pão em sangue e carne8; o enfoque sobre u m único qua­
dro e a identificação de quem ele representa com o um m eio de
7. G . Levi, “ U n p roblem a di scala” , em Dieci interventi di Storia Sociale, T u rim , 1981,
p. 75-81.
8 . P. R edondi, Galileo eretico, T u rim , 1 983. U m a tradução de R aym ond R osenthal foi
p ublicada em Lon dres em 1988 co m o Galileo Heretic.
140
PETER BURKE
investigação d o m u n d o cultural de Piero delia Francesca9; o estudo
das estratégias m atrim oniais consangüíneas em um a pequena
aldeia na região de C o m o para revelar o universo m ental dos
cam poneses do século dezessete10; a introdução do tear m ecânico,
observada em um a pequena aldeia têxtil, para explicar o tema geral
d a inovação, seus ritm os e efeitos11; o estudo das transações de terra
de um a aldeia para descobrir as regras sociais do intercâm bio
com ercial que operam em um m ercado que, além disso, teve de
ser despersonalizado.12
E xam inem os brevemente o últim o exem plo. T em havido
m uita discu ssão com respeito à comercialização d a terra e é um a
crença am plam ente considerada que, a precocidade e a freqüência
das transações de terra, ocorridas em m uitos países da Europa
O cidental e na A m érica colonial, indicam a presença precoce do
capitalism o e do individualism o. D ois elem entos evitaram um a
avaliação m ais adequada deste fenôm eno. Em prim eiro lugar,
m uitas interpretações têm sido baseadas em dados agregados,
abordagem que tom o u im possível exam inar os fatos concretos das
próprias transações. Em segundo, os historiadores foram induzidos
a erro por su a própria m entalidade mercantil m oderna, que os
levou a interpretar as quantidades maciças de transações m onetá­
rias de terra que encontraram em docum entos notariais contem ­
porâneos com o evidência da existência de um m ercado auto-regulador. C uriosam ente, ninguém observou ou deu im portância ao
fato de que os preços envolvidos eram extremam ente variáveis,
9. C . G inzburg, Indaginisu Piero: II battesimo, II ciclo di Arezzo, Laflagellazionedi Urbino,
Tu rim , 1 9 8 1 . U m a tradução de M artin Ryle e Kate S o p er foi publicada em Londres
em 1 9 8 5 co m o The Enigma of Piero: Piero delia Francesca: The Baptism, The Arezzo
Cycle, The Flagellation.
10. R. M erzario, II paese stretto: strategie matrimoniali nella diocesi di Como secoli XVIX V III, T u rim , 1981.
11. F. R am ella, Terra e telai: sistemi di parentela e m anifattura nel Biellese dell'Ottocento,
T u rim , 1984.
12. G . Levi, UEredità immateriale: carriera di um esorcista nel Piemonte dei Seicento, T u rim ,
1 985, traduzido p o r Linda C och ran e co m o Inheriting Power: the Story of an Exorcisc,
C h icago e Lon dres, 1988.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
141
m esm o considerando-se as qualidades diferentes da terra. A ssim ,
os preços da terra e o m ercado geral norm alm ente estavam
relacionados à suposição inquestionável de que as forças de
m ercado eram im pessoais. A pen as reduzindo-se a escala de obser­
vação a u m a área extremam ente localizada, foi possível observar
que o preço da terra variava segundo o relacionam ento de paren­
tesco entre as partes contratuais. T am bém foi possível m ostrar que
eram im putados preços variáveis a terras de igual dim ensão e
qualidade. D esse m odo, tornou-se possível estabelecer que se estava
observando um m ercado com plexo, em que os relacionam entos
sociais e pessoais desem penhavam um papel determ inante no
estabelecim ento d o nível de preço, do prazo de pagam ento e das
form as pelas quais a terra trocava de m ãos. Esse exem plo parece-me
particularm ente revelador da m aneira com o a micro-história pro­
cede de m od o geral. O s fenôm enos previamente considerados
com o bastante descritos e com preendidos assum em significados
com pletam ente novos, q u ando se altera a escala de observação. E
então possível utilizar esses resultados para extrair um a generaliza­
ção m ais am pla, em bora as observações iniciais tenham sido feitas,
dentro de dim ensões relativamente estreitas e m ais com o experi­
m entos do que com o exem plos.
A pesar de ter suas raízes no interior do círculo de pesquisa
histórica, m uitas das características da micro-história dem onstram
o s laços próxim os que ligam a história à antropologia - particular­
m ente aquela “ descrição den sa” que C lifford Geertz encara com o
a perspectiva adequada do trabalho antropológico.13 Em vez de se
iniciar com um a série de observações e tentativas para im por sobre
elas um a teoria d o tipo legal, esta perspectiva parte de um conjunto
de sinais significativos e tenta ajustá-los em u m a estrutura inteligí­
vel. A descrição den sa serve portanto para registrar por escrito um a
série de acontecim entos ou fatos significativos que de outra form a
seriam imperceptíveis, m as que podem ser interpretado^ por sua
13. C . Geertz, “T h ick D escription: Tow ard an Itjterpretive T h eory o f C ulture” , em
Geertz, Interpretation of Cultures, p. 3-31.
142
PETER BURKE
inserção n o contexto, ou seja, no fluxo do discurso social. Essa
abordagem é bem-sucedida na utilização da análise m icroscópica
dos acontecim entos m ais insignificantes, com o um m eio de se
chegar a conclusões de m ais am plo alcance.
Este, segundo Geertz, é o procedim ento adotado pelo etnólogo
cujos objetivos são ao m esm o tem po extremamente am biciosos e
m uito m odestos. A m biciosos no sentido de que a autoridade do
etnólogo para interpretar o material é praticam ente ilimitada e a
interpretação é, em grande parte, a essência do trabalho etnográfi­
co. O s escritos antropológicos são trabalhos imaginativos em que
a habilidade do autor é m edida por sua capacidade de nos colocar
em contato com as vidas dos forasteiros e de fixar os acontecimen­
tos ou o discurso social de form a a nos perm itir examiná-los
claram ente. O poder do intérprete tornou-se portanto infinito,
im ensurável, não suscetível de falsificação.14 Inevitavelmente, fo­
ram introduzidos elem entos que são difíceis de ser racionalmente
avaliados, variando desde u m a espécie de fria em patia até um a
habilidade com unicativa literária.
O perigo do relativismo é acentuado, m ais que m inim izado,
pelo pequeno espaço destinado à teoria. Para Geertz, é proveitosa
a busca de leis e conceitos gerais, pois a cultura é com posta de um a
tram a de significados, cuja análise não é um a ciência experimental
tateando leis universais, m as um a ciência interpretativa em busca
de significado. Q ual é, então, o papel da teoria? Geertz nega que a
abordagem interpretativa deva renunciar explicitamente às form u­
lações teóricas. Entretanto, ele imediatamente prossegue dizendo
“ que os term os em que tais form ulações podem ser m oldados são,
se não inteiramente inexistentes, m uito próxim os d isso ... H á
várias características de interpretação cultural que tornam seu
desenvolvim ento teórico m ais difícil que o usual” (p. 24). Em
prim eiro lugar, está “ a necessidade da teoria ficar bem mais
próxim a ao cam po, do que tende a ser o caso em ciências m ais
aptas a se entregarem à abstração im aginativa” (p. 24). “A s
14. ]. C lifford , “ O n Eth nographic Authority” , Representations, 1, p . 122-39, 1983.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
143
form ulações teóricas pairam tão baixo sobre as interpretações que
governam que não fazem m uito sentido ou despertam m uito
interesse se delas separadas” (p. 25). A ssim , as teorias são legitima­
das, m as de pouca utilidade, “ porque a tarefa essencial da teoria
aqui edificada não é codificai; regularidades abstratas, m as tornar
possivel a descrição densa, não para generalizar os casos cruzados,
m as para generalizar dentro de, seu interior” (p. 26). A lgo sim ilar
está se p assan d o em relação à inferência clínica: não é um a questão
de se ajustar os casos observados a um a lei existente, m as antes de
se trabalhar a partir de sinais significativos - que, n o caso da
etnologia, são atos sim bólicos - que foram organizados “em um a
estrutura inteligível" para permitir que a análise do discurso social
“extraia a não-aparente im portância das coisas” . Por isso, não é
um a questão de se elaborar em instrum entos teóricos capazes de
gerar previsões, m as de se organizar um a estrutura teórica “ capaz
de continuar a produzir interpretações defensáveis com o fenôm e­
n os sociais novos vindo à t o n a ... Idéias teóricas não são totalmente
criadas de novo em cada estudo ...; elas são adotadas a partir de
outros estudos relacionados e, refinadas no processo, aplicadas a
novos problem as interpretativos” (p. 26-7). “ N o ssa tarefa dupla é
descobrir as estruturas conceituais qu e inspiram n o sso s atos indi­
viduais, ‘ditos’ d o discurso social, e construir um sistem a de análise
em cujos term os o que é genérico àquelas estruturas, o que lhes
pertence por elas serem o que são, fará contraste com os outros
determ inantes do com portam ento hum ano. N a etnografia, a fun­
ção da teoria é prom over um vocabulário, onde o que a ação
sim bólica tem a dizer sobre si m esm a - ou seja, sobre o papel da
cultura n a vida hum an a - po ssa ser expresso.” A ssim , a teoria é
“ u m repertório de conceitos e sistem as de conceitos m uito gerais,
elaborados n o interior da academ ia ... que se agita no corpo de
um a etnografia de descrição densa, n a esperança de transform ar
ocorrências sim ples em cientificamente eloqüentes” (p. 28). Por
isso, os conceitos são instrum entos frios tom ados d a bagagem da
ciência acadêm ica: eles são úteis n a interpretação, m as é apenas
n essa função que adquirem realidade concreta e especificidade. A s
144
PETER BURKE
teorias não se originam da interpretação. A teoria só tem um
pequeno papel, com o subalterna, para desem penhar, em relação
ao papel m uito m aior do intérprete. O s sistem as dos conceitos
gerais pertencentes à linguagem acadêmica são inseridos no corpo
vivo d a descrição densa, n a esperança de dar expressão científica
a acontecim entos sim ples, não para criar novos conceitos e siste­
m as teóricos abstratos. Portanto, a única im portância da teoria geral
é u m a parte da construção de um repertório sem pre em expansão
do material densam ente descrito, tornado inteligível através de sua
contextualização, que servirá para am pliar o universo do discurso
hum ano.
Parece-me que a antropologia interpretativa e a micro-história
têm tanto em com um , quanto têm a história e a antropologia em
geral. N ão obstante, eu quero aqui ressaltar duas diferenças im por­
tantes, um a derivada do u so tradicionalm ente m ais intenso da
pesqu isa intensiva em pequena escala, e a outra derivada de um
aspecto, que tentarei explicar em seguida, e que po sso definir com o
um a espécie de limitação auto-imposta, presente n o pensam ento
de Geertz. E ssas duas diferenças dizem respeito a trabalhos ha
prática da racionalidade h um an a e à legitimidade de se fazerem
generalizações nas ciências sociais.
Exam inem os, primeiro, a m aneira diferente com o é encarada
a racionalidade. U m a vez que nega a possibilidade de um a análise
específica de processos cognitivos, a antropologia interpretativa
presum e a racionalidade com o u m ponto de partida, com o algo
im possível de ser descrito fora da ação hum ana, fora do com por­
tam ento hum ano, visto tanto com o um a ação significativa e
sim bólica quanto além da interpretação. Até esse ponto, podem os
estar de acordo. Entretanto, Geertz extrai dessas considerações
conclusões extremas. A única coisa que podem os fazer é prim eiro
tentar procurar conhecer e depois tornar explícitos, através da
descrição densa, os prováveis significados das ações. A queles que
concordam com essa abordagem não acreditam que seja necessário
question ar as limitações, as possibilidades e a m ensurabilidade da
própria racionalidade. De preferência, quaisquer restrições ou
145
A ESCRITA DA HISTÓRIA
lim ites inerentes são presum idos com o determ inados pelo jogo
infinito de interpretações essencialm ente sem valor, variando entre
idealism o e relativismo em vez de estabelecidos pelos padrões de
algum a concepção definida da racionalidade hum ana.
»
Pode-se prosseguir e afirmar que a concepção de Geertz é
revelada por algum as características q u e ele extraiu de H eidegger15,
em particular a rejeição da possibilidade de explicação total e a
tentativa de construir um a herm enêutica da escuta; ou seja, escutar
a linguagem poética, em outras palavras, a linguagem apreendida
no esforço de inventar novos significados.16 N a verdade, segundo
Geertz, o hom em não pode form ular sistem as m entais, sem
recorrer à orientação de m odelos de em oção públicos e sim bólicos,
pois esses m odelos são os elem entos essenciais com que ele percebe
o m undo. A lém disso, esses m odelos sim bólicos não podem ser
encontrados em toda a fala hum ana, pois a fala em geral degenerou
em um sim ples m eio de com unicação. Geertz, com o Heidegger,
considera esses m odelos sim bólicos n a linguagem quintessencial
da poesia, que representa a m ais alta expressão da experiência
h u m an a da realidade. Geertz especificamente se refere à linguagem
do m ito, do ritual e da arte: “ Para com por n ossas m entes devem os
saber com o nos sentim os a respeito das coisas, e para saber com o
nos sentim os a respeito das coisas precisam os das im agens públicas
do sentim ento que apenas o ritual, o m ito e a arte podem
proporcion ar.”17 A posição clara e lúcida de Geertz é que o
repertório infinito das possibilidades sim bólicas das m entes hum a­
nas n os permite abordar a realidade, por um a série de passos
infinitam ente pequen os, sem, no entanto, jam ais atingi-la. Essa
opin ião é consistente com a teoria anti-hegeliana de Heidegger, de
que o conhecim ento do indivíduo não deve dissolver a existência
15. M . H eidegger, Hokwege, Frankfurt, 1950, traduzido para o italiano co m o Sentieri
interotti, Florença, 1968.
0
16. G . V attim o, Introduzione a Heidegger, Bari, 1985.
17. C . Geertz, “T h e G row th o f C ulture an d the E volution o f M in d ” , em J. Sch er (ed.),
Theories of the Mincí, G len coe, 1 962, p. 713-40; republicado em Geertz, Interpretation
o f Cultures, p. 55-85.
146
PETER BURKE
de outros ém si m esm o, m as antes que a função adequada do
pensam ento com o um “classificador herm enêutico” é permitir que
as outras pessoas perm aneçam sendo as outras. Acredito que esse
elo heideggeriano é essencial para um entendim ento, tanto da força
e da sutileza das interpretações, quanto da relativa debilidade das
explicações dos m undos na antropologia interpretativa de Geertz.
D essa m aneira, Geertz pretende evitar a questão da racionalidade
e seus limites: limites que são definidos por m uito m ais do que
um acesso sim plesm ente diferencial à inform ação. A diferença é
aquela entre o “ pensam ento autêntico” e o pensam ento governado
pelo princípio da “ razão suficiente” . Em vista disso, poderia parecer
que o etnólogo devesse talvez se contentar em interrom per sua
pesquisa n o nível das descrições do significado.
Sem dúvida deve ser aceito que, de um ponto de vista biológico,
todos os hom en s possuem intelectos substancialm ente iguais, m as
esse intelecto é com pletam ente dependente dos recursos culturais
para seu funcionam ento. E ssa ênfase na cultura permite que se
evite qualquer teoria da superioridade do hom em civilizado sobre
o hom em primitivo. T am bém evita que se considere a idéia de que
a cultura surge em alguns pontos ordenados nas fases evolucionárias. A cultura, definida com o a capacidade de pensam ento sim bó­
lico, é parte da verdadeira natureza do hom em . A cultura não é
suplem entar ao pensam ento hum ano, m as seu ingrediente intrín­
seco. N ão obstante, segundo Geertz, o problem a de se evitar o
relativism o cultural “ absoluto” - assim to m an d o possível a com ­
paração entre as culturas - não pode ser resolvido e não deve nem
m esm o ser m encionado. Ele se limita a definir a função do intelecto
com o u m a “ b u sca de inform ação” : um a elaboração emotiva, u san ­
do-se os m ateriais com uns aos m em bros de um a cultura específica.
“ Em sum a, a intelecção hum ana, no sentido específico do raciocí­
nio diretivo, depende da m anipulação de certos tipos de recursos
culturais, de tal m aneira a produzir (descobrir, selecionar) os
estím ulos am bientais necessários - seja para que propósito for ao organism o; é um a busca de inform ação” (p. 79), por isso um a
reunião seletiva de inform ação. D e fato, os seres h u m an os neces­
A ESCRITA D A HISTÓRIA
147
sitam de constantes estím ulos afetivos e intelectuais, m as, ao
m esm o tem po, esses m esm os estím ulos requerem um controle
cultural contínuo que os organize em um a ordem significativa e
inteligível. Por isso, não é apenas um a reunião de inform ação, m as
a organização em otiva do que está envolvido. T odavia, não é um
processo privado, um a vez que o significado dos sím bolos repousa
n o fato de que eles são com partilhados e por isso com unicáveis
entre os m em bros de um grupo pequeno ou grande: n o prim eiro
m om ento, o pensam ento é organizado de acordo com as estruturas
sim bólicas públicas à m ão e som ente depois disso, ele se torna
privado. M as Geertz não pode ir além dessas considerações, pois
um a investigação m ais específica n o funcionam ento da razão iria
inevitavelmente introduzir im plicações am eaçadoras de um a hie­
rarquização de culturas.
Geertz defende o papel desem penhado pelo relativismo cultu­
ral na destruição do etnocentrism o - e com isso n ós não podem os
deixar de concordar. Entretanto, ele prossegue identificando o
relativism o cultural com o relativismo tout court e encara todo o
anti-relativismo com o um a tendência perigosa para considerar
algum as culturas com o hierarquicam ente superiores a outras. Em
um artigo revelador de 1 9 8 4 18, ‘And anti-relativism’, ele identifica
todo anti-relativismo com aquela “ posição em que a diversidade
cultural, cruzada n o espaço e através do tem po, reúne um a série
de expressões ... de um a realidade estabelecida, subjacente, a
natureza essencial do hom em ” . Geertz percebe nesta visão da
diversidade superficial que reveste um a profunda hom ogeneidade
subjacente, u m a confiança nas teorias da mente h u m an a e da
natureza hum ana, por ele rejeitadas, porque conduzem inevitavel­
m ente ao restabelecim ento de conceitos errôneos de “ pensam ento
prim itivo” e “ desvio social” ; em outras palavras, à hipótese de um a
hierarquia de convicções e de form as de com portam ento dispostas
segundo diferentes níveis de racionalidade. A ssim , a afirm ação
neo-racionalista de que é possível identificar-se constâncias form ais
18. C . Geertz, “A n ti Anti-Relativism ” , American Anthropologist, 8 6, p. 2 6 3 -7 8 ,1 9 8 4 .
148
PETER BURKE
(universais cognitivos), constâncias relativas ao desenvolvim ento
(estágios cognitivos) e constâncias operacionais (processos cogniti­
vos), seja so b que form a for, só dim inui o poder de conceitos que
corretam ente enfatizam a diversidade cultural e a alteridade. “ Seria
realm ente lamentável se agora que a distância, que estabelecem os
e o local em que n os instalam os, estão com eçando a im pressionar,
para m udar n o sso sentido do sentido e n o ssa percepção da
percepção, tivéssem os que voltar a velhas canções” (p. 276). Geertz
não se declara relativista, m as antes um anti anti-relativista, no
sentido de que estam os em um estágio, talvez transitório, em que
apenas a descrição den sa e a elaboração de um repertório de signi­
ficados são possíveis.
Entretanto, não m e parece que su a redução de todo argum en­
to racionalista a um renascim ento potencial de conceitos hierár­
quicos de cultura seja defensável; e de fato é difícil con siderar
G ellner, Lévi-Strauss, N eedham , W inch, H orton e Sperber, a
quem Geertz se refere, todos com o expoentes de u m a ordenação
hierárquica de culturas. Por que os processos cognitivos .ou os
universais cognitivos conduziriam apenas a u m a conclusão etnocêntrica? Por que um a descrição dos p rocessos racionais em
term os form ais, ou um conceito das lim itações da racionalidade
provaria obstáculos a u m a descrição não-hierárquica de cultura?
Por qu e a form alização e a generalização que perm ite a p o ssib ili­
dade de com paração entre culturas necessariam ente im plicariam
a destruição d a alteridade? N aturalm ente o perigo existe, m as a
solução será realm ente aceitar a am eaça irracionalista paralisante
do relativism o com o o preço para se escapar d o etnocentrism o,
um espectro de qualquer m od o, até agora, já em grande parte
exorcizado? Eu, antes, acredito que é a verdadeira identificação
de p rocessos cognitivos uniform es que n os perm ite a aceitação
da relatividade cultural, en quan to rejeitam os o relativism o ab so ­
luto daqueles que lim itam n o ssas possib ilidades de conhecer a
realidade, com o resultado de n os tornarm os en redados em u m
jogo infinito e gratuito de interpretar as interpretações.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
149
Parece-me que um a das principais diferenças de perspectiva
entre a micro-história e a antropologia interpretativa é que a últim a
enxerga um significado hom ogêneo nos sinais e sím bolos públicos;
en quanto a micro-história busca defini-los e medi-los com referên­
cia à m ultiplicidade das representações sociais que eles produzem.
Portanto, o problem a n ão é sim plesm ente aquele do funcionam en­
to do intelecto. H á tam bém o perigó de se perder a visão da natureza
socialm ente diferenciada dos significados sim bólicos e con seqüen ­
tem ente de sua qualidade em parte am bígua. Isso leva tam bém ao
problem a de se definirem as diferentes form as de funcionam ento
da racionalidade hum an a dentro do contexto de situações especí­
ficas. T an to a quantidade de inform ação necessária para se organi­
zar e definir a cultura, quanto a quantidade de inform ação neces­
sária à ação, são historicam ente m utáveis e socialm ente variáveis.
É esse, portanto, o problem a que necessita ser enfrentado, um a vez
que o arcabouço das estruturas públicas, sim bólicas, é u m a abstra­
ção. Pois, n o contexto de condições sociais diferentes, essas estru­
turas sim bólicas produzem um a m ultiplicidade de representações
fragm entadas e diferenciadas; e serão essas o objeto do n osso
estudo.
T an to a quantidade de inform ação disponível, quanto as
oportunidades para a observação em pírica são provavelmente
m uito m ais am plas e com plexas nas sociedades contem porâneas
do que nas sociedades sim ples ou naquelas do passado . N ão
obstante, o principal problem a é sem pre aquele estabelecido de
form a extraordinariam ente ilum inada por Foucault19: o problem a
da seleção, a partir da variação de significados alternativos po ssí­
veis, que um sistem a de classificação dom inante deve im por; sem
m encionar aquela seleção de inform ação que podem os cham ar de
auto-protetora, que nos permite dar significado ao m undo e
funcionar de m od o eficaz. A quantidade e a qualidade de tal
inform ação não é, entretanto, socialm ente uniform e, e por jsso é
necessário examinar-se a pluralidade de form as da racionalidade
19. M . Foucault, Les mots et les choses: archéologie des sciences humaines, Paris, 1966.
150
PETER BURKE
lim itada que atua na realidade particular em observação. E ssa
pluralidade existe com o um resultado, entre outras coisas, de
m ecanism os protetores desdobrados em face de inform ações em
excesso, m ecanism os estes que permitem escapar da quantidade
total de inform ação, para que as decisões possam ser tom adas.
Pode-se pensar, por exem plo, nos processos de sim plificação
causai, e tam bém na utilização de slogans sim plificados nas esco­
lhas políticas, nos sistem as etiológicos u sados n a m edicina popu­
lar, ou nas técnicas de persuasão em pregadas pela indústria de
propaganda.
Parece-me, por isso, não ser suficiente conduzir um a d iscu s­
são geral do funcionam ento sim bólico, tendo-se com o base um a
definição geertziana de cultura com o um a bu sca infinita de
inform ação. A credito ser necessário tentar m edir e form alizar os
m ecan ism os de racionalidade lim itada - u m a racionalidade lim i­
tada em que a localização de seus limites varia com as várias
form as de acesso à inform ação - para perm itir um entendim ento
das diferenças existentes nas culturas dos indivíduos, gru pos e
sociedades em várias épocas e locais. A qu alidade um tanto
alusiva do im portante, m as incom pleto sistem a de Geertz, negli­
gencia esse objetivo.
A prova dessa inadequação está exem plificada n a abundância
do relativism o autobiográfico que surgiu no cenário científico nos
últim os anos, so b a capa de antropologia interpretativa (Reflections
on Fieldwork in Morocco20, de Rabinow, parece-me um excelente
exem plo). Existe prova adicional no fato de que o repertório das
descrições den sas não tem um objetivo com parativo, m as perm a­
nece sim plesm ente um repertório do qual se extraem casos para
esclarecim ento, segundo regras não especificadas. C on seqü en te­
m ente, a interpretação tem com freqüência perm anecido em aber­
to, im ponderável e limitada. A lguns exem plos dessa im ponderabi­
lidade aparecem m ais nos geertzianos do que n o próprio Geertz.
20. P. R abinow , Reflections on Fieldwork in Morocco, Berkeley e L os A ngeles, 1977.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
151
U m exem plo clássico parece-me ser o Great C at Massacre, de
autoria de R obert D arn ton .21
U m segundo aspecto, que já foi m encionado, é se abster de
qualquer tentativa de construir m odelos e estabelecer as regras
form ais dos jogos interpretativos e com unicativos. Geertz conclui
pela proposição de um uso experim ental de conceituação geral,
acadêm ica, apenas para revitalizar os conceitos nos exem plos
concretos das descrições densas. D essa m aneira, u m repertório de
conceitos é introduzido em um repertório de acontecim entos
interpretados, n a esperança de que eles operem juntos para que os
acontecim entos sim ples possam se tornar cientificamente eloqüen­
tes e, opostam ente, que conclusões de longo alcance po ssam ser
extraídas da den sidade de fatos sim ples. Esse m étodo com freqüên­
cia resulta em u m a história cultural sem análise social, ou em um a
análise social extrem am ente estereotipada extraída de um a história
cultural intensivam ente investigada. A ação é exam inada em pro­
fundidade, m as sem um a reconceituação com plexa e form al dos
m ecan ism os sociais envolvidos, e por isso a análise pára de repente,
com o se estivesse am eaçada, n o efetivo limiar da história social.
Por exem plo, o carism a e o sim bolism o do poder n o cerimonial
d a coroação parecem falar a m esm a língua a todos que pertencem
a um a sociedade socialm ente indiferenciada.22 O u, tomando-se
outro exem plo, a briga de galos é apresentada com o tendo um a
im portância universal, singular para o conjunto d a sociedade,
ain da que as form as de aposta sejam socialm ente diversas.23
Por outro lado, a micro-história não rejeitou a consideração de
diferenciação social d a m esm a m aneira que a antropologia inter2 1. R. D arn to n , The Great C at M assacre and otfier Episodes in French C ultura! History,
N o v a York, 1 9 8 4 . V er tam bém seu artigo “ T h e Sym bolic Elem ent in H istory", Journal
of Modem History, 5 8 , p. 218-34, 1 986, e R. C hartier, “Text, Sym bols, and
F ren ch n ess” , Journal of Modem History, 5 7, p. 682-95, 1985, assim com o G . Levi,
“ I pericoli dei G eertzism o” , Q uadem i Storia, 2 0, p. 2 6 9 -2 7 7 ,1 9 8 5 .
2 2 . C . Geertz, Local Knowledge: Further Essays in Interpretive Anthropology, N ova York,
1 9 8 3 , p. 121-46.
2 3 . C . Geertz, “ D eep Play: N otes o n the B alinese C ockfight” , Daedalus, 101, p. 1-37,
1972, republicado em Geertz, Interpretation of Cultures, p. 412-54.
152
PETER BURKE
pretativa, m as a considera essencial para se ter um a interpretação
tão form al quanto possível das ações, d o com portam ento, das
estruturas, dos papéis e dos relacionam entos sociais. Em outras
palavras, em bora os costum es e o u so dos sím bolos sejam sem pre
polissêm icos, não obstante eles assum em conotações m ais precisas,
a partir das diferenciações sociais variáveis e dinâm icas.. O s indiví­
duos constantem ente criam suas próprias identidades, e os pró­
prios grupos se definem de acordo com conflitos e solidariedades,
que contudo não podem ser presum idos a priori, m as resultam das
dinâm icas que são o objeto da análise.
Eu gostaria, agora, de observar outra característica com um ao
trabalho d o s m icro-historiadores, que é o problem a da com unica­
ção com o leitor - o problem a da narrativa. O restabelecim ento da
narrativa não deveria ser encarado m eram ente em term os da
escolha entre história qualitativa, individualizada, e aquela história
quantitativa, cuja am bição é estabeleáer leis, regularidade e com ­
portam ento coletivo formal. A micro-história dirigiu especificam en­
te o problem a da com unicação e tem estado bastante consciente
de que a pesqu isa histórica não tem a ver apenas com a com uni­
cação do s resultados em um livro. Esse foi um ponto central
negligenciado em um conhecido artigo de Stone.24 Em geral, os
problem as de prova e dem onstração em história, por m eio do relato
de m om entos concretos, têm um a relação próxim a com as técnicas
de exposição. N ão é sim plesm ente um problem a de retórica, pois
o significado do trabalho histórico n ão pode ser reduzido à retórica,
m as especificam ente um problem a de com unicação com o leitor,
que n un ca é u m a tabula rasa, e por isso sem pre coloca um
problem a de recepção.25 Parece-me que a função particular da
2 4 . L. Ston e, “T h e Revival o f N arrative: Reflections o n a N ew O ld H istory” , Past and
Present, 8 5 , p . 3 -2 4 ,1 9 7 9 .
25. R ecordo a controvérsia entre A . M om igliano (“ La retórica delia storia e la storia delia
retórica: su i tropi di H ayden W h ite” , em M om igliano, Sui fondamenti delia storia
antica, T u rim , 1 9 8 4 , p. 464-76 e H . W h ite, Metakistory, Baltim ore, 1 9 7 3 , em que,
n o entanto, M om iglian o enfatiza excessivam ente a oposição entre a verdade e a
retórica. C o m o eu afirm o no texto, o s problem as d a teoria d a argum entação são
153
A ESCRITA DA HISTÓRIA
narrativa pode ser resum ida em duas características. A prim eira é
a tentativa de dem onstrar, através de um relato de fatos sólidos, o
verdadeiro funcionam ento de alguns aspectos da sociedade que
seriam distorcidos pela generalização e pela formalização quantita­
tiva u sadas independentem ente, pois essas operações acentuariam
de um a m aneira funcionalista ô papel dos sistem as de regras e dos
processos m ecanicistas de m udança social. Em outras palavras,
é exibido um relacionam ento °entre os sistem as norm ativos e
aquela liberdade de ação criada para os indivíduos por aqueles
espaços que sem pre existem e pelas inconsistências internas que
fazem parte de qualquer sistem a de norm as e sistem as norm ativos.
A segunda característica é aquela de incorporar ao corpo princi­
pal da narrativa os procedim entos da pesquisa em si, as limitações
docum entais, as técnicas de persuasão e as construções interpretativas. E sse m étodo rom pe claramente com a assertiva tradicional,
a form a autoritária de discurso adotada pelos historiadores que
apresentam a realidade com o objetiva. N a micro-história, ao con­
trário, o ponto de vista d o pesquisador torna-se um a parte intrín­
seca do relato. O processo de pesqu isa é explicitamente descrito e
as limitações da evidência docum ental, a form ulação de hipóteses
e as linhas de pensam ento seguidas não estão m ais escondidas dos
olhos d o não-iniciado. O leitor é envolvido em u m a espécie de
diálogo e participa de todo o processo de construção do argum ento
histórico. (U m exem plo esclarecedor deste processo é o livro de
G inzburg e Prosperi.)26 H enry Jam es adotou um a abordagem
sim ilar em seu rom ance In The Cage,27 que serve com o um a
extraordinária m etáfora ao trabalho do historiador. N o rom ance,
Jam es descreve todo o processo de interpretação da realidade,
construído por um operador de telégrafo em seu local confinado
de trabalho, em um distrito de Londres. Seu material tosco é a
im portantes na historiografia prática e n ão são, co m o declara W hite, incom patíveis
com u m a referência realista a fetos históricos.
,
2 6 . C . G in sb u rg e A . Prosperi, Giochi di pazienza: un seminário sul “Bene/icio di Cristo",
T u rim , 1975.
2 7 . H . Jam es, ín the C age, Londres, 1898.
>
154
PETER BURKE
docum entação escassa, fragmentária e falaciosa, apresentada pelo
texto d o s telegramas diários, trocados por seus clientes aristocráti­
cos. O rom ance deste evidente processo de com preensão do
m u n d o é u m a m etáfora para o trabalho do historiador, m as
tam bém proporciona um exem plo do papel que a narrativa pode
desem penhar em tal tipo de trabalho.
A abordagem micro-histórica dedica-se ao problem a de com o
obtem os acesso ao conhecim ento do passado, através de vários
indícios, sinais e sintom as. E sse é um procedim ento que tom a o
particular com o seu ponto de partida (um particular que com
freqüência é altamente específico e individual, e seria im possível
descrever com o um caso típico) e prossegue, identificando seu
significado à luz de seu próprio contexto específico.
Entretanto, a contextualização pode significar muitas coisas. A
teoria de contexto m ais coerente é a -funcionalista, cujo aspecto
m ais característico talvez seja aquele de se focalizar o contexto para
explicar o com portam ento social. Para o funcionalism o, não são
tanto as próprias causas do com portam ento que constituem os
objetos de análise, m as antes a norm alização de um a form a de
com portam ento em um sistem a coerente que explica aquele com ­
portam ento, suas funções e o m odo com o ele opera. O m odelo
durkheim iano de contextualização enfatiza a natureza restritiva de
alguns de n osso s conceitos gerais, m as a contextualização é um
elem ento funcionalista, ainda que se limite a enfatizar o ajustam en­
to entre um a instituição, u m a form a de com portam ento ou um
conceito, e aquele sistem a do qual faz parte. C o m o observa
G ellner28, m esm o W ittgenstein foi um “ seguidor e sucessor” de
D urkheim , pois até ele “ su pu n h a [que] as categorias eram valida­
das, por serem partes de um a ‘form a de vida’” .
Eu gostaria de ressaltar que, ao contrário da ênfase do funcio­
n alism o n a coerência social, os micro-historiadores concentraramse nas contradições dos sistem as norm ativos e por isso na fragmen2 8. E. G elln er, “ C on cep ts and Society” , em B .R . W ilson (ed.), Rationality, O xford , 1970,
p. 1 8 4 9 , especialm ente p. 24.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
155
ração, nas contradições e na pluralidade dos pontos de vista que
tornam todos os sistem as fluidos e abertos. A s m udan ças ocorrem
por m eio de estratégias e escolhas m in uciosas e infinitas que
operam nos interstícios de sistem as norm ativos contraditórios.
Isto é realm ente um a reversSo da perspectiva, pois acentua as
ações m ais insignificantes e m ais localizadas, para dem onstrar as
lacunas e os espaços deixados êm aberto pelas com plexas incon­
sistências de todos os sistem as. V o ltan d o ao exem plo previam en­
te m en cion ado, é afinal m ais funcionalista con siderar o significa­
d o da briga de galos n o contexto de um sistem a coerente da
cultura balinesa, do que con siderar os significados m últiplos
so cialm en tejragm en tados da briga de galos em si, com o um m eio
de interpretar a cultura balin esa em geral, com todas as suas
in co n sistên cias.29
D e fato, m esm o q u ando pen sam os em um repertório de
culturas locais não com paráveis um a com a outra e das quais regras
gerais, m ais ou m en os abstratas, só podem ser deduzidas de um a
form a puram ente arbitrária, ainda é possível que tal abordagem
p o ssa produzir um a interpretação m uito funcionalista, se assum ir
a cultura local com o um todo coerente, hom ogêneo e sistemático.
H á, por isso, duas form as possíveis de se interpretar um contexto
social: com o um local que im puta significado a particulares su p o s­
tam ente “estran h os” ou “ an ôm alos” , revelando seu significado
oculto e conseqüentem ente seu ajustam ento a um sistem a; ou, por
outro lado, com o um ponto de descoberta do contexto social em
qu e um fato aparentem ente anôm alo ou insignificante assum e
significado, q u an d o as incoerências ocultas de u m sistem a aparen­
tem ente unificado são reveladas. A redução da escala é um a
operação experim ental justam ente devido a esse fato, porque ele
presum e que as delineações do contexto e sua coerência são
aparentes, e revela aquelas contradições que só aparecem , quando
a escala de referência é alterada. Esse esclarecimento pode também
ocorrer de m od o incidental, com o observou corretamente Jacques
2 9 . Geertz, “ D eep Play” ; ver nota 23.
PETER BURKE
156
Revel30, p elo'au m en to da escala, tA escolha de m icrodim ensões
surge com o um resultado direto da tradicional preponderância da
interpretação macrocontextual, em vista da qual ela é a única
direção experim ental possível de ser tom ada,
O utro conceito de contextualização é aquele que entende o
contexto cultural com o um processo de se colocar um a idéia dentro
d o s limites prescritos pelas linguagens disponíveis. Estou pen san ­
do aqui, por exem plo, na história intelectual dos contextualistas
ingleses.31 Esta teoria encara o contexto com o sen do ditado pela
linguagem e pelos idiom as disponíveis e utilizados por um grupo
particular de pessoas em um a situação particular para organizar,
por exem plo, suas lutas de poder. Essa escola de pensam ento tem
tido grande influência sobre a teoria social em si e tem iniciado
tantas discussões que m e parece supérfluo voltar a expor seus
argum entos. Entretanto, a perspectiva da micro-história é, mais
um a vez, diferente, porque um a im portância fundam ental é dada
às atividades, às form as de com portam ento e às instituições que
proporcionam o arcabouço dentro do qual os idiom as podem ser
adequadam ente entendidos, e que permitem um a discussão signi­
ficativa daqueles conceitos e convicções que de outra m aneira
perm aneceriam hermeticamente fechados em si m esm os, sem um a
adequada referência à sociedade - m esm o que o discurso seja
conceitualizado, m ais com o um a ação do que com o um a reflexão.
A contextualização pode ter u m terceiro significado: este con­
siste na colocação form al e com parativa de um acontecimento, um a
form a de com portam ento ou um conceito, em um a série de outros
que são sim ilares, em bora p o ssam estar separados n o tem po e no
30. J. Revel, “ V histoire au ras du so l” , introdução a G . Levi, Le Pournir au village, Paris,
1 9 8 9 , p. i-xxxiii.
31. V er J.G .A . Pocock, The M achiavellian Moment: Fíorentine Political Thought and the
Atlantic Republican Tradition, Princeton, 1975 e Virtue, Commerce, and History: Essays
on Political Thought and History, chiefly in the Eighteentfi Century, C am b rid ge, 1985.
V er tam b ém Q . Skinner, “ H erm eneudcs and the R ole o f H istory” , New Literary
History, 7, p. 2 0 9 -3 2 ,1 9 7 5 -6 , e o livro de Sk in n er The Foundations of Modem Political
Thought: the Renaissance, C am b rid ge, 1978.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
157
espaço. Esta contextualização pressupõe que as estruturas form ali­
zadas e explícitas são com paráveis, m as está preocupada, não
apenas em agrupar os itens individuais, caracterizados por um ou
mais aspectos com uns, m as tam bém com a classificação baseada
em sim ilaridades “ indiretas” via analogia. A qui o contexto envolve
não som ente a identificação de um conjunto de coisas que com ­
partilham certas características, m as pode tam bém operar n o nível
da analogia - ou seja, na área em que a sim ilaridade perfeita existe
m ais entre os relacionam entos que unem as coisas, do que entre
as próprias coisas, que podem ser m uito diversas. A sim ilaridade
ocorre entre sistem as de relações envolvendo elem entos diferentes.
E, por assim dizer, um a identificação de sem elhanças familiares.
(Eu m e refiro aqui em particular à posição de N eedham .)32
A micro-história tem dem onstrado a falibilidade e a incoerência
dos contextos sociais, com o convencionalm ente definidos: obser­
ve-se, por exem plo, as críticas feitas por M . G rib au di33 em relação
à delim itação das vizinhanças da classe trabalhadora. G ribaudi
dem onstra que as solidariedades podem estar baseadas, não tanto
n a sim ilaridade da posição social, m as antes na sim ilaridade da
posição nos sistem as de relacionam entos. O utro exem plo é a
análise das regras do m atrim ônio e dos efeitos da consangüinidade
n a região do C o m o n o século dezessete34; n essa análise, um a forte
contextualização social e um a redução da escala revelam a im por­
tância das regras abstratas form ais d o m atrim ônio com o um a base
para as categorizações sociais. Para outro exem plo, veja-se o estudo
de u m feudo realizado por A go.35
E ssas observações colocam problem as adicionais, o que é
necessário considerar brevemente. Em prim eiro lugar, o problem a
3 2 . R. N eed h am , Reconnaissances, T o ron to, Buffalo, Lon dres, 1980.
3 3 . M . G rib au d i, Mondo operaio e mito operaio: spazi e percorsi sociaíi a Torino jiel primo
Novecento, T u rim , 1 987.
3 4 . M erzario, II paese stretto, 1981.
3 5 . R . A go, (Jn feudo esemplare: immobilismo padronale e astuzia contadina nel Lazio
d el’700, R om a, 1 988.
158
PETER BURKE
do contraste entre o conhecimento individualizado e o generaliza­
do - debate recorrente entre os historiadores sociais. E suficiente
recordar o debate sobre história qualitativa ou quantitativa da família,
ou, em um contexto mais amplo, a crise que abalou um a convicção
difundida nos anos 60 da possibilidade de se quantificar as ocorrên­
cias sociais e formular leis rigorosas de comportamento social. Desejo
concentrar-me aqui em um único aspecto que, em bora talvez em si
singular, serve para esclarecer um problem a importante. G ostaria de
exam inar o que significa história quantitativa, ou melhor, examinar
aquelas características da quantificação implícitas em um conceito
mecanicista de realidade social.
A m icro-história tenta n ão sacrificar o conhecim ento dos
elem entos individuais a um a generalização m ais am pla, e de fato
acentua as vidas e os acontecim entos individuais. M as, ao m esm o
tem po, tenta n ão rejeitar todas as form as de abstração, po is fatos
insignificantes e casos individuais podem servir para revelar um
fenôm eno m ais geral. Em u m a ciência frágil em que, se a própria
experim entação não é im possível, aquele aspecto da experim en­
tação envolvendo a capacidade de reproduzir as cauSas está
excluído, m esm o as m enores disson ân cias provam ser in dicado­
res do significado que podem potencialm ente presum ir as dim en ­
sões gerais. E doardo G ren di definiu essa perspectiva com o sen do
a atenção dad a ao “ n orm al excepcional” .36 A s alternativas de se
sacrificar o particular ao geral, ou de se concentrar apen as na
singularidade do particular é, portanto, um a distinção in adequ a­
da. O problem a é m ais aquele de com o po dem o s elaborar um
paradigm a qu e dependa do conhecim ento do particular, em bora
não rejeitando a descrição form al e o conhecim ento científico do
próprio particular.37 N ão obstante, as com parações entre quanti­
36. E. G ren d i, “ M icroan alisi e storia sociale” , Quaderni Storici, 7, p. 506-20, 1 972, e
Polanyi: daíf'antropologia economica alia microanalisi storica, M ilão, 1978.
37. C . G inzburg, “ Spie: radiei di u m parad igm a indiziario” , em A . G argan i (ed.), C risi
delia ragione, T u rim , 1 979, p. 59-106, republicada n o livro de G in zb urg M m Emblemi
Spie: mor/ologia e storia, T u rim , 1986, p. 158-209. U m a tradução inglesa d o livro foi
publicada em Londres em 1 9 9 0 co m o Myths, Emblems, Clues.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
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tativo e qualitativo, acontecim ento e série, particular e geral,
levaram a u m a visão errônea d o s instrum entos adequados à
form alização. A história social tradicionalm ente se considerava
capaz de aplicar m odelos rígidos à história e de utilizar um tipo
quantitativo de form alização,"em qu e o conceito de causalidade
n ão poderia ser enfraquecido pela atenção às escolhas e às
incertezas pessoais, às estratégias individuais e de grupo que
evocam u m a perspectiva m en os m ecanicista. C o m o esta tendên­
cia a identificar a form alização com a quantificação há m uito
tem po tem sido predom inante, a história ficou paradoxalm ente
atrás das outras ciências sociais. Parece-me que a m icro-história
se m ovim enta m ais firm em ente em direção aos ram os não-quantitativos d a m atem ática, para apresentar representações m ais
realistas e m en os m ecanicistas, am plian d o assim o cam po da
indeterm inação, sem necessariam ente rejeitar as elaborações for­
m alizadas. Problem as com o aqueles relacionados a gráficos ou a
entrelaçam entos relacionais, com a decisão em situações incertas,
com o cálculo de probabilidades e com jogos e estratégias, foram
todos, inacreditavelm ente, negligenciados no debate sobre a
ch am ad a história quantitativa. A o se decidir trabalhar com um
q u ad ro diferente, m ais com plexo e realista, da racionalidade de
atores sociais e ao se con siderar a natureza fundam entalm ente
entrelaçada dos fenôm enos sociais, torna-se de im ediato n ecessá­
rio desenvolver e utilizar novos instrum entos form ais de abstra­
ção. O cam po perm anece bem aberto para a exploração dos
historiadores.
Estas, então, são as questões e posições com uns que caracteri­
zam a micro-história: a redução da escala, o debate sobre a
racionalidade, a pequena indicação com o um paradigm a científico,
o papel do particular (não, entretanto, em oposição ao social), a
atenção à capacidade receptiva e à narrativa, um a definição especí­
fica do contexto e a rejeição do relativismo. Estes elementos
característicos são de muitas m aneiras sim ilares àqueles esboçados
p o r Jacques Revel em um artigo recente sobre a micro-história que,
talvez, até agora, seja a tentativa m ais coerente de interpretar este
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PETER BURKE
trabalho experim ental.38 Revel39 define a micro-história com o a
tentativa de estudar o social, não com o um objeto investido de
propriedades inerentes, m as com o um conjunto de inter-relacionam entos deslocados existentes entre configurações constantem ente
em adaptação. Ele encara a micro-história com o um a resposta às
limitações óbvias daquelas interpretações da história social, que em
sua busca de regularidade, dá proem inência a indicadores supersim ples. A micro-história tentou construir um a conceituação m ais
fluida, u m a classificação m en os prejudicial do que constitui o social
e o cultural, e um arcabouço de análise que rejeita simplificações,
hipóteses dualistas, polarizações, tipologias rígidas e a busca de
características típicas. “ Por que tornar as coisas sim ples, q u ando
se pode torná-las com plicadas?” (p. xxiv) é o lem a que Revel sugere
para a micro-história. C o m isso ele quer dizer que o verdadeiro
problem a para os historiadores é serem bem sucedidos no expres­
sar a com plexidade da realidade, ainda que isso envolva o uso de
técnicas descritivas e form as de raciocínio, que são m ais intrinsicamente autoquestionadas e m en os assertivas que qualquer outra
antes utilizada. O problem a é tam bém aquele de selecionar as áreas
im portantes para o exame: a idéia de se considerarem os indivíduos
da história tradicional em um a de suas variações localizadas é
análoga à idéia de se ler nas entrelinhas de um determ inado
docum ento, ou entre as figuras de um quadro, para discernir
significados que previamente escaparam da explicação; ou a verda­
deira im portância daquilo que antes parecia ter surgido m eram ente
por circunstância ou necessidade; ou o papel ativo do indivíduo
que antes parecia sim plesm ente passivo ou indiferente.
C o m referência à definição de Revel, tentei salientar mais
claram ente o im pulso anti-relativista da micro-história e as aspira­
ções de form alização que caracterizam, ou em m inha opinião
3 8 . C . G in zb u rg e C . Poni, “ II nom e e il com e: scam bio ineguale e m ercato storiografico” ,
Q uaderni Storici, 14, p. 181-90, 1 979; u m breve m anifesto inicial que, lido hoje,
parece ter sid o m uito su perado pelo trabalh o su bseqü ente n o cam po prático da
micro-história.
3 9. Revel, “ U h istoire au ras du so l” , em Levi, Le pouvoir au village, 1989.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
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deviam caracterizar, o trabalho do micro-historiador. Isso é im por­
tante, pois os conceitos que u sam os na história e nas ciências
sociais são com freqüência im precisos e u sados metaforicamente.
O próprio conceito de configuração, por exem plo, fórm ula inteli­
gente e intuitiva de Elias, parece-me típico no sentido de ser
poderosam ente expressivo, m as perm anece alusivo e não se m ovi­
m enta em direção a algo que, Gomo tentei m ostrar neste artigo,
acredito ser possível expressar em term os m ais form ais.
N ão sei se esta apresentação da micro-história é confiável.
G ostaria de apresentar, em term os m ais ou m enos bem caracteri­
zados, um grupo de pessoas que na verdade tem se envolvido em
m uitos e variados debates na história social italiana n os anos 70 e
80. Talvez eu devesse ter explicado, de m odo m ais am plo, as várias
opiniões diferentes envolvidas e as referências a um debate histó­
rico que se estende m uito além do grupo italiano. Devo, por isso,
esclarecer as coisas inform ando o leitor de que m eus princípios
diretivos são fortemente pessoais; este é m uito m ais um auto-retrato
que um retrato de grupo. Eu não poderia ter feito de outra forma
e por isso advirto o leitor ser este o caso.
HISTÓRIA ORAL
Gwyn Prins*
O s historiadores das sociedades m odernas, industriais e m aci­
çam ente alfabetizadas - ou seja, a m aior parte dos historiadores
profission ais - em geral são bastante céticos quanto ao valor das
fontes orais n a reconstrução do passado. “ N esta questão eu sou
qu ase totalmente cético” , observou A .J.P. Taylor, causticamente.
“V elh os babando acerca de sua juventude? N ão !” M uitos podiam
n essa altura ser um pouco m ais generosos e adm itir a história oral
- a história escrita com a evidência acum ulada de u m a pessoa viva,
de preferência àquela de um docum ento escrito - com o um a
ilustração agradável e útil; m as poucos aceitariam que tais materiais
p o ssam se tornar essenciais n o estudo das sociedades m odernas,
docum entadas. A cham que as “ histórias do povo” de Terkel, da
D epressão e da Segunda G uerra M undial, jam ais edificam hipóte­
ses históricas im portantes sobre aqueles grandes acontecimentos.
A fragilidade im plícita das fontes orais é considerada universal
e irreparável; por isso, para as sociedades sem registros escritos, o
alcance convencional d o discernim ento é desanim ador. Em um
extrem o, A rthur M arwick em The Nature of History adm ite que “a
*
D iretor de E stu d os de H istória e M em bro d o E m m anuel C ollege.
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PETER BURKE
h istó ria b aseád a exclusivam ente em fontes não-docum entais,
com o, p o r exem plo, a h istória de u m a com u n id ad e africana,
p o d e ser u m a h istória m ais im precisa e m en o s satisfatória d o
que u m a extraída de d o cu m en tos, m as de todo m o d o é u m a
h istó ria” . N o ou tro extrem o, a m en os que h aja d ocu m en tos,
n ão pode haver um a h istória adequ ad a. D esd e o início da
h istória (isto é, da h istória escrita segu n d o o m étod o de Ranke),
a Á frica tem sid o vista com o o continente a-histórico par
excellence. E sta o p in ião foi con sisten tem en te su sten tad a, desde
a sen ten ça de H egel em 1 8 3 1 , de q u e “ ela n ão é parte h istórica
d o m u n d o ” , até a fam o sa ob servação de H u gh T revor-R oper em
1 9 6 5 , qu e ofen deu p o r um a geração os clãs de african istas
an ticolon iais qu e rapidam ente se proliferavam n a época, decla­
ran d o qu e a Á frica n ão p o ssu ía h istória, ap en as evoluções sem
sen tido de tribo s b árb aras.1 E sta n ão era som en te u m a v isão da
direita ou ap en as d a Á frica. A s aldeias ifidian as, exem plifican do
o m o d o de prod u ção asiático, sim plesm en te assavam ao sol,
reproduzindo-se im produ tivam en te “ in tocadas pelas nuvens
tem p estu osas do céu p o lítico” , n a fam o sa frase de M arx. O s
defen sores m arxistas do s m ovim en tos an ticolon iais desde en tão
fazem m alab arism o s, ten tan do explicar q u e o V elh o realm ente
n ão q u is dizer q q u e claram ente ele disse.
T an to n os casos sim páticos quanto nos hostis, é aplicado o
teste rankeano básico. So b a hierarquia de dad os rankeana, q u an d o
forem disponíveis fontes oficiais, escritas, elas devem ser as prefe­
ridas. Q u an d o não se dispuser delas, tem-se de tolerar a segunda
escolha, buscando-se as inform ações longe da fonte pura do texto
oficial. O s dad os orais são, n esses term os, certamente a segun­
da m elhor ou pior escolha, pois seu papel é facilitar as histórias de
segunda escolha sobre as com unidades com fontes escassas. N es­
ses critérios, Hegel, Trevor-Roper e M arx estão apenas sen do
escrupulosos.
1. Para a v isão d e u m cam inho diferente qu e com eça deste m esm o ponto, ver H en k
W esseling, “W h at is overseas history” , p. 97-131.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
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Por parte daqueles que em pregam as fontes orais, tem havido
dois tipos de reação a tal ceticismo, um a de irritação, a outra um
pouco m enos. Paul T h o m p so n , figura proem inente n o “ m ovim en­
to” da história oral (um a autodescrição que já possu i um halo
evangelista), que defende o valer das fontes orais n a história social
m oderna, com o proporcion ando presença histórica àquelas, cujos
pon tos de vista e valores são descartados pela “história vista de
cim a” , escreveu iradam ente em seu m anifesto, The Voice ofthe Past,
que
a oposição à evidência oral é muito mais fundamentada no sentimento do
que no princípio. A geração mais velha dos historiadores que ocupam as
cátedras e° detêm as rédeas é instintivamente apreensiva em relação ao
advento de um novo método. Isso implica que eles não mais comandem
todas as técnicas de sua profissão. Daí os comentários depreciativos sobre
os jovens que percorrem as ruas com gravadores de fita.2
A ssim , n a batalha sobre as fontes orais n a história contem po­
rânea, a linguagem im oderada revela que profundas paixões estão
com prom etidas de am bos os lados. M as quanto ao papel das fontes
orais para a história das sociedades não-alfabetizadas, o mais
renom ado expoente da história oral n a África, Jan V ansina,
adm itiu francam ente o objetivo de M arw ickem seu m anifesto, Oral
Tradition as History.
Onde não há nada ou quase nada escrito, as tradições orais devem
suportar o peso da reconstrução histórica. Elas não farão isso como se
fossem fontes escritas. A escrita é um milagre tecnológico ... As limitações
da tradição oral devem ser amplamente avaliadas, de modo que ela não se
transforme em um desapontamento, quando após longos períodos de
pesquisa resultar uma reconstrução ainda não muito detalhada. O que se
reconstrói a partir de fontes orais pode bem ter um baixo grau de
confiabilidade, na medida em que não existem fontes independentes para
um a verificação cruzada.3
2. P. T h o m p so n , The Voice ofthe Past: Oral History, O xford , 1 978, p . 63.
3. J. V a n sin a , O ral Tradition as History, M ad iso n , W isco n sin , 1 985, p. 199.
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PETER BURKE
Pode-se observar que a concordância está lim itada às circuns­
tâncias em que as fontes orais têm de se estabelecer sozinhas; e
um a vez que V an sin a dem onstra, tanto naquele livro quanto em
suas m uitas m onografias, que freqüentemente não é este o caso, a
principal estocada de seu argum ento é, de fato, m uito mais
perem ptória. A questão é que o relacionam ento entre às fontes
escritas e orais não é “ aquele d a prima-dona e de sua substituta na
ópera: q u an d o a estrela não pode cantar, aparece a substituta:
q u ando a escrita falha, a tradição sobe ao palco. Isso está errado.
[As fontes orais] corrigem as outras perspectivas, assim com o as
outras perspectivas as corrigem ” .
Por que seria tão controvertida a utilização das fontes orais?
Paul T h o m p so n sugeriu que os velhos professores não gostam de
aprender novos truques e resistem ao que percebem ser um a erosão
da posição especial do m étodo rankeano. Isso pode ser verdade,
m as eu suspeito de que há razões m ais profundas, e m enos
estridentes. O s historiadores vivem em sociedades alfabetizadas e,
com o m uitos dos habitantes de tais sociedades, inconscientem ente
tendem a desprezar a palavra falada. Ela é o corolário de n osso
orgulho em escrever e de n o sso respeito pela palavra escrita. E por
que não? C o m o V an sin a observou, a com unicação através da
linguagem sim bólica, escrita, é um a realização absolutam ente estu­
penda. O alfabetizado tende a se esquecer d isso. O s m aoris da
N ova Zelândia proporcionam um exem plo triste, m as esclarecedor,
de um a ocorrência com um durante a expan são da Europa: os povos
analfabetos que observaram , depois seguraram com um a energia
feroz, m as falharam no controle desse instrum ento d o poder.
O s fatos triviais são particularm ente im pressionantes. Em
1833, talvez 5 0 0 m aoris podiam ler; depois de um ano, 10.000.
Em 1840, an o do Tratado de W aitangi, em que os dirigentes
m aoris perderam su a terra (ou obtiveram o benefício da anexação
britânica, dependendo do n osso ponto de vista), algo raro para um
pakeha (hom em branco) naquela época, um viajante expressou
tem or pela saúde física dos m aoris. Em vez de se exercitarem (o
que é próprio dos selvagens nobres), eles agora eram sedentários,
A ESCRITA DA HISTÓRIA
167
tendo-se “tornado leitores” . Em 1837, o tipógrafo W illiam C olen so
- m em bro de u m a fam osa família de m issionários - concluiu a
prim eira edição de um N ovo T estam ento M aori, e em 1845 os
m ission ários protestantes distribuíram quase tantos N ovos T esta­
m entos M aoris quanto m etade do núm ero de m aoris. Em 1849,
o G overn ador G eorge G ray acreditava que a proporção de m aoris
alfabetizados era m aior que a de qualquer população européia. Q ue
poder os m aoris viam n a escrita, para buscá-la tão avidamente?
E ra um poder triplo, m as com o m uitos povos recém-conquistados e recém e parcialm ente alfabetizados, os m aoris só con se­
guiram atingir u m a pequen a parcela dele. A prim eira faceta do
poder do liyro era totêm ica. O s m aoris analfabetos levavam livros
- q u aisq u er livros - para a igreja, ou enfiavam as páginas em
orifícios am pliados n os lóbulos de su as orelhas. Era um a tenta­
tiva, com um ente observada n os prim eiros estágios de um en con ­
tro colonial, de se obter o poder através da associação. A segunda
faceta era m an ipu lad ora. O m esm o C o len so (utilizando o m esm o
recurso com qu e im prim iu as escrituras) em 1840 im prim iu o
texto do T ratad o de W aitangi. N o encontro para discutir o
T ratad o, ele n ão conseguiu convencer o G overn ador de que,
em b ora todos os m aoris pudessem ouvir e alguns pudessem ler
as palavras do rascunh o do inglês traduzido, eles n ão poderiam
e n ão podiam com preen der o significado legal, ou com partilhar
os conceitos subjacentes de propriedade, ou ainda entender as
con seqü ên cias d a assinatura. D o n M cKenzie declara que os
m aoris foram os qu e m ais perderam , e durante m ais tem po, n a
batalh a sobre o controle d a terra, precisam ente porqu e sua
exposição à alfabetização n a década anterior deu a im pressão de
q u e eles podiam e realm ente aceitaram os term os do jogo
determ in ados pelo registro escrito, m as n ão foram capazes de
m anipulá-lo com su cesso .4
4. D .F . M cKenzie, “T h e Sociology o f a text: oral culture, literacy and prin t in early N ew
Z ealand” , em P. B u rke e R. Porter (ed.), The Social History of Language, C am bridge,
1 987, p. 161-97.
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PETER BURKE
A terceira jaceta do poder é formal e ativa. É o poder de extemalizar, de acumular e fixar o conhecimento. Isso, os m aoris só adquiri­
ram em um a escala politicamente significativa na geração seguinte.
Esta é a verdadeira essência do milagre de escrever e, em todas as
com unidades, a capacidade de cruzar a soleira do passivo para o ativo,
de passar de vítima a dom inador da palavra escrita, foi. a mais
revolucionária de suas conseqüências, ainda que a m ais ilusória.
N as antigas pinturas nas cavernas de Lascaux, n a França, entre
as im agens de anim ais podem ser vistas séries de pontos dispostos
aos pares. E sses podem ser os prim eiros exem plos de com unicação
sim bólica: com unicação que é feita pelo indivíduo, em bora exista
independentem ente dele no tem po e no espaço. A capacidade de
realizar isso é um critério fundam ental na distinção do Homo
sapiens - hom em sábio - de seus predecessores biológicos: a
prim eira grande divisória na história hum ana. O s pontos de
Lascaux podem ser, tanto quanto os m achados polidos, os prim ei­
ros prenúncios da revolução neolítica que é a base de toda a
civilização subseqüente.
N o antigo O riente Próxim o, o ferro, o trigo e os anim ais
dom ésticos eram su bjugados.5 Lá tam bém ocorreu a principal
invenção que libertou os potenciais da escrita. A escrita sim bólica
foi criticamente im portante, capacitando o hom em a transcender
a não-perm anência da fala, m as era difícil. Foi a criação de um
sistem a alfabético de escrita que facilitou o desenvolvim ento final
de u m a sociedade essencialm ente alfabetizada, que prim eiro flores­
ceu na G récia no século sétim o antes de C risto. Bertrand Russell
cham ou o nascim ento da civilização na G récia a coisa m ais difícil
de ser relatada em toda a história, e a m ais surpreendente. Foi com
certeza outra linha divisória, m as talvez não tão im portante quanto
aquela representada pela revolução neolítica, e talvez n ão merecen­
do um a linguagem tão elevada.
5. O ferro foi tam bém independentem ente su bjugad o na T ailân d ia e provavelm ente
próxim o aos G ran d es Lagos n a Á frica C entral; a im portância d a descoberta do
O riente Próxim o está em su a co m b inação com o cavalo e com os grãos.
A ESCRITA D A HISTÓRIA
169
Jack G oody, em The Domestication of the Savage Minei, sugere
que n a busca da com preensão do poder da alfabetização, é útil,
adaptando-se a term inologia de M arx, distinguir duas partes no
modo de com unicação: os objetivos e as relações de com unicação,
respectivam ente as dim ensões físicas e as socioculturais. A lém
d isso, declara ele, elas devem ser sem pre consideradas em con jun ­
to. N esses term os, a G récia ptíde ser situada em um contexto.
N ós n os encontram os em um a sociedade de literatura maciça,
que desfruta de u m sistem a alfabético de escrita e, olhan do para
trás, podem os distinguir três m od os de com unicação. Podem os
ver:
1. Culturas orais em que a linguagem assume uma forma puramente
oral. Essas são tipificadas por linguagens locais; são hoje em dia, e têm sido
há longo tempo, relativamente raras.
2. Culturas escritas em que a linguagem assume somente uma forma
escrita, porque a forma oral não mais existe. Essas são tipificadas pelas
línguas clássicas.
3. Culturas compostas em que uma linguagem assume tanto formas
orais, quanto escritas, para todo o povo ou para uma proporção dele. Som os
obrigados a categorizar mais e distinguir entre culturas universalmente
alfabetizadas, que nós muito facilmente admitimos de modo tácito, mas
que são historicamente incomuns, e culturas restritamente alfabetizadas, em
que a maior parte das pessoas vive à margem, mas sob o domínio do registro
escrito.
A existência n o interior de u m a cultura com posta é, de fato,
típica, atualm ente, para todas as grandes línguas do m undo. A s
pessoas, ou são individualm ente analfabetas ou semi-analfabetas
reguladas pelo livro, assim com o os m aoris no século dezenove,
grande parte d o m u n d o islâm ico ou o m undo pós-alfabetizado no
m u n d o novo d a com unicação de m assa eletrônica: dom inadas pelo
rádio, pela televisão e pelo telefone. M as os historiadores são
pessoas alfabetizadas par excellence, e para eles a palavra escrita é
soberana. Estabelece seus padrões e m étodos. Rebaixa as’ palavras
faladas, que se tornam utilitárias e sem interesse, em com paração
com o significado concentrado do texto. A s nuanças e os tipos de
dad os orais n ão são levados em conta.
170
PETER BURKE
U m d o s effeitos de se viver em um a cultura dom inada pela
palavra escrita é, devido ao rebaixam ento da palavra falada, caute­
rizá-la. Podem os possuir um a consciência detalhada de muitas
linguagens escritas com plexas, especiais: no inglês, no correr dos
tem pos, tivem os os m odos chauceriano e shakespeareano, ou a
linguagem especial do Rei Jam es Bible ou do Livro de O rações,
todas as quais sobrevivem. A o observar um a cultura oral ou
com posta, tem os de fazer um esforço consciente para tentar e
retardar n o sso passo de acesso, e considerar o testem unho oral
com o, potencialm ente, do m esm o m odo com plexo. D evem os
reconhecer a distinção entre a fala im portante e a banal, assim
com o a T ess dos U bervilles de T h o m as H ardy passou do dialeto
de D orset para o inglês padrão, segundo seu interlocutor, assim
com o os rastafarianos do C arib e merecem um registro especial para
o canto religioso.
U m dos exem plos m ais antigos e m ais conhecidos de com o as
linguagens especiais do registro oral e escrito se entrelaçam em um a
cultura com posta é a tradição oral sobre o C orão, o hadith. Em um
m agnífico estudo dessa cultura islâm ica com posta, Ernest G ellner
m ostrou com o o baraka (autoridade carismática) dos “ san tos” ou
H om en s Sagrados das M on tan has A d as do M arrocos deriva, para
seus vizinhos analfabetos, de su a interpretação oral da lei islâmica,
o sh a n a . M as o sh aría é um a lei escrita e esses H om en s Sagrados
podem ser eles próprios pessoalm ente analfabetos. M as extraem
seu carism a da associação com o poder da palavra do livro.
O s historiadores tradicionais, orientados por docum entos,
buscam três qualidades em suas fontes, nenhum a das quais os
dad os orais m anifestam ente possuem . Por isso eles não são levados
a sério. Exigem precisão n a form a. E im portante verificar a natureza
estável da evidência. U m docum ento é um artefato. N ão há dúvidas
a respeito d o que é, fisicamente, o testem unho: a form a é fixa. Ele
tam bém pode ser testado de várias m aneiras, fisicam ente (m ais um a
vez), m as tam bém através de um a bateria de m eios com parativos,
textuais, estruturais e outros. Isso proporciona a segunda qualidade
buscada: a precisão n a cronologia.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
171
O s historiadores pensam em tem po serial, com o é m edido pelo
calendário e pelo relógio de pulso. O s docum entos podem oferecer
belos detalhes n essa dim ensão e assim podem permitir que se
derive deles argum entos sutis. A objetividade requerida pelos
m em bros m ais tradicionais d » profissão histórica é colocada em
grande parte sobre a suposta força de dedução extraída de um
estudo concentrado da lógica da1narrativa belam ente estruturada.
M as, com o verem os logo a seguir, o tem po serial não é o único
tipo de tem po que os hom ens utilizam, e há outras coisas além da
m udan ça para explicar.
Em terceiro lugar, um a vez que se é alfabetizado, a escrita é fácil
e deixa um rastro m arcado, e por isso vivem os em um oceano de
m en sagens escritas e consideram os a com preensão da m ensagem
de um texto, lendo textos adicionais. Testis unus, testis nullus: um a
única testem unha n ão é testem unha. N ó s dem onstram os por
m ultiplicação. Em cada um desses cam pos, a evidência oral sem
com provação é considerada pobre. A form a não é fixa; a cronologia
freqüentem ente é im precisa; a com unicação m uitas vezes pode não
ser com provada. Para os historiadores que não gostam da história
oral, esses com põem cam pos suficientes para sua rejeição. M as
outras duas razões são com freqüência adicionadas em relação a
seus objetos de estudo. U m a delas, m encionada no início deste
capítulo, é que a história oral está autoindulgentem ente preocupa­
d a com questões tangenciais. A outra é que não pode ser outra: ela
está enclausurada na irrelevância d a pequena escala.
C reio que a queixa geral das prem issas m etodológicas sobre a
precisão freqüentem ente refletem um a crença de que os dad os orais
não podem explicar a m udança, e que a m udança é o que m ais os
historiadores estudam . M as isso não é totalmente verdade; e em
algum as circunstâncias, em especial nas sociedades não-alfabetizad as ou quase alfabetizadas, a continuidade é m uito m ais interes­
sante e m uito m ais difícil de ser explicada do que a m udança. A
queixa da autoindulgência reflete um preconceito contra a história
vista de baixo, ou u m m edo de que, um a vez que os dad os orais
sejam expressos na escala das percepções do indivíduo, o historia­
172
PETER BURKE
dor seja enganado por eles na pequena escala, possivelm ente os
interprete m al e assim seja incapaz de extrapolar de m aneira
eficiente. E m sum a, ficaríamos irremediavelmente atravancados. A
história oral só nos relata o trivial sobre as pessoas im portantes e
as coisas im portantes (através de sua própria visão) das pessoas
triviais.
Será isso realmente verdade? Evidentemente, foi para destruir
esse tipo de postura de rejeição, que a artilharia do “ m ovim ento
da história oral” deslocou-se para o cam po de batalha. Ele pode ter
sido superentusiasticam ente bom bardeado nos disparos iniciais,
m as as questões que estão em disputa são reais e estão igualmente
vinculadas às funções da m em ória e aos propósitos da história, nas
sociedades com m odos de com unicação diferentes. H á outros
testes, além dos rankeanos, a serem aplicados.
Para julgar essas queixas e verificar-quem está escam oteando
quais suposições sobre os propósitos do historiador, devem os ser
precisos na definição dos term os, para evitar erros de categoria. Por
isso, im ediatam ente distingo dois tipos, e dentro de um tipo,
seguindo V an sin a, quatro form as diferentes de dados órais, e
devem os estar preparados para encontrar argum entos diferentes
sobre cada um deles, em diferentes tipos de sociedade.
M ais precisamente, o que é evidência oral? N o início eu a defini
com o a evidência obtida de u m a pessoa viva, em oposição a fontes
in anim adas, m as isso n ão está suficientemente detalhado. H á a
tradição oral. Em De la tradition orale, o livro que, m ais que
qualquer outro, revolucionou n o ssa percepção da tradição oral, Jan
V an sin a a definiu com o “o testem unho oral transm itido verbal­
m ente de um a geração para a seguinte, ou m ais" (a ênfase é m inha).
T al material é a substância daqu ilo que po ssu ím os para reconstruir
o passad o de um a sociedade com um a cultura oral. A tradição oral
torna-se cada vez m enos pronunciada, à m edida que a cultura se
m ove para a alfabetização maciça, em bora algum a tradição oral
p o ssa persistir em u m am biente predom inantem ente alfabetizado.
O outro tipo de fonte oral é a rem iniscência pessoal. Esta é
um a evidência oral específica das experiências de vida do inform an­
173
A ESCRITA DA HISTÓRIA
te. T al evidência n ão p assa de geração para geração, exceto de m odo
altam ente esm aecido, com o por exem plo em narrativas familiares
privadas. N a década de 1870, m eu avô m aterno trabalhava com o
ajudante de jardineiro em um a m an são em Cornw all. O m ordom o
era um sádico que costumava^colocar gatinhos no fogão quente da
cozinha e se divertia assistindo à sua agonia. Com preensivelm ente,
m eu avô não esqueceu esse com portam ento e, na verdade, deixou
a casa para trabalhar nas m inas de estanho por causa daquele
hom em . E sse fragm ento eu ouvi de m inha m ãe. A rem iniscência
pessoal direta com põe a carga esm agadora da evidência oral,
utilizada por Paul T h o m p so n e o m ovim ento da história oral.
A tradição oral distingue-se da rem iniscência de outra maneira.
A transm issão de grandes quantidades e form as especiais de dados
orais, de geração para geração, requer tem po e um esforço mental
considerável; por isso, deve ter algum propósito. Em geral, acre­
dita-se qu e o propósito seja estrutural. A lguns teóricos, com o
D urkheim , encarariam o propósito na criação e transm issão da
história oral, desde que sistemática e dependentem ente relaciona­
dos à reprodução da estrutura social. O utros veriam propósitos
cognitivos m ais am plos e m ais autônom os. M as, quaisquer que
sejam eles, antes de poderem ser considerados, deve-se ainda
subdividir a tradição oral em quatro tipos.6
A utom ática
EXPRESSÃO
N ão-Autom ática
congelada
livre
congelada
POESIA
(INCLUINDO CANÇÕES
& LISTAS
ÉPICA
livre
FÓRMULAS
FORMA
e
(nom es, provérbios etc.)
NARRATIVA
6. Este qu ad ro é retirado de ]. V an sin a, “O n ce u p o n a tim e: O ral traditions as history
in Á frica” , Daedalus, 2, p. 442-68, prim avera d ê 1971, na p. 451.
174
PETER BURKE
S e um relato é aprendido automaticamente, então as palavras
pertencem à tradição. Se a form a de apresentação é fixa, então a
estrutura pertence à tradição. Avaliarei um a categoria de cada vez.
O s materiais aprendidos automaticamente, de form a congela­
da, realmente apresentam ao historiador os m enores problem as de
verificação, pois um a crítica textual rigorosa de versões da rrtesma
tradição abrirão cam inho para se chegar a um cerne com um de
form a e de palavras. A s regras de form a e linguagem podem ser
identificadas. O s poem as de louvor africanos, dos quais os mais
conhecidos são os isibongo zulus, são bon s exem plos desse gênero.
A s palavras, a form a e a entonação são todas estritamente definidas.
Freqüentem ente, os poem as de louvor descrevem as relações entre
o governante e o governado: eles m ediam um relacionam ento que
não poderia ser conduzido na linguagem coloquial. A ssim , sua
estrutura reflete seu propósito. Eis um extrato de um poem a desse
tipo, em louvor a Lozi, que recolhi nó oeste de Zâmbia. E
apresentado em luyana, o antigo idiom a, tão próxim o da linguagem
cotidiana, o siLozi, quanto o anglo-saxão do inglês m oderno.
Embora eu esteja próximo a você, não posso lhe falar. Mas não me
importo, pois sei de onde vem minha família. Venho de uma linha de
parentesco que está ligada a você. Toda canção tem sua origem...
Quando o rei está na corte, ele é como um elefante na vegetação
espinhosa; como um búfalo na floresta densa; como um jardim de milho
em um pequeno outeiro na planície alagada do Zambezi. Governe bem o
país! Se o país morrer, você será responsável. Se ele prosperar, terá orgulho
de você e o aclamará.
O s m ateriais provenientes de fórm ulas7 são especialm ente úteis
q u an d o se está tentando descobrir as dim ensões de um a cultura
popular. U m estudo de provérbios é freqüentem ente um m odo
7. A e x p re ssã o d o origin al é “ form u laic m aterial” , im p ossível d e ser traduzida, u m a
vez q u e n ã o existe registro d a palavra form ulaic n o s d icio n ário s de lín gu a in glesa.
C o n sid e ra n d o -se qu e o su fixo “ aico ” , de origem latin a, sign ifica referência,
pertin ên cia, proven iên cia, o p tam o s p ela tradução “ m aterial p roven ien te de
fó rm u la s” . (N .T .)
A ESCRITA DA HISTÓRIA
175
eficiente de se com eçar a fazer um tal m apeam ento, tanto no
presente de um a cultura oral ou com posta, quanto em seu passado.
Isso porque não é fácil falsificar sua expressão; ou, se estiverem
falsificados, fica claro que isso foi feito. H á outra ilustração, tam bém
relacionada ao reinado de Lozi.em Zâmbia. O século colonial na
Á frica foi, com o em qualquer outro lugar, tum ultuado. G randes
forças de m udança afetaram a sociedade lozi, assim com o muitas
outras. Por isso, se se percebem elem entos que perm anecem
constantes, apesar de tais pressões, isso é particularmente interes­
sante; e este é um dos exem plos que os exibe.
Em 1974, eu estava vivendo em Bulozi e costum ava coletar
provérbios em um caderno de anotações, de início principalm ente
por curiosidade. U m provérbio com um refere-se por analogia ao
reinado. Está escrito em luyana.
Nengo minya maloto wa fulanga meí matanga, musheke ni mu ku onga.
(O hipopótamo [rei] agita as águas mais profundas do rio; as areias brancas
dos locais rasos o traem.)
Encontrei-o novam ente alguns an os depois, m as em um con­
texto diferente: havia se transform ado em um canto antifonal por
um culto de cura, m isturando o m oderno siLozi com o antigo
luyana.
Curandeiro (canto): Mezi mtua nuka ki tapeio! (A água do rio é uma oração!)
Curandeiro (canto): Kubu, mwana lilolo! (Pequeno hipopótamo, filho do
redemoinho!)
Coro: Itumukela m<wa ngaia! (Ele emerge no meio do rio!)
Curandeiro: Musheke ni mu kongal (As areias o traem!)
Coro: Itumukela mwa ngala!
Portanto, tivem os duas variantes, com partilhando o m esm o
tem a im portante e am bas firmemente na época pós-colonjal. O
exem plo m ostra com clareza com o os cristais da expressão perm a­
necem inalterados no interior de um caleidoscópio de estruturas
em m utação, adaptado a propósitos particulares.
A força 4 ° material proveniente de fórm ulas é percebida,
q u ando aquelas versões m odernas são colocadas ao lado do m esm o
provérbio, exceto nas form as coletadas por um m ission ário francês,
bem n o início d a experiência colonial, na década de 1890: “wa
fulanga meyi matungu, musheke ni mu k’onga" e “Mbu ku m w an a
lilolo, wa twelanga matungu, musheke ni mu k’onga”.8 T al exem plo
vivo de persistência, na forma de um a fonte oral, testem unha sua
contínua reprodução na cultura popular; e que por sua vez teste­
m u n h a su a continuidade n a posse de algum a função cultural
persistente.9 Isso, conseqüentem ente, suscita um a questão im por­
tante sobre a m em ória seletiva nas fontes orais, o que verem os
adiante.
A lguns materiais provenientes de fórm ulas são m enos propen­
sos que outros a tal m em ória seletiva. Por exem plo, a identidade
de alguém em sua cultura pessoal é freqüentemente transm itida e
expressa publicam ente em um a descrição sem iótica dos limites
físicos. Por isso, se decodificada, a paisagem de sua terra descrita
por um m igrante pode dem onstrar m ais vivam ente a reprodução
cultural. Isso está brilhantem ente exibido em outro estudo de caso
africano. Siyaya: the Historical Anthropology of an African Laridscape
realiza tal decodificação e a utiliza para desafiar a suposição
convencional de que a m igração leva à quebra de relaciona­
m en tos.10
O s principais problem as do u so e do m au u so da tradição oral
estão relacionados às tradições não apreendidas de m odo autom á­
tico: as epopéias e as narrativas. A form a fixa da épica im plica que
a m aior parte d a épica africana é narrativa nesta esquem atização.
8. Para u m a exposição adicional do visível e d o oculto n a história de Lozi, ver G . Prins,
The Hidden Hippopotamus. Reappraisal in African History: the early Colonial Experience
in Western Zam bia, C am b ridge, 1 9 8 0 .
9. Para u m a discu ssão adicional da im portância e d a utilidade d o s provérbios, ver J.
O belkevich, “ Proverbs an d social history” , em Burke e P orter(ed.), The Social History
of Language, p. 43-72.
10. D avid W . C o h e n e E .S. A tieno O d h iam b o , Siyaya, the Historical Anthropology o fa n
A frican Landscape, Londres, 1 9 8 8 e u m a crítica em African A ffairs, 188, p. 588-9,
ou tu bro de 1989.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
177
Por “ épica” , quero m e referir aqui à épica hom érica: a poesia
heróica com posta oralm ente, segundo as regras. E claro que os
poem as foram escritos subseqüentem ente e não podem os saber o
quanto foram alterados, neste ponto ou subseqüentem ente; m as a
estrutura é bastante forte para tran scen der àquele processo. E um a
colcha de retalhos, um a rapsódia - literalmente “costurada” (do
verbo grego pooruá)) - de modcí que aquela repetição das fórm ulas
desem pen ha um papel na produção da form a da obra, tanto para
o poeta, quanto para a audiência. C erca de um terço da Iliada
consiste de versos ou blocos de versos que se repetem m ais de um a
vez. O m esm o acontece com a Odisséia. O correm vinte e cinco
expressões provenientes de fórm ulas n os prim eiros vinte e cinco
versos da llíada. Por exem plo, a aurora é quase sem pre “ pintada
de ro sa” , A tenas tem “olhos de coruja” , a ilha de ítaca é “ rodeada
de m ar", A quiles “ saquean do a cidade” e, mais fam osam ente, o
m ar é “vinho escuro” . M as não é um a repetição m onótona. H á
trinta e seis epítetos diferentes para A quiles, escolhidos e em pre­
gados por m eio de regras fixas.11 A ssim , de tais fragm entos de
material, o poeta costura um a nova obra, em bora os retalhos
individuais po ssam ser velhos e bastante conhecidos. M as essa
categoria e esse m étodo m ais um a vez suscitam questões óbvias
sobre a lim itação da quantidade de conhecim ento que a tradição
oral pode conter ou transm itir. T u d o isso n ão c estropiadam ente
restritivo?
M esm o com um a variedade de alternativas, tal com posição oral
não pode avançar o conhecim ento ou a precisão. E m anietada pela
não-perm anência da palavra falada e pela capacidade lim itada da
m em ória hum ana, m esm o q u an d o auxiliada por artifícios mnemônicos; assim , as culturas orais não podem inovar e devem esquecer.
E sse ponto de vista está no âm ago do argum ento do Professor Jack
G o o d y em The Domestication of the Savage M ind. A m ente “ selva­
gem ” torna-se “ dom esticada” q u ando os “m eios” de comur\icação
to m am possível m u dar o “m o d o ” :
11. M .I. Finley, The World ofO dysseus, Penguin edition, 1962, p. 34.
178
PETER BURKE
A escrita, e mais especificamente a alfabetização, tornou possível
investigar o discurso de uma maneira diferente, proporcionando à comu­
nicação oral uma forma semipermanente; essa verificação favoreceu o
aumento do escopo da atividade crítica e daí da racionalidade, do ceticismo,
da lógica. Aumentou as potencialidades da crítica, porque a escrita expunha
o discurso diante dos olhos de uma pessoa de uma maneira diferente; ao
mesmo tempo, aumentava a potencialidade do conhecimento cumulativo,
especialmente de um tipo abstrato de conhecimento ... O problema do
armazenamento da memória não mais dominava a vida intelectual do
homem. A mente humana estava livre para estudar o texto estático, em vez
de estar limitada à participação na expressão dinâmica.12
Em bora alguns historiadores orais pudessem discutir com
G oody a questão da libertação intelectual da escrita, m uitos,
especialm ente V an sin a em O ral Tradition as History, discutiriam a
extensão da questão de G oody dizer que as tradições orais são, por
isso, tam bém hom eostáticas; que aquilo, que é inconveniente, ou
não possu i m ais im portância funcional, é esquecido. Ele sugere
que um a am nésia estrutural aflige as culturas orais, que são, por
isso, forçadas a ser seletivas, devido às limitações da m em ória, e
assim as tradições não podem ser bon s dados históricos.
N a verdade, tal am nésia estrutural raramente é total. Em m uitas
obras iniciais, culm inando em sua obra-prima sobre a história
pré-colonial da África Central colonial, intitulada Paths in the
Rain-forest13, V an sin a m ostra com o se pode desenredar e decodifi­
car as várias partes de um a tradição, presentes n o final da cadeia
de transm issão. Envolve a com paração de variantes e o entrelaça­
m ento das fontes orais com outras de proveniência diferente. A
técnica de com paração textual interna para derrotar a hom eostase
é bem conhecida. O s estudiosos islâm icos avaliam versões do
hadith, estabelecendo o valor de cada um dos elos da cadeia (isnâd)
e não aceitarão qualquer tradição para a qual os dad os sobre o isnâd
não estejam presentes e razoavelmente com pletos. M as m esm o
derrotando-se a hom eostase e estabelecendo-se quais tradições
12. J. G oody, The Domestication of the Savage Mind, C am b ridge, 1 977, p. 37.
13. ]. V an sin a, Paths in the Rain/orest, M ad iso n , W iscon sin , 1990.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
179
estão presentes em um testem unho, isto é, buscando-se a precisão
da form a, com o serão elas datadas?
A precisão da cronologia era a segunda das três qualidades
b uscadas pelos historiadores orientados pelos docum entos. T em
sido n a tentativa de satisfazer*essa exigência e assim , obter os
aparatos da respeitabilidade, que os dados orais têm sid o m ais
seriam ente m al utilizados. O problem a é facilmente ilustrado.
A categoria d a narrativa freqüentem ente contém três tip.os de
transm issão. H á tradições de gênesis, histórias dinásticas e relatos
de organização social. H oje em dia esses três tipos de narrativa não
m ais existem todos dentro dos m esm os conceitos de tempo,
em bora, em questões com plicadas, a apresentação da evidência
p o ssa m isturar os tipos de material com o espécies diferentes de
carne em um a salsicha.
TEMPO NÃO ESTRUTURADO
Tradições dc gênese
TEMPO “TRADICIONAL" (scqüenciado mas não serial)
Histórias dinásticas
Relatos de estrutura de governo
TEMPO SERIAL
Edw ard Evans-Pritchard, o grande antropólogo que estudou o
povo nuer do sul do Sudão, antes da Segunda G uerra M undial,
escreveu um ensaio em brionário, descrevendo o que ele denom i­
nou de “tem po ecológico” , ou seja, o tem po cíclico em que os
hom en s vêem sua passagem na m udança das estações, não no
p assar dos anos. A m plificando esse ponto, o historiador social E.P.
T h o m p so n declarou que a m udança das sensações de tem po por
tarefas específicas - um “cozimento de arroz” (meia-hora) em
M adagascar; um “ assar de m ilho” (quinze m inutos) n a Nigéria
ocidental; u m “ par de C red o s” no C hile católico d o século
dezessete - para a geral, culturalmente autônom a e proposital
disciplina de tem po do relógio, foi parte, d a consciência social,
engendrada pela sociedade industrial e, ao m esm o tem po, para ela
180
PETER BURKE
fundam ental.14 Im ediatam ente podem ser im aginados os abusos
dos dad os orais: os historiadores eruditos tentaram extrair crono­
logias de tem po serial das tradições que existem n o tem po “ tradi­
cional” . A li, a im portância p assada ou presente do sujeito pode
afetar sua posição. Por exem plo, coisas m uito im portantes podem
ser consideradas bastante antigas - ou m uito recentes - aproxim an­
do-se ou distanciando-se a visão, dependendo do contexto e dos
propósitos atuais.
M as os historiadores exploradores, perseguindo a precisão
cronológica com a convicção e a devoção dos cavalheiros colecio­
nadores do século dezenove, não pensaram nisso. Eles utilizaram,
digam os assim , um a lenda real. C ontavam o núm ero de reis
m encionados. C on sideravam que um a geração alcançasse, por
exem plo, trinta e três anos. M ultiplicavam u m dad o pelo outro e,
pronto, eis as datas para as culturas orais! U m historiador em
particular, D avid Henige, provou e explorou tais ingenuidades. The
Chronology o fO ral Tradition, eficazmente apresentando o subtítulo
Quest for a Chimera, se estende desde os reinados africanos até as
relações de reis assírios e, do m esm o m odo que dissem in a a
iconoclastia e o ceticismo, H enige tam bém dissem ina algum a
esperança.15 Para alguém que com preenda com que espécie de
tem po se está lidando e que tipo de propósitos sustentou a tradição
na m em ória, pode-se, ainda que grosseiram ente, tom ar m edidas
defensivas. T al conhecim ento é quase sem pre contextual.
U m a m edida é m ais im portante que a m aioria. U m dos
capítulos m ais im portantes de H enige tem o título de ‘History as
present politics’ . O reconhecim ento d o fato d a invenção d a tradição
foi um a das introspecções m ais destrutivam ente criativas na
história extra-européia d a últim a geração acadêm ica, e n a utiliza­
ção d essa idéia, po r exem plo p o r D avid C an n ad in e, para reexa­
14. E .E . Evans-Pritchard, The Nuer, O xford , 1 940; E.P. T h o m p so n , “ T im e, W ork
D isciplin e an d In d ustrial C ap italism ” em M .W . F lin n e T .C . S m o u t (ed.), Essays in
Social History, O xford , 1974, p. 40-1. V er tam bém Jacqu es Le G off, “A u M oyen A ge:
tem ps de 1’Église et tem ps d u m arch an d ” , Annales, 15, p . 4 1 7 -3 3 ,1 9 6 0 .
15. D . H enige, The Chronology of O ral Tradition: Q u e stfo ra Chimera, O xford, 1974.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
181
m in ar os m itos da m on arq u ia britânica, vem os um a im portante
im portação m etodológica n a historiografia européia d a história
extra-européia, on de as exigências interdisciplinares e lingüísticas
m ais severas im pu lsion aram grande parte d o pion eirism o m eto­
dológico n os estudos históricos, durante a últim a geração aca­
d êm ica.16
A invenção d a tradição n ão é surpreendente nem desonesta,
especialm ente em culturas sem um critério único de verdade. E
sem elhante à autodefesa do prisioneiro que se finge de bob o ou de
surdo, vivam ente explorado por A lexander Solzhenitsyn em One
Day in the Life of Ivan Denisovitch. A s situações coloniais são
sim ilares, pois são tam bém m arcadas por extremos de poder e
ausência de poder. E m algum as circunstâncias especiais, nenhum a
recuperação é possível; nas totalitárias, podem ser a sim ples
seqüência e o ritm o do tem po em si que são distorcidos; nos
contextos coloniais, os relatos da estrutura social e da tradição
dinástica são m ais com um ente reinventados.
H á alguns tipos de m em ória que podem ser para sem pre
irrecuperáveis, devido à m aneira de sua perda. T al foi o caso
concluído pelo escritor italiano Prim o Levi, um dos sobreviventes
de Auschwitz, em relação ao H olocausto. The Drowned and the
Saved, seu últim o livro, é um a das m ais belas reflexões sobre a
natureza da vida e o m od o de operação psicológica dos cam pos de
m orte que a posteridade possui. M as nele Levi estabeleceu a
excentricidade de su a própria m em ória e a natureza conseqüente­
m ente defeituosa de sua interpretação. Por definição, ele não
poderia recuperar a m em ória das profundidades, on de a m aioria
estava afogada; dali ninguém retornou, e ele foi um dos poucos
que se salvou. N o fim, tanto para ele, quanto para o grande
psicanalista freudiano B runo Bettelheim, outro sobrevivente dos
cam pos, parece que a carga da sobrevivência foi m uito pesada e
16. D . C an n ad in e, “T h e C ontext, Perform ance an d M ean in g o f Ritual: the British
M on arch y and the ‘ invention o f tradition’” , em T .O . R an ger e E. H obsbaw n (ed.),
The Invention o f Tradition, C am b ridge, 1983, p. 101 -64; a m esm a qu estão é levantada
p o r W esselin g n a p. 110.
182
PETER BURKE
am bos, em sua velhice, com eteram suicídio. Talvez para eles o
passado não pudesse ser reinventado nem com unicado. Era lite­
ralmente inenarrável.17
U m passo m ais próxim o de nós que o silêncio estabelece a
reconstituição da substância. O historiador da experiência soviéti­
ca, Geoffrey H osking, ilustrou a situação totalitária com um a
citação da “ R ádio A rm ênia” : “ T od as as verdades fundam entais
sobre a vida soviética são ilustradas por anedotas orais, m uitas delas
originadas da m ítica Rádio A rm ênia. A ssim : pergunta-se à Rádio
A rm ênia, ‘E possível prever o futuro?’ Resposta, ‘Sim , isso não é
problem a: sabem os exatamente com o será o futuro. N o sso proble­
m a é o passado: esse está sem pre m u dan do.’” 18 D esde o advento
da glasnost n a U n ião Soviética, a batalha pelo controle da memória
tem sido amarga. U m a facção na verdade se intitula Pamyat (M em ó­
ria); a outra, inteiramente oposta ao arder\te nacionalism o eslavo e
ao anti-semitismo da Pamyat, chama-se Memorial, esta facção sendo
estimulada pelo falecido acadêmico Andrei Sakharov com o um a
forma de resgatar as vítimas de Stálin do esquecimento, do silêncio.
A recuperação da mem ória popular da Sibéria da mente das pessoas
tom ou-se um a atividade proeminente e, de alguma forma, um a
atividade política marginal na segunda Revolução Russa. A reforma
do poder fez com -que um a com issão relatasse a todo o C ongresso
dos D eputados do Povo no final de 1989 o resgate e a reinterpretação
de um episódio crucial, o pacto Hitler-Stálin.19
A natureza da história é com batida ferozmente tam bém na
Grã-Bretanha. Em 1985, a Inspetoria de Su a M ajestade (H er
M ajesty’s Inspectorate - HMI) publicou um parecer sobre o que
17. Prim o Levi, The Droumed and the Savecl, Londres, 1 988; M ichael Ignatieff, “ A cry for
help - o r o f release” , Observer, 1 de abril d e 1 9 9 0 (sobre o suicídio d e B ru n o
Bettelheim em 13 d e m arço de 1990).
18. Geoffrey A . H oskin g, “ M em ory in a totaliarian society: the case o f the Soviet U n io n " ,
em T h o m a s B u d er (ed.), Memory, O xford, 1988, p. 115.
19. “ O n the political an d legal asse ssm en t o f the Soviet-G erm an N on-A ggression Treaty
o f 1 9 3 9 ” , R elatório ao Segu n d o C o n g resso d o s D eputad os d o Povo pelo Presidente
d a C o m issã o , A lexander Yakovlev, 23 de dezem bro de 1989, M oscou , 1990.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
183
as crianças deveriam aprender. O “ Blue B ook ” d a HMI sintetizava
grande parte do que era m ais inovador nas escolas, durante os vinte
an os anteriores; um trabalho com o o projeto de história do
C o n selh o Escolar, visan do ensinar as crianças de 11 a 14 an os de
idade a discrim inar a boa evidência da m á evidência, pretendia
reconhecer a legitim idade de m uitos tipos de fontes, incluindo a
oral, para questionar todas as verdades aprendidas, para empatizar
com as situações difíceis das pessoas n o passado, com o um
estím ulo essencial à im aginação histórica.30 D a m esm a form a que
os revolucionários m odernos na U n ião Soviética, os Inspetores
com preendiam exatamente o significado político de um estudo
vigoroso da história e po r isso colocaram n a contracapa do livro a
seguinte frase de N ikita Khruschev: “O s historiadores são pessoas
perigosas. São capazes de transtornar tudo.”
O governo da Sra. Thatcher aboliu o C o n selh o Escolar. Houve
um a tentativa encolerizada, prolongada e mal sucedida d a Sra.
Thatcher e da direita radical para estabelecer, com o term os exclu­
sivos, aqueles do G ru p o de T rabalho de H istória de Saunders
W atson de 1990, recom endando ao D epartam ento de Educação e
C iên cia o conteúdo do currículo nacional britânico, seu program a
triunfalista, whiggisca, orientado por docum entos e sum ários pro­
vincianos de história política e constitucional britânica, com um a
ênfase no aprendizado mecânico das datas e dos “ fatos” e um a
aversão à im aginação histórica. Pode-se encontrar aí tam bém a
negação à legitimação da história oral.
O G ru p o de T rab alh o relatava em term os sim ilares àqueles da
HMI em 1985, para ser logo abruptamente derrubado por decreto
ministerial, quando o Sr. Kenneth Clarke, recém-nomeado para o
ministério, impôs as opiniões rejeitadas pelo G rupo de Trabalho,
orientando a profissão e também o “ Blue Book” da Inspetoria. N a
ocasião da redação do documento (fevereiro de 1991), houve confusão
e ressentimento, pelo feto de tal atuação ser permitida na profissão.21
2 0 . History in the Primary and Secondary Years: an H M I View, Londres, 1985.
2 1 . M artin Kettle, “T h e great batde o f history” , G uardian, 4 de abril de 1 990, p. 23
184
PETER BURKE
E sses episódios consideram dois pontos. A Sibéria da mente
não é apenas o terreno do silêncio da morte, m as tam bém um a
negação viva da legitimidade. Renuncia à mudez em prol da
condescendência dissecativa e da hegem onia proscrita dos atuais
governantes. N isso, os britânicos ecoam friamente o debate sovié­
tico. Em segundo lugar, é ressaltada a evidência da fragilidade e,
sob pressão contem porânea, da m aleabilidade do passado. A escala
de tal invenção pode ser grandiosa.
O povo tiv da Nigéria C entral não era com posto de cavalheiros.
N o início da década de 1900, eles com bateram os soldados brancos
que estendiam linhas telegráficas através de sua terra, assim obten­
do um a reputação de serem bárbaros, traiçoeiros e, é claro,
profundam ente pagãos. A lém disso, cheiravam à anarquia, pois
não possuíam um a hierarquia clara de chefes. Por isso, q u ando em
1907 um residente britânico, C harles Fprbes G ordo n , descreveu
sua sociedade pela prim eira vez, percebeu e registrou a natureza
segm entar de seus clãs. M as na ocasião da Primeira G uerra
M undial, a adm inistração britânica na Nigéria foi bastante am plia­
da e achou conveniente parar de olhar os tivs com o tivs, -em vez
disso anexando-os a seus vizinhos m ais n um erosos, os hausas.
O bsequiosam ente, os chefes tivs se “hausaíram ” aos olhos colo­
niais: falavam hausa, vestiam-se com o os h ausas etc. M as em
1930-1 os tivs foram visitados e estudados por R .C . A braham ,
antropólogo d o governo, e R .O . D ow nes, funcionário do distrito.
O relatório A braham -D ow nes apresentava um a visão nova dos
tivs. Eles viram a sociedade acéfala, descrita por Forbes G o rd o n
em term os razoavelmente hierárquicos, refletida em um novo
conjunto de conselhos hierarquizados. M as a legitimação desses
conselhos e de seus chefes im pediu um a geração m ais jovem de
tivs alfabetizados de um am paro político potencial. A ssim , eles, por
sua vez, com eçaram a defender u m a nova causa, aquela do T o r Tiv
- um chefe suprem o tiv para com andar os conselhos e (por
(criticando o furor político sob re o Relatório do G ru p o de T rab alh o de H istória,
publicado d ep ois de m uito atraso em 3 de abril de 1990).
A ESCRITA DA HISTÓRIA
185
coincidência) exatam ente congruente com o m odelo “ norm al” da
autoridade nativa, com an dada por funcionários britânicos treina­
do s n a escola de governo indireto de Lord Lugard. O utra investi­
gação antropológica em 1940 decidiu que os tivs eram realmente
governados por patriarcas que form avam um a pirâm ide de autori­
dade. Será que havia realmente um chefe suprem o nativo? Em
quarenta anos, a percepção da estrutura social tiv ficou de pernas
para o ar. D epois, no final dos anos 40, foram para lá m ais dois
antropólogos, os B oh an n an s, e seu estudo clássico dos tivs com o
um a sociedade de linhagem segm entar, com o aquela descrita em
seu prim eiro contato com eles, ain da prevalece.
C a d a pesquisador europeu buscava o “verdadeiro” tiv, e cada
vez que os forasteiros vinham com um a nova imagem, algum a
constituinte tiv, que via interesse nisso, reinventava seu passado
para ser amável para com eles. Só tem os conhecim ento disso
porque um historiador, D . C . Dorward, percebeu que os pesqui­
sadores participavam reciprocam ente da história e porque ele sabia
que a invenção de grande parte da tradição era um a possibilidade.22
C laram ente, a defesa contra a tradição inventada é exatam ente essa:
ter um a visão m en os confiante da credibilidade, tanto d o testemu­
nho oral sem suporte, quanto dos predecessores acadêm icos, a
m en os que eles tivessem dem onstrado sinais de estarem conscien­
tes do problem a. O problem a tam bém não está lim itado apenas à
história oral.
O utro exem plo confirm a a objeção de V an sin a à im agem das
prim a-donas e de su as substitutas. Ele m ostra que um a visão m uito
confiável de fontes escritas sem suporte, com bin ada com dem asia­
do respeito para com os historiadores, pode ser um a com binação
igualm ente enganadora. A plican do a dúvida sistemática, Julian
C o b b in g convincentem ente pôs em questão três dogm as centrais
da história sul-africana: a visão popular d o m atabele de Zimbabwe
com o um a cultura de guerreiros, o m ito do nacionalism o zim-
2 2 . D . C . D orw ard, “ E thnography and adm inistration: the study o f Anglo-Tiv ‘w orking
m isu n d erstan d in g’” , Journal o f African History, 15, p. 4 5 7 -7 7 ,1 9 7 4 .
babw eano - dfe que seu antecedente direto está nas insurreições de
1896 (opinião predom inantem ente enraizada n os pontos de vista
do historiador britânico orientado por docum entos, T . O . Ranger)
- e, m ais recentemente, a significação e existência real do Mfecane,
aquela dispersão dos povos que se pensava haverem resultado da
destruição do Estado zulu, em m eados do século dezenove.23 N o
caso das insurreições, sendo o Zimbabwe m oderno um a cultura
com posta, a interpretação nacionalista de Ranger penetrou então
n o registro oral dos pessoalm ente analfabetos e assim tornou-se a
resposta a perguntas sobre aqueles acontecim entos, obscurecendo
qualquer outra tradição. Em bora possa ser útil com preender as
razões por que as tradições são inventadas, tam bém é desanim ador
testem unhar a perda da possibilidade de algum dia se construir
um relato confiante de acontecim entos im portantes com o esses,
devido a u m a técnica historiográfica inadequada. Isso tam bém não
é desculpado pelo reconhecim ento da nècessidade que tal com u­
nidade tem daquilo que o próprio Ranger denom inava de “ história
usável” .14
O reconhecim ento da vulnerabilidade dos historiadores, orien­
tados por docum entos a tais m alogros suscita algum as apreensões
quanto ao m au uso dos dad os orais n a busca d a cronologia serial.
Em am bos os casos, a solução é aquela com a qual V an sin a rejeitou
a analogia operacional: o u so de fontes m últiplas, convergentes e
independentes. C o m respeito à cronologia, a partir da análise
interna, as tradições orais form ais podem produzir um a história
seqüenciada, m as não necessariam ente com um a datação rigorosa.
Para m aior precisão, deve-se buscar um a correlação com as fontes
2 3 . J. C o b b in g, “ T h e evolution o f the N debele A m ab u th o” , Journal of African History,
15, p. 607-31, 1974; idem , “T h e ab sen t priesth ood: A n oth er look at the R h odesian
Risin gs o f 1896-7” , Journal of African History, 18, p. 61-84, 1977; idem , “ T h e
M fecane as A lib i: T h ou g h ts o n D ith ak on g and M b o lo m p o ", Journal of African
History, 2 9 , p. 487-519, 1988; T . O . Ranger, Revolt in Rhodesia, 1896-7, edição em
brochura, Lon dres, 1979.
24. T . O . R anger, “T ow ard s a usable african past” , in C . Fyfe (ed.), African Studies since
1 9 4 5 : A Tribute to Basil Davidson, Lon dres, 1976, p. 17-30.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
187
externas. A evidência arqueológica, eclipses do sol ou da lua, ou
calam idades naturais im portantes são pontos de referência co­
m u n s. M itos de gêneses, histórias dinásticas, histórias familiares
de pessoas com uns, provérbios, poesias de louvor, épicas e narra­
tivas podem n os propiciar algum acesso ao interior de u m a cultura
e de u m a época. Q u an d o presos às fontes externas, podem os nos
defender contra a tradição invenotada, apresentar algum as datas do
tem po serial e desse m odo reconstruir esse tipo de passado.
Perm anece um a espécie de narrativa a ser considerada. Está
deliberadam ente colocada em um a categoria separada, porque se
refere ao indivíduo isolado e às suas experiências. Tal rem iniscên­
cia pessoal é o principal dado utilizado pelos historiadores, ao
estudarem as sociedades dom inadas pela palavra escrita. Seu
alcance estende-se d o início da possibilidade biológica - cerca de
oitenta an os - em diante.
E m bora seja o tipo prim ário de dad o oral, a rem iniscência não
é o único tipo nas sociedades alfabetizadas. A tradição formal, no
sentido já discutido, ainda persiste. U m exem plo clássico d isso está
n a obra de lo n a e Peter O pie. Em In Lore and Language of
Schoolchildren, eles estabelecem que um enigm a de um parque
infantil pode atravessar intacto por longas cadeias de transm issão.
C o m o a geração das crianças em idade escolar é m ais curta que
aquela dos porta-vozes lozi dos provérbios reais já referidos, um
ditado que é transm itido durante 130 an os atravessará vinte
gerações de crianças em idade escolar, ou seja, 300 narradores: isso
eqüivale a m ais de 500 an os entre os adultos.25 E sse cálculo
obrigatoriam ente enfatiza que, a continuidade, m antida pela ener­
gia de tal renovação ininterrupta requer m ais explicação do que
m udança. D o s 137 cantos registrados em 1916 n os London Street
Games de N o rm an D ouglas, os O pies encontraram 108 em u so
n os anos 50. E m certo caso, um poem a rim ado sobre u m granadeiro, os O pies têm versões que abrangem os elem entos cardeais
estáveis a 1725. D e m odo contrário, a rem iniscência pessoal não
2 5 . I. e P. O p ie, The Lore and Language of Schoolchildren, O xford , 1959, p. 8.
188
PETER BURKE
está ausente,, na sociedade não-alfabetizada; m as seu lugar é na
sociedade alfabetizada, onde ocupa m aior preocupação e interesse.
Será que a rem iniscência pessoal é apenas um a vangloria dos bon s
velhos tem pos? Sim e não.
G ran de parte da crítica dos historiadores orientados por docu­
m entos segue a linha de que a rem iniscência das pessoas' fam osas
está fácilmente propensa à autojustificativa conveniente ex pose
facto, e aquela das pessoas não im portantes, a lapsos de m em ória.
Seja em que caso for, a m em ória é sabidam ente indigna de
confiança e um teto inseguro q u ando com parada aos registros
in anim ados e imutáveis dos docum entos, através dos an os cm
questão. O prim eiro ponto, com o podem atestar as estantes de
autobiografia política, é bem aceito; o segundo não tanto, pois as
fontes docum entais não são tão involuntária e naturalm ente lega­
das a nós com o se poderia pensar.
A época em que o quinto C o n d e de Rosebery confiou seus
pensam entos m ais íntim os a seu diário, qu an d o o governo levava
em consideração o pensam ento e os m em orandos m anuscritos de
um grupo discreto e identificável, e qu ando o historiador podia,
com razoável confiança, esperar encontrar e ler todos esses docu­
m entos e acreditar que poderia crer neles, term inou há um século
atrás. D esde então, o volum e dos docum entos oficiais ficou fora
de controle. T em de haver seleção para a preservação, de form a
que os “extirpadores” tiveram de operar sistematicamente, e por
isso o que os arquivos oficiais contêm, pode ser, seja p o r intenção
consciente, em geral m aldosa, ou em virtude de escolhas erradas
do que preservar ou do que queim ar, tão enganador quanto as
outras fontes. U m a extensa lição das coisas é proporcionada pelo
contraste entre a arbitrária e cada vez m ais secreta política de
testem unho dos departam entos de governo britânicos e o acesso
perm itido aos assun tos britânicos, através dos arquivos am ericanos
pelo A to de Liberdade de Inform ação. N a época da G uerra das
M alvinas em 1982, por exem plo, os docum entos relacionados às
prim eiras discussões sobre as ilhas, e especialm ente um a opinião
do D epartam ento do Exterior, datada dos an os 30, que põe em
A ESCRITA DA HISTÓRIA
189
dúvida a solidez d a reivindicação britânica à soberania, foram
repentinam ente retirados do acesso público, em bora n ão antes que
um historiador vigilante e, com o se com provou, corretamente
desconfiado, conseguisse realizar um a cópia a lápis da opinião, o
que subseqüentem ente foi eneregue à im prensa, despertando a ira
da Sra. Thatcher.
O processo de O liver N orth, auxiliar do Presidente Reagan e
adm inistrador d o caso som brio do Irã e dos C on tras d a N icarágua,
forneceu um a sinistra ilustração do colapso das suposições dos
historiadores tradicionais com respeito aos docum entos. U m a
corte fascinada ouviu em sessões prolongadas de retaliam ento, da
glam urosa secretária do Sr. N orth, improvavelmente cham ada
Fawn Hall, sobre o escam oteam ento de docum entos incrim inado­
res do Pentágono em suas botas e em suas roupas íntim as, e
tam bém sobre a tentativa de N orth de evitar deixar qualquer rastro
docum ental, utilizando redes de com putador para enviar suas
m ensagens. Infelizmente para ele, com provou-se possível a recupe­
ração de m ensagens apagadas dos bancos de com putação. M as a
questão é sim plesm ente da volta à tecnologia oral, via inform ação
eletrônica, para a tom ada de decisão prim ária. Q u an d o os docu­
m entos sobreviverem e puderem ser lidos, freqüentem ente vão se
referir a decisões tom adas em conversações telefônicas.
D e vez em q u an d o, a distância entre o texto original oral e o
subseqüente texto oficial escrito vem acidentalm ente à tona. N a
Grã-Bretanha, durante a grande depressão, um im portante comitê
de finanças sentou-se diante da presidência do Juiz M acm illan. A
evidência publicada d o comitê é extensivamente citada em obras
padronizadas sobre o período. U m a delas é Politicians and the
Slump, de Robert Skidelsky.26 U m a testem unha particularm ente
im portante diante do comitê foi M ontagu N orm an, Diretor do
B an co d a Inglaterra, m as a versão pública do testem unho de
N o rm an não foi o que ele realmente disse. A su b m issão ©ral de
2 6 . R. Skidelsky, Politicians and the Slum p: the Labour Government o f 1929 -3 1 , Londres,
1967.
190
PETER BURKE
N orm an foi pesadam ente reelaborada para o registro. Sabem os
disso por acidente. A cópia do D epartam ento de Registros Públicos
do testem unho verbal foi destruída, m as outra cópia foi guardada
nos arquivos d o Banco da Inglaterra, on de u m historiador econô­
mico, buscando outra coisa, encontrou-a por acaso.
N o s Estados U n id o s, é bem-conhecida a extensão em que os
funcionários do D epartam ento de Estado, cujos resum os são
recusados, tiveram de reelaborar os testem unhos orais do grande
expoente da guerra fria e Secretário de Estado Jo h n Foster D ulles.
Foi considerado não-politico para o C ongressional Record transm itir
tais julgam entos inconvenientes sobre os aliados dos Estados
U n id o s, com o a resposta de D ulles ao C om itê de A propriações de
que “todos os franceses tinham am antes e enviavam cartões postais
obscen os", m as que não obstante “ a França era um cêntim o útil
do tesouro real” . (Seu obiter dieta sobre a A lem anh a e a Grã-Breta­
nha tam bém com pensa a descoberta.)
A ssim , poderíam os virar a mesa. Poderíam os argum entar que
na verdade o testem unho oral, seja ele coletado por gravação em
fita (sem as lacunas nixonianas), ou pelas pesquisas de cam po entre
as tribos de alm irantes e secretários de estado, está m ais próxim o
da fonte principal. Ele é certamente vulnerável a problem as tão
graves quanto aqueles que afetam as fontes docum entais m odernas,
m as eles são diferentes. A m b o s têm em com um o fato de poderem
estar sujeitos à invenção da tradição (com o dem onstrou a retirada
da opinião sobre as Ilhas M alvinas do PRO), m as os problem as de
m á utilização d o s dados orais são possivelm ente m ais fáceis de
serem localizados e resolvidos.
A lém da m á utilização, que é evitável, há dois problem as
com uns de crítica da fonte que afetam o testem unho oral, esses
inevitáveis. U m deles é a influência inconsciente da form a literária
sobre o testem unho oral. Isso ocorre inevitavelmente em culturas
com postas. H á a reinserção da herm enêutica de um ponto de vista
escrito em u m testem unho oral de u m a p essoa analfabeta. Isso é
m ais com um em contextos altamente saturados, com o aquele de
um encontro colonial, e o exem plo zimbabw eano de reinserção da
A ESCRITA DA HISTÓRIA
191
interpretação de R anger na cultura oral já m encionado. H á
tam bém um segu n do aspecto de tal influência, diferentem ente
sin istro, q u an d o a predom inância da form a literária corrói e
finalm ente destrói os m od os orais de m em ória. O s exem plos
m ais conhecidos d isso são m usicais. Ralph V au gh an W illiam s,
Percy G rain ger e B en jam in Britten estavam entre os m uitos
com positores do início do século vinte que coletaram e /o u
utilizaram canções folclóricas em su a própria obra, que traduzi­
ram e perpetuaram as canções originais, até o m om en to de sua
extinção n as regiões selvagens. A lém d isso, alguns d o s m ais
fam o so s colecionadores m odernos, com o Ewan M cC oll, que
resgatou e revigorou u m grande núm ero de cânticos de trabalho
e baladas dos povos trabalhadores da Escócia e do norte da
Inglaterra, eram tam bém com positores do gênero, e su as canções
novas e coletadas n ão são distinguidas pelos ouvintes e por outros
intérpretes. A ssim , o que é atualm ente ouvido cantar em um bar
em Kerry ou em Galloway, qu ase certamente p assou pelo ciclo
d a reinserção d a herm enêutica. M as esses problem as podem ,
prem editadam ente, ser antecipados e acom odados n a técnica
crítica; as fontes docum entais, com o a corrente rankeana, tornamse poluídas pela invenção da tradição, antes m esm o de brotar do
solo. N o caso d a rem iniscência geral da vida d o inform ante,
estruturada pelo que ele acredita ser im portante, po dem o s ter o
qu e é com provadam ente o tipo m ais puro de registro.
A b ioqu ím ica da m em ória é ain da m uito pouco com preen di­
da. M as testes sobre diferentes tipos de m em ória tendem a
con cordar qu e a m em ória de longo prazo, especialm ente em
in divíduos que entraram n aquela fase que os psicólogos cham am
de “ revisão da v id a” , podem ser notavelm ente precisos. A s
p esso as adquirem um “ poço de in form ações” preenchido pelo
relacionam ento pessoal. E circunscrito a seu contexto social,
obviam ente form a a identidade pessoal e tem u m a incrível
estabilidade. Isso , observa D avid Low enthal, é especialm ente
verdadeiro em relação às rem iniscências in tensas e involuntárias
d a infância, q u an d o se vê e se recorda o 'que está lá, n ão (com o
192
PETER BURKE
fazem os adultos) o que é esperado.27 A revisão d a vida é o produto
final de um a vida de rem iniscências. U m a narrativa estável de
revisão da vida no poço de inform ações é o início de um a tradição
oral de longo prazo. O fragm ento apresentado no início sobre a
época de m eu avô n a m an são de C o rn ish é um de tais cristais
constituintes da tradição.
E justam ente o uso de tal reminiscência que tem sido até agora
a m aior contribuição de historiadores com o Paul T hom pson . Eles
são historiadores sociais e utilizam os dados orais, para darem voz
àqueles que não se expressam no registro documental. Em bora não
sejam inerentemente um instrumento de radicalização, os dados
orais na sociedade contem porânea têm sido extensivamente usados
por historiadores com uma propensão radical à sua utilização, pois
com o diz T h om pson nas primeiras linhas de The Voice of the Past,
“T oda história depende finalmente de seu propósito social” , e a
história oral é a que m elhor reconstrói ”os particulares triviais das
vidas das pessoas com uns para aqueles que desejam realizar isso.
Está na tradição de Mayhew, que registrou as vidas dos pobres de
Londres na década de 1850, de Charles Booth, que estudou a vida
e o trabalho das pessoas em Londres, entre 1889 e 1903, e do estudo
da pobreza em York, em 1901, realizado por Seebohm Rowntree.
T al propósito tem sido proem inente na prática da história oral, a
partir da rem iniscência na história italiana m oderna.28
O que a rem iniscência pessoal pode proporcionar é u m a
atualidade e um a riqueza de detalhes que de outra m aneira não
podem ser encontradas. T o rn a possível as histórias de grupo em
pequ en a escala, com o o trabalho de Bill W illiam s sobre os judeus
de M anchester e as obras geograficamente em pequena escala:
histórias locais de aldeias ou de algum as ruas. Isso dá aos historia­
27. D . Low enthal, The Past is a Foreign Country, C am b rid ge, 1985, p. 202-3.
2 8 . G . Levi, L. P asserin i e L Scaraffini, “V ita qu otid ian a in u n quartieri operaio di T o rin o
ira le d u e guerre: l’opporto delia storia orale” , p. 209-24; L. Bergonzini, “ Le fonti
orali com e verifica delle testim onianze scritte in u n a ricerca sui antifascism o e la
resistenza b o logn ese” , p. 263-8, am b o s em B. B ernardi, C . Poni e A . T riulzi (ed.),
Fonti O rale: Antropologia e Storia, M ilão, 1978.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
193
dores os m eios para escrever o que o antropólogo C lifford Geertz
cham ou de “ descrição den sa” : relatos ricamente tecidos que têm a
profundidade e os contornos que perm item um a análise antropo­
lógica substancial.
M as pondo-se de lado a sim patia ideológica ou o potencial para
a análise estrutural, m esm o que a história oral através da rem inis­
cência seja m uito poderosa para a história social, os céticos ainda
têm um a questão a colocar, que eu m encionei no início deste
capítulo. Ela pode ser útil, pode ser ilustrativa, pode até ser
historicam ente libertadora; m as é passível de explicação? O teste­
m u n h o oral pode perm itir um a evocação descritiva bastante com o­
vente do que provavelmente é um m exicano pobre, através da
obra-prim a de O scar Lewis The Children o/Sanchez, m as, em última
análise, certamente está confinado à pequena escala; e não é lá que
as forças propulsoras das teorias explanatórias dos historiadores
devem ser en contradas.29
U m bom teste para essa asserção é verificar a própria m on o­
grafia de Paul T h o m p so n , The Edwardians.™ Esta é um a tentativa
de recriar a estrutura e a im pressão da vida n os anos im ediatam ente
anteriores à G ran d e G uerra. E um período in un dado de rom an­
tism o cor-de-rosa na m em ória popular, q u ando ain da existe mel
para o chá, q u an d o o relógio da igreja de G rantchester ainda se
m antém em dez para as três, qu an d o D eus estava em seu C éu e
tudo estava certo com um m u n d o prestes a ser feito em pedaços
pela guerra. M as, com o deseja m ostrar T h o m p son , n ão era assim
tão sim ples para m ais que bem poucos.
O recurso central do livro é um a série de cinco vinhetas de
evocadas infâncias edw ardianas, escolhidas com o representativas
de cada nível da sociedade, desde o m uito rico até o m uito pobre.
Estão intim am ente ligadas ao registro de arquivos pelo procedi­
m ento de am ostragem que levou à seleção dos indivíduos . Eles
29. O sc a r Lewis, The Children of Sanchez: Aurobiography of a Mexican Family, Londres,
1962.
30. P. T h o m p so n , The Edw ardians: the Remaking of Brítish Society, Lon dres, 1975.
A ESCRITA D A HISTÓRIA
195
confirmá-los. Eles tam bém podem proporcionar detalhes insigni­
ficantes qu e de outra form a são inacessíveis e, por isso, estim u­
lar o historiador a reanalisar outros dados de m aneiras novas. Foi
isso que ocorreu n a discussão de classe de T h o m p so n em The
Edwardians. Foi isso que aconteceu, q u ando o Sr. D on ald Reagan,
chefe de gabinete d a C a sa Branca do Presidente Reagan, publicou
seu relato autojustificativo de seu período de gabinete e de suas
lutas com a Sra. N ancy Reagan que revelou, entre outras coisas
concretas, que a escolha do m om ento da assinatura d o T ratado de
Interm ediação das Forças N ucleares na convocação das superpo­
tências em dezem bro de 1987 foi, n a verdade, orientada pelo
astrólogo pessoal d a Sra. Reagan, fato que não será encontrado nos
papéis oficiais. E isso que está acontecendo com o estudo prestes
a ser publicado de C hristopher Lee sobre a política de defesa
britânica a partir de 1945.
E ssa é um a questão para a qual o registro docum ental oficial
está, de qualquer m odo, trancado sob a flexível lei britânica “ trinta
e algum a coisa” , segundo a qual o governo da época pode, se quiser,
prescrever u m longo período de confinam entò para os papéis
“ delicados” do governo - dos quais os assun tos de defesa são os
exem plos suprem os - além do período norm al de trinta anos.
Sabe-se que a opinião da Sra. Thatcher é de que nada relacionado
às atividades dos agentes da Inteligência britânica na R ússia czarista
deve ser publicado, a fim de não proporcionar ajuda o u con solo
aos inim igos. Ela e as em endas de 1989 ao A to do s Segredos
O ficiais, assim o desejam . N o caso de Lee, seus m uitos an os com o
C orrespondente d a D efesa d a B B C o colocou em u m a posição de
conhecer e obter a confiança de seus temas. A s transcrições de suas
entrevistas com todos os atores centrais n a peça tornam-se por si
m esm as u m a fonte docum ental vital. Seu livro será u m exem plar
que n enh um historiador acadêm ico poderia escrever. D ará um
alcance radicalm ente diferente à n o ssa com preensão de u m período
vital de m u dan ça no declínio d o poder britânico. O s m ateriais orais
se situam naquilo que o Professor Hexter cham a de “ registro
secundário” , m ais im ediato que outros tipos de dados. A com pe­
196
PETER BURKE
tência de Lee para localizar, ler e interpretar o “ registro principal”
é crucialm ente afirm ada por sua posse de um “ registro secundário”
altam ente específico e raro.31 Isso não o transform a em u m novo
tipo de historiador-, é antes o oposto. M uitos historiadores do
século dezenove eram am adores, no sentido de que escreviam e
viviam principalm ente fora da academ ia. T an to no p assado quanto
no presente, o trabalho de cam po é um inestimável auxiliar à escrita
de um livro.
Em segundo lugar, há o efeito contrário. A posse de um
“ registro secundário” rico e variado - por exem plo, antes por m eio
da experiência pessoal do que via um a entrevista - pode tirar o
historiador do cam po d as pessoas com uns. O s historiadores das
estradas de ferro são excelentes exem plos disso. A drian V aughan
trabalhou com o sinaleiro da grande linha de Brunel de Londres
para o oeste d o país. Ele atravessou o período de contração e
fecham ento n os an os 60, assistiu ao estrangulam ento das antigas
form as de trabalho e ao desprezo pelos peritos especializados,
tornou-se várias vezes redundante e então decidiu registrar o
m u n d o que havia perdido. Su as prim eiras obras, Signalm an’s
M orninge Sign alm an s Tmlight, foram com posições de reminiscênciás. M as à m edida que se desenvolveu su a capacidade com o
historiador, ele aprofundou sua análise e agora tornou-se o autor
de u m a notável biografia recente do próprio Brunel, enriquecida
e inform ada pela educação de V au gh an n a linha ferroviária de
propriedade de B runel.32
O utro exem plo, desta vez o últim o, que m ais u m a vez tem sua
origem n a ira diante da destruição d o s especialistas, é encontrado
em u m surpreendente livro sobre arquitetura de autoria de um
mestre-de-obras. Roger C olem an vem de um a família de artesãos
especializados d o norte de Londres. Tornou-se mestre-de-obras,
m as n o processo observou e sofreu a “des-especialização” d o ram o
3 1 . C .R . Lee, W hitehallW arriors: Postwar De/ence Policy Decision-making(aser publicado).
32. A . V au gh an , Sign alm an s Morning, Lon dres, 1981 e Signaím an’s Twilight, Lon dres,
1 9 8 3 . A m b o s o s volu m es em u m a edição variada em brochura, Lon dres, 1 9 8 4 : idem ,
lsam bard Kingdom Brunel, a ser publicado.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
197
da construção. Ficava encolerizado diante d a arrogância e da
incom petência técnica dos arquitetos, cujo trabalho ele tinha de
executar, e que jam ais pensavam em pedir sua opinião. A ssim se
desenvolveu a som bria batalha, sem elhante às batalhas coloniais
sobre a tradição inventada, .em que se alegava a ignorância do
prático e se dispensava sua cooperação, os arquitetos form ados
pelos livros e de m ãos m acias d itan d o as regras.
N ão foi sem pre assim ? Estim ulado por seu “registro secundá­
rio” , C o lem an iniciou um a longa investigação sobre arte e trabalho.
N o processo, assim com o W illiam M orris, ele adquiriu as habili­
dades convencionais da história e da crítica de arte. M as em seu
inflam ado livro, The Art of Work: an Epitaph to Skill, as passagens
originais não poderiam ter sido escritas apenas por um aprendiz
d o s livros. U m a passagem notável questiona por que W illiam o f
Sen s foi o único hom em atingido no acidente durante a restauração
da C atedral de Canterbury. A resposta - que ele era ao m esm o
tem po o empreiteiro-chefe, m as tam bém o artesão m ais capacitado
- m ostra que a divisão do trabalho não era na época com o é agora.
A vança para um relato que p assa pela recuperação de C olem an da
cultura su bm ersa dos carpinteiros, escrita a partir de seu conheci­
m ento obtido oralm ente e do aprendizado com hom ens velhos, e
chega a u m a exposição, única em m inha leitura, de suas próprias
habilidades. Ele descreve os procedim entos práticos envolvidos na
fabricação de u m a janela nova. A pren der sobre a característica e o
u so de “ tirantes” (fitas de m adeira com que o carpinteiro transfere
as dim ensões exatas d o orifício n a alvenaria para a estrutura da
janela) so a vulgar, se é que tem utilidade. M as o relato de C olem an
surpreendentem ente vai além disso. O s tirantes dos carpinteiros
u n em em u m a fraternidade W illiam o f Sens, V illard de Honnecourt (projetista e construtor da catedral, cujos livros de instrução
m edievais são, em certo sentido, os precursores do próprio livro
de C olem an ), os carpinteiros an ôn im os do século dezoito que
trabalharam para V an b ru gh e Jo h n W ood, o Jovem (anônim os a
m en os que se saiba procurar suas m arcas escondidas), os velhos
professores de ofício de C olem an e a n ova janela em questão. A
198
PETER BURKE
descrição da fabricação de sua nova janela contem porânea situa
histórica e analiticamente cada aspecto das tarefas que são em geral
invisíveis, por serem subvalorizadas.33
A lguns historiadores acham que seu oficio é descrever e, talvez,
explicar por que as coisas ocorreram no passado. Esta é um a
justificativa necessária, m as não suficiente. H á dois outros com po­
nentes essenciais da tarefa do historiador. A continuidade deve ser
explicada. A continuidade histórica, especialm ente nas culturas
orais, requer m ais atenção do que m udança. A tradição é um
processo - vive apenas enquanto é continuam ente reproduzida. E
efervescentemente vital em sua aparente quietude. Em segundo
lugar, a tarefa do historiador é proporcionar ao leitor confiança em
sua com petência m etodológica. Para dem onstrar consciência das
ciladas da tradição inventada e, a partir daí, das explicações
oferecidas, o historiador deve tam bém revelar o que é provável que
houvesse ali - um poeta na G récia hom érica; um aldeão na Á frica
anterior à chegada do hom em branco; um m aquinista vitoriano
esgotado; um chefe de gabinete n a C a sa Branca do Sr. Reagan; ou,
se isso n ão puder ser feito, dizer que não pode e explicar o motivo.
E para essas partes vitais da tarefa do historiador que a história
oral - tradição e rem iniscência, p assado e presente - com seu
detalhe, sua hum anidade, freqüentemente su a em oção e sem pre
seu m uito desenvolvido ceticism o com relação a todo o em preen­
dim ento historiográfico - é principalm ente dirigida. Sem acesso a
tais recursos, os historiadores das sociedades m odernas, maciça­
m ente alfabetizadas e industriais, ou seja, a m aior parte dos
historiadores profissionais, vão consum ir-se em um poço de com ­
preensão circunscrito por sua própria cultura, com o am antes
ab an don ado s colocados sob o círculo de luz trem ulante de um
poste isolado em um a rua escura e varrida pelo vento.
3 3 . R. C o lem an , The A rt o f Work: A n Epitaph to Skill, Londres, 1988.
HISTÓRIA DA LEITURA 1
R obert D am ton *
O vídio n os aconselha sobre a m aneira de se ler um a carta de
am or: “ Se su a am ante lhe fizer propostas por m eio de algum as
palavras inscritas em placas entregues a você por um criado esperto,
medite com cuidado sobre elas, exam ine suas expressões e tente
adivinhar se seu am or é apenas sim ulado, ou se suas súplicas
partem n a verdade de um coração sinceram ente apaixonado” . E
extraordinário. O poeta rom an o poderia ser um de nós. Refere-se
a um problem a que poderia surgir em qualquer época, que parece
existir independentem ente do tem po. Lendo sobre a leitura em The
Art of Love, parece-nos ouvir u m a voz que n os fala diretamente a
u m a distância de dois mil anos.
M as à m edida que ouvim os m ais, a voz soa estranha. O vídio
prossegue prescrevendo técnicas para a com unicação com um a
am ante, às escondidas de seu m arido:
De acordo com a moral e a lei, uma mulher honesta deve temer seu
marido e estar cercada por uma guarda rigorosa ... Mas se você tiver tantos
* Professor de H istória d a U n iversid ad e de Princenton.
1. E ste artigo foi reim presso de A ustralian Journal of French Stutiíes, 23, p. 5-30, 1986,
co m p erm issão d o autor.
200
PETER BIJRKE
guardiães quanto Argus tem olhos, pode enganá-los a todos, se sua vontade
for bastante firme. Por exemplo, será que alguém pode impedir sua criada
e cúmplice de carregar seus bilhetes no corpete dela ou entre o pé e a sola
da sandália dela? Suponham os que seu guardião possa ver através de todos
esses estratagemas. Faça então com que sua confidente ofereça costas em
lugar das placas e deixe que seu corpo se transforme numa carta viva.2
Espera-se que o am ante d ispa a criada e leia seu corpo - não
exatam ente o tipo de com unicação que associam os hoje em dia a
um a carta de am or. A pesar de seu ar de ilusória atualidade, The
Art of Love n os lança em um m undo que dificilmente podem os
im aginar. Para com preender a m ensagem , devem os conhecer algo
sobre a m itologia rom ana, técnicas de escrita e vida dom éstica.
D evem os ser capazes de nos supor com o a esp osa de um nobre
rom an o e avaliar o contraste entre a m oralidade form al e os hábitos
de um m u n d o dado à sofisticação e ao cinism o, em um a época em
que o Serm ão da M ontanha estava sen do pregado em um idiom a
bárbaro, bem além do alcance d o ouvido dos rom anos.
Ler O vídio é defrontar-se com o m istério da leitura em si. A o
m esm o tem po familiar e estranho, é um a atividade que com parti­
lham os com n ossos ancestrais, em bora ela jam ais p o ssa ser a
m esm a que eles experim entaram . Podem os desfrutar d a ilusão de
sair do tem po para entrar em contato com autores que viveram há
séculos atrás. M as m esm o que seus textos tenham chegado intactos
até nós - um a im possibilidade virtual, considerando-se a evolução
dos projetos e dos livros com o objetos físicos - n o ssa relação com
esses textos não pode ser a m esm a que aquela dos leitores do
passado . A leitura possui um a história. M as com o podem os
recuperá-la?
Poderíam os com eçar buscando o registro dos leitores. C ario
G inzburg encontrou um deles, o de u m hum ilde m oleiro de Friuli
n o século dezesseis, nos papéis da Inquisição. A cusado de heresia,
2 . O víd io, A rs Am atoria, Livro 111, linhas 469-72 e 613-26. Segui a tradução de J.H .
M ozley em The Art of Love and Other Poems, Lon dres, 1 929, m odificando-a em alguns
locais d e acordo com a versão m od ern a de H éguin de G u erle, L ’Art d’aimer, Paris,
1 9 6 3 . T o d a s as outras traduções neste ensaio são de m in h a respon sabilidade.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
201
o in quisidor perguntou a sua vítim a sobre sua leitura. M enocchio
respondeu com um a série de títulos e elaborados com entários
sobre cada u m deles. C o m p aran d o os textos e os com entários,
G inzburg descobriu que M enocchio havia lido um a grande q u an ­
tidade de narrativas bíblicas, frô n ic as e livros de viagem do tipo
que existia em m uitas bibliotecas aristocráticas. M enocchio não se
lim itou sim plesm ente a receber as m ensagens transm itidas pela
ordem social. Ele leu de um m od o agressivo, transform ando os
conteúdos do material à sua disposição em um a visão radicalm ente
não-cristã d o m undo. Se essa visão pode ser atribuída a um a
tradição popu lar antiga, com o afirm a G inzburg, é u m a questão a
ser discutida; m as G inzburg certamente dem onstrou a possibilida­
de de se estudar a leitura com o um a atividade entre as pessoas
com uns h á quatro séculos atrás.3
Encontrei por acaso um leitor de classe m édia abastada em
m in ha própria pesqu isa sobre a França do século dezoito. Era um
com erciante de La Rochelle, cham ado Jean R an son e um rousseauísta apaixonado. R an son não apenas leu R ousseau e se em o­
cionou; ele incorporou as idéias de R ousseau na estrutura de sua
vida, q u an d o m ontou seu negócio, apaixonou-se, casou-se e educou
seus filhos. A leitura e a vida corriam paralelas com o m otivos
condutores em um a rica série de cartas que R an son escreveu entre
17 7 4 e 1785 e que m ostram com o o rousseauísm o foi absorvido
n o m od o de vida do burguês provinciano, so b o A ntigo Regime.
R ousseau recebeu um fluxo de cartas de leitores com o R anson,
após a publicação de La Nouvelle Héloise. Foi, acredito eu, a
prim eira on d a gigantesca de correspondência de adm iradores n a
história da literatura, em bora R ichardson já houvesse provocado
algum as on d as im pressivas n a Inglaterra. A correspondência revela
que os leitores reagiram com o R an son em toda parte n a França e,
além d isso, que suas reações estavam em conform idade com
aquelas que R ousseau evocou n os dois prefácios de sua novela.
3. C a rio G inzburg, The Cheese and the Worms: the Cosmos of a Sixteent/vCentur} M iller,
trad. de A n n e e Jo h n T ed esch i, Baltim ore, 1980.
202
PETER BURKE
D eu instruções a seus leitores de com o lê-la. Atribuiu-lhes papéis
e proveu-os com um a estratégia para com preender sua novela. O
novo m odo de ler funcionou tão bem que La Nouvelle Héloise
tornou-se o livro m ais vendido do século, a mais im portante fonte
isolada da sensibilidade romântica. Essa sensibilidade está agora
extinta. N en hum leitor m oderno pode chorar dessa maneira,
através dos seis volum es de La Nouvelle Héloise, com o o fizeram
seus predecessores há dois séculos atrás. M as, em sua época,
R ousseau conquistou toda um a geração de leitores, revolucionando
a própria leitura.4
O s exem plos de M enocchio e R anson sugerem que a leitura e
a vida, a elaboração de textos e a com preensão da vida, estavam
m uito m ais intim am ente relacionadas no início do período m oder­
no d o que estão hoje. M as antes de precipitar conclusões, precisa­
m os exam inar m ais arquivos, com parando os relatos dos leitores
sobre su a experiência com os registros de leitura em seus livros e,
q u an d o possível, com seu com portam ento. Fui levado a crer que
The Sorrows of Young Werther provocou um a on da de suicídios na
A lem anha. Será que não chegou a hora de um a nova avaliação da
Wertherfieberl O s pré-rafaelitas na Inglaterra proporcionam exem ­
plos sim ilares da vida im itando a arte, tem a que pode ser rastreado
desde Don Quixote até M adame Bovary e Miss Lonelyhearts. Em cada
caso a ficção poderia ser m ais detalhada e com parada com docu­
m entos - bilhetes reais de suicídio, diários e cartas ao editor. A
correspondência dos autores e os papéis dos editores são fontes de
inform ação ideais sobre os autênticos leitores. H á dúzias de cartas
de leitores na correspondência publicada de Voltaire e Rousseau,
e centenas nos papéis n ão publicados de Balzac e Zola.5
4. R obert D arnton, “ Readers R espon d to R ou sseau : the Fabrication o f R om an tic
Sensitivity” , em D arn to n , The Great C a t M assacre and other Episodes o f French
C ultural History, N ova Y ork, 1 984, p. 215-56.
5. C o m o exem plos d esses tem as, ver K urt R oth m an, Erlâuterungen und Dokumente,
Johann Wolfgang Goethe: Die Leiden des Jungen Werthers, Stuttgart, 1 9 74, e Jam es
Sm ith A llen, “ H istory an d the N ovel: Mentalité in M o d e m Popular Fiction” , History
and Theory, 2 2 , p. 233-52, 1983.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
203
E m su m a, seria possível desenvolver u m a h istória e tam bém
u m a teoria d a reação d o leitor. Possível, m as n ão fácil; p o is os
d o cu m en tos raram ente m ostram os leitores em atividade, m o l­
d an d o o sign ificado a partir d o s textos, e os docum en tos são,
eles p ró p rio s, textos, o qu ê tam bém requer interpretação. Pou­
cos deles são ricos o bastante para propiciar um acesso, ain d a
q u e in direto, aos elementos" cognitivos e afetivos d a leitura, e
algu n s p o u co s caso s excepcion ais po dem não ser suficientes
p ara se recon stru írem as dim en sõ es interiores d essa experiên ­
cia. M as os h istoriado res d o livro sem pre exibiram u m a grande
q u an tid ad e de in form ação sobre a h istória externa da leitura.
T e n d o estu d ad o a leitura com o um fenôm eno social, podem
resp o n d er m u itas das pergun tas de “ q u em ” , “ o q u e” , “ o n d e ” e
“ q u a n d o ” , o qu e pode ser de grande aju da n a abordagem d o s
m ais difíceis “ p o rq u ê s” e “ c o m o s” .
O estudo de quem lê o quê em diferentes épocas recai em dois
tipos principais: o m acro e o microanalítico. A m acroanálise
floresceu acim a de tudo na França, onde se nutre de um a poderosa
tradição de história social quantitativa. Henri-Jean M artin, François Furet, Robert Estivais e Frédéric Barbier traçaram a evolução
dos hábitos de leitura desde o século dezesseis até os dias de hoje,
utilizando séries de longo prazo, construídas a partir do dépôt legal,
do s registros de direitos d o livro e da publicação an ual da
Bibliographie de la France. Podem-se observar m uitos fenôm enos
intrigantes n as oscilações de seus gráficos: o declínio do latim, a
ascensão d a novela, o fascínio geral pelo m undo imediato da
natureza e os m u n d os rem otos dos países exóticos que se dissem i­
naram por todo o público educado entre a época de Descartes e
Bougaínville. O s alem ães elaboraram um a série ainda m ais longa
de estatísticas, graças a um a fonte peculiarmente rica: os catálogos
das feiras d o livro de Frankfurt e Leipzig, que se estendem de
m eados d o século dezesseis a m eados do século dezertove. (O
catálogo de Frankfurt foi publicado sem interrupção de 1564 a
1749, e o catálogo de Leipzig, que data de 1594, pode ser
substituído n o período posterior a 1797 pelo Hinrichssche Verzeich-
204
PETER BURKE
nisse.) E m bora os catálogos tenh am seus in conven ien tes, forn e­
cem um ín d ex aproxim ad o d a leitura germ ân ica, desde a R en as­
cença; e têm sid o explorados por u m a su cessão de h istoriad o res
alem ães do livro, desde que Jo h an n G old friedrich pu b licou seu
m on u m en tal Geschichte des deutschen Buchhandels em 1 9 0 8 e
1 9 0 9 . O m u n d o da leitura em inglês n ão p o ssu i u m a fonte
com parável; m as para o período posterior a 1 5 5 7 , q u an d o
L o n d res com eçou a d o m in ar a in d ú stria da im p ressão , os
do cu m en tos d a L on don S tatio n ers’ C o m p an y proveram H .S .
B en n et, W .W . G reg e outros com u m a en orm e q u an tid ad e de
m aterial, qu e perm itiu traçar a evolução do com ércio d o livro
inglês. E m b ora a tradição britânica d a bibliografia n ão tenha
favorecido a com pilação de estatísticas, há u m gran de n ú m ero
de in form ações quantitativas n os catálogos de títulos editados
desd e 1 4 7 5 . G iles B arb er extraiu algu n s gráficos sem elh an tes
aos fran ceses d o s registros da alfândega, e R o bert W in an s e G .
T h o m a s T an se lle avaliaram o início d a leitura am erican a,
reexplo ran d o a en orm e American Bibliography de C h arles Evans
(dezoito m il inscrições para o período de 1638-1783, in clu in d o
infelizmente um a população indeterm inada de “ fantasm as”).6
6. C o m o exem plos d essa literatura, que é m uito vasta para ser citada aqu i em detalhes,
ver H enri-Jean M artin, Livre, pouvoirs et société à Paris au X V IIe siècle (1 5 9 8 1 701),
G en eb ra, 1 9 6 9 , 2 v.; Robert Estivais, La Statisdque bibliographique de la France sous
la monarquie au X V lIle siècle, Paris e H aia, 1965; Frédéric Barbier, "T h e Publishing
In dustry and Printed O u tp u t in N ineteenth-Century France” em K enneth E.
C arp en ter (ed.), Books and Society in History. Papers o f the Association of College and
Research Libraries Rare Books and Manuscripts Preconference, 24-28 June, 1 9 8 0 Boston,
M assachusetts, N ova Y ork e Londres, 1983, p. 199-230; Jo h an G oldfriedrich,
Geschichte des deutschen Buchhandels, Leipzig, 1886-1913, 4 v.; R u d o lf Jentzsch, Der
deutsch lateinische Büchermarkt nach den Leipziger Ostermesskatalogen von 1 740, 1 770
und 1 8 0 0 in seiner Gliederung und Wandlung, Leipzig, 1 912; H .S . Bennett, English
Books & Readers 1 4 7 5 to 1 557, C am bridge, 1 952; Bennett, English Books & Readers
1 5 5 8 to 1 6 0 3 , C am b ridge, 1965: Bennett, E nglish B o o k s &. R eaders 1 6 0 3 to 1640,
C am b rid g e, 1 9 7 0 ; G iles B arber, “ B ook s from the O ld W orld an d for the N ew : the
B ritish International T rade in B ook s in the Eighteenth C entury” , Studies on Voltaire
and the Eighteentk Centura, 151, p. 1 8 5 -2 2 4 ,1 9 7 6 ; R obert B . W in an s, “ Bibliography
an d the C ultural H istorian: N otes on the Eighteenth-Century N ovel” , em W illiam
L. Joyce, D avid D . H all, R ichard D . Brow n e Jo h n B. H en ch (ed.), Printingand Society
in Early America, W orcester, 1983, p. 174-85; e G . T h o m a s T an selle, “ S o m e Statístícs
A ESCRITA DA HISTÓRIA
205
T o d a essa com pilação e com putação proporcionaram algum as
orientações para os hábitos de leitura, m as as generalizações
parecem às vezes am plas dem ais para serem satisfatórias. A novela,
com o a burguesia, parece sem pre estar em ascensão; e os gráficos
caem n os pontos esperados -' m ais especialm ente durante a G uerra
dos Sete A n o s n a feira de Leipzig, e durante a Primeira G uerra
M undial na França. A m aio rp arte dos quantificadores classifica
suas estatísticas em categorias vagas com o “ artes e ciências” e
belles-lettres, que são inadequadas para se identificarem fenôm enos
particulares com o a C ontrovérsia da Sucessão, o Jansen ism o, o
Ilum in ism o ou o R enascim ento G ótico - exatamente os tem as que
atraíram m ais atenção entre os estudiosos de literatura e os
historiadores culturais. A história quantitativa dos livros precisará
refinar su as categorias e aguçar seu foco, antes de provocar um
im pacto im portante nas correntes tradicionais da erudição.
M as os quantificadores descobriram alguns padrões estatísticos
im portantes, e suas realizações teriam parecido ainda m ais im pres­
sionantes, se houvesse um pouco m ais de esforço, ao se fazerem
com parações de um país para outro. Por exem plo, as estatísticas
sugerem que o renascim ento cultural da A lem anha n o final do
século dezoito estava relacionado a um a febre tipo epidêm ica pela
leitura, a cham ada Lesewut ou Leseshucht. O catálogo de Leipzig
n ão alcançou o nível que havia atingido antes d a G uerra dos T rin ta
A n o s até 1764, q u an d o incluía 1.200 títulos de livros recém-publicados. C o m a explosão de Sturm und Drang, elevou-se a 1.600
títulos em 1770; depois 2 .6 0 0 em 1780 e 5 .0 0 0 em 1 8 0 0 .0 francês
seguiu um padrão diferente. A produção de livros cresceu regular­
m ente por um século depois da Paz de W estphalia (1648) - um
século de grande literatura, desde Corneille até à Encyclopédie, que
coincidiu com o declínio n a A lem anha. M as n os cinqüenta anos
seguintes, q u an d o as figuras alem ãs se destacaram , a ascensão da
França parece relativamente m odesta. Segundo Robert Estivais, as
o n A m erican Printing, 1764-1783” , em Bernard Bailyn e Jo h n B . H ench (ed.), The
Press & the American Revolution, B oston , 1 9 81, p. 315-64.
\t
\- >
206 V ? n
r<V /
/
PETER BURKE
solicitações de autorizações para publicar novos livros (privilèges e
permissions tacites) chegaram a 729 em 1764, a 896 em 1770 e
apenas a 527 em 1780; e os novos títulos subm etidos ao dépôt légal
em 1800 totalizaram 700. Certam ente, tipos diferentes de docu­
m entos e padrões de m edida poderiam produzir resultados dife­
rentes, e as fontes oficiais excluem a enorm e produção de livros
franceses ilegais. M as sejam quais forem suas deficiências, os dados
indicam um grande salto para diante na vida literária alemã, após
um século de dom inação francesa. A A lem anh a tam bém teve m ais
escritores, em bora a população das áreas de língua francesa e alemã
fosse m ais ou m enos a m esm a. U m alm anaque literário alem ão,
'D as gelehrte Teutschland’ relacionou 3 .0 0 0 autores vivos em 1772
e 4-300 em 1776. U m a publicação francesa comparável, L a France
littéraire, incluiu 1.187 autores em 1757 e 2.367 em 1769. A in da
que Voltaire e R ousseau estivessem próxim os à velhice, G oethe e
Schiller passavam por um a on da de criatividade bem m ais pode­
rosa d o que se poderia imaginar, considerando-se apenas as
histórias convencionais da literatura.7
A s com parações estatísticas cruzadas tam bém são úteis no
m apeam ento das correntes culturais. D epois de tabular os direitos
dos livros durante o século dezoito, François Furet encontrou um
m arcante declínio nos antigos ram os de ensino, especialm ente da
literatura hum anista e da literatura latina clássica, que haviam
florescido um século antes, segundo as estatísticas de Henri-Jean
M artin. O s gêneros m ais novos, com o os livros classificados sob
a rubrica de “ciências e artes” , prevaleceram após 1750. D aniel
Roche e M ichel M arion anunciam um a tendência sim ilar no
exam e dos arquivos notariais parisienses. A s novelas, os livros de
viagem e as obras sobre história natural tenderam a tom ar o lugar
dos clássicos nas bibliotecas dos nobres e dos burgueses ricos.
T o d o s os estudos apontam para um a queda significativa n a litera­
7. Estivais, L a Statistique bibliographique, p. 3 0 9 ; Paul R aabe, “ B u ch produ ktion und
Lesepublikum in D eutschland 1770-1780” , PKilobiblin: eine Vieneljahrsschrift für
Buch- und Graphiksammler, 21, p. 2-16, 1977. A s estatísticas com parativas sobre os
escritores são basead as em m eus próprios cálculos.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
207
tura religiosa, durante o século dezoito. C on firm am a pesquisa
quantitativa em outras áreas da história social - a de M ichel Vovelle
sobre os rituais funerários, por exem plo, e a p esqu isa de Dominique Ju lia a respeito das ordenações clericais e das práticas de
en sin o.8
•r
O s estudos tem áticos da leitura alem ã com plem entam aque­
les d o francês. R u d o lf Jentzsch e A lbert W ard encontraram , nos
catálogos das feiras de Leipzig e Frankfurt, um a forte qu eda n os
livros em latim e u m a correspondente ascen são nas novelas.
Segu n d o Edw ard Reyer e R u d o lf Schenda, n o final do século
dezenove os em préstim os n as bibliotecas alem ãs, inglesas e
am ericanas caíram em um padrão incrivelm ente sim ilar: 70% a
8 0 % dos fivros pertenciam à categoria de ficção leve (na m aioria
novelas); 10% eram livros de história, biografias e relatos de
viagem ; e m en os de 1 % pertencia à tem ática religiosa. Em pouco
m ais de duzentos anos, o m undo da leitura foi transform ado. A
ascen são d a novela contrabalançou um declínio n a literatura
religiosa, e em quase todos os casos o ponto crítico poderia ser
localizado na segunda m etade do século dezoito, especialm ente a
década de 1770, anos da Wertherfieber. Die Leiden des jungen
Werthers provocou na A lem anha uma resposta ainda m ais espeta­
cular do que L a Nouvelle Héloise na França ou Pamela na Inglaterra.
T o d as as três novelas m arcaram o triunfo de u m a nova sen sibi­
lidade literária, e as últim as frases de Wertfier parecem anunciar
o advento de um novo público leitor, juntam ente com a m orte
de um a cultura cristã tradicional: “ Handuierker trugen ihn. Kein
Geistlicher hat ihn begleicet."9
8. François Furet, “ La ‘ líbraíríe’ du royaum e de France au 18e siècle” , em Furet et al.,
Livre et société dans la France du X V IIIe siècle, Paris, 1 9 6 5 , p. 3-32; D an iel Roche,
“ N o b le sses et culture d an s la France d u X V IIIe: les lectures de la n ob lesse” , em BwcK
und Sammler, Private und õffentliche Bibliotfieken im 18. Jahrhundert, Colloquium der
Arbeitsstelle 18. Jahrhundert Gesamthochschule Wuppertal Universitãt Münster vom
26.-28. September 1 9 7 7, H eidelberg, 1 979, p. 9-27; M ichel M arion , Recherclies sur
les bibliotHèques privées à Paris au milieu du X V lIIe siècle (1 750-1 759), Paris, 1978;
M ichel V ovelle, Piété baroque et déchristianisation en Provence au X V ÍI F siècle. Les
attitudes devam la mort d ’après les clauses des testaments, Paris, 1973.
9. Jentzsch, Der deutsch-lateinische Büchermarkt; 'Albert W ard , Book Production, Fiction,
208
PETER BURKE
A p esar de* toda a su a variedade e ocasionais contradições, os
estudos m icroanalíticos sugerem algum as conclusões gerais, algo
sem elhante à “ desm istificação do m u n d o ” de M ax W eber. M as
isso pode parecer por dem ais cósm ico para servir de consolo.
A queles que preferem a precisão podem recorrer à m icroanálise,
em bora esta em geral se dirija ao extremo oposto - o excèsso de
detalhes. Podem os apresentar centenas de listas de livros nas
bibliotecas, desde a Idade M édia até n o sso s dias, m ais d o que
qualquer um poderia conseguir ler. M as a m aioria de nós concorda
que um catálogo de um a biblioteca particular pode servir com o um
perfil do leitor, ainda que não tenham os lido todos os livros que
n os pertencem e tenham os lido m uitos livros que nunca adquiri­
m os. Esquadrin har o catálogo da biblioteca de M onticello é
inspecionar as provisões da mente de Jefferson.10 E o estudo das
bibliotecas particulares tem a vantagem de u nir o “ o qu ê” com o
“q u em ” da leitura.
T am bém n essa área os franceses assum iram a liderança. O
ensaio de D aniel M ornet “ Les enseignements des bibliothèques privées” , datado de 1910, dem onstrava que o estudo d o s catálogos das
bibliotecas poderiam produzir conclusões que desafiavam alguns
d o s lugares-com uns da história literária. D epois de tabular os
títulos de quinhentos catálogos do século dezoito, ele encontrou
apenas u m a cópia do livro que iria ser a Bíblia da Revolução
Francesa, o Contrato Social de Rousseau. A s bibliotecas destacavam
as obras de autores que tinham sido com pletam ente esquecidos, e
n ão proporcionavam um a base para relacionar alguns tipos de
literatura (a obra dos filósofos, por exem plo) com algum as classes
de leitores (a burguesia). Setenta anos m ais tarde, a obra de M ornet
ain da parecia im pressionante. M as um a vasta literatura desen­
and the G erm a n R eadin g Public 1740-1800, O xford , 1 974; R u d o lf Sch en da, Volk
ohne Buch. Studien zur Sozialgeschichce der populàren Lesestoffe 1 7 0 0 1 9 1 0 , Frankfurt
am M ain , 1 9 7 0 , p. 4 6 7 .
10. Para o m odelo de Jefferson de u m a biblioteca m ín im a para u m cavalheiro educado,
m as não especialm ente um erudito, ver A rth u r Pierce M iddleton, A Virgínia
G entlem ans Library, W illiam sb urg, 1952.
A ESCRITA DA H ISTÓRIA
209
volveu-se à sua volta. A gora tem os estatísticas sobre as bibliotecas
dos nobres, m agistrados, padres, acadêm icos, burgueses, artesãos
e até de alguns criados dom ésticos. Pesquisadores franceses estu­
daram a leitura através das cam adas sociais de algum as cidades a C aen de Jean-Claude Perrot, a* Paris de M ichel M arion - e através
de regiões inteiras - a N orm an dia de Jean Q uéniart, a Languedoc
de M adeleine Ventre. Em su a m aior parte, eles se baseiam em
inventaires après décès, registros notariais de livros dos ben:- do
falecido. A ssim sendo, sofrem do s desvios apresentados n os
docum en tos, que geralm ente negligenciam livros de pouco valor
com ercial ou se lim itam a declarações vagas com o “ um a pilha de
livros” . M as>a visão notarial en gan ou a m uitos n a França, bem
m ais qu e na A lem anh a, on de R u d o lf Sch en d a con sidera os
inventários lam entavelm ente in adequ ados com o u m guia aos
hábitos de leitura das p essoas com uns. O estudo alem ão m ais
com pleto é provavelm ente a p esq u isa realizada por W alter Wittm an n n o s inventários a partir do final do século dezoito em
Frankfurt am M ain. Indicou que os livros pertenciam a 100%
d o s funcion ários graduados, 5 1 % dos com erciantes, 35 % dos
m estres artesãos e 26% d o s artífices. D aniel Roche encontrou
u m pad rão sim ilar entre as p esso as com uns de Paris; apen as 35%
d o s trabalhadores assalariad os e em pregados dom ésticos que
aparecem n os arquivos notariais, por volta de 1780, p o ssu íam
livros. M as R oche tam bém descobriu m uitas indicações de fam i­
liaridade com a palavra escrita. Em 1 789 q u ase todos os em pre­
gados dom ésticos podiam assin ar seus n om es n os inventários.
G ran d e parte deles p o ssu ía escrivaninhas, am plam ente eq u ip a­
das com im plem entos de escrita e apin h adas de papéis de família.
A m aior parte d o s artesãos e d o s lojistas p asso u vários an os de
su a infância n a escola. A ntes de 1789, Paris p o ssu ía 5 0 0 escolas
prim árias, u m a para cada m il habitantes, todas m ais ou m en os
gratuitas. O s parisienses eram leitores, conclui Roche, m as a leitu­
ra n ão assu m ia a form a dos livros que aparecem n os inventários.
Envolvia literatura popular, críticas violentas, cartazes, cartas
p essoais e até os letreiros nas ruas. O s parisienses liam em suas
210
PETER BURKE
cam inhadas pela cidade e liam através de suas vidas, m as seus
processos de leitura não deixaram evidência suficiente nos ar­
quivos, para que o historiador po ssa seguir de perto os seus
calcanhares.11
Ele deve, por isso, buscar outras fontes. A s listas de subscrição
têm sido as preferidas, em bora em geral cubram apenas os leitores
abastados. D o final do século dezessete ao início do século dezeno­
ve, m uitos livros foram publicados por subscrição na Grã-Bretanha
e continham listas dos subscritores. O s pesquisadores do Projeto
para a Biobibliografia H istórica de New casde u pon Tyne, utiliza­
ram essas listas para elaborar um a sociologia histórica do leitor.
Esforços sim ilares estão em andam ento n a A lem anha, especial­
m ente entre os pesquisadores de K lopstock e W ieland. Talvez um
sexto dos novos livros alem ães tenha sido publicado por subscrição
entre 1770 e 1810, q u ando a prática atingiu seu ápice. M as m esm o
durante su a Blütezeit, as listas de subscrição não proporcionam
um a visão acurada do leitor. Deixavam de lado os nom es de m uitos
subscritores, incluíam outros que atuavam com o patronos e não
com o leitores, e norm alm ente representavam m ais a venda de
alguns em presários do que os hábitos de leitura do público
educado, segundo um a crítica um tanto devastadora que Reinhard
W ittm ann dirigiu contra a pesquisa das listas de subscrição. O
trabalho de W allace K irsop sugere que tal pesqu isa pode ter m ais
resultado n a França, on de a publicação por subscrição tam bém
floresceu n o final do século dezoito. M as as listas da França, com o
as outras, em geral, privilegiam os leitores m ais abastados e os livros
m ais fan tasiosos.12
11. D an iel M ornet, “ Les Enseignem ents des bibliothèques privées (1750-1780)” , Revue
d'hiscoire littérairede la France, 17, p. 4 4 9 -9 6 ,1 9 1 0 . Para u m a visão geral d a literatura
francesa com referências bibliográficas, ver Henri-Jean M artin e R oger C h artier (ed.),
Histoire de l ’édition française, Paris, 1982, d a qual o s d ois prim eiros volum es qu e
cobrem o período até 1 8 3 0 já foram publicados. O estudo de W alter W ittm an n e
ob ras relacionadas estão discu tidos em Sch enda, Volk ohne Bucli, p. 461-7. So b re o
leitor co m u m parisiense, ver D an iel R oche, Le Peuple de Paris. E ssai sur la culture
populaire au X V IU e, Paris, 1 981, p. 204-41.
12. R einhard W ittm an n, Buchmarkt und Lektüre im 18, und 19. Jahrhunderc. Beitrage
zum literarischen Leben 1 750-18 8 0 , T ü b in gen , 1982, p. 46-68; W allace K irsop, “ Les
A ESCRITA DA HISTÓRIA
211
O s registros das bibliotecas de em préstim o oferecem um a
oportunidade m elhor para se fazerem conexões entre os gêneros
literários e as classes sociais, m as poucos deles sobrevivem. O s m ais
interessantes são os registros de em préstim o da biblioteca ducal de
W olfenbüttel, que se estendem de 1666 a 1928. Segundo Wolfgang M ilde, Paul Raabe e Jo h n M acCarthy, eles m ostram um a
im portante “ dem ocratização” da leitura n a década de 1760: o
núm ero de livros em prestados dobrou; os em préstim os partiam
das cam adas sociais inferiores (incluíam alguns porteiros, lacaios
e oficiais subalternos do exército); e a temática da leitura tornou-se
m ais leve, deslocando-se de volum es eruditos para novelas senti­
m entais (im itações de Robinson Crusoe eram especialm ente bem
recebidas). E curioso que os registros da Bibliothèque du Roi em
Paris indicam que houve o m esm o núm ero de usuários n essa época
- cerca de cinqüenta por ano, incluindo um certo D enis Diderot.
O s parisienses não podiam levar os livros para casa, m as desfruta­
vam da hospitalidade de um a época m ais calm a. Em bora o
bibliotecário lhes abrisse as portas, apenas duas m anhãs por
sem ana, oferecia-lhes um a refeição antes de mandá-los em bora. A s
condições são diferentes hoje em dia na Bibliothèque Nationale.
O s bibliotecários tiveram de aceitar um a lei básica de econom ia:
n ão há n ada com o um alm oço gratuito!13
O s m icroanalistas fizeram m uitas outras descobertas - tantas,
de fato, que se defrontam com o m esm o problem a dos macro-quantificadores: com o reuni-las? A disparidade da docum entação catálogos de leilão, registros notariais, listas de subscrição, registros
de bibliotecas - não tornam a tarefa m ais fácil. A s diferenças nas
conclusões podem ser atribuídas m ais às peculiaridades das fontes
do que ao com portam ento dos leitores. E as m onografias freqüen­
tem ente anulam um as às outras: os artesãos parecem alfabetizados
aqui e não-alfabetizados ali; a literatura de viagem parece popular
m écanism es éditoriaux” , em Histoire de 1'édition française, Paris, 1 984, v. II, p. 31-2.
13. Jo h n A . M cCarthy, “ Lektiire und Lesertypologie im 18. Jah rh un d ert (1730-1770).
E in Beitrag zur Lesergeschichte am Beispiel W olfénbüttels", Intemationales Archiu
fü r Sozialgeschichte derdeutschen Literatur, 8, p. 35-82, 1983.
212
PETER BURKE
entre alguns grupos em alguns lugares e im popular em outros.
U m a com paração sistem ática dos gêneros, am bientes sociais,
épocas e lugares pareceria um a conspiração de exceções, tentando
contestar regras.
A té agora apenas um historiador do livro foi ou sado o bastante
para propor um m odelo geral. R o lf Engelsing declarou que ocorreu
u m a “ revolução na leitura” (Leserevolution) no final do século
dezoito. Segu n d o ele, da Idade M édia até algum tem po após 1750,
os h om en s liam “ intensivam ente” . Possuíam apenas alguns livros
- a Bíblia, um alm anaque, um a ou duas obras de oração - e os
liam repetidas vezes, em geral em voz alta e em grupo, de form a
que um a estreita variedade de literatura tornou-se profundam ente
im pressa em su a consciência. Em 1800, os hom ens estavam lendo
“ extensivam ente” . Liam todo o tipo de material, especialm ente
periódicos e jornais, e os liam apenas ü m a vez, correndo para o
item seguinte. Engelsing não apresenta m uita evidência para sua
hipótese. N a verdade, a m aior parte de su a pesquisa diz respeito
apenas a um a pequena am ostra de burgueses em Brem en. M as
possu i u m a sedutora sim plicidade n a relação tem poral e apresenta
um a fórm ula côm oda para contrastar os m odos de leitura m uito
precoces e m uito tardios na história européia. N o meu m od o de
ver, seu principal inconveniente é o caráter não-linear. A leitura
não se desenvolveu em um a só direção, a extensão. A ssu m iu
m uitas form as diferentes entre diferentes grupos sociais em dife­
rentes épocas. H om en s e m ulheres leram para salvar suas alm as,
para m elhorar seu com portam ento, para consertar suas m áquinas,
para seduzir seus en am orados, para tom ar conhecim ento dos
acontecim entos de seu tem po, e ain da sim plesm ente para se
divertir. E m m uitos casos, em especial entre os adm iradores de
Richardson, R ousseau e Goethe, a leitura tornou-se m ais intensiva,
n ão m en os. M as o final do século dezoito parece representar um
ponto crítico, q u an d o se pode visualizar a em ergência de um a
leitura de m assa que iria atingir proporções gigantescas no século
dezenove, com o desenvolvim ento do papel feito à m áquina, as
pren sas m ovidas a vapor, o linotipo e u m a alfabetização quase
A ESCRITA DA HISTÓRIA
213
universal. T o d as essas m udanças abriram novas possibilidades,
não dim inuin do a intensidade, m as aum entando a variedade.14
D evo por isso confessar algum ceticismo em relação ã “ revolu­
ção da leitura” . E m bora um historiador do livro, o am ericano David
Hall, tenha descrito um a transformação nos hábitos de leitura dos
habitantes da N ova Inglaterra entre 1600 e 1850, quase exatamente
nos m esm os term os que aqueles utilizados por Engelsing. A ntes de
1800, os habitantes da N ova Inglaterra liam pequenas coleções dos
veneráveis “ sem pre ven d id os” - a Bíblia, os alm anaques, o New
England Primer, Rise and Progress of Religion de Philip D oddridge,
C all to the Unconverted de Richard Baxter - e os liam várias e várias
vezes, em vez alta, em grupo, e com excepcional intensidade.
D epois de 1800, foram in un dados com novos tipos de livros novelas, jornais, variedades recentes e alegres de literatura infantil
- e os liam avidam ente, descartando um a coisa, assim que podiam
encontrar outra. E m bora Hall e Engelsing jam ais tenham ouvido
falar um do outro, descobriram am bos um padrão sim ilar em duas
áreas bastante diferentes do m undo ocidental. Talvez tenha ocor­
rido um deslocam ento fundam ental n a natureza da leitura no final
do século dezoito. Pode não ter sido um a revolução, m as m arcou
o fim de u m A ntigo Regime - o reinado de T h o m as a K em pis,
Jo h an n A m d t e Jo h n B un yam .15
O “ o n d e” d a leitura é m ais im portante do que se poderia
pensar, pois a colocação do leitor em seu am biente pode dar
sugestões sobre a natureza de su a experiência. N a U n iversidade de
Leyden há u m a gravura na parede, datada de 1610, representando
a biblioteca da universidade. M ostra os livros, pesados volum es
in-fólio, encadeados em altas estantes projetando-se das paredes
em u m a seqüência determ inada pelas rubricas da bibliografia
14. R o lf E ngelsing, “ D ie Perioden der Lesergechichte in der N euzeit. D as statisnsche
A u sm a ss u n d die soziokulturelle B edeutun g der Lektüre” , Archiv für Geschickte des
Buchsuiesens, 1 0 ,1 9 6 9 , col. 944-1002 e E ngelsing, D erB ürgerals Leser. Lesergeschichte
in Deutschland 1500-1 8 0 0, Stuttgart, 1974.
15. D avid H all, “T h e U se s o f Literacy in N ew E ngland, 1 6 0 0-1850” , em Printing and
Society in Early America, p. 1-47.
PETER BURKE
214
clássica: Jurisconsulti, Mediei, Historiei etc. H á estudantes espalha­
do s pela sala, lendo os livros em balcões construídos ao nível dos
om bros, abaixo das estantes. Eles lêem de pé, protegidos contra o
frio por grossas capas e chapéus, com um dos pés apoiado em um a
barra para aliviar a pressão sobre seus corpos. A leitura não pode
ter sido confortável na época do hum an ism o clássico. Em quadros
realizados um século e m eio m ais tarde, La Lecture e La Liseuse de
Fragonard, p o r exem plo, os leitores estão reclinados em canapés
ou poltronas bem acolchoadas, com suas pernas apoiadas em
b an qu in h os. São com freqüência m ulheres, usan do vestidos folga­
do s conhecidos na época com o liseuses. Em geral seguram entre os
dedos um duodécim o volum e de formato elegante e exibem um
olhar distante. D e Fragonard a M onet, que tam bém pintou um a
Liseuse, a leitura passa d o s aposentos privados para o ar livre. O
leitor carrega os livros para os cam pos e para os topos das
m on tanh as, onde com o R ousseau e H eine ele pode com ungar com
a natureza. A natureza deve ter parecido se deslocar algum as
gerações depois para as trincheiras da Primeira G uerra M undial,
on de os jovens tenentes de G òttingen e O xford de algum m odo
encontraram espaço para alguns volum es leves de poesia. U m dos
livros m ais preciosos de m inha própria pequena coleção é um a
edição do Hymnen an die Ideale der Menschheit, de H õlderlin, com
a inscrição “A d o lf N oelle, Jan u ar 1916, nord-Frankreich” - pre­
sente de um am igo alem ão que tentava justificar a A lem anha.
A in d a n ão estou certo de ter entendido, m as creio que a com preen­
são geral da leitura avançaria, se m editássem os m ais diligentemente
sobre su a iconografia e seus equipam entos, incluindo a m obília e
o vestuário.16
O elem ento h u m an o n o cenário deve ter afetado a com preen­
são dos textos. Sem dúvida, Greuze adotou u m a atitude sentim en­
tal diante d o caráter coletivo da leitura, q u an d o pintou Un père de
famille qui lit la Bible à ses enfants. Restif de la Bretonne provavel­
16. Para observações sim ilares sob re o estabelecim ento d a leitura, ver R oger C h artier e
D an iel Roche, “ Les pratiques urbaines de rim p rim é ” , em Histoire de 1’édition
française, v. II, p. 403-29.
A ESCRITA D A HISTÓRIA
215
mente fez o m esm o nas leituras familiares da Bíblia em La vie de
mon père: “Je ne saurais me rappeler, sans attendrissement, avec quelle
attention cette lecture était écoutée; comme elle communiquait à toute
la nombreuse famille un ton de bonhomie et de fraternité (dans la
famille je comprends les domestiqúes). Mon père commençait toujours
par ces mots: ‘Recueillons-nous, mes enfants; cest l'Esprit Saint qui va
parler.’” 17 M as apesar de todo o seu sentim entalism o, tais descri­
ções procediam de um a m esm a suposição: para as pessoas com uns
no início d a E uropa m oderna, a leitura era um a atividade social.
O corria n os locais de trabalho, nos celeiros e nas tavernas. Era
quase sem pre oral, m as não necessariam ente doutrinadora. A ssim
C h ristian Schubart, em 1786, descreveu o cam ponês n a estalagem
no cam po, com alguns matizes cor-de-rosa:
U n d bricht die A b en d zeit herein
So trink ich h alt m ein Schòpple W ein;
D a liest der H err Scku lm eister m ir
W a s N eu es a u s der Zeitung fur.
18
A instituição de leitura popular mais im portante sob o Antigo
Regim e era um encontro à beira do fogo, conhecido com o veillée
n a França e Spinnstube na A lem anha. Enquanto as crianças
brincavam , as m ulheres costuravam e os hom ens consertavam
ferram entas, u m do grupo que podia decifrar um texto os regalaria
com as aventuras de Les quatre fils Aymon, Till Eulenspiegel ou
algum outro favorito do repertório padronizado dos livros popula­
17. C itad o em francês n o original. A tradução é: “ Eu não saberia m e recordar, sem
ternura, co m que atenção era escutada aquela leitura; co m o com unicava a toda a
n u m ero sa fam ília u m tom de b o n dade e de fraternidade (na fam ília eu incluo os
criados). M eu pai iniciava sem pre com estas palavras: ‘V am o s n os concentrar, m eus
filhos; é o E spírito San to quem vai falar.’” (N .T .)
18. R estif de la Breton ne, La vie de mon père, Ottawa, 1949, p. 216-17. O poem a de
Sch u b art está citado em Sch enda, Volk ohne Buch, p. 4 6 5 , e pode ser assim traduzido:
“ When the evening time comes ro u n d /l aluiays drink my glass of wine./Then the
schoolmaster reads to me/Something new out of the newspaper.” [“ Q u an d o a noite
ch e ga,/Sem p re bebo m inha taça de v in h o ./E n tão o mestre-escola lê para m im /A lgum a novidade d o jo rn a l.” ]
216
PETER BURKE
res e baratos. *Algumas dessas prim eiras brochuras indicavam que
sua intenção era que eles entrassem n os ouvidos, com eçando com
frases com o “ O que você vai ouvir ...” N o século dezenove, grupos
de artesãos, especialm ente fabricantes de charutos e alfaiates,
revezavam-se, lendo ou ouvindo um leitor para se m anterem
entretidos, enquanto trabalhavam . Até hoje, muitas pessoas to­
m am conhecim ento das notícias através da leitura de um locutor
de televisão. A televisão pode ser m en os um rom pim ento do
passad o d o que geralmente se supõe. Seja com o for, para a m aioria
das p essoas através da m aior parte da história, os livros tiveram
m ais ouvintes que leitores. Foram m ais ouvidos do que v istos.19
A leitura era experiência m ais reservada à m in oria d as p essoas
educadas, que podia se perm itir com prar livros. M as m uitos deles
se associavam a clubes de leitura, cabinets íittéraires ou Lesegesellschaften, on de podiam ler quase tudo o que queriam , em um a
atm osfera sociável, por um pequeno pagam ento m ensal. Françoise
Parent-Lardeur reconstituiu a proliferação d esses clubes em Paris
durante a R estauração20, m as eles rem on tam ao século dezoito.
O s livreiros provincianos m uitas vezes transform avam seu esto­
q u e em u m a biblioteca e cobravam taxas pelo direito de freqüen­
tá-la. B o a luz, algum as cadeiras confortáveis, q u ad ros n a parede
e subscrições para u m a meia-dúzia de jorn ais eram o suficiente
para transform ar qu alqu er livraria em um clube. A ssim estava
an un ciado o cabinet littéraire de P.J. Bernard, um pequeno livreiro
19. S o b re o s livros pop u lares e seu u so pú blico n a F ran ça, ver C h arles N isard , Histoire
des livres populaires ou de la littérature du colportage, Paris, 1854, 2 v.; R o b ertM an d ro u ,
De laculture populaire aux 1 T et 18esiêcíes: la bibliothèque bleuede Troyes, Paris, 1964;
e para exem plos de estudos m ais recentes, a série “ Biblioth èque bleue” editada por
D an iel R och e e pu blicad a pelas E ditions M on talba. O m elhor relato sob re a literatura
p o p u lar n a A lem an h a é ain d a Sch enda, Volk ohne Buch, em b ora su a interpretação
esteja sen d o d esafiada p o r algun s trabalhos m ais recentes, especialm ente Reinhart
Siegett, Aufklãrung und Volkslektüre exemplarisch dargestellt an Rudolph Zacharias
Beclter und seinem "Noth- und Hül/sbücKlein”, Frankfurt am M ain , 1 9 7 8 . C o m o u m
exem plo d e estud iosos qu e lêem um ao outro, ver Sam u el G o m p ers, Seventy Years
of Life and Labor. A n Autobiography, N ova York, 1 9 25, p. 80-1.
2 0 . F rançoise Parent-Lardeur, Les cabinets de lecture. La íecture publique à Paris sous la
Restauration, Paris, 1982.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
217
de Lunéville: “ Une maison commode, grande, bien éclairée et ch au f
fée, qui serait ouverte tous les jours, depuis neuf heures du matin
ju s q u à midi et depuis une heure ju squ 'à dix, ofrirai t dès cet instant
aux amateurs deux mille volumes qui seraient augmentés de quatre
cents par anée."21 E m n ovem bro de 1779, o clube tinh a 200
associado s, a m aior parte oficiais da gendarmerie local. Pela
m od esta q u antia de três libras p o r ano, eles tinh am acesso a 5 .0 0 0
livros, treze jorn ais e salas especiais para conversar e escrever (ver
A pêndice).
Segu n d o O tto D ann , os clubes de leitura alem ães propiciaram
a base social para u m a variedade distinta de cultura burguesa no
século dezoito em u m a proporção espantosa, especialm ente nas
cidades d o norte. M artin W elke estim a que talvez um dentre cada
5 0 0 alem ães adultos pertencia a um a Lesegesellschaft em 1800.
M arlies Prüsener conseguiu identificar bem m ais de 4 0 0 clubes e
esboçar algum a idéia de seu tema de leitura. T o d o s eles possu íam
um suprim ento básico de periódicos suplem entado por séries
irregulares de livros, em geral sobre tem as bem áridos com o
história e política. Parecem ter sido um a versão m ais séria dos cafés,
em si u m a instituição im portante para a leitura, que se espalh ou
p o r toda a A lem anha, a partir do final do século dezessete. Em
1760, V ien a p o ssu ía pelo m enos sessenta cafés. Eles forneciam
revistas, jorn ais e oportunidades sem fim para d iscussões políticas,
o que ocorreu em Londres e A m sterdã por m ais de um século.22
A ssim , já sabem os bastante sobre as bases institucionais da
leitura. T em os algum as respostas para as perguntas de “ q u em ” , “ o
q u ê” , “on d e” e “ q u an d o ” . M as os “ po rq u ês” e os “ com o s” n os
escapam . A in d a n ão descobrim os um a estratégia para o entendi­
2 1 . C itad o em francês n o original. A tradução é: “ U m a casa côm oda, grande, bem
ilu m in ad a e aquecida, qu e estará aberta todos os dias d as nove horas d a m anh ã até
o m eio-dia e d a u m a h ora d a tarde até às dez d a noite, oferecendo d esd e pgora aos
am ad ores d o is m il volu m es q u e serão au m entados em quatrocen tos p o r an o .” (N .T .)
2 2 . O s estud os de D an n , W elke e Prüsener, juntam en te com outras p esq u isas interes­
santes, estão reu n id os em O tto D a n n (ed.), Lesegesellschaften und bürgerliche Emanzipation: em europãischer Vergleich, M u n iqu e, 1981.
218
PETER BURKE
m ento do pr©cesso interno, através do qual os leitores com preen­
dem as palavras. N em m esm o entendem os a m aneira com o nós
m esm os lem os, apesar dos esforços dos psicólogos e dos neurolo­
gistas para traçarem os m ovim entos dos olhos e m apearem os
hem isférios do cérebro. Será que os processos cognitivos são
diferentes para os chineses que lêem ideogram as e para os ociden­
tais que escandem linhas? Para os israelenses que lêem palavras
sem vogais, movendo-se da direita para a esquerda e para as pessoas
cegas que transm item estím ulos através de seus dedos? Para os
asiáticos do sudeste, cujas línguas são desprovidas de tem pos
verbais e determ inam espacialm ente a realidade e para os índios
am ericanos, cujas línguas só recentemente foram reduzidas à escrita
por estudiosos estrangeiros? Para o hom em devoto na presença da
Palavra e para o con sum idor que exam ina os rótulos em um
superm ercado? A s diferenças parecem infinitas, pois a leitura não
é sim plesm ente u m a habilidade, m as um a m aneira de estabelecer
significado, que deve variar de cultura para cultura. Seria estranho
esperar encontrar um a fórm ula que pudesse considerar todas essas
variações. M as deveria ser possível desenvolver um m od o de
estudar as m udanças na leitura n o interior da n ossa própria cultura.
Eu gostaria de sugerir cinco abordagens ao problem a.
Em prim eiro lugar, creio que seria possível aprender m ais sobre
os ideais e as suposições subjacentes à leitura no passado. Podería­
m os estudar as descrições contem porâneas da leitura n a ficção, em
autobiografias, escritos polêm icos, cartas, pinturas e gravuras para
descobrir algum as noções básicas daquilo que as pessoas im agina­
vam ocorrer, q u ando liam . C on siderem os, por exem plo, o grande
debate sobre a m an ia de leitura n a A lem anha, n o final do século
dezoito. A queles que deploravam a Lesewut não se limitavam a
con den ar seus efeitos sobre a m oral e a política. T em iam que ela
fizesse m al à saúde pública. Em um folheto de 1795, J.G . Heinzem an n relacionou as conseqüências físicas da leitura excessiva:
“ suscetibilidade a resfriados, dores de cabeça, enfraquecim ento dos
olhos, on das de calor, gota, artrite, hem orróida, asm a, apoplexia,
doença pulm onar, indigestão, obstipação intestinal, distúrbio ner­
A ESCRITA DA HISTÓRIA
219
voso, enxaqueca, epilepsia, hipocondria e m elancolia” . N o lado
positivo do debate, Joh an n A dam Bergk aceitou as prem issas de
seu oponente, m as discordou de suas conclusões. C on siderou
com o estabelecido que nunca se deveria ler im ediatam ente depois
de com er, ou q u ando se está de pé. M as com um a disposição
correta do corpo, poder-se-ía ler bastante indefinidam ente. A “ arte
da leitura” envolvia lavar o rost© com água fria e fazer cam inhadas
ao ar livre, assim com o concentração e m editação. N inguém
desafiava a teoria de que havia um elemento físico na leitura,
porque ninguém fazia um a distinção clara entre o m undo físico e
o m u n d o m oral. O s leitores do século dezoito tentaram “ digerir”
os livros, absorvê-los em todo o seu ser, corpo e alma. O aspecto
físico do processo às vezes se projeta nas páginas. O s livros da
biblioteca de Sam uel Joh n son , atualmente de propriedade da Sra.
D on ald F. Hyde, são em penados e desgastados, com o se Jo h n so n
houvesse lutado para abrir o seu cam inho através deles.23
D esde o início da m aior parte da história ocidental, e especial­
m ente nos séculos dezesseis e dezessete, a leitura foi encarada acima
de tudo com o um exercício espiritual. M as com o ela era realizada?
Seria possível buscar orientação nos m anuais dos jesuítas e nos
tratados de herm enêutica dos protestantes. A s leituras familiares
d a Bíblia ocorriam em am bos os lados da grande Unha divisória
religiosa. E com o indica o exem plo de Restif de la Bretonne, a
Bíblia era abordada com temor, m esm o entre alguns cam poneses
católicos. E claro que Boccaccio, Castiglione, Cervantes e Rabelais
desenvolveram outros usos da instrução para a elite. M as para a
m aioria das pessoas, a leitura perm anecia um a atividade sagrada.
C olocava as pessoas diante da Palavra, desvendava os m istérios
23. A s observações de H einzem ann estão citadas em H elm u t Kreuzer, “ G efãhrliche
Lesesucht? Bem erkungen zu politischer Lektürekritik im ausgeh enden 18. Jahrhundert” , em R ainer G ruenter (ed.), Leser und Lcsen im 18. Jahrundert. Colloquium der
Arbeitsstelle Ach.zeh.ntes Jahrhundert Gesamthochschule Wuppertal, 24.-2Ó .'O hoher
1 9 7 5 , H eidelberg, 1 977. A s observações de Bergk estão espalh adas por todo o seu
tratado, Die Kunst Bücher zu Lesen (Jen a> 1799), qu e tam bém contém algum as
observações características sob re a im portância dos livros "digestivos": ver seu
frontispício e p. 302.
220
PETER BURKE
sagrados. C o m o hipótese de trabalho, parece válido presum ir que
quanto m ais se recua no tem po, m ais afastado se fica da leitura
instrum ental. N ão som ente o livro do “ com o fazer” se torna m ais
raro e o livro religioso m ais com um , m as tam bém a própria leitura
é diferente. N a época de Lutero e Loyola, ela prom ovia o acesso à
verdade absoluta.
Em um nível m ais m undano, as hipóteses sobre a leitura
poderiam ser delineadas através dos anúncios e dos prospectos dos
livros. D aí algum as observações típicas de u m prospecto do século
dezoito, tom ado ao acaso da rica coleção da Newberry Library: um
livreiro está oferecendo um a edição in-quartou dos Commentaires
sur la coutume d'Angou.mois, um a obra excelente, insiste ele, tanto
por su a tipografia, quanto por seu conteúdo: “O texto do Coutume
é im presso em tipo gros-romain; os resum os que precedem os
com entários, im pressos em cicéro; e os com entários são im pressos
em Saint-Augustin. T o d a a obra é feita de" um papel m uito bonito
fabricado em A ngoulèm e.”25
N en h u m editor sonharia em m encionar o papel e o tipo ao
anunciar hoje em dia um livro de direito. N o século dezoito, os
anunciantes presum iam que seus clientes se preocupavam com a
qualidade física dos livros. T an to com pradores, quanto vendedores
com partilhavam do m esm o m odo de um conhecim ento tipográfico
que atualm ente está quase extinto.
O s relatórios dos censores tam bém podem ser reveladores,
pelo m en os n o caso dos livros do início da França m oderna,
q u an d o a censura era altam ente desenvolvida, além de extrema­
m ente eficiente. U m livro típico de viagem, Nouveau voyage aux
isles de VAmérique (Paris, 1722), de autoria de J.-B. Labat, contém
quatro “ aprovações” im pressas por extenso próxim o aos direitos.
U m cen sor explica que o m anuscrito despertou su a curiosidade:
“ E difícil com eçar a lê-lo, sem sentir aquela m oderada m as ávida
curiosidade que n os im pele a continuar a ler.” O utro o recom enda
2 4 . Diz-se d o form ato d o s livros im p ressos em folhas d o b rad as du as vezes. (N .T .)
2 5 . N ew berry Libraty, C a se W in g Z 4 5 .1 8 ser.la, n o 31.
A ESCRITA D A HISTORIA
221
por seu “ estilo sim ples e conciso” e tam bém por sua utilidade:
“ N ada em m in ha opinião é tão útil aos viajantes, aos habitantes
daquele país, aos com erciantes e àqueles que estudam história
natural.” E um terceiro sim plesm ente o considerou um a boa
leitura: “ Experim entei grande .prazer em lê-lo. Ele contém um
núm ero enorm e de coisas curiosas.” O s censores não perseguiam
apenas os livros hereges e revolucionários, com o tendem os a supor
olhan do para trás, através do tem po da Inquisição e do Iluminism o. C on cediam a um a obra o selo real de aprovação, e assim
fazendo apresentavam indicações de com o ele poderia ser lido. Seus
valores constituíam um padrão oficial em com paração com o qual
as leituras com uns poderiam ser avaliadas.
M as com o liam os leitores com uns? M inha segunda sugestão
para atacar esse problem a diz respeito às m aneiras com o a leitura
era ensinada. A o estudar a instrução n a Inglaterra do século
dezessete, M argaret Spufford descobriu que grande parte do apren­
dizado ocorria fora da escola, em oficinas e n os cam pos, onde os
trabalhadores ensinavam a si m esm os e uns aos outros. D entro da
escola, as crianças inglesas aprendiam a ler antes de aprenderem
a escrever, em vez de adquirirem as duas habilidades ao m esm o
tem po n o início de su a educação, com o ocorre hoje. Freqüente­
m ente juntavam-se à força de trabalho, antes dos sete anos de idade,
q u an d o tinham início as instruções na escrita. A ssim , as avaliações
da alfabetização, baseadas na capacidade de escrever, podem ser
m uito baixas, e o público leitor pode ter incluído um grande
núm ero de p essoas que não podiam assinar seus n om es.26
M as a “ leitura” para tais pessoas provavelmente significava algo
com pletam ente diferente daquilo que significa hoje. N o início da
2 6 . M argaret Sp u fford , “ F irst Steps in Literacy: T h e R eadin g and W riting Experiences
o fth e H u m b lest seventeenth-century A u tob iograph ers” , Social History, 4, p. 407-35,
1 9 7 9 e Spu fford , Sm al! Books and Pleasant Histories, Popular Fiction and its Raadership
in Seventeenth-century England, A th ens, G eórgia, 1981. S o b re a leitura popu lar na
Inglaterra d o s séculos dezenove e vinte, ver R .K . W eb b, The BritísK Working C lass
Reader, Lon dres, 1 9 5 5 , e Richard D . Altick, The Engiish Common Reader: A Social
History ofthe M ass Reading Public 1800-1900, C hicago, 1957.
222
PETER BURKE
França m oderna, os três Rs eram aprendidos em seqüência prim eiro ler, depois escrever, depois aritmética27 - assim com o na
Inglaterra, e, ao que parece, em todos os outros países do Ocidente.
A s cartilhas m ais com uns do A ntigo Regime - livros de alfabetiza­
ção com o a Croix de Jésus e a Croix de par Dieu - com eçavam com o
os m anuais m odernos, com o alfabeto. M as as letras tinham sons
diferentes. O aluno pronunciava um a vogal de apoio antes de cada
consoante, de form a que o “ p ” surgia com o u m “eh-p” em vez de
“ pe” , com o é hoje. Q u an d o ditas em voz alta, as letras n ão se
ligavam foneticamente em com binações que poderiam ser reconhe­
cidas pelo ouvido com o sílabas de um a palavra. A ssim , p-a-t em
pater soaria com o ehp-ah-eht. M as a indistinção fonética realmente
não im portava, porque as letras eram consideradas com o estím ulos
visuais para acionar a m em ória de um texto que já ‘ havia sido
aprendido de cor - e o texto era sem pre em latim. T o d o o sistem a
era construído na prem issa de que as crianças francesas não
deveriam com eçar a ler em francês. Passavam diretamente do
alfabeto para sílabas sim ples e daí para o Pater Nos ter, a Ave M aria,
o Credo e o Benedicite. T en d o aprendido a reconhecer essas orações
com uns, passavam para as respostas litúrgicas im pressas nas
brochuras padronizadas. N esse ponto m uitas crianças deixavam a
escola. Já haviam adquirido dom ínio suficiente da palavra im pres­
sa, para preencherem as funções que a Igreja esperava delas - ou
seja, participar de seus rituais. M as jam ais haviam lido um texto
em um a língua que pudessem com preender.
A lgum as crianças - não sabem os quantas, talvez um a m inoria
n o século dezessete e um a m aioria no século dezoito - perm ane­
ciam n a escola tem po suficiente para aprender a ler em francês.
M esm o assim , no entanto, a leitura era com freqüência um a
questão de reconhecim ento de algo já conhecido, em vez de um
processo de aquisição de u m novo conhecim ento. Q uase todas as
escolas eram orientadas pela Igreja, e quase todos os livros didáticos
2 7 . C h a m ad o s em inglês de três R s, porque un-iting, reading e arithmetics têm u m som
inicial de R. (N .T .)
A ESCRITA DA HISTÓRIA
223
eram religiosos, em geral catecismos e livros de devoção como a Escole
paroissiale de Jacques de Batencour. N o início do século dezoito os
Frères des Ecoles Chrétiennes começaram a apresentar o m esm o texto
a vários alunos e a ensinar-lhes com o um grupo - primeiro passo para
a instrução padronizada, que irisrse tom ar a regra cem anos mais tarde.
A o m esm o tem po, alguns preceptores nas famílias aristocráticas
começaram a ensinar a ler diretaínente em francês. Desenvolveram
técnicas fonéticas e auxílios audiovisuais com o as cartas brilhantes e
ilustradas do abade Berthaud e o bureau typographique de Louis
D um as. Em 1789, seu exem plo se difundiu para algumas escolas
primárias progressistas. M as a m aior parte das crianças ainda
aprendia a Ler, ficando de pé diante do professor e recitando
passagens de seja qual fosse o texto em que conseguissem pôr as
m ãos, enquanto seus colegas lutavam com um a coleção heterogênea
de livretos nos bancos de trás. Alguns desses “ livros didáticos” iriam
reaparecer à noite na vieillê, porque eram livros populares muito
vendidos da bibliothèque bleue.28 Portanto, a leitura ao pé do fogo
tinha algo em com um com a leitura em um a sala de aula: era um a
récita de um texto que todos já conheciam. Em lugar de abrir
perspectivas sem limites de novas idéias, ele provavelmente perma­
necia no interior de um circuito fechado, exatamente onde a Igreja
Pós-Tridentina desejava mantê-lo. “Provavelmente” , no entanto, é a
palavra principal nessa proposição. S ó podem os fãzer conjeturas diante
da natureza dos primórdios da pedagogia, lendo as primeiras cartilhas
e as reminiscências ainda em m enor número que sobreviveram dessa
época. N ã o sabem os o que realmente acontecia n a sala de aula. E
seja o qu e fosse que acontecesse, os leitores e ouvintes cam poneses
podem ter construído, tanto seu catecismo, com o suas narrativas de
aventuras de m aneira que, absolutamente, nos escapam .29
28. C o leção d e livros p opu lares de capa azul, publicada d o século X V II a m eados do
século X I X , em su a m aioria adaptações de rom ances m edievais de cavalaria. (N .T .)
29. Esta d isc u ssã o é b asead a n a p esqu isa de D om in ique Ju lia, especialm ente seú “ Livres
de classe et usages péd agogiques” , em Histoire de l’édition française, v. II, p. 468-97.
V er ta m b ém Jean H ébrard , “ D idactique de la lettre et so u m issio n au sen s. N ote sur
l’h istoire d es pédagogies de la lecture” , em Les textes-du Centre Alfred Binet: V enfant
et 1’écrit, 3, p. 15-30, 1983.
224
PETER BURKE
Se a exp*eriência da grande m assa de leitores está além do
alcance da pesquisa histórica, os historiadores deveriam ser capazes
de captar algo do que a leitura significava para as poucas pessoas
que dela deixaram um registro. U m a terceira abordagem poderia
com eçar com os m uito conhecidos relatos autobiográficos - aqueles
de San to A gostinho, Santa T eresa de Ávila, M ontaigne, R ousseau
e Stendhal, por exem plo - e passar para fontes m enos familiares.
J.-M. G ou lem ot utilizou a autobiografia de Jamerey-Duval para
m ostrar com o um cam ponês podia ler e escrever su a trajetória nas
fileiras do A ntigo Regime, e D aniel Roche descobriu um vidraceiro,
Jacques-Louis M énétra, que transcreveu sua viagem em um circuito
característico pela França. Em bora não levasse m uitos livros na
sacola às suas costas, M énétra constantem ente trocava cartas com
com panheiros viajantes e com nam oradas. Esban jou alguns soidos
em m anifestos em execuções públicas e até com pôs versos burles­
cos para as cerim ônias e as farsas que representava com os outros
trabalhadores. Q u an d o contou a história de sua vida, organizou
sua narrativa de m odo picaresco, com bin ando a tradição oral
(contos folclóricos e fanfarronadas estilizadas de reuniões m asculi­
nas) com gêneros de literatura popular (as pequenas novelas da
bibliothèque bleue). A o contrário de outros autores plebeus - Restif,
M ercier, Rousseau, D iderot e M arm ontel - M énétra jam ais con­
seguiu u m lugar na República das Letras. Ele m ostrou que a
literatura tinha um lugar na cultura do hom em com um .30
E sse lugar pode ter sido à m argem , m as as m argens em si
fornecem indícios para a experiência dos leitores com uns. N o
século dezesseis, as notas lançadas à m argem apareciam im pressas
sob a form a de glossários, que orientavam o leitor através dos textos
hum anistas. N o século dezoito, o glossário deu lugar à nota de
rodapé. C o m o o leitor seguia a peça entre o texto e o paratexto; na
base ou n a lateral da página? G ib b o n criou um a distância irônica
através do desdobram ento m agistral das notas de rodapé. U m
30. Jean-M arie G o u lem o t (ed.), V alentin Jam erey-Duval, Mémoires. Enfance et éducation
d ’un paysan au X V U le siècle, Paris, 1981; D an iel Roche (ed.), Journal ie ma vie.
Jacques-Louis Ménétra compagnon vitrier au 18e siècle, Paris, 1982.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
225
estudo cuidadoso de cópias anotadas do século dezoito de The
Decline and Fali of Roman Empire poderia revelar o m od o com o a
distância foi percebida pelos contem porâneos de G ib b o n . Joh n
A dam s cobriu seu livro de rabiscos. A com panhando-o através de
sua cópia do Discourse on the Origin of Inequality de Rousseau,
pode-se ver o quanto a filosofia do Ilum inism o parecia radical para
um revolucionário isolado n o clim a m aravilhoso de Quincy, em
M assachusetts. A ssim dizia Rousseau, n a prim eira edição em
inglês: “ There was no kind of moral relation between men in this State
[the State of nature]; they could not be either good or bad, and had
neither vices nor virtues. It is proper, therefore, to suspend judgment
about their situation ... until we have examined whether there are more
virtues or vices among civilized men.”31 E A d am s, na margem:
“ Wonders upon wonders. Paradox upon Paradox. What astonishing
sagacity had Mr. Rousseau! Yet this eloquent coxcomb has with his
affectation of singularity made men discontented ivith superstition and
tyranny.” 32
C hristiane Berkvens-Stevelinck encontrou u m excelente local
para m apear a República das Letras nas notas à m argem de Prosper
M archand, bibliófilo da Leyden do século dezoito. O utros estudio­
sos levantaram as tendências da história literária, tentando reler os
grandes livros com o os grandes escritores os haviam lido, utilizan­
do as anotações de exem plares de colecionadores, com o a cópia de
D iderot da Encyclopédie e a cópia de Melville dos ensaios de
E m erson. M as a pesqu isa n ão precisa se restringir aos grandes
livros ou aos livros em geral. Peter Burke está atualmente estudando
os graffiti d a Itália renascentista. Q u an d o se rabiscava na porta de
um inim igo, os rabiscos m uitas vezes funcionavam como insultos
3 1. “ N ã o havia qu alq u er espécie de relação m oral entre o s h om en s neste estado [o estado
d a natureza]; eles não p odiam ser b o n s ou ruins, e nem p o ssu íam vícios ou virtudes.
É conveniente, portanto, suspender-se o julgam ento sob re su a situação n. até que
ten h am os exam in ad o se há m ais virtudes e vícios entre os h om en s civilizados.” (N .T .)
3 2 . “ M aravilh as sob re m aravilhas. Paradoxo sob re paradoxo. Q u e surpreendente saga­
cidade p o ssu ía o Sr. R ousseau! M as esta eloqüente preten são, com sua sim ulação de
singularidade, torn ou os h om en s descontentes com a superstição e a tirania.” (N .T .)
rituais, que tleflniam as linhas do conflito social que dividia
vizinhanças e clãs. Q u an d o ligados à fam osa estátua de Pasquino
em Rom a, esses rabiscos públicos estabeleciam a tônica de um a
cultura de rua intensam ente política. U m a história da leitura
poderia ser capaz de avançar em grandes saltos da Pasquinade e da
C om m ed ia deli’Arte até M olière, de M olière até R ousseau e de
R ousseau até R obespierre.33
M in h a quarta sugestão diz respeito à teoria literária. C on cord o
que ela po ssa parecer desencorajadora, especialm ente para quem
está de fora. A parece envolta em rótulos im ponentes - estruturalism o, desconstrução, hermenêutica, semiótica, fenom enologia e desaparece tão rapidam ente quanto surgiu, pois as tendências
substituem um as às outras com desconcertante velocidade. Através
delas todas, entretanto, segue um a preocupação que poderia con­
duzir a algum a colaboração entre os críticos literários e os historia­
dores do livro - a preocupação com a léitura. Seja desenterrando
estruturas profundas ou dem olindo sistem as de sinais, os críticos
têm cada vez m ais tratado a literatura, antes com o um a atividade
do que com o um corpo estabelecido de textos. Insistem em que o
significado de um livro não está determ inado em suas páginas; é
construído por seus leitores. A ssim sendo, a reação d o leitor
torna-se o ponto chave em torno do qual gira a análise literária.
N a A lem anha, esta abordagem conduziu a um renascim ento
da história literária com o Rezeptionsàsthetik, sob a liderança de
H an s R obert Jauss e W olfgang Iser. N a França, provocou um a
reviravolta filosófica na obra de R oland Barthes, Paul Riccoeur,
Tzvetan T odo rov e G eorges Poulet. N o s Estados U n id o s, está
ain da n o estágio de fusão. W ayne Booth, Paul de M an, Jonath an
3 3 . A s notas à m argem de A d am s estão citadas em Zoltán H araszti, John Adam s & the
Prophets of Progress, C am b ridge, M ass., 1952, p. 85. Sob re o s glossários e as n o ­
tas de rodapé, ver Lawrence Lipking, “T h e M arginal G lo s s” , Criticai Inquiry, 3,
p. 6 2 0 -3 1 ,1 9 7 7 e G . W . Bow ersock, “T h e A rt o fth e Footn ote” , The Am erican Scholar,
5 3, p. 5 4 -6 2 ,1 9 8 3 -8 4 . So b re o s m anuscritos de Prosper M archan d, ver o s do is artigos
de autoria de C h ristian e Berkvens-Stevelinck, “ L ’A p p o rt de Prosper M arch an d au
‘systèm e des libraires de Paris’ ” e “ Prosper M arch an d, ‘trait d ’u n io n ’ entre auteur et
éditeur” , em De gulden Passer, 56, p. 21-63 e 65-99, 1978.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
227
Culler, G eofftey H artm an, J. H illis M iller e Stanley Fish acrescen­
taram ingredientes para um a teoria geral, m as nenhum con sen so
em ergiu de seus debates. N ão obstante, toda essa atividade crítica
aponta para um a nova “ textologia” , e todos os críticos compartilham
um m odo de trabalho, quando interpretam textos específicos.34
C on sid erem os, por exem plo, a análise de W alter O n g das
prim eiras frases de A Farewell to Arms:
N o final do verão daquele ano nós vivíamos em uma casa em uma
aldeia que parecia atravessar o rio e a planície até chegar às montanhas. No
leito do rio havia seixos e pedregulhos, secos e brancos ao sol, e a água era
clara, movia-se depressa e era azul nos canais.
Q ue ano? Q u e rio? pergunta O ng. Hemingway não diz. Pelo
u so não-ortodoxo do artigo definido - “o rio” em vez de “um rio”
- e d o desdobram ento esparso de adjetivos, ele sugere que o lei­
tor não necessita de um a descrição detalhada da cena. U m lem bre­
te será suficiente, porque imagina-se que o leitor já esteve lá.
Hem ingw ay dirige-se a ele com o se fosse um confidente e com pa­
nheiro de viagem , que apenas necessita ser lem brado das coisas
para recuperar o brilho forte do sol, o sabor vulgar do vinho e o
cheiro fétido da morte n a Itália da Primeira G uerra M undial. O
leitor poderia objetar - e pode-se im aginar m uitas reações com o
“ Eu sou u m a avó de sessenta an os de idade e n ão sei nada sobre
os rios da Itália” - não ser capaz de “acom panhar” o livro. M as se
aceitar o papel que lhe é im posto pela retórica, seu ser ficcionalizado
pode se avolum ar até às dim ensões do herói de Hemingway; e pode
seguir a narrativa com o um com panheiro de arm as do aütor.35
34. Para p esq u isas e bibliografias d a crítica leitor-resposta, ver S u sa n R. Su leim an e Inge
C ro sm a n (ed.), The Reader in the Text: Essays on Audience and Interpretation,
Princeton, 1 9 8 0 e Jan e P. T o m p k in s (ed.), Reader-Response Criticism: From Formalism
to Post-Structuralism, Baltim ore, 1 9 80. U m a d as ob ras m ais im portantes deste estilo
de crítica é W olfgan g Iser, The Implied Reader: Patterns of Communication in Prose
Fiction from Bunyan to Beckett, Baltim ore, 1974.
3 5 . W alter ]. O n g , “T h e W r ite r s A udience Is Always a Fiction ", PM LA, 9 0, p. 9-21,
1975.
228
PETER BURKE
A retórica anterior em geral operava da m aneira oposta.
Presum ia que o leitor nada sabia sobre a história e necessitava ser
orientado por ricas passagens descritivas ou observações introdu­
tórias. A ssim , a abertura de Pride and Prejudice:
E uma verdade universalmente reconhecida, que um homem solteiro
de posse de uma boa fortuna deva estar desejoso de uma esposa.
Por menos que se conheçam os sentimentos ou as opiniões de um tal
homem que pode estar se introduzindo pela primeira vez em um ambiente,
esta verdade está tão arraigada nas mentes das famílias das cercanias que
ele é considerado como propriedade de direito de uma ou outra de suas
filhas.
‘Meu caro Sr. Bennet’, disse-lhe sua esposa certo dia, ‘ouviu falar que
Netherfield Park foi finalmente alugado?’
Este tipo de narrativa move-se do geral para o particular. C oloca
prim eiro o artigo indefinido e ajuda o leitor a atingir seu rum o aos
poucos. M as sem pre o m antém à distância, porque se presum e
que ele entre n a história, com o alguém de fora e que está lendo
para se instruir, para se divertir ou por algum propósito m oral
elevado. C o m o n o caso da novela de Hemingway, deve desem pe­
nhar seu papel para que a retórica funcione; m as o papel é
com pletam ente diferente.
O s escritores inventaram m uitas m aneiras de introduzir seus
leitores nas narrativas. U m a grande distância separa o “Cham e-m e
Ism ael” de Melville do devoto de M ilton que reza p o r ajuda para
“justificar os cam inhos de D eus até os h o m en s” . M as toda narrativa
pressu põe um leitor, e toda leitura se inicia a partir de u m título
inscrito n o texto. O texto pode escavar a si m esm o e o leitor reagir
contra a sem ente ou extrair novo significado de palavras familiares:
daí as infinitas possibilidades de interpretação propostas pelos
desconstrutivistas e pelas leituras dos originais que m oldaram a
história cultural - a leitura de R ousseau de Le Misanthrope, por
exem plo, ou a leitura de Kierkegaard d o Gênesis 22. M as seja o que
for que se faça dela, a leitura ressurgiu com o o fato central da
literatura.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
229
Se é assim , chegou o m om ento de se realizar um a união entre
a teoria literária e a história dos livros. A teoria pode revelar a
variedade nas reações potenciais a um texto - ou seja, aos con s­
trangim entos retóricos que dirigem a leitura sem determiná-la. A
história pode m ostrar que as*leituras realmente ocorrem - ou seja,
dentro dos limites de um corpo imperfeito de evidência. Estando
atento à história, os críticos literários podem evitar o perigo do
anacronism o; pois eles, às vezes, parecem supor que os ingleses do
século dezessete liam M ilton e Bunyan com o se fossem professores
secundários d o século vinte. Levando em conta a retórica, os
historiadores podem encontrar indícios para o com portam en­
to que de» outra form a seria desconcertante, com o as paixões
despertadas de C larissa até La Nouvelle Héloíse e de Werther até
René. Por isso eu argum entaria em prol de um a estratégia dupla,
que com binaria a análise textual com a pesqu isa empírica. D essa
m aneira, seria possível com parar os leitores implícitos dos textos
com os leitores reais do p assado e, através dessas com parações,
desenvolver tanto um a história, quanto um a teoria da reação do
leitor.
T al história poderia ser reforçada por um quinto m odo de
análise, basead o n a bibliografia analítica. Estudando os livros com o
objetos físicos, os bibliógrafos dem onstraram que a disposição
tipográfica de um texto pode, em um a extensão considerável,
determ inar seu significado e a m aneira com o foi lido. Em um
estudo notável de Congreve, D. F. M cKenzie m ostrou que o
dram aturgo neo-elizabethano obsceno, conhecido por nós pelas
edições in-quarto do final do século dezessete, p asso u p o r um
renascim ento tipográfico em su a velhice e em ergiu com o o
im ponente autor neoclássico dos três volum es in-oitavo36 das
O b ras publicadas em 1710. A s palavras isoladas raram ente
m u d am de u m a edição para outra, m as u m a transform ação no
form ato d o s livros proporcion ou às peças u m sab o r inteiram ente
36. Diz-se d o form ato de livro cuja folha, dobrada-três vezes, é com posta de dezesseis
p áginas, isto é, oito de cada lado. (N .T .)
230
PETER BURKE
novo. A crescèntando divisões de cena, personagens agrupados,
linhas realocadas e apresentando as liaisons des scènes, Congre- ve
adapta seus antigos textos ao novo m odelo clássico derivado do
palco fracês. Passar d o s volum es in-quarto para os volum es
in-oitavo é transferir-se da Inglaterra elizabethana para a georgian a.37
R oger C h artier en con trou im plicações sim ilares porém
m ais so ciológicas nas m etam orfoses de u m clássico esp an h o l,
H istoria de la vida dei Buscón, de Francisco de Q uevedo. A novela
foi originalm ente destinada a um público sofisticado, tanto na
E span h a, on de foi publicada pela prim eira vez em 1626, qu an to
n a França, on de foi lançada em u m a elegante tradução em 1633.
M as em m eados do século dezessete, as editoras O u d o t e G arn ier
em Troyes com eçaram a publicar um a série de edições baratas
em brochura, que a tornaram durante duzentos an os a peça
principal vital d a literatura popu lar conhecida com o bibliothèque
bleue. O s editores popu lares n ão hesitaram em rem endar o texto,
m as concentraram -se prim eiram ente no form ato do livro, o que
C h artier cham a de mise en livre. Fragm entaram a narrativa em
u n id ades sim ples, en curtando as frases, subdividin do parágrafos
e m ultiplicando o núm ero de capítulos. A nova estrutura tipográ­
fica im plicava um novo tipo de leitura e em um novo público: as
pesso as hum ildes, a q u em faltava a facilidade e o tem po para
absorver lon gos trechos de narrativa. O s episód ios curtos eram
au tôn om os. N ão necessitavam ser u n id os por subtem as com ple­
x os e desenvolvim ento de personagens, porqu e proporcion avam
m aterial suficiente para preencher u m a vieillée. A ssim sen do, o
livro em si tornou-se antes u m a coleção de fragm entos d o que
u m a narrativa contínua, e poderia ser reunido por cada leitorouvinte à su a própria m aneira. Exatam ente com o esta “ apropria­
ção” ocorreu, perm anece u m m istério, porque C h artier se lim ita
3 7 . D .F . M cKenzie, “Typography an d M eaning: T h e C ase o f W illiam C on greve” , em
G iles B arb er e B ernh ard Fabian (ed.), Buch und Buchhandel in Europa im achtzehnten
Jahrhundert, H am bu rgo, 1 981, p. 81-126.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
231
a analisar o livro com o um objeto físico. M as m ostra com o a
tipografia se abre para a sociologia, com o o leitor implícito do autor
tornou-se o leitor implícito d o editor, descendo a escala social do
A ntigo Regim e e penetrando n o m undo que seria reconhecido no
século dezenove com o “ o grande público” .38
Poucos bibliógrafos e historiadores do livro, aventureiros,
com eçaram a especular sobre as tendências de longo prazo na
evolução d o livro. A rgum entam que os leitores reagem m ais
diretam ente à organização física dos textos que ao am biente social
que os rodeia. A ssim pode ser possível aprender algo sobre a
história rem ota da leitura, praticando-se um a espécie de arqueolo­
gia textual. S e n ão podem os saber precisam ente com o os rom anos
liam O vídio, podem os su por que , assim com o a m aior parte das
inscrições rom anas, os versos não continham pontuação, parágra­
fos ou espaços entre as palavras. A s unidades de som e significado
provavelm ente estavam m ais próxim as dos ritm os da fala do que
as u nidades tipográficas - os prefixos, as palavras e as linhas - da
página im pressa. A página em si com o um a unidade do livro data
apenas do terceiro ou quarto século d .C . A ntes disso, tinha-se que
desenrolar um livro para lê-lo. U m a vez que as páginas reunidas
(o codex) su b stitu íram os ro lo s (vo(umen), os leitores p o d iam
facilm en te se m o v im en tar p ara trás e para d ian te através d o s
livros, e os textos torn aram -se d iv id id o s em seg m en to s que
p o d ia m ser lim ita d o s e in d e x ad o s. M as m u ito tem p o d ep o is
d o s livros terem ad q u irid o su a fo rm a m o d ern a, a leitura
c o n tin u o u a ser u m a exp eriên cia oral, a p rese n tad a em p ú b li­
co. E m u m m o m e n to in d eterm in ad o , talvez em algu n s m o s­
teiros n o sécu lo sétim o e certam en te n as u n iv ersid ad es do
sécu lo treze, os h o m en s com eçaram a ler silen cio sam en te e
so zin h o s. A m u d an ça p ara a leitu ra sile n c io sa pode ter en v o l­
v id o u m aju stam e n to m en tal m aior que a m u dan ça para o texto
38. R oger C hartier, Figures de la gueuserie, Paris, 1982. V er tam bém as reflexões gerais
d e C h artier em seu ensaio, “ U n e histoire de la lecture est-clle possible? Du livre au
lire: q u elqu es h yp oth èses” , a ser publicado n as .transações d o C o llo q u e de SaintM axim in , ou tu bro de 1982.
232
PETER BURKE
im presso, pois ela transform ou a leitura em um a experiência
individual, interior.39
E claro que a im pressão fez diferença, m as provavelmente foi
m en os revolucionária do que em geral se acredita. A lguns livros
tinham frontispício, índice, índex, paginação, e editores que pro­
duziam m uitas cópias, a partir do original para um grandè público
leitor, antes da invenção d o tipo móvel. D urante o prim eiro m eio
século de su a existência, o livro im presso continuou a ser um a
im itação do livro m anuscrito. Sem dúvida, era lido pelo m esm o
público d a m esm a m aneira. M as após 1500, livros, panfletos,
m anifestos, m apas e cartazes im pressos atingiram novos tipos de
leitores e estim ularam novos tipos de leitura. C ad a vez m ais
padronizado em seu formato, m ais barato em seu preço e espalhado
em sua distribuição, o novo livro transform ou o m undo. Ele
sim plesm ente não supria m ais inform ação. Proporcionava um a
form a de entendim ento, um a metáfora b ásica do sentido da vida.
Portanto, foi durante o século dezesseis que os h om en s tom a­
ram po sse da Palavra. D urante o século dezessete, com eçaram a
decodificar o “ livro da natureza” . E n o século dezoito aprenderam
eles próprios a ler. C o m a ajuda dos livros, Locke e C on dillac
estudaram a mente com o um a tabula rasa, e Franklin form ulou
um epitáfio para si m esm o:40
3 9 . Paul Saenger, “ M an ières de lire m édiévales” , Histoire de ledition française, v. I,
p. 131-41 e Sanger, “ F rom O ral R eadin g to Silen t R ead in g” , Vi ator, 13, p. 367-414,
1 9 8 2 . E claro que se pod em encontrar casos excepcionais de indivíduos que liam
silenciosam ente, m uito antes do século dezessete, o m ais fam oso sen d o San to
A m b ró sio , co m o está descrito n as Confessions de San to A gostin h o. Para u m a
d iscu ssão adicional d a leitura e d o início d a história d o livro, ver H enri-Jean M artin,
“ P our u ne histoire de la lecture” , Revue française d'histoire du livre, nova série, n. 16,
p. 5 8 3 - 6 1 0 ,1 9 7 7 .
4 0 . S o b re a h istória de lon go prazo d a idéia d o m u n do co m o u m livro a ser lido, ver
H an s B lum enberg, Die Lesbarkeit der Welt, Frankfurt am M ain , 1 9 81. O epitáfio de
F ranklin n a verdade não aparece em seu m au soléu . Ele provavelm ente o escreveu
em 1 7 2 8 , q u an d o era u m jovem tipógrafo e u m talento do “Ju n to clu b” : ver The
Papers of Benjamin Franklin, Leonard W . Labaree, ed., N ew H aven, 1959-, v. 1,
p. 109-11. A linguagem é ligeiram ente diferente em cad a u m d o s três textos
autografados.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
233
O Corpo de
B. Franklin, Impressor,
Como a capa de um velho Livro,
Seu Conteúdo é arrancado,
E despido de sua Inscrição & Brilho
Aqui jaz. Alimento para os Vermes.
Mas a Obra não será perdida:
Pois, como ele acreditava,
Vai aparecer uma vez mais
Em uma Edição nova e mais elegante
Corrigida e melhorada
Pelo Autor.
N ã o quero interpretar m uito a metáfora, pois Franklin já se
em penh ou n isso até a morte, m as antes voltar a um ponto tão
sim ples que pode escapar à n ossa observação. A leitura tem um a
história. N ão foi sem pre e em toda parte a m esm a. Podem os pensar
nela com o u m processo direto de se extrair inform ação de um a
página; m as se a considerássem os um pouco m ais, concordaríam os
que a inform ação deve ser esquadrinhada, retirada e interpretada.
O s esquem as interpretativos pertencem a configurações culturais,
que têm variado enorm em ente através dos tem pos. C o m o n osso s
ancestrais viviam em m u n d os m entais diferentes, devem ter lido
de form a diferente, e a história d a leitura poderia ser tão com plexa
quanto a história do pensam ento. Seria tão com plexa, de fato, que
os cinco p asso s aqui sugeridos poderiam conduzir a direções
disparatadas ou n os pôr circulando indefinidam ente em torno do
problem a sem penetrar em seu âm ago. N ão há cam inhos diretos
ou atalhos, porque a leitura n ão é um a coisa distinta, com o um a
constituição ou um a ordem social, que pode ser rastreada através
do tem po. E u m a atividade que envolve um a relação peculiar - por
um lado o leitor, por outro o texto. Em bora os leitores e os textos
tenham variado segundo circunstâncias sociais e tecnológicas, a
história da leitura não deve ser reduzida a um a cronologia dessas
PETER BURKE
234
variações. Deveria ir além para confrontar o elem ento de relação
no cerne da questão: com o as funções variadas do leitor interpre­
tavam textos desiguais?
A questão soa obscura, m as m uita coisa depende disso. C o n ­
siderem os a freqüência com que a leitura m udou no curso da
história - a leitura que Lutero fez de Paulo, a leitura que M arx fez
de Hegel, a leitura que M ao fez de M arx. Esses pontos se sobres­
saem em um processo m uito m ais profundo, m uito m ais vasto o esforço eterno do hom em para encontrar significado no m u n d o
que o cerca e n o interior de si m esm o. Se pudéssem os com preender
com o ele tem lido, poderíam os nos aproxim ar de um entendim en­
to de com o ele com preende a vida; e dessa m aneira, da m aneira
histórica, poderíam os até satisfazer parte de n ossa própria ân sia de
significado.
Apêndice: um Cabinet littéraire
provinciano em 1779
A circular que se segue apresenta um raro vislum bre de um
cabinet littéraire ou clube de leitura n a Fran ça pré-revolucionária. Foi en viada po r P.J. B ern ard , u m livreiro de Lunéville, para
os oficiais d a gendarmerie local em setem bro de 1 7 7 9 . B ern ard
q u eria convencer os gendarmes a se associarem a seu cabinet e
p o r isso enfatizava a su a u tilidade para os m ilitares. M as
provavelm ente se parecia com estabelecim entos sim ilares d isse ­
m in ad o s através d a Fran ça provin ciana. A circular provém do
arquivo de B ern ard, localizado entre os d o cu m en tos d a Société
typograph iqu e de N euchâtel, n a B iblioth èq u e p u b liq u e et universitaire de N euchâtel, n a Su íça. S u a ortografia n ão foi m o d er­
nizada ou corrigida.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
235
‘A M essieurs les Gendarmes
Messieurs,
Le Sr. Bernard, propriétaire du Cabinet Littéraire de la G endarmerie,
autorisé par Monsieur le M arquis d ’Autichamp, a 1’honneur de vos représenter
q u ’encouragé par le suffrage de tes abonnés, il désireroit fon d er u n écablissem ent
plus étendu et plus utile.
II voudroit qu ’au moyen d ’un a bonnem ent certain & inmriable, M essieu rs
les Gendarmes trouvassent c/ve's lui tous les secours littéraires q u ils peuvent
désirer. Une maison commode, grande, bien éclairée & chauffée, que seroit
ouverte tous le jours, depuis neuf heures du ma tin jusqu’à midi & depuis une
heure ju sq u ’à dix, offriroit, dès cet instant, aux amateurs, deux mille volumes
qui seroient augmentés de quatre cens par année. Les livres seroient à la
disposicion de Messieurs les Gendarmes, qui cependant ne pourront les sortir de
la bibliothèque.
Le Sr. Bernard sengage à se procurer par chaque ordinaire:
Deux journaux de L in g uet
Deux M ercures
Deus Journaux militaires
Deus Journaux des affaires de
VAmérique & de VAngleterre
Deux Esprits des journaux
Deux Gourriers de 1’Europe
Deux
Deux
Deux
Deux
Deux
Deux
Gazettes de France
G azettes de Leyde
Gazettes de la Haye
Gazettes de Bruxelles
Courriers du Bas Rhin
Courriers de Deux-Ponts
Deux Bulletins
Auxquels seront joints les ouvrages & Instrum ents de mathématiques, les
cartes géographiques, les ordonnances militares, & tout ce que concerne un
officier.
Le Sr. Bernard aussi sensible au plaisir d ’être utile qu ’à son inte'rêt
particulier, se bornera pour chaque abonnement à trois livres par an.
Voilà quel sera 1’ordre de sa m aison :
U n e salle au rais de chaussêe sera destinée pour la conversation, ainsi
qu u ne chambre au prem ier étage; & íes autres seront abandonnées aux íecteurs
des gazettes, des ouvrages de littérature, etc.
II ne sera question d ’aucun jeu quelconque, sous tel prétexte que ce soit.
La reconnaissance que le Sr. Bernard a vouée à la Gendarmerie, lui fait
saisir tous le moyens de lui être agréable. II se /ia te que Messieurs les G en d arm es
voudront bien jetter sur son projet un coup d ’oeil favorable & le mettre à portée
d ’ajouter aux obligations q u il leur a deja 1’hommage du n e éternelle
reconnaissance.
236
PETER BURKE
N .B. Le Sr. Bernard prie ceux de ces Messieurs les G endarmes qui lui seront
favorables de vouloir bien lui accorder leur signature."*1
41.
C itad o em francês n o original. A tradução é:
“A o s Senh ores G en darm es
Sen h ores,
O Sr. Bernard, proprietário d o C ab in et Littéraire de la G en darm erie, autorizado
pelo Sr. M arqu ês d ’A u tich am p, tem a hon ra de com unicar-lhes que, encorajado pela
aprovação de seus subscritores, desejaria fundar u m estabelecim ento dê m aior alcance
e m ais útil.
Ele gostaria que, m ediante u m a subscrição 'Certa e invariável, o s senhores
G en d arm es encontrassem em seu estabelecim ento tod os os recursos literários que
p u d essem desejar. U m a casa côm oda, grande, bem -ilum inada e aquecida, que estaria
aberta tod os os dias, d as nove d a m anh ã ao m eio-dia e d a u m a d a tarde às dez da
noite, ofereceria d esde agora, aos am adores, d o is m il volum es qu e seriam au m en tados
em quatrocentos a cada an o. O s livros estariam à disposição d o s 'sen h ores
G en d arm es, qu e entretanto não poderiam retirá-los d a biblioteca.
O Sr. Bernard se com prom ete a conseguir, habitualm ente: D o is jo rn ais de
Linguet, d o is M ercures, d o is Jou rn au x m ilitaires, d ois Jou rn au x des affaires de
l’A m ériqu e &. d ’Angleterre, d o is E sprits des jornaux, d o is C ourriers de 1’ Europe,
d u as G azettes de France, du as Gazettes de Leyde, d u as Gazettes de La H aye, du as
Gazettes de Bruxelles, d o is C ourriers du B as R h in, d o is C ourriers de Deux-Ponts,
d o is Bulletins, ao s q u ais seriam acrescentados o b ras e instrum entos de m atem ática,
m ap as geográficos, editos m ilitares e tudo o qu e diz respeito a u m oficial.
O Sr. Bernard, tão sensível ao prazer de ser útil, qu anto ao seu interesse particular,
lim itará cad a subscrição a três libras p o r ano.
A ssim será a d isposição d a casa:
U m a sala ao rés-do-chão será destinada à conversação, assim com o u m aposento
n o prim eiro andar; o s outros ficarão à d isp osição d o s leitores d a s gazetas, d as obras
d e literatura etc.
N ã o será perm itido n en h um jogo, por qu alqu er pretexto.
O reconhecim ento d e q u e o Sr. Bernard tem devotado ao C o rp o d o s G en d arm es
faz co m q u e ele utilize todos o s m eios para ser-lhe agradável. E stá convencido de qu e
os senh ores G en d arm es vão considerar favoravelm ente o seu projeto e acrescenta às
obrigações q u e já lhes deve a hom enagem de u m eterno reconhecim ento.
N . B . O Sr. Bernard roga aos senh ores G en d arm es, qu e apoiarem seu projeto,
qu eiram conceder-lhe su a assin atu ra.” (N . T .)
HISTÓRIA DAS IMAGENS
Ivan G askell*
Material visual
E m b ora os historiadores utilizem diversos tipos de material
com o fonte, seu treinam ento em geral os leva a ficarem m ais à
vontade com docum entos escritos. Conseqüentem ente, são m uitas
vezes m al equipados para lidar com material visual, m uitos utili­
zando as im agens apenas de m aneira ilustrativa, sob aspectos que
podem parecer ingênuos, corriqueiros ou ignorantes a pessoas
profissionalm ente ligadas à problem ática visual. M as é claro que
isso não ocorre sem pre. A lguns historiadores têm proporcionado
valiosas contribuições à n ossa visão d o p assado - e d o local em
que nele está inserido o m aterial visual - u san do as im agens de
u m a form a sofisticada e especificam ente histórica. N ão obstante, é
raro que a opinião do historiador seja levada em conta, q u an d o as
im agens são debatidas em um contexto m ais am plo. E ssa carência
não continuaria a existir, se os historiadores fossem inform ados
de algum as das preocupações que dom inam os pensam entos e a
*
C u ra d o r de Pinturas d o M u seu M argaret S . W in th rop d o s M u seus de Aros d a
U n iversid ad e de H arvard.
238
PETER BURKE
prática daqueles que lidam com material visual. É isso que eu
espero fazer no presente capítulo, n o contexto de um a discussão
de um a seleção de obras recentes, em u m cam po de pesquisa
terrivelmente vasto.
Para evitar possíveis mal-entendidos, antes de prosseguir vou
definir m eu u so dos term os. Por história, entendo antes o discurso
realizado pelos historiadores do que “ o p assad o ” . Por arte, entendo
aqueles artefatos e, às vezes, os conceitos a eles associados produ­
zidos por aqueles designados com o artistas, seja por si próprios,
por seus contem porâneos ou retrospectivamente por outros. (T am ­
bém deveriam estar incluídos aqueles m eios desenvolvidos pelos
artistas, para escaparem da arte com o um artefato, especialm ente
estando entre eles a arte da representação, em bora esta não vá ser
aqui tratada.) M as m inha discussão não está lim itada à arte, ainda
que eu desconheça algum termo isolado, para descrever a am pla
variedade de material visual a que desejo m e referir. Este inclui a
arte com o acabou de ser definida, m as tam bém , primeiramente,
aqueles constituintes do am biente visual, feito pelo hom em , que
são ou foram avaliados por outras razões, além de seu propósito
prático ostensivo (se é que possuem um), seja por sua destinação
desde o início (por exem plo, a cadeira não sim plesm ente designada
para ser sentada) ou retrospectivamente (o “ objeto encontrado” ou
“ coletável” , investido de u m a nova im portância pela designação);
em segundo lugar, aqueles constituintes do am biente visual feito
pelo hom em que são prim ariam ente com unicativos, incluindo o
desenh o gráfico e a fotografia. V o u den om inar essa m assa u m tanto
n ebu losa - que inclui a arte - de “ material visual” .
Este capítulo tem o título de “ H istória das Im agens” , em vez
de “ H istória da A rte” , pela sim ples razão de que eu desejo
considerar as questões relacionadas ao material visual além dos
lim ites d a arte, assim com o em seu interior. N a verdade, a distinção
entre a arte e os outros materiais visuais sugere, não som ente
questões de term inologia, m as tam bém a relativa posição ou
privilégio dos diferentes tipos de material. A história da arte é em
grande parte relacionada apenas à arte e à percepção das hierarquias
A ESCRITA DA HISTÓRIA
239
qualitativas em seu interior, em bora este aspecto discrim inatório
da disciplina esteja sen do cada vez m ais questionado por alguns
profissionais n os últim os anos. T odavia, tanto a história da arte,
quanto outras form as de estudo do material visual, são em grande
parte e legitimamente a-históticas. (N o presente contexto, parece
im portante salientar que a história da arte não é um a subdisciplina
da história.)
A lém disso, m uito trabalho interpretativo relacionado à arte e
a outros materiais visuais não assum e a form a escrita, ou apenas a
form a escrita. N a verdade, m uitos daqueles m ais intim am ente
envolvidos com a consideração do material visual desconfiam , ou
m esm o rejeitam, o discurso acadêmico, e a reivindicação implícita
de precedência interpretativa com freqüência tem propiciado isso.
A apresentação e a interpretação implícita de tal material por
m useus e galerias, em m ostras e no interior da arte em si, são
igualm ente ou até m ais im portantes.
N a cultura ocidental, três instituições interligadas são centrais
à definição pela prática daquilo que constitui material visual e - de
igual im portância - seus limites e hierarquias internos. Estas
instituições são: prim eiro, os negociantes, os leiloeiros e os cole­
cionadores; segundo, as diretorias dos m useus e das galerias
públicas e, por trás delas, os burocratas dos fundos públicos; em
terceiro, os historiadores de arte acadêm icos, os editores e (com o
com panheiros m ais novos) os críticos. E m bora alguns m em bros
de cada grupo individual po ssam reivindicar perm anecer à parte
d o s outros, há um considerável intercâm bio entre os três em
m uitos níveis, desde aquele das idéias e das suposições até aquele
d o dinheiro. N a verdade, os dois prim eiros são claram ente inter­
dependentes (por exem plo, o patrocinador de u m a exibição pode
deslizar entre eles). Fora d essa tríade central, tendo um a influência
lim itada sobre ela, podem estar situados os artistas e os professores
de arte. S u a prática quase não tem efeito im ediato sobre a d,iscussão
do material visual pré-m oderno n essa tríade, e em certo sentido
apenas um efeito lim itado sobre a discussão das questões contem ­
porâneas. O que os artistas fazem, podé ser facilmente ignorado e
240
PETER BURKE
eles não podem ter um a voz independente efetiva, pois seu trabalho
e até certo ponto eles próprios são tratados com o propriedade dos
m em bros da tríade.
E difícil formular-se um a análise da opinião recebida subjacente
à constituição hierárquica do “material visual” , devido à com plexi­
dade do material e à falta de con sen so verdadeiro. Entretanto, o
que se segue pode servir com o um am plo guia geral. D entro deste
vasto corpo de material, a distinção prim ária a ser feita é entre
“ arte” e “ outros” . N a “ arte” há um a distinção, baseada em critérios
hum anistas renascentistas classicam ente derivados, entre “ arte
erudita” (com o um a expressão da criação hum ana individual) e arte
decorativa ou aplicada, term os que têm sido parcialmente supera­
dos por design, quando se refere à época m oderna.
Estabelecida paralelam ente aparece um a atividade, cuja posição
m udou um pouco até se tornar am bígua: a arquitetura. Escritores
renascentistas italianos com o Leon Battista A lberti e G iorgio
V asari seguiram o arquiteto e teórico rom ano Vitruvius na concep­
ção da arquitetura com o o pináculo das artes visuais, devido-a sua
com binação de constituintes funcionais e abstratos, dan do espaço
à criatividade individual. Em m uitas análises subseqüentes da
história da arte, a ênfase é colocada m enos sobre a função prática
ou social d o s edifícios, do que sobre a criação, por tratarem as
estruturas e os planos a elas relacionados quase exclusivamente
com o veículos de expressão artística individual, um a abordagem
tam bém basicam ente derivada de V itruvius (De architectura, II, ii).
Por outro lado, a prática atual d a arquitetura é em geral encarada
com o a preservação de um a profissão separada, cujos m em bros e
cujos críticos tendem a tratar am biguam ente a definição do relacio­
nam ento entre as considerações práticas e as expressivas. H á um a
tendência a tratar a prática corrente d a arquitetura, não com o um a
“ arte erudita” (com o pode ter sido concebida q u an d o M ichelangelo
alternadam ente esculpiu estátuas, pintou quadros e projetou edifí­
cios), m as com o o design em um a grande escala, em bora m antendo
vestígios do prestígio de suas associações anteriores preservadas em
A ESCRITA DA HISTÓRIA
241
parte pela obra dos historiadores de arte, que escrevem sobre
arquitetura.
T am bém entre “ arte” e “outros” , em um a situação de categoria
curiosam ente não resolvida, em bora de um a m aneira com pleta­
m ente diferente daquela da arquitetura, está a fotografia. Em bora
a variedade de im agens que pode ser produzida por essa técnica,
em certo sentido não seja m uito grande, seu espectro de significação
cultural é im portante, sendo considerada em um extremo com o
um m eio transparente de transm issão de inform ação, e em outro
com o um m eio de arte opaco. O im pacto cultural da fotografia
sobre os últim os cento e cinqüenta anos, tanto em si m esm a,
quanto na form a da im agem visual em m ovim ento a que ela
tam bém deu origem , tem sido im enso, alterando com pletam ente
o am biente visual e os m eios de troca de inform ação de um a grande
parte da população do globo. A fotografia transform ou sutil, radical
e diretam ente a disciplina da história da arte e a prática de todos
os m em bros da tríade acima definida, não im portando se seus
objetos de preocupação foram criados antes ou depois de sua
invenção. Q u ase todos fazem uso diário tia fotografia, seja com o
ilustrações, auxílios à mem ória ou com o substitutos de objetos
descritos através dela. Entretanto, a m aior parte dos m em bros
d essas profissões tem evitado explicitamente considerar as conse­
qüências da fotografia, à m edida que ela afeca o seu próprio
trabalho, bem com o em um a escala m ais am pla.
A categoria inadequadam ente designada acim a com o “outros”
é n a prática em grande parte definida pelos m useus e pelo
com ércio. U m a preocupação com o passado local durante m uito
tem po transform ou os m useus locais em depósitos de objetos. Itens
dom ésticos obsoletos, evocando práticas, rotinas e até relaciona­
m entos sociais do passado, passaram a ser expostos, em acréscim o
às obras de arte, arqueologia e história natural que caracterizavam
os m useus locais, fun dados n a G rã-Bretanha nos an os fc[ue se
seguiram ao A to dos M useus de 1845. A partir da década de 1970,
u m a preocupação m aior com a “cultura popular" revestiu esses
artefatos de um a significação am pliada e m ais estritamente orien­
242
PETER BURKE
tada do ponto*de vista histórico, devido a m udanças nas técnicas
de exposição. T o d a a área foi estim ulada, a partir das on das de
estudos folclóricos, para assum ir seu lugar no interior de um estudo
revificado da cultura popular, intim am ente relacionado aos desen­
volvim entos concom itantes na escrita da história representada na
G rã-Bretanha pela Popular Culture in Early Modem Europe (1978),
de Peter Burke. A nova posição conferida ao estudo do material
rem anescente dos setores externos à elite das sociedades passadas
está resum ida em term os claros pela construção sun tuosa do M usée
N ation al des A rts et des T radition s Populaires em Paris. Enquan to
vitrinas apresentam im plem entos agrícolas ou instrum entos pro­
fissionais, exibindo a variação regional e o valor do trabalho
an ôn im o, a sala de pintura é um repositório de folhetos e ninharias
predom inantem ente an ôn im os, produzidos para o con su m o po­
pular do século dezesseis em diante.
O engajam ento do com ércio com essa am pla variedade de
“ outros” materiais visuais certamente não está definido po r um a
participação erudita em debates relativos à im portância cultural de
tais objetos. N a verdade, o im pacto do com ércio sobre esta área do
am biente visual e sobre a percepção que as pessoas têm do p assado
é provavelm ente m ais considerável que aquele d o saber das dire­
torias do s m useus e dos historiadores sociais. M esm o os principais
leilões têm tido problem as consideráveis, para desenvolver a área
conhecida com o “colecionáveis” (potes, cartazes de propagan da de
cigarro, brinquedos etc.). Esta área reflete a intersecção de várias
preocupações. Primeiro, apela para u m sentido de ordenação e
serve com o um a técnica de recreação equivalente às técnicas
com erciais de contabilidade e câm bio; m as, ao contrário dos
interesses d o colecionador, ela prom ete um a conclusão e um
encerram ento final. O s colecionadores de selos são o seu paradig­
m a. Segundo, os “ colecionáveis” apelam para outro im pulso
com ercial: a atribuição do valor n a conclusão de conjuntos defini­
dos e a expectativa de u m retorno sobre o investim ento. Terceiro,
a coleção é postulada sobre a noção implícita de que o conheci­
m ento relativo aos objetos é ostensivam ente finito: a possibilidade
A ESCRITA DA HISTÓRIA
243
de interpretação não faz parte da atitude m ental. C erta vez eu visitei
u m a casa de cam po paladian a1 em que m uitos aposentos estavam
desprovidos de m obília e decoração, m as os assoalh os estavam
cobertos de bules de chá. O s bules, um diferente do outro, estavam
colocados de um extremo a outro nos corredores e em partes das
escadas, tornando-as intransitáveis. Para o proprietário, esse não
era u m arranjo expressando oú convidando à interpretação, m as
sim plesm ente um a questão de conveniência. Q uarto - e m ais
im portante para o historiador - as coleções deste tipo im plicam
um relacionam ento particular com o passado. D ois de seus ele­
m entos são a nostalgia baseada nas qualidades “ sin edóquicas”
observadas em um objeto (um brinquedo em m iniatura evocando
u m a infância dos an os 50, por exem plo) e a su posta aderência de
u m a qualidade imutável devida ao contato pessoal com um a pessoa
ou com pessoas celebradas ou reverenciadas (um par de botas que
pertenceu a Elvis Presley ou ao prim eiro D uque de W ellington,
por exem plo). N a verdade, qu ando esta atitude evocativa de m ágica
sedutora é institucionalizada, o que ocorre de um a m aneira cada
vez m ais dissem inada, podem os nos surpreender se for possível
fazer-se u m a distinção entre, digam os assim , G raceland e A psley
H ouse, pois am bas im plicam uma atitude profundam ente não
analítica em relação a um passado dom inado por grandes hom ens,
cuja essência pode ser conhecida através do exam e dos objetos com
os quais eles se cercaram.
T en d o realizado algum as incursões na vasta m assa de material
visual (“ arte” , tem as de categoria não-resolvida, com o a arquitetura
1. O estilo p alad ian o é aquele estilo de arquitetura inaugurado por Palladio (arquiteto
italiano d o século X V I), u m a d as m aiores influências dns nrtcs plásticas. O estilo de
Palladio é u m a adaptação d as regras d a arquitetura greeo-rom ana às necessidades e
conveniências d a aristocracia n a R enascença, conferindo à vida cotidiana u m a
solenidade q u ase religiosa, sobretudo n a construção de palácios residenciais e
grandes casas de cam po. O estilo palad ian o dom in ou toda a arquitetura dbs séculos
dezessete e dezoito, sobretudo n a Inglaterra, on d e a Villn R otond o foi várias vezes
im itada. A partir d a segunda m etade d o século dezenove, com eçou-se a desprezar esse
estilo, tachado de p se u d o d ássico . Esboça-se atualm ente u m m ovim ento de reabilita­
ção d o estilo paladiano. (N .T .)
244
PETER BURKE
e a fotografia, e “ ou tros” , incluindo algum as categorias de artefato
e “colecionáveis”), a chegada à conjunção de todos esses fenôm e­
n os n a apresentação institucionalizada de heróis (Presley com o “ o
Rei” , W ellington com o “o D uque de Ferro”) pode ser o ponto em
que se deve falar no problem a de com o o conhecim ento do material
visual pode ser estabelecido, de form a a poder ser exibido com
vários propósitos (diversão, propaganda, negócio e relação do
presente com o passado). Tentarei explorar apenas três d o s vários
aspectos da especulação, com referência à obra recente selecionada:
a autoria, a canonicidade e a interpretação.
Autoria
Buscar estabelecer a autoria não é sim plesm ente um a conse­
qüência dos valores do m ercado de arte, com o sustentam os céticos
(ou seja, um quadro de V an G ogh valerá incom paravelm ente m ais
que um a pintura que parece ser de V an G ogh , m as não o é). É
antes u m a conseqüência da concepção do artista e da percepção
do relacionam ento dele (e m uito ocasionalm ente dela) com a arte
n a tradição ocidental. C o m o u m corolário, a autoria d o material
visual n ão considerado arte (produtos artesanais ou industriais) é
em geral julgada de pequena im portância, em bora o desenvolvi­
m ento d o design com o um a estratégia para subordin ar os elem entos
im ediatam ente exploráveis da “ arte” para propósitos diretamente
com erciais esteja conduzindo a um a transferência parcial da prer­
rogativa do artista para o designer. A qui, n o entanto, dificil­
m ente existe o cam po de discórdia a ser encontrado n o cam po da
arte, especialm ente em seu subgrupo pré-m oderno (ou do “velho
m estre”) de pintura e desenho.
O “con n oisseu rism o” 2 - técnica pela qual a autoria das obras
de arte individuais é em geral reconhecida - é “ o id do ego da
2 . Connoisseurism, no original. D erivado d a palavra francesa “ co n n o isseu r” , qu e indica
p e sso a com profu n d o conhecim ento de algum assu n to - principalm ente em questões
A ESCRITA DA HISTÓRIA
245
história da arte” , com o expressou G ary Schwartz em um a crítica
recente.3 M uitos historiadores de arte que estão longe de ser
radicais em suas opiniões reconhecem a base intelectualmente
insegura do “ con n oisseu rism o” e concentram-se em outras áreas
de p esqu isa (iconografia, patronato). O s apologistas do “con n ois­
seu rism o” não podem ajudar, m as revelam suas contradições
internas. E m 1985, a casa de leilões So th eb ys, de Londres, e o
M useu Fitzwilliam d a U niversidade de C am bridge uniram-se para
produzir a “ Primeira M ostra Sotheby Fitzwilliam” . Seu tema era
The Achievement of a Connoisseur: Philip Pouncey, que, durante u m a
longa carreira, trabalhou tanto em m useus, quanto n o com ércio,
prim ordialm ente n o que dizia respeito aos desenh os da Renascen­
ça italiana. D escrevendo o trabalho de Pouncey n a introdução do
catálogo que acom panhava a m ostra4, Jo h n G ere descreveu a
“ clareza, a acurácia, a concisão e a exatidão de expressão, atenção
às nuanças de significado, a distinção entre hipótese e fato e o
relevante e o irrelevante, além da expressão de concordância e
discordância em termos graduados” . Ele continua, dizendo que:
“ O Sr. Pouncey é um estudioso ... para quem ... a acurácia não é
u m a virtude, m as um dever.” Entretanto, por toda a página G ere
revela os estranhos padrões du plos do “con n oisseu rism o” , decla­
rando que: “ U m a coisa é realizar um a atribuição satisfatória, m as
outra com pletam ente diferente é justificá-la satisfatoriam ente” ,
m ais adiante descrevendo o u so de Pouncey do gestual n a resposta
a este problem a: “ Inesquecível, m esm o depois de trinta anos, foi
su a m aneira de dem onstrar o ‘correggiosism o’ do n2 19 n a presente
m ostra, colocando-se ele m esm o n a posição de São Sebastião n o
d esen h o.” Para m uitos historiadores de arte, a incapacidade de
de arte. O n eo logism o foi utilizado no inglês e optam os por mantê-lo em português
(aspas n ossas), u m a vez qu e n ão existem , em am bas as línguas, palavras correspon­
dentes in d ican d o o significado preciso do term o francês. (N .T .)
'
3. “ C o n n o isseu rsh ip : the penalty o f ahistoricism ” , International Journal of Museum
Management and Curatorship, 7, p. 261-8, 1988.
4 . The Achievement of a Connoisseur. Philip Pouncy, Italian Old Master Drawings, de Ju líen
Sto ck e D avid Scrase, Fitzwilliam M u se u m , C am b rid ge, 1 9 8 5 , sem paginação.
expressão que permite a pantom im a e - m ais seriam ente - “as
anotações resum idas nos m ontes de desen h os” com o sen do o
principal m odo de expressão do connoisseur (descrito por G ere
com o “ o m onum ento tangível de seu [de Pouncey] notável trabalho
de u m a vida”) está intrincadam ente sujeito ao autoritarism o, pois
se afasta do argum ento racional e apela para a reputação pessoal.
M uitos encontram dificuldade em aceitar a pura afirm ação de um
estudioso. Em conseqüência disso, vários historiadores de arte e
teóricos radicais denigrem abertamente o “ con noisseurism o” com o
u m a atividade inerentem ente de direita, limitada, que sim plesm en­
te sustenta o m ercado de arte e estim ula a evasão de questões
im portantes, concentrando-se nas m inúcias discretas e insignifican­
tes. Em contraposição, m uitos connoisseurs desconsideram os his­
toriadores de arte, cujas especulações se relacionam a outras
questões além da autoria. Existe um a polarização ideológica.
O “con n oisseu rism o” merece antes u m a avaliação m ais cuida­
d o sa que um a rejeição. G ere, na introdução acim a citada, apresenta
um a excelente definição da concepção tradicional de “ con noisseu­
rism o ” , digna de ser citada integralmente. (Eu num ero os critérios
de G ere para facilitar a subseqüente referência.)
O ‘connoisseurismo’, no sentido técnico da identificação dos autores
de obras de arte, não é exatamente uma ciência, interpretada como um
sistema racional de inferência a partir de dados comprováveis; nem é
exatamente uma arte. Está situado em algum lugar entre ambas, e requer
uma combinação particular de qualidades do espirito, algumas mais
científicas que artísticas, outras mais artísticas que científicas: [1] uma
memória visual para as composições e os detalhes de composições, [2] um
conhecimento exaustivo da escola ou do período em questão, [3] a
consciência de todas as respostas possíveis, [41 uma percepção da qualidade
artística, [5] uma capacidade para estabelecer a evidência e [6] um poder de
empatia com o processo criativo de cada artista individualmente, além de
[7] uma concepção positiva do artista como uma personalidade artística
individual.
Se se aceita que o “ con noisseu rism o” é um a atividade necessá­
ria (o que eu aceito, m as com o um m eio para um a variedade de
fins, n ão com o um fim em si m esm o), os critérios de n úm eros 1,
A ESCRITA DA HISTÓRIA
247
2 e 5 parecem incontestáveis. O de núm ero 3, n o entanto, é u m a
im possibilidade racional da forma com o está expresso, e espero
não prejudicar G ere sugerindo que a qualidade que percebo estar
ele desejando transmitir, está realmente com preendida tanto q u an ­
to o racionalm ente possível por seus dois prim eiros critérios. O de
núm ero 4 pode ser considerado com o su pon do várias questões
vitais, m as nem a m enor delas poderia ser aceita nas presentes
circunstâncias. O s verdadeiros problem as estão nos critérios de
n úm eros 6 e 7, o últim o especialm ente sen do básico para o
“ con n oisseu rism o” com o é em geral concebido. A idéia de que
cada artista individual inevitavelmente se revela de um a m aneira
única por seus traços estilísticos inconscientes que o connoisseur
pode reconhecer, com põe a verdadeira base do “con n oisseu rism o” .
G ere admite que “o ‘connoisseurism o’ dos desenhos italianos é
baseado quase inteiramente na evidência interna, estilística” : portan­
to, apenas o refinamento e a discussão das inconsistências percebidas
no interior de um conjunto de argumentos circularmente definidos
estão abertos ao participante. E essencialmente um sistema fechado,
auto-ratificado, e por isso demonstravelmente não é nada além de
um a ficção. (N ão estou negando, no entanto, que um a ficção possa
expressar um a verdade.) A lém disso, a contradição subjacente aos
critérios de núm eros 6 e 7 não é em si demonstrável. O s parâmetros
estilísticos, no interior dos quais um artista individual trabalha,
podem concebivelmente ser bem mais am plos do que permitiria o
princípio de um sistema de “connoisseurism o” baseado na diferen­
ciação ostensiva entre minúcias inexplicáveis. V ários agrupamentos
de obras podem ser feitos, tendo-se com o base as semelhanças e as
diferenças observadas, m as isso em si não proporciona motivo
necessário ou suficiente para atribuir aquelas que exibem caracterís­
ticas semelhantes do m esm o artista. Fazer isso é aceitar um sistema
arbitrário não reconhecido, não necessariamente correspondente à
realidade. Isso pode se tornar inevitável; m as eu proponho, primeiro,
que a posição de tal sistem a deva ser reconhecida por seus pVofissionais; segundo, que quaisquer reivindicações relativas à sua vinculação com o m undo devam ser exam inadas com cuidado em exemplos
248
PETER BURKE
individuais;*e, terceiro, que a pesquisa recente relativa à percepção
e à cognição seja levada em conta.
A tualm ente têm sido feitos grandes esforços para evitar esse
problem a, em bora n ão se reconhecendo explicitamente que ele
exista. A in d a que perm anecendo silenciosos a respeito do m ito do
“o lh o” refinado e sofisticado, que funciona de m aneira explicita­
m ente reconhecida com o algo m uito próxim o da intuição, o s novos
connoisseurs colocam su a fé no exame técnico e científico. Isso tem
se tornado possível graças aos desenvolvim entos na prática da
conservação e à aplicação de técnicas científicas às análises dos
com ponentes das obras de arte, especialm ente das pinturas a óleo.
O problem a deste tipo, que provavelmente recebeu m ais atenção
pública nos últimos anos, não se relaciona a um objeto de arte com o
tal, m as a um item de material visual, cuja situação incerta com o um a
verdadeira relíquia ou um a imagem feita pelo hom em tem sido de
interesse geral: o Sudário de Turim . Em 1988, fragm entos foram
an alisad os em três laboratórios na Suíça, n a G rã-Bretanha e nos
E stados U n id o s, sim ultaneam ente, através de técnicas de datação
de carbono, os resultados sugerindo que o m aterial era d o final
da Idade M édia, ao invés de ter um a origem páleo-cristã. Esta
experiência pode nos lem brar que a prática antiqüíssim a do exame
e da subseqüente certificação ou rejeição das supostas relíquias, pelas
autoridades eclesiásticas, poderia bem ser considerada com o o
antecedente intelectual d o “connoisseurism o” atual.
Entre.os respeitáveis projetos atuais de “con n oisseu rism o” , o
Projeto de P esquisa R em brandt é preem inente. D urante m ais de
vinte an os u m pequeno grupo de estudiosos holandeses, trabalhan­
do em conjunto, exam inou pinturas atribuídas a R em brandt van
Rijn e reuniu quantidades consideráveis de inform ações técnicas.
Está prestes a ser publicado um catálogo cronológico das obras
aceitas (com um a consideração das duvidosas e de algum as obras
previam ente aceitas, rejeitadas pelo grupo).5 Entretanto, a prem issa
5. J. Bruyn, B. Haak, S.H . Levie, P.J.J. van Thiel e E. van de Wetering, A Corpus of Rembrandt
Paintings, v, 1 ,1 6 2 5 -1 6 3 1 ,1 9 8 2 , v. 2 ,1 6 3 1 -1 6 3 4 ,1 9 8 6 , v. 3 ,1 6 3 4 -1 6 3 9 ,1 9 8 9 .
A ESCRITA DA HISTÓRIA
249
básica de todo o projeto em si parece cada vez m ais questionável:
ou seja, a suposição de que é tão desejável quanto possível definir
um conjunto d a obra produzida pelo próprio Rem brandt, distinta
daquela de seus alunos, assistentes, seguidores e im itadores con ­
tem porâneos. E interessante observar que tanto o desejo, quanto
a viabilidade parecem consideravelm ente m en os seguros agora do
que devem ter sido para os iniciadores do Projeto, em grande parte
e inadvertidam ente graças ao trabalho do próprio grupo. A questão
agora é: se o “ R em brandt” é o produto de um grupo de trabalho
que com preende um núm ero de m em bros flutuante, em que o
próprio R em brandt é o único constante, seria realmente apropria­
do tentar identificar as pinturas de autoria apenas de Rem brandt,
m esm o que isso fosse possível, dadas as limitações das técnicas de
“con n oisseu rism o” que neste m om ento só podem se basear na
estilística interna e n a evidência técnica? Entretanto, estam os
culturalm ente relutantes em renunciar ou pelo m enos em qualificar
a concepção do artista com o um criador essencialm ente individual,
cuja atividade (“ o processei criativo”) e caráter (“ personalidade
artística”) singulares podem ser discernidos pelo observador empático (com parar com os critérios de G ere de núm eros 6 e 7 citados
anteriormente).
G ran d e parte do exam e técnico é realmente um a busca acen­
tuada dos traços ostensivam ente únicos tio artista: seu toque, suas
abreviaturas pessoais. Em bora o local de um a obra no interior de
categorias am plas, com o a data aproxim ada e provavelmente o local
de produção, po ssa ser proveitosam ente estabelecido, os resultados
em geral só autorizam as declarações negativas (“a análise tem
dem onstrado que não é em pregado nenhum material anacrônico
em u m quadro do século dezessete"). A análise com parativa pode
estabelecer padrões de prática de grupo de trabalho. Por exem plo,
é im provável que um a tela sem um cam po duplo distintivo
discernível em cortes transversais da cam ada de pintura, realizados
para exam e m icroscópico, tenha sido preparada na oficina de
trabalho de Rem brandt. T o d a s as técnicas disponíveis, desde a
auto-radiografia até a análise de difração de Raio X, podem ser e
250
PETER BURKE
são utilizadas para estabelecer parâm etros dentro dos quais as obras
podem ser discutidas, através de processos legítimos de com para­
ção e exclusão. N ão obstante, o principal objetivo n a interpretação
de tais resultados pelos historiadores e curadores de arte perm anece
sen do o estabelecimento, ou a desqualificação, do conjunto d a obra
de um artista individual. O processo da tom ada de decisões do
“ con n o isseu rism o” perm anece fundam entalm ente inalterado, e a
única diferença é que m ais dados estão à disposição do connoisseur.
A im portância disso, contudo, raram ente é precisa o suficiente para
suas (dele ou dela) exigências.
H oje em dia, o u so da análise técnica está se intensificando,
sem a devida consideração às im plicações epistem ológicas. A lgu­
m as das hipóteses de trabalho publicadas do Projeto de Pesquisa
R em brandt foram recentemente postas em dúvida, com o resultado
do exam e técnico e científico do acervo de R em brandt da N ational
G allery de Londres: o exam e m ais com pleto de u m conjunto de
obras associadas ao grupo de trabalho de R em brandt está ainda
com prom etido.6 Su a insinuação foi a de que a inform ação técnica
extensiva e detalhada utilizada pelo Projeto de Pesquisa R em brandt
é na verdade inadequada. Se assim for, on de se deve parar e em
que ponto as decisões podem ser tom adas? A auto-radiografia por
ativação de nêutron (que efetivamente revela a disposição dos
constituintes da pintura individual em um a série de im agens
radiográficas) não era um a técnica disponível para o grupo da
N ation al Gallery, m as um a série de pinturas atribuídas a Rem ­
brandt, em núm ero suficiente para proporcionar material com pa­
rativo, foi an alisada por esse procedim ento. Será que u m exam e
sim ilar das pinturas da N ational Gallery atrapalharia suas hipóteses
atributivas recentemente publicadas? O u , de preferência, as limita­
ções do “con n oisseu rism o” - por m ais extensivos que fossem os
dad os técnicos à disposição do connoisseur - deveriam ser exam i­
nadas e todo o projeto de especulação atributiva verificado em
6. Art in the Making. Rembrandt, p o r D avid B om ford , C h risto ph er Brow n e A sh o k Roy,
N ation al Gallery, Lon dres, 1988-9.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
251
seguida em um a nova base, base esta em que a hipótese é
reconhecida pelo que ela é, e a opinião não é apresentada com o
um conhecim ento seguro?
O problem a da posição epistem ológica do conhecim ento
derivado do “c o n n o isseu rism o ” torna-se m ais agudo, q u an d o
aquela inform ação necessariam ente insegura é em pregada na
con strução de argum entos com plexos da história d a arte, em
associação com o conhecim ento estabelecido p o r processos m ais
dignos de confiança (por exem plo, inferências extraídas de fontes
m utuam ente corroborativas). Se a evidência do “ con n o isseu ris­
m o ” tiver um peso igual àquela sustentada p o r um a evidência
estabelecida, de m od o m ais seguro em tais estruturas, essas
estruturas devem ser frágeis. M ais que a qu alidade da evidência
apenas n as circunstâncias individuais, deve ser levada em conta
a qu alid ade d a natureza da evidência. Através dessa avaliação, a
evidência d o “c o n n o isseu rism o ” por su a própria natureza não
po d e ser tão persuasiva quanto algum as outras form as de evidên­
cia. O reconhecim ento d isso não conduziria à rejeição ou exclu­
são d a evidência do “ con n o isseu rism o ” , m as antes à sua utilização
adequada, discreta.
A s questões sobre o peso relativo de diferentes tipos de
evidência n ão surgem da m esm a m aneira, q u ando se consideram
form as de argum ento, em que apenas o “con n oisseu rism o” está
envolvido. M as reconhecer as limitações epistem ológicas do “ con­
n oisseu rism o” dificilmente interessaria aos direitos adquiridos do
m u n d o d a arte. U m deslocam ento da ênfase é improvável, porque
as obras de arte funcionam com o objetos individuais (m ais que
com o com ponentes indeterm inados) no contexto determ inante: o
m ercado e seu com panheiro e dependente, o m useu. D entro deste
contexto, é altam ente desejável que a posição de cada objeto
individual n ão deva ser duvidosa. Em conseqüência disso, a falta
de conhecim ento é regularmente com pensada pela apresentação
de opinião corroborada por reputação e autoridade, à guisa de um
conhecim ento seguro. U m a confissão de ignorância é m uito
freqüentem ente encarada com o um a falha indesculpável, um a
252
PETER BURKE
atitude que envergonha a prática n o cam po. (Som en te aqueles, a
quem grande autoridade foi atribuída, podem prossegu ir com
ocasion ais ad m issões de ignorância: se realizadas de m aneira
sen sata, tais con fissões podem realm ente confirm ar quelas po si­
ções de grande autoridade.) M uito está em jogo para os partici­
pantes reconhecerem este estado de coisas: posição, prestígio
(tanto individual, q u an to institucional) e, acim a de tudo, dinhei­
ro. C o m o em q u alqu er outro m ercado capitalista, a confiança e
a credulidade p assam de m ão em m ão. A qu eles cujo principal
m eio de troca é a idéia, em vez da m oeda, estão em considerável
desvantagem .
D o ponto de vista daqueles preocupados com o relaciona­
m ento entre o presente e o passado, deveríam os observar que a
definição da prática passada, estabelecida apenas pelo “ con noisseu­
rism o” , deve ser considerada um a ficção, em bora ela seja convin­
cente, q u an d o bem argum entada. D eferíam o s tam bém notar que
aqueles argum entos da história da arte que depositam m uito peso
n o “con n oisseu rism o” devem ser tratados com m uito cuidado, pois
provavelm ente devem conter elem entos frágeis, se não absolutas
im perfeições. U m a das conseqüências de um a aceitação deste
argum ento provavelmente será que a questão da autoria individual
tornar-se-á m en os prem ente do que antes. M as, se aceitam os que
as m udanças na prática dos artistas resultam, pelo m enos em parte,
de escolhas intencionalm ente m otivadas, realizadas por indivíduos
que são subseqüentem ente divulgados por “ influência” (o que
pode com preender a im itação e a em ulação), a questão da autoria
individual não será inteiramente suplantada.
C a n o n icid ad e
A diferenciação retoricamente exagerada entre conhecim ento
e opinião, apresentada n o tópico anterior, está, evidentemente,
longe de ser a adequada para a análise d o procedim ento crítico e
histórico, a que a consideração do material visual está relacionada.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
253
Libertar o conhecim ento da opinião não é um a questão sim ples,
com o declarou Frank K erm ode em Forms of Attention (1985), ao
exam inar a form ação e perpetuação dos cânones, tanto na literatu­
ra, quanto nas artes visuais. Ele dem onstrou que a opinião
m al-inform ada e a m oda pddem , m ais que o julgam ento critico
erudito, criar as circunstâncias em que um artista pode ser “ redescoberto” e su a obra adm itid a'n o cânone do tema material para
repetidos reexam es de estudiosos e críticos. K erm ode descreveu o
caso de San d ro Botticelli, cujas pinturas foram em grande parte
ignoradas entre o século dezesseis e o final do século dezenove. Ele
convincentem ente argum entou que nem o interesse de H erbert
H orne, quç. se esforçou m uito para definir o conjunto das pinturas
de Botticelli, através do “ con noisseurism o” e de pesquisa de
arquivos7, nem aquele de A by W arburg, que exam inou aspectos
da obra de Botticelli no contexto de suas próprias teorias sistem á­
ticas de história cultural8, teriam percebido que não havia ocorrido
um a m udan ça cultural popular que acom odasse um gosto pela obra
atribuída a Botticelli. T an to H orne quanto W arburg estavam na
verdade n adan do com a corrente do fin-de-siècle. Em conseqüência
disso, a obra de Botticelli foi (em term os gerais) adequadam ente
distinguida daquela de seus contem porâneos, alunos e im itadores,
e possu ía u m a “ personalidade artística” definida.9
A qu elas pinturas designadas com o as obras-prim as de Botticel­
li, especialm ente o Nascimento de Vênus e a Primavera (am bas na
G alleria degli Uffizi, em Florença) reuniram-se ao grupo totOmico
de im agens m aciçam ente reproduzidas, familiares a um am plo
público, através de muitas form as de reprodução. A Primavera
chegou à sua apoteose com o o definitivo “ m aior tesouro” da
G aleria Uffizi, com suas figuras fem ininas centrais aparecendo na
7. Aíessandro Filipepi called Sandro Botticelli, Painter of Florence, 1908; nova ediçíío com
uma introdução de John Pope-Hennessy, 1980.
’
8. Sandro Botticelli’s "Geburt der V enus" und "Frühling”. E i ne Untersuchung über die
Vorstellungen von derAntike in der italienischen Friihrenaissance, 1893.
9. Ronald Lightbown, Sandro Botticelli: Life and Works and Complete Catalogue, 2 v.,
1978 é atualmente o texto padrão.
254
PETER BURKE
capa do guia de turistas publicado em vários idiom as. U m a longa
e extensiva restauração dessa pintura foi concluída em 1982. Foi
apresentada ao público com o o clím ax d a m ostra Método e scienzaOperatività e ricerca nel restauro (Palazzo Vecchio, Florença, 1982-3),
q u an d o foi exibida sozinha em um aposento escuro, dram atica­
m ente ilum inado com o um a tela de cinema, um espetáculo pro­
positadam ente im pressionante. A introdução n o catálogo que
acom panhava sua exibição (p. 207-50) foi a m ais longa até então
dedicada n essa form a de publicação à descrição técnica de um a
única pintura. Já vim os que a inform ação técnica é em pregada a
serviço do “ con n oisseu rism o” . Entretanto, a apresentação ao pú­
blico de achados técnicos, em bora ostensivam ente desmistificadora, é (entre outras coisas) um m eio m oderno, im portante de se
aum entar a m ística e a posição de um a obra de arte, .apresentando
publicam ente seu tratam ento especial. E nquanto há duzentos anos
atrás os visitantes d a Uffizi esperavam, adm irar a Venus de’ Mediei
com o seu “ m aior tesouro” , a Sala Botticelli agora tom ou o lugar
da T rib u n a (apesar de sua restauração historicista recente) com o o
objetivo final da peregrinação artística popular, sendo a Primavera
sua peça central. Este é, pelo m enos em parte, um desenvolvim ento
perfeitamente calculado, em que a direção da galeria intencional­
m ente desem penhou um papel preponderante.10
Podem os ver, assim , que várias questões interligadas, com ple­
xas são levantadas, q u an d o se considera a canonicidade. D uas
destas estão intim am ente vinculadas ao débito da história da arte
a seu reconhecido texto básico: Lives of the Artists, de G iorgio
V asari.11 S ã o elas, em prim eiro lugar, sua coincidência com os
estudos literários, tratando predom inantem ente o trabalho d a vida
10. Isto ficou claro durante a m esa redonda entre o s diretores de várias im portantes
galerias eu ropéias e am ericanas e outros estudiosos, qu e concluiu a conferência de
1 9 8 2 sob re a h istória e o futuro d a G aleria Uffizi. U m a transcrição d a reunião foi
subseqüentem ente publicada em C li Uffizi. Quattro secoli di una galleria, editada por
P aola Barocch i e G iovan n a Ragioneri, 1 983, v. 2, p. 557-635.
11. Principalm ente em sua segu nda edição, Le vi te de’ piú eccellenti pittori, seultori ed
architettori, 1568.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
255
de um indivíduo com o um a unidade básica a ser considerada.
C o m o já vim os, esta abordagem é sustentada pelas suposições
subjacentes de grande parte do “ con noisseurism o” . Segundo, o
cânone baseado na autoria é perpetuado, entre outros m eios,
escrevendo-se à m aneira de Y asari. O cânone está, tam bém , sujeito
à m odificação: o próprio V asari estabeleceu o precedente na
segunda edição de suas Lives. O s artistas são acrescentados à
m edida que suas carreiras se desenvolvem , com ou sem tendências
nacionais (por van M ander, Bellori, de Piles ...). O s artistas, ou as
“escolas” em que são agrupados, são ocasionalm ente ab an don ados
(com o G u id o Reni e os bolonheses do século dezessete) ou
descobertos (com o Botticelli ou, m ais recentemente, Caravaggio).
E ssas alterações afetam e são afetadas pelas m udanças ocorridas
nas instituições de arte: o m ercado e o m useu. U m m odo de tratar
essas m udanças e aferir as disparidades em qualquer época entre
as atitudes de eruditos em relação ao “cânone” e a um estado de
coisas públicas (com o é expresso prim eiram ente pelas coleções) é
a área de estudo que tem crescido consideravelm ente n os últim os
an os: a história do gosto.
O principal expoente da história do gosto é Francis Haskell.
Su as Rediscoveries in Art. Some Aspecls of Taste, Fashion and
Collecting in England and France (1976) e (com N icholas Penny)
Taste and the Antique: The Lure of Classical Sculpture, 1 5 0 0 1 9 0 0
(1981) ajudaram a engendrar um a consciência de que os cânones
da excelência artística observada são historicamente contingentes
e determ inados por uma variedade de fatores, alguns dos quais
necessariam ente não têm, de início, nada a ver com as questões
artísticas. H askell lida com a vida dos objetos subseqüente às
circunstâncias de sua criação (preocupação em recuperar a história
da arte, a ser discutida mais adiante) e anteriores a seus possíveis
efeitos ativos n o presente (a matéria-prima d a crítica). M as longe
de sim plesm ente intensificar um a atitude histórica às circunstân­
cias em que a arte atua, esta obra tem ajudado a efetuar um a
reavaliação crítica com pleta da apresentação d a arte do p assado no
m useu. E sse desenvolvim ento nas instituições públicas de arte
pode ser encarado com o um a abordagem inerente e às vezes
explicitam ente não-m odernista à canonicidade. Por exem plo, seria
difícil im aginar o renascim ento de interesse sério pela arte acadê­
m ica francesa do século dezenove sem a obra de, entre outros,
Francis H àskell e A lbert B o im e12, que culminou com a elaboração
de um século dezenove não-modemista no novo M usée d ’O rsay em
Paris. A teleologia que sustentava o projeto m odernista (concedendo
um privilégio crítico retrospectivo a Courbet, a Manet, aos impres­
sionistas e a Cézanne) decididamente não é m ais apoiada. Para um a
nova geração de visitantes de galerias, os nom es de Couture, G érôm e
e Bouguereau podem atingir um a posição canônica.
O desenvolvim ento da história do gosto tam bém ajudou a
san cion ar um a atitude regressiva em relação às coleções. O s
provedores e a direção dos m useus estão m enos propensos a
argum entar contra a aceitação de presentes ou doações de coleções,
com a condição de que elas só sejam exibidas intactas, em vez de
dispersas entre os acervos do m useu, com o as direções julgam
adequado. T em estado em andam ento u m a tentativa de retornar
as coleções abertas ao público nos am bientes originais de suas
disposições originais. Talvez o exem plo m ais bem-sucedido na
G rã-Bretanha seja a W allace Collection, em Londres, que de form a
algum a é um a coleção “ m orta” : nada pode ser acrescentado ou
retirado, m esm o que tem porariam ente com o em préstim o. Entre­
tanto, um a abordagem m uito pouco exigente a essa questão pode
conduzir a um a falta de consciência crítica da função social das
coleções, com o m onum entos a um supostam ente grande hom em
(ou ocasionalm ente mulher), e acredito ser dever dos curadores
tratar essa questão por seu direito próprio, ou pelo m en os reco­
nhecer su a natureza problem ática. A subordinação d a obra de arte
individual a um esquem a geral é inerente em qualquer disposição
de galeria, m as q u ando aquela disposição é escolhida devido a sua
ilum inação ao gosto do indivíduo de um a m aneira n ão crítica e é
12. A lb ert B oim e, The Academy and French Painting in the Nineteenth Century, 1971;
idem , Tkomfls Couture and tive Eciectic Vision, 1980.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
257
instituída com o um a disposição perm anente, não tem porária, um
autoritarism o petrificante parece inerente ao projeto.
A posição é ainda pior q u an d o a suposta restauração das
disposições originais ocorre em um a coleção variável e além d isso
é falsificada. O exem plo maiS notável desse tratamento é a nova
rem odelação da N ational Gallery da Escócia, em Edim burgo, que
foi asperam ente censurada por C arolin e Elam em um editorial da
conservadora revista de arte Burlington M agazine.13 O m otivo
aparen te d a restauração da autenticidade d o século dezenove é
desm en tid o pela arcaização artificial d a am pliação do m ezanin o
em 1 9 7 0 com , n a descrição detalh ad a de Elam , “ gu arn ições de
m árm ore, lam b ris, corn ijas, tapetes pseudo-vitorian os, otoman as de velu d o cotelê fran jad o e pain éis de sed a de Lyons
violen tam en te colorid o s ... extrain do a cor até d o s V an G o g h s” .
E la ob servou qu e n as galerias prin cip ais u m pen den te d u p lo ou
tripo in dica qu e “ são n ecessários b in ó cu lo s para os q u ad ros
p en d u rad o s d em asiad o alto” . C o n clu in d o , E lam sugeriu que “ a
m o d a atual de decoração autêntica e historização do s q u ad ros
p en d u rad o s é ap en as um a m anifestação da incerteza con tem p o­
rân ea so b re os valores estéticos, q u an d o ab ord am o s o segu n do
m ilê n io ” .
O desenvolvim ento da história do f;osto implica uma nova
atitude para com a canonicidade, paradoxalm ente unindo um novo
ecletism o crítico - alguns poderiam chamá lo de não critico - que
im plicitam ente desafia o cânone teológico da historia da arte c um a
atitude que pode encorajar um a petríficaçao autoritária das coleções
individuais para produzir um critério alternativo de canonicidade,
a coleção em si. O utras forças estão tam bém em açao, m odificando
ou m in ando, tanto o cânone, quanto a idéia de canonicidade.
A lgu m as dessas estão centradas em noções de ínterpretaçao, signi­
ficado e intenção.
13. “ T h e h an gin g’ s too good for th em ” , Burlington Magazine, 1 51, p. 3 4, 1989.
258
PETER BURKE
Interpretação
Partindo d o cânone definido pela autoria e do cânone definido
pela coleção, volto-me agora para o significado e a interpretação
pictórica. A qui, m ais um a vez, vam os n os confrontar com alguns
tem as agora familiares. “Se o historicism o prevalecer” ,, escreveu
C arolin e Elam em seu editorial do Burlington Magazine acima
m encionado, “ a obra de arte individual fica trancada em seu
período e não pode aparecer para encontrar a visão contem porâ­
nea” . A apresentação direta do material visual está cada vez mais
afetada pela aplicação dos critérios da “ história do gosto” . C on tudo,
n o discurso acadêm ico este tem um lugar pequeno; as linhas de
batalha são (obviamente) entre a recuperação histórica (a tentativa
de interpretar o material visual com o deveria ter ocorrido, q u ando
ele foi feito, seja pelo autor, por seus contem porâneos ou por
am bos) e o engajam ento crítico direto de vários tipos, com freqüên­
cia, m utuam ente irreconciliáveis. Esses incluem, em prim eiro
lugar, a abordagem que adm ite a possibilidade de acesso intuitivo,
direto, à “ personalidade artística” e ao “ processo criativo” (que já
encontram os no tópico sobre o “con n oisseu rism o”); segundo, um a
preocupação teoricamente engajada, pós-estruturalista, com a her­
m enêutica visual; e, terceiro, um a abordagem que enfatiza a conti­
nuidade essencial d a arte, de form a que a arte de qualquer período
do passad o não possa ser com preendida além do contexto de su a
relação com a prática corrente na arte e por extensão, em nenhum
m eio visual.
Estes conflitos de interpretação têm sido cada vez m ais politi­
zados n os últim os anos. Em um artigo apaixonado intitulado ‘ The
Death of British Art History’ ,14 o historiador de arte acadêmico,
M ichael R osenthal, reviu as tônicas políticas de alguns aconteci­
m entos recentes d o m u n d o dá arte, n o contexto de um a denúncia
dos acadêm icos britânicos por seu fracasso no engajam ento ao
debate cultural e político em am plas bases. Rosenthal reexam inou
14. A rt Monthly, n. 125, p. 3-8, abril de 1989.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
259
o furor de 1982 sobre a exibição da G aleria Tate da obra de um
pintor de paisagens britânico do século dezoito, Richard W ilson.
D avid Solkin fez um a tentativa discreta na própria m ostra e de.um a
m aneira com pleta e erudita n o catálogo que a acom panhava, para
situar as paisagens ideais de^W ilson, dentro do contexto social e
cultural de sua criação e de seu con su m o inicial.15 Isso foi den u n ­
ciado em vários órgãos influer\tes, incluindo um editorial do Daily
Telegraph, com o subversão m arxista. D ois an os antes, o estudioso
de literatura Jo h n Barrell havia publicado um exam e histórico
igualm ente questionador das pinturas de tem as rurais do século
dezoito em The Dark Side ofthe Landscape: The Rural Poor in English
Painting (173 0 -1 8 40) (1980). Barrell exam inou a ideologia im plí­
cita n a representação dos trabalhadores rurais nas pinturas de
T h o m as G ainsborough , G eorge M orland e Jo h n C on stable, suge­
rindo que sua condição é m ostrada antes com o sen do natural do
que com o socialm ente determ inada. Ele op ôs um a m itologia
nostálgica a um apelo à história, argum entando que “devem os
olhar duas vezes para um conceito de natureza através do qual
parece ‘natural’ que alguns hom en s deveriam trabalhar enquanto
outros, n ão ” .16 Sen do sim plesm ente um texto acadêm ico e, além
disso, n ão especialm ente bem inform ado sobre o papel da tradição
artística n a geração das im agens, o livro de Barrell poderia ser
ignorado pelo com ércio e pelas galerias. Podem os reconhecer com
M ichael Rosenthal que o texto acadêm ico é, acim a de tudo, um a
atividade socialm ente m arginal n a Grã-Bretanha. N eil M cW illiam
e A lex Potts explicaram ,, claramente, porque a contribuição de
Solkin para a história d a arte social n ão foi d a m esm a form a
sim plesm ente ignorada17: Solkin rom peu as regras, infiltrando a
15. Richard Wilson. The Landscape ofRcaction, por D avid Solk in , Tnte Gnlleiy, I «m ir e s,
1982.
16. p. 164.
17. Na nova seção introdutório a w?u ortiijo “Tl\c I ainlín;\|H’ of lUnutiom Ruimrd Wilson
(1 7 1 3 M 7 8 2 ) e su as C rfticns" em The New Art I hitmy, ediiiiilo |iot A .l. Rees c Francês
Borzello, 1 9 8 6 , p. 1 0 6 1 9 , ortj!im\liv\eme puhluíulo em ffisiory Worlcshop, 16,
p. 171-5, 1983.
260
PETER BURKE
instituição da “ prestigiosa exibição do velho mestre em um a galeria
nacional im portante” . M cW illiam e Potts prosseguiram : “A in da
que os tesouros culturais declinassem , com o o deleite inglês diante
da paisagem e o su posto gosto e refinam ento da época georgiana,
teriam de ser defendidos, se desafiados no território, on de ainda
parecessem vagam ente dignos de crédito.”
A abordagem histórica do material visual não está restrita à
atribuição de significação ideológica, com o ela foi percebida, correta
ou erroneam ente, por Barrell e Solkin. A significação na época da
produção vai além de um a conform idade, muitas vezes inconscien­
te com a ideologia sociopolítica do con sum idor para acom panhar
os m odos de percepção, que não são inclinados a provocar um a
atenção politicam ente m otivada nos dias de hoje. Su a elucidação
tem um a historiografia longa e im portante, que foi exam inada em
um contexto arte-histórico m ais am plo p o r M ichael Podro em The
Criticai Historians of Art (1982). U m dos prim eiros profissionais
desse tipo de recuperação da história da arte é M ichael Baxandall,
cujo livro Painting and Experience in Fifteenth Century Italy (1972)
tem o notável subtítulo de A Primer in the Social History of Pictorial
Style. Baxandall procurou ir além da sim ples análise iconográfica.
Ele escreveu: “ Parte do equipam ento m ental com que um hom em
organiza sua experiência visual é variável, e grande parte desse
equipam ento variável é culturalmente relativo, n o sentido de ser
determ inado pela sociedade que influenciou su a experiência.” Por
isso, a tarefa do historiador é recuperar a “visão do período” : a
m aneira de ver culturalm ente específica, peculiar a, digam os assim ,
os escultores de m adeira calcárea d o sul da A lem anh a no início do
século dezesseis e aos seus clientes, com o Baxandall tentou em The
Limewood Sculptors of Renaissance Germany (1980). O utros estudio­
so s aplicaram suas próprias versões da abordagem de B axandall a
outras culturas visuais, um a das m ais controvertidas sen do o exam e
de Svedana A lpers da arte holan desa n o século dezessete, The Art
of Describing (1983). A lpers declarou que era característico dos
holan deses n o século dezessete buscar conhecer o m u n d o taxonom icam ente, através de descrição pictórica detalhada, com preenden­
A ESCRITA DA HISTÓRIA
261
do m apeam ento, m icroscopia e transcrição representacional realística d a realidade observada. Isso, afirm ou ela, deveria assum ir
precedência sobre qualquer alusão ou alegoria na interpretação do
m aterial visual holandês, um ponto de vista que provocou um
vigoroso debate com outros estudiosos da área.18 Este debate
dem onstrou que a especulação nos processos cognitivos suplanta­
dos pode ser m ais controvertida que a busca de elucidação do
significado pictórico original das obras individuais, através da
com paração das im agens visuais um as com as outras e com os
textos contem porâneos, procedim ento hoje em dia arte-historicam ente ortodoxo entre os acadêm icos, ainda que isso não ocorra
entre as ■figuras proem inentes dos m useus e do m ercado de arte.
T o d as essas form as de recuperação da história da arte estão
atualm ente sob ataque por três ilustres direções. A lguns daqueles
interessados n a herm enêutica visual questionam a noção de que a
significação cultural pode ser codificada em material visual e
subseqüentem ente decodificada por um a interpretação posterior
para produzir um “ significado” adequado. H ans Belting, por
exem plo, em Das Ende der Kunstgeschichte? (1983) observou com o
este processo ostensivam ente simétrico de codificação e decodificação degenera n o “jogo de salão hum anista” da iconologia renas­
centista, en quanto as im agens pictóricas tendem a ser interpretadas
com referência a textos literários ostensivam ente equivalentes
(freqüentem ente program as ideados por estudiosos hum anistas
para tradução para term os pictóricos em esquem as decorativos).
A lém d isso, o m odelo de interpretação pictórica derivado da
distinção de Erwin Panofsky entre os níveis pré-iconográfico,
iconográfico e iconológico19 foi há m uito tem po teoricamente
18. Para a reação h ostil a A lp ers pelo ren om ad o iconologista holandês, E d de Jon gh , ver
su a crítica em Simiolus, 14, p. 5 1 -9 ,1 9 8 4 . M in h a própria crítica foi julgada p o r outros
co m o sim pática a A lp ers, m as é n a verdade crítica, em bora não ao longo d as “ linhas
d o partid o” : Oxford Art Journal, 7, n. 1, p. 57-60, 1984. Para um a visão geral, ver
E gbert H averkam p-Begem ann, “ T h e State o f research in northern baroque art", Art
Bulletin, 6 9 , p. 5 1 0 - 1 9 ,1 9 8 7 , especialm ente p. 510-11.
19. Erw in Panofsky, “ Introductory” , em Studies in Iconology. Humanistic Themes in the
262
PETER BURKE
superado peia com preensão de que a indicação é afinal indistin­
guível d a conotação, e que m esm o o significado m ais sim ples (a
im agem de um cachim bo para significar um “cachim bo” , por
exem plo) é culturalmente contingente. (Ver, por exem plo, a seção
de abertura de Roland Barthes, S/Z , 1970, e M ichel Foucault, Ceei
n est pas une pipe, 1973.) Talvez a posição m ais interessante adotada
hoje em dia seja a de que o material visual do passado, especifica­
m ente a sua arte, só pode ser adequadam ente interpretado através
da criação de novo material visual - a arte com o parte de um cam po
de com portam ento representacional - que seja rigorosa e conceitualm ente disciplinado. O teórico cultural e o artista podem se
tornar um só e o m esm o (por exem plo, V ictor Burgin, artista,
escritor teórico e acadêm ico, cujo trabalho foi com petentem ente
descrito por C h ris M iller com o “o contra-abuso ideológico da
‘im ageria apropriada’ a partir da propagan da”20 e cujas publicações
incluem Betuieen, 1986, e The End of Art Theory. Criticism and
Postmodernity,1986).
A lgum questionam ento da recuperação da história da arte
surge tam bém de fontes arte-históricas m ais ortodoxas, entre elas
M ichael Baxandall. Em Patterns of Intention: On the Historical
Explanation of Pictures (1985), B axandall descreve o uso de G iorgio
V asari d o que é, provavelmente, um a ficção histórica para fazer
u m a observação puram ente crítica sobre o aparecim ento dos
tecidos nas pinturas de Piero delia Francesca:
A rt o f the R enaissan ce, 1939 e, d o m esm o autor, “ Iconography and Iconology: an
Introduction to the Study o f R enaissan ce A rt” , em Meaning in the V isual Arts, 1955.
O “ pré-iconográfico” diz respeito ao reconhecim ento d o espectador de u m objeto ou
de u m ato representado; o “ iconográfico” , ao lugar de u m a representação, dentro de
u m co n ju n to de convenções para produzir significação especifica reconhecível (por
exem plo, as características individuais d o s santos); o “ iconológico” diz respeito ao
m anejo inovador ou singu lar do artista do tem a dentro de parâm etros culturalm ente
contingentes para gerar u m a significação im plícita, requerendo u m a reação im agina­
tiva d o espectador p ara su a elucidação.
20. European Photography, 8, n. 3, p. 4 7, 1987.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
263
Piero gostava muito de fazer modelos despidos que ele vestiria com
tecidos úmidos dispostos em muitas dobras, e daí o uso para o desenho e
para propósitos similares ... Qualquer leitor atento de Vasari aprende a
reconhecer este tipo de observação à medida que Vasari arrisca sua arma
inferencial: é improvável que ele tivesse o tipo de evidência para esta prática
que atualmente faria com que nos sentíssemos felizes por fazer a declaração
de maneira tão firme. Isso não importa. O próprio caráter genérico de
Vasari situa sua observação no que ela é - uma verdade crítica, por assim
dizer, como a vemos quando nos defrontamos com ela, assim como o anjo
branco do meio no Batismo de Cristo - e nenhum leitor da própria época
de Vasari teria tido um sentido falso de sua historicidade. Na verdade, a
agilidade de Vasari entre o crítico e o histórico é invejável; mas vivemos
em épocas mais muscularmente hipertrofiadas nessas questões, e se eu
dissesse tal coisa agora sobre Piero, de modo tão franco, vocês estariam
autoriíados a esperar que eu tivesse um subsídio real de uma espécie que
eu não poderia produzir, (p. 117)
Em seu ensaio sobre o “ con noisseu rism o” , Gary Schwartz
observou que “ O s historiadores de arte, treinados desde o início
para se articularem para trás e para diante, entre as abordagens
históricas e a-históricas da arte, nunca parecem observar as contra­
dições básicas entre elas.” 21 Pode-se inferir do texto de Baxandall
que esta contradição pode ser reconciliada pelo reconhecimento
de que a veracidade histórica é contingente e que a aplicação de
critérios históricos para o estudo do material visual produz ficções
que não são necessariam ente epistem ologicam ente distinguíveis
d o s com entários críticos a-históricos. Por isso, situar a discussão
da arte dentro de um a estrutura histórica n ão é m ais do que o que
Baxandall den om ina de um “ gosto especial” : a recuperação histó­
rica e a avaliação crítica não são inerentem ente m elhores um a que
a outra; n a verdade, n a m edida em que a recuperação histórica é
baseada em critérios contingentes, não é nada m ais que um a forma
especial de avaliação crítica. Pode-se, por isso, sugerir que a crítica
que abertamente se ocupa das atuais preocupações culturais e sociais
e que não reivindica um acesso improvável a “verdades” universais
e perpétuas, pode estar m enos propensa a interpretar mal os
21. G . Schwartz, “Connoisseurship” , 1 988, p. 265.
264
PETER BURKE
expectadores*e leitores d o que poderiam ostensivam ente os relatos
puram ente históricos. Talvez só po ssam o s sem pre conhecer a arte
d o presente, parte da qual é o que sobrevive do passado, propor­
cion an do apenas o acesso m ais tênue e incerto àquele passado. O
significado do material visual se m odifica; as interpretações diferem
através dos limites cronológicos e culturais: aqueles que conhece­
m os só podem ser sem pre aqueles que n ós próprios geram os.
C onsideravelm ente m ais preocupantes que as dúvidas expres­
sas e sugeridas pelos historiadores de arte, propensos à história,
são as tentativas de interpretar o passado, ou com o prontam ente
acessível pela resposta em ocional do m om ento ao material visual,
ou pela “ indústria da herança” em que a “ resposta em ocional do
m om en to” é com freqüência explorada. A crítica m ais cáustica do
desenvolvim ento da “ herança” com o um fator social e cáda vez m ais
político n os últim os an os é The Heritage Industry: Britain in a
Climate of Decline (1987), de Robert H ew ison. Eu m encionarei
apenas dois pontos levantados pelo livro de H ew ison: a “herança”
é profundam ente não analítica e im plica que a história, com o um
processo de m udança, está - ou deveria estar - superada. A
produção de um a população capaz de enxergar o passad o apenas
em term os de nostalgia e patriotism o ajuda a assegurar a docilidade
política.
O material da herança é um “ tesouro” e seu paradigm a é a casa
de cam po. A casa de cam po está investida, n ão som ente de um a
m ística social, m as de um a m ística estética. Por exem plo, a frase
“A casa de cam po com o um a obra de arte coletiva é u m a das
contribuições britânicas m ais im portantes à civilização ocidental”
pode ser encontrada n a contracapa d o catálogo que acom panh a a
enorm e m ostra, The Treasure Houses of Britain: Five Hundred Years
of Private Patronage and Art Collecting (N ational Gallery o f Art,
W ash ington, D C , 1985-6). E ssa m ostra foi descrita n o Economist
com o “u m palavrório de vendedor desavergonhado em favor da
herança britânica” .22 O utros buscam solicitar dinheiro de um a
22. C itad o p o r R ob ert H ew ison, The Heritage Industry, 1 987, p. 52.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
265
form a m en os direta: in spiran do sim patia pela sugestão de que a
casa de cam po é um a instituição am eaçada, com freqüência em
term os políticos levemente velados. A s palavras iniciais do prim ei­
ro en saio d o catálogo que acom panha a m ostra ligada ao F un do
M em orial de H erança N ad o n a l do M useu Britânico em 1988-9,
Treasures for the Nation: Conserving our Heritage, são: “ Dificilmente
decorre u m a sem ana, sem qüe vejam os o anúncio de um leiloeiro
da venda e dissolução im inente de algum a grande propriedade
pública.” C on tin u an d o a citar W .G . H oskin s, M arcus Binney
prossegue: “A casa é confiscada pelos em preiteiros da dem olição,
seu parque é invadido e danificado” e assim por diante. E ssa
m itologia d a destruição, patrocinada por nobres do m useu com o
Roy Stron g (na m ostra e em seu catálogo The Destruction of the
Country House, V ictoria &. A lbert M useum , Londres, 1974) e
políticos com o Patrick C orm ack (Heritage in Danger, 1976), pro­
porciona um a cortina de fum aça conveniente atrás da qual o poder
e o privilégio continuam a operar. E m The Latest Country Houses
(1984), Jo h n M artin R obin son revelou que m ais de duzentas novas
casas de cam po foram construídas na G rã-Bretanha desde a
Segunda G uerra M undial. Isso é pelo m en os politicamente pru­
dente (e poderia trazer vantagens de im postos) para aqueles que
desfrutam de riqueza privada para desem penhar o papel de guar­
diães de u m a “ herança nacional” , parte da qual é exibida ao público
com o a síntese do bom gosto e de um p assado invariavelmente
bom que deveria ser preservado acriticamente para todo o sem pre.
N ão há interpretação, apenas um a acum ulação que san cion a um
status quo social e estético.
A fotografia é o m eio visual em qu e os acontecim entos
p assad o s são com freqüência tornados m ais acessíveis pela res­
p o sta em ocion al do m om ento. Isto porqu e a fotografia traz em
si u m a relação m aterial e causai com seu sujeito. Parte de n o ssa
resposta é para o fotógrafo com o um traço real de u m aconteci­
m ento. O s apologistas do foto-jornalism o vão adiante, para
sugerir qu e a inform ação sobre q u alqu er acontecim ento com u n i­
cado p o r um fotógrafo n os proporcion a o conhecim ento vital
266
PETER BURKE
desse acontecim ento. N a verdade, o passad o recente é cada vez
m ais conhecido através de im agens parcialm ente fortuitas e
in stantân eas. C o m o expressou o editor de jorn al H arold Evans:
“ N o ssa s im pressões dos acontecim entos im portantes e com ple­
xos podem ser perm anentem ente m oldadas p o r u m único repór­
ter fotográfico” - observação citada no painel introdutório n a
m ostra Eyewitness: 3 0 Years of World Press Photography, n o M useu
N acion al de Fotografia, C in em a e T elevisão, em B radford (1989).
Entretanto, alguns pon tos são agora óbvios e têm sid o repetida­
m ente relatados, e não apen as nas m ostras perm anentes daquele
m useu: o m om ento captado necessita com unicar ao observador
pouco o u n ada de um acontecim ento qu e ocorre n o tem po; os
fotógrafos estão sujeitos a m uitas form as de m an ipulação (a
excisão de figuras; cortes e atenuações para alterar a interpretação
do observador) e o significado prontam ente legível m uitas vezes
é apen as gerado pela com bin ação com u m a legenda. Legendas
diferentes para a m esm a fotografia com freqüência produzem
significados radicalm ente diferentes ou até contraditórios. A
in form ação correta fornecida por um a fotografia pode ser de u so
tangencial em u m relato analítico de um acontecim ento passado ,
m as preservando-se um detalhe que de outro m od o poderia ser
ignorado, podem ser reveladas novas linhas de curiosidade, não
necessaria e estritam ente históricas sobre o passad o . Por que, por
exem plo, a m ulh er que adm inistrou o juram ento presidencial a
Lyndon Jo h n so n a b ord o d o A irforce O n e em 22 de novem bro
de 1963, em seguida ao assassin ato de Jo h n F. Kennedy, colocou
seu polegar sobre o dedo m ín im o da m ão com que ele segurava
a Bíblia, com o pode ser visto n a fotografia de C ecil Stoughton
do acontecim ento?
U m a das áreas de discussão atuais m ais interessantes em
relação á im pren sa e à docum entação fotográfica diz respeito ao
papel do fotógrafo nos acontecim entos que ele ou ela descreve.
Pode-se argum entar que a idéia do “ olho inocente” não é m ais
defensável e que a câm era é sem pre um a presença intrusa. U m a
fotografia com o aquela de Sadayuki M ikam i da dor d o s parentes
A ESCRITA DA HISTÓRIA
267
dos passageiros m ortos a bordo do vôo 007 da Korean A irlines,
tirada em setem bro de 1983, em um barco no local em que o
aeroplano subm ergiu no mar, poderia ser interpretada tanto com o
um a introm issão, quanto com o seu assunto: as lentes são um
im pacto nas faces dos parentçs em pranto, incluindo, por im plica­
ção, o autor dessa fotografia. E um a estocada de baioneta no
estôm ago de u m a vitim a porque um fotógrafo (M ichel Laureat) está
presente, ou aquilo de qualquer form a teria ocorrido; ou será que
a presença de um fotógrafo desencorajaria prováveis assaltantes de
investir outros golpes de baioneta em outros estôm agos? Seja qual
for a resposta em qualquer exem plo dado, é difícil não se considerar
o fotógrafo com o um participante.
História
Pelo qu e já foi dito, o leitor pode deduzir que eu não acredito
que o historiador esteja mais bem situado para tratar da imagem
visual: ele ou ela está antes de tudo preocupado com a interpretação
d o passado, não com a prática visual e com as questões críticas
atuais. N o entanto, os historiadores levantaram questões sobre o
material visual de m aneiras proveitosas que podem lem brar àqueles
de nós que estão prim eiram ente ligados à critica e aos assuntos
culturais atuais, que todo o material do passado é potencialmente
adm issível com o evidência para o historiador.
For the Sake of Simple Folíc: Popular Propaganda for the German
Reformation (1981), de B ob Scribner, ó um exem plo do efeito de
nivelação atual que o olhar de um historiador pode lançar a um a
m istura de material - xilogravuras alem ãs do início do século
dezessete - que os historiadores de arte não podem evitar, exceto
tratando do assun to de um a m aneira hierárqu ica, segu ndo o mérito
artístico percebido. Scribner tentou elucidar as convenções iconográficas e form ais que perm itiam que a propaganda pictórica para
e contra a Reform a religiosa fosse entendida pelas pessoas com uns.
Por su a vez, a im agem é tom ada pará revelar seus limites de
268
PETER BURKE
entendim ento cultural e as idéias em seu interior (o Anticristo, o
m u n d o virado de cabeça para baixo) a que os reform adores
poderiam recorrer. E adequado para ele tratar as obras de D ürer e
os C ran ach s nos m esm os term os que as gravuras de seus contem ­
porâneos, que os historiadores de arte poderiam rejeitar com o
inferiores e de pouco interesse intrínseco; ainda que q u an d o o
sucesso d a im agem seja estabelecido (em term os da imitação ou da
em ulação dos m otivos e dos artifícios visuais), a qualidade, o sen so
artístico e o papel da tradição visual existente devam tam bém ser
considerados, com o o seriam diferentes m ercados prováveis para
im agens de qualidade diferente.
U m segundo exem plo de um livro em que um historiador faz
um u so sofisticado do material visual é The Embarassment of Riches:
An Interpretation of Dutch Culture in the Golden Age (1987), de
Sim on Scham a. Em sua descrição dos hábitos sociais e das crenças
da classe m édia holan desa com respeito à identidade nacional, à
probidade dom éstica, aos deveres das m ulheres e dos em pregados
dom ésticos e à educação das crianças, Scham a convoca à ação um a
grande variedade de material, incluindo a poesia, a coreogra-fia, os
relatos dos viajantes, os docum entos notariais, os registros dos
tribunais, os im pressos e as pinturas. A ssim fazendo, m ostrou um a
consciência dos atuais debates arte-históricos relativos à interpreta­
ção da arte holandesa e produziu o que já descrevi com o sen do
“u m a reorganização m agistral do ‘antiquarism o’ anedótico do
século dezenove ao longo de linhas antropológicas, à luz de um a
erudição m oderna histórica e arte-histórica” .23
E m bora eu, sinceram ente, espere que os historiadores cada vez
m ais voltem sua atenção para o material visual, lam ento que poucos
até agora tenham dem onstrado suficiente percepção das questões
necessariam ente envolvidas, ou das habilidades particulares neces­
sárias para se enfrentar tal material. A contribuição para o estudo
do material visual que o historiador está provavelmente m ais bem
equipado para realizar é a discussão de sua produção e de seu
23. Burlington M agazine, 130, p. 636-7, 1988.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
269
con su m o com o atividades sociais, econôm icas e politicas. U m a
área em que os historiadores já realizaram um considerável pro­
gresso diz respeito a um a form a especial de con su m o de im agens:
a destruição deliberada, ou o iconoclasm o. Para a m aior parte dos
historiadores de arte, o icon-oclasmo continuará sendo m arginal
porque os objetos não sobrevivem ou são curiosidades prejudica­
d as.24 Isso, contudo, não desencoraja o historiador da religião ou
o historiador social. N o estudo do iconoclasm o da Reform a, os
historiadores sociais determ inaram a iniciativa, pois esta é um a
atividade em que não apenas a teoria da elite, m as as noções
analfabetas e populares (especialm ente em relação à mágica da
im agem ) e o com portam ento (relativo ao carnaval ou à festividade)
freqüentem ente parecem ser acessíveis. Isso levou a um a tendência
a tratar o iconoclasm o com o u m fenôm eno invariável, sendo dada
m ais atenção a fatores com uns em m om entos variados, do que às
diferenças entre eles. Atualm ente os historiadores sociais estão cada
vez m ais voltados para aquilo que tem sido cham ado de micropolítica, ou o estudo dos acontecim entos individuais, à luz dos quais
eles estão apren den do a m odificar as estruturas teóricas, perm itin­
do um a m aior atenção às nuanças. Isso pode ser visto, por
exem plo, n a obra de Lee W andel sobre o iconoclasm o em Zurich,
por ela apresentada em um sim pósio que teve lugar na Herzog
A u gu st Bibliothek, em W olfenbüttel, em 1986.25 Este sim pósio
tam bém m arcou um a prontidão para reunir especialistas de dife­
rentes disciplinas - historiadores literários, sociais, religiosos e de
arte - para discutirem o fenôm eno do iconoclasm o, a partir de
pontos de partida com plem entares.
U m exem plo m enos dram ático, em bora não m enos com pen ­
sador d o que o historiador pode fazer para situar o material visual
em u m contexto socioeconôm ico de produção e con sum o é pro­
porcionado pela obra do econom ista Jo h n M ichael M ontias. Seu
24. U m a exceção é D avid Freedberg; p o r exem plo, seu Iconoclasts an d their Motives, 1985.
25. “ Iconoclasts in Zurich” , em Biláer und Bildersturm im Spàtmittelalter und in derfrühen
Neuzeit, ed. B o b Scrib n er e M artin W arn kç (Wolfenbütteler Forschungen, 46),
1 9 9 0 , p. 1 2 5 4 1 .
270
PETER BURKE
estad o, Artists and. Artisans in Delft: A Socioeconomic Study of the
Seventeenth Century (1982) recorda aos leitores que a pintura da
arte erudita era um a questão de oportunidade financeira determi­
nada pela classe, tanto para o com prador, quanto para o autor.
A lém de delinear as fortunas dos pintores de Delft, M ontias
descreveu a organização capitalista proto-industrial de seus impressores e fabricantes de porcelana. Em contraste com os profissionais
d as duas últim as especialidades, os pintores precisavam de pouco,
em term os de investim ento de capitai; m as antes de ser um a
p rofissão aberta, M ontias descobriu que o gasto do aprendizado
de seis an os efetivamente limitava os aprendizes apenas aos filhos
dos artesãos m ais prósperos, dos notários, dos advogados e dos
próprios pintores. A s crianças patrocinadas pela C âm ara dos
Ó rfãos, ao contrário, tinham m uito m enos probabilidade de ser
aprendizes de um porcelanista e, em bora pertencentes à m esm a
corporação dos pintores, era pouco provável que ascendessem das
fileiras de um nascente proletariado.
C on clu in d o, portanto, podem os ver que nenhum a profissão
tem, ou em m inha opinião deveria ter, um m on opólio sobre a
interpretação do material visual, incluindo a história das im agens.
Se os historiadores têm m uito a aprender nesta área, têm pontos
im portantes tam bém a ensinar. Inadequações m uito piores têm
sid o descritas na prática daqueles que lidam profissionalm ente com
a arte. O s historiadores de arte se desenvolveram acostum ados a
ouvir que m uitos deles ain da não haviam captado as questões
levantadas pela semiótica, pela com unicação de m assa e pela teoria
da m ídia, ficando à mercê de se inform arem de com o prosseguir
lutando com a fotografia, com a arte d a representação, o cinem a,
a televisão e o vídeo. O historiador e o curador de arte, por exem plo,
podem parecer se refugiarem em problem as aparentem ente m ais
im ediatos: o refinam ento, a aplicação im ediata e a transm issão de
técnicas analíticas experim entadas, incluindo o “con noisseuris­
m o ” , o refinam ento dos cânones e diferentes form as de interpre­
tação pictórica. E m bora assum in do u m a visão crítica, n ão acredito
que pu déssem os sim plesm ente ser im pacientes com aqueles que
A ESCRITA DA HISTÓRIA
271
praticam essas especialidades. Eles não são úteis apenas ao m ercado
e ao m useu. A lgum as questões que devem ser levantadas à luz das
preocupações contem porâneas (e não do futuro antecipado) só
podem ser respondidas com a sua ajuda.
Enquan to isso, atualmente vivem os em um clim a m ental de
fragm entação, de dessistem atízação do conhecim ento descrito por
Jean Baudrillard26, em que versões do passado são constantem ente
recicladas, em potenciais perm anentem ente presentes, reutilizáveis
alternadam ente com o pontos de informação. N o sso relacionam en­
to com o p assad o não é m ais prim eiram ente definido pela história,
m as antes por um a variedade de prática, grande parte dela visual­
m ente baseada, sujeita a análises em term os do “visualism o” e do
“ olhar expan dido” 27, em que os historiadores (e a m aior parte dos
historiadores de arte), em geral, se sentem m uito longe de casa: a
propaganda, a televisão, o foto-jornalismo, a arquitetura e algum as
áreas da arte. A s palavras-chave agora são “ fragm ento” e “ ruína” 28,
n enh um a delas m encionada no m anual cultural de m eados dos
an os 70, as Keyivords: A Vocabulary of Culture and Society (1976),
de Raym ond W illiam s. E o leitor atento irá observar que por todo
este capítulo eu n ão utilizei nem uma vez o termo “ pós m oderno” ,29
2 6 . " L a précession des sim u lacres” , Simulacres et Simulation, 1981.
2 7 . Por exem plo, N o rm a n B ryson, “T h e gaze in the expanded field” em Vision and
Visuality, ed. H al Foster, 1988.
2 8 . Por exem plo, D o u glas C rim p , “O n the M u seu m ’s R u in s’ em Postmoclern Culture,
ed. H al Foster, 1985 e A rth u r K roker e D avid C o o k , The Postmodem Scenc
Excremental Culture and Hyper-Aesthetics, 1986: “ Excurses on the (Post) N ouveau.
T h e body in ruins ... Science in ruin s ... theory in ruins ... ph ilosoph y 'm ruins ...
history in ruin s ...”
29. G o staria de agradecer a Patricia R u b in por seus aguçados eoin entilrk» sobre um
esboço anterior deste ensaio.
HISTÓRIA DO PENSAMENTO POLÍTICO
Richard Tuck*
N o decorrer da década de 60, vários historiadores do pen sa­
m ento político (por uma coincidência agradável e conveniente,
m uitos deles vinculados à U niversidade de C am bridge) publicaram
suas reflexões de caráter geral sobro sua atividade profissional. Três
destes en saios conseguiram unia reputação duradoura - ‘ The
History of Political Thought: A Meilwdological Enquiry'1 de Joh n
Pocock, ‘ The Identity of the History of Ideas’ ' de Jo h n D un n e
‘ M eaning and Understanding ín the History of Ideas’ 3 de Q uentin
Skinner. E desses três, foi o de Skinner que provocou m ais
discussão, em parte devido a sua extensão e abrangência m uito
m aiores, m as sobretudo porque, ao contrário de Pocock e D un n,
ele tornou seus objetivos m uito precisos e especificou-os. O prin­
cipal objetivo, e aquele que os escritores subseqüentes estiveram
* A ssistente de H istória da U n iversidade de C am b ridge e M em bro d o Je su s C ollege.
1. E m Philosophy, Politics and Socíety, série II, ed. Peter Laslett e W .G . R uncim an,
O xfo rd , 1 9 6 2 , p. 183-202.
2. E m Philosophy, 4 3 , p. 85-104, 1 9 6 8 ; reeditado em D u n n , Political Obligation in its
Historical Context, C am bridge, 1 9 8 0 , p. 13-28.
3. E m History and Theory, 8, p. 3-53, 1 9 6 9 ; reeditado em Jam es Tully (ed.), Meaning
and Context, O xford , 1 988, p. 26-67.
PETER BURKE
274
m ais prop en sos a defender, foi descrito por Skinner n a seguinte
passagem :
Antes de mais nada vou considerar a metodologia ditada pela reivin­
dicação de que o próprio texto deve compor o objeto auto-suficiente de
pesquisa e de entendimento. Pois essa é a suposição que continua a orientar
o maior número de estudos, levantar as mais amplas questões filosóficas e
dar margem ao maior número de confusões. Esta abordagem em si está
logicamente ligada, na história das idéias não menos do que em estudos
mais estritamente literários, a uma forma particular de justificativa para a
condução do próprio estudo. E característico dizer-se que o objetivo
fundamental do estudo de obras passadas de filosofia (ou de literatura) deve
ser o fato de elas conterem (em uma expressão aprovatíva) ‘elementos
atemporais’, sob a forma de ‘idéias universais’, até mesmo uma ‘ciência
não datada’ com ‘aplicação universal’.
Atualmente, o historiador que adota tal ponto de vista já está, na
verdade, ele próprio comprometido com a questão de como melhor obter
uma compreensão de tais ‘textos clássicos’. Pois se o objetivo fundamental
de tal estudo é concebido em termos da recuperação das ‘perguntas e
respostas atemporais’ colocadas nos ‘grandes livros’, e assim demonstrar
sua continuada ‘relevância’, não deve ser apenas possível, mas essencial,
que o historiador se concentre simplesmente naquilo que cada um dos
escritores clássicos disse a respeito de cada um desses ‘conceitos fundamen­
tais’ e ‘questões permanentes’. O objetivo deve ser, em suma, promover
uma ‘re-avaliação dos escritos clássicos, deixando de lado o contexto do
desenvolvimento histórico, como tentativas perenemente importantes para
se estabelecerem proposições universais sobre a realidade política’. Para
sugerir, em vez disso, que um conhecimento do contexto social seja uma
condição necessária para um entendimento dos textos clássicos é equiva­
lente a negar que eles realmente contêm quaisquer elementos de interesse
atemporal e perene, e é por isso equivalente a remover o objetivo funda­
mental de se estudar o que eles disseram (p. 30).
U m grande núm ero de cientistas políticos (em sua maioria
americanos) foi relacionado nas notas de rodapé para esta passagem:
Peter Merkl, H ans J. M orgenthau, M ulford Q . Sibley, W illiam T.
Bluhm , G . E. G . C adin, Andrew Hacker, R. G . M cCloskey, Karl
Jaspers, Leonard N elson , C harles R. N . M cCoy, Leo Strauss e
Jo sep h C ro p seh .4
4. Ib id ., p. 291-2.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
275
E m bora D u n n n ão apresente nenh um a relação com parável de
pessoas, é claro qu e ele tinha em mente seu tipo de abordagem ,
q u an d o no ano anterior se queixou de que:
poucos ramos da história das idéias têm sido escritos como a história de
uma atividade. Estruturas complicadas de idéias, dispostas de uma maneira
quase tão restrita quanto é possível (freqüentemente mais restritas do que
a evidência permite) para os sistemas dedutivos, têm sido examinadas em
pontos diferentes no tempo e sua morfologia tem atravessado os séculos.
Reconstruções reificadas das idéias mais acessíveis de um grande homem
têm sido comparadas àquelas de outros grandes homens; daí a tendência
estranha de muitos escritos, mais especialmente na história do pensamento
político, serem compostos daquelas proposições daqueles grandes livros
que recordam aquelas proposições daqueles outros grandes livros ... (p. 15)
C o m o um a alternativa para isso, tanto Skin ner quanto D un n
enfatizaram que a m aneira adequada de se ler u m texto histórico
é com o u m produto histórico, em que as verdadeiras intenções do
autor (à m edida que elas podem ser razoavelmente reconstruídas)
devem ser n o sso principal guia com o o porquê de o texto ter
assum id o a form a particular que assum iu (em bora é claro que
nenhum deles su pu sesse que a intenção fosse um guia suficiente o fracasso tam bém necessita de reconhecim ento e explicação).
A in d a qu e u m argum ento desse tipo não tenha sido a primeira
intenção de Pocock, seu ensaio de seis an os antes poderia ser
restabelecido n essa causa, e Skin ner sem pre reconheceu generosa­
m ente a influência de Pocock, juntam ente com aquela de R .G .
C ollingw ood, A lasdair Macintyre e Peter Laslett. O ensaio de
Pocock era n a verdade um apelo no interior da profissão da história
das idéias, para se levar a sério, com o o material a ser com preendido
e explicado, todo o conjunto de escritos ou outros produtos sobre
política disponíveis de um a sociedade particular - o que ele
cham ou de “ estereótipos” e “ linguagens” , e o que subseqüentem en­
te n om eou de “ paradigm as” . Su a própria obra, Thè Ancieút Constitution and the Feudal Law (1957), tem sido u m a ilustração
brilhante d o que ele queria dizer - que os principais filósofos
políticos só poderiam ser lidos em contraposição a um a estrutura
m inuciosam ente especificada e historicam ente particular de práti­
cas lingüísticas (neste caso, a prática de suposições históricas dentro
da tradição forense), e qu e som ente dessa m aneira poderiam ser
com preendidas su a originalidade ou convencionalidade. Era ver­
dade, reconheceu Pocock, que:
como a linguagem empregada na discussão política tomou-se de crescente
generalidade teórica, então o êxito de persuasão dos argumentos do
pensador se apóia menos em seu êxito na invocação dos símbolos tradicio­
nais do que na coerência racional das declarações que ele é levado a fazer
em algum campo do discurso político, em que as declarações de ampla
generalidade teórica são consideradas possíveis. Aqui, mais cedo ou mais
tarde, nosso historiador deve abandonar seu papel de estudante do
pensamento como a linguagem de uma sociedade, e tomar-se um estudante
do pensamento como filosofia - ou seja, em sua capacidade de fazer
declarações gerais inteligíveis,... [Mas como o historiador aproximou-se de
seu filósofo através de um estudo da linguagem mais ampla, ele] agora pode
considerar o nível de abstração em que a linguagem do pensador tende a
fazer com que ele opere, e o nível de abstração em que as preocupações do
pensador tendem a fazer com que ele use sua linguagem. Agora pode dar
alguma precisão de significado à expressão vaga - todo pensador opera
dentro de uma tradição; pode estudar as exigências que pensador.e tradição
fazem um ao outro (p. 200-1).
Este relato sobre os an os 60 tem sido atualmente feito m uitas
vezes; os estudantes têm à sua disposição copiosos resum os das
questões envolvidas neste debate m etodológico das faculdades.5
T êm havido m uitas reações levemente im pertinentes a D u n n , a
Pocock e a Skinner, e algum as tréplicas defensivas por parte dos
próprios autores. M as para aqueles de n ós que pertencem a um a
geração m ais jovem , para quem esta luta tinha a qualidade curio­
sam ente rem ota que as questões dos irm ãos m ais velhos sem pre
possu em , a dificuldade sem pre foi com preender qual tem sid o o
objetivo d o estudo não-histórico (no sentido de D un n) da história
d as idéias. Era óbvio para n ós que (com o colocou C ollingw ood
5. O s m elh ores são Jo h n G u n n ell, Political Theory: Tradition and Interpretation, C a m ­
bridge, M a ss., 1 9 7 9 , C o n a l C o n d re n , The Status and A ppraisal of C lassic Texts,
Princeton, N J, 1 9 8 5 e Jam es Tully (ed.), Meaning and Context, O xford , 1988.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
277
devastadoram ente trinta anos antes), se alguém quisesse com preen­
der a história de algo, teria realmente que realizar o relevante
trabalho de pesqu isar a evidência e elaborar o que as pessoas
preocupadas com ela seriam capazes de fazer.
‘Maldição!’ diz Hamlet, ‘você acha que eu sou mais facil de ser tocado do
que uma flauta?’ Aqueles eminentes filósofos, Rosencrantz e Guildenstem,
acham tout bonnement que podem descobrir o que Parmenides está fazendo
simplesmente o lendo; mas se você os levar até o portão sul de Housesteads
e disser: ‘Por favor, distinga os vários períodos de construção aqui, e
explique que propósitos tinham em mente os construtores de cada período’ ,
eles protestariam: ‘Acredite-me, eu não posso’. Será que eles acham que
Parmenides é mais fácil de ser entendido do que um fortim romano podre?
‘Maldição!’6
Se isso era tão óbvio em 1939, por que necessita ser dito
novam ente agora, em bora com um conjunto diferente de con side­
rações filosóficas, em 1969?
D o s com entadores dessas questões, apenas G un n ell tratou
desse problem a, encarando-o (corretamente) com o um problem a
sobre o caráter da ciência política do século vinte. M as a resposta
particular que G un n ell deu à questão foi m enos plausível, e vou
sugerir u m a diferente. C o m o parte de seu tratamento do tema,
G un n ell esboçou um a história em que o desenvolvim ento do
“ behaviourism o” n a ciência política, durante as décadas de 50 e
60, levou a ataques sobre a escrita da história do pensam ento
político com o um a atividade de pouca im portância. G un n ell citou
D avid E aston em 19 51, queixando-se de que o pensam ento político
ocidental tradicional havia sido substituído p o r investigações na
história do pensam ento político, atividade que vivia “ parasitariam ente” das idéias passadas e não m ais buscava prom over um a
ciência política em pírica adequada, ou construir “ um a estrutura
apreciável de referência” (p. 4).
6. R .G . C ollin gw ood , A n Autobiography, O xford , 1970, p. 3 9 4 0 .
278
PETER BURKE
O “ behaviourism o” significa aqui7 um a am pla noção de um a
ciência política em pírica, m arcada por estudos (com freqüência
quantitativos) de leis gerais, quase científicas, do com portam ento
hum ano, e por um divórcio rigoroso entre fatos e valores - “ a
avaliação ética e a explicação em pírica envolvem dois tipos de
proposições que, para garantir a clareza, devem ser fnantidas
analiticam ente distintas” (G unnell, p. 7). G un nell considerava o
objetivo principal d a crítica de Easton da história do pensam ento
político com o um cham ado implícito para a ciência política em pí­
rica tornar-se o m od o de pensam ento dom inante sobre política;
ele conjecturou que “ a reação dos historiadores de teoria política
ao desafio dos ‘ behaviouristas’ em relação à im portância de se
estudar a tradição n ão era apenas para reafirmar que ela é relevante,
tanto para a ciência política, quanto para a política, m as para
sustentar que ela era, agora, absolutam ente crucial” (p. 26). A idéia
de um a grande tradição do debate político n a Europa O cidental
tornou-se hoje em dia, declarou G unnell, o locus para um a crítica
d o tipo de atitude m oderna representada por Easton e com panhia;
seu repúdio à história do pensam ento político transform ou-se em
u m an tagonism o histórico, entre um m od o de pen sar sobre política
expressável apenas n a linguagem da civilização captada n os textos
clássicos de Platão até M arx, e um m od o de pen sar expresso na
pseudociência da análise dos sistem as, ou seja do que for que a
teoria “ behaviourista” fosse a favor. Escritores com o Strauss,
V oegelin ou A ren d t foram os principais exem plos de G un nell de
teóricos que abraçaram essa idéia d a tradição - e é claro, pelo
m en os no caso de Strauss, que a existência dessa tradição e a
irredutibilidade de seu conteúdo a algum conjunto diretam ente
objetivo e m oderno de expressões era n a verdade central para um a
visão política.
G u n n ell assim explicou o m ovim ento que Skinner, D u n n e
Pocock atacaram com o um a resposta à hostilidade da ciência
7. C o m o o próprio E aston reconheceu: ver D avid E aston , A Framework o/ Political
Analysis, Englew ood C liffs, N J, 1965, p. 19-22.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
279
política do pós-guerra ao escrito de histórias do pensam ento
político, e com o um a asserção da continuada relevância de um a
ciência política não quantitativa, não “ behaviourista” . H ouve, no
entanto, dois problem as com o relato de G unnell. O prim eiro foi
que ele su pô s que fosse esta idéia de um a “tradição” o principal
objetivo de Skin ner e dos outros, e conseqüentem ente criticou suas
observações sobre a m etodologia com o um a falha em descobrir o
objetivo da crítica da m odernidade e da ciência política m oderna
im plícito n os escritos de pessoas com o Strauss (p. 24). D e fato,
com o vim os, em bora suas observações fossem aplicáveis a Strauss
ou a A rendt, os verdadeiros objetos de sua crítica explícita foram
mais com um ente as figuras m undanas dos an os 6 0 que escreveram
sobre a história do pensam ento político, de um ponto de vista
científico-político convencional, com o M erkl e Hacker.
O segu n do problem a sobre o relato de G u n n e l foi que ele
m esm o reconheceu e docum entou am plam ente o fato de que o
rei da escrita sobre a história d o pen sam en to político que Easton
atacava era, em si, o fruto de um a visão positivista e virtualm ente
“ behaviourista” d a política, rem ontando pelo m en os ao início do
século vinte. H á vários exem plos notáveis disso, um dos m elhores
sen do a ob ra de G eorge C atlin (um dos autores escolhidos por
Sk in n er para ser alvo de ataque em 1969), que escreveu tanto
um a história dos filósofos políticos8, qu an to tam bém alguns
trabalhos surpreendentem ente positivistas sobre a possibilidade
de um estu do genuinam ente “científico” da política. C o n se q ü e n ­
tem ente, com o adm itiu G un n ell, “ é difícil discernir nesta litera­
tura, até o final do s an os 40, a fonte da retratação de Easton,
tanto d o caráter do saber n a história da teoria política, quanto
das intenções e preocupações que lhe deram origem ” (p. 21); o
q u e deixa tanto a su po sta investida “behaviourista” n a história
do pen sam en to político n os an os 50, quanto a retaliadora in sis­
tência sobre u m a grande tradição pelos antipositivistas, parecen­
d o sem significado.
8. G eorge C atlin , A H istory of the Political Philosophers, Lon dres, 1950.
280
PETER BURKE
O erro de G un nell, e aquele com etido por m uitos autores que
escrevem sobre essas questões, foi o de não levar a sério as
reivindicações de “behaviouristas” com o Easton de que o estudo
d a política tinha de envolver, tanto fatos quanto valores, m as que
estes pertencem a dois reinos logicamente distintos - a distinção
fato-valor que rem onta (em sua form a drástica) a K ant e que é um a
base essencial para as ciências hum anas m odernas. É verdade que
a m aioria dos cientistas hum anistas conduzia sua prática profissio­
nal cotidiana para ser a exploração d o aspecto “ fato” desta distin­
ção, m as todos reconheciam em seus m om entos de m aior reflexão
que os “valores” políticos tam bém tinham de ser produzidos de
algum m odo. A com binação desse reconhecim ento com um a
tentativa m uito débil de realmente considerar com o os valores
deveriam aparecer ou ser justificados, é o aspecto m ais notável da
ciência política anglo-americana (e particularm ente a am ericana) na
prim eira m etade do século vinte. Poderíam os descrevê-la com o um
kantianism o sem a teoria ética de Kant, em bora os próprios
participantes9 m ais freqüentemente a descrevessem com o um
h u m an ism o - ou seja, um a aceitação da distinção lógica entre
declarações em píricas e valorativas, m as um a rejeição d a dedução
transcendental de m oralidade, na verdade a ser encontrada no
Groundwork of the Metaphysics of Morais.
M ais com um ente esses cientistas hum anistas supuseram que
de algum m od o m ais ou m en os inespecífico, “ a cidadania” iria
decidir.
‘A beleza está no olhar do espectador’ é um aforismo que nos recorda
que os julgamentos de melhor ou pior envolvem avaliações subjetivas. Mas
isso não nega que o nariz de uma pessoa possa ser objetivamente mais curto
que o de outra. Similarmente, há elementos de realidade válidos em uma
dada situação econômica, por mais difícil que possa ser reconhecê-los e
isolá-los. Não há uma teoria da economia para os republicanos e outra para
os democratas, uma para os trabalhadores e outra para os empregadores,
uma para os russos e outra ainda para os chineses. Em muitos princípios
9. G eorge Sab in e, A History of Política! Thought, 3 ed., Lon dres, 1 983, p. v.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
281
concernentes aos preços e ao emprego, a maior parte - não todos! - dos
economistas está em quase total acordo.
Essa declaração não significa que os economistas concordem rigorosa­
mente no campo da política. O economista A pode ser a favor do total
emprego a qualquer custo. O economista B pode não considerá-lo de
importância tão vital quanto ^estabilidade dos preços. Questões básicas
relacionadas com os objetivos certos e errados a serem buscados não podem
ser estabelecidas pela mera ciência como tais. Elas pertencem ao reino da
ética e dos ‘julgamentos de valor’. A cidadania pode finalmente decidir tais
questões. O que o técnico pode fazer é apontar as alternativas factíveis e os
custos reais que podem estar envolvidos nas diferentes decisões. Mas a
mente ainda deve se render ao âmago que está no domínio do coração.
Pois, como disse Pascal, o coração tem razões que a própria razão desco­
nhece.10
E ssa notável passagem ilustra aquela idéia de valores dos
cientistas hum an istas do início do século vinte, com o essencial­
m ente questões do coração, m ais que d a razão - que não poderia
haver um a base sistem ática e racional para eles. M as todos os
h om en s os possuiriam e, com o “ cidadãos” , os utilizariam em suas
decisões. D ad a esta opinião, era obviamente de algum a im portân­
cia prática que a cidadania não colhesse seus valores do ar, ao acaso,
u m a vez que n ão pu desse derivá-los de um a dedução transcenden­
te; e o principal propósito de se estudar a história do pensam ento
político, o que m anual após m anual torna claro, era prover o leitor
(que, sen do em geral estudante de um colégio am ericano, era
encarado acim a de tudo com o um futuro cidadão) de um conjunto
de possíveis atitudes políticas que ele próprio n ão teria sido capaz
de gerar (elas eram o trabalho de “ gênios”), m as às quais poderia
reagir e fazer sua escolha de u m a m aneira equilibrada e bem
orientada.
N a verdade, é im pressionante quantos desses m anuais eram
m uito avessos a se com prom eterem com qualquer reivindicação
sobre a verdade ou falsidade das teorias políticas que estavam
con sideran do: Sabin e disse expressam ente que, “encarada com o
10. P a u lS a m u e lso n , Economics, Englew ood C liffs, N J, 1 976, p. 7-8; livro-tcxto cm grande
parte produzido n as d écadas de 5 0 e 60.
282
PETER BURKE
um con jun to' um a teoria política dificilmente poderia ser assum ida
com o verdadeira” .11 O s autores que eles consideravam , em geral
não deveriam ter realizado reflexões em um a teoria verdadeira (e
nesse aspecto esses historiadores do pensam ento político do início
do século vinte diferiam de seus contem porâneos historiadores da
ciência natural), m as tendo constituído as fontes de um a tradição
de pensam ento político especificamente ocidental, em que o leitor
era levado a participar, à m edida que refletia sobre a am plitude das
idéias descritas n o m an u al.12
E im portante reconhecer que essa visão negava a existência das
teorias políticas genuinam ente universais ou objetivamente verda­
deiras, m as reivindicava a universalidade, ou pelo m enos, a rele­
vância das questões de que os grandes textos tratavam - foi isso
que constituiu sua prolongada utilidade. D evem os distinguir essa
atitude daquela de escritores com o Strauss ou H an s M orgenthau,
que insistiam (explicitamente contra seus colegas nos departam en­
tos de política am ericanos) em que eram verdades da teoria política,
“ não im porta o tem po e o espaço” .13 C a d a visão implicava que os
textos isolados deviam ser estudados, pois representavam a respos­
ta de “grandes m entes” a um conjunto de problem as perenes, tão
fam iliares ao estudante d o colégio am ericano dos an os 50, quanto
ao cidadão da polis grega; m as um a visão assum ia u m a abordagem
m ais neutra dos méritos das várias respostas, an siosa apenas para
situá-los n a cultura ética am pla do O cidente, en quanto a outra visão
tinha um a resposta própria, clara aos problem as perenes. Em geral,
a últim a abordagem tinha m enos probabilidade de interessar à
história da teoria política, pois p o ssu ía u m critério trans-histórico
de retidão m oral (e M orgenthau era por isso m uito crítico da
disciplina).14 Strauss, no entanto, era um caso especial, pois
acreditava (o que já observei antes) que este critério estava dispo­
11. Sab in e, Philosophical Tfieor}, p. v.
12. Este parece ter sido, p o r exem plo, o ponto de vista de Peter M erkl - ver suas
observações em Political Continuity and Change, N o v a Y ork, 1 967, p. 26-56.
13. H an s M orgenthau, Dilemmas of Politics, C hicago , 1 9 58, p. 39.
14. Ibid., p. 24.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
283
nível apenas às pessoas que haviam m ergulhado no estudo da
tradição e em seus textos.
A prim eira destas duas visões era, pelos padrões de um a cultura
política de longo prazo, um a abordagem curiosam ente desengajada
e estranha ao papel dos valore^,na vida política, e foi provavelmente
para seu caráter insatisfatório que Easton estava cham ando a
atenção em seu artigo de 1951.15 A idéia era de que um conjunto
disparatado de valores seria inculcado na cidadania, através de um a
educação em um conjunto particular de textos plausíveis e não
m uito estapafúrdios, que diferiam entre si*de um m odo intelectual­
m ente estim ulante. Esse conjunto disparatado poderia então ser
harm onizado n o interior da sociedade, por algum tipo de processo
institucional, em que os cidadãos iriam decidir sobre os princípios
pelos quais sua sociedade deveria ser governada. A m aior parte dos
autores d o s “grandes textos” , eles m esm os teriam pensado ser um a
visão absu rda abordar os princípios políticos, m as ela se com pro­
vou um a clara dem onstração, do interior da fortaleza das ciências
h u m an as m odernas, de que era absurdo convencer os cientistas
políticos anglo-am ericanos. E ssa dem onstração foi prom ovida por
Kenneth A rrow 16 (ironicam ente no m esm o ano do artigo de
Easton, 1951) com seu fam oso “ teorema” em que ele provou que
não havia m étodo de procedim ento neutro de integração dos
valores individuais em um conjunto de princípios sociais que não
infringiam algum as suposições absolutam ente óbvias e básicas que
quase todos os cidadãos provavelmente fariam (tais com o aquela
de que n enh u m m em bro da cidade deveria ser u m ditador sobre
o restante). A im plicação da obra de A rrow era a de que aqueles
que acreditavam que, de algum m odo um a burocracia neutra de
técnicos em ciência política poderia fazer u so de su a cidadania, para
u m a decisão efetiva sobre os valores a serem im plem entados no
processo político, poderiam agora ser vistos com o assobian do n o
escuro.
15. D avid Easton , “T h e D ecline o f M odern Political T h eory” , Journal o f Politics, 13,
p. 3 6 - 5 8 ,1 9 5 1 .
16. K enneth A rrow , Social Choice and Individual Valúes, Londres, 1951.
284
PETER BURKE
A obra de Arrow , que se tornou particularmente influente
depois da segunda edição revista de Collective Choice and Individual
Values ser publicada em 1963, im pression ou os m ais inflexíveis
dos cientistas políticos “ inflexíveis” , por seu rigor m etodológico, e
os convenceu de que suas vagas suposições sobre o caráter social
dos valores deveriam ser revistas. A ssim fazendo, ela se harm oni­
zou a um a visão de ajuste em m eados dos an os 60 (particularmente
n a A m érica) de que a filosofia política de um tipo aparentem ente
tradicional deveria ser m ais um a vez escrita. C reio n ão ser um a
coincidência que o expoente m ais proem inente de um a nova
filosofia política, Jo h n Rawls, se considerasse e fosse am plam ente
considerado com o u m a espécie de kantiano - pois o cam inho m ais
provável para se extrair o cruel kantianism o da A m érica, na
prim eira parte deste século era pela construção de um novo e
sofisticado kantianism o. M as se a pluralidade de valores indeterm inadam ente estabelecidos não m ais' fizesse qualquer sentido no
pan oram a ético da ciência política americana, então o papel
tradicional da história do pensam ento político naquela cultura
estava m inado. Foi isso que D un n e Skinner sentiram n o final da
década de 60, e sua polêm ica contra a história tradicional do
pensam ento político prosseguiu com um sentido claro de que um a
filosofia política m oderna e sistem ática era pelo m en os possível.
Sk in n er disse precisam ente isto17:
Tudo em que eu desejo insistir é que quando se afirma que o objetivo
do estudo histórico de tais questões é que possamos aprender diretamente,
a partir das respostas, será percebido que o que conta como uma resposta
em geral vai parecer, em uma cultura ou período diferente, tão diferente
em si que dificilmente pode ser pelo menos útil, até prosseguir pensando
nas questões relevantes como sendo ‘as mesmas’ no sentido absoluto
requerido. Mais rudemente: devemos aprender a fazer a nossa parte
pensando por nós mesmos.
A “ nova” história do pensam ento político era portanto a
contrapartida da “ nova” filosofia política do m u n d o de língua
17. E m Tully, Meaning and Context, p. 66.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
285
inglesa, nos an os 70 e 80: transferiu a carga de educar os cidadãos
para os valores políticos, para o fundo do corredor da academ ia e
para os aposen tos dos filósofos que estavam, m ais um a vez, prontos
para agarrá-los.
Ironicam ente (na visão da teoria de G unnell, de que Strauss,
V oegelin e A rendt eram os prim eiros alvos desta nova história),
escritores com o Strauss e seus seguidores estavam, com o vim os,
m ais bem situados para resistir a essa abdicação, do que os aliados
dos positivistas com o M erkl. A afirm ação de que há, objetivam en­
te, um a única filosofia política verdadeira para ser extraída m edian­
te leituras esotéricas dos grandes textos (a afirm ação m ais memoravelm ente associada a Strauss), não é logicamente im possível (nada
além da reivindicação de que há um a fonte infalível de doutrina
m oral a ser encontrada na m argem direita do Tibre). Em certo
sentido, Strauss e Rawls estavam am bos tentando prover seus
leitores com um a filosofia política única, válida, em bora estivessem
utilizando m étodos m uito diferentes para produzi-la. A sobrevivên­
cia institucional do straussianism o nos departam entos de ciên­
cia política norte-americanos não é por isso de m odo algum
surpreendente.
Deveria ser dito que o ideal de um a nova filosofia política que
proveria a A m érica m oderna (e, por implicação, sociedades sim i­
larm ente situadas) com um conjunto coerente de valores está
parecendo m uito m enos plausível em 1990 que em 1970. V inte
an os de atividade filosófica im pressionante serviram bastante para
enfatizar a natureza disparatada dos valores m odernos, apesar de
algum a com placência chocante a esse respeito, por parte de alguns
teóricos liberais. A busca é m ais um a vez, com o foi antes d a obra
de A rrow , de um a teoria que p o ssa acom odar o pluralism o radical
dos valores (em bora ninguém atualmente su pon h a que “ a cidada­
n ia” irá ou poderia decidir a questão). N esse contexto, não seria
surpreendente se as pessoas p assassem a acreditar que, a* reflexão
em um a literatura política existente fosse o cam inho para se pensar
acerca d o s valores políticos e trazer a variada população de um a
sociedade liberal para algum equilíbrio intelectual am plo; na
286
PETER BURKE
verdade, ist© é m ais ou m enos o que Richard Rorty propõe (em bora
a literatura relevante para ele seja m uito m ais am pla que aquela
abrangida por Sabine). E m bora a retórica com que Rorty fala sobre
o “ iron ism o” seja (apropriadam ente) diferente do relativismo tími­
do de escritores com o Sabine, não é claro que haja um abism o
intelectual tão grande quanto ele poderia su po r.18
O relato que eu estava fazendo é m anifestam ente sobre os
teóricos de língua inglesa, e o declínio d a teoria política de língua
inglesa n o início do século vinte e seu renascim ento no final dos
an os 60 desem penham nele um papel crucial. A s questões em
debate nas diferentes tradições intelectuais da França ou da A lem a­
n h a desem penharam (de início) um papel m uito pequeno nessas
discussões dos anos 60, e Skinner, D un n e Pocock sem pre foram
um pouco resistentes a qualquer tentativa de vincular seu trabalho
àquele de teóricos com o H irsch (que atirou contra esses debates)
ou Koselleck. A principal razão d isso foi que, de seu ponto de vista,
o objetivo im portante a ser estabelecido é a sim ilaridade m etodo­
lógica entre a história das idéias e a história de outras atividades
hum an as. Foi isso que estava no âm ago das repetidas tentativas de
Skin ner de analisar as afirm ações político-teóricas com o’ “ atos do
discu rso” e daí em diante a tratá-las do m esm o m odo com o m ais
historiadores m un d an os tratavam outros tipos de “ atos” . A questão
m ais am pla de com o podem os alcançar um a com preensão histórica
d a atividade hum an a em geral não foi sua preocupação central.
N o continente, no entanto, essa era a questão chave, e ò fato
de a história hum an a consistir ao m esm o tem po do ato e da
elocução, era em geral aceitos com o certos. Dilthey, por exem plo,
em The Construction of the Historical World in the Human Studies,
tornou claro que a “com preen são” e a “ interpretação” , principais
tem as d a tradição hermenêutica, estão relacionadas a três tipos de
“expressão” : “conceitos, julgam entos e estruturas m aiores de pen­
sam en to” , “ ações” e “ expressões em otivas” .19 Su a orientação (ou,
18. V er particularm ente R ichard Rorty, Contingency, lrony, and Solidaricy, C am b ridge,
1989, p. 80-1.
|>) W . nilthcy, Selected Writings, C am b ridge, ed. H .P. Rickm an, 1 976, p. 219.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
287
m ais propriam ente, a de Hegel) foi seguida por todos os par­
ticipantes dos debates germ ânicos sobre hermenêutica. O deba­
te m etodológico inglês perm aneceu, assim , oblíquo ao debate
continental, pois a assim ilação de Skinner da elocução para a
ação poderia encontrar um .lar (digam os assim ) ou no cam po de
H aberm as ou naquele de G adam er. N a verdade, com suas referên­
cias explícitas, rem ontando a JCollingwood, ele representava um a
franca recuperação de um antigo respeito inglês pela herm enêutica
germ ânica.
Por essa razão, com o recentemente observou David Hollinger20, a crítica a Skinner de um ponto de vista pós-estruturalista
(com o as queixas derridaístas de D avid H arlan 21) é falha, pois se
precisam os ter um a história desconstruída das idéias, devem os,
pelo m esm o indício, ter u m a história desconstruída de tudo, e
Skin ner provavelmente ficaria contente com esta conclusão, assu ­
m in do a prem issa com o verdadeira - algo sobre o qual sua
m etodologia é, estritamente falando, neutra. Por outro lado, sua
prática profissional e algum as de suas observações expressas suge­
rem que ele en do ssa pelo m enos a possibilidade de se adquirir
algum tipo de com preensão genuína do que os agentes históricos
estão fazendo; ou que um a com preensão deste tipo é um a su p o si­
ção de procedim ento tão profunda de se ter algo a ver com os outros
seres h u m an os (a visão ínter alia de escritores com o D avidson) que
question ar su a veracidade é sim plesm ente assum ir o tipo de
op inião radicalm ente cética com a qual ninguém pode realmente
conviver.22
A gora podem os entender por que a história do pensam ento
político, que realmente tem sido escrita contra esse fundam ento
m etodológico, m uitas vezes tem parecido a seus detratores com o
2 0 . “ T h e R eturn o f the Prodigal: T h e Persistence o f H istorical K n ow ing” , American
Historical Revieu/, 94, p. 610-21, 1 989.
,
2 1 . “ Intellectual H istory an d the R eturn o f Literature” , American Historical Review, 94,
p. 5 8 1 - 6 0 9 ,1 9 8 9 .
2 2 . Q u en tin Sk in n er, “A Reply to m y C ritics” , em Tully, Meaning and Context,
especialm ente p. 23 8 e 246-8.
288
PETER BURKE
m uito m en os original e brilhante do que eles esperavam dos
m anifestos m etodológicos. Q ualquer evidência que um historiador
razoável aceitaria com o parte de um a explicação do porquê um
agente histórico fazia algo será aceitável para um historiador
m oderno do pensam ento político, e m uitas vezes não haverá um
m étodo claro e sim ples para se determ inar o que conta com o
evidência relevante. U m bom exem plo d isso é fornecido por um
problem a que os historiadores do pensam ento político são em geral
cham ados a resolver - a questão de haver ou não um a diferença
substancial entre as obras produzidas pelo m esm o autor em
diferentes épocas da sua vida. Este é o problem a do fam oso coupure
épistemologique nas considerações althusserianas de M arx; é o
problem a do relacionam ento entre o Príncipe de M aquiavel e seus
Discursos, entre as várias redações da teoria política de H obbes,
entre os prim eiros e os últim os escritos de Locke sobre a tolerância,
entre a República e as Leis de Platão etc. (com o ilustra essa lista,
dificilm ente há um teórico político im portante, em relação ao qual,
este não seja um problem a significativo).
Evidentem ente, algum as leituras dos textos em questão os
reconciliarão, e outras exigirão que sejam m antidos separados. A
perspectiva de reconciliação pode em si parecer parte d a justificativa
para um a leitura particular, m as o m esm o pode ocorrer com a
perspectiva da separação - por exem plo, poderia explicar porque
um autor teria abordado duas vezes o m esm o material. N ão há a
priori um a suposição ou um m odo (e nesse aspecto a coerência
entre os textos pode ser considerada diferente da coerência interna
de um texto e, nesse caso, o ôn us da prova fica por conta daqueles
que consideram que um texto é internam ente contraditório). M as
é difícil perceber o que seria adequado com o um argum ento a
posteriori. N ão é provável que nem a evidência interna, nem a
externa encerre o assunto. O que conta com o evidência interna irá
se m odificar, se a bon dade interpretativa solicitar que pretendam os
um a coerência entre as obras, enquanto a evidência externa, na
ausência de um a declaração inequívoca e confiável do próprio autor
sobre o relacionam ento entre as obras (e eu desconheço tal
A ESCRITA DA HISTÓRIA
289
declaração po r parte de qualquer grande teórico), não irá m odificar
qualquer leitura plausível delas.
N en h u m a teoria sobre a m aneira de interpretar os textos
cobrirá este caso, pois o que está em jogo aqui é a verdadeira
identidade de u m texto. Em um a visão possível, o texto é o conjunto
com pleto de afirm ações de um autor sobre um tópico (particular­
m ente se - com o foi verdade, por exemplo, n o caso de M aquiavel
- as obras em questão foram em certo m om ento difundidas
sim ultaneam ente pelo autor), e em outra visão o texto de cada vez
recebe um n om e e tem repercussão separadam ente. Em ainda outra
visão, o texto tem cada elocução assum ida separadam ente. Por que
um a obra escrita durante tantos anos (com o O C apitai) deveria ser
considerada m ais com o um a unidade, do que com o várias peças
separadas, escritas em um período de tem po m ais curto (com o o
ensaio de M ill sobre a Liberdade e o Utilitarism o)?
O objetivo dessas observações não é pôr em dúvida a possibi­
lidade de u m a escrita inteligente e sensível da história do pen sa­
m ento político, m as enfatizar que no final terá de haver algum
julgam ento, por parte do historiador, sobre com o fazer seu relato
particular, e o que parece plausível com o um a m aneira de um ser
h u m an o se com portar nessas circunstâncias, o que não pode ser
decisivam ente justificado contra um a variedade de outros julga­
m entos diferentes. A s qualidades intelectuais necessárias a um
bom historiador, antes de 1969, são aquelas necessárias após 1969,
e n ão deveria ser surpreendente que as m elhores histórias do
pensam ento político, produzidas nas décadas de 70 e 80, tenham
exibido m uito claram ente (no todo) seus com prom etim entos m e­
todológicos. O que não foi m ostrado claramente, entretanto, foi a
convicção de que o que estavam escrevendo era história, e não a
exposição de u m conjunto de valores para a cidadania do final do
século vinte.
HISTÓRIA DO CORPO
Roy Porter*
Eu disse que não éram os troncos nem pedras está m uito bem . D everia ter acrescentado que
tam bém não so m o s an jo s, gostaria qu e fôssem os m as h om en s revestidos d e corpos e governados por
n o ssas im aginações.
Laurence Sterne, Tristram ShancI}
Ressuscitando o corpo
Em u m livro provocativo1, Leo Steinberg cham ou a atenção
para dois fatos: prim eiro, em u m a tradição da pintura florescente
durante a Renascença, C risto foi em geral retratado tocando, ou
senão, ch am an do a atenção para o seu pênis. Segundo, os histo­
riadores de arte consistentem ente ignoraram essa notável form a de
representação. Steinberg explica a significação doutrinária do gesto:
ele foi design ado para assinalar a hum anidade do Filho, o fato de
Ele ter sid o gerado, não criado. M as ele não está m en os interessado
* A ssistente-sênior de H istória d a M ed icina d o Instituto W ellcom e, em Londres.
1. Leo Steinberg, The Sexuality of Christ in Renaissance A rt and Modem Oblivion, N ova
York, 1 983.
292
PETER BURKE
em explorar o ponto cego dos historiadores de arte. A sexualidade
do corpo de C risto tornou-se, por assim dizer, “ invisível” , porque
os estudiosos operam tipicamente dentro de tradições interpretativas, para as quais os significados que são m entais, espirituais e
ideais assum em um a autom ática prioridade sobre as questões
puram ente m ateriais, corpóreas e sensuais.
O ponto essencial de Steinberg aplica-se de um a form a m ais
am pla. A té há pouco tem po, a história do corpo tem sido, em geral,
negligenciada, não sen do dificil se perceber o porquê. Por um lado,
os com ponentes clássicos, e por outro, os judaico-cristãos, de n ossa
herança cultural, avançaram am bos para um a visão fundam ental­
m ente dualista do hom em , entendida com o um a aliança m uitas
vezes an sio sa da mente e do corpo, da psiquê e do som a; e am bas
as tradições, em seus cam inhos diferentes e por razões diferentes,
elevaram a mente ou a alm a e denegriram o corpo.2 E sse é um
aspecto totalm ente fam iliar da metafísica jda n o ssa civilização, que
não necessita aqui de elaboração. Ela se infiltra fundo e exerce um
poder penetrante: m esm o os escritores que buscaram resgatar o
corpo da negligência ou da desonra, ainda assim , em geral perpe­
tuaram as velhas hierarquias. A ssim , com o sugere a m inha epígra­
fe, em m eados do século dezoito Laurence Sterne podia defender
os “ h o m en s” contra a calúnia de não serem puram ente espirituais
(“ an jo s” ), m as apenas até o ponto de dizer que eles estão “ revestidos
de corp o s” - um a fórm ula que preserva o dualism o tradicional e
deixa o corpo de algum m odo um tanto secundário e quase
acidental.3 Sterne não diz que os hom en s são seus corpos, do modo"
que as fem inistas de hoje podem falar de O ur Bodies, O ur Selves.4
2. É claro q u e este é um m o d o tolam ente sim plista de se colocar u m a situação bastante
com plicada. Para as bases intelectuais d essas heranças culturais, ver B en n ett Sim o n ,
M ind and M adness in Ancient Greece, Ithaca, 1 978; E .R . D o d d s, The Greeks and the
Irrational, Berkeley e Lon dres, 1 951; e para o C ristian ism o, F. Bottom ley, Attitudes
to the Body in Western Christendom, Lon dres, 1979.
3. S o b re Stern e, ver Roy Porter, “ A g ain st the Sp le en ” , em V alerie Grosvenor-M yer (ed.),
Laurence Sterne: Riddles and Mysteries, Lon dres e N o v a Y ork, 1 984, p. 84-99; ].
R odgers, “ Ideas o f Life in Tristram Shandy: C on tem porary M edicine” , tese d e P h.D .,
U n iv ersid ad e de East A n glia, 1978.
4. Para u m a introdução às perspectivas fem inistas contem porâneas, ver S u san Brownm iller, Femininity, Lon dres, 1984.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
293
A im plicação d essa últim a observação é que atualm ente há
tentativas em m ovim ento para dem olir as velhas hierarquias
culturais que privilegiaram a m ente sobre o corpo e, por força de
analogia, san cion aram sistem as inteiros de relações de poder
regulador-regulado. E sse p rocesso desm istificador certamente
está ocorren do, sen do fácil apontar as profu ndas m udanças
culturais na últim a geração que subverteram a puritana e platô­
nica su speição do co rp o :5 a revolução sexual e a “ perm issividade”
em geral, o capitalism o con sum ista, as críticas acum uladas, tanto
pela “con tracultura” d o s an os 60, quanto pelo fem inism o dos
70, e assim p o r diante.6 Esta revolução cultural tem sido clara­
m ente influente - com o sugere o caso do livro de T en b erg - no
redirecionam ento da atenção d o s estu diosos da m esm a m aneira
para longe d as bem estabelecidas su b disciplin as idealistas com o
a história das idéias, e no rum o d a exploração da “ cultura
m aterial” , da qual faz parte a história d o corpo.
Este novo em preendim ento foi beneficiado por n um erosos
estím ulos. G raças a seu m aterialism o intrínseco, o m arxism o
proporcion ou um a matriz fértil, e as obras nesta tradição, com o
Rabelais and His World, de M ikhail Bakhtin, apresentaram m ode­
los influentes do corpo encarado com o um foco para a resistência
e a crítica populares dos significados oficiais.7 C o m suas am bições
de construir u m a história total, e sim patias pelo projeto de um a
história científica biologicam ente fúndam entada, o saber Annaliste
prom oveu p esqu isa em todas as dim ensões da vida material, desde
5. U m a depreciação evidentem ente au m entada pelo recato tradicional, pelo bowdlerism o etc. V e r P. Fryer, Mrs. Grundy: Studies in EnglisK Prudery, Lon dres, 1 963; M .
Jaeger, Before Victoria, Lon dres, 1956.
6. P ara in terpretações críticas de tais p ro ce sso s co m o m eras m o d ificaçõ es n o interior
d o sistem a existente, n a verd ad e co m o “ d e ssu b lim ação rep ressiv a” ,, ver H crbcrt
M arcu se , One Dim ensional M an , L o n d res, 1 9 6 4 ; C . L asch , The C ulture o j
N arcissism , N o v a Y ork, 1 9 7 9 .
7. V er M . B akh tin, Rabelais and his World, C am b rid ge, M ass., 1968; A. Schm idt, The
Concept o f Nature in Mane, trad. B . Faw kes, Lon dres, 1971.
PETER BURKE
294
o berço até o' túm ulo.8 A antropologia cultural, tanto n a teoria,
quanto n a prática, proporcionou aos historiadores linguagens para
a discu ssão do s significados sim bólicos d o corpo, em particular
com o contextualizados n o interior de sistem as de m udança social9;
e de u m a m aneira bem sim ilar, a sociologia10, e a sociologia m édica
acim a de tu do11, encorajou os historiadores a tratarem o corpo
com o a encruzilhada entre o ego e a sociedade. O fem inism o
acadêm ico apontou para as questões costum eiram ente negligencia­
d as ou reprim idas d o enfoque m asculino e fem inino da experiên­
cia.12 E, não m enos, o desenvolvim ento m aciço da dem ografia
histórica durante a últim a geração n os im pôs as rígidas estatísticas
vitais de “ nascim ento, cópula e m orte” , a serem encaradas com o a
chave para o entendim ento de todos os aspectos de classe, cultura
e consciência.13
Entretanto, nós evidentemente não esperam os lançar com
descuido todos estes ingredientes juntos"em um a tigela do saber e
verificar o surgim ento autom ático de u m a história do corpo com o
8. V er Peter Burke, “ Revolutíon in Popular C u ltu re” , em Roy Porter e M ikylás T eich
(ed.), Revolutíon in History, C am b rid ge, 1 986, p. 206-25.
9 . Para um exem plo de investigação, ver Peter Burke, The H istoricalAnthropologyofEarly
Modem Italy, C am b ridge, 1 987; extrem am ente úteis são tam bém M ichael M acD on ald, “A nth ropological Perspectives o n the H istory o f Science an d M edicine” , em P.
C o rsi e P. W ein d lin g (ed.), Information Sources in the History and Medicine, Lon dres,
1 9 8 3 , p. 61-80.
10. B .S . T u rn er, The Body and Soáety: Exploradons in Social Theory, O xford , 1 9 8 4 . O
livro de T u rn er é até agora a tentativa m ais o u sad a de se criar u m a sociologia d o
co rpo. H á u m a estim ulante descrição sob re a negligência d o corpo n a literatura, no
en saio d e V irgin ia W o o lf “O n being ill” , em Collected Essays, Lon dres, 1 967, p.
193-203, v. IV . Para o s p róprios problem as de W o o lf com a “ incorporação” , ver S.
T rom bley, "Aií that Summer She Was M a d ”. Virginia W oolf and her Doctors, Londres,
1 981.
11. A m elh or p esq u isa e a m ais atual é Bryan S . T u rn er, M edicai Power and Social
Knowledge, Beverly H ills e Lon dres, 1987.
12. C o m o u m verbete bibliográfico, ver o en saio d e Jo a n Scott neste volum e.
13. A rth u r Im h o f esteve à frente, n a tentativa de relacionar a dem ografia histórica técnica
a qu estões m ais am plas d a existência social. V er, por exem plo, seu “ M ethodological
P roblem s in M o d e m U rb a n G eograph y: G rap h ic R epresentations o f U rb a n M ortality 1 7 5 0 -1 8 5 0 ” , em Roy Porter e A n d rew W ear (ed.), Problems and Methods in the
History of Medicine, Londres, 1 9 87, p. 101-32.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
295
um prato pronto. A natureza e os conteúdos da história do corpo,
assim com o os m étodos pelos quais ela deve ser pesquisada, são
em si o s pom os da discórdia.
*
Abordagens
O s estudiosos advertiram de que seria sim plista dem ais assu ­
m ir que o corpo h um an o existiu eternamente com o um objeto
natural não problem ático, com necessidades e desejos universais,
afetado de m aneiras variadas pela cultura e pela sociedade (em um a
época, “ reprim ido” , em outra, “ liberado” etc.). T al divisão grosseira
entre natureza e cultura seria obviam ente inútil; e seria equivocado
- e irônico! - proporcionar ao velho dualism o m en te/corp o um a
nova vida, tentando-se estudar a história (“ biológica”) do corpo
independente das considerações (“culturais”) da experiência e da
expressão n a linguagem e na ideologia.14
O ponto essencial está bem estabelecido. Evidentemente deve­
m os enxergar o corpo com o ele tem sido vivenciado e expresso no
interior de sistem as culturais particulares, tanto privados quanto
públicos, por eles m esm os alterados através dos tem pos.15 Se (para
se apontar para um a questão bem berkeleyana) os corpos estão
presentes para nós, apenas por m eio da percepção que tem os deles,
então a história dos corpos deve incorporar a história de suas
percepções. M as, com o certamente poderia ser argum entado, ainda
que seja assim , isso não significa que a história do corpo antes de
tudo com po n h a u m projeto n a história das idéias ou em Vhistoire
des mentalités - preocupada com as representações do corpo com o
14. A interpretação psico-fisiológica d o corpo é evidentem ente p o r si m esm a im portante.
V er Jo n ath an M iller, The Body in Question, Lon dres, 1 9 78. Prossegue o debate sob re
a po ssib ilid ad e de as perspectivas sociobiológicas poderem ilum inar a pesquisa
histórica.
15. W .I. W atso n , “W h y Isn ’tth e M in d -B o d y Problem A n cient?", etn Paul K. hcyernbend
e G rover M axw ell (ed.), Mind, M atter and Method, M innenpoli», 19 66, p. 92 102;
L J . Rather, M ind and Body in E ig/iteen Century Medicine, U n ulrcs, 196S.
296
PETER BURKE
distintas (digam os assim ) das representações do trabalho ou do
poder. N a verdade, têm sido feitas tentativas para interpretar a
história do corpo essencialm ente com o a explicação de suas
“ representações” no “discu rso” , utilizando-se as técnicas pós-estruturalistas e “ desconstrutivistas” da análise textual.16 Acredito, no
entanto, que há um perigo real em se levar m uito longe esse
repúdio teorizado do positivism o vulgar.
A lgu m as das explorações m ais brilhantes da anatom ia do
corpo têm sido os trabalhos de críticos literários e estudiosos afins,
engajados na análise d o discurso e n a “ desconstrução” textual,
desprezando as “ representações” alteradas do ego incorporado.
M as o ab an don o irresponsável do em pirism o em prol da teoria e
da herm enêutica tem suas próprias ciladas, em particular o risco
de extrapolações descontextualizadas, derivadas d o u so acrítico de
m atérias n ão representativas de evidência. U m exem plo de um a
obra capturada nesta arm adilha é The Tremulous Private Body, de
Francis Barker, um a tentativa corajosa, abrangendo cinco séculos,
de interpretar a história do corpo - na verdade sua “ dissolução” .17
Através de um a leitura “ desconstrutivista” do que parece um a
am ostra puram ente casual de textos-chave selecionados da cultura
erudita (Hamlet, Anatomy Lesson de Rem brandt, Diary de Pepys
etc.), Barker antecipa a generalização de que o corpo, que foi um
dia um objeto público, tornou-se privatizado - com efeito o local
da vergonha narcisista - no interior da cultura burguesa. N a
verdade, declara ele, o corpo “desapareceu” com pletam ente com o
u m instrum ento de erotism o, sendo substituído pelo “ livro” . E ssas
são considerações poderosas realmente para deduzir de poucos
textos exam inados em gloriosa pesquisa a consideração da textura
da história no sentido am plo. A lém disso, Barker tem tanta fé em
seu m étodo de leitura hermética, textual e concentrada qu e siste­
m aticam ente ignora as pesquisas de outros estudiosos - um a
idiossincrasia que, com o apontou J.R.R. Christie, entre outras
1 6. V er R . B arth es, Le Plaisir du Texte, Paris, 1 9 7 3 ; J. D errida, Writing and Difference,
Lon dres, 1978.
17. F. Baker, The Tremulous Private Body, Londres, 1984.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
297
coisas transform a em um a bobagem sua avaliação da pintura de
R em brandt.18
O utras interpretações recentes da história do corpo que se
servem principalm ente dos preceitos da análise textual parecem
igualm ente abertas à objeção. The Female Body in Western Culture,
um volum e de en saios que se estende desde a “ G ênese até G ertrude
Stein ” , alardeia o local daqu ilo que o editor cham a de “(Re)escrevendo o C o rp o ” , e enfatiza o m odo com o o corpo deve ser
encarado, não com o um objeto de “carne e o sso ” , m as com o um a
“ construção sim bólica” .19 M uito bem . M as m uitos de seus colabo­
radores vão adiante n a suposição que sustenta o livro de Barker,
de que a difícil elucidação de um pequeno corpus de textos clássicos
proporcionará reflexões privilegiadas sobre os problem as e parado­
xos da experiência de m aneira geral. E ssa é um a suposição dúbia,
para n ão dizer arrogante. A ssim , um ensaio com o ‘Speaking
Silences: Women’s Suicide' deixa de exam inar o que alguns novelis­
tas n os relatam da consciência física de suas heroínas suicidas para
oferecer conclusões gerais sobre a experiência do suicídio fem inino
n a vida real, n ão levando em conta um corpo substancial de
pesqu isa em pírica dos testem unhos de autênticas suicidas que na
verdade contradizem os achados apresentados.20
U m exem plo desse gênero não m ais satisfatório é The Body in
Pain (que m odestam ente apresenta o subtítulo de The Making and
Unmaking of the World), de Elaine Scarry.21 C o m b in an d o a análise
filosófica com a literária, Scarry exam ina as representações intelec­
tuais, artísticas e culturais d a dor fisicam ente localizada a partir da
18. O sab er de Barker é gloriosam ente derru bado em J.R .R . C hristie, “ B ad N ew s for the
B ody” , A rt History, 9, p. 263-70, 1986.
19. S . R Su leim an (ed.), The Female Body in Western Culture, C am b rid ge, M ass., 1986,
2 (introdução d o editor).
2 0 . M argaret H igon net, “ Speakin g Silences: W o m en ’ s Su icid e” , em Su leim an (ed.), The
Female Body, p. 68-83; m uitas d as assertivas ali feitas sob re m ulheres suicidas que
são ab an d o n ad as por h om en s vão contra a cu id ad osa análise em pírica de O live
A n d erso n , Suicide in Victorian and Eduiardian England, O xford , 1987.
21. E laine Scarry, The Body in Pain. The M aking and Unmaking of the World, N ova Y ork
e Lon dres, 1985.
298
PETER BURKE
Bíblia, p assan d o por M arx, até chegar aos dias atuais. O objetivo
de seu texto substancial é estabelecer que é inerente à essência da
dor o fato de ela ser “ inexprim ível” . Ela nos apresenta essa
conclusão, n ão apenas com o um a nova interpretação, m as com o
um a reflexão privilegiada em “ um reino da experiência hum ana
conhecido por todos, m as com preendido apenas por poucos” . M as
o elitism o rarefeito é certamente negado pelos verdadeiros relatos
de do r (que, longe de serem “ inexprim íveis” , são com freqüência
expressos com exatidão e eloqüência) que as pessoas com uns n o
p assad o n os legaram em grande abundância. E claro que para
alguém que aspira à m ais alta exegese intelectual, a pesqu isa
em pírica pode, com o o próprio corpo, parecer grosseira e vulgar.
Entretanto, para os historiadores realmente preocupados com a
m aneira com o as p essoas reais sentem dor, um a obra com o
Geschichte unter der Haut, de Barbara D uden - análise pioneira
das experiências de doença de quase duas mil m ulheres na
A lem anh a, n o início do século dezenove, preservadas através dos
registros m édicos guardados por seu m édico, D r. Storch - oferece
u m avanço esclarecedor.22
Está certo que os estudiosos sensíveis insistam n a com plexida­
de conceituai da história do corpo. M as é pelo m en os tão im por­
tante evitar flutuar n a estratosfera da análise do discurso e descon­
siderar os m ateriais disponíveis m ais cotidianos e tangíveis. E de
fato precisam os não ser tão negligentes sobre as possibilidades de
se investigar a história do corpo, através d o u so de m étodos
em píricos m un d an os. E claro que em m uitas questões n ossa
inform ação é irrem ediavelmente escassa. Q ue posições de coito as
pessoas usavam n o século dezesseis, ou n o dezoito?23 Dificilm ente
sabem os. O prim eiro registro escrito de diários e cartas é, em
grande parte, reticente - e on de é eloqüente, provavelmente, não
2 2 . B arb ara D u d en , GescKicKte unter der H aut, Stuttgart, 1 9 8 7 . D u d en tam b ém m ostra
co m o seu gru p o de m ulheres com partilhava de u m a visão de seu s próprios corpos
co m o d in âm icos e pod erosos, o s grandes centros d a criação d a vida.
23. V er a d iscu ssão n a introdução a G .S . R ou sseau e Roy Porter (ed.), Sexual Underworlds
o f the Enlightenment, M anchester, 1987.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
299
é representativo; e ainda há razões óbvias para um ceticismo
saudável em relação à utilização do testem unho de fontes com o
gravuras pornográficas ou m anuais de aconselham ento.24 A lém
disso, m esm o q u an d o tem os disponíveis n um erosas fontes, estas
requerem um a interpretação sutil e ainda assim podem mistificar.
Q u a n d o lem os em registros de adm issão hospitalar que as m ulhe­
res eram com um ente adm itidas nas enferm arias, nos séculos
dezoito e dezenove, sofrendo de “ histeria” , quase sem pre não está
claro o que precisam ente, se é que havia algo, estava fisicamente
errado; elas podiam ter experim entado paralisia parcial, som ática
ou psicossom ática; podiam sobretudo ter estado sobrecarregadas
de trabalho ou subalim entadas (a “ histeria” , apesar do estereótipo
com um , era u m a condição com um , tanto ao pobre quanto ao rico).
Isso pode provar um exem plo em que o rótulo d a doença serviu
com o pouco m ais que um a sen ha adm inistrativa para assegurar a
adm issão. Seria u m em preendim ento arriscado esperar que n o sso s
registros de diagnóstico m édico nos proporcionassem um a história
das doenças confiável, objetiva e epidem iológica.25
A p esar de tais dificuldades, um a enorm e quantidade de infor­
m ação suficientem ente confiável sobrevive, para permitir a con s­
trução de perfis seguros d a estatística vital dos corpos no passado.
M ais fundam entalm ente há, é claro, registros de batism os e
enterros para m uitas partes da Europa, do início dos tem pos
m od ern os em diante, a partir dos quais os estudiosos desenvolve­
ram técnicas para se extrair indícios confiáveis dos índices de
natalidade e m ortalidade, fecundidade, fertilidade, crises de m orta­
lidade relacionadas a doenças e assim por diante; a lei de assistência
pública e os registros hospitalares tam bém abrem janelas para a
história d a resistência e d a enferm idade e para o preço pago pelo
2 4 . Para u m a introdução a tais fontes, ver R. M accu bb in (ed.), Unauth,orized Sexual
Behavior during the Enlightenment, publicação especial de Eighteenth Centura Life, m aio
de 1 985.
2 5 . V er G . R isse, “ H ysteria at the E dinburgh Infirm ary” , M edicai History, 32, p. 1-22,
1988.
300
PETER BURKE
trabalho du ro.26 M as, além disso, sobrevivem arquivos particulares
que fornecem indicadores extremamente delicados.
Por exem plo, existem inúm eros livros de adm issão para orfa­
natos e escolas, além de registros de recrutamento para o exército
e a m arinha, abrangendo um período de vários séculos. N o meio
deles, tem os acesso à idade e ao peso de algum as dezenas de
m ilhares de indivíduos. A queles da Inglaterra que sobrevivem
foram processados para proporcionar u m perfil coletivo da propor­
ção id ad e/p eso de m eninos e rapazes, alterada n o decorrer das
gerações. T en d o com o base a investigação controlada de tais dados
físicos, podem ser feitas extrapolações sobre m udanças n a ingestão
alim entar, tanto qualitativa quanto quantitativa, gradientes de
adaptação etc. O s aspectos físicos podem oferecer um índice m ais
confiável do que os salários para o estabelecim ento das alterações
n o padrão real de vida.27
D a m esm a forma, possuím os um registro fotográfico que
docum enta, agora, quase um século e m eio dos aspectos físicos das
pessoas. U m a vez m ais, não há necessidade de ridicularizar as
m ás-interpretações qu e resultariam de u m a ingênua confiança na
veracidade das im agens visuais; é claro que a câm era mente, ou,
m ais precisam ente, as fotografias não são instantâneos da realida­
de; m as, com o as pinturas, com põem artefatos culturais que
transm item com plicados sinais convencionais codificados aos “ lei­
tores” de prim eira linha.28
M as este em bargo se aplica m ais a algum as fotografias que a
outras. Retratos po sado s captam com o as pessoas desejam ser
lem bradas, todas lim pas e em bonecadas em seu m elhor aspecto
dom ingueiro. M as os fotógrafos vitorianos tam bém gostavam de
2 6 . V er d assicam en te E.A . W rigley e R .S . Schofield, The Population History of England
1 5 4 1 -1 8 7 0 , Lon dres, 1982.
27. R oderick Flou d, K enneth W achter e A n n abell Gregory, Height, Health and History,
C am b rid g e, 1990.
2 8 . Para os problem as de interpretação de tal evidência, ver D .M . F ox e C . Lawrence,
Photographing Medicine: lmages and Power in Britam and America since 1 8 4 0 , Springfield, C o n n ., 1 988. Para interpretações valiosas, ver D avid Piper, The English Face,
L on dres, 1957 e Personality and the Portrait, Lon dres, 1972.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
301
fazer “ docum entários” casuais de instantâneos de rua, e esses
captavam as pessoas em seus m ovim entos e atitudes do cotidiano;
com o resultado, registraram tais aspectos com o linguagem do
corpo e espaço social de um a m aneira m ais informativa que
qualquer texto im presso. O arquivo fotográfico revela e confirm a
m uita coisa sobre as transform ações físicas da condição hum ana
nos tem pos m odernos (envelhecimento, deform idades, m á nutri­
ção etc.), e tam bém o que G offm an cham ou de “apresentação do
ser” (linguagem corporal, gestos e a apropriação do espaço físico).29
A s fotografias perm anecem estranham ente subexploradas com o
um recurso histórico.
A b u sca da história do corpo não é, portanto, som ente um a
questão He triturar as estatísticas vitais sobre o físico, nem apenas
um conjunto de m étodos para a decodificação das “ representa­
ções” . E antes um cham ado para a com preensão da ação recíproca
entre os dois. N o m undo, q u ando surpreendem os o olhar superior
do rico sobre o pobre, este gesto era tanto físico quanto sim bólico;
os “ n ob res” (acim a de tudo, suas “ altezas”) eram tipicamente
centím etros m ais altos - um a vantagem ainda aum entada pelos
trajes im ponentes - vestuário e adereços - com que se perm itiam
adornar seus corpos.
D ada a abundância d a evidência disponível, perm anecem os
incrivelmente ignorantes sobre a m aneira com o os indivíduos e os
grupos sociais experim entavam , controlavam e projetavam seus
egos incorporados. C o m o as pessoas interpretavam o elo m iste­
rioso entre o “ ego” e suas extensões? C o m o adm inistravam o cor­
po com o u m interm ediário entre o ego e a sociedade? A lgum as
tradições intelectuais poderiam se com provar frutíferas n a prom o­
ção de tais explorações.
O s sociólogos do corpo ainda consideram a obra de W eber
valiosa, pois um a das resistências estáveis de sua avaliação da ética
protestante está n a revelação de com o o que poderia ser assum ido
29. V er E. G offm an , Stigma, Notes on the Management of Spoiled Identity, H arm ondsw orth, 1 9 6 8 ; idem, The Presentation of Self in Everyday Life, Londres, 1959; idem,
Strategic Interacdon, O xford, 1 970; idem, Interaction Ritual, Londres, 1972.
302
PETER BURKE
antes com o com prom etim entos (questões de salvação e justificação)
doutrinários abstratos (“desencarn ados”) tornaram-se de tal form a
internalizados para terem profundas im plicações no controle e na
disciplina pessoal do corpo.30 Por outro lado, a psico-história nos
m oldes freudianos apontou para um a cadeia de conseqüências
com pletam ente inversa, m ostrando com o as atitudes para com o
m u n d o em geral são com um ente projeções dos m od os com o as
pessoas lidam com suas próprias funções corporais, revelando
assim as lutas interiores entre a consciência - acim a de tudo, o
inconsciente - e sua expressão física. M esm o que grande parte da
psico-história perm aneça viciada pelo dogm ático reducionism o
edipiano e seja extremam ente especulativa, sua integração temática
do interior e do exterior, do privado e do público, é altamente
sugestiva.31
A lém disso, algum as outras abordagens no interior da socio­
logia parecem particularmente dignas da atenção dos historiadores.
A fenom enologia e a etnom etodologia prom overam am bas progra­
m as para a análise de “ encontros íntim os” interpessoais que (ao
contrário, digam os assim , do funcionalism o parsoniano) prestam
a devida atenção ao desem penho do corpo com o um órgão de
com unicação: conversam os com n o sso s corpos. E corajosas tenta­
tivas têm sid o feitas para aplicar tais m étodos a apresentações
sistem áticas e públicas dos egos sociais em com unidades históricas
específicas, com o por exem plo n a análise de Rhys Isaac dos estilos
de vida n a V irgínia colonial.32 M esm o assim , a frente de pesqu isa
atualm ente está, q u an d o m uito, irregular. Poucas áreas particulares
têm recebido atenção e a m aioria de n ós está n o escuro.
3 0 . Para a construção d o Ego, ver P .M . Spacks, Im aginingaSelf, C am b rid ge, M ass., 1976,
especialm ente capítulo 5; J.N . M orris, Versions of the Sei/, N o v a Y ork, 1 9 6 6 ; S .D .
C o x , "The Stranger Within Tfiee”: The Concept of Self in Late Eighteenth Centura
Literature, Pittsburgh, 1 980; J.O . Lyons, The lnvention of the Self, C arb on d ale, 1978.
31. V er Lioyd D eM au se, The Neui Psychohistory, N o v a Y ork, 1 975. Devid E . Stan n ard,
Sfirinking History: On Freud and the Failure of Psychohistory, N o v a Y o rk e O xford,
1 9 8 0 afirm ou que a psico-história desapareceu.
32. V er, p o r exem plo, Rhys Isaac, The Transformation of Virgínia 1 7 0 0 1 8 0 0 , C hap ei
llill, 1981.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
303
N o âm ago deste artigo vou m e dedicar a algum as áreas especiais
do problem a, para ilum inar alguns cam pos potencialm ente frutí­
feros para um a história do corpo e para a avaliação das im plicações
da p esqu isa atual.
Corpo e mente
É de im portância básica u m a com preensão do local subordi­
nado, destinado ao corpo n os sistem as de valor religioso, m oral e
social da cultura européia tradicional. M uito antes de Descartes,
um dualism o fundam ental invadiu a mentalité ocidental; ser h um a­
no significava ser um a m ente encarnada ou, n a form ulação de Sir
T h o m as Browne, um “ anfíbio” . E um dualism o que m uitos
pensadores consideram paradoxal e mistificador, devido à radical
incom preensibilidade das intersecções entre a m ente e a carne. N ão
obstante, tal dualism o tem sido um a força profundam ente modeladora do u so lingüístico, dos esquem as classificatórios, da ética e
dos sistem as de valor. A mente e ao corpo têm sido designados
atributos e conotações distintos. A mente é canonicam ente supe­
rior à matéria. O ntologicam ente, por isso, a mente, o desejo, a
consciência ou o ego têm sido indicados com o os guardiães e
governantes do corpo, e o corpo deve ser seu criado. M as este
esqu em a tem um corolário crucial: quando, com o um servo
desobediente, o corpo se rebela, não são os punh os, pés ou dedos,
os ofensores necessariam ente considerados culpados, m as as fa­
culdades m ais nobres cujo dever era tê-los controlado adequada­
m ente. E um fato que cria profundas tensões para todos os sistem as
de controle pessoal (por exem plo, regimes de educação ou pu­
nição).33
E m aspectos m ais im portantes, esta subordinação hierárquica
do corpo à m ente sistem aticam ente degrada o corpo; seus apetites
33. A ssim , tod as as form as de m aterialism o provocam dilem as sobre a respon sabilid ad e
pessoal. Para o Ilu m in ism o, ver Lester C rocker, A n Age o f Crisis: M an and World in
Eighteenth Centura FrencK Thought, Baltim ore, 1959.
PETER BURKE
304
e desejos são encarados com o cegos, obstinados, anárquicos ou
(no C ristianism o) radicalm ente pecam inosos; pode ser encarado
com o a prisão da alma. Por isso o corpo facilmente ofende,
com etendo o m al ou atos crim inosos. M as devido a sua verdadeira
natureza (sendo imperfeito, até bestial) ele pode, paradoxalm ente,
ser prontam ente desculpado (a fraqueza da carne). A m ente (o ego,
o desejo ou a alma), ao contrário, devido ao seu ofício m ais nobre,
é obrigada a ascender acim a de tal desordem , de tal “guerra civil”
interna; se im plicada, a vontade, idealm ente livre e nobre, parece
ain da m ais culpada de ofensa. A questão de precisam ente com o
atribuir h onra e vergonha, deveres e responsabilidades, respectiva­
m ente à m ente e ao corpo tem sido crucial para a avaliação do
hom em com o um ser racional e m oral no interior de sistem as de
teologia, ética, política e jurisprudência, tanto teóricos quanto
práticos.34
N o século dezessete, um a m ulher sofre de alucinações; seu
com portam ento é excêntrico e bizarro. O s contem porâneos con­
cordam que ela está doente, na verdade que ela está atacada de
m elancolia ou loucura. M as que espécie de aflição é essa? Poderia
ser um distúrbio da su a mente. N esse caso, provavelmente seria
encarado com o algum a form a de po ssessão dem oníaca.35 M as a
idéia de tal invasão satânica era claramente perigosa (no caso de
u m a bruxa suspeita, exigiria um julgam ento ou, m ais geralmente,
im plicava em danação). H ouve assim um a boa razão para se
antecipar um contradiagnóstico: em vez d isso a “loucura” era vista
com o som ática em sua origem, talvez o produto de um ferimento
na cabeça ou de um a enferm idade intestinal (m elancolia = lite­
ralm ente u m excesso de “ bile negra”). Evidentemente, era de
qualquer m odo hum ilhante ser diagnosticada com o u m problem a
dos intestinos (Swift, Pope e outros satíricos ridicularizaram os
soi-disant poetas de gênio de sua época com o não sendo realmente
34. R oger Sm ith , Trial by Medicine: lnsanity and Responsibility in Victorian Trials,
E dinbu rgh , 1981.
35. D .P . W alker, Spiritu aland Demonic M agicfrom Ficino to C am panella, Lon dres, 1958;
Keith T h o m a s, Religion and the Decline of Magic, H arm on dsw orth, 1978.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
305
p o ssu ído s por aflatos, m as apenas sofrendo de flatulência); m as,
ao contrário d a po ssessão satânica, a doença som ática tinha a
válvula de escape de não pôr autom aticam ente em risco um destino
espiritual, um a alm a imortal. D iscutindo tais questões, historiado­
res perspicazes da in san idade com o M ichael M acD on ald dem on s­
traram os perigos do anacronism o. O que para o século vinte
parecia m uito bem ser um sinal de “doença m ental” , e por isso,
parte do ram o da psiquiatria, poderia ter sido interpretado com o
u m a “ in disposição física” há três séculos atrás; os limites do corpo
são fluidos.36
Q uestões da relativa responsabilidade do corpo e da alma
confundiam as tentativas de explicar e conter a enferm idade. N os
julgam entos das bruxas nos séculos dezesseis e dezessete, era crucial
determ inar se os fenôm enos da possessão eram devidos à doença,
à fraude ou a Satã. E a tendência, fortemente defendida pela
profissão m édica, era cada vez mais enfatizar as causas orgânicas
para aquilo que agora cham aríam os sem pre de “ doença m ental” .
A vontade era assim garantido um álibi, e o corpo, q u an d o doente,
era m ais prontam ente desculpado, precisam ente porque era “ m ais
b aixo” d o que a m ente teria sido.
D ois séculos m ais tarde, as percepções das relativas responsa­
bilidades d a mente e do corpo não haviam se alterado muito. N a
época vitoriana, tanto os leigos quanto os profissionais eram m ais
inclinados a designar diretamente com o “ perturbação m ental” o
desarran jo d a consciência. C o m o declínio da crença literal em Satã
e n o fogo do inferno e o fim dos julgam entos das bruxas - em
sum a, com um certo grau de secularização - arriscar-se a u m tal
diagnóstico não m ais provocava tais espectros. N a verdade, a
em ergência d a psicoterapia criou um novo otim ism o de progn ós­
3 6 . Para o s contextos intelectuais e culturais d essas idéias de loucura, ver M ichel Foucault,
M adness and Civilization: a H istorj of lnsanity in the Age of Reason. 'Çraduzido por
Richard H ow ard, N ova York, 1 9 65; M ichael M acdon ald , Mystical Bedlam: Madness,
Anxiety and Healing in Seventeenth Centura England, C am b rid ge, 1 9 81; fundam ental
aqui é G .S . R ou sseau , “ Psychology” , em G .S . R ou sseau e Roy Porter (ed.), The
Ferment of Knowledge, C am b rid ge, 1980.
tico: as enferm idades da mente poderiam ser tratadas e curadas
(assim afirm avam os psiquiatras progressistas) m ais facilmente que
aquelas do corpo. É óbvio que a nova tendência a se atribuir a
responsabilidade da insanidade a distúrbios da consciência poderia
carregar com ela form as distintas de estigm a e censura (todos
tinham o dever de governar sua mente). M as um a nova sim patia
se desenvolveu paralelam ente. A s sociedades por dem ais individua­
listas e p ression adoras (era explicado) criavam grandes expectativas
e árduas responsabilidades; viver n a alta sociedade gerava alta
ansiedade. A ssim , sob circunstâncias apropriadas, as perturbações
m entais ou, com o foram m ais tarde cham adas, os colapsos nervo­
sos, poderiam incluir isenção social e despertar sim patia, ou
m esm o distinção. Por isso, a passagem de dois séculos testemu­
n h ou profundas m udanças nos m apeam entos da mente e do corpo
e os reagrupam entos de suas relações com enorm es im plicações
para a política e para a terapia.
N ão devem os con fu n dir essas m udan ças nas explicações com
o progresso positivo da ciência m édica: n en h u m a ruptura cientí­
fica “ com provou ” os respectivos papéis da m ente e do corpo na
ação direcionadora. Elas antes deviam ser vistas com o sin ais de
reorientações culturais que repensavam as características da mente
e do corpo. Este objetivo, que se aplica a revisões culturais m ais
am plas, é igualm ente pertinente ao problem a de interpretação de
episódios particulares.
T om em o s Freud. N o início de sua prática psiquiátrica, Freud
concluiu que m uitas de suas pacientes neuróticas haviam sido
atacadas sexualm ente qu an d o crianças; isso foi o que elas lhe
disseram . Por razões com plicadas, algum as profissionais, algum as
pessoais, Freud aban don ou essa interpretação, adotando em vez
d isso a opinião de que os relatos das m ulheres não eram acim a de
tudo lem branças, m as antes fantasias, enraizadas n o inconsciente,
sobre acontecim entos traum áticos, que na verdade jam ais ocorre­
ram . A ssim , desenvolvendo u m a teoria de desejos reprim idos,
Freud deu origem à psicanálise. Por isso ele p assou de um a
explicação essencialm ente som ática (o ataque verdadeiro) da etio-
A ESCRITA DA HISTÓRIA
307
logia do distúrbio m ental, para um a explicação localizada apenas
“ n a m ente” ; e propôs um tratamento igualm ente psiquiátrico, a
“ cura pela conversa” . A grande m aioria dos observadores de Ernest
Jon es em diante elogiou Freud por sua reflexão supostam ente
profunda, n o direcionam ento da atenção para longe da vida do
corpo e para aquela da consciência. Podem os, contudo, considerar
este elogio com o refletindo «o arraigado privilégio do intelectual
sobre o físico. A interpretação da m udança das explicações de
Freud é u m a questão absolutam ente m ais com plicada.37
A ssim sendo, as relações m ente/corpo não são “ inatas” , m as
dependentes da cultura. Este relativismo é exemplificado por um a
notável distinção cultural entre a experiência ocidental e a chinesa
na atribuição da enfermidade, o que foi m ostrado pelo historiador
e antropólogo de medicina, Arthur Kleinman. U m americano do
século vinte sente-se “deprim ido” ; ele não consulta um clínico geral,
m as um psicoterapeuta; é diagnosticado com o sofrendo de um
distúrbio psiquiátrico, algum tipo de neurose; o terapeuta investiga
sua história de vida para recuperar sua felicidade. A pessoa equiva­
lente n a C hina, ao contrário, atribui um a enfermidade comparável
a um a desordem e a um a causa físicas. Seu médico confirma que sua
doença é orgânica (pode ser chamada de “ neurastenia”) e prescreve
rem édios. A pontado com o vítima de um a doença somática, é
perm itido ao chinês assum ir o “ papel do doente” , e pode, por isso,
merecer sim patia e atenção. A o contrário, se ele alegasse, com o seu
correspondente americano, alguma forma de perturbação mental,
teria sido um a adm issão terrível e debilitante de defeito e desvio de
caráter, o que lhe teria trazido estigm a e desvantagens.38
3 7 . S o b re Freud, ver H .F . Ellenberger, The Discovery ofthe Unconscious: the History and
Evolution ofD ynam ic Psychiatry, N o v a York, 1971; R .W . C lark, Freud: The M an and
the Cause, Lon dres, 1 982; F ran k J. Sulloway, Freud: Biologist ofthe Mind, N ova York,
1 9 7 9 e J .M . M asso n , The A ssault on Truth: Freud’s Suppression ofthe Seduction Tfieory,
N ov a Y ork, 1983.
3 8 . A rth u r K lein m an , Social Origins of Distress and Disease. Depression, Neurasthenia and
Pain in Modem C hina, N ew H aven, 1 986. V er tam bém C arney Landis e Fred M etder,
Varieties of Psychopathological Experience, N ova Y ork, 1 964. Para u m a d iscu ssão m ais
am p la d o “ papel d o doente” , ver D . M echanic, “T h e C o n ce p t o f Illness Behaviour” ,
Journal of Chronic Disease, 15, p. 189-94, 1962.
PETER BURKE
308
Em outras palavras, com o dem onstra a discussão de K leinm an
sobre as construções rivais som áticas e psiquiátricas da “ perturba­
ção m ental” , o “ corpo” não pode ser tratado pelo historiador,
sim plesm ente com o biológico, m as deve ser encarado com o me­
diado por sistem as de sinais culturais. A distribuição da função e
d a responsabilidade entre o corpo e a mente, o corpo e a alma,
difere extrem am ente segundo o século, a classe, as circunstâncias
e a cultura, e as sociedades com freqüência possu em um a plurali­
dade de significados concorrentes. O estabelecim ento do caso
individual é um tema para ser negociado.
M uita coisa tem dependido de tais atribuições, com o por
exem plo a questão prática da culpabilidade legal. O s historiadores
de m edicina forense, com o Roger Sm ith, elucidaram os dilem as.
U m tiro de um hom em m ata outro. E o proprietário daquele corpo
que deve ser o responsável? Sim , se su a “ m ente” dirigiu o tiro, ou
seja, se houve mens rea, um a intenção culpada; não, teria achado
um tribunal dos séculos dezoito ou dezenove, se ele estivesse fora
de sua m ente, talvez até fora de si, em conseqüência de enferm idade
som ática.
Se, contudo, a responsabilidade for m antida, com o a reparação
deve ser exigida? D urante os últim os dois séculos, ela foi dirigida
principalm ente contra o corpo, através de punição corporal ou
capital. M ais um a vez, n o entanto, m udaram os sistem as de valor
intervenientes; especialm ente a partir do final do século dezoito,
os reform adores penais declararam que era “ m ais n obre” ou m ais
“ h u m an o” não punir o corpo, m as corrigir ou reform ar a mente:
n os term os de M ably, “ a punição deve antes atingir a alm a que o
corpo” . C o m o M ichel Foucault e M ichael Ignatieff particularm ente
enfatizaram, a intenção terapêutica que sustenta o sistem a penal
m oderno ainda determ ina outro exem plo d a condição variável do
corpo - aquela que poupan d o o corpo, serve apenas para reiterar
sua inferioridade.39
3 9 . V er M . Foucault, Discipline and Punish: The Birth o f the Prison, H arm on dsw orth,
1 9 7 9 ; M . Ignatieff, A Just Measure of Pain, Lon dres, 1978.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
309
T om em os outro exemplo. U m hom em é morto, não por um
tiro de outro, m as devido a um m icroorganismo difundido por um
portador. O portador deve ser considerado moral ou criminalmente
responsável pelo risco, ou pelo desastre que seu corpo provocou?
E ssa questão tem-se comprovádo extremamente complicada, central
à política de regulamentação das populações de alta densidade por
burocracias médicas, desde as epidemias de peste bubônica na Idade
M édia. O que é notável, entretanto, com o foi enfatizado pelos
historiadores recentes de saúde pública, é com o os sistemas jurídicopolíticos do Ocidente têm considerado pouco os indivíduos respon­
sáveis pela destruição da saúde descarregada por seus corpos. A pesar
da emergência de sociedades de bem-estar cada vez mais “policiadas”
durante os dois últimos séculos, as questões de saúde têm sido
deixadas surpreendentemente a cargo de relacionamentos contra­
tuais privados e confidenciais entre o indivíduo e seu médico.
(Ereuihon, a U topia de Sam uel Buder, em que é um crime ficar doente
- em bora a criminalidade seja desculpada com o um a doença proporciona um espantoso contraste.) A pesar da “medicalização da
vida”, as com pulsões de saúde têm sido poucas. Por exemplo, a
vacinação contra varíola legalmente constrangedora foi brevemente
introduzida n a Inglaterra vitoriana, m as, encontrando feroz oposi­
ção, a legislação foi derrubada; o m esm o ocorreu para o tratamento
com pulsório das doenças venéreas.40 Essa solução certamente incor­
pora um sentido da propriedade inalienável e individual do corpo,
solidam ente adiantada nas form ulações secularizantes d a filosofia
política liberal do século dezessete em diante. A s políticas e as
banalidades n o cum prim ento da lei, na filosofia política e na
adm inistração social freqüentem ente só serão inteiramente com ­
preendidas, se seu enraizam ento n as doutrinas sobre a propriedade
e a privacidade do corpo forem antes entendidas.41
4 0 . W .M . Frazer, History of EnglisK Public Health 1 8 3 4 1 9 3 9 , Lon dres, 1950,'p . 70-72,
106-112; P. M cH ugh , Prostitution and Victorian Social Reform, Lon dres, 1981 e J.
W alkowitz, Prostitution and Victorian Society, C am b rid ge, 1980.
4 1 . A s d im en sõ es pública e privada são exploradas em R. Sennett, The Fali o f Public
M an, C am b rid g e, 1976.
310
PETER BURKE
Policiando o corpo
H á um estereótipo cultural profundam ente estabelecido arrebatador em Rabelais42, insultuoso n o interior da teologia cristã
- que retrata o corpo com o um chefe rebelde, senhor do desregram ento, sím bolo do excesso de com ida, bebida, sexo e violência incorporação do princípio que Freud m ais tarde intelectualizou
com o o “ id” . O s historiadores recentemente exploraram as tenta­
tivas de grupos sociais dom inantes para restringir, reprim ir e
reform ar a m utilação do corpo. E ssas estratégias obviam ente assu ­
m iram form as distintas.
O s estudiosos focalizaram sua atenção primeiramente sobre as
reformas que são auto-infligidas, implem entando aspirações para um
m elhor autocontrole, associadas à educação e à disciplina familiar.
M anuais para com portam ento adequado, tanto religioso quanto
civil, espalhando as m áquinas de im pressão do século dezesseis,
com puseram grandes estoques sobre a subm issão e a obediência do
corpo, e sobre o cultivo das boas-maneiras, da decência e do decoro.
Foucault declarou que a crescente preocupação com a boa saúde e a
vida longa, originadas no Iluminismo, proporcionam mais um
sintom a.43 Vigarello acentuou a importância de se cultivar interna­
mente o corpo anárquico, através da higiene, da limpeza e do
vestuário, e N orbert Elias em particular estudou “o processo civiliza­
dor” visível no desenvolvimento dos controles do corpo (corpos
lim pos, hábitos limpos, conversa limpa, mentes limpas). A lém disso,
a pesquisa de Scham a sobre a pureza e a disciplina do corpo entre
os calvinistas holandeses ilumina a eficácia (tanto social quanto
psicológica) de tais estratégias n a criação de um cordon sanitaire
contra as am eaças m orais e religiosas - tanto o papism o quanto a
profanação - consideradas sujas, perigosas e contagiosas.44
4 2 . M . B akhtin, Rabelais and his World, C am b rid ge, M ass., 1968.
4 3 . V er M . Foucault, A History of Sexuality, v. 1. Introduction, Londres, 1 978; J.-L
F lan d rin , Un T emps pour embrasser, Paris, 1983.
4 4 . V er em geral N . Elias, The Civiliting Process, O xford , 1983 e m ais especificam ente
S . Sch am a, "T h e U n ruly Realm : A ppetite and R estraint in Seventeenth-Century
H o lla n d ” , Daedalus, 108, p. 1 0 3 -2 3 ,1 9 7 9 .
A ESCRITA DA HISTÓRIA
311
Falar em decência, delicadeza e recato autom aticam ente sugere
os vitorianos, m as o vitorianism o antecedeu m uito aqueles que
portam seu nom e. T h o m as Bow dler era um georgiano, foi W esley
que colocou a limpeza próxim a à divindade, e o com portam ento
adequado d o corpo em um a sociedade educada nunca foi tão
divulgado, quanto n a época de A ddison , Steele e M andeville. Em
obras com o The Virgin U nm ask’d, M andeville explorou de form a
m açan te os sign ificados am bivalentes d a rep ressão corporal, em
q u e ocultar o corp o po d eria ser m ais excitante d o que revelá-lo.45
O autocontrole físico prosseguiu intim am ente ligado ao desejo
de policiar os corpos alheios, assim com o de assegurar um a m elhor
ordem social e moral-religiosa. Sobretudo os historiadores do início
da França m oderna, com o M uchem bled, Flandrin e D elum eau,
enfatizaram especialm ente as tentativas das autoridades religiosas
e civis de regulam entarem os corpos das pessoas com uns através
da persuasão, da prescrição e finalm ente da coerção física.46 M u ­
chem bled acim a de tudo declarou que na tradicional cultura
cam pon esa quase pagã o corpo desfrutava de u m a elevada posição
com o u m instrum ento potente, e que suas partes e produtos,
sangue, fezes, o pênis e o útero - possuíam poderes m ágicos.
E m bora vulnerável à fome, à doença e à morte, o corpo era tam bém
a energia dionisíaca subjacente à devassidão e aos excessos orgíacos.
E ssa contracultura carnavalesca do corpo ficou, no entanto, cada
vez m ais sujeita à vigilância sistem ática e à repressão efetiva, através
dos instrum entos dos julgam entos das bruxas, das cortes eclesiás­
ticas e d a confissão intensificada pela Contra-Reform a, além de
incutir um a nova m oralidade sexual, subordin ada ao casam ento e
à legitimidade.
4 5 . Para u m a op in ião d o início d o períod o georgiano, ver Fenella C h ild s, “ Prescriptions
for M anners in Eighteenth Century Courtesy Literature", tese d e P h.D ., O xford , 1984.
4 6 . Jacq u es D onzelot, The Policing o f Families, trad. R obert H urley, N ova Y ork, 1979;
]ean-Louis Flan d rin , “A m ou r et m arriage” , Dix-huitième Siêcle, 12, p. 165-76, 1980.
V er tam bém M . Bakhtin, Rabelais and His World, trad. H . Iswolsky, C am b rid ge,
M a ss., 1 9 6 8 e J . Starobinski, “T h e Body’ s M om en t” , em Montmgne: Essays in
Reaáing, Yale French Studies, n 2 6 4, p . 273-305; 1983.
312
PETER BURKE
O início d a Inglaterra m oderna tam bém testem unhou movi­
m entos paralelos, conduzidos pelos puritanos, pela reform a reli­
giosa da m oral e dos costum es.47 Eles podem ter alcançado algum
sucesso. O s dem ógrafos históricos dem onstraram que os persona­
gens da bastardia eram em núm ero m uitíssim o m en or n a época
de Stuart do que se tornaram posteriorm ente no am biente m ais
secular da prim eira nação industrial, sugerindo talvez que a disci­
plina m oral fosse efetiva.48 A Inglaterra georgiana testem unhou
m ais ataques a um a cultura corporal anárquica, com a regulam en­
tação dos esportes sanguinários e das lutas profissionais, um a nova
desaprovação dos duelos e as tentativas dos em pregadores capita­
listas de insistirem n o trabalho regular e na disciplina de horário
em su a força de trabalho.49
O s corpos plebeus estavam tradicionalm ente n o extremo re­
ceptor da coerção física: o chicote, o pelourinho, a forca. M as, com o
Foucault particularm ente enfatizou, o's corpos das pessoas tam bém
se tornaram sujeitos a um a nova tecnologia política do corpo e,
esperava-se, eram por ela regenerados - as rotinas d o fun do da
fábrica, os exercícios da escola, a fadiga das paradas, as punições
do reform atório. D esde a infância e o treinam ento esfincteriano
n o seio familiar, passan d o pela escola, até o exército e o recinto da
fábrica, o estado trabalhava para produzir súditos dóceis e um a
força de trabalho obediente através d a disciplina sistem ática dos
corpos das pessoas.50 S ó recentemente, os historiadores do presen­
te século sugeriram que a lógica do capitalism o relaxou um pouco
4 7 . K . W righ tson, English Society 1580-1680, Lon dres, 1982; E.J. Bristow , Vice and
Vigilance: Purity Movements in Britain since 1700, D u b lin , 1977.
4 8 . P. Laslett (ed.), Bastardy and its Comparative History, Londres, 1980.
4 9 . R. M alcolm son , Popular Recreations in English Society 1700-1850, C am b rid g e, 1973.
50. A s o b ras m ais im portantes de Foucault são M adness and Civilization: a History of
Insanity in the Age of Reason, Londres, 1 967; The Order of Tfvings: an Archaeology of
the H um an Sciences, Lon dres, 1970; The Archaeology of Knowledge, Lon dres, 1972;
The Birth ofthe Cíinic: an Archaeology of M edicai Perception, Lon dres, 1 973; Discipline
and Punish: the Birth ofth e Prison, H arm on dsw orth, 1979; The History of Sexuality.
v. I. lntroduction, Lon dres, 1978. V er tam bém C . G o rd o n (ed.), M. Foucault:
Power/Knowledge, Brighton, 1980, especialm ente o ensaio “ B ody/P ow er” , p. 55-62.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
313
esta severa ênfase cham ada “ protestante” sobre o corpo discipli­
nado e sobre um “ asceticism o tão m u n d an o” ; o imperativo recen­
tem ente havia m u dado da “ m ão” produtiva e disciplinada tipo
m áquina, para o corpo com o consum idor, cheio de deficiências
e de necessidades, cujos desejos devem ser inflam ados e encora­
jad o s.51
Focalizar a atenção sobre o problem a do corpo - seus perigos
e suas disciplinas, seu potencial para a profanação, m as tam bém
seus poderes produtivos - ajuda a com preender os n um erosos
desenvolvim entos disparatados, tão freqüentem ente estudados no
isolam ento e anacrônicam ente através das sinalizações das discipli­
nas m odernas. C o m o declarou C atherine G allagher, interpreta­
m os m al ‘M althus se, por exem plo, o consideram os sim plesm ente
com o o pai da dem ografia m oderna.52 N a verdade, ele propôs um
enigm a, dram aticam ente novo com respeito ao bem-estar m oral
d o s organism os políticos. Tradicionalm ente o corpo saudável era
a garantia d o estado saudável. Ele produzia, ele reproduzia. M as,
segundo a contra-sugestão de M althus, o corpo saudável, devido a
seus altos poderes reprodutivos, podia realmente se com provar
inim igo d o estado. A ssim , o corpo privado e o corpo público
podiam estar em desacordo. O u, com o enfatizou E.P. T h o m p son ,
deixam os escapar m etade da im portância da disputa pela disciplina
de horário nas fábricas, se a encaram os apenas em term os de
racionalidade econôm ica e de heróicos capitães de indústria; antes
de tudo, ela era parte de um a tentativa m uito m ais am pla de
governar as pessoas, através do controle de seus corpos.53
Sim ilarm ente, um a história da educação, que se concentra
exclusivam ente em atingir habilidades com o a leitura e a escrita,
5 1 . M . Featherstone, “T h e B ody in C o n su m e r C u ltu re” , Theory, Culture & Society, 1,
p. 1 8 -3 3 ,1 9 8 2 .
5 2 . Para u m a d iscu ssão d as preocupações m ais am plas de M althus, ver Patricia Jam es,
Population M althus: H is Life and Times, Lon dres, 1 979, capítulo 2, parte 4; e R .M .
Y oun g, “ M alth us an d the Evolutionists: T h e C o m m o n C on text o f Biological and
Social T h eory” , Past and Present, 4 3, 1969, p. 109-45.
5 3 . E.P. T h o m p so n , “T im e, W ork-D iscipline an d In d ustrial C ap italism ” , Past and
Present, 3 7 , p . 56-97, 1967.
314
PETER BURKE
deixará escapar um a das principais funções da escola para crianças
pobres, de caridade ou elem entar do passado; incutir a obediência
física ou a educação com o um processo para dom esticar as crian­
ças.54 D a m esm a form a, seria lim itado estabelecer os objetivos dos
sanitaristas e dos higienistas, apenas em term os de m iasm as e
drenagens: suas preocupações não eram m enores com respeito à
sujeira m oral e à regulam entação do contágio e da contam inação
sexual.55 D o m esm o m odo, os rituais da m edicina à beira do leito
ou n o hospital não podem ser inteiramente explicados pelos
achados da ciência médica. Q uestões m ais am plas de tabus e
decoros corporais tam bém ditam a natureza e os limites dos exam es
diagnósticos, do tratam ento cirúrgico e da em ergência de novas
especialidades intervencionistas e sensíveis ao gênero com o a
obstetrícia hu m an a.56
Estas questões m ais am plas m ostram porque as políticas do
corpo exigem atenção por direito próprio; tais questões são m uitas
vezes negligenciadas, se seguim os a dem ografia histórica, a história
da educação, a história da m edicina e assim por diante, através de
um a visão fechada, isolada e estreita.
Perm anece obscuro, entretanto, até que ponto é exato um
retrato apresentado por historiadores com o M uchenbled, que
encaravam as culturas populares d o corpo com o sen do triunfal­
m ente suprim idas em nom e do estado soberano e terapêutico e
dos ditam es d a racionalidade capitalista. A s aspirações podem bem
ter superado m uito as realizações. A cultura de elite n ão parece ter
su bjugado tanto a cultura popular com o dela se separado, desen­
volvendo sua própria linguagem corporal, seus rituais e seus
5 4 . S o b re as d im en sõ es m ais am plas d a educação, ver B . Haley, The Healthy Body and
Victorian Culture, C am b ridge, M ass., 1978.
5 5 . V irginia Sm ith , “ Physical Puritanism and Sanitary Science: M aterial an d Im m aterial
Beliefs in P opular Physiology 1650-1840” , em W .F . Bynum an d R oy Porter (ed.),
M edicai Fringe and M edicai Orthodoxy 1 7 5 0 1 8 5 0 , Lon dres, 1 986, p. 174-97.
5 6 . V er R .L Engle e B .J. D avis, “ M edicai D iagn osis, Present, Past an d Future” , Archives
of Internai Medicine, 112, p. 512-43, 1963.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
315
refinam entos distintos, desm aterializados e expressivos.57 O s cos­
tum es sexuais do folclore popular (por exem plo, a tradição da
relação sexual pré-conjugal seguida do casam ento por gravidez) e a
m agia m édica popular com provaram -se im ensam ente elásticos
diante da doutrinação e da^ infiltração vinda de cima.
Igualm ente, as políticas de controle do com portam ento corpo­
ral à beira dos riscos colocados pela doença epidêm ica e pelas
“ sexualidades perigosas” eram im ensam ente com plexas. N a Ingla­
terra, as aspirações do m ovim ento de saúde e higiene pública do
início do período vitoriano, associadas ao utilitarism o e a Edwin
Chadw ick, foram diretas e estatais. N en hum a aliança desse tipo
entre o governo central e a drenagem de esgotos pode ser en con ­
trada, entretanto, em Paris. M as m esm o na Inglaterra, o em preen­
dim ento do policiam ento dos corpos pela m edicina estatal rapida­
m ente sossobrou , naufragado nas rochas do s corredores de políti­
cos concorrentes, inclusive grupos de puristas e fem inistas, furiosos
diante das tentativas dos legisladores do sexo m asculino de contro­
lar os corpos das m ulheres, através do duplo padrão. Por toda parte,
a idéia superficialm ente atraente de que o crescim ento do poder
do estado tem sido dirigido para a subordinação social do corpo
p assa a ser ingênua e nada convincente.58
O sexo, o gênero e o corpo
Se a sociedade européia através de la longue durée foi um
patriarcado, e ainda carrega pelo m enos suas cicatrizes, até que
ponto o patriarcado em si foi um sintom a ou um a conseqüência
direta d a diferenciação entre os corpos m asculino e fem inino u m a diferença, digam os assim , não sim plesm ente biológica, m as
5 7 . Para tais divisões, ver P. Burke, Popular Culture in Early Modem Europe, Londres,
1 9 7 8 ; H .C . Payne, “ Elite versus P opular M entality in the Eighteenth C entury” ,
Studies in Eighteenth Century Culture, 8, p. 201-37, 1979.
5 8 . A m elh or e m ais recente introdução está em F ran k M ort, Dangerous Sexualities:
Medico-Politics in England since 1 8 3 0 , Lon dres; 1987.
PETER BURKE
316
constituída*no interior das realidades sociais? Será que a razão para
a tradicional subordinação das m ulheres aos hom ens foi prim ária
e essencialm ente física - devido às gestações sem fim que os
m aridos egoístas forçaram sobre elas, n a época anterior ã contra­
cepção efetiva, algemaram-nas às crianças e à vida dom éstica, ao
envelhecim ento prem aturo, à exaustão e freqüentem ente à morte
por doenças do parto; e que além disso as confinavam em um a
cultura de gueto apenas para m ulheres, m anchada de sangue
m enstruai e das im purezas do parto? A ssim declarou Edward
Shorter em sua History of W omens Bodies59, concluindo que as
m ulheres finalmente, durante o últim o século, se em anciparam de
suas cadeias biológicas prim árias pelo advento da gravidez segura,
da contracepção e do aborto legalizado, que, proporcionando-lhes
o controle sobre sua própria fertilidade, pavim entaram o cam inho
para a “ família m od ern a” , para a “ família igualitária” e até para a
sociedade pós-família.
O que não se pode duvidar é que os tradicionais m édicos,
teólogos e filósofos do sexo m asculino atribuíam a subordinação
das m ulheres à sua condição biológica, inferior dentro do esquem a
da C riação. D e acordo com Aristóteles e seus seguidores, as
m ulheres eram m achos defeituosos ou m on struosos, seres nos
quais a genitália (designada para ser do lado exterior do Corpo),
por falta de calor ou de força, falhou n a extrusão. C o m sua natureza
m ais fria e m ais fraca, e sua genitália contida internam ente, as
m ulheres eram essencialm ente equipadas para a criação de filhos,
n ão para um a vida racional e ativa dentro do fórum cívico. A s
m ulheres eram criaturas privadas, os hom ens eram públicos.60
T h o m as Laqueur declarou que essa conceituação m édica da
natureza das m ulheres foi corroída e substituída por volta do final
do século dezoito.610 sexo fem inino deixou de ser visto literalm en­
5 9 . E. Sh orter, The M aking of the Modem Family, Lon dres, 1976.
6 0 . J. M orsin k , Aristotle on the Generation of Anim ais, W ash in gton , 1982.
6 1 . T . Laqueur, “O rg asm , G en eration an d the Politcs o f Reproductive B iology” , em C .
G allagh er e T . L aqu eu r (ed.), The M aking of the Modem Body, Berkeley e L os Angeles,
1 9 8 7 , p. 1-41. C o m p arar com Pierre D arm o n , Le Mythe de la procréation à Vage
baroque, Paris, 1977.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
317
te com o um a versão inferior do m asculino, tornando-se, em vez
disso, encarado com o essencialm ente diferente m as com plem en­
tar. O s fisiologistas haviam acabado de afirmar que o aparato
reprodutivo sexual fem inino era radicalmente distinto daquele dos
hom ens, opinião confirm ada pela descoberta das funções dos
ovários e da natureza do ciclo m enstruai. Isso, por sua vez, indicava
que não havia nenhum a boa-razão biológica por que as m ulheres
devessem ser exclusivamente seres ativamente sexuais (isto é,
eróticos): ao contrário do dogm a m édico clássico, não era necessá­
rio qualquer estím ulo sexual para as m ulheres conceberem: elas
tinham apenas de servir com o receptáculos de sêm en. Havia
nascido a= passiva e dessexualizada m ulher “vitoriana” (em bora,
pace Laqueur, deva ser destacado que Peter G ay e outros historia­
dores declararam que as m ulheres vitorianas não eram absoluta­
m ente “vitorianas” naquele sentido; seria um grande erro confun­
dir com a realidade algum as prescrições para o com portam ento
fem inino adequado).62
L aqu eu r bu sca relacionar esta “ com posição do corpo m od er­
n o ” à m u dan ça de lugar das m ulheres n a sociedade. D essexu ali­
zada, a esp o sa tornou-se o an jo da casa, dócil, frágil, desapaixo­
nada; e por isso seu relato encaixa bem com a recente análise da
em ergência de “ esferas sep arad as” para os papéis dom ésticos
m ascu lin o e fem inin o.63 D eclarando que a ciência não em erge de
u m a sim ples lógica d a descoberta, m as proporcion a u m a form a
articulada a pressões sócio-ideológicas, Laqueur nega que a nova
im agem d o gênero fosse produto de pesqu isa científica au tôn o­
m a. M as surge assim um enigm a “ ovo-galinha” . A ceitam os (com o
indica o argum ento de L aqueur e m uitos estu diosos fem inistas
sugerem ) que as forças culturais - isto é, a ideologia patriarcal,
traduzida em poder institucional - foram os prim eiros resp o n sá­
veis pelo encerram ento das m ulheres em casas de boneca? Se
62. P. Gay, The Bourgeois Experience, Victoria to Freud. v. 1. A Sentimental Educatíon,
v. 2. The Tender Passion, N o v a York, 1984, 1986.
6 3. Leonore D a v id o ffe C atherin e H all, Family Fortunes. Men and Women o/ the English
Middle C lass 1 780-1850, Lon dres, 1987.
318
PETER BURKE
assim for, t©rna-se urgente dem onstrar por que se pensava que os
an os im ediatam ente anteriores e posteriores a 1800 fossem essen­
ciais para a transform ação da posição social das m ulheres.
O u antes deveríam os, seguindo Shorter, subscrever um rela­
to m ais “m aterialista” , em que os grilhões biológicos (gestações
m últiplas etc.) principalm ente explicam a prolon gada servi­
dão das m ulheres, e se acredita que os achados biom édicos
(contracepção, aborto etc.) fizeram m ais pela em ancipação das
m ulheres d o que a agitação das fem inistas? M as se (com Shorter)
aceitarm os o dín am o biom édico da história, com o podem os
explicar p o r que o fantasm a do patriarcado continua a m andar,
m esm o hoje, um a vez que a em ancipação biológica foi (su po sta­
m ente) alcançada?
Talvez a resposta seja a de que n ão precisam os n os em palar
n os chifres de u m a falsa dicotom ia: a idéia de que as explicações
para a identidade do gênero podem ser sim plesm en te socioculturais ou sim plesm en te biocientíficas. U m a via de escape é na
verdade assin alada por relatos, de Foucault e de outros, sobre a
transform ação do discu rso sobre o sexo durante o século deze­
nove.64 Foucault destacou corretam ente que a noção popu lar de
que o sexo, su postam ente tão abertam ente discutido durante
o “ livre” século dezoito65, foi silenciado n o furtivo século dezeno­
ve é absolutam ente falsa. N en h u m século viu u m a discu ssão do
sexo tão extensiva, q u ase obsessiva. M as o foco d a atenção
m udou.
O s tratam entos iniciais, com o aquele encontrado n o m anual
popu lar Aristotle’s Masterpíece, consideravam o encontro sexual
essencialm ente com o a ação de corpos, de acordo com as urgências
e os apetites da natureza, prim eiram ente designada para assegurar
6 4 . M . Foucault, The History of Sexuality, v. 1. lntroduction, Lon dres, 1978.
6 5 . Para a reivindicação d o Ilu m in ism o de qu e o erótico é o saudável, ver ]. H agstru m ,
Sex and Sensibility: Erotic Ideal and Erotic Lovefrom Milton to M otart, Lon dres, 1980;
Roy Porter, “ M ixed Feelings; the Enlightenm en t an d sexuality in B ritain ” , em P.G .
Boucé (ed.), Sexuality in Eighteenth Century Britain, M anchester, 1 982, p. 1-27.
319
A ESCRITA DA HISTÓRIA
a perpetuação das espécies.66 O discurso sexual do século dezenove,
pelo contrário, presta um a extraordinária atenção às desordens, à
anorm alidade e aos desvios sexuais. A cim a de tudo, elaborou um a
psicopatologia de perversões sexuais, vinculando essas a práticas
com o a m asturbação e a condições com o a histeria. O sexo foi visto,
portanto, à luz da psiquiatria, n o “espaço” de um a nova construção
teórica - a “ sexualidade” .67 E ssa análise ilum ina e ajuda a resolver o dilem a levantado pelas
análises divergentes de Shorter e Laqueur. Pois poderia parecer que
ao nos aplicarm os para a m udança das concepções das mulheres
no século dezenove, n o ssa atenção não deveria estar focalizada
literalm ente na história biom édica de seus corpos, nem principal­
m ente sobre as pressões em m utação no casam ento e na família,
m as antes n o desenvolvim ento de um a nova metafísica do fem ini­
no. Isto encontra um a matriz em um a psico-fisiologia da m aterni­
dade, e estava intim am ente associado ao que Elaine Show alter
corretam ente nom eou de “ o padecim ento d a fêm ea” (que era, no
caso extremo, o padecim ento de ser fêmea).68 Este novo discurso,
finalm ente enclausurado na teoria psicanalítica freudiana, n a ver­
dade recuperou o velho biologism o (“anatom ia é destin o”), m as o
m ascarou em um a nova roupagem fantasiosa (a inveja do pênis
estava, acim a de tudo, apenas n a mente). N o caso do próprio
Freud, aspirava-se à liberação das m ulheres (em bora não a partir
dos hom ens, m as de suas próprias neuroses).69 E por isso que,
apesar do tom eupéptico, a em ancipação “ biológica” teve um a
6 6 . Roy Porter, “ S p read in g C arn al Know ledge or Selling D irt C heap? N icolas V enette’s
Tableau De L'Am our Conjugal in Eighteenth C entury E n glan d ” , Journal of European
Scudies, 14, p. 2 3 3 -5 5 ,1 9 8 4 ; P .G . Boucé, “A spects o f sexual tolerance and intolerance
in eighteenth-century E n g lan d ” , British Journal of Eighteentfi-Century Studies, 3,
p. 180, 1980.
6 7 . Para u m a d im en são d esta nova psiquiatria sexual, ver E .H . H are, “ M asturbatory
Insanity: T h e H istory o f an Id ea” , Journal of M entaí Science, 108, p. 1-25, 1962.
68. Elaine Show alter, The Female M alady, N ova York, 1985.
,
6 9 . Foi feita u m a tentativa de unir a psicanálise com o fem inism o em Juliet M itchel,
Psychoanalysis and Feminism, N ova York, 1974. Para um conju nto de opin iões m uito
m ais céticas, ver C h arles B ernheim er e C laire K ahan e (ed.), In D ora’s C ase: Freud,
Hysteria, Feminism, N ova York, 1985.
320
PETER BURKE
im portância um pouco inconsistente para as m ulheres deste século,
em vista d a em ergência de outras disciplinas - as variedades da
psicanálise que oferecem novas racionalizações para a inferioridade
(neuroses) das m ulheres.70
Uma agenda
A cabei de exam inar três áreas chaves em que o n o sso conhe­
cim ento d o corpo, tanto na realidade quanto nas representações,
é crucial para interpretações m ais am plas da m udança social. Em
cada um a delas, o debate historiográfico já é intenso. A guisa de
coda para esta p esqu isa superficial, quero apontar sete outros
ram os da história do corpo que merecem íntim a atenção, m encio­
n an do nas referências as obras notáveis já publicadas.
1.
O Corpo como uma Condição Hum ana. A s religiões, as
filosofias e as literaturas do m u n d o fazem um a apreciação em coro
sobre a condição hum ana, sobre o nascim ento, a cópula e a
m orte.71 M as com que especificidade e direcionam ento as doutri­
nas religiosas predom inantes ou as têm peras artísticas de determi­
n adas épocas se relacionam (refletem? com pensam ?) com as expe­
riências reais da vida encarnada?72 Por exem plo, será que a cultura
obcecada com a m orte que H uizinga cham ou de “ o declínio da
Idade M édia” foi um a reação reflexa às realidades das epidem ias
de peste bubônica que assolaram a E uropa n o século quatorze? O u,
7 0. Para perspectivas gerais úteis sobre a historiografia do sexo, ver Jeffrey W eaks, Sex,
Politics and Society, Lon dres, 1981; M ichael Ignatieff, “ H o m o S e xu alis", London
Review of Books, p. 8-9, m arço de 1982.
7 1. Para atitudes em relação à m orte, ver J. M cM an n ers, Death and the Enlightenment,
O xfo rd , 1981. P. A riés, The Hour of our Death, H arm on dsw orth, 1 9 8 1 ; e W .F .
B ynum , “ H ealth, D isease and M edicai C are” , em G .S . R ou sseau e Roy Porter, The
Ferment o f Knowledge, C am b rid ge, 1980, p. 211-54.
72. V er a d iscu ssão em J. B road ben t, “ T h e Im age o f G o d , o r T w o Y ards o f S k in ” , em
J. Benth all e T . P olh em us (ed.), The Body as a Medium of Expression, Lon dres, 1975,
p. 305-26.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
321
seguindo C am poresi, podíam os considerar m elhor os elem entos
m acabros d o final do C ristian ism o medieval - o fascínio por C risto
pregado n a cruz, os corpos incorruptíveis dos santos e assim por
diante - com o um a expressão de um am or vibrante pela vida e
um a absorção do espírito gela carne? O u, tom ando-se um período
posterior, será que existe um elo genuíno - com o sugere Im h o f entre a recente garantia de um a existência tem poral m ais segura e
prolon gada e, por outro lado, um a crença decadente n a im ortali­
dade pessoal? U sando-se a form ulação de Im hof, a expectativa de
vida, que foi um dia infinita, está agora reduzida a cerca de setenta
an o s.73
2.
AJForm a do Corpo. N a arte, na escrita criativa, n a ciência e
n a m edicina, m as não m enos em provérbios74, frases feitas e
m etáforas, o corpo assum e um a forma visual, ou visualizada. M agro
ou gordo, bonito ou feio; o espelho do universo, o m odelo dos
anim ais, a quintessência do pó - cada quadro conta a sua história
e incorpora um sistem a de valor. Poucos historiadores até agora
prestaram m uita atenção à linguagem (com o aquela contida, por
exem plo, nas m etáforas de vida e morte) com o um veículo para
m en sagens ocultas sobre o corpo. A in da m en os historiadores
gerais, em op osição aos historiadores especialistas de arte, pon de­
raram profundam ente sobre a significação das im agens visuais
verdadeiras d o s corpos (em retratos, em efígies fúnebres - “ anato­
m ias” - ou m esm o em álbuns de instantâneos) com o evidência
histórica. M uito freqüentem ente os historiadores utilizam a evidên­
cia visual antes com o m eras “ ilustrações” , d o que com o coisas a
serem explicadas. U m a m elhor integração das fontes escritas e
visuais é u m a rem ota prioridade.75
73. P. C am p o re si, The lncorruptible Fíesh: Bodily M utation and Mortification in Reiigion
and Folklore, trad. de T . Croft-M urray, C am b rid ge, 1988.
74. Para o s provérbios, ver F. Loux, Sagesses du corps, Paris, 1978.
75. So b re o im portante cam po d a fisiogn om ia, ver G . Tyler, Pfiysiognom? in the European
Novel, Princeton, 1 9 82; M . S h o rd an d , The Body in Question. Some Perceptions,
Problems and Perspectives of the Body in Relation to Character c. 1 750-1850, T e se de
P h .D ., U n iversid ad e d e Leeds, 1985.
322
PETER BURKE
3. A Anatomia do Corpo. O s corpos são objetos para a contem ­
plação externa; eles enfrentam o m u n d o de fora. M as são tam bém
subjetivos, integrais ao ego interno. Estranham ente, contudo, a
m aior parte dos relatos da história do ego76, do caráter e da
psicologia pessoal tem m uito pouco a dizer sobre com o as pessoas
têm com preendido seus próprios corpos e com eles se relacionado.
Precisam os saber m uito m ais sobre o m odo com o os indivíduos,
em particular, e as culturas, em geral, atribuíram significado a seus
m em bros e órgãos, suas constituições, seu corpo. Q ual é a topo­
grafia em ocional e existencial da pele e dos ossos? O que as pessoas
queriam dizer q u an d o falavam, literal e figuradam ente, de seu
sangue77, su a cabeça ou seu coração, suas entranhas, seus espíritos
e seus hum ores? C o m o esses órgãos e funções incorporavam
em oções, experiências e desejos? C o m o se inter-relacionavam os
significados privados e os públicos, as conotações subjetivas e as
m édicas? Q u an d o alguém se sentia velho ou jovem (ou na verdade
jovem de coração), e o que significava a sucessão de tais idades e
períodos? E com o as pessoas pensavam em seus corpos, seus
in côm odos e suas dores, qu ando ficavam doentes? O corpó é o
sistem a de com unicações prim ário, m as os historiadores prestaram
pouca atenção a seus códigos e chaves (os antropólogos podem ter
m uito a n os ensinar aqui).78
4. Corpo, Mente e Alma. Eu aludi anteriorm ente ao fato de que
os territórios da m ente e do corpo não são fixos - m en os ainda
fixos pela biologia - m as possu em limites sujeitos à negociação
com sistem as particulares de valores, julgam entos e deveres. Este
76. V er nota 30.
77. R ichard M . T itm u ss, The G ift Relationship: From H um an Blood to Social Policy, N ova
Y ork, 1 9 7 1 ; e m ais geralm ente sob re a resson ân cia m etafórica d o co rpo, C .G .
H elm an , ‘“ Feed a C o ld , Starve a Fever’ : F olk M od els o f Infection in an English
Su b u rb a n C om m unity, an d their Relation to M edicai T reatm ent” , Culture, Medicine
and Psychiatry, II, p. 107-37, 1 978; idem, Culture, Health and Illness, Bristol, 1984;
J.B . L o u d o n (ed.), Social Anthropology and Medicine, Londres, 1976.
78. J. Lane, “T h e D o ctor Sco ld s M e: T h e D iaries an d C orrespo n d en ce o f Patients in
Eighteenth-Century E n g lan d ” , em Roy Porter (ed.), Patients and practitioners,
p. 207-47.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
323
sentido do ego, um a totalidade dividida em capacidades e funções
distintas, um corpo espiritualizado e um a m ente encarnada, com
freqüência m utuam ente em desacordo, obviam ente tem sido cen­
tral às teorias éticas, aos códigos de jurisprudência, aos program as
pedagógicos e, m ais geralmente, às idéias do lugar do hom em na
natureza. N a verdade, pode-se dizer que as relações m en te/corpo,
e ain da m ais as relações corpo /alm a, não apenas constituem um
problem a interior à ética e à teologia, m as geram o verdadeiro
ím peto, com o m istério por trás delas, para suas profundas
especulações. O s elos e as divisões entre a mente e o corpo, a
experiência e as lesões, claramente não são m enos centrais à
história das doenças e dos rem édios, com o testem unham as
condições “ psicossom áticas” com o a histeria79 e a hipocondria.80
D evem os n os lem brar de que as filosofias e as visões do m u n d o
do hom em e de sua natureza são em geral atributos de um a
m etafísica freqüentem ente não m encionada do corpo h u m an o.81
5.
Sexo e Gênero. Graças às estudiosas feministas, a constituição
e a reconstituição do sexo e do gênero formam um a das muito poucas
áreas de análise do corpo - de m odo específico o corpo feminino,
imediatamente atraente, m as profanado, desejável, m as perigoso - que
tem sido pesquisada minuciosamente. E absolutamente impossível
discutir aqui a variedade dos tópicos cobertos nesta área, ou m esm o
relacioná-la nas referências.82 U m a conclusão importante que parece
79. Para a histeria, ver I. V eith, Hysteria, the History of a Disease, C hicago, 1963.
8 0 . Para a h ipocondria, ver C .M o o re , Backgrounds of English Literature 1 700-1760,
M in n eap o lis, 1 9 5 3 ; O . Doughty, “T h e English M alady o f the Eighteenth C entury” ,
Review of English Studies, 2, p. 2 5 7 -6 9 ,1 9 2 6 ; E. Fischer-H om berger, “ H ypochondriasis o f the Eighteenth C entury - N eu rosis o f the presen t C entury” , Bulletin of the
History o f Medicine, 4 6, p. 3 9 1 -4 0 1 ,1 9 7 2 ; Roy Porter, “T h e R a g e o fP a rty : a G loriou s
R evolutíon in English Psychiatry?, Medicai History, 27, p. 35-50, 1983.
8 1 . L. J. Rather, Mind and Body in Eighteenth Century Medicine, Lon dres, 1965; W .I.
M atso n , “ W h y Isn ’t the M ind-B ody Problem A n cient?” em P.K. Feyerabend e G .
M axw ell (ed.), Mind, Matter, and Method, M in n eapolis, 1966.
8 2 . V er C arro ll Sm ith-R osenberg e C h arles R osenberg, “T h e Fem ale A n im al: M edicai
and Biological V iew s o fW o m a n an d H er Role in N ineteenth-C entury'A m erica” , em
Ju d ith W . Leavitt (ed.), Women and Health in America, M ad iso n , 1984, p. 12-27;
N ancy F. C ott, “ P assion lessn ess: an Interpretation o f V ictorian Sexual Ideology,
1 7 9 0 -1 8 5 0 ” , ibid., p. 57-89; C arl N . Degler, “ W h at O u gh t to Be an d W h at W as:
PETER BURKE
324
estar emergirído é digna de nota; o fato de nenhuma atitude isolada e
uniform e em relação à política do corpo feminino vis-à-vis a socie­
dade existente ou um a sociedade reformada ter sido adotada pela
opinião feminista. A s escritoras discordavam. Por exemplo, muitas
mulheres militantes buscavam a emancipação sexual; outras acha­
vam que o avanço está na emancipação do sexo. M uitas feministas
declararam-se pela identidade essencial entre os hom ens e as mulhe­
res, unidos pelo atributo com um da razão; outras pela identidade
construída sobre os aspectos singulares do corpo fem inino (por
exemplo, sua capacidade para engravidar). A idéia de um “ movim en­
to” feminista único, progressivo, precisa ser finalmente descartada.
O que perm anece lamentavelmente ignorado é a história do
m achism o e da m asculinidade (muito tipicamente assum id a com o
n orm al e por isso, norm ativa e não problemática). H á alguns sinais
de que isto está finalm ente m udan do.83
6.
O Corpo e o Corpo Político. O s historiadores do pensam ento
político e da literatura investigaram m uito a m etáfora do corpo
político e seus conceitos associados e derivados, com o Os Dois
Corpos do Rei - em bora com freqüência tenham realizado isso de
m od o um tanto impaciente, an siosos para ver essas m etáforas há
m uito obsoletas retiradas do palco por um a linguagem m ais
filosoficam ente rigorosa d a política do século dezessete em diante.84
W o m e n 's Sexuality in the N ineteenth C entury” , Ib id ., p. 40-56; L J . Jordan ova,
“ N atu ral Facts: a H istorical Perspective o n Science and Sexuality” , em Nature, Culture
and Gender, ed. C arolin e M acC orm ack e M arilyn Strathern, C am b ridge, 1980,
p. 42-69.
8 3 . V er B rian Easlea, Science and Sexual Oppression, Lon dres, 1 981; Jefftey W eeks, Sex,
Politics and Society, Lon dres, 1 981; Lesley H all, “ ‘ Som eh ow V ery D istastefu l’ :
D octors, M en an d Sexu al P roblem s Between the W a rs” , Journey of Contemporary
History, 2 0 , p. 553-74, 1985; idem , “ F rom Self Preseivation to Love Without Fear:
M edicai an d Lay W riters o f Sex A dvice from W illiam A cton to Eustace C h e sse r” ,
Society for the Social History of Medicine Bulletin, 3 9, p. 20-3, 1986.
8 4 . W . Greenleaf, Order, Empiricism and Politics, O xford, 1964; Otto Gierke, Political Theories
of the Middle Age, trad. com introdução de F.W . M aidand, Cam bridge, 1958; Paul
Archam bault, “T h e Analogy ofth e ‘Body’ in Renaissance Political Literature” , Bibliothêque
d ’Humanisme et Renaissance, 29, p. 21-63, 1967; E m st Kantorowicz, The King’s Two
Bodies, Princeton, 1957; G .J. Schochet, Patriarchalism in Political Thought, O xford, 1975.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
325
O que tem recebido bem m enos atenção são as m aneiras pelas
q uais a autoridade política tem realmente tratado o corpo indivi­
dual. O s elevados objetivos retóricos da política, os direitos do
hom em , são com um ente expressos em term os abstratos, intelectualistas (liberdade de expressão, liberdade de consciência). M as
atrás desses estão suposições sobre liberdades e im unidades físicas
fundam entais, não apenas o habeas corpus em si. M as perm anece­
m os incrivelmente ignorantes quanto às circunstâncias e às racio­
nalizações, so b as quais os estados dom inaram ou arregim entaram
o corpo n o recrutam ento militar, na época da peste85 e, na verdade,
na escravidão. H á um enorm e cam po de ação para os historiadores
políticos e„os cientistas políticos serem m ais sensíveis às realidades
do poder, produzidas pelo exercício da autoridade do estado sobre
os corpos de seus súditos.86
7.
O Corpo, a Civilização e seus Descontentes. A História é um
processo de civilização inacabado - uma luta, nos dizem os antropó­
logos, para afirmar a distinção do hom em da Natureza. M as a escrita
d a história da civilização concentrou-se m uito tem po nos artefatos
d a cultura erudita. H á um a necessidade de um tipo diferente de
história da aculturação. Chegam os nus ao m undo, m as logo som os
adornados não apenas com roupas, m as com a roupagem metafórica
dos códigos m orais, dos tabus, das proibições e dos sistemas de
valores que unem a disciplina aos desejos, a polidez ao policiamento.
8 5 . So b re o policiam ento m édico, ver R. Palmer, “T h e C h u rch , Leprosy an d Plague in
M edieval an d Early M o d e m E u rop e” , em Shiels, Church and H ealing, p. 79-100;
A .W . R u ssell (ed.), The Town and State Physician in Europe from the Middle Ages to
the Enlightenm ent(W olfenbüttel, 1981); D . A rm strong, Political Anatomy ofthe Body:
M edicai Knowledge in Britam in the Twentieth Century, C am b rid ge, 1983.
8 6 . S o b re as m ulheres e o pod er m édico, ver Roy Porter, “ A T o u c h o f D an ger: T h e
M an-m idw ife as Sexual Predator” , em G .S . R ou sseau e Roy Porter (ed.), Sexual
Underworlds ofthe Enlightenment, M anchester, 1 987; J.N . C larke, “ Sexism , F em inism
a n d M edicalism : A D ecade Review o f Literature o n G en d er and Illn ess’*, Sociology of
Health and Illness, 5, p. 6 2 -8 2 ,1 9 8 3 ; I.K . Zòla, “ M edicine as an Institution o f Social
C o n tro l” , Sociological Review, 2 0, p . 487-504, 1972; B .B . Schnorrcnhcrj', “ Is C hild
birth any Place for a W om an ? T h e Decline o f Midwifery in Eighteenth C entury
E n g lan d ” , Studies in EigfvteentK Century Culture, 10, p. 393-408, 1981.
326
PETER BURKE
A s histórias *do vestuário, da limpeza, da alimentação, dos cosm é­
ticos, tam bém foram deixadas por m uito tem po a cargo de especia­
listas relativamente desinteressados das questões m ais am plas, das
funções servidas por tais objetos e atividades na transform ação dos
indivíduos e das sociedades em cultura.87
O objetivo deste artigo não foi propor um a nova indústria
dom éstica, dedicada a tecer um a gigantesca tapeçaria da história do
corpo. Foi produzir um a recordação de com o o corpo é um a
presença suprim ida - m uito freqüentem ente ignorada ou esqueci­
da - em m uitos outros ram os, m ais prestigiosos, do saber. U m a
consciência m ais alerta de sua existência m inaria as pretensões
idealistas duradouras, en dossadas por aqueles a quem Nietzsche
caracterizava com o os “ D esprezadores do C o rp o ” , e ajudaria a sua
ressurreição.
8 7 . Para algum as perspectivas m ais am plas sob re a alim entação, ver P. Pullar, Consuming
Passions: Bein gan Historie ínquiry into Certain Englisk Appetites, B o sto n , M ass., 1970;
B .S . T u rn er, “T h e G overnm ent o f the Body; M edicai R egim en s an d the Rationaliz a tio n o fD ie t” , British Journal of Sociology, 3 3, p. 2 5 4 -6 9 ,1 9 8 2 ; idem , “T h e D iscou rse
o f D iet” , TKeory, Culture and Society, 1, p. 23-32, 1 982. So b re a orn am en tação d o
corpo, ver R. B rain, The Decorated Body (Londres, 1979). H á com entários esclarece­
dores em Jo h n 0 ’N eill, Five Bodies: the H um an Shape of Modem Society, Ithaca, 1985.
A HISTÓRIA DOS ACONTECIMENTOS
E O RENASCIMENTO DA NARRATIVA
Peter Burke*
Narrativa versus estrutura
A historiografia, com o a história, parece se repetir - com
variações.1 M uito antes do n o sso tem po, na época do Ilum inism o,
já se atacava a hipótese de que a história escrita deveria ser um a
narrativa d o s acontecim entos. O s críticos incluíam V oltaire e o
teórico social escocês Jo h n M illar, que escreveu sobre a “superfície
do s acontecim entos que prende a atenção do historiador com u m ” .
D esse pon to de vista, a cham ada “ Revolução C op érn ica” liderada
na historiografia por Leopold von Ranke n o início d o século
dezenove, parece m uito m ais um a contra-revolução, n o sentido de
que trouxe os acontecim entos de volta ao centro do palco.2
* Docente de H istória C ultural d a U niversidade de C am bridge e m em bro d o E m m anuel
College.
1. E ste artigo originou-se de u m a conferência e a presente versão deve m uito aos
co m entários de vários ouvintes, de C am b rid g e a C a m p in a s, de T el Ayiv a T ó q u io .
M eu s agradecim entos pessoais a C ario G inzburg, M ichael H olly, Ian Kershaw ,
D o m in ick L a C a p ra e M ark Phillips.
2. T e n to apoiar este argum ento em “ R an ke T h e Reactionary” , Syracuse Scholar, 9,
p. 25-30, 1 988.
PETER BURKE
328
U m segundo ataque à história dos acontecim entos ocorreu no
início do século vinte. N a G rã-Bretanha, Lewis N am ier e R.H .
Tawney, que concordavam em algo m ais, sugeriram quase ao
m esm o tem po que o historiador, em vez de narrar os acontecim en­
tos, deveria analisar as estruturas. N a França, a rejeição do que era
pejorativam ente cham ado de “história dos acontecim entos” (histoire événementielle), em prol da história das estruturas, era um a
prancha im portante n a plataform a da cham ada “ escola dos Armales” , de Lucien Febvre a Fernand Braudel, que, da m esm a form a
que M illar, encaravam os acontecim entos com o a superfície do
oceano da história, significativos apenas por aquilo que podiam
revelar das correntes m ais profu ndas.3 Se a história popular
perm anecesse fiel à tradição da narrativa, a história acadêm ica
tornar-se-ia cada vez m ais preocupada com os problem as e com as
estruturas. O filósofo francês Paul Ricoeur certamente tem razão,
q u an d o fala do “ eclipse” d a narrativa histórica em n o sso tem po.4
Ricoeur prossegue declarando que toda a história escrita,
incluindo a cham ada história “ estrutural” associada a Braudel,
necessariam ente assum e algum tipo de form a narrativa. D e um
m od o sim ilar, Jean-François Lyotard descreveu algum as interpreta­
ções da história, especialm ente aquela dos m arxistas, com o “ gran­
des narrativas” .5 O problem a de tais caracterizações, pelo m enos
para m im , é que elas diluem o conceito da narrativa, até que ela
corra o risco de se tornar indistinguível da descrição e d a análise.
Entretando, não vou tratar desse assunto aqui, preferindo
concentrar-me n a questão m ais concreta das diferenças, n o que
poderia ser cham ado de o grau de narrativa, entre algum as obras
contem porâneas de história e outras. D e alguns an os para cá tem
havido sinais de que a narrativa histórica, em um sentido bem
3. F . B rau del, The Mediterranean, 2 ed. rev., trad. S . R eynolds, Lon dres, 1972-3,
prefácio.
4 . P. R icoeur, Time and Narrative, trad. de K . M cLau ghlin e D . D ellauer, 3 v., C h icago,
1984-8, l . p . 138f.
5. J.-F. Lyotard, L a condition post moderne, Paris, 1 979; The Post-Modern Condition, trad.
de C . B en n in gton e B. M acru m i, M anchester, 1984.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
329
estrito, está realizando outro retom o. M esm o alguns historiadores
associados aos A nnales estão se m ovim entando n essa direção G eorges Duby, por exem plo, que publicou um estudo da batalha
de Bouvines, e Em m anuel Le Roy Ladurie, cujo Carnival trata dos
acontecim entos que ocorrem n a pequena cidade de R om ans
durante 1579 e 1 5 8 0 .6 A atitude explícita desses dois historiadores
não está m uito distante daquela de Braudel. D uby e Le Roy Ladurie
não focalizam os acontecim entos particulares por si sós, m as pelo
que revelam sobre a cultura em que ocorreram . D o m esm o m odo,
o fato de dedicarem livros inteiros a acontecim entos particulares
sugere u m a certa distância da posição de Braudel, e seja com o for,
Le Roy Ladurie já discutiu alhures a im portância do que ele cham a
de “ acontecim ento criador” (événement matrice), que destrói as
estruturas tradicionais e as substitui por n ovas.7
A nova tendência, que com eçou a afetar outras disciplinas,
especialm ente a antropologia social, foi discutida pelo historiador
britânico Lawrence Stone em um artigo sobre ‘ The Revival of
Narrative’ , que atraiu m uita atenção.8 Stone dizia não estar fazendo
m ais do que “ tentar m apear as m udanças observadas de m aneira
histórica” , em vez de realizar julgam entos de valor. A esse respeito,
algum as obras históricas m ais conhecidas, que surgiram nos anos
80, confirm aram suas observações. Citizens de Sim on Scham a, por
exem plo, é u m estudo da Revolução Francesa, publicado em 1989
que descreve a si m esm o com o um retorno “ à form a das crônicas
do século dezenove” .9
6. G . D uby, The Legend of Bouvines, trad. de C . Tihanyi, C am b ridge, 1990; E. Le Roy
Ladurie, C arnival, trad. de M . Fenney, Lon dres, 1980.
7. E. Le Roy Ladurie, “ Event and Long-Term in Social H istory” , trad. de B . e S . Reynolds
em seu Terricory ofthe Historian, H assocks, 1979, p. 111-32.
8. L. Ston e, “T h e Revival o f N arrative” , Pasc and Present, 85, p. 3-24, 1979; cf. E.].
H o b sb aw m , “ S o m e C o m m e n ts", Past and Present, 8 5 , p. 3 -8 ,1 9 8 0 . C f. ]. B o o n , The
Anthropological Romance of Bali, C am b rid ge, 1977 e E .M . B runer, ‘“Ethnography as
N arrative” em The Anthropology o f Experience, ed. V . T u rn er e E. B runer, U rb a n a e
C h icago , 1 9 8 6 , capitulo 6.
9. S. Sch am a, Citizens, N o v a Y ork, 1 989, p. xv.
PETER BURKE
330
D o m esrtio m odo, é difícil não perceber a tristeza de Stone
diante d o que ele cham a de “a m udan ça ... do m odo analítico para
o descritivo” d a escrita d a história. O título de seu artigo, assim
com o seus argum entos, têm sido influentes. Ele tem contribuído
para transform ar a narrativa histórica em u m tema de debate.10
M ais exatam ente, a narrativa histórica tornou-se o tem a de pelo
m en os dois debates, que têm ocorrido independentem ente, apesar
da relevância de um para o outro. V in cular os dois é o objetivo
principal deste capítulo.11 Em prim eiro lugar, há a conhecida e
longa cam pan ha de oposição àqueles que afirm am , com o Braudel,
que os historiadores deveriam considerar as estruturas m ais seria­
m ente que os acontecim entos, e aqueles que continuam a acreditar
que a função d o historiador é contar u m a história. N esta cam pa­
nha, am bos os lados estão agora entrincheirados em suas posições,
m as cada um deles tem feito algum as observações im portantes à
custa do ou tro.12
D e um lado, os historiadores estruturais m ostraram que a
narrativa tradicional passa por cim a de aspectos im portantes do
passado, que ela sim plesm ente é incapaz de conciliar, .desde a
estrutura econôm ica e social até à experiência e os m od os de pen sar
das p essoas c o m u n s.13 Em outras palavras, a narrativa não é m ais
inocente na historiografia d o que o é n a ficção. N o caso de um a
narrativa de acontecim entos políticos, é difícil evitar enfatizar os
atos e as decisões dos líderes, que proporcion am um a linha clara
à história, à custa dos fatores que escaparam ao seu controle. N o
caso das entidades coletivas - a A lem anh a, a Igreja, o Partido
C on servador, o Povo etc. - o historiador narrativo é forçado a
10. C f. B. Bailyn, “T h e C hallen ge o f M o d e m H istoriography” , American Historical
Revieiv, 8 7 , p. 1-24, 1982.
11. C f. Ricoeur; M . Phillips, “ O n H istoriography and N arrative” , University of Toronto
Quarterly, 5 3 , p. 14 9 -6 5,1983-4; e H . Kellner, Language and Historical Representation,
M ad iso n , 1 9 8 9 , esp. capítulo 12.
12. Para u m a d iscu ssão de pon tos de vista diferentes, ver Theorie uncl Erzühlung in der
Geschicfite, ed. J. K ocka e T . N ipperdey, M u n iqu e, 1979.
13. A últim a qu estão está bem observada em E. A uerbach , Mimesis, trad. W .R . T rask,
Princeton, 1 9 5 3 , capítulos 2 e 3 (discutindo T acitu s e A m m ian u s M arcellinus).
A ESCRITA DA H ISTÓRIA
331
escolher entre omiti-los com pletam ente ou personificá-los, e eu
concordaria com H uizinga em que a personificação é um a figura
de retórica que os historiadores deveriam tentar evitar.14 Ela
obscurece as distinções entre os líderes e os seguidores, além de
encorajar os leitores sem grande im aginação a suporem o con sen so
de grupos que estavam freqüentem ente em conflito.
N o caso da história m ilitar em particular, Jo h n Keegan obser­
vou que a narrativa tradicional da batalha está levando a conclusões
erradas, com seu “ alto foco sobre a liderança” e sua “ redução dos
soldad os a peões” , e necessita ser ab an d on ad a.15 A dificuldade de
se fazer isso pode ser ilustrada pelo caso do conhecido estudo de
C orn eliu s Ryan sobre o D ia-D .16 Ryan pôs-se a escrever sobre a
guerra d o soldado, em vez daquela do general. Su a história é um a
extensão de seu trabalho com o correspondente de guerra: suas
fontes são sobretudo orais. Seu livro transm ite m uito bem o
“ sentim ento” da batalha de am bos os lados. E vivo e dram ático na verdade, com o um dram a clássico, é organizado em torno de
três “ u n id ades” : de lugar (a N orm andia), de tem po (6 de ju n h o de
1944) e de ação. Por outro lado, o livro é fragm entado em discretos
episódios. A s experiências dos diferentes participantes não têm
coerência. A única m aneira de torná-las coerentes parece ser im por
um esq u em a provindo de “ cim a” e assim retom ar à guerra dos
generais de que o autor estava tentando escapar. O livro de Ryan
ilustra o problem a m ais claram ente que a m aioria, m as o problem a
n ão é apenas dele. Esse tipo de tendência pode ser inerente à
organização da narrativa.
Por outro lado, os defensores da narrativa observaram que a
análise d as estruturas é estática e, assim , em certo sentido, não-histórica. A o se tom ar o m ais fam oso exem plo de história estrutural
de n o sso tem po, em bora o Mediterranean (1949) de Braudel
14. J. H uizinga, “Tw o W restlers with the A n gel” em seu Men and Idfias, trad. de J.S .
H olm es e H . van M arle, Lon dres, 1 9 60. C o n trastar a defesa d a personificação em
K ellner (esp. capítulo 5 sob re Michelet).
15. J. K eegan, The Face of Battle, 1 9 7 6 : H arm on dsw orth, 1 9 7 8 ed. p. 61f.
1 6. C . Ryan, The Longest Day, Lon dres, 1959.
332
PETER BURKE
encontre espaço, tanto para os acontecim entos quanto para as
estruturas, freqüentem ente tem sido observado que o autor pouco
faz para sugerir que aquilo que une poderia estar entre as três
escalas de tem po que ele utiliza: o longo, o m édio e o curto prazo.
Seja com o for, o M editerranean de Braudel não é um exem plo
extrem o de história estrutural.17 A pesar de suas observações n o
prefácio sobre a superficialidade dos acontecim entos, ele prosse­
guiu dedicando-lhes várias centenas de páginas n a terceira parte de
seu estudo. O s seguidores de Braudel, entretanto, têm-se inclinado
a reduzir seu projeto (e não apenas n o sentido geográfico) enquanto
o im itam . O atual form ato clássico de um estudo regional à m aneira
do s Annales inclui um a divisão em duas partes, estrutura e conjun­
tura (em outras palavras, tendências gerais), com pouco espaço para
os acontecim entos no estrito senso.
O s historiadores desses dois cam pos: estrutural e narrativo,
diferem, não apenas na escolha d o que consideram significativo
n o p assado , m as tam bém em seus m odos preferidos de explicação
histórica. O s historiadores da narrativa tradicional tendem - e isto
não é exatam ente contingente - a exprim ir suas explicações em
term os de caráter e intenção individuais; explicações do tipo “ as
ordens chegaram tarde de M adri, porque Felipe II n ão conseguia
decidir o que fazer” , em outras palavras, com o diriam os filósofos:
“ a jan ela quebrou porque Brow n atirou nela um a pedra” . O s
historiadores estruturais, p o r outro lado, preferem explicações que
tom am a form a: “ a janela quebrou porque o vidro era frágil” ou
(citando o fam oso exem plo de Braudel) “ as ordens chegaram tarde
de M adri porque os navios do século dezesseis dem oravam várias
sem an as para cruzar o M editerrâneo” . C o m o observa Stone, o
cham ado renascim ento d a narrativa tem m uito a ver com um a
crescente desconfiança do segundo m od o de explicação histórica,
freqüentem ente criticado com o reducionista e determ inista. M ais
um a vez, o recente livro de Sch am a oferece um bom exem plo da
17. R icoeur (1 9 8 3 ) vai adiante para afirm ar qu e é um a narrativa histórica com u m “ q u ase
en red o ” , p. 2 9 8 ff.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
333
tendência. O autor explica que “ escolheu para apresentar estes
argum entos na form a de u m a narrativa” , tendo em vista que a
Revolução Francesa foi “ m uito m ais o produto da atuação h um an a
do que de condicionam ento estrutural” .18
Esta prolongada guetra de trincheiras entre os historiadores
narrativos e os estruturais foi longe dem ais. A lgum a idéia do preço
do conflito, a perda d o entendim ento histórico potencial qu e ele
envolve, pode ser sentida ao se com pararem dois estudos da ín d ia
do século dezenove, que foram publicados em 1978 e focalizam o
que se costum ava cham ar de Motim Indiano de 1857, agora
conhecido com o a Grande Rebelião.19 C hristopher H ibbert produ ­
ziu um a narrativa tradicional, um a história dividida em partes em
grande estilo, com capítulos intitulados “ M otim em M eerut” , “ O
M otim se E spalh a” , “O C erco de Lucknow” , “ O A taque” , e assim
p o r diante. Seu livro é colorido, n a verdade prende a atenção, m as
é tam bém superficial, n o sentido de não dar ao leitor m uita idéia
do porquê os acontecim entos ocorreram (talvez por ser escrito do
ponto de vista dos britânicos, que foram tom ados de surpresa). Por
outro lado, Eric Stokes apresenta um a cuidadosa análise d a geogra­
fia e d a sociologia da revolta, suas variações regionais e seus
contextos locais, m as .se exim e de um a síntese final. Len do os dois
livros, um im ediatam ente após o outro, pode-se ficar assom brado,
com o eu fiquei, pelo fantasm a de um potencial terceiro livro, que
pudesse integrar a narrativa e a análise e relacionar m ais intim a­
m ente os acontecim entos locais às m udanças estruturais na socie­
dade.
C h ego u o m om en to de se investigar a possibilidade de encon­
trar u m m od o d e escapar a este confronto entre narradores e
analistas. U m b o m com eço poderia ser criticar am bos os lados,
por um a su p o sição falsa do que eles têm em com um , a suposição
de qu e distinguir o s acontecim entos das estruturas seja um a
questão fácil. T en d em o s a utilizar o term o “ acontecim ento” de um a
18. Sch am a, 1 989, p. xv.
19. C . H ibbert, The G reat Mutiny, Londres, 1 978; E. Stokes, The Peasant and the Raj,
C am b rid g e, 1978.
334
PETER BURKE
m aneira m uito vaga, referindo-nos, não somente a eventos que
duraram poucas horas, com o a batalha de W aterloo, m as também
a ocorrências com o a Revolução Francesa, um processo desenrolado
durante vários anos. Pode ser útil empregar os termos “ acontecimen­
to” e “ estrutura” para se referir aos dois extremos de todo um espectro
de possibilidades, m as não deveríamos esquecer a existência do
centro do espectro. A s razões para a chegada tardia das ordens de
M adri não necessitam estar limitadas à estrutura das comunicações
n o Mediterrâneo, ou ao fato de Felipe II não conseguir se decidir
em um a determ inada ocasião. O rei pode ter sido cronicamente
indeciso, e a estrutura do governo, por conselho, poderia ter
retardado m ais ainda o processo de tom ada de decisão.
D evido a essa im precisão de definição, deveríam os fazer o que
M ark Phillips sugeriu e “ pen sar nas variedades de m od os de
narrativa e de não-narrativa, existentes ao longo de um a série
contínua” .20 T am bém não deveríam os n os esquecer de questionar
a relação entre acontecim entos e estruturas. T rab alh an do nesta
área central, pode ser possível ir além das duas posições opostas
para alcançar u m a síntese.
Narrativa tradicional versus narrativa moderna
V isan d o a esta síntese, as opiniões expressas no segundo
debate podem proporcionar u m a contribuição útil. Este segundo
debate teve início n os Estados U n id o s n os an os 60, e ain da n ão
foi levado tão a sério qu an to merece pelos historiadores de outras
partes d o m undo, talvez por parecer “ m eram ente” literário. N ão
está preocupado com a questão de escrever ou n ão escrever a
narrativa, m as com o problem a d o tipo de narrativa a ser escrita.
O historiador de cinem a Siegfried K racauer parece ter sido o
prim eiro a sugerir que a ficção m oderna, m ais especialm ente a
“ decom posição da continuidade tem poral” em Joyce, Proust e
20. P hillips, “ O n H istoriograph y” , 1983-4, p. 157.
335
A ESCRITA DA HISTÓRIA
V irgínia W oolf, oferece um desafio e u m a oportunidade aos
narradores históricos.21 U m exem plo ain da m ais nítido dessa
decom posição, incidentalm ente, é Eyeless in G aza (1936), de
A ld ou s Huxley, novela com posta de curtos verbetes datados para
o período de 1902-34, .em um a ordem que, em bora lógica, é
determ inadam ente não-cronológica.
H ayden W hite atraiu, m ais atenção que Kracauer, q u an d o
acusou a profissão histórica de negligenciar as reflexões literárias
de su a própria época (incluindo um sentido de descontinuidade
entre os acontecim entos n o m undo exterior e sua representação
sob a form a narrativa) e de continuar a viver n o século dezenove,
a época áurea do “ realism o” literário.22 Em um a tônica sim ilar,
Lionel G o ssm an queixou-se de que “ não é fácil, para n ós hoje em
dia, perceber quem é, com o escritor, o Joyce ou o Kafka da
historiografia m oderna” .23 Talvez. M esm o assim , o historiador
G o lo M an n parece ter apren dido algo d a prática narrativa de seu
pai novelista. N ão é inteiram ente fantasioso com parar-se a inter­
pretação de G o lo M an n dos pen sam en tos do idoso W allenstein
com o célebre capítulo de Lotte in Weimar que evoca o fluxo de
consciência de G oethe, aparentem ente u m a tentativa de superar
Joyce. E m seu estudo, que ele cham a de “u m a novela excessiva­
m ente verdadeira” , G o lo M an n segue as regras da evidência
histórica e deixa claro que está apresentando um a reconstrução
hipotética. A o contrário d a m aioria dos rom ancistas, ele não
pretende ler a m ente de seu herói, apenas su as cartas.24
21. S . K racauer, H istory: the Last Tfiings be/ore the Last, N o v a Y ork, 1 9 69, p. 178f.
2 2 . H .V . W h ite, “T h e B u rden o f H istory” , History and Theory, 5, 1 966, republicado em
seu Tropics of Discourse, Baltim ore, 1 983, p. 27-50. Para u m a defesa filosófica da
co n tin u id ad e entre as narrativas e o s acontecim entos qu e eles relatam , ver D . C arr,
“ N arrative an d the R eal W orld : an A rgum ent for C ontinu ity” , History and Theory,
2 5 , p. 1 1 7 -3 1 ,1 9 8 6 .
2 3 . L. G o ssm a n , “ H istory an d Literature” em The Writing of History, ed. R .H . C an ary e
H . Kozicki, M ad iso n , 1 978, p. 3-39.
,
2 4 . G . M a n n , Wallenstein, Frankfurt, 1 971, p. 984f.: 993ff.; T . M an n , Lotte in Weimar,
1 939, capítulo 7. C f. G . M an n , “Pládoyer fü r d ie h istorische E rzàhlung” em Kocka
e N ipperdey, 1 9 7 9 , p. 40-56, especialm ente su a declaração de qu e a narrativa histórica
n ão exclui o conhecim ento d a teoria.
PETER BURKE
336
Em contra'ste com W hite e G o ssm an , n ão estou afirm ando que
os historiadores sejam obrigados a se engajar em experiências
literárias, sim plesm ente por viverem n o século vinte, ou a imitar
determ inados escritores, devido suas técnicas serem revolucioná­
rias. O objetivo de buscarm os um a nova form a literária é certamen­
te a consciência de que as velhas form as são inadequadas aos
n o sso s propósitos.
A lgum as inovações são provavelmente m ais bem evitadas pelos
historiadores. N este grupo eu incluiria a invenção do fluxo de
consciência, por m ais útil que pudesse ser, pelas m esm as razões
que levaram os historiadores a rejeitarem o fam oso expediente
clássico do discurso inventado. O utras experiências, n o entanto,
in spiradas por um a variedade bem m aior de escritores m odernos
do que já tem sido m encionado, podem apresentar soluções para
problem as com que os historiadores há m uito vêm lutando, três
problem as em particular.
Em prim eiro lugar, poderia ser possível to m ar as guerras civis
e outros conflitos m ais inteligíveis, seguindo-se o m odelo dos
rom ancistas que contam suas histórias, partindo de m ais- de um
ponto de vista. E estranho que esse expediente, tão eficaz nas m ãos
de Huxley, W illiam Faulkner em The Sound and the Fury (1931),
e Lawrence D urrel em The Alexandria Quartet (1957-60) - sem
m encionar as novelas epistolares d o século dezoito - não tenha
sid o levado m uito a sério pelos historiadores, em bora pudesse ser
útil modificá-lo, para lidar com pontos de vista coletivos e tam bém
individuais. T al expediente perm itiria um a interpretação d o con­
flito em term os de um conflito de interpretações. Para perm itir que
as “vozes variadas e o p o stas” da m orte sejam novam ente ouvidas,
o historiador necessita, com o o rom ancista, praticar a heteroglossia
(ver anteriorm ente, p. 15).25
25. C f. G . W ilso n , “ Plots an d M otives in ]a p a n ’s M iji Restoration” , Comparatiue Studies
in Society and History, 2 5, p. 407-27, 1983, qu e faz u so d a term inologia de H ayden
W hite, m as está essencialm ente vinculada à m ultiplicidade d o s p on tos de vista d o s
atores. N . H am p so n , The Life and Opinions ofM axim ilian Robespiene, Lon dres, 1976,
apresen ta um diálogo entre diversas interpretações m od ern as d a R evolução Francesa.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
337
Bastante curiosam ente, q u an d o este en saio estava prestes a ir
para o prelo, foi publicado um trabalho histórico desse tipo.
Richard Price apresenta seu estudo do Surinam e do séculodezoito,
n a form a de u m a narrativa com quatro “vozes” (sim bolizadas por
quatro padrões tipográficos); aquela dos escravos negros (transm i­
tida por seus descendentes, os Saram akas); a dos adm inistradores
holan deses; a dos m ission ários m oravianos; e, finalmente, aquela
do próprio historiador.26 O objetivo do exercício é precisam ente
m ostrar, e tam bém estabelecer, as diferenças de pontos de vista
entre o p assad o e o presente, a Igreja e o Estado, o negro e o branco,
os desentendim entos e a luta para im por definições particulares da
situaçãq. Será difícil imitar este towr de force de reconstrução
histórica, m as Price merece inspirar toda um a estante de estudos.
Em segundo lugar, cada vez m ais historiadores estão com eçan­
do a perceber que seu trabalho não reproduz “ o que realmente
aconteceu” , tanto quanto o representa de u m ponto de vista
particular. Para com unicar essa consciência aos leitores de história,
as form as tradicionais de narrativa são inadequadas. O s narradores
históricos necessitam encontrar um m od o de se tornarem visíveis
em sua narrativa, não de auto-indulgência, m as advertindo o leitor
de que eles não são oniscientes ou im parciais e que outras
interpretações, além das suas, são possíveis.27 Em um a peça notável
de autocrítica, G o lo M an n declarou que um historiador necessita
“ tentar fazer duas coisas sim ultaneam ente, nadar com a corrente
dos acontecim entos” e “ analisar esses acontecim entos da posição
de um observador posterior, m ais bem in form ado” , com bin an do
os dois m étodos “ para produzir um a aparência de hom ogeneidade,
sem qu e a narrativa fique de lado” .28
26. R. Price, A lab i’s World, Baltim ore, 1990.
27. O problem a já foi d iscu tido p o r Thierry e M ichelet. V er G . Pom ata, “O vert and
C ov ert N arrators in N ineteenth-Century H istoriograph y” , History Workshop, 27,
p . 1 -1 7 ,1 9 8 9 .
2 8 . Prefácio p ara a tradução inglesa de seu Wallenstein, de autoria de C . K essler, Lon dres,
1 9 7 6 . M an n co n fessa qu e “a prim eira abordagem prevalece” em seu próprio livro.
O u tro b o m exem plo d o q u e M an n defencle pod e ser encontrado em T .H . Breen,
Imagining the Past: E ast Hampton Histories, R eadin g, M ass., 1989.
PETER BURKE
338
A q u i m ais um a vez o novo livro de Price apresenta um a possível
solução para o problem a, rotulando su a própria contribuição com o
u m a “voz” entre outras. Soluções alternativas tam bém são dignas
de consideração. O s teóricos literários têm, ultimamente, discutido
o expediente ficcional do “ narrador nada confiável de prim eira
p esso a” .29 T al expediente pode ser de algum u so tam bém para os
historiadores, contanto que a não-confiabilidade seja explicitada.
M ais um a vez, H ayden W hite sugeriu que as narrativas históricas
sigam quatro planos básicos: com édia, tragédia, sátira e rom ance.
Ranke, por exem plo, escolheu (consciente ou inconscientem ente)
escrever história “com enredos de com édia” , em outras palavras,
seguindo um “m ovim ento ternário ... a partir de u m a condição de
paz aparente, através da revelação do conflito, até a resolução do
conflito n o estabelecim ento de um a ordem social genuinam ente
pacífica” .30 Se o m od o com o a narrativa term ina ajuda a determ inar
a interpretação do leitor, então pode ser valioso seguir o exem plo
de alguns rom ancistas, com o Jo h n Fowles, e proporcionar finais
alternativos. U m a história narrativa da Primeira G uerra M undial,
por exem plo, vai n os dar u m a im pressão, se a narrativa term inar
em V ersailles em 1919, outra, se a narrativa se estender até 1933
ou 19 3 9 . A ssim sendo, fechos alternativos tornam a obra m ais
“ aberta” , n o sentido de encorajar os leitores a chegarem às suas
próprias con clusões.31
E m terceiro lugar - e este é o tem a principal deste capítulo u m novo tipo de narrativa poderia, m elhor que as antigas, fazer
frente às dem andas dos historiadores estruturais, ao m esm o tem po
em que apresenta um sentido m elhor d o fluxo do tem po d o que
em geral o fazem suas análises.
2 9 . W . R iggan, Pícaros, Madmen, N aifs and Clowns: the Unreliable Firts-Person Narrator,
N o rm an , 1 981.
3 0 . H . W h ite, Metahistory, Baltim ore, 1973, p. 176f.
31. C f. M . T orgovnick, Closure in the Novel, Princeton, 1 9 8 1 , e U . Eco, “T h e Poetics o f
the O p e n W o rk ” em seu The Role o f the Reader, L on dres, 1 981, capítulo 1. U m
m ovim ento n a direção de u m a narrativa histórica m ais aberta é prevista p o r Phillips,
“ O n H istoriograph y” , p. 153.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
339
Densificando a narrativa
H á alguns an os atrás, o antropólogo C lifford Geertz inventou
a expressão “ descrição d en sa” para um a técnica que interpreta um a
cultura alienígena, através da descrição precisa e concreta de
práticas ou acontecim entos particulares, em seu caso, a descrição
das brigas de galo em B ali (cf. G iovanni Levi, p. 134).32 A ssim
com o a descrição, a narrativa poderia ser caracterizada com o m ais
ou m en os “ fluida” ou “ den sa” . N o final fluido do espectro, tem os
a observação crua em um volum e dos anais com o a C rôn ica
A nglo-Saxônica de que “ N este ano C eolw ulf foi destituído de seu
rein ado” . N o outro extremo, encontram os narrativas (raríssim as
até agora) que foram deliberadam ente construídas para suportar
um volum e pesado de interpretações.
O problem a que eu gostaria de discutir aqui é aquele de se
fazer um a narrativa den sa o bastante, para lidar não apenas com
a seqüência dos acontecim entos e das intenções conscientes
do s atores nesses acontecim entos, m as tam bém com as estruturas
- instituições, m od os de pen sar etc. - e se elas atuam com o um
freio ou u m acelerador para os acontecim entos. C o m o seria um a
narrativa desse tipo?
Estas questões, em bora vinculadas à retórica, não são em si
retóricas. É possível discuti-las tendo-se com o base textos e narra­
tivas produzidos por rom ancistas ou por historiadores. N ão é difícil
encontrar rom ances históricos que abordem esses problem as.
Poderíam os com eçar com W ar and Peace, pois pode-se dizer que
T olsto i com partilhou a opin ião de Braudel sobre a futilidade dos
acontecim entos, m as de fato m uitos rom ances fam osos estão
vinculados a im portantes m udanças estruturais em u m a determ i­
n ada sociedade, encarando-as em term os d o seu im pacto nas vidas
de alguns indivíduos. U m exem plo de destaque externo à cultura
3 2 . C . Geertz, “T h ick D escription: T o w ard s an Interpretative T h eory o f C u ltu re” , e
“ D eep Play: N otes o n the B alinese C ockfight” em The Interpretation ofCultures, N ova
Y ork, 1973.
340
PETER BURKE
ocidental é Be/ore the Dawn (1932-6), de Shim akazi T o so n .33 A
palavra “ despertar” - n o título, “ dow n” - é a m odernização
(industrialização, ocidentalização) do Japão, e o livro lida com os
an os im ediatam ente anteriores e subseqüentes à restauração im pe­
rial de 1868, q u an d o não estava de m od o algum claro que cam inho
o país iria seguir. O rom ance m ostra em brilhantes detalhes com o
“ O s efeitos da abertura do Japão para o m u n d o estavam se fazendo
sentir nas vidas de cada indivíduo” .34 Para fazer isso, o autor
escolheu u m indivíduo, A oyam a Hanzo, que é o vigia de um posto
dos correios em um a aldeia da principal rodovia entre Q uioto e
T óqu io. Seu trabalho m antém H anzo em contato com os aconte­
cim entos, m as ele não se limita a observá-los. E m em bro do
m ovim ento de Instrução N acional, em penhado em um a solução
autenticam ente japon esa para os problem as do Japão. O enredo
d o rom ance é em grande extensão
narrativa do im pacto da
m u dan ça social em um indivíduo e em sua família, ponto enfati­
zado pela interrupção de T o so n de sua narrativa, de tem pos em
tem pos, para relatar os principais acontecim entos da história
japo n esa de 1853 a 1886.
E provável que os historiadores po ssam aprender algo, a partir
das técnicas narrativas de rom ancistas com o T olstoi e Shim azaki
T o so n , m as não o bastante para resolver todos os seus problem as
literários. Pois os historiadores não são livres para inventar seus
personagens, ou m esm o as palavras e os pensam entos de seus
personagens, além de ser improvável que sejam capazes de con­
den sar os problem as de um a época n a narrativa sobre u m a família,
com o freqüentem ente o fizeram os rom ancistas. Poder-se-ia esperar
que o cham ado “ rom ance de não-ficção” pudesse ter tido algo a
oferecer aos historiadores, desde In C old Blood (1965) de T ru m an
C apote, até Schindler’s Ark (1982) de T h o m as Keneally, que
declaram “ usar a textura e os expedientes de um rom ance para
contar u m a história verdadeira” . Entretanto, esses autores não
33. Sh im azaki T o so n , Be/ore the Daw n, H on olu lu , 1987.
34. Ib id ., p. 62 1 .
A ESCRITA DA HISTÓRIA
341
enfrentaram o problem a das estruturas. Parece que os historiadores
teriam de desenvolver suas próprias “técnicas ficcionais” para suas
“ obras factuais” .35
Felizm ente, os autores de algum as obras recentes de h istória
tam bém têm refletido sobre problem as com o estes e seus estudos
esb o çam u m a resposta, ou m ais exatam ente várias respostas, das
q u ais pode ser útil destacarem -se quatro. U m d o s m odelos está
bem a cam in h o de se tran sform ar em m oda, en quanto os outros
três são representados por pouco m ais de um livro cada um .
A prim eira resposta poderia ser descrita com o “micro-narrativa” (ao longo das linhas do novo termo “micro-história”). E a
narração de um a história sobre as pessoas com uns no local em que
estão instaladas. Em um certo sentido, essa técnica é lugar-comum
entre os rom ancistas históricos, e isso desde o tem po de Scott e
M anzoni, cujo Betrothed (1827) foi atacado n a época (da form a que
a história vista de baixo e a micro-história foram atacadas m ais
recentemente), por escolher com o seu tem a “ a crônica miserável
de u m a aldeia obscura” .36
Foi apenas m uito recentemente, n o entanto, que os historia­
dores adotaram a m icronarrativa. Exem plos recentes bem-conhecidos incluem a narrativa de C ario C ip o lla sobre o im pacto da
peste de 1 6 3 0 n a cidade de Prato, n a T oscan a, e a história de
N atalie D avis de M artin Guerre, um filho pródigo do século
dezesseis que retornou a su a casa, n o sul da França, para
descob rir que seu lugar n a fazenda - e tam bém n a cam a de su a
e sp o sa - havia sid o tom ad o por u m intruso que afirm ava ser o
próp rio M artin .37
35. W .R . Sieben sch u h , Fictional Techniques and Factional Works, 1 9 83, discute com o
isso foi feito no p assad o , com referência especial à vid a de Jo h n so n , de autoria de
Bosw ell. C f. R .W . Rader, “ Literary Form in Factual N arrative: the Exam ple o f
B osw ell’s Jo h n so n ” em E ssays in Eighteenth-Century Biography, eçl. P .B . D agh lian,
Bloo m in gto n , 1 9 6 8 , p. 3-42.
36. C itad o em Letteratura Italiana, ed. A . A so r R osa, 5, T u rim , 1 986, p. 224.
3 7 . C . C ip o lla, Cristo/ano and the Plague, Lon dres, 1 973; N .Z. D avis, The Return of
M artin Guerre, C am b ridge, M ass., 1973.
PETER BURKE
342
A redução n a escala não densifica em si a narrativa. A questão
é que os historiadores sociais voltaram-se para a narrativa, com o
u m m eio de esclarecer as estruturas - as atitudes em relação à peste
e às instituições para combatê-la, n o caso de C ario C ipolla, a
estrutura da família cam pon esa do sul da França, n o caso de Natalie
Davis, e assim por diante. M ais exatamente, o que N atalie D avis
queria fazer era descrever, não tanto as próprias estruturas, m as
“ as esperanças e os sentim entos dos cam poneses; os m od os com o
sentiam a relação entre m arido e m ulher, pais e filhos; os m od os
com o experim entavam as restrições e as possibilidades em suas
v id as” .38 O livro pode ser lido sim plesm ente com o u m a boa
história e um a evocação viva de alguns indivíduos do passado, m as
a autora faz deliberadas e repetidas referências aos valores da
sociedade. D iscutindo, por exem plo, porque a esp osa de M artin,
Bertrande, reconheceu o intruso com o seu m arido, D avis com enta
sobre a posição das m ulheres na sociedade rural francesa e sobre
seu sen so de honra, reconstruindo as restrições no interior das
quais elas m aquinavam .
Por outro lado, os com entários são deliberadam ente discretos.
C o m o explica a autora, “ Eu ... escolhi previam ente m eus argum en­
tos ... tanto pela ordenação da narrativa, escolha de detalhes, voz
e m etáfora literária, quanto pela análise tem ática” . O objetivo era
aquele de “ im plantar esta história nos valores e nos hábitos d a vida
e das norm as de um a aldeia francesa n o século dezesseis, e
utilizá-los para ajudar a com preender os elem entos centrais na
h istória e usar a história para comentá-los de volta” .39 A história
de M artin pode ser encarada com o u m “ dram a social” , no sentido
em qu e os antropólogos utilizam o term o; u m acontecim ento que
revela conflitos latentes e assim esclarece as estruturas sociais.40
A m icronarrativa parece ter vindo para ficar; cada vez m ais
historiadores estão se voltando para essa form a. M esm o assim ,
3 8 . D avis, M artin Guerre, p. 1.
3 9 . N .Z. D avis, “ O n the Lam e” , American Historical Revieiv, 93, p. 5 7 5 ,5 7 3 , 1988.
4 0 . S o b re este conceito, V . T u rn er, Dramas, Fields and Metaphors, Ithaca, 1 974, capí­
tulo 1.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
343
seria um erro encará-la com o um a panacéia. Ela não apresenta um a
solução para todos os problem as delineados anteriorm ente e gera
problem as próprios, especialm ente aquele de ligar a m icro-história
à macro-história, os detalhes locais às tendências gerais. E por
enfrentar diretam ente esse problem a im portante, que considero
Gate of Heavenly Peace, de Spence, um livro exemplar.
Jon ath an Spence é um historiador d a C h in a que há m uito
tem po tem se interessado pelas experiências sob form a literária.
U m de seus prim eiros livros foi um a biografia do im perador
K ’ang-Hsi, ou antes um retrato do im perador - na verdade, um
tipo de auto-retrato, um a tentativa de explorar a mente de K ’ angH si, fazendo um a espécie de m osaico ou m ontagem de suas
observações pessoais, encontradas dispersas entre os docum entos
oficiais, dispondo-as sob títulos com o “ filhos” , “governando” ou
“ envelhecendo” . O efeito não é diferente de um as Memoirs of
H adrian chinesas. E difícil pen sar em um estudo que m elhor
m ereça a descrição de “história vista de cim a” do que o auto-retrato
de um im perador, m as Spence seguiu-o com um ensaio comovente
em história vista de baixo. The Death of Woman Wang é um a peça
de m icro-história, ao estilo de C ipolla ou Davis, com quatro
histórias contadas, ou im agens descritas, para revelar as condições
n a província de Shantung, n os anos conturbados do final do século
dezessete. M ais recentemente, em The Memory Palace of Matteo
Ricci, Spence organizou seu relato do fam oso m ission ário jesuíta
n a C h in a, em torno de várias im agens visuais, à custa de seqüência
cronológica, produzindo um efeito rem iniscente do Eyeless in G aza
de Huxley.
The Gate of Heavenly Peace, po r outro lado, parece m ais um a
peça de história convencional, um relato das origens e do desen­
volvim ento da Revolução C h in esa de 1895 a 19 80.41 M ais um a
vez, contudo, se afirm a o interesse do autor pela biografia e pelos
instantâneos históricos e seu livro é construído em torno de um
4 1 . J. Sp en ce, Emperor of C hina, Lon dres, 1 9 74: The Death of Woman Wang, Lon dres,
1 9 7 8 ; The Gate o f Heavenly Peace, Lon dres, 1 982; The Memory Palace of Matteo Ricci,
Lon dres, 1985.
344
PETER BURKE
pequen o ijúm ero de indivíduos, especialm ente o estudioso K ang
Youwei, o soldado e acadêm ico Sh en C ongw en e os escritores Lu
X u n e D in g Ling. Esses indivíduos não desem penham um papel
im portante n os acontecim entos da revolução. D esse ponto de vista,
podem ser com parados com o que o crítico húngaro G eorg Lukács
cham ou de “herói m edíocre” nas novelas de Sir W alter Scott; um
herói, cuja vulgaridade permite que o leitor enxergue m ais clara­
m ente a vida e os conflitos sociais da época.42 N o caso de Spence,
os protagonistas foram selecionados porque, com o sugere o autor,
eles “ descreveram suas esperanças e tristezas com particular sensi­
bilidade” e tam bém porque as experiências pessoais “ ajudam a
definir a natureza dos tem pos, através dos quais eles viveram ” . São
encarados m ais com o passivos que com o ativos. N a verdade, o
autor fala das “ intrusões dos acontecim entos externos” sobre seus
personagens.43 Su a preocupação com indivíduos diferentes im plica
um interesse em pontos de vista m últiplos ou um a multivocalidade,
m as - em contraste com o livro de Price, discutido anteriorm ente
- esta m ultivocalidade perm anece abaixo da superfície da história.
A presentar a história da C h in a dessa m aneira suscita proble­
m as. A passagem de um indivíduo para outro corre ò risco de
confundir o leitor, assim com o tam bém as m udanças para trás e
para diante, entre o que poderia ser cham ado de tem po “ público” ,
o tem po dos acontecim entos com o a G ran de M archa ou a Revo­
lução de 1949, e o tem po “ privado” dos principais personagens.
Por outro lado, Spence com unica de u m m od o vivo e com ovente
a experiência de vida (ou, n a verdade, de deixar de viver) durante
esses an os turbulentos. Entre suas passagens m ais m em oráveis está
seu relato da opinião de um a criança sobre a revolução de 1919,
com o é lem brada por Sh en C ongw en; a reação de Lu X u n ao
m assacre dos estudantes em um a passeata em Beijing em 1926; e
os ataques oficiais sobre D ing Ling em 1957, em seguida à
su pressão do M ovim ento das “ C em Flores” .
4 2 . G . Lukács, The Historical Novel, trad. de H . e S. M itchell, Lon dres, 1 962, p. 30f.
4 3 . Spen ce, 1 9 8 2 , p. xiii.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
345
Pode haver outras m aneiras de se relacionar m ais intim am ente
a estrutura aos acontecim entos do que em geral fazem os historia­
dores. U m m étodo possível é escrever a história de frente para trás,
com o fez B .H . Su m n er em su a Survey ofRussian History (organizada
por tópicos) ou N orm anJD avies em sua história recente d a Polônia,
Heart of Europe (1984), narrativa que focaliza o que o autor cham a
de “ o p assad o na presente.Polônia” .44 C om eça com “ O Legado da
H um ilhação: a Polônia a partir da Segunda G uerra M un dial” e
move-se para trás através de “ O Legado da D errota” , “ O Legado
do D esen canto” (1914-39), “ O Legado do D om ínio Espiritual”
(1795-1918), e assim por diante. Em cada ocasião o autor sugere
que é im possível com preender os acontecim entos narrados em um
capítulo, sem conhecer o que o precedeu.
Esta form a de organização tem suas dificuldades, m ais obvia­
m ente o problem a de que em bora os capítulos sejam dispostos em
ordem inversa, cada capítulo tem de ser lido para diante. A grande
vantagem da experiência, por outro lado, é permitir, ou m esm o
forçar o leitor a sentir a pressão do p assado sobre os indivíduos e
os grupos (a pressão das estruturas ou dos acontecim entos que
congelaram ou, com o diria Ricoeur, se “ sedim entaram ” em estru­
turas). D avies n ão explora esta vantagem tanto quanto poderia.
N ã o faz qualquer esforço sério para relacionar cada capítulo com
aquele que vem “ dep ois” . E difícil im aginar su a abordagem de
an dar para trás, tornando-se adaptável ao estilo da micro-história.
M esm o assim , esta é um a form a de narrativa digna de ser seria­
m ente considerada.
U m quarto tipo de análise da relação entre estruturas e
acontecim entos pode ser encontrado n a obra de um antropólogo
social am ericano, em bora ela vá com pletar o ciclo que nos trará de
volta aos Annales. O antropólogo M arshall Sahlins, que trabalha
n o H avaí e nas Ilhas Fuji, é extremam ente interessado no pen sa­
m ento m oderno francês (de Saussure a Braudel, de V ourdieu a
Lévi-Strauss), m as considera m ais seriam ente os aco'ntecimentos
4 4 . N . D avies, Heart of Europe: a Short History of Poland, O xford , 1984.
346
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PETER BURKE
do que qualquer um desses pen sadores.45 Em seus estudos dos
encontros entre as culturas n o Pacífico, Sahlins faz duas observa­
ções diferentes, m as com plem entares.
Em prim eiro lugar, sugere que os acontecim entos (especial­
m ente a chegada de C o o k n o Havaí em 1778) “ portam traços
culturais distintos” , que são “ regulados pela cultura” , nò sentido
de que os conceitos e as categorias de um a cultura particular
determ inam os m odos pelos quais seus m em bros percebem e
interpretam seja o que for que aconteça em sua época. O s havaia­
nos, por exem plo, perceberam o C apitão C o o k com o um a m an i­
festação de seu deus Lono, porque ele era obviam ente poderoso e
porque chegou na época do ano associada aos aparecim entos do
deus. O acontecim ento pode por isso ser estudado (com o sugeriu
Braudel) com o u m a espécie de papel heliográfico que revela as
estruturas da cultura.
Entretanto, Sahlins tam bém declara (ao contrário de Braudel)
que há um relacionam ento dialético entre os acontecim entos e as
estruturas. A s categorias são postas em perigo cada vez que são
utilizadas para interpretar o m u n d o em m utação. N o processo de
incorporação d o s acontecim entos, “ a cultura é reordenada” . O fim
do sistem a dos tabus, por exem plo, foi um a das conseqüências
estruturais do contato com os britânicos. A ssim tam bém o aum en­
to do com ércio intercontinental. É verdade em m ais de um sentido
que C o o k não deixou o Havaí com o o havia encontrado. Sahlins
contou u m a história com um a m oral, ou talvez com duas m orais.
A m oral para os “ estruturalistas” é aquela em que eles deveriam
reconhecer o poder dos acontecim entos, seu lugar no processo da
“estruturação” . O s defensores da narrativa, por outro lado, são
en corajados a exam inar a relação entre os acontecim entos e a
cultura em que eles ocorrem . Sahlins foi além da fam osa ju stapo­
sição dos acontecim entos e das estruturas de Braudel. N a verdade,
4 5 . M . Sah lin s, Historical Metaphors and Mythical Realities, A n n A rb o r, 1981 e lslands
o f History, C h icago , 1 985. C f. P. Burke, “ Les iles anth ropologiqu es et le territoire de
l’h istorien” , em Philosophie et histoire, ed. C . D escam p s, Paris, 1 987, p. 49-66.
A ESCRITA DA HISTÓRIA
347
ele virtualm ente resolveu, ou dissolveu, a oposição binária entre
essas duas categorias.
R esu m in do , tenho tentado argum entar que historiadores
com o Taw ney e N am ier, Febvre e Braudel, foram justificados em
su a rebelião contra um a form a tradicional da narrativa histórica
qu e era m al adaptada à história estrutural que eles consideravam
im portante. A escrita da história foi im ensam ente enriquecida
pela ex p an são de seu tem a, e tam bém pelo ideal da “ história
total” . Entretanto, m uitos estu diosos atualm ente con sideram que
a escrita da história tam bém tem sid o em pobrecida pelo ab an d o ­
n o d a narrativa, estan do em andam ento u m a b u sca de novas
form as de narrativa que serão adequadas às novas histórias, que
os historiadores gostariam de contar. Estas novas form as incluem
a m icronarrativa, a narrativa de frente para trás e as histórias que
se m ovim en tam para frente e para trás, entre os m u n d os público
e privado, ou apresentam os m esm os acontecim entos a partir de
p o n tos de vista m últiplos.
Se os historiadores estão procurando m odelos de narrativas
que ju stapon h am as estruturas da vida com um pelos acontecim en­
tos extraordinários, e a visão de baixo pela visão de cima, podem
m uito bem ser aconselhados a voltar à ficção do século vinte,
incluindo o cinem a (os filmes de Kurosaw a, por exem plo, ou de
Pontecorvo ou de Jancsó). Pode ser im portante que um a das
discu ssões m ais interessantes da narrativa histórica seja a obra de
um historiador do cinem a (a obra de Kracauer, já citada). O
expediente de pontos de vista m últiplos é central ao Rashomon de
K urosaw a.46 Está implícita em The Red and the White, de Jancsó,
u m a narrativa da guerra civil ru ssa em que os dois lados se revezam
para capturar a m esm a aldeia.
Q u an to a Pontecorvo, poderia ser dito que ele transform ou o
próprio processo histórico em si n o tem a de seus filmes, em vez
de sim plesm ente contar um a história sobre indivíduos em trajes
4 6 . A h istória original d e Akutagaw a n ão adotava este expediente.
348
PETER BURKE
históricos.47* É interessante observar que Jonatham Spence u sa a
linguagem de “ m ontagem ” e que The Return of M artin Guerre
apareceu m ais ou m en os na m esm a época, com o um a história e
com o um filme, depois de Natalie D avis e D aniel V igne terem
trabalhado juntos n o tem a.48 V isões retrospectivas, cortes e a
alternância entre cena e história: essas são técnicas cinem áticas (ou
na verdade literárias) que podem ser utilizadas de um a m aneira
superficial, antes para ofuscar do que para ilum inar, m as podem
tam bém ajudar os historiadores em sua difícil tarefa de revelar o
relacionam ento entre os acontecim entos e as estruturas e apresen­
tar pontos de vista m últiplos. Desenvolvim entos desse tipo, se
continuarem , podem reivindicar ser vistos, não apenas com o m ero
“ renascim ento” da narrativa, com o denom inou Stone, m as com o
u m a form a de regeneração.
4 7 . G . Pontecorvo, L a battaglia di Algeri, 1 966; Q ueim ada, 1969.
4 8 . N .Z. D avis, J.-C . C arrière, D . V igne, Le retour de M artin Guerre, Paris, 1982.
ÍNDICE REMISSIVO
A cton, Lord, h istoriador britânico, 15
A H A (A m erican H istorical A ssociation),
70, 72
A lexander, W illiam , h istoriador britânico,
19
alfabetização, 169-170
Alltagsgeschichte, 23
A lp ers, Sved an a, h istoriadora de arte am e­
ricana, 2 6 0
Barth, Fredrik, antropólogo norueguês,
137
Baxandall, M ichael, historiador de arte
britânico, 2 6 0 , 2 6 2 , 263
behaviourism o, 277-279
Belting, H an s, h istoriador de arte alem ão,
261
bibliotecas, 202-204
Bloch, M arc, historiador francês, 17, 113
am n ésia, estrutural, 178
Bourdieu, Pierre, sociólogo francês, 34
Annales, revista histórica francesa, 9, 11,
Braudel, F ern an d , h istoriador francês, 12,
1 6 ,1 7 ,1 8 ,5 1 ,6 1 ss., 1 0 2 ,1 1 0 ss., 117,
1 4 ,1 5 ,1 7 ,2 0 ,2 3 ,2 4 ,3 1 ,3 7 ,6 1 ,1 0 5 ,
18 0 , 3 2 8 - 3 2 9
antropologia, 5 2 , 9 3 ,1 4 1 , 1 4 4 ,1 9 9 , 293,
322, 328
A riès, P hilippe, h istoriad or francês, 1 1,16
1 1 2 ,1 1 7 , 3 2 8 - 3 3 2 ,3 3 9 , 3 4 5 ss.
Brecht, Bertold, escritor alem ão, 4 0
Brunschw ig, H enri, h istoriador francês,
1 1 1 ,1 1 2 ,1 1 3 ,1 2 1 ,1 2 2 ,1 2 3
arqueologia, 2 8 ,1 5 8
bruxaria, 52
arquitetura, 241
Burckhardt, Jacob, h istoriador suíço, 18
A rrow , K enneth, cientista político am erica­
Burke, Peter, colaborador, 7, 17, 2 6, 4 3 ,
5 2 ,1 7 6 , 2 2 5 , 241
n o, 2 8 3
autenticidade, 244-252
Cambridge M oáem Histor>, 15
Bakh tin, M ikhail, teórico literário russo,
15, 2 9 3
C an n ad in e, D avid, h istoriador britânico,
5 5 , 5 6 ,1 8 0
Barker, Fran cis, 295-297
can onicidade, 2 5 2 , 25 8
Barrell, Jo h n , h istoriad or literário britâni­
co, 258-260
C a ir, E .H ., h istoriador britânico, 61
C apote, T ru m an , escritor am ericano, 3 4 0
PETER BURKE
350
C erteau , M ichel de, sociólogo francês, 23,
7 8, 79
C hartier, Roger, h istoriador francês, 35,
230
C ip o lla, C ario , h istoriador italiano, 341
D u n n , Jo h n , h istoriador intelectual britâ­
nico, 273, 276, 283, 287
D urkheim , Em ile, sociólogo francês, 17,
1 5 4 ,1 7 3
D urrell, Lawrence, escritor britânico, 336
classes su balternas, 21
C lausew itz, Karl von , teórico militar ale­
m ão, 10
d io m etria, 29
C o b b , Richard, h istoriador francês, 80
C o llin gw o od , R .G ., filósofo e historiador
britânico, 14, 2 7 6
E aston , D avid, cientista político am erica­
no, 2 7 7 , 278, 283
eco-história, 7
ecologia, 20
educação, 21
colon ialism o, 102
Elias, N orbert, sociólogo alem ão, 24, 161,
310
C o m te, A uguste, sociólogo francês, 18
E ngelsing, Rolf, h istoriador alem ão, 212
“co n n o isse u rism o ” , 2 4 4 , 2 5 0
English Historical Review, 16
constru ção cultural, 23, 36
E rikson, Erik, psicanalista am ericano, 32
contexto, contextualização, 154, 157, 258
estratégias, 158
C o o k , C ap itão , explorador britânico, 346
estruturas, história d as, 12, 16, 34, 36,
cortes, 3 4 8
32 7 , 345, 347
etno-história, 111
cotidiana, 23
C ro n o n , W illiam , h istoriador am ericano,
20
C rosb y , A lfred, h istoriador britânico, 20
cultura m aterial, 29
cultura popu lar, 2 1 , 36, 4 3 , 3 1 2 , 31 4
D arn to n , Robert, colaborador, 11, 151,
202
D avies, N o rm an , h istoriador britânico,
345
D avis, N atalie, h istoriadora am ericana, 80,
124, 3 4 2 ,3 4 8
dem ografia, 31, 3 1 2 , 3 14
depen d ência, teoria da, 126, 129
D errida, Jacq u es, filósofo francês, 63, 76
descolonização, 1 9 , 1 2 5 ,1 2 9
d escon stru ção, ver pós-estruturalism o
Evans-Pritchard, Edw ard, an tropólogo bri­
tânico, 179, 180
explicação, 31, 35, 332
Faulkner, W illiam , escritor am ericano,
33 6
Febvre, Lucien, historiador francês, 17,
113, 328
fem inism o, 19, 6 3, 9 5, 2 9 4 , 322
film es, ver fotografia
Finlay, Robert, h istoriador am ericano, 80
Finley, M o ses, h istoriad or d a antigüidade,
2 8, 177
F loud, Roderick, h istoriador britânico, 57,
119
fontes e crítica da fonte, 1 2 , 1 4 ,2 5 ,3 0 ,4 2 ,
1 6 5 , 1 7 0 ,1 8 9 ,1 9 1 ,2 9 9 , 301
visu ais, 2 7, 2 6 8 , 2 6 9 , 3 2 0
descrição d en sa, 141,
form alização n a história, 156, 158
descristianizaçâo, 29
fotografia, 2 6 , 2 4 0 , 2 4 2 , 2 6 6 , 30 0
film es, 3 4 6 , 348
diferença, 76, 8 5
Dilthey, W ilh elm , filósofo alem ão, 286
D in g Ling, escritor chinês, 34 4
Foucault, M ichel, teórico francês, 8, 66,
149, 2 6 2 , 3 0 8 ,3 1 9
d isciplin a, 3 1 0 , 3 1 3
F o u m ier, Jacq u es, in qu isid or francês, 4 7 ,
d ocu m en tos históricos, ver fontes
49
d ram a social, 3 42
Fow les, Jo h n , escritor britânico, 338
D uby, G eorges, h istoriador francês, 329
Freud, Sigtn u n d, 32
A ESCRITA DA HISTÓRIA
351
F ruin, Robert, h istoriador h olandês, 18
H eidegger, M artin, filósofo alem ão, 145
fun cion alism o, 3 4 ,1 5 4 ,1 5 5
H enige, D avid, h istoriador am ericano,
G allagh er, Jack, h istoriador britânico, 120,
1 22, 124, 125
herança, 2 6 4
G ask ell, Ivan, colaborador, 14, 27
G ay, Peter, h istoriador am ericano, 32, 317
herm enêutica, ver interpretação
heteroglossia, 15, 336, 343
Geertz, C lifford , antropólogo arrfericano,
H ibbert, C hristo ph er, h istoriador britâni­
co, 333
história, ver cotidiano; eco-história; educa­
5 7 , 58, 9 5 , 13 8 , 14 1 , 142, 144, 145,
146, 14 7 , 148, 150, 151, 1 5 5 t 170,
19 3 , 3 3 9
G elln er, Ern est, filósofo e antropólogo bri­
tânico, 1 4 8 ,1 5 4 ,1 7 0
gênero, 3 6 , 6 5 , 8 7 , 31 5 , 3 1 9 ,3 2 2 , 325
G en ovese, Eugene D ., h istoriador am erica­
180
ção; gosto; história
cultural; história econôm ica; história
d o ltvro; história
militar; história política; história serial;
história social;
história d o trabalho; m edicina; menta-
no, 6 0
G ere, Jo h n , h istoriador de arte britânico,
2 4 4 , 248
lidades
história d o s acontecim entos, 12, 16, 36,
G ib b o n , Edw ard, h istoriador britânico, 19
1 1 2 ,3 2 7
história cultural, 17, 21, 37
G inzburg, C ario , h istoriador italiano, 25,
2 7 ,4 9 , 5 0 ,5 7 , 5 9 , 1 4 0 ,1 5 3 ,1 5 8 ,1 6 0 ,
história econôm ica, 8, 18, 22
200
história n as escolas, 182, 184
G o ffm an , Erving, sociólogo am ericano,
23, 3 0 0
G ood y , Jack, antropólogo britânico, 169,
177, 178
história d o livro, 2 0 3 , 205
história d a m edicina, 21, 2 9 9
história m ilitar, 21
história d as m ulheres, 17, 36, 63
G o ssm a n , Lionel, crítico am ericano, 3 3 6
história oral, 26, 4 9, 111, 163, 198
gosto, h istória do, 2 5 5 , 257
história política, 8 ,1 1 , 3 0, 3 4, 36
G ram sci, A n to n io , filósofo italiano, 21
G ren d i, E d oard o, h istoriador italiano, cita­
história social, 36, 4 3, 5 4 , 81, 2 0 4 , 207
do, 1 5 8 ,2 4 1
G u n d er Frank, A n d ré, econom ista am eri­
can o, 126
G u n n ell, Jo h n , teórico político, 277 - 2 7 9
história serial, 30, 170
história d o trabalho, 4 6 , 51
historiadores orientados p o r d ocu m en tos,
1 7 0 ,1 7 9 ,1 8 5 ,1 8 7 ,1 9 4
Historisc/ie Zeitschrift, revista h istórica ale­
m ã, 16
H aberm as, Jü rgen , filósofo alem ão, 28 6
History Workshop Journal, 16, 54
hábito, 3 5
H ider, A d olf, 3 2, 33
H ald an e, J.B .S ., cientista britânico, 11
H all, D avid, h istoriador am ericano, 212,
H obsbaw m , Eric, h istoriador britânico,
4 5 , 4 6 , 56
213
H a m p so n , N o rm a n , h istoriador britânico,
H o b so n , J.A ., teórico do im perialism o,
1 2 0 ,1 2 2 ,1 8 1
80
H oggart, R ichard, crítico britânico, 45
H anaw alt, B arbara, h istoriadora am erica­
na, 5 0
H oskin g, Geoffrey, h istoriador britânico,
182
H askell, Fran cis, h istoriador de arte britâ­
H uizinga, Jo h an , h istoriador h olandês,
nico, 2 5 5
1 3 1 ,3 2 0 , 3 2 9 , 331
H egel, G .W .F ., filósofo alem ão, 101, 109,
1 4 6 ,1 6 4 ,
287
Huxley, A ld o u s,
33 5 , 3 4 3
h istoriador britânico,
352
PETER BURKE
icon oclasm o, 2 6 9
iconografia, 2 6 0 , 261
Levi, G iovan n i, colaborador, 3 1 ,1 3 3 ,1 3 9 ,
identidade, 88
1 4 0 ,1 5 6
literatura, 1 6 9 ,1 7 0
ideologia, 6 6 , 8 0
livraria, (libraries) 2 0 8 , 21 0
im perialism o, 120, 121
longo prazo (longue durée), 12, 315
interpretação, 1 44, 2 5 9 , 2 6 2 , 2 8 7 , 2 8 9
Lotm an, Juri, sem iótico russo, 2 3 , 24
Jam es, H enry, novelista am ericano, 153
Lu X u n , escritor chinês, 344, 345
Lyotard, Jean-François, filósofo francês,
Lukács, G eorg, crítico húngaro, 341
Jan csó , M iklós, diretor de cin em a húnga­
ro, 347
Ju dt, Tony, h istoriador britânico, 55
328
M ab illon , Jean , intelectual francês, 18, 31
K am m en , M ichael, h istoriador am ericano,
37
K ’ang-hsi, im perad or chinês, 343
M acfarlane, A lan , antropólogo histórico
britânico, 52, 53
M cKenzie, D on , bibliógrafo neozelandês,
Kant, Im m anuel, filósofo alem ão, 280-
1 6 7 ,2 2 9
M aju m d ar, R .C ., h istoriador indiano, 106
2 84
K artodirdjo, Sarton o , h istoriador indoné­
M an n , G o lo , historiador alem ão, 3 3 5 ,3 3 8
M an n , T h o m as, escritor alem ão, 3 3 6
sio, 107
Keegan, Jo h n , h istoriador m ilitar britâni­
M an zoni, A lessan d ro, escritor italiano,
co, 2 2 , 3 2 5 , 331
Kenneally, T h o m as, escritor australiano,
m arxism o, m arxistas, 4 3 , 51, 109, 121,
K an g Youw ei, intelectual chinês, 344
340
K erm od e, Frank, crítico literário britânico,
253, 254
Khruschchev, N ikita, citado, 182
K lein m an , A rthur, antropólogo histórico
am ericano, 307
34 r
1 2 6 ,1 6 4 ,
2 5 8 ,2 6 0
m asculin idade, 324
m aterial proveniente de fórm ulas, 175,
177
M einers, C h risto p h , h istoriador alem ão,
19
m em ória, seletiva, 176, 191
Koselleck, R einhart, h istoriador alem ão,
M enocchio, m oleiro italiano, 4 9 , 5 7, 2 0 0
286
K racauer, Siegfried, h istoriador do cinem a
m entalidades, 30, 5 1 ,1 7 8 , 2 9 6 , 303
alem ão, 3 3 4
K u h n , T h o m as, h istoriador de ciência
am ericano, 10
Kurosaw a, A kira, diretor d e cinem a jap o ­
nês, 347
Lam precht, K arl, h istoriador alem ão, 17
m étodos quantitativos, 14, 2 8, 30, 158,
2 0 4 , 2 0 5 , 207, 2 9 9 , 301
micro-história, 3 1 , 5 3 , 5 7 ,1 3 3 , 3 4 0 ss.
m icropolítica, 269
M illar, Jo h n , h istoriador britânico, 327
M in ow , M artha, teórica legal am ericana,
77, 79
m ontagem , 348
Laqueur, T h o m a s, h istoriador am ericano,
3 1 6 , 3 1 7 ,3 1 9
M on tias, J.M ., econom ista am ericano,
Le G o fí, Jacqu es, h istoriador francês, 9
M õser, Ju stu s, h istoriador alem ão, 19
269, 270
Lênin, V .I., 1 20
M otim In dian o, 331
Le R oy Ladurie, E m m anu el, h istoriador
M uchem bled, Robert, h istoriad or francês,
francês, 2 5 ss., 4 7 , 4 9 , 5 0, 5 9, 329
Leur, J.C . van , h istoriador holan d ês, 107,
108
31 4
m ultivocalídade, ver h eteroglossia
m u seu s, 2 3 8 , 242
A ESCRITA DA HISTÓRIA
N am ier, Lewis, h istoriador britânico, 12,
1 6 ,1 7 , 3 2 8
narrativa, 1 5 2 ,1 5 4 , 1 7 6 , 1 7 9 ,1 8 7 , 328
N eh ru , Jaw aharlal, citado, 105
N icolau I, czar, citado, 12
nouvelle histoire, 9, 10
O liver, R oland, h istoriador britânico, 112,
353
Reform a, 2 6 7 , 2 6 9 , 312
relativism o cultural, 10, 12, 15, 2 3, 142,
1 4 6 ,1 4 8 , 2 6 0 , 2 8 6 , 306
representações, 2 9 5 , 301
Revel, Jacqu es, h istoriador francês, 155,
1 5 6 ,1 5 9 ,1 6 0
Revolução Francesa, 12, 2 5, 4 6, 3 2 9 , 332,
33 4
113
O p ie, lo n a e Peter, folcloristas britânicos,
Ricoeur, Paul, filósofo francês, 328, 345
R obertson , W illiam , h istoriador britânico,
187
O vfdio, poeta rom ano, citado, 19 9 ss.
R ob in son , Jam es Harvey, h istoriador am e­
O zouf, Jacq u es, h istoriador francês, 22
Panofsky, Erw in, h istoriador de arte ale­
m ão, 2 7 , 261
19
ricano, 1 7 ,1 8
R ob in son , R on ald, h istoriador britânico,
1 2 0 ,1 2 1 ,1 2 2 ,1 2 4 ,1 2 5 ,1 2 8
Rodney, W alter, h istoriador africano, 127
parad igm as? 2 7 6
R om ein, Jan , h istoriador h olan d ês, 102
Philips, M ark, h istoriador can adense, 33 4
Pocock, J.G .A ., h istoriador intelectual, 13,
Rosenthal, M ichael, h istoriador de arte
britânico, 2 5 8
1 56, 2 7 3 ,2 7 6
Políbio, h istoriador grego, 18
R ou sseau , Jean-Jacques, 2 0 1 , 202, 206,
Pontecorvo, G iu lio , diretor de cin em a ita­
Ryan, C orn eliu s, jornalista e historiador
liano, 347
208
irlandês, 331
p on tos de vista m últiplos, 336, 34 6
Porter, Roy, co laborad or, 11, 22, 176
pós-estruturalism o, 8 8 , 9 3 , 2 8 6 , 295
Sah lin s, M arshall, antropólogo am erica­
no, 345 - 347
Prebisch, R aul, econom ista argentino, 126
Scarry, Elaine, crítica literária am ericana,
Price, R ichard, an tropólogo histórico am e­
297
Scham a, Sim o n , h istoriador britânico,
ricano, 3 3 7 , 3 3 8
P rins, Gw yn, colaborador, 14, 163, 176
2 6 8 , 2 6 9 , 3 1 0 , 3 2 9 , 333
P roust, M areei, novelista francês, 33 4
Schwartz, Gary, h istoriador de arte am eri­
cano, 2 4 5 , 263
provérbios, u so s de, 175
Scribner,
p sicanálise, 88
267
Scott, Jo an , colaboradora, 11, 20, 21, 63,
7 1 , 7 4 , 8 1 , 8 2 , 9 2 ,1 3 6
p rocesso civilizador, 3 1 0
psico-história, 3 2 , 3 4 , 3 03
Pugachev, E m elian, rebelde russo, 12
P ushkin, A lexander, escritor russo, 12
B ob , h istoriador australiano,
Scott, W alter, escritor britânico, 3 4 1 , 3 4 4
Seeley, Jo h n , h istoriador britânico, 10
racionalidade, 14 4 , 145
sen so com u m d a história, visão do, 10
R anger, T erence, h istoriador britânico, ci­
tado, 10 4 , 11 2 , 1 8 1 ,1 8 6
m en cion ad o, 2 87
sexualidade, 2 9 2 , 315, 319
Sh arpe, Jim , colaborador, 12, 2 5, 39
R an ke, Leopold v on , h istoriador alem ão,
Sh en C on gw en , soldado-acadêm ico chi­
nês, 34 4
1 0 ,1 3 ,1 5 ,1 6 ,1 8 ,1 0 1 ,1 6 4 ,
3 2 7 ,3 3 8Shorter, Edw ard, h istoriador am ericano,
316, 318
Raw ls, Jo h n , filósofo político am ericano,
284
recepção, h istória d a, 2 27
Show alter, E laine, fem inista am ericana,
.6 5 ,3 1 9
PETER BURKE
354
Sik , E ndre, Kistyriador h úngaro, 1 0 9 ,1 1 0
T u ck, R ichard, colaborador, 13
Sk in n er, Q u en tin , h istoriador intelectual
britânico, 156, 27 3 , 2 7 7 , 2 8 3 , 285
sociologia, 53
Spen ce, Jo n ath an , h istoriador britânico,
V an sin a, Jan , antropólogo histórico belga,
2 6 ,1 1 1 ,1 1 3 ,1 6 5 ,1 6 6 ,1 7 2 ,1 7 3 ,1 7 8 ,
343, 344
Sp en cer, H erbert, sociólogo, britânico, 18
Steinberg, Leo, h istoriador de arte am eri­
V enturi, Franco, h istoriador italiano, cita­
can o, 291
Stern e, Laurence, citado, 291
Stokes, Eric, h istoriador britânico, 333
V ico, G iam battista, filósofo d a história ita­
Ston e, Lawrence, h istoriador britânico, 80,
1 5 2 ,3 2 9 , 3 3 0
Strau ss, Leo, h istoriador intelectual am eri­
can o, 2 7 4 , 2 7 9 , 2 8 2 , 283
Su m n er, B .H ., h istoriador britânico, 345
suplem ento, conceito de, 75, 77
185, 188, 194
d o, 138
Veralltaglichung, 24
liana, 19
V ign e, D an iel, diretor de cin em a francês,
3 48
vitorían ísm o, 31 5
V oltaire, 19, 2 0 2 , 2 0 6 , 327
W aitangi, T ratad o de, 166
W aite, Robert, h istoriador am ericano, 33
Taw ney, R .H ., h istoriador britânico, 17,
W allerstein, Im m anu el, h istoriador am eri­
5 5 , 328
Taylor, A .J.P ., h istoriador britânico, 32
W eber, M ax, sociólogo alem ão, 2 4, 108,
citado, 163
tem po, conceitos de, 170, 179
teoria literária, 22 6 , 227
T h o m p so n , Edw ard, h istoriador britânico,
3 5 , 4 0 , 4 2 , 4 3 , 4 4 , 4 5 , 4 6 , 4 8 , 5 2, 53,
5 5 ,5 9 ,6 0 ,1 7 9 ,1 8 0 ,1 9 1 ,3 1 3
T h o m p so n , Paul, h istoriador britânico,
2 6 ,1 6 5 ,1 6 6 ,1 7 3 ,1 9 3
T o lsto i, Leon, escritor russo, 3 3 9 , 340
T o so n , Shim azaki, escritor jap o n ê s, 339,
340
tradição, 19 8 , 2 7 7 , 2 79
invenção da, 18 0 , 191
Trevor-R oper, H ugh , Lord D acre, historia­
d o r britânico, 3 2 , 5 2 , 5 3 ,1 1 0 ,1 6 4
cano, 1 1 7 ,1 1 8 ,1 1 9 ,1 3 1
2 0 8 , 301
W esseling, H enk, co laborad or, 2 0, 2 1 ,9 7 ,
1 0 3 ,1 1 3 ,1 2 6 ,1 2 9 ,1 6 4 ,1 8 1
W heeler, W illiam , so ld ad o britânico, 39,
4 0 ,4 1 ,5 3
W hite, H ayden, h istoriador am ericano,
3 3 5 , 338
W in d , Edgar, h istoriador d e arte alem ão,
27
W ittgenstein, Ludw ig, filósofo austríaco,
citado, 1 3 3 ,1 3 6
m en cion ad o, 155
W oolf, V irginia, escritora britânica, 75,
7 6, 334
SOBRE O LIVRO
C oleção: B ib lio te c a B á sic a
Form ato: 14 x 21 cm
M a n c h a : 25 x 4 4 p a ic a s
T ipologia: G o u d y O ld S ty le 1 2/14
P apél: P ó le n 8 0 g /m 2 (m io lo )
C a r tã o S u p re m o 2 5 0 g /m 2 (c a p a )
J a edição: 1992
E Q U IP E D Ê R E A L I Z A Ç Ã O
P rodu ção G r á fic a
S id n e i S im o n e lli (G erente)
E d iç ã o de Texto
F á b io G o n ç a lv e s (Assistente Editorial)
E ran d y L o p e s (Preparação de original)
F e rn an d a S p in e lli R o ssi
B e rn ad e te d o s S a n to s A b re u e
D a lila M a r ia P. L e m o s (Revisão)
E d ito ração E letrônica
L o u rd es G u a c ir a d a S ilv a (Supervisão)
Luiza O d e te A n d ré (D igitação)
D u c le ra G . P ires d e A lm e id a (Diagram ação)
Projeto V isu a l
L o u rd es G u a c ir a d a S ilv a
à
PETER BURKE
(ORG.)
A ESCRITA DA HISTÓRIA
N O V A S
P E R S P E C T I V A S
Neste universo que se exp an d e e se fragmenta,
há uma necessidade crescente de orientação.
O que é a cham ada nova história? Q uando ela é
nova? É um m odism o tem porário ou uma
tendência de longo prazo? Ela irá - ou deverá substituir a história tradicional, ou as rivais
podem coexistir pacificamente? O presente
volume é destinado a responder a essas questões.
P eter B u rk e
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