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Dialnet-OEnsinoDaTeoriaDaEvolucaoEmEscolasDaRedePublicaDeS-6115569

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ISSN 2237-9460
DOI: 10.24065/2237-9460.2017v7n3ID353
O ENSINO DA TEORIA DA EVOLUÇÃO EM ESCOLAS DA REDE
PÚBLICA DE SENHOR DO BONFIM: análise da percepção dos
professores de Ciências do Ensino Fundamental II
Camila Laranjeira Costa de Oliveira1
Maria Cilene Freire de Menezes2
Olívia Maria Pereira Duarte3
RESUMO
Embora a Teoria da Evolução seja um tema de grande importância para a
compreensão de assuntos relacionados às diversas áreas das ciências biológicas, é
notória a dificuldade de compreensão do tema, principalmente no âmbito escolar.
Dessa forma, o objetivo deste trabalho consiste em investigar a abordagem do
ensino dessa teoria por professores de ciências dos anos finais (6º ao 9º ano) do
ensino fundamental da rede pública do município de Senhor do Bonfim – Bahia.
Também se buscou identificar as concepções dos professores sobre a temática e
levantar os possíveis obstáculos ao ensino da Teoria da Evolução no ensino
fundamental. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, utilizando-se como
instrumentos de coleta de dados questionários compostos por perguntas fechadas
e abertas. Os resultados demonstraram limitações no ensino da teoria evolutiva,
relacionadas à formação inicial dos docentes; à existência de barreiras para o
entendimento da teoria da evolução diante de concepções criacionistas e à falta
de entendimento acerca do sistema de teorias evolutivas por parte dos docentes.
Essas observações indicam que o ensino da Teoria da Evolução no ensino
fundamental é deficiente e pode contribuir para a formação de concepções
equivocadas acerca do tema.
Palavras-chave: Ensino de Ciências. Concepções. Teoria da Evolução.
Licenciada em Ciências da Natureza pela Universidade Federal do Vale do São Francisco
(UNIVASF). Discente do curso de especialização em Divulgação da Ciência, da Tecnologia
e
da
Saúde
pela
Fundação
Oswaldo
Cruz
(COC\FIOCRUZ-RJ).
E-mail:
[email protected]
1
Doutora em Ensino, Filosofia e História das Ciências pela Universidade Federal da Bahia
(UFBA). Docente do Colegiado de Ciências da Natureza – Universidade Federal do Vale do
São Francisco. Senhor do Bonfim-BA. E-mail: [email protected]
2
Doutora em Genética e Biologia Molecular pela Universidade Estadual de Santa Cruz
(UESC). Docente do Colegiado da Licenciatura Interdisciplinar em Ciências da NaturezaUniversidade Federal do Sul da Bahia-Porto Seguro – BA. E-mail: [email protected]
3
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THE EVOLUTION THEORY TEACHING IN PUBLIC SCHOOLS NETWORK: analysis of
the science teachers’ perception in elementary school
ABSTRACT
Although the Theory of Evolution is a subject of great importance for the
understanding of subjects related to the different areas of the biological sciences, it
is notorious the difficulty of understanding it, especially in the school context. Thus,
the objective of this work was to investigate the teaching approach of this theory by
science teachers in the final years (6th to 9th grade) of the public elementary school
in “Senhor do Bonfim” city, Bahia State. It also aimed at identifying the teachers'
conceptions on the subject and to raise the possible obstacles to the teaching of
Evolution Theory in elementary school. The research is characterized as qualitative,
using questionnaires composed of closed and open questions as instruments of data
collection. The results showed limitations to the teaching of the evolutionary theory
related to the teachers’ initial formation; barriers to the understanding of the
Evolution Theory in the face of creationist conceptions and the teachers’ lack of
understanding about the system of evolutionary theories. These observations indicate
that the theory of evolution in elementary education is deficient and can contribute
to the formation of misconceptions about the subject.
Keywords: Science teaching. Conceptions. Theory of Evolution.
ENSEÑANZA DE LA TEORÍA EVOLUCIÓN EN LAS ESCUELAS DE LA RED PÚBLICA DE
SENHOR DO BONFIM-BA: análisis de la percepción de la ciencia maestros
primaria II
RESUMEN
Aunque la teoría de la evolución es un tema importante para la comprensión de las
cuestiones relacionadas con las diversas áreas de las ciencias biológicas, se observa
la dificultad de comprensión de la materia, especialmente en las escuelas. Por lo
tanto, el objetivo de este estudio es investigar el enfoque de la enseñanza de esta
teoría por los profesores de ciencias de los últimos años (6º a 9º grado) de la
educación primaria en las escuelas públicas en el municipio de Senhor do BonfimBA. Asimismo, se buscó identificar las concepciones de los profesores sobre el tema
y plantear las posibles obstáculos a la teoría de la enseñanza de la evolución en la
escuela primaria. La investigación se caracteriza como cualitativo, utilizando
cuestionarios como instrumentos de recolección de datos con preguntas cerradas y
abiertas. Los resultados mostraron limitaciones a la enseñanza de la teoría de la
evolución en relación con la formación inicial de los maestros; barreras para la
comprensión de la teoría de la evolución antes vistas criacionistas e a falta de
entendimento acerca do sistema de teorias evolutivas por parte dos docentes. Estas
observaciones indican que la educación de la teoría de la evolución en la
educación primaria es deficiente y puede contribuir a la formación de conceptos
erróneos sobre el tema.
Palabras clave: Educación Ciencia. Conceptos. Teoría de la Evolución.
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1 INTRODUÇÃO
Em todas as civilizações, a origem da vida e o significado da existência
dos seres vivos e de tudo que existe sempre foram questões que
demonstraram preocupação para a humanidade. Ao longo do tempo,
diferentes respostas foram recebidas na busca pela compreensão acerca
da origem da vida, no passado a partir da religião e da mitologia que eram
as únicas fontes de conhecimento, posteriormente surgiu o pensamento
filosófico que propôs novas ideias e por fim o desenvolvimento da ciência
(ANDRADE, 1994).
As convicções filosóficas foram profundamente abaladas por grandes
concepções científicas como a teoria heliocêntrica e a teoria da evolução
(BRANCO, 2004). A Teoria da Evolução, considerada a mais importante ideia
científica jamais formulada, possui implicações que provocam amplas
consequências filosóficas, políticas e ideológicas (MONOD, 1976).
A Teoria da Evolução das espécies cria discussão no ambiente
acadêmico e no meio escolar e tem como característica que a diferencia
das outras teorias, o caráter polêmico voltado para o tema, o qual envolve
além dos conhecimentos científicos a subjetividade e as crenças das
diversas culturas (MARQUES; ANJOS; BRANDÃO, 2012).
Charles Robert Darwin ocasionou uma verdadeira revolução científica
diante do progresso na biologia evolutiva com a publicação do livro Origem
das espécies em 1859. Além das contribuições científicas, Darwin levou
muitas contribuições para o pensamento humano moderno, como a
substituição de uma visão de mundo baseada em dogmas cristãos, por uma
visão de mundo rigorosamente secular. Adicionalmente suas inovações
conceituais levaram à substituição de conceitos refutados que afetaram de
alguma forma, componentes do sistema humano de crenças (MAYR, 2005).
A biologia evolutiva contribui para a sociedade no atendimento às
suas necessidades e em inúmeras contribuições e extensões para além da
área das ciências biológicas. Alguns exemplos referem-se à saúde humana,
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à agricultura e recursos renováveis, produtos naturais, gerenciamento e
conservação ambiental e análise da diversidade humana (FUTUYMA, 2002).
Para Futuyma (2002), muitas aplicações potenciais da Biologia às
necessidades da população não podem ser desenvolvidas nem exploradas
sem a Evolução. O autor considera que nenhuma questão do ensino
relacionado aos temas biológicos é mais urgente ou importante do que a
comunicação da natureza, das implicações e aplicações da Evolução.
A evolução biológica deve ser vista como componente imprescindível
para a adequada compreensão da maior parte dos conceitos e das teorias
encontradas na área das ciências biológicas. Por isso não é adequado tratar
a Evolução como apenas mais um conteúdo a ser abordado junto a
quaisquer outros assuntos, haja vista que as ideias evolutivas têm papel
fundamental na organização do pensamento biológico (MEYER; EL-HANI,
2005).
O reconhecimento da importância da Teoria da Evolução está
expresso nos currículos educacionais das propostas oficiais de ensino. De
acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais de Ciências Naturais, o
destaque às explicações evolucionistas é evidente, e a aprendizagem dos
diferentes conceitos está explícita nos conteúdos de cada ciclo do ensino
fundamental (BRASIL, 1998).
Para Bizzo, Sano e Monteiro (2016) a Evolução não pode ser deixada
como a última parte da Biologia a ser abordada, tanto na educação básica
quanto no ensino superior.
Bizzo (1991) destaca que a abordagem de temas a partir do estudo da
História das Ciências se faz importante para o ensino de ciências, essa
estratégia permite ao professor promover a utilização de metodologias que
aproximem o estudante do entendimento do progresso das teorias
científicas, e dessa forma proporcionar aos estudantes conexões com as
teorias e um entendimento coerente. A Teoria da Evolução possui um
destaque dentro da História das Ciências que se inicia desde os primórdios
da humanidade na busca de respostas relacionadas à existência humana.
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Dessa forma, o ensino da Teoria da Evolução pode proporcionar aos
estudantes a contextualização histórica acerca do desenvolvimento das
teorias científicas.
Para os Parâmetros Curriculares Nacionais o conhecimento sobre
teorias anteriores contribui para a compreensão das concepções presentes,
por isso a História da Ciência tem sido uma sugestão de ensino necessária,
além de ser um conteúdo indispensável no aprendizado. O conhecimento
prévio proveniente do ambiente social, construído independente do
ambiente escolar nem sempre é considerado relevantes mas deve ser alvo
especial de atenção nesse ambiente (BRASIL, 1998).
A Evolução é considerada um tema unificador e ocupa posição
central dentro das ciências biológicas diante da sua importância para o
entendimento dos mecanismos biológicos e das suas implicações às
necessidades da sociedade. O entendimento acerca da Evolução é de
grande importância para a compreensão nas diversas áreas das ciências
biológicas, pois proporciona uma visão ampla (FUTUYMA, 2002).
Entretanto, alguns fatores dificultam a compreensão e o diálogo
acerca de informações oferecidas pelo sistema de teorias evolutivas. Parte
desses fatores está relacionada à falta de clareza dos pesquisadores da área
em expressar o conhecimento acerca da Teoria da Evolução. Outras
dificuldades
referem-se
à
utilização
de
conceitos
relacionados
aos
conhecimentos históricos e técnicos da biologia evolutiva, muitas vezes
apresentados de forma incompleta, inapropriada e obscura (MARTINS;
SANTOS; COUTINHO, 2012). Esses autores consideram que em consequência
disso, o público leigo, especializado e os professores têm dificuldades em
compreender a lógica do sistema de teorias evolutivas, especialmente por
causa das incontáveis concepções equivocadas que são repetidas há
décadas pelos livros, pelos meios de comunicação, e até mesmo por alguns
professores e pesquisadores.
O processo de aprendizagem no ambiente escolar tem sido cada vez
mais rodeado de obstáculos e barreiras que dificultam a compreensão dos
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mecanismos evolutivos. Muitos trabalhos têm evidenciado problemas no
entendimento das teorias evolutivas (MONOD, 1976; SANTOS e CICILLINI,
2004; RIBEIRO e SANTOS, 2013; BRANCO, 2004; MARTINS, SANTOS e COUTINHO,
2012).
Conforme pesquisa realizada por Santos e Cicillini (2004), foi possível
perceber diante dos relatos de professores que, nos anos iniciais do ensino
fundamental professores priorizam o ensino de português e matemática,
julgando serem estas disciplinas pré-requisito para que o estudante seja
capaz de compreender outras disciplinas como ciências, história e
geografia. Também nos primeiros anos do ensino fundamental, o tratamento
de informações é comumente restrito ao senso comum, na justificativa de
que os estudantes não possuem maturidade suficiente para aprender
determinados conteúdos. O ensino de ciências é pouco valorizado e a
predominância do método tradicional de ensino é justificada pelos
professores como a melhor alternativa diante da falta de recursos na escola
e as condições de trabalho.
Entretanto, conforme os PCN’s nos anos iniciais do ensino fundamental
através da ludicidade, de várias atividades, e da interação direta com os
fenômenos, os alunos poderão construir conhecimentos científicos sem muita
complexidade conforme seu desenvolvimento cognitivo. De acordo com o
conhecimento construído nesses primeiros ciclos e nos anos finais do ensino
fundamental os estudantes estarão aptos para sistematizar conhecimentos
científicos com maior abrangência (BRASIL, 1998).
No âmbito da modalidade de ensino EJA (Educação de Jovens e
Adultos), Ribeiro e Santos (2013) discutem que a divulgação científica
relacionada à Genética e a Biologia Molecular por profissionais não
especializados na área, tem contribuído para a formação de conceitos
equivocados que prejudicam a compreensão de conceitos científicos e
aceitação na sociedade. Os autores trazem a discussão sobre dificuldades
na abordagem por parte dos professores e de compreensão por parte dos
estudantes.
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Coutinho, Santos e Martins (2012) descrevem que aparecem com
frequência ideias equivocadas envolvendo espécies atuais que sugerem
direcionamento no processo evolutivo criando uma hierarquia entre as
mesmas. Os autores citam como exemplo o uso de classificações
equivocadas de alguns grupos taxonômicos ou espécies em primitivos,
avançados, superiores e inferiores. Esta última ideia aparece com frequência
no ensino médio e superior.
Apesar de todas as evidências apresentadas pelos evolucionistas,
algumas opiniões, por motivações religiosas que se baseiam na hipótese
fixista da criação, persistem em não aceitá-las e existe uma grande
representação por parte de fiéis, principalmente na América do Norte
(BRANCO, 2004).
Entre inúmeras questões acerca do tema, é importante começar pela
identificação das concepções dos professores acerca da Teoria da
Evolução, uma vez que, diante do seu papel de mediador entre o
conhecimento e o estudante, a falta de compreensão dos docentes pode
propiciar aos estudantes concepções equivocadas sobre o assunto.
Assim, o objetivo deste trabalho foi investigar como professores de
ciências abordam a Teoria da Evolução nos anos finais (6º ao 9º ano) do
ensino fundamental, da rede pública do município de Senhor do Bonfim –
Bahia. Bem como, identificar os possíveis obstáculos e eventuais dificuldades
para o ensino do tema, e analisar a sua importância, assim como os tipos de
recursos utilizados para a sua abordagem na concepção dos professores.
Para tanto, foi aplicada uma metodologia qualitativa para coleta e
análise de dados, a qual permitiu constatar diversos fatores que dificultam o
ensino e a aprendizagem da Teoria da Evolução.
2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
De acordo com Weller e Pfaff (2011) no campo da educação as
abordagens qualitativas são relevantes, não somente no desenvolvimento
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de pesquisas e teorias ou na avaliação de programas e políticas
educacionais, mas também no processo de ensino/aprendizagem e durante
a formação de futuros profissionais que irão atuar nesse campo.
A maior parte dos trabalhos em pesquisa qualitativa tem como
principal fonte a análise de documentos e entrevistas (WELLER e PFAFF, 2011)
Consequentemente de acordo com Gatti e André (2011) grande parte das
pesquisas nos últimos anos está centrada no sujeito, cujo objetivo é investigar
opiniões,
percepções,
representações,
emoções
e
sentimentos
de
professores, alunos, gestores escolares, pais de alunos, sobre um determinado
tema ou questão.
Gatti e André (2011) defendem que as abordagens qualitativas para a
pesquisa e o conhecimento em educação no Brasil precisam adensar sua
capacidade explicativa. Visto que a identificação de padrões, dimensões e
relações ou mesmo a construção de modelos explicativos, além de serem
compatíveis com o estudo de fenômenos microssociais, constituem uma
etapa essencial à construção/reconstrução de teorias e à aplicação a
outros contextos.
Dessa
forma,
esta
pesquisa
caracterizou-se
como
qualitativa,
exploratória e explicativa tendo como público-alvo 25 professores da
disciplina de ciências dos anos finais do ensino fundamental de 13 escolas
da Rede Pública, localizadas na zona urbana de Senhor do Bonfim (Bahia,
Brasil) sendo três escolas estaduais e dez escolas municipais. A pesquisa
ocorreu durante o período de outubro de 2014 a fevereiro de 2015.
Os professores foram convidados a participar como voluntários do
trabalho, onde foram esclarecidos sobre os objetivos da pesquisa,
registrando
o
entendimento
acerca
desta
através
do
Termo
de
Consentimento Livre Esclarecido.
O instrumento utilizado para coleta de dados constituiu-se num
questionário semi-estruturado composto por 18 questões, fechadas, de
múltipla escolha e abertas. Conforme Marconi e Lakatos (2010) questões
abertas possibilitam respostas livres, a fim de emitir opiniões e utilizar
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linguagem própria. Questões fechadas e de múltipla escolha, visam
proporcionar um questionário limitado em extensão, uma vez que
questionários
longos
tendem
a
causar
desinteresse
e
exaustão
ao
entrevistado. Contudo manteve-se o cuidado para que as informações
fossem suficientes.
As questões versavam sobre os dados gerais do entrevistado, como,
gênero, idade e denominação religiosa, sua formação acadêmica, os
aspectos profissionais e questões específicas acerca do ensino da Teoria da
Evolução, tais como: a abordagem da Teoria da Evolução em sala de aula;
as dificuldades ou não, na abordagem do tema e a importância da
abordagem no ensino fundamental.
Os questionários foram entregues individualmente aos docentes para
que respondessem em momento oportuno, marcando-se o reencontro em
uma data escolhida pelo entrevistado, para a devolução dos mesmos.
As respostas de maior destaque foram transcritas literalmente, e, para
não identificar o docente utilizamos as letras do alfabeto ao nos referirmos
ao conteúdo das respostas.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados da análise dos 25 questionários demonstrou que a
maioria dos docentes pertence ao gênero feminino (22), com idade entre 27
e 56 anos. A denominação religiosa predominante entre os professores foi a
católica (17) seguida pela evangélica (3) e em menor frequência estão as
denominações espírita (2); e umbanda. Adicionalmente 2 entrevistados não
declararam possuir qualquer denominação religiosa.
Quanto à formação acadêmica inicial em nível de graduação, entre
os professores participantes da pesquisa apenas 6 são licenciados em
Ciências, os demais possuem licenciatura em outras áreas como, Ciências
Biológicas (11), Pedagogia (5), Letras (2) e Educação Física (1). Ou seja, dos
professores de ciências em exercício, 8 possuem formação inicial em áreas
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não afins, se tratando do ensino da Evolução Biológica, essa característica
pode interferir na atuação docente. Em relação ao tempo de atuação dos
docentes entrevistados verificou-se uma variação de 5 a 34 anos, conforme
apresentado na Tabela 1.
TABELA 1 – Caracterização dos professores entrevistados quanto ao perfil social e
acadêmico
Variáveis
Descritores(n)
Gênero
Idade
Denominação religiosa
Curso de graduação cursado
Tempo de atuação no ensino básico
Disciplinas ministradas
Feminino (22)
Masculino (3)
27-32 anos (4)
33-38 anos (3)
39-44 anos (7)
45-50 anos (6)
51-56 anos (5)
Católica (17)
Evangélica (3)
Espírita (2)
Umbanda (1)
Não declarante (2)
Ciências Biológicas (11)
Ciências Naturais (6)
Educação Física (1)
Letras (2)
Pedagogia (5)
5 a 10 anos (2)
11 a 16 anos (10)
17 a 22 anos (9)
23 a 28 anos (3)
29 a 34 anos (1)
Ciências (6)
Ciências e Biologia (3)
Ciências, Biologia e Geografia (1)
Ciências, História e Cultura Afro (1)
Ciências e Educação Física (4)
Ciências e Inglês (1)
Ciências e Religião (1)
Ciências e Geografia (1)
Ciências e Matemática (1)
Ciências e Língua Portuguesa (2)
Ciências, Biologia, Química e Cultura
Afro(1)
Ciências, Química e Educação. Física (1)
Ciências, História, Arte, Cultura Afro,
Ensino Religioso e Geografia (1)
Ciências e outras (1)
Fonte: Questionários de pesquisa de campo, 2014 - 2015
No discurso dos docentes a insegurança para atuar e algumas
limitações para a prática da docência em ciências foram expressas
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relacionando a formação inicial dos docentes em exercício, conforme a fala
do entrevistado:
“Não sou habilitado na área de ciências, pois fiz
graduação em letras - inglês. Dessa forma me sinto
inseguro para atuar” (Docente A).
Em relato de outro docente as dificuldades também são associadas à
sua formação:
“[...] as dificuldades são percebidas devido a formação,
o que me leva a pesquisar mais durante o planejamento,
mas não vejo a pesquisa como ponto negativo, pelo
contrário. Falta de conhecimento aprofundado na área
(devido a formação), falta de recursos no ambiente
escolar” (Docente K).
Também verificamos que além da disciplina de ciências ministrada
pelos docentes, 19 deles lecionam outras disciplinas, entre elas biologia,
química, matemática, história, geografia, língua portuguesa, ensino religioso,
inglês, educação física, cultura afrobrasileira e artes (Tabela 1). Esta
circunstância evidencia um desvio entre a formação e a atuação docente,
prática que resulta em consequências negativas para o processo de ensino
e aprendizagem e também para o planejamento do professor diante das
atividades diversas.
Damaceno Filho, Góes e Rocha (2011) mostram a distorção entre a
formação e a atuação de professores licenciados atuantes nas escolas da
rede pública, em Itabuna na Bahia. Conforme analisado pelos autores, a
busca pela complementação da carga horária, as motivações relacionadas
a questões econômicas, e a falta de professores na rede de ensino contribui
para o desvio entre a formação e a atuação docente. A prática conhecida
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na área da administração educacional por “alocação de professor” resulta
em consequências negativas para o processo de ensino-aprendizagem, na
maioria das vezes ocasionada pela falta de embasamento teórico do
docente que se traduz na prática de reprodução do livro didático.
Considera-se importante que o professor compreenda claramente os
mecanismos da Evolução Biológica, caso contrário o ensino desse tema
consequentemente enfrentará problemas (SILVA; ANDRADE; CALDEIRA,
2010).
Verificou-se a falta de compreensão a respeito da Evolução como
teoria científica, o que constitui uma barreira à sua aceitação, por vezes
associada a uma concepção criacionista registrada no discurso do docente,
transcrito a seguir:
“Por ser evangélico, encontro algumas dificuldades em
tratar de um assunto tão polêmico numa sala de aula.
Não vejo como abordar um assunto sem fazer uso da
verdadeira fonte da informação, que é a Bíblia, pois uma
vez tentei dar aulas de religião usando uma Bíblia e fui
censurado. Por isso, prefiro não entrar nesse tema em sala
de aula. Todo ser humano tem direito de saber sobre sua
origem e seu destino, e Deus, o criador, deixou todas as
informações necessárias, mas se eu não posso usar as
informações que Ele mesmo deixou, eu me reservo o
direito de não manter no ou levar alguém ao engano.
Não sou nenhum teólogo, mas aprendi na Bíblia que fui
criado por um Deus que me ama e à Sua imagem e
semelhança e eu tenho certeza que o meu Deus, apesar
de ser criador de todos os seres, Ele não é um macaco.
Creia nisto, Deus ama você, creia Nele!” (DOCENTE B).
No extrato da entrevista transcrito anteriormente, o docente B
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manifesta claramente a intenção de que seja trabalhado o tema Evolução
ancorado na concepção criacionista. De acordo com Silva, Andrade e
Caldeira (2010), durante o processo de construção do conhecimento pelo
estudante,
se
difundem
ideias
incertas
que
promovem
confusões
conceituais. Dessa forma, não é apropriado que o docente, mediador do
conhecimento construído pelo estudante, trabalhe ideias evolutivas se
baseando em concepções divergentes da concepção científica.
Conforme Carneiro (2004), estudantes e professores possuem uma
visão equivocada sobre a Evolução Biológica, podendo ter sua origem
principalmente na visão Criacionista, que explica a origem da vida na Terra
a partir dos atos da Criação. A autora descreve que alguns estudos têm
indicado fatores que dificultam o processo de aprendizagem das teorias
evolutivas. A forte influência religiosa, os equívocos conceituais, e a falta de
conexão dos temas evolutivos com os demais temas das ciências biológicas,
comprometem professores e estudantes no entendimento dos mecanismos
evolutivos.
A influência religiosa foi considerada por 5 professores como principal
barreira para a compreensão da Evolução por parte dos estudantes:
“A principal dificuldade é para eles compreenderem os
aspectos científicos que sustentam a teoria, já que a
maioria tem seus preceitos religiosos sobre a vida”
(DOCENTE J).
Nas escolas, os estudantes influenciados pelas religiões tendem a ter
um pensamento criacionista e não aceitam o conhecimento científico sobre
a Evolução, ao tratar desses assuntos é como se confrontasse com as
concepções bíblicas, sendo, por eles consideradas inquestionáveis (MARTINS;
SANTOS; COUTINHO, 2012). Esta situação corrobora com as dificuldades
relatadas pelo professor:
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“Muitas vezes os alunos já trazem de casa conceitos que
são aprendidos com seus familiares, sobre ‘origem do
mundo’, ‘a criação do homem’, e acaba sendo difícil
fazer com que ele passe a ter pensamentos reflexivos
sobre a ‘evolução’” (DOCENTE L).
Em outro relato, torna-se evidente a visão distorcida da Evolução
Biológica por parte das concepções prévias dos estudantes, segundo relato
do professor:
“Os estudantes colocam o homem como referencia da
evolução, eles acham que a evolução é aquele
processo que transforma um macaco em um homem”
(DOCENTE U).
Segundo Carneiro (2004), a explicação de que o homem se originou
de macacos é mais simples do que a explicação científica em que ambos os
seres têm um ancestral comum.
Além das crenças religiosas, também foram mencionados outros
fatores atribuindo as dificuldades no ensino de Evolução aos estudantes,
como, indisciplina, o uso indevido de aparelhos tecnológicos, a falta de
concentração, o déficit de aprendizagem, e até concepções prévias
consideradas errôneas. Além disso, a complexidade do tema, os conceitos
científicos abstratos e a quantidade de termos acerca dos mecanismos
evolutivos foram apontados por 3 professores como fatores que dificultam o
entendimento dos estudantes.
Krasilchik (2008) considera que a falta de concentração dos
estudantes nas aulas, precisamente nas relacionadas às ciências biológicas,
ocorre
devido
à
terminologia
usada
pelo
professor,
muitas
vezes
desconhecidas pelos estudantes, ou porque são atribuídos aos termos
diferentes significados. Tal acontecimento é relatado pelo entrevistado
Docente I como uma dificuldade no ensino do tema:
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“Os
alunos
ainda
não
conseguem
compreender
conteúdos tão abstratos, também não conseguem se
concentrar para ouvir etc” (DOCENTE I).
A preocupação em memorizar nomes diante do vasto vocabulário
usado pelos professores em suas aulas, ainda é uma preocupação por parte
dos estudantes. Às vezes são utilizados muitos termos de forma desnecessária
e que apenas sobrecarregam os estudantes com informações inutilizáveis
posteriormente (KRASILCHIK, 2008).
Ainda quanto à abordagem do tema Evolução, 3 professores
declararam não sentir dificuldades em trabalhar o tema em sala de aula, em
um dos casos as discussões proporcionadas pelo tema ainda foram vistas de
forma positiva:
“Quando abordamos astronomia, formação do planeta
Terra, falar que somos poeira de estrelas, levanta-se
questionamentos que aborda religiões, mas há um
debate interessante, gosto de questionar informalmente:
‘viemos do macaco?’. Fazendo o aluno refletir e
pesquisar” (DOCENTE V).
Por outro lado, verificou-se que durante a abordagem da Evolução no
ensino de ciências, os estudantes podem manter-se inativos, evidenciando a
falta de integração às aulas, já que dependendo da abordagem do
professor, o tratamento do tema tende a proporcionar a participação dos
estudantes diante das suas concepções prévias. Em relato:
[...] Os alunos que passaram por mim durante todos os
anos que leciono, quase não questionam. Dessa forma os
conteúdos
são
passados
sem
grandes
(DOCENTE G).
Revista Exitus, Santarém/PA, Vol. 7, N° 3, p. 172-196, Set/Dez 2017.
polêmicas
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O comportamento não atuante dos estudantes não é considerado
favorável ao ensino, segundo Krasilchik (1987) o comportamento passivo dos
estudantes ocorre em razão do ensino de forma expositiva, livresca e
impositiva, evidenciando características desfavoráveis ao ensino das
ciências. A autora ainda ressalta que é importante destacar que mesmo que
os estudantes estejam em atividades envolvendo a prática e a dinâmica, a
passividade intelectual pode persistir. Para que ocorra o aprendizado em
ciências, além dessas atividades é necessária a formação de concepções
próprias, sendo essencial que cada um dos estudantes esteja de fato
envolvido no estudo dos assuntos abordados.
Considerando que existem dificuldades em ministrar aulas sobre o
tema Evolução, recursos escolares como, material didático, o espaço físico,
e o apoio pedagógico foram apontados por 5 docentes como fatores que
proporcionam limitações para suas aulas:
187
“Ambiente inadequado; na maioria das vezes o material
tem que ser providenciado pelo professor (falta de
recursos na escola) [...]” (DOCENTE H).
Em relação aos recursos utilizados na escola, verificou-se que o livro
didático possui papel indispensável em sala de aula, mas que a
dependência por esse recurso pelo professor pode trazer consequências
negativas:
“A grande dificuldade é pouco abordagem, ou quase
nenhuma dos livros didáticos que chegam e precisamos
trabalhar.
[...]
precisamos
abordar
os
conteúdos
necessários para a série, e o tempo é curto [...]”
(DOCENTE C).
Santos e Cicillini (2004) comentam que, comumente os professores da
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rede pública de ensino estão subordinados a colocar em prática as
propostas de ensino anteriormente elaboradas. Existe assim o impasse de
poder ou não elaborar e colocar em prática livremente suas aulas. Limitamse, assim, a livros didáticos e/ou propostas e planos de ensino já elaborados,
que muitas vezes não envolvem a realidade dos estudantes e do ambiente
de ensino.
É sabido por muitos professores que a metodologia de ensino
tradicional é ineficiente, porém, muitos ainda a utilizam com a defesa de
que outros métodos são de difícil aplicação em virtude do despreparo, falta
de estímulo e apoio por parte da escola e do meio social (SANTOS; CICILLINI,
2004).
Verificou-se que outras fontes são utilizadas pelos professores para
enriquecer as aulas, os vídeos e textos foram mencionados por 22
professores, seguido da lousa, utilizada por 19 professores e da apresentação
de slides por 15 professores. De acordo com Krasilchik (2008) grande parte
das informações no ensino de biologia é alcançada através da observação,
assim os recursos audiovisuais são reconhecidos por possuir um potencial.
Os jogos foram apontados como recurso utilizado nas aulas por 5
professores
e
apenas
um
professor
mencionou
a
utilização
de
documentários. Sendo um dado significativo, vale destacar que os jogos
didáticos favorecem o ensino e a aprendizagem de conceitos de difícil
compreensão devido ao nível de abstração e complexidade, além de
promover a interação em sala de aula (CAMPOS; BARTOLOTO; FELÍCIO,
2003).
Constatou-se que aulas práticas não são realizadas durante a
abordagem do tema sobre a Teoria da Evolução por 15 dos professores.
Estes alegaram a deficiência no espaço físico e a falta de materiais como
justificativa para a não realização da prática. Em dois casos distintos, a não
realização de atividades práticas esteve relacionada à dificuldade em
utilizar o conteúdo teórico em aulas práticas, e outro professor relatou ser a
falta de conhecimento na área, como mostra os relatos:
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“Muitas vezes torna-se complicado converter alguns
conteúdos
teóricos
em
aulas
práticas,
também
a
dificuldade de conseguir materiais etc.” – (DOCENTE I).
“Falta de conhecimento aprofundado na área (devido a
formação), falta de recursos no ambiente escolar” –
(DOCENTE K).
Para Bizzo (2002) através da prática o estudante pode verificar seus
conhecimentos e muitas vezes sendo levados a rever seus pensamentos, por
isso
é
importante
que
o
professor
perceba
a
importância
da
experimentação no ensino de ciências. Contudo, Santos e Cicillini (2004)
destacam que a experimentação é muitas vezes associada pelos professores
como sendo atividades realizadas em laboratórios bem equipados, sendo
essa uma concepção equivocada que impede que sejam desenvolvidas as
atividades práticas.
Ainda assim, 10 professores realizam as práticas fora dos laboratórios,
devido a sua inexistência, explorando espaços como a própria sala de aula
e espaços externos como, por exemplo, o próprio jardim da escola,
envolvendo a utilização de materiais alternativos como sucata e materiais
de baixo custo, e também em um caso materiais cedidos pela escola. Como
mostra o relato:
“Não temos laboratório de Ciências, portanto, as aulas
práticas são feitas na biblioteca, na sala de ciências,
aulas campo no bairro, na UNIVASF” – (DOCENTE D).
Verifica-se neste relato, o reconhecimento de uma parceria entre a
universidade e a escola, resultado da interação dos trabalhos realizados
principalmente através do PIBID, como uma possibilidade alternativa à falta
de estrutura das escolas.
É possível identificar que o ensino de ciências pode ser ministrado sem
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laboratórios, contudo as aulas práticas em laboratórios podem contribuir
para o trabalho docente, propiciando aos estudantes a oportunidade de
utilizar um local onde possam desenvolver atividades avançadas como
projetos de pesquisas (KRASILCHIK, 1987).
Relacionado à importância da abordagem da Teoria da Evolução no
ensino fundamental, nenhum professor participante mencionou a dimensão
da Evolução como tema central para o entendimento dos mecanismos
biológicos nem suas contribuições para as necessidades da sociedade. Dois
entrevistados responderam à questão citando apenas o fato do tema
proporcionar a reflexão e a manifestação das ideias por parte dos
estudantes.
Foi
atribuída
por
21
entrevistados
como
justificativa
para
a
importância do ensino do tema, a compreensão do surgimento da vida na
Terra, as transformações e origens de novas espécies, a diversidade da vida
na Terra, e as teorias científicas, assuntos esses pertinentes aos conteúdos
abordados no ensino fundamental.
Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais, no 6º e 7º ano do
ensino fundamental, podem ser introduzidos a problemática sobre a origem
da vida e as explicações para a diversidade biológica. No 8º e 9º ano o
estudo das diferentes teorias da evolução poderá ser evidenciado, em
ocasião, a comparação entre a teoria lamarckista e darwinista poderá
proporcionar discussões sobre os métodos científicos (BRASIL, 1998).
A
preocupação
em
contemplar
os
conteúdos
programáticos
escolares pôde ser evidenciada na afirmação de 2 professores que justificam
a importância do ensino do tema como mostra o relato do Docente M:
“É importante, porém, precisamos abordar os conteúdos
necessários para a série, e o tempo é curto, não
esquecendo também da dificuldade que eles trazem”
(DOCENTE M).
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Em outro caso, as orientações apresentadas pelos Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCN) foi utilizada como a única justificativa para a
importância da abordagem do tema:
“Pois trata de um conteúdo pertinente à grade curricular
nacional do 7º ano, não podendo deixar de ao menos
ser abordado de maneira sucinta” (DOCENTE X).
Os
relatos
sugerem
quase
uma
obrigatoriedade
em
abordar
determinada quantidade de temas propostos em um curto espaço de
tempo, essas informações corroboram com a pesquisa de Santos e Cicillini
(2004), em que professores das séries iniciais do ensino fundamental,
declaram seguir planos de ensino e se vêem com grande quantidade de
conteúdos a serem trabalhados, em consequência os assuntos são
trabalhados superficialmente em sala de aula, e comprometem os resultados
quanto à aprendizagem dos estudantes que necessitam de tempo e
cuidados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No ensino da Teoria da Evolução a falta de embasamento teórico no
exercício docente contribui para a formação de concepções equivocadas
acerca do tema. As dificuldades por parte dos docentes em compreender o
assunto, ocasiona a abordagem do tema Evolução de forma obscura e
errônea levando os estudantes a formarem concepções equivocadas.
Podemos afirmar que o desvio entre a formação inicial e a atuação
docente, prejudica negativamente o processo de ensino e aprendizagem,
como apontam Carvalho e Gil-Pérez (2011).
Concepções criacionistas sobre a origem da vida consistem em
dificultar o ensino da teoria da Evolução, a religiosidade, sobretudo, limita
ainda mais a abordagem do tema ao impedir as discussões sobre a origem
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ISSN 2237-9460
da vida a partir de diferentes perspectivas. A falta de compreensão acerca
do sistema de teorias evolutivas favorece a sua não aceitação.
Percebemos que os conteúdos são passados para os estudantes
superficialmente, apenas com o intuito de se trabalhar os assuntos
determinados nos livros didáticos seguindo um limite de tempo. Dessa forma,
a aprendizagem do estudante é comprometida, diante da abordagem
inapropriada dos conteúdos de Evolução por parte dos professores que
promovem um ensino abstrato e de difícil compreensão para os estudantes.
A falta de recursos na escola é um fator que contribui com a
predominância das aulas expositivas, sendo esse um motivo bastante
questionado pelos professores. Porém, aproveitando os recursos disponíveis
ao seu redor, 10 dos professores entrevistados buscam melhorias no ensino
de Evolução, através da utilização desses recursos, desde a preparação das
aulas, até o momento em que são ministradas.
Indicamos baseado neste estudo que a teoria da Evolução é de fato
pouco compreendida pelos docentes, e a fragmentação do ensino pode
ser evitada ao trabalhar a Evolução como um tema unificador dos
conteúdos de ciências.
Conforme os Parâmetros Curriculares Nacional, no ensino fundamental
devem ser considerados pelos estudantes a existência dos fósseis e os
processos de formação destes, e ainda o conhecimento sobre as formas de
vida extintas e outras muito antigas ainda existentes (BRASIL, 1998).
É importante que o aluno perceba através de incentivos do professor,
a existência de mudanças evolutivas em todo o planeta, conhecendo sobre
a grande variabilidade das populações, e compreendendo como a seleção
natural atua. Em alguns casos, a seleção natural pode ser estudada por
meio de vantagens adaptativas, a exemplo da camuflagem de algumas
espécies no ambiente, sendo uma característica bastante evidente (BRASIL,
1998).
Conforme Bizzo e El-Hani (2009) resultados de estudos nacionais e
internacionais acerca do ensino da Teoria da Evolução apontaram que os
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estudantes ao fim da educação básica, possuem um conhecimento sobre
Evolução de forma bastante restrita. Para os autores, além do enfoque
histórico necessário para que se desenvolva um verdadeiro entendimento
sobre a Teoria da Evolução, o cuidado para que o tema não seja abordado
apenas ao final da educação básica, evita a abordagem imprópria que
deixa de cumprir o papel integrador efetivo no conhecimento biológico.
Para que sejam alcançados os objetivos do processo de ensinoaprendizagem é necessário que exista uma área para as discussões do
pensamento científico que é solicitada pela Teoria da Evolução, e também
do pensamento teológico, que resgata assuntos históricos da sociedade, por
isso é imprescindível que o professor se prepare minuciosamente, estudando
a fundo o tema Evolução (MARQUES, ANJOS e BRANDÃO, 2012).
Estas conclusões indicam a necessidade de intervenções no âmbito
educacional, através da formação continuada de professores, para
minimizar a problemática observada, contribuindo para a construção do
conhecimento científico sobre a Teoria da Evolução e o maior diálogo entre
as concepções dos estudantes e o conhecimento ensinado.
Novas estratégias de abordagem em sala de aula tem sido objeto de
estudo para Bizzo, Sano e Monteiro (2016), com a finalidade de que sejam
pensadas novas possibilidades para o ensino da Evolução no arranjo
curricular da educação básica, apresentando contribuições para o
posicionamento ativo dos estudantes frente a temas polêmicos como este.
Na abordagem dos autores, a partir de acontecimentos históricos são
criadas condições para que ocorra discussão ativa dos estudantes sobre o
estatuto do conhecimento científico, o desenvolvimento de habilidades
investigativas, a compreensão do método científico e a capacidade de
posicionamento crítico diante de temas controversos.
Além das dificuldades para o ensino de evolução, expressas nos
relatos dos docentes como, o engessamento do currículo, ou seja, a
obrigatoriedade no cumprimento dos temas previamente estabelecidos, os
problemas relativos à complementação de carga horária que coloca
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docentes para lecionar disciplinas distintas da sua área de formação, a falta
de compreensão das teorias evolutivas, os dados representam uma espécie
de fotografia do ensino de Evolução sob o olhar dos professores da rede
pública do ensino fundamental II de Senhor do Bonfim, BA. No entanto, esse
retrato pode ser observado também em outras realidades do interior do país,
especialmente no estado da Bahia. Ao observar os dados da avaliação do
PISA (2015) sobre a proficiência em ciências, observa-se que a Bahia é o
penúltimo entre os estados da federação (BRASIL, 2016). Isso revela a
importância
de
estudos
dessa
natureza
para
produzir
diagnósticos
situacionais, orientar propostas de formação continuada e estimular o
desenvolvimento de políticas educacionais, entre outras ações.
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Recebido em: Março de 2017
Aceito em: Junho de 2017
196
Revista Exitus, Santarém/PA, Vol. 7, N° 3, p. 172-196, Set/Dez 2017.
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