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Pereira Costa; Safe; Castro- Reflexões sobre a Escola de Morfologia Italiana

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REFLEXÕES SOBRE A ESCOLA
ESCOLA ITALIANA DE MORFOLOGIA
MOR
URBANA
PEREIRA COSTA, STAEL DE ALVARENGA (1); SAFE, Simone M. S.
S (2); CASTRO,
Cleide. (3).
1. Escola de Arquitetura da UFMG.
UFMG Prof. Dra. do Departamento de Urbanismo.
Escola de Arquitetura/UFMG. Rua Paraíba, 697 sala 404c , Funcionários. Belo Horizonte – MG.
[email protected]
2. Escola de Arquitetura da UFMG.
UFMG Mestranda em Ambiente
iente Construído e Patrimônio Sustentável
MACPS
Rua do Mosteiro, 37/ apto 801, bairro Vila Paris, CEP 30380-780
30380
[email protected]
3.. Escola de Arquitetura da UFMG. Graduando em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG.
Rua Coronel Pres, 319, Ap. 202 - Sagrada Família - Belo Horizonte
[email protected]
RESUMO
Este artigo trata da contribuição da Escola Italiana de Morfologia Urbana como método para elaboração
de projetos urbanos, a partir da análise das transformações e permanências da paisagem edificada,
visando reforçá-las ou inibi-las.
las. A Escola Italiana foi desenvolvida por arquitetos e direciona a análise a
partir da escala arquitetônica. Visa compreender a realidade presente como síntese da história coletiva,
que pode ser examinada criticamente através da unidade habitacional mais recorrente denominada
pelo autor como "tipo básico". Esse conceito, criado por Muratori, o fundador da escola italiana é
entendido como "princípio orgânico" da arquitetura no qual, a forma é a síntese expressiva da realidade
estrutural, funcional e ambiental, que embasa a análise tipológica
tipológica e seu processo evolutivo no tempo. O
organismo edilício é criado e individua-se
individua se numa experiência que se repete várias vezes para responder
à exigência típica de uma sociedade. Esses tipos são tratados como fios condutores das reflexões
desse artigo,
go, abordando conceitos como "tipo básico, processo tipológico, conjuntos, tecidos urbanos,
rotas, construções especializadas e construções básicas". O objetivo é ampliar a discussão como a
metodologia preconizada pela Escola Italiana pode contribuir para uma leitura e análise das formas da
cidade de maneira mais aprofundada e interdisciplinar.
Palavras-chave: Morfologia Urbana. Escola Italiana de Morfologia Urbana. Tipologia edilícia.
II CONINTER – Congresso Internacional Interdisciplinar em Sociais e Humanidades
Belo Horizonte, de 8 a 11 de outubro de 2013
1. INTRODUÇÃO
Este artigo destina-se a apresentar reflexões teóricas sobre a Escola Italiana de Morfologia
Urbana com aplicação prática no distrito de Morro Vermelho, município de Caeté, em Minas
Gerais. O método preconizado por esta escola integra parte da investigação do Projeto de
Pesquisa “A SINCRONICIDADE NAS ESCOLAS DE MORFOLOGIA URBANA E OS SEUS
PARADIGMAS SOCIAIS” do Edital Universal CNPq nº 14/2011, coordenado pela Professora
Dra. Staël de Alvarenga Pereira Costa, do Departamento de Urbanismo da Escola de
Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (EAUFMG), líder do Grupo de Pesquisa
em Desenho Ambiental cadastrado no CNPq.
Outros trabalhos desenvolvidos pela autora, também abordam o método em questão. Dentre
eles destacam-se elaboração da pesquisa sobre ″As Cidades Sul Metropolitanas do Ciclo do
Ouro″, (PEREIRA COSTA, 2003), bem como os Planos Diretores Participativos de seis
cidades mineiras, todas analisadas sob esta abordagem (PEREIRA COSTA; TEIXEIRA,
2006). Nestes estudos foram incorporados os instrumentos metodológicos desenvolvidos por
Saverio Muratori e principalmente, os conceitos referentes ao tipo básico e tecido urbano para
serem utilizados como ferramenta de análise e leituras das cidades. Estes conceitos surgem
da prática arquitetônica e acadêmica de Saverio Muratori, o criador da escola de italiana de
Morfologia Urbana e que foram posteriormente desenvolvidos por seus discípulos.
A trajetória de Saverio Muratori
O arquiteto Saverio Muratori é reconhecido como um dos primeiros investigadores da
Morfologia Urbana tendo nascido em Modena, Itália, em 1910.
A sua vida pública pode ser reunida em dois períodos. O primeiro se inicia após sua formatura
na Scuola Superiore di Architettura di Roma, no período situado entre 1933 a 1946, cuja
prática profissional se desenvolve de acordo com o conteúdo correspondente ao âmbito
cultural arquitetônico da Itália, antes da Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, o arquiteto
Muratori inicia sua cadeira profissional como projetista e se consolida como um arquiteto
moderno renomado, inserido na lógica do seu tempo.
Na primeira fase da sua vida profissional, Muratori se utiliza de temas e das linguagens
oriundas do racionalismo europeu, que faziam parte do rico e complexo debate italiano
naquele tempo. (MARETTO, 2012). Esta opção o levaria ainda muito jovem, a participar de
um concurso para o plano diretor de Aprilia (proposto em parceria com os arquitetos F.
Fariello, L. Quaroni e Tedeschi). Este projeto não foi selecionado , embora recebesse elogios.
Dois anos após Muratori é contratado para coordenar o grupo romano no projeto da Praça
Imperial para a Exposição Universal de Roma. Estas experiências iniciais proporcionaram ao
arquiteto o rigor metodológico para o planejamento urbano, qualidade que manteria até o final
da sua vida. O diálogo com a história foi outro aspecto sempre presente na sua vida, utilizado
inicialmente, como uma maneira para se aprofundar nos temas modernos. Mais tarde seria
utilizado como um palimpsesto, no qual alavancava a crítica sobre o projeto para a cidade.
Essa fase precursora da sua carreira é reconhecida como a fase néo realista. (MARETTO,
2012)
O segundo período, de 1947 a 1963, pós-guerra, Muratori emerge progressivamente como
teórico e docente de arquitetura, buscando a superação do "Moderno"(CORSINI, 2001). É
nessa ocasião, que surge o critico da arquitetura moderna, cuja maturidade parece ter
ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando ele se aprofunda nos estudos teóricos,
filosóficos. O trabalho de Friedrich Schiller foi um dos que vai desempenhar um papel
importante na sua nova visão cultural.
Como professor, Muratori examina a obra arquitetônica e a sua relação com o ambiente. Ele
critica o movimento moderno tanto na contextualização do projeto, quanto na recusa da
continuidade histórica. Nesse momento, ele visualizou o problema da relação arquitetura e
ambiente desde 1946, ainda não percebido pelos seus contemporâneos. Através do ambiente
é estendido o conceito de organismo da arquitetura para a cidade e cita: “O organismo
arquitetônico e o organismo urbano se definem no âmbito de uma determinada civilização,
porquanto tendem a exprimir na forma os valores característicos dessa sociedade."
(CORSINI, 1998, p.392)
Nessas críticas estão contidas, na prática, todos os conceitos da base da teoria Muratoriana,
que foram fundamentais para o desenvolvimento de uma metodologia operativa: o estilo como
a linguagem comum de uma sociedade; a linguagem que se exprime através do "tipo básico"
na síntese funcional e técnica de sua forma; o "tipo básico" como "síntese crítica" realizada
pelo arquiteto na relação entre arquitetura e ambiente; a realidade atual como síntese da
história coletiva, de uma sociedade, que pode ser relida através do "tipo básico". (CORSINI,
2001, p.392-394).
Em 1952, Muratori foi convidado para atuar como Professor em Veneza com a temática sobre
as características distributivas das edificações. Em 1954, Muratori volta a Roma como
Professor de Composição Arquitetônica, depois da experiência veneziana. Seus trabalhos
mais conhecidos são os que descrevem a evolução urbana de Veneza e Roma. Estes
trabalhos colocam-no em divergência com o pensamento arquitetônico da época ao antecipar
temáticas que ainda são atuais.
As principais obras baseadas nas teorias de Muratori são Storia e critica del L’architettura
contemporânea (1980), organizada por Guido Marinucci, em Roma, no primeiro período da
vida pública de Muratori
e Da Sckinkel ad Asplund. Lezioni di Architettura Moderna
(1959-1960), organizada por GianCarlo Cataldi e G. Marinucci, referente ao segundo período.
Também organizado por G. Marinucci a obra Architettura e Civiltà in Crisi, 1963, apresenta a
síntese conclusiva da crítica de Muratori à arquitetura moderna, em que propõe o método
operativo que tem como fundamento a relação entre história e projeto.
Depois da morte de Muratori, seus assistentes se viram obrigados a se deslocarem para
outras faculdades, onde continuaram a desenvolver as ideias de seu mentor, porém com base
nas próprias experiências pessoais. Assim, a Escola Italiana teve continuidade através de
seguidores, tais como Caniggia e Vaccaro, Maretto. Atualmente a Escola Italiana é
representada por Maffei, Cataldi, Marzot, Strappa, Petrotucci, Corsini, Marco Maretto e outros.
A Escola Italiana, por ter sido desenvolvida por arquitetos, direciona a análise morfológica a
partir da escala arquitetônica. Seu método vai do particular ao geral, da identificação do tipo
básico e sua evolução para a ocupação do território. Assim, a metodologia de análise dessa
Escola passa por três diferentes escalas: a do tipo básico e seu processo tipológico, a
formação de conjuntos e tecidos urbanos e, por último, a análise das rotas para compreensão
do processo de ocupação do território. Essas três escalas serão conceituadas, com base na
teoria trazida, especialmente, através de Caniggia e Maffei, e aplicadas no trabalho de campo
realizado em abril de 2013 no distrito de Morro Vermelho, em Caeté, Minas Gerais, para a
disciplina de Morfologia Urbana no MACPS (mestrado Ambiente Construído e Patrimônio
Sustentável) expostos nos itens a seguir.
2. PESQUISA TIPOLÓGICA
2.1 Conceitos da Escola Italiana de Morfologia Urbana
Essa metodologia tem como objetivo identificar e classificar as edificações em determinados
tipos. Uma cidade é composta por tipos edilícios de base e tipos edilícios especializados. Os
tipos edilícios de base são representado pelas residências, podendo ser multifamiliares, como
edifícios, ou unifamiliares, como casas. Já os tipos edilícios especializados são aqueles que
se diferenciam na malha urbana da cidade por possuírem características mais complexas e
apresentarem maiores proporções, como, por exemplo, as igrejas e os palácios, constituindo
marcos de referência da cidade.
2.1.1 Tipo
O tipo, segundo definição de Caniggia e Maffei, “é uma espécie de conceito não desenhado, a
síntese da cultura edilícia de um lugar e de uma era, um arquétipo inerente à mente do
indivíduo de uma época, existente na mente de cada indivíduo construtor, direcionado pela
pré-figuração do que está prestes a produzir." (CANIGGIA, MAFFEI, 2004, p. 75, tradução
livre pelos autores).
O tipo básico é a edificação considerada síntese da cultura local e que pode se reconhecida
por meio das suas transformações, todas baseadas num principio comum, que se amplia ou
reduz, mantendo o formato inicial, perceptível através da análise morfológica. O tipo básico,
portanto forma a matriz do conceito residencial, do qual são herdadas as residências atuais
por meio de especialização da função e do crescimento. (CANIGGIA, MAFFEI, 2004, p. 88)
A pesquisa tipológica
Para se identificar os tipos básicos em Morro Vermelho foram efetuados levantamentos, por
meio de trabalho de campo, que se constitui de fotos e medições das fachadas in loco. Estes
posteriormente foram lançados sobre a base cadastral de Morro Vermelho. Esta base havia
sido desenvolvida pela Superintendência de Desenvolvimento da Região Metropolitana de
Belo Horizonte, PLAMBEL, em 1977.
O tipo básico de Morro Vermelho
O identificação do tipo básico é definida a partir da observação e da interpretação do
conjunto, ou seja, através da percepção crítica que, posteriormente, reconhecerá a existência
do tipo e suas variações consequentes, o “processo tipológico", já que os edifícios são
entendidos como uma adaptação de tipos anteriores, ou seja, como um produto de
aprendizagem, que permite compreender a conformação do tecido urbano.
Em Morro Vermelho, o tipo básico mais recorrente é o que apresenta largura de fachada em
torno de 10 a 12 metros. Foram encontrados também tipos edilícios com variação de fachada
entre 6 a 8 metros e 13 a 15 metros. Este tipo básico mais recorrente possui partido horizontal
e diminuto pé-direito. Encontra-se alinhado em relação à rua, sem recuo frontal e lateral,
estando elevado sobre embasamento de altura variável (Figura 01). O tipo mais antigo possui
a estrutura em gaiola de madeira com vedação em adobe. A fachada característica é
alongada com sucessão de esquadrias, cujas marcações fazem parte da própria estrutura
construtiva, sendo os cheios equivalendo a metade dos vazios ou a uma vez o vazio. A porta
não é obrigatoriamente central, deslocando-se para as laterais, em partido mais flexível
(Figura 02).
Os tipos especializados de Morro Vermelho
Como exemplos de "tipo especializado" destacam-se a Matriz de N. Sra. de Nazaré e a
Capela do Rosário, ambas monumentos tombados pelo Instituto de Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional ( IPHAN ), são do século XVIII, tendo sido construídas para substituir
primitivas ermidas.
A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso foi construída em 1756 pelo padre
Henrique Pereira. Devido à história do Distrito o IPHAN, no seu papel de autoridade máxima
na conservação de bens vinculados aos fatos memoráveis da História do Brasil, conforme
Decreto-lei 25, de 30 de novembro de 1937, percebeu a necessidade de preservar e
salvaguardar a Matriz de Nossa Senhora de Nazareth. Então, no ano de 1950, a Matriz foi
tombada. Passou por restauração em 1974 e recentemente foi objeto de novas restaurações,
desta vez financiadas pela própria comunidade. Esta atitude demonstra o valor da Igreja para
a população do distrito de Morro Vermelho. A matriz de Caeté também foi descrita pelo
viajante francês August de Saint-Hilaire que percorreu essa região no ano de 1833. Em suas
palavras:
A igreja é um templo de dimensões avantajadas com sólida e imponente
fachada. A portada é de ombreiras largas, trabalhadas e encimadas por um
alto medalhão que alcança até um dos janelões, mais acima. São três
janelões ao todo, com molduras de pedras e cimalhinhas retas se
encontrando no alto num toque meio romano. O corpo principal da fachada é
delineado por pilastras duplas de cantaria, marcando a base das torres. Os
cunhais também são de pedra. A cimalha que separa a base da fachada do
frontão e torres é bem delineada e robusta mas não é de pedra. As torres são
quadradas com pirâmides achatadas no topo e cantos arredondados, solução
muita utilizada por Antônio Francisco Lisboa nos anos seguintes. O alto das
torres é fechado por pináculos orientais. Há umas espécies de pinhas em
cada um dos quatro cantos das torres ao nível da base das pirâmides. O
frontão é alto, em curvas suaves e molduras de cantaria. Nas laterais há
arremates de pedra em forma de pequenas colunas com bases alargadas. A
cruz é simples e um tanto em desacordo com a robustez do frontão. Um
pouco abaixo do centro do mesmo, abre-se um óculo ovalado guarnecido de
vidraças. (SAINT-HILAIRE, 1974, p.65)
Figura 01. Exemplo de "tipo base"- fachada situa-se no intervalo de 10 a 12 m, implantação e corte
esquemáticos e foto do tipo Especializado: Matriz de N. Sra. de Nazaré - Morro Vermelho.
Fonte: Croquis por Luciane Faquineli, maio de 2013, esquema corte e implantação. Produzido pelas
autoras, agosto 2013, com base mapa da PLAMBEL 1977 e vista aérea extraída no google earth e
Foto Luciana Lelis, abril de 2013.
2.1.2 Processo tipológico
O “processo tipológico" é o reconhecimento da existência do tipo e suas mudanças
consequentes ao longo do tempo. É um suceder-se de mutação e distinção temporal com
relativa influência espacial mútua. As principais mudanças ocorrem na implantação, e/ou na
ocupação e/ou na fachada.
Os processos tipológicos de mutação apresentam "um outro aspecto de historicidade:
diversificação cronológica de tipos numa mesma área" (Caniggia e Maffei, 2001, p.76). Estes
processos recebem a conceituação de diatópicos, sincrônicos e diacrônicos. A diversificação
sincrônica refere-se à aplicação do mesmo tipo repetidamente, mesmo quando este não se
enquadra à situação na qual se insere, o que diminui a eficiência da edificação.
A diversificação diatópica refere-se à aplicação de um tipo que corresponde à consciência
espontânea1 de uma determinada área cultural em outra região geográfica, cuja consciência
espontânea difere da primeira, provocando assim uma variação regional geográfica. Um
exemplo da consciência espontânea pode ser vista sob a ótica da influência portuguesa
quando da ocupação do território nacional na formação dos primeiros arraiais.
Ao se observar a diversificação diacrônica, que atua a partir da observação sobre a
diversificação cronológica dos tipos numa mesma área, pode-se comparar algumas variáveis
apresentadas por diferenciações encontradas nos tipos contemporâneos que se seguiram. No
caso de Morro Vermelho, as variáveis se caracterizam pelo uso de novos materiais (janelas,
portas, telhados, revestimentos fachada, etc). O posicionamento da construção em relação à
rua - alinhado, sem afastamento e elevado acima do nível do passeio foi mantido, com
também a proporção da fachada- casas alongadas e retangulares de partido horizontal.
Pode-se verificar se houve uma evolução global de tipos no tempo e na mesma área cultural.
Este processo é reconhecido enquanto “mutação sintópica / diacrônica”, ou em grandes áreas
culturais num mesmo tempo.
É denominado "mutação diatópica/ sincrônica”, quando ocorre no tempo em grandes áreas
culturais (“mutação diatópica/ diacrônica), ou numa mesma área cultural num mesmo tempo
em questão (“mutação sintópica/ sincrônica”).
1
A consciência espontânea descreve atitudes de decisão tomadas pelos seres humanos, que não pensam duas
vezes e decidem por si só suas escolhas. Se pensarmos em edificações espontâneas estes correspondem aos
fazeres imediatos, feitos pelos próprios usuários, sem a interpretação de um profissional ou de uma técnica. Esses
fazeres são consequentes de uma cultura edilícia, espontaneamente adquiridas e repassadas num momento
determinado na sua área cultural. Interpretating Basic Building. 2001. p 43.
Fig. 02 - Variações do "tipo", cuja fachada situa-se no intervalo de 10 a 12 m: versões tradicionais e
diacrônicas.
Versões tradicionais coloniais
Processo tipológico
apresentando alterações na
fachada
Versão diacrônica do tipo base
Fonte: Simone Safe, maio de 2013.
As principais mudanças do processo tipológico verificadas em Morro Vermelho do tipo base
contendo fachada entre 10 a 12 metros ocorreram na implantação e/ou na fachada. As
variações como acréscimo de varandas frontais e garagens ou acessos laterais, marcados
por muros e portões foram as mais numerosas. Quanto à implantação, muitas apresentaram
recuo frontal, típicas de uma ocupação mais contemporânea. A existência de automóveis é
um dos vetores que conduz a essa necessidade de adaptação.
3. CONJUNTOS E TECIDOS URBANOS
A escola italiana propõe o estudo de “agregados” que pode ser definido como um bloco de
base, umaunidade de conjunto mínima da qual se formará um tecido . Nas cidades históricas,
os edifícios estão posicionados de acordo com as rotas que regem a ocupação do território e
que conduzem à formação de um agregado.
Os edifícios não são construídos lado a lado por acaso, pelo contrário, temos uma codificação,
um sistema de leis inerente à formação de um agregado. Em resumo verifica-se a existência
de um tipo de agregado, ou seja, historicamente “um auto-sistema regulado como regra, a
alteração orgânica no espaço e no tempo passa a produção ou transformação de um
agregado semelhante à produção de cada edifício.” (Caniggia e Maffei ,2001, p.118)
O conceito de agregado urbano está baseado num sistema de regras de construção que para
conjuntamente estabelecer a formação de um tecido urbano. A referência não é efetuada a
um nível formal, mas em de distribuição e das exigências funcionais. Dessa classificação de
elementos urbanos, ou seja, o conjunto de tipos e suas relações é possível identificá-los com
relação à estrutura urbana em um determinado período de tempo.
De acordo com Caniggia e Maffei (2001, p.118-119) "o tecido é para o agregado, o que o tipo
edilício básico é para o edifício: o conceito da coexistência de vários tipos edilícios nas mentes
dos construtores antes do ato de construir, a partir da consciência espontânea, que produz
como resultado civil a experiência de colocar vários edifícios juntos, enquadrando-os segundo
seus aspectos mais interessantes e que se somam." Em resumo, é a priori, a síntese do
conceito de "tipo edilício" que tem seu termo transferido para um conjunto mais abrangente,
"tecido".
Em Morro Vermelho a ocupação urbana configurou-se de forma particular, onde o urbano e o
rural se aproximam e se mesclam. A ocupação favoreceu uma organização espacial linear
com arranjos formados ao longo de uma rede de caminhos mais antigos, configurados pelas
propriedades nos quais a testada adquiriu maior importância na divisão e na apropriação da
terra. Nesse distrito não há leitura clara de quarteirão ou bloco de base. Isso ocorre
principalmente, devido ao
posicionamento das construções nos lotes e na sua própria
conformação. Ainda existe a presença de uma vegetação densa.
Fig. 03 - Conjunto Urbano Distrito de Morro Vermelho e Florença, Rua Maggio, exemplar de tecido
especializado
Fonte: Produzido pelas autoras, 2013, com base mapa de
Morro Vermelho (PLAMBEL, 1977) e vista aérea extraída
no google earth. À direita parte do mapa de Morro
Vermelho (PLAMBEL, 1977) e figura extraída do texto
Caniggia e Maffei, 2001, p.120)
Conclui-se que as características urbanas do Distrito de Morro Vermelho são semelhantes
aos povoados, a um proto-núcleo em que não há tecido urbano consolidado. A concentração
das edificações estão em torno do caminho tronco principal, que é o início da ocupação, a
origem de uma rota principal.
4. OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO: ROTAS
O organismo Territorial é entendido como a “individuação das conexões típicas entre rotas,
assentamentos, organismos urbanos e produtivos” e se desenvolve relacionado ao processo
de evolução humana. (Caniggia e Maffei, 2001) A rota é a primeira e única estrutura feita pelo
homem na fase de estruturação inicial de um ambiente sob ocupação.
O território é estruturado num sistema de ciclos e difere, na correlação e hierarquia de seus
componentes, num ciclo de consolidação subsequente, ou seja, num ciclo que permita a
evolução e expansão do processo de ocupação do território (Figura 04). A Escola Italiana
estabelece quatro ciclos de ocupação, subdividos em dois períodos, que correspondem aos
seguintes períodos da civilização humana:
O primeiro ciclo um corresponde à fase civil nômade.
O ciclo dois corresponde à permanência sazonal, em que os assentamentos estabelecem-se
em locais produtivos, mas ainda não cultivados pelo homem.
O ciclo três destaca-se pela distinção com a existência de fazendas e celeiros para estoque,
demonstrando o início da capacidade de plantação e criação de animais.
Finalmente o ciclo quatro corresponde ao estágio civil e sua primeira formação urbana,
fechando o sistema de ciclos com a presença do homem.
O sistema de ciclos começa a ocorrer através de estruturas de cordilheiras, num primeiro
período, pelas cristas, que proporcionavam a visão estratégica da paisagem do entorno, e
prosseguiam com a ocupação na direção de cima para baixo, ou seja da crista para os fundos
de vale. Os ciclos de consolidação, num segundo período, se dão numa reestruturação global
induzindo a prevalência de fundo de vale, sendo a ocupação realizada de baixo para cima.
Esses ciclos parecem completar as séries possíveis de ocupação do território, porém os
processos de urbanização e de desenvolvimento tecnológicos subsequentes fazem com que
a ocupação ocorrida nos primeiros ciclos seja adaptada aos tempos históricos posteriores.
No primeiro período, a primeira missão do homem ao lugar é adaptar-se à sua estrutura
natural e às suas características morfológicas e climáticas. Na ausência de outras estruturas
humanas, as rotas seguem a linha de crista da cordilheira, que, na maioria das vezes
correspondem aos limites do território que separa duas civilizações. O primeiro ciclo desse
período ou primeira rota situa-se no divisor de águas, onde está mais prolongado e contínuo e
não segue necessariamente em linha reta.
No segundo ciclo ou segunda rota, por questões naturais de acesso à água, amplia-se o
assentamento com braços secundários para os níveis inferiores. A escolha do local para
assentamento dá preferência a um promontório, pela identificação da área em vista das
outras, pela acessibilidade na linha das cristas e pela possibilidade de usar o local para
defesa. Esta escolha proporciona ao homem, a noção da porção de território sob suas posses
e competência, condição para a formação de uma área cultural.
No terceiro ciclo ou terceira rota, leva-se à formação sistemática do cruzamento de rotas de
crista junto com a mudança na produtividade, que passa a ter um sentido permanente em
cultivo e estocagem.
Por último, cria-se um sistema de cruzamento de rotas artificial, em que, progressivamente
caminha-se em direção ao desenvolvimento do território, de preferência áreas com
declividade, chegando até fundo de vales. Nessa fase excluem-se as áreas planas de fundo
de vale, pois requerem um sistema de regas artificiais
e estágios mais avançados de
ocupação civil, em que, por ser essa um período de ocupação civil nômade, ainda não
existiam tais meios.
O segundo período é um ciclo de consolidação da ocupação do território pelo homem e se
desenvolve também, em quatro ciclos. Há uma reinterpretação da estrutura prévia e
integração territorial do assentamento num novo enquadramento.
No primeiro ciclo ou primeira rota desse segundo período, os núcleos urbanos, produzidos
pelos cruzamentos das rotas desde a crista atingem, pela primeira vez, as rotas do fundo de
vale.
O segundo ciclo ou segunda rota promove uma extensão da rede de rotas de fundo de vale
para além das bases dos montes, áreas costeiras e planícies dos vales, onde os núcleos
urbanos já se encontram. Promove-se assim, ligação entre dois fundos de vales opostos
através de pontes (Figura 04), estabelecendo neste ponto de encontro , um centro de
comércio.
No terceiro ciclo, encontramos o desenvolvimento de rotas secundárias de fundo de vale,
dando continuidade a um cruzamento de rotas previamente estabelecido. Chega-se aos
promontórios de baixa altitude.
No última fase desse segundo período, o quarto ciclo, através de uma reestruturação de fundo
de vale chega-se a um cruzamento das rotas locais na sua maior altitude, e através dele, a um
promontório de assentamento elevado. A produtividade aumenta com o aumento do número
de novas áreas no fundo do vale. A figura 04, a seguir, demonstra, esquematicamente, as
fases de ocupação correspondentes aos períodos 1 e 2.
Fig. 04 - Modelo Esquemático rotas.
Fonte: Produzido pelas autoras com base em desenho elaborado durante a disciplina de Morfologia
Urbana do MACPS oferecida por Stael de Alvarenga Pereira Costa e Manoela Netto no 1 º semestre de
2013. CorelDraw. Julho 2013.
Até este ponto, no fim do quarto ciclo do segundo período, o território encontra-se
completamente ocupado.
A razão da inversão da ocupação de fundo de vale em direção ao topo se dá
progressivamente, pois é necessário uma maior organização da comunidade, para se
implantar equipamentos, para tornar a área natural em área utilizável.
As civilizações mais recentes, que correspondem aos períodos três e quatro, chegaram a um
poder civil de organização, político e técnico, podendo ali se desenvolver, por superarem as
condições negativas do fundo de vale.
Segundo Caniggia e Maffei (2001), a atualidade apresenta um desequilíbrio entre o
empobrecimento de ocupação das encostas e áreas montanhosas e o congestionamento em
excesso das áreas planas criadas artificialmente. O futuro depende da capacidade do homem
desenvolver tecnologias e regulamentos apropriados para compensar este desequilíbrios.
O conceito de rotas e a sua aplicação em Morro Vermelho
Para aplicar essa teoria ao contexto brasileiro, especialmente em Minas Gerais, torna-se
necessário levar em consideração a diversidade cultural, inclusive nos modos de vida e de
relacionamento com o território, dos diferentes povos que aqui entraram em contato desde os
primórdios do século XVI.
As rotas se desenvolveram tanto pelas cristas, com suas vistas panorâmicas para a
localização no território, quanto acompanhando os cursos dos rios, ambas usadas pelos
povos indígenas. Presume-se que , no território mineiro, os europeus, buscando expandir
seus domínios, realizaram seus deslocamentos pelas encostas e fundos de vale,
acompanhando a exploração mineral, o surgimento de lavouras e pastos e as rotas indígenas
primitivas.
Esse encontro de civilizações fez com que o território brasileiro fosse consolidado de forma
alternativa ao método apresentado pela Escola Italiana, pois que ocorreram ao mesmo tempo
e com estratégias hibridas.
Na época da ocupação do território mineiro, no período do ciclo do Ouro, a região de Caeté
era cortada por uma grande rota que a ligava à Sabará, Curral del Rei, Raposos, Catas Altas,
dentre outros, e que se estendia até a Capitania do Espírito Santo. Após o colapso do ouro, o
comércio e o abastecimento de gêneros despontam como motores da economia local, mas
sem a mesma preponderância da época de exploração aurífera.
Nesse cenário, outro fator que se destaca na ocupação do território mineiro, especialmente no
desenvolvimento de aglomerações urbanas, foi seu forte caráter religioso. Na maioria dos
casos, logo que uma área era ocupada os moradores tratavam de erguer uma capela, ao
redor da qual a vila se desenvolvia. Essas ermidas normalmente ficavam no topo das colinas
ou em platôs, locais de destaque. Com o enriquecimento desses locais, muitas dessas
capelas davam lugar a construções de grande porte e extremamente simbólicas. Como em
muitos arraiais nascidos nas Minas do Período Colonial, Morro Vermelho apresenta a capela
do Rosário (“dos negros”) posicionada em contraposição à Matriz (“dos brancos”),
conformando uma das partes principais do caminho tronco, rota de ligação, do Arraial de
Morro Vermelho. Esse caminho começa no Rosário, passa pela Rua Evangelista Marques, o
Largo da Matriz, segue pela Rua Dr. Antônio Mourão Guimarães e termina no único chafariz
existente no distrito. (Figura 3)
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O exercício proposto nesse artigo demonstrou que a metodologia da Escola Italiana foi
possível de ser aplicada no Brasil, em especial, no caso de Morro Vermelho. Ela proporcionou
uma compreensão da história morfológica do lugar, principalmente a partir da identificação
dos tipos, onde foi possível compreender o processo de ocupação por sua identificação e
posicionamento ao longo do caminho tronco: Igreja do Rosário – Matriz – Chafariz.
Essa compreensão do processo de transformação urbana permite avaliar as influências
socioeconômicas e políticas que marcaram a história da cidade, bem como, sua forma urbana
e deste modo planejar futuras intervenções na paisagem, equilibrando preservação e
renovação sem grandes danos a historicidade local.
Em relação ao conceito de tecido urbano trazido pela Escola Italiana, ao aplicá-lo em Morro
Vermelho, a teoria não pode ser exemplificada de maneira completa, pelo fato de Morro
Vermelho ser ainda um agrupamento urbano em desenvolvimento e que permaneceu como
que "congelado" no tempo. Assim, não existiu desenvolvimento suficiente que pudesse
conformar um tecido urbano, permanecendo como um agregado.
Percebemos que o estudo das rotas não depende da análise dos tipos, pois é anterior ao
surgimento das edificações. Verificamos também, que as fases de ocupação do território
apontados pelos italianos possuem aplicação diferenciada no território brasileiro consequente
dos tempos históricos dessemelhantes e pela mescla de cultura e populações, indígenas e
europeias.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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15-04-2004. - ICMS Cultural – IEPHA.
PREFEITURA MUNICIPAL DE CAETÉ. 2004. Dossiê de Tombamento da Capela do Rosário.
Digitalizado.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem o apoio recebido da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais
- FAPEMIG, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Cientifico- CNPQ e
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES para o
desenvolvimento desta pesquisa e apresentação deste artigo..
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