32 - Cegos Adventistas

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LIVRO ATOS DOS APÓSTOLOS.
Escritora Ellen G. White.
TÍTULO TRÊS.
O Cristianismo vai aos Confins da Terra.
CAPÍTULO 32.
Uma Igreja Liberal.
Em sua primeira carta à igreja de Corinto, Paulo deu aos crentes instruções
referentes a princípios gerais sobre os quais se apóia o sustento da obra de Deus na
Terra. Escrevendo a respeito de seu trabalho apostólico em favor deles, ele
interroga:
"Quem jamais milita à sua própria custa? Quem planta uma vinha e não come do
seu fruto? Ou quem apascenta o gado e não come do leite do gado? Digo eu isto
segundo os homens? Ou não diz a lei também o mesmo? Porque na lei de Moisés
está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus
cuidado dos bois? Ou não o diz certamente por nós? Certamente que por nós está
escrito; porque o que lavra deve lavrar com esperança, e o que debulha deve
debulhar com esperança de ser participante.
"Se nós vos semeamos as coisas espirituais", indagou mais o apóstolo, "será muito
que de vós recolhamos as carnais? Se outros participam deste poder sobre vós, por
que não, mais justamente, nós? Mas nós não usamos deste direito; antes
suportamos tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo.
Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do
templo? E que os que de contínuo estão junto ao altar participam do altar? Assim
ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do
evangelho." I Cor. 9:7-14.
O apóstolo aqui se refere ao plano do Senhor para a manutenção dos sacerdotes
que ministravam no templo. Os que eram separados para esse sagrado ofício eram
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mantidos por seus irmãos, aos quais ministravam bênçãos espirituais. "Os que
dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem, segundo a lei, de tomar
o dízimo do povo." Heb. 7:5. A tribo de Levi fora escolhida pelo Senhor para os
sagrados ofícios relacionados com o templo e o sacerdócio. Do sacerdote foi dito:
"O Senhor teu Deus o escolheu... para que assista a servir no nome do Senhor."
Deut. 18:5. Um décimo de toda a renda era reclamada pelo Senhor como Lhe
pertencendo, e reter o dízimo era por Ele considerado como roubo.
Foi a esse plano para sustento do ministério que Paulo se referiu quando disse:
"Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do
evangelho." I Cor. 9:14. E mais tarde, escrevendo a Timóteo, disse o apóstolo:
"Digno é o obreiro do seu salário." I Tim. 5:18.
A devolução do dízimo era apenas uma parte do plano de Deus para o sustento de
Seu trabalho. Numerosas dádivas e ofertas foram divinamente especificadas. Sob o
sistema judaico, o povo era ensinado a cultivar o espírito de liberalidade, tanto em
sustentar a causa de Deus como em socorrer os necessitados. Para ocasiões
especiais havia ofertas voluntárias. Na colheita e na vindima, as primícias dos
frutos do campo - grãos, vinho e óleo - eram consagrados como oferta ao Senhor.
Os respigos e os cantos do campo eram reservados para o pobre. As primícias da
lã, quando o rebanho era tosquiado, do grão, quando era malhado o trigo, eram
postos de parte para Deus. De igual forma, os primogênitos de todos os animais; e
o preço de resgate era pago pelo filho primogênito. As primícias deviam ser
apresentadas perante o Senhor no santuário, e eram então dedicadas ao uso dos
sacerdotes.
Por este sistema de beneficência, o Senhor procurava ensinar a Israel que em tudo
devia Ele ser o primeiro. Assim era-lhes feito lembrar que Deus era o proprietário
de seus campos, rebanhos de ovelhas e de gado; que era Ele quem enviava o sol e a
chuva para que a seara se desenvolvesse e amadurecesse. Tudo que possuíam era
dEle; eles eram apenas mordomos de Seus bens.
Não é o propósito de Deus que os cristãos, cujos privilégios excedem em muito aos
da nação judaica, dêem menos abundantemente do que deram eles. "A qualquer
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que muito for dado", declarou o Salvador, "muito se lhe pedirá." Luc. 12:48. A
liberalidade requerida dos hebreus era-o em grande parte para beneficiar sua
própria nação; hoje em dia a obra de Deus se estende por toda a Terra. Cristo tinha
colocado nas mãos de Seus seguidores os tesouros do evangelho, e sobre eles
colocou a responsabilidade de dar as alegres novas de salvação ao mundo. Nossas
obrigações são muito maiores, seguramente, do que o foram as do antigo Israel.
À medida que a obra de Deus se amplia, pedidos de auxílio aparecerão mais e mais
freqüentemente. Para que esses pedidos possam ser atendidos, devem os cristãos
acatar a ordem: "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja
mantimento na Minha casa." Mal. 3:10. Se os professos cristãos levassem
fielmente a Deus os seus dízimos e ofertas, o divino tesouro estaria repleto. Não
haveria então ocasião para recorrer a quermesses, rifas ou reuniões de divertimento
a fim de angariar fundos para a manutenção do evangelho.
Os homens são tentados a usar seus bens em benefício próprio, na satisfação do
apetite, no adorno pessoal ou no embelezamento de seus lares. Para estas coisas
muitos membros da igreja não hesitam em despender livremente, e até
extravagantemente. Mas quando solicitados a dar para o tesouro do Senhor, a fim
de que se promova Sua obra na Terra, titubeiam. Talvez, sentindo que não podem
escapar à conjuntura, dão uma importância tão insignificante que não raro gastam
com coisas desnecessárias. Não manifestam nenhum amor real pelo serviço de
Cristo, nenhum fervente interesse na salvação de almas. Não admira que a vida
cristã de tais criaturas seja uma existência atrofiada e enfermiça!
Aquele cujo coração se abrasa com o amor de Cristo considerará não apenas um
dever, mas um prazer, ajudar no avançamento da mais elevada e santa obra
cometida a homens - a obra de apresentar ao mundo as riquezas da bondade,
misericórdia e verdade.
É o espírito de cobiça que leva os homens a guardar para a satisfação do eu, o que
por inteira justiça pertence a Deus, e este espírito é-Lhe tão aborrecível agora como
quando, por intermédio do Seu profeta, severamente repreendeu Seu povo,
dizendo: "Roubará o homem a Deus? Todavia vós Me roubais, e dizeis: Em que Te
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roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas. Com maldição sois amaldiçoados,
porque Me roubais a Mim, vós, toda a nação." Mal. 3:8 e 9.
O espírito de liberalidade é o espírito do Céu. Este espírito encontra sua mais alta
manifestação no sacrifício de Cristo sobre a cruz. Em nosso benefício o Pai deu
Seu único Filho; e Cristo, tendo renunciado a tudo o que possuía, deu-Se a Si
mesmo, para que o homem pudesse ser salvo. A cruz do Calvário deve ser um
apelo à beneficência de cada seguidor de Cristo. O princípio aí ilustrado é dar, dar.
"Aquele que diz que está nEle, também deve andar como Ele andou." I João 2:6.
Por outro lado, o espírito de egoísmo é o espírito de Satanás. O princípio ilustrado
na vida dos mundanos é receber, receber. Assim esperam eles conseguir felicidade
e conforto, mas o fruto do que semeiam é miséria e morte.
Não antes que Deus cesse de abençoar Seus filhos estarão eles livres da obrigação
de Lhe devolver a porção que Ele reclama. Não apenas deverão eles devolver ao
Senhor o que Lhe pertence, mas também levar ao Seu tesouro, como oferta de
gratidão, um donativo liberal. Com o coração jubiloso deve dedicar ao Criador as
primícias de sua generosidade - suas mais bem escolhidas posses, seu melhor e
mais santo serviço. Assim alcançarão ricas bênçãos. Deus mesmo tornará sua alma
como um jardim regado, cujas águas não faltem. E quando a última grande colheita
estiver recolhida, os molhos que são habilitados a trazer ao Mestre serão a
recompensa do uso abnegado dos talentos a eles entregues.
Os mensageiros escolhidos de Deus, empenhados em árduo trabalho, jamais
deveriam ser compelidos a entrar na luta a sua própria custa, sem o compreensivo e
cordial auxílio de seus irmãos. É a parte dos membros da igreja repartir
liberalmente com os que põem de lado seus afazeres seculares para que se possam
dar a si mesmos ao ministério. Quando os ministros de Deus são encorajados, Sua
causa avança grandemente. Quando, porém, por causa do egoísmo dos homens, seu
justo sustento é retido, suas mãos se enfraquecem, e muitas vezes sua utilidade é
seriamente prejudicada.
O desprazer de Deus é despertado contra os que professam ser Seus seguidores, e
no entanto permitem que consagrados obreiros padeçam necessidade, enquanto
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empenhados em ministério ativo. Essas criaturas egoístas serão chamadas a prestar
contas, não apenas pelo abuso do dinheiro do seu Senhor, mas também pela
depressão e angústia que sua conduta fez pesar sobre Seus fiéis servos. Os que são
chamados para a obra do ministério, e ao chamado do dever renunciam a tudo e se
empenham no serviço de Deus, devem receber por seus abnegados esforços
salários suficientes para se manterem e a suas famílias.
Nos diversos departamentos de atividades seculares, mentais e físicas,
trabalhadores fiéis podem ganhar bons salários. Não é a obra de disseminar a
verdade e de levar almas a Cristo de mais importância que qualquer atividade
ordinária? E não são, os que fielmente se empenham nesta obra, com justiça
merecedores de ampla remuneração? Por nossa estimativa do valor relativo de
trabalho para o bem físico e o espiritual, mostramos nossa apreciação do celestial
em contraste com o terreno.
A fim de que haja fundos na tesouraria para a manutenção do ministério, e para
atender aos pedidos de auxílio para empreendimentos missionários, é necessário
que o povo de Deus dê alegre e liberalmente. Solene responsabilidade repousa
sobre os pastores, qual seja a de expor perante as igrejas as necessidades da causa
de Deus e ensiná-las a ser liberais. Quando isto é negligenciado, e as igrejas
deixam de contribuir para as necessidades de outros, não somente a causa do
Senhor sofre, mas é retirada a bênção que deveria vir sobre os crentes.
Mesmo o mais pobre deve levar a Deus a sua oferta. Devem eles ser repartidores
da graça de Cristo, mediante o negarem-se a si mesmos para ajudar aqueles cujas
necessidades são mais prementes que a deles próprios. A dádiva do pobre, fruto da
abnegação, sobe perante Deus como suave incenso. E cada ato de abnegado
sacrifício fortalece o espírito de beneficência no coração do doador, aliando-o mais
intimamente Àquele que era rico, e por amor a nós Se fez pobre, para que por Sua
pobreza enriquecêssemos.
O ato da viúva que deitou na arca duas pequenas moedas - tudo quanto possuía - é
posto em realce para encorajamento dos que, lutando com a pobreza, ainda
desejam com suas dádivas ajudar a causa de Deus. Cristo chamou a atenção dos
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discípulos para esta mulher, que dera "todo o seu sustento". Mar. 12:44. Ele
considerou sua dádiva de maior valor que as grandes ofertas daqueles cujos óbolos
não representavam abnegação. Deram de sua abundância uma pequena porção.
Para dar a sua oferta a viúva se havia privado mesmo dos gêneros de primeira
necessidade, confiando em Deus para o suprimento de suas necessidades para o dia
de amanhã. A respeito dela, declarou o Salvador: "Em verdade vos digo que esta
pobre viúva deitou mais do que todos os que deitaram na arca do tesouro." Mar.
12:43. Assim ensinou Ele que o valor da oferta é estimado, não pela quantidade,
mas pela proporção em que é dada e pelos motivos que animaram o doador.
O apóstolo Paulo, em seu ministério entre as igrejas, foi incansável em seus
esforços para inspirar no coração dos novos conversos o desejo de fazer grandes
coisas pela causa de Deus. Muitas vezes ele os exortava à liberalidade. Falando aos
anciãos de Éfeso sobre suas anteriores atividades entre eles, disse: "Tenho-vos
mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e
recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar
do que receber." Atos 20:35. "E digo isto", escreveu ele aos coríntios, "que o que
semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em
abundância também ceifará. Cada um contribua segundo propôs no seu coração;
não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria." II
Cor. 9:6 e 7.
Quase todos os crentes da Macedônia, eram pobres em bens deste mundo, mas seu
coração estava transbordando com o amor a Deus e Sua verdade, e alegremente
deram para o sustento do evangelho. Quando as coletas gerais foram tiradas entre
as igrejas gentílicas para socorro aos crentes judeus, a liberalidade dos conversos
da Macedônia foi exaltada como um exemplo para as outras igrejas. Escrevendo
aos crentes coríntios, o apóstolo chamou-lhes a atenção para "a graça de Deus dada
às igrejas da Macedônia; como em muita prova de tribulação houve abundância do
seu gozo, e como a sua profunda pobreza abundou em riquezas da sua
generosidade. Porque, segundo o seu poder... e ainda acima do seu poder, deram
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voluntariamente, pedindo-nos com muitos rogos a graça e a comunicação deste
serviço, que se fazia para com os santos". II Cor. 8:1-4.
A voluntariedade em sacrificar da parte dos crentes macedônios era conseqüência
de sua inteira consagração. Movidos pelo Espírito de Deus, "se deram
primeiramente ao Senhor" (II Cor. 8:5), daí estarem dispostos a dar
voluntariamente de seus meios para o sustento do evangelho. Não era necessário
constrangê-los para que dessem; antes se rejubilavam pelo privilégio de negarem a
si mesmos até coisas necessárias a fim de suprir as necessidades de outros. Quando
o apóstolo quis restringi-los, insistiram com ele para que aceitasse suas ofertas. Em
sua simplicidade e integridade, e em seu amor pelos irmãos, renunciaram
alegremente, e assim abundaram no fruto da beneficência.
Quando Paulo enviou Tito a Corinto para fortalecer os crentes ali, instruiu-o a
desenvolver a igreja na graça de dar; e em carta pessoal aos crentes ele acrescentou
também seu próprio apelo. "Como, porém, em tudo, manifestai superabundância,
tanto na fé", apelou ele, "e na palavra como no saber, e em todo cuidado, e em
nosso amor para convosco, assim também abundeis nesta graça. Completai, agora,
a obra começada, para que, assim como revelastes prontidão no querer, assim a
leveis a termo, segundo as vossas posses. Porque, se há boa vontade, será aceita
conforme o que o homem tem e não segundo o que ele não tem." II Cor. 8:7, 11 e
12. "E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo
sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra; ... para que em
tudo enriqueçais para toda a beneficência a qual faz que por nós se dêem graças a
Deus." II Cor. 9:8-11.
Abnegada liberalidade levou a primeira igreja a um sentimento de alegria; pois os
crentes sabiam que seus esforços estavam ajudando a levar o evangelho aos que
jaziam em trevas. Sua beneficência testificava que não haviam recebido a graça de
Deus em vão. Que teria produzido tal liberalidade senão a santificação do Espírito?
Aos olhos de crentes e incrédulos foi um milagre de graça.
A prosperidade espiritual está intimamente ligada à liberalidade cristã. Os
seguidores de Cristo devem regozijar-se pelo privilégio de revelar em sua vida a
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beneficência do seu Redentor. Dando ao Senhor, eles têm a certeza de que seu
tesouro está indo em sua frente para as cortes celestiais. Querem os homens ter
seus bens seguros? Coloquem-nos nas mãos que levam as marcas da crucifixão.
Querem aproveitar seus rendimentos? Usem-nos para abençoar os necessitados e
sofredores. Querem aumentar suas posses? Acatem a injunção divina: "Honra ao
Senhor com a tua fazenda, e com as primícias de toda a tua renda; e se encherão os
teus celeiros abundantemente, e transbordarão de mosto os teus lagares." Prov. 3:9
e 10. Procurem eles reter suas posses com propósitos egoístas, sê-lo-á para sua
eterna perda. Dêem, porém seu tesouro a Deus, e desse momento em diante ele
levará Sua inscrição. Fica selado com a Sua imutabilidade.
Deus declara: "Bem-aventurados vós os que semeais sobre todas as águas." Isa.
32:20. Um contínuo repartir dos dons de Deus onde quer que a causa do Senhor ou
as necessidades da humanidade requeiram nosso auxílio, não leva à pobreza.
"Alguns há que espalham, e ainda se lhes acrescenta mais; e outros que retêm mais
do que é justo, mas é para a sua perda." Prov. 11:24. O semeador multiplica a
semente por deitá-la fora. Assim é com os que são fiéis em distribuir os dons de
Deus. Repartindo, aumentam suas bênçãos. "Dai, e ser-vos-á dado", prometeu
Deus; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso
regaço." Luc. 6:38.
FIM DO CAPÍTULO 32.
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