Clique Aqui Para Baixar o Arquivo

Propaganda
ATUALIDADE DA GEOGRAFIA
Autor: Jean Pires de Azevedo Gonçalves
INTRODUÇÃO
Há algumas décadas, o geógrafo francês Yves Lacoste indagou a que fim servia, afinal,
a geografia. Talvez, numa tentativa de resgatar a dignidade desta ciência, respondeu que
a geografia, em primeiro lugar, está a serviço da guerra, em seu contundente livro de
título homônimo1. Lacoste argumentava que a geografia acadêmica, destinada a formar
professores, era chata, enfadonha, monótona e parecia mesmo completamente inútil;
sendo ainda matéria de verdadeiro terror de estudantes secundaristas, obrigados a
decorar nomes incontáveis de afluentes de tal rio, montanhas, capitais de estados,
províncias etc. etc. etc. Entendia Lacoste que, desde a expansão do nazismo e sua
derrocada, a geografia francesa excluíra a geopolítica de seus temas e ensaiou alçar,
através de uma vertente regionalista de cariz abertamente la blachiano, à condição de
ciência neutra e imparcial, sob a égide do saber pelo saber. Todavia, por clara
negligência epistemológica, a geografia era incapaz de definir claramente seus
pressupostos científicos, limitando-se a enumerações intermináveis de fenômenos
físicos e demográficos, tendo, inclusive, sua reputação de ciência severamente
questionada por cientistas de outras áreas do conhecimento. Para Lacoste, a aversão
causada por esta geografia acadêmica mistificava o verdadeiro conteúdo da geografia
(tradicional), mais antiga e denominada, por ele, de geografia fundamental. Conforme
sentenciou o geógrafo francês, este conteúdo, tácita ou ostensivamente ignorado, é o de
saber agir espacialmente, através da leitura de cartas, mapas e escalas, e, por
conseguinte, elaborar táticas e estratégias, visando obviamente objetivos de ordem
política. Em consonância ao movimento de renovação da geografia, o livro de Lacoste
foi seminal e desencadeou um fecundo movimento crítico, interno à geografia brasileira,
que, ao que parece, pode ter chegado ao fim2.
1
LACOSTE, Y., “A geografia : isso serve, em primeiro lugar para fazer a guerra”,
Campinas: Papirus, 2005.
2
David Harvey (1980) explica a crise na geografia como uma insuficiência do paradigma neopositivista.
Já Antônio Carlos Robert Moraes, em seu “Geografia: pequena história crítica” (2005), atribui ao referido
livro de Yves Lacoste como desencadeador, pelo menos no Brasil, da Geografia Crítica.
Quase 40 anos depois, a pergunta sugerida no livro continua atual, porém, sua
resposta – “a geografia serve para fazer a guerra” –, equivocada. Os anos passaram
revelando que o geógrafo não é assim tão imprescindível aos assuntos de Estado quanto
pensava Lacoste (vide o mercado de trabalho, a geografia, no geral, continua formando
professores). E isso é ainda mais constatável quando, em tempos de GPS, Internet,
Google Earth, Googe Map etc., a técnica substitui o trabalho do geógrafo – outro tema
antigo na geografia.
Feitas estas considerações iniciais, talvez aqui seja o momento apropriado para
relatar um episódio que teve palco na Universidade de São Paulo, do qual presenciamos,
e que parece vir de encontro ao que foi descrito acima. Numa destas ocasiões de defesa
de tese de doutoramento, um dos avaliadores da banca julgadora, um arquiteto, chamou
a atenção, no texto examinado, para o conceito de “inércia geográfica”, e exclamou, em
tom jocoso, se não era a própria geografia que vivia uma inércia geográfica, depois de
tanto barulho nos anos 80. Pois bem, passado a efervescência da Geografia Crítica, a
geografia não teria retomado seu sono profundo de cem anos de bela adormecida à
espera (em vão?) de um príncipe encantado?
Sono que se manifesta na necessidade quase obsessiva da geografia em se
reafirmar como uma ciência. De fato, é bastante comum encontrar estudantes de
geografia ou mesmo geógrafos justificarem a importância da geografia frente às outras
ciências. Situação por vezes muito embaraçosa, quase como um pedido desculpa, uma
licença para existir. Esta necessidade, à qual poderíamos chamar de vontade de ciência,
entretanto, perpassa por toda a história da geografia moderna. Para isso, a geografia fez
apologia de uma suposta unidade metodológica, tão delirante quanto infundada, dada a
sua própria constituição heterogênea. A propósito, a definição de seu objeto – a
superfície da terra – impossibilitava qualquer coesão de método ou delimitação de um
saber especializado, gerando inevitáveis dualismos: geografia humana ou geografia
física; determinismo ou possibilismo; geografia geral ou geografia regional etc.
CIÊNCIA E GEOGRAFIA
Dentre estes dualismos, a geografia titubeia em fixar seu nascimento, ora remontando,
temerariamente, à Antiguidade (por vezes, até à pré-história!); ora, na esteira das
ciências, à Modernidade. Não é difícil perceber os graves problemas teóricos que daí
decorre. Quanto à primeira tese, inventa-se uma tradição de pensamento independente
da realidade histórica correspondente. Chamaremos a esta geografia difusa de prémoderna. Quanto à segunda, na qual se poderia identificar uma ciência geográfica,
perde-se na indefinição acerca da jurisdição de um objeto de estudo. De acordo com
Richard Hartshorne:
A limitação formal do campo da Geografia à crosta externa é de origem relativamente
recente. Enquanto não existiu uma separação geralmente reconhecida entre Astronomia e a
Geografia, perdurou até o século XVIII quando uma e outra eram incluídas na denominação
de “Cosmografia” – não se procurou estabelecer uma precisa delimitação entre as duas
disciplinas. Presume-se que o último erudito de alta categoria que as considerou como parte
de uma só matéria foi Alexandre Von Humboldt. (HARTSHORNE, 1969).
No contexto renascentista, a cosmografia moderna herdou da tradição do
pensamento antigo suas aspirações enciclopedistas. Além de não distinguir, como
afirma Hartshorne, a astronomia da geografia, tampouco diferia da astrologia, que, aliás,
separou-se da astronomia somente no século XVII. Por isso, não devia ser estranho a
um cosmógrafo, como de fato não o era, consultar o horóscopo em suas previsões;
serviço que foi constantemente solicitado por reis, rainhas e demais elementos da
nobreza. Porém, as semelhanças param aí, pois a cosmografia moderna atendia aos
interesses econômicos do Estado absolutista, artífice da expansão do capital comercial.
De fato, a cosmografia foi largamente utilizada durante o período das grandes
navegações e o cargo de cosmógrafo real foi imprescindível na aventura colonialista.
Sob este contexto, quando, no século XVIII, as viagens e as expedições científicas
procediam à catalogação minuciosa de um “mundo exótico” ultramarino, apenas
preparavam o terreno para – nos dizeres de Max Weber – a autonomização das esferas
de valor ou o desencantamento do mundo. Mas até os séculos XVI e XVII, os bestiários
e herbários, dos primeiros naturalistas, apesar de ricamente ilustrados, eram pouco
confiáveis, sendo antes uma mistura de mito, folclore e realidade, com suas histórias
fantásticas de seres bizarros e imaginários. Estes aspectos desconcertantes do ponto de
vista científico, no entanto, raramente são mencionados quando se presta tributo ao
passado da geografia pré-moderna. Seja como for, os esforços notáveis de uma dinastia
como a ptolomaica em reunir numa só biblioteca todos os livros do mundo, a célebre
Biblioteca de Alexandria – ou o sonho borgiano da “Biblioteca de Babel”! –, ou a
pretensão de reescrever o grande “livro aberto da natureza”, por uma única ciência,
denotam um profundo desacordo aos rumos da ciência moderna. A ciência tal como a
conhecemos não é uma continuidade da tradição do pensamento humanista mas, uma
ruptura, e data historicamente do século XVII, com a denominada “revolução
galileana”.
Depois de Galileu Galilei, o universo ptolomaico (geocêntrica) – uma pilastra da
geografia pré-moderna – dá lugar definitivamente ao heliocentrismo copernicano, e a
nova visão de mundo suscitada é ao mesmo tempo um reflexo de mudanças estruturais
que operam em toda sociedade ocidental. Realmente, a concepção teleológica de
Aristóteles, baseada na observação, na classificação e na lógica não constitui por si só o
método científico, caracterizado antes pela experimentação. A metodologia científica
demanda objetividade, por meio de experiências controladas, verificáveis e passíveis de
serem reproduzidas, buscando-se assim descobrir regularidades subjacentes aos
fenômenos aparentemente caóticos da natureza3 e, se possível, estabelecer leis naturais.
Obviamente, esta revolução, no nível simbólico, estava em consonância aos anseios da
burguesia emergente. De fato, a exigência de se demonstrar a verdade de uma
proposição, tal qual à maneira dos geômetras, associada ao uso objetivo da técnica
(instrumentos), confrontava-se diretamente com o saber escolástico que legitimava a
ordem feudal e o direito divino dos reis. Desde a Idade Média, porém, a classe dos
comerciantes, onerada pelos encargos locais e, ao mesmo tempo, à medida que ganhava
força, passou a reivindicar leis gerais e tratados internacionais que garantissem a
segurança do comércio, bem como a unificação de moedas e a padronização rigorosa de
pesos e medidas (no que se refere à cunhagem e pureza das moedas em circulação).
Deste modo, a ênfase social nas relações práticas e quantitativas (racionalismo) se
ajustava à nova mentalidade ao refletir as transformações radicais protagonizadas pela
classe burguesa em sua ascensão ao posto de classe dominante. O conhecimento deveria
então se adequar a uma divisão de trabalho cada vez mais especializada e, daí,
fragmentar-se.
AS CIÊNCIAS HUMANAS E A ANTROPOGEOGRAFIA
3
Longe disso: sem essa linguagem, a maior parte das analogias íntimas das coisas permaneceriam para
sempre fora do nosso conhecimento; e teríamos sempre ignorado a harmonia interna do mundo, que é,
como veremos, a única verdadeira realidade objetiva. A melhor expressão dessa harmonia é a lei.
(POINCARÉ, 1995, p. 8).
Com a emergência da sociedade industrial e as relações conflituosas nascidas do
seio da divisão do trabalho, às humanidades, no século XIX, ser-lhes-á concedido o
direito de ciência, não livre de desconfianças e dificuldades, inclusive de ordem moral,
como, por exemplo, o da questão de se realizar o método experimental em seres
humanos. O positivismo, de Auguste Comte, que propriamente não elaborou nenhuma
filosofia nova senão um comentário apologético das ciências, surge como uma doutrina
de amplo alcance ao conceber a noção de que o conhecimento positivo devia abranger
desde a forma mais simples de ciência (matemática) até a mais complexa (sociologia).
Apesar da posição privilegiada que ocupa a sociologia no sistema comteano, esta é
compreendida, entretanto, como uma Física Social, à maneira da mecânica, e
determinada por leis estáticas (ordem) e dinâmicas (progresso). Friedrich Ratzel, com
sua Antropogeografia (geografia humana), introduz a geografia nas ciências humanas
através das portas deixadas abertas pelo positivismo e à revelia desta doutrina, cujo
estudo do espaço social estava incumbido também à sociologia. (Ver a esse respeito a
polêmica entre a morfologia social de Durkheim e Mauss e a geografia, em Lucien
Febvre). Em todo caso, Ratzel vai conciliar o naturalismo positivista à tradição
romântica e historicista e fundar a geografia humana sobre os alicerces do conceito de
território.
As ciências humanas ainda seriam obrigadas a muitas concessões às ciências
naturais (exatas e biológicas), sempre sujeitas a recaídas. Foi, no entanto, a geográfica
que arcou com o ônus mais penoso. Caberia à geografia a difícil tarefa de amalgamar,
no processo da divisão do trabalho científico, naturalismo e humanismo. Ironicamente,
a adesão da geografia ao positivismo (e num grau mais elevado, às ciências em geral)
significava a perda de sua vocação de ciência holística e inaugurava seu campo
epistêmico numa zona imprecisa e recusada pelo modus operandi da própria ciência. Ou
seja, o dilaceramento provocado por tal comprometimento engendrou uma
epistemologia esquizofrênica, sintomaticamente alternada por surtos de mania de
grandeza (“síndrome de Napoleão”) e por um irremediável complexo de inferioridade, e
foi mesmo um verdadeiro tiro pela culatra para a geografia. Todavia, somente a
geografia humana poderia aduzir a tão sonhada unidade metodológica. Surgem enfim os
“paradigmas” da geografia.
A TEORIA DO PARADIGMA CIENTÍFICO NA GEOGRAFIA
A noção de paradigma se vulgarizou tanto que a imprecisão surgida de seu abuso
desautoriza justamente seu uso sem algumas considerações relativas. O termo
paradigma foi tomado de empréstimo da linguística e popularizado por Thomas S. Kuhn
(1982), em seu influente livro As estruturas das revoluções científicas. Neste livro,
Kuhn abre mão do conceito tal como foi proposto pelos linguistas, mas aceita, por
analogia, e aplica à história da ciência, a noção de padronização (de teorias científicas)
que admite certa flexibilidade desde que não se altere seu “núcleo duro” (radical). Estes
paradigmas teóricos são adotados pela comunidade científica majoritária e representam
a vitória de uma teoria sobre as demais concorrentes. Por isso, a teoria dos paradigmas
científicos rejeita a ideia de evolução linear e gradativa na história da ciência. Na
verdade, Kuhn afirma que o progresso científico transcorreu marcado por rupturas e
descontinuidades radicais, as chamadas revoluções científicas. (“Revolução” tem aqui o
mesmo
sentido
que
comumente
recebe
nas
ciências
políticas).
Assim,
o
desenvolvimento da ciência poderia ser descrito da seguinte maneira: Durante uma
etapa inicial, pré-paradigmática, muitas teorias competem entre si para responder
satisfatoriamente a um tipo de problema. A teoria vencedora, isto é, aquela que obtém
temporariamente mais sucesso em suas explicações, tornar-se-á um paradigma científico
(padrão de pesquisa) – o que não significa precisão, que, conforme argumenta Kuhn,
nunca poderá ser alcançada. A partir daí, o paradigma aceito orientará a comunidade
científica, através de um conjunto de suposições, regras e método previamente
estipulados, na resolução de problemas típicos da assim chamada “ciência normal”.
Neste sentido, a praxe científica é extremamente conservadora, chegando mesmo a
desestimular iniciativas que visam a descoberta e, conforme assevera Kuhn, os
cientistas sequer têm consciência de todas as regras pressupostas num paradigma
quando realizam a sua pesquisa, pois foram inculcados a realizar cegamente operações
reprodutoras nos anos de sua formação acadêmica. Contudo, durante a pesquisa,
anomalias aparecem em decorrência dos limites do paradigma e são postas de lado
como “dados” e, por fim, descartadas. Acontece que alguns cientistas concentram seus
estudos nestas anomalias, porém, suas pesquisas são completamente ignoradas ou
simplesmente interditadas por não seguirem a ortodoxia ditada pelo paradigma
admitido. Isso pode levar muito tempo, até que o paradigma entra em crise por não dar
conta do conjunto crescente de anomalias que nascem da própria pesquisa. Então,
novamente muitas teorias entram em jogo para resolver novos problemas, sendo que
uma sairá vencedora e aceita pela comunidade científica.
Embora Kuhn, para comprovar sua tese, ilustre com muitos exemplos o seu
livro, entendemos que a noção de paradigma seria melhor empregada se se referisse a
grandes teorias ou visões cosmológicas, como no caso da mecânica newtoniana, do
espaço-tempo de Einstein ou da evolução das espécies de Darwin. As diversas correntes
teóricas que perfariam uma ciência constituiriam antes subparadigmas de um
paradigma. Em todo caso, Kuhn estende o processo acima descrito a todas as ciências,
sejam elas as humanas, exatas ou biológicas. O que propomos agora é pensar a teoria
dos paradigmas na geografia, e, mesmo conscientes dos riscos, afirmaremos que na
história da geografia moderna subsistem apenas dois paradigmas e não mais que isso.
RATZEL E VIDAL DE LA BLACHE
Duas grandes concepções teóricas disputaram a hegemonia do saber geográfico no
âmbito da ciência no fim do século XIX e início do XX, porém elas não estavam isentas
de um projeto político cujas práticas buscavam legitimar por meio da razão científica.
Curiosamente, a teoria vencedora, que se elevou à condição de paradigma, representou
justamente o projeto nacional perdedor; no entanto, militava em defesa do modelo
econômico vigente.
Vimos que o ingresso da geografia ao rol das ciências humanas se deu através de
Ratzel. Este geógrafo estava empenhado, como todos os de sua geração na Alemanha,
na consolidação do Estado nacional alemão, recém-unificado. Na segunda metade do
século XIX, a Alemanha, após a guerra franco-prussiana, emerge rapidamente como
potência no cenário político europeu. Sua modernização foi promovida verticalmente,
isto é, protagonizada por um Estado forte e centralizado, nos dizeres de Lênin, pela “via
prussiana” de desenvolvimento capitalista. Tal progresso esteve intimamente associado
a um caráter ostensivamente beligerante e a uma indústria de alta tecnologia. Diante dos
dilemas do capitalismo monopolista, como a abertura de novos mercados, para
solucionar o problema da crise de superprodução iminente, e, ao mesmo tempo, da
busca de novas fontes de matéria-prima, o Segundo Reich, entretanto, saiu em larga
desvantagem na partilha neocolonial. Para consumar suas aspirações imperialistas, o
Estado alemão não rompeu com o modelo prussiano de economia política baseado no
mercantilismo (cameralismo); pois o protecionismo apregoado por esta doutrina
assegurava o desenvolvimento interno por que passavam algumas nações e que se
chocava frontalmente como livre-comércio promovido pelo Império Britânico. Não é à
toa, então, que práticas mercantilistas4 encontraram força nas obras de um Johann G.
Fichte ou de um Friedrich List5, mas, principalmente, na influente “Escola Histórica de
Economia”. Aliás, o prestígio da escola historicista e de autores como List
ultrapassaram em muito as fronteiras germânicas e encontraram solo fértil num país
como os EUA, que, assim como a Alemanha, rivalizava com a Inglaterra e perseguia
sua própria “vocação” expansionista no continente americano (lembrando a viajem de
Ratzel pelos Estados Unidos, não é de se admirar que o determinismo geográfico
floresceu em geógrafos estadunidenses, como Ellen C. Semple). Ora, as bases pelas
quais a riqueza de uma nação situa-se no espaço geográfico, na forma de matéria-prima
ou recursos naturais, remontam, em essência, sem dúvida nenhuma, ao “metalismo”,
para o qual o crescimento econômico advinha da acumulação de metais preciosos, como
o ouro e a prata. É neste ambiente político e intelectual que Ratzel desenvolve a sua
geografia humana, inaugurando a geografia política. Sua tese, aliás, é bastante original.
Parte do princípio, contrariando as premissas liberais, de que quanto maior o grau de
civilização de um povo, maior será sua dependência à natureza, pois suas relações se
diversificam. Daí a importância que Ratzel concede ao solo, enquanto fonte de valor. O
solo, como base da riqueza, filia-o também à escola fisiocrata de economia (excluída a
máxima do laissez faire). Por isso, Ratzel retoma a tese malthusiana, segundo a qual a
densidade demográfica está na ordem inversa do crescimento agrícola6. O crescimento
populacional impele um Estado à busca de recursos naturais, ampliando e anexando
territórios. A terra é o espólio na luta entre nações, e medida de poderio político. Para
Ratzel, o Estado é um organismo que para subsistir precisa de seu espaço vital
(território). Enfim, as concepções geográficas ratzelianas realmente se ajustavam às
4
Um exemplo: a relação da indústria, do mundo da riqueza em geral, com o mundo político é um dos
problemas fundamentais da era moderna. Sob que forma começa este problema a preocupar os alemães?
Sob a forma de tarifas protecionistas, do sistema de proibição, da economia política. (...) Na Alemanha,
portanto, começa-se agora a reconhecer a soberania do monopólio no interior do país, por meio da qual se
confere ao monopólio a soberania exterior. Por conseguinte, na Alemanha começa-se agora, com aquilo
que já terminou na França e Inglaterra. (MARX, 2013, p. 155).
5
Na Alemanha, nos escritos de Fichte e sobretudo nos de F. List,privilegia-se a economia nacional e, em
consequência, avalia-se o protecionismo econômico sob uma luz mais favorável. Algumas décadas mais
tarde, ainda na Alemanha, vários integrantes da chamada "escola histórica", com Schmoller em primeiro
lugar, analisam o mercantilismo como tendo sido uma política econômica racional perfeitamente ajustada
às necessidades de construção e fortalecimento dos Estados modernos, promovendo a unificação interna e
assegurando o seu poder no confronto internacional. (FALCON, 1994, pp. 14 e 15).
6
Quando a população atinge densidade considerável, o território consegue prover apenas às necessidades
de uma pequena parte desta, enquanto a maior parte deve recorrer, para obter o alimento ou o vestuário a
território estrangeiro, frequentemente situado a grandes distâncias. (...) para isso intervém o comércio.
Mas a proteção destas comunicações cabe ainda ao Estado; a expansão política e semipolítica que se
obtém através de colônias, leis alfandegárias, tratados de comércio, visa frequentemente este objetivo.
(RATZEL, 1990, p. 79).
peculiaridades do capitalismo alemão, que aliava, lado a lado, uma burguesia
ultraconservadora e a classe latifundiária dos “junkers”. Compôs também, mais tarde, o
repertório eclético da ideologia nazista e, quando do término das catástrofes das duas
grandes guerras, sua geopolítica estava definitivamente banida da geografia.
Ao fim da II Guerra Mundial, a França saiu-se vitoriosa, porém, sua
participação, de fato, não foi mais do que a de coadjuvante no conflito. Sua indústria, às
vésperas da mencionada guerra franco-prussiana, era incipiente e, após a derrota para os
alemães, a França não desempenhou senão que um papel menor no cenário europeu,
muito distante dos tempos gloriosos de um Rei Sol ou mesmo um Napoleão. A
geografia francesa nasce no contexto de reconstrução do país, sem, no entanto, avançar
muito além dos limites do liberalismo inglês. Seu grande nome foi Paul Vidal de la
Blache que, em termos epistemológicos, não rompeu com a filosofia positivista, na
medida em que imobilizava descrições minuciosas das regiões francesas como se
fossem quadros de um saber acabado e, aparentemente, sua geografia não se opôs
deliberadamente à de Ratzel, apesar das severas ressalvas. Daí o lugar que ocupa, em
sua obra, a circulação, difusão e distribuição da espécie humana sobre a terra,
compreendida teoricamente, à maneira ratzeliana, como um desenvolvimento analítico
derivado dos estudos já bastantes maduros da botânica e a zoogeografia. Porém, Vidal,
historiador de formação, confere grande importância ao fator social nos estudos
geográficos. Diante das intempéries da natureza, a sociedade humana produz
instrumentos que tendem a suprir suas fragilidades, ou seja, o ser humano trabalha a
matéria natural em proveito próprio, transformando a natureza, através de um processo
adaptativo, que abarca desde hábitos alimentares específicos à construção de habitações
etc. Ao adaptar-se a condições variadas no planeta, cada sociedade produz uma
realidade diversificada etnograficamente, da qual se debruça a análise da geografia,
identificando-se daí um determinado de gênero de vida.
O homem cinzela e amolda a matéria bruta; comunica à pedra e aos metais as formas
plásticas que lhe convêm; mas relativamente às espécies vivas, sobretudo quando se trata
das plantas anuais mais sensíveis e mais submetidas ao cuidado vigilante, ele faz mais.
Cada momento da evolução daquelas oferece-lhe a oportunidade de intervir; e daí,
penetrando, por assim dizer, na intimidade do seu ser, identificando-se com elas, consegue
modificar numa certa medida as operações sucessivas dos seus ciclos de existência. (LA
BLACHE, 1954, p. 213).
O conceito vidalino fundamental para descrever a relação entre sociedade e
natureza é o de humanização do mundo. A atividade humana consiste em produzir um
ambiente favorável a sua existência. “Obedecendo aos seus impulsos e aos gostos
próprios, humanizou, para seu uso, a natureza ambiente; e assim vemos, em graus
diversos, uma série de desenvolvimentos originais” (idem, p.276). Pode se dizer que
esta dinâmica simbiótica intensifica-se conforme o grau de civilização de uma
comunidade ou nação, produzindo mudanças significativas na paisagem, produzindo
uma paisagem humana (cultural):
Assim, pelo princípio de combinações, tanto o arranjo como a composição das paisagens
foram modificadas. O homem reuniu à volta das suas habitações um conjunto compósito de
arvores e plantas, enquanto, longe da periferia habitada, dispunha de espaço para suas
culturas. (Idem, p. 254).
A capacidade humana de transformar a forma da matéria para seu uso só é
possível pelo trabalho. “Em suma, realizou-se trabalho que representa outros tantos
ensaios independentes para resolver em comunidade o problema da existência sob a
pressão das influências geográficas” (idem, p. 175). Concluindo: “Os instrumentos que
o homem colocou no trabalho, a serviço de sua concepção de existência, derivam de
intenções e de esforços coordenados, em vista de um gênero de vida” (idem, p. 200).
DETERMINISMO X POSSIBILISMO
Foi preciso um historiador fascinado pelo humanismo do sáculo XVI para perceber a
diferença crucial que estava por trás da geografia de Ratzel e la Blache. Sem dúvida, foi
Lucien Febvre quem revelou o conteúdo implícito e fundamental que divide o cerne da
geografia moderna ao consagrar os termos determinismo e possibilismo. Todavia, é
ponto pacífico entre os geógrafos de que esta distinção tende a ser bastante redutora e
não expressa as especificidades das obras destes dois fundadores da geografia humana.
Não obstante, o antagonismo que diferencia os programas dos quais as duas geografias
estão engajadas, como se mostrou acima, não só autoriza como justifica a demarcação
de duas escolas no pensamento geográfico. Numa passagem exemplar de seu livro “La
terre et l’évolutiuon humaine”, Febvre, ao descrever uma típica paisagem do
mediterrâneo na Toscana, com suas “oliveiras, videiras e amoreiras”, desmistifica sua
suposta “naturalidade” demonstrando como na verdade ela foi historicamente
produzida, em meados do século XIII, para atender fins comerciais. “En réalité le
paysage toscan est une creation humaine” (FEVBRE, 1979, p. 286 – desculpem-nos o
francês). De fato, este historiador francês tem plena clareza, aos moldes iluministas e
liberais, de que a noção de gênero de vida7 pressupõe a condição geográfica enquanto
condição de liberdade e desenvolvimento humano. Por isso, rejeita qualquer
determinismo natural, como, por exemplo, a antiga asserção das condições climáticas
influindo no caráter dos indivíduos, das raças, dos povos, das culturas, das nações etc.
Necessidades, em parte alguma; possibilidades, em tudo. O homem e não a terra, nem as
influências do clima nem as condições determinadas dos lugares. (...) Temos dito e
demonstrado. Tais concepções são ainda mais arbitrárias do que quando falamos em
condicionamentos de grandes sociedades humanas pelas condições naturais, cuja análise
geográfica tem nos revelado hoje em dia, face à realidade, tratar-se antes de transformação
dos homens pelo trabalho humano. (Idem, p. 285, grifo nosso)8.
Esta passagem é fundamental e permite algumas reflexões teóricas que
extrapolam à temática estritamente geográfica, pois o possibilismo inaugura, pela
primeira vez na geografia, a noção de sujeito moderno. A esse respeito, Karl Marx vai
escrever:
A essência subjetiva da propriedade, a propriedade privada enquanto atividade sendo para
si, enquanto sujeito, enquanto pessoa, é o trabalho. (...) a essa economia nacional que
descobriu a essência subjetiva da riqueza – no interior da propriedade privada – os
partidários do sistema monetário e do sistema mercantilista, que sabem a propriedade
privada enquanto uma essência somente objetiva para o homem. (MARX, p. 99).
7
Aliás, a noção de “gênero de vida” foi formulada por Rousseau: “Tudo começa a mudar de face. Os
homens, até então errantes nos bosques, tendo adquirido uma situação mais fixa, aproximam-se
lentamente, reúnem-se em diversos grupos e formam, enfim, em cada região uma nação particular, unida
pelos costumes e pelos caracteres, não por regulamentos e por leis, mas pelo mesmo gênero de vida e de
alimentos e pela influência do clima” (J.-J. Rousseau, em A origem da desigualdade entre os
homens). “Tout commence à changer de face. Les hommes errants jusqu'ici dans les bois, ayant pris une
assiette plus fixe, se rapprochent lentement, se réunissent en diverses troupes, et forment enfin dans
chaque contrée une nation particulière, unie de mœurs et de caractères, non par des règlements et des lois,
mais par le même genre de vie et d'aliments, et par l'influence commune du climat” (texto original).
8
Optamos por traduzir, apesar das dificuldades, a citação visando obter maior acessibilidade ao texto. No
original: “Des nécessités, nulle part. Des possibilités, partout. L’homme et non plus la terre, ni les
influences du climat ni les conditions déterminates des lieux. (...) Nous l’avons dit et montré. De telles
conceptions sont d’autant plus arbitraires que, lorsque nous parlons du modelage de vastes societés
humaines par les conditions naturelles que l’analyse géographique nous révèle aujourd’hui, nous traitons
en réalité, nous devrions traiter du modelage des hommes par le travail humain” (Idem, p. 285).
Neste sentido, retomando o que se procurou defender até aqui, é possível
estabelecer dois grandes paradigmas na geografia: o paradigma do espaço (político) e o
paradigma da paisagem (trabalho).
MÉTODO E CRISE NO PARADIGMA DE GEOGRAFIA
O triunfo do possibilismo, na esteira da vitória dos Aliados, significava, por outro lado,
e em um domínio mais amplo, a derrota da própria geografia. Assim, os compêndios e
as monografias regionais, que, outrora, tanto serviram para o reconhecimento de
características físicas e folclóricas (etnográficas) de um país e que, de certa forma,
inspiravam sentimentos ufanistas, perdiam todo o sentido no interior do ideal de ciência
neutra. Em que pese as diferenças paradigmáticas expostas acima, a definição de um
método sempre foi muito problemática na ciência geografia. Simplesmente, a
inviabilidade de pensar a superfície da terra enquanto um “objeto” científico é patente,
dada sua extensão e ilimitada complexidade, não configurando assim proposta realista,
pois, além do mais, caminha em sentido oposto ao conhecimento que tende a se
fragmentar em especializações. Por isso, a geografia ora se afirmou como ciência
auxiliar; ora, como ciência de síntese.
Diante de um objeto tão intangível, Pierre George descreve a metodologia em
geografia como ciência que mobiliza os resultados de um grande número de outras
ciências associadas em um dado conjunto espacial e conjuntural (GEORGE, 1972).
Deste modo, o trabalho de campo constitui quesito indispensável ao expediente do
geógrafo, muito mais relevante, inclusive, do que a consistência teórica concernente à
identidade científica da geografia.
O documento geográfico é o resultado final da evolução de fatores que são os documentos
ou objetos dos estudos de outras ciências. O geógrafo aplica métodos por ele elaborado
durante a observação do visível e utiliza outros setores de pesquisa para analisar o invisível
e reassume sua própria condição de geógrafo para construir uma imagem global do espaço
feita de visível e invisível. (...) O visível por excelência é a paisagem, reconhecida como
objeto essencial da curiosidade e do estudo geográfico. A paisagem é uma resultante de
legados ou de forças atuais ou do passado as quais, em si mesmas, fogem do domínio do
visível: são elas tantos as longas sequências de acontecimentos geológicos ou históricos,
como os fluxos de capitais ou as redes de comando e de decisões ligadas às estruturas. (...)
Entretanto, a paisagem só poderá ser qualificada e classificada numa tipologia geográfica se
forem levados em conta todos os elementos invisíveis que lhe conferem sentido. (...)
Estamos, por conseguinte, diante de dois temas: a mobilização dos documentos de natureza
geográfica acessíveis à observação, e a utilização de documentos não geográficos para fins
geográficos, visando à construção de imagens geográficas. (Idem, p. 22).
Ou seja, caberia ao geógrafo sair a campo, recolher exaustivamente inúmeros
elementos no terreno, delegá-los ao tratamento de outras ciências, para depois
representá-los cartograficamente. É por isso que Nelson Werneck Sodré pôde escrever
acertadamente:
Cedo se verificou que, ao geógrafo, cabia conhecer a vegetação, sem ser botânico; o clima,
sem ser meteorologista; as camadas terrestres, sem ser geólogo; os fenômenos físicos, sem
ser físico; os químicos, sem ser químico. A isso se acrescentou a necessidade de conhecer
História, sem ser historiador; Antropologia, pelo menos a cultural, sem ser antropólogo; e
Sociologia, sem ser sociólogo, – uma vez era indispensável situar a o homem na paisagem e
distinguir, ao longo do tempo, como se modificavam as suas relações com a natureza.
(WERNECK, 1982, p. 8). [Atualmente acrescentemos também: filosofar, sem ser filósofo].
Curiosamente, a geografia fragilizou-se onde mais buscava auferir forças: na
autoproclamação de sua cientificidade. Em meio à incapacidade de se consolidar como
ciência e obter reconhecimento de outras disciplinas, a geografia foi incapaz de
questionar seus próprios fundamentos e a crise foi inevitável O sentido exato desta crise
foi descrito em justa medida por Amélia Damiani na seguinte citação:
O que a geografia, neste final do século XIX, na França especialmente, busca é encontrar a
identidade da humanidade do homem, produzida na relação homem-natureza. O que a
devastação dessa economia acumulativa capitalista nos assegura tentar decifrar, hoje, é um
enorme processo de desumanização. (DAMIANI, 2005, p. 60).
Enfim, o possibilismo nada mais fez que substituir o determinismo natural pelo
determinismo econômico. Antes de ser um problema metodológico ou do objeto, a crise
da geografia se manifestava nestes termos expressos na citação acima, mas a tentativa
de salvá-la não poderia ser mais catastrófica, pois não rompeu com o conteúdo inumano
da dialética do iluminismo.
ESPAÇO: OBJETO DA GEOGRAFIA?
A crítica à geografia tradicional impôs a tarefa imperiosa da renovação da geografia,
principalmente, quanto àquilo que dizia respeito às suas deficiências, ou seja, coerência
e unidade epistêmica, mas, acima de tudo, enquadramento ideológico. Exigiu-se, em
primeiro lugar, a definição, nos moldes positivistas, de um objeto de estudo “palpável”
que desse consistência a um sistema categorial próprio da geografia e que, ao mesmo
tempo, lhe imputasse credibilidade científica. O modelo exemplar deveria provir,
obviamente, das ciências exatas, isto é, da tradição racionalista, por meio de uma
versão asséptica, neutra, imparcial do espaço (econômico). Sendo assim, a concepção
de um espaço abstrato deveria encarnar a noção de sistema e totalidade. O que
significava metodologicamente partir de um primeiro postulado ou de uma unidade
arquetípica (no caso, o espaço), pelo qual, em tese, já deveria conter em si tudo (pois é
totalidade), e daí deduzir toda a realidade sem inferir mais nada além, para finalmente
voltar ao ponto de partida ideal (o espaço). Neste sentido idealista, toda a realidade
concreta é subsumida a um conjunto de variáveis de um sistema pretensamente
operacional e isento de interesses particulares. Não obstante, o espaço assim concebido
atendia a fins políticos e de planejamento subordinados sempre à lógica econômica. Sua
neutralidade é uma falácia.
Mais uma vez teria a geografia de se ajoelhar aos pés das ciências exatas! Pois,
a concepção de sistema circular e fechado, compreendido como processo de autoregulação, que tende ao equilíbrio, ao fazer analogia da máquina ao organismo, entrou
em voga na primeira metade do século XX, com uma arquitetura de ambições utópicas e
alguns ramos das ciências biológicas e da matemática9. A teoria geral dos sistemas
(TGS), a cibernética e a teoria dos sistemas complexos (ou teoria do caos) são quase
ciências trigêmeas e, longe de representarem um rompimento com a ciência tradicional,
fincam suas raízes num terreno extremamente conservador, porque perseguem padrões e
regularidades subjacentes não somente aos fenômenos caóticos da natureza mas também
aos da sociedade, advogando um fundamento comum para todas as ciências (humanas,
biológicas e exatas).
9
O modernismo assumiu no período entre-guerras uma forte tendência positivista e, graças aos intensos
esforços do Círculo de Viena, estabeleceu um novo estilo de filosofia que viria a ter posição central no
pensamento pós-Segunda Guerra. O positivismo lógico era tão compatível com as práticas da arquitetura
modernista quanto com o avanço de todas as formas de ciência como avatares do controle técnicos. Foi
esse o período em que as casa e as cidades puderam ser livremente concebidas como “máquinas de
viver”. (HARVEY, 1994, p. 39).
Aliás, é difícil traçar uma fronteira precisa entre a TGS e a cibernética, porém, o
conceito que as une é o de entropia negativa – isto é, sistema de conversão de energia
dissipada em trabalho. De fato, com o desenvolvimento tecnológico, não demorou
muito para que alguns pesquisadores traçassem uma correspondência de certos tipos de
mecanismos “inteligentes”, como o termostato, a seres vivos. No livro de divulgação da
teoria que desenvolveu – “Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos”
(primeira edição de 1950) –, o matemático do M.T.I Norbert Wierner procurou em
linhas gerais descrever suas teses:
A tese deste livro é a de que a sociedade só pode ser compreendida através de um estudo de
mensagens e das facilidades de comunicação de que disponha; e de que, no futuro
desenvolvimento dessas mensagens e facilidades de comunicação, as mensagens entre o
homem e as máquinas, entre as máquinas e o homem, e entre a máquina e a máquina, estão
destinadas a desempenhar papel cada vez mais importante. (WIERNER, 1968, p.16).
De acordo com a cibernética, máquinas complexas ou autômatos não seriam
apenas análogos a organismos, mas também a sociedade, aos quais estariam sujeitos às
mesmas leis matemáticas. Tais leis estipulam que sistemas regulatórios, capazes de
organizar coisas e gerar informação, podem apresentar um ou mais circuitos de
comutação, o que possibilita troca de “mensagens”, tendo em vista à ordenação de um
meio que tende à desordem (entropia). Por isso, funções orgânicas, como o sistema
nervoso central ou sanguíneo, ou, aspectos sociais, como a circulação de pessoas,
mercadorias etc., são compreendidos obedecendo ao mesmo princípio de capacitores,
resistores, válvulas, indutores e outros componentes ligados entre si por caminhos
fechados e contínuos.
Isso foi formulado, entre outros, por Norbert Wiener há aproximadamente dez anos, mas
não se pode negar que os rumos fundamentais desta hipótese remontam o problema da
forma como conceberam Platão e Aristóteles. Os elementos de um sistema devem
“comunicar-se” entre si, devem desenvolver inter-relações regulares e coerentes. Esta
necessidade de comunicação é fundamental e igualmente importante para sistemas físicos,
biológicos ou sociológicos. Sem comunicação não há ordem, sem ordem não há totalidade.
Aqui o princípio básico pode ser considerado, por motivo de clareza (não por motivos
lógicos), segundo dois aspectos. Em princípio lugar, segundo o problema da comutação. A
pergunta que caberia aqui seria a seguinte: Qual são, no sentido da técnica, os princípios de
comutação de sistemas complexos e de que forma podem ser responsáveis pela conduta
destes sistemas? Sendo assim, as redes de comutação servem para transportar notícias,
sinais, numa palavra: informação. (WIESER, [1ª. Edição – 1959] 1972, p. 13).
Foi talvez Milton Santos aquele quem melhor conciliou as duas principais
tendências da renovação da geografia: o neopositivismo (geografia sistemática ou
teorética) e marxismo (geografia crítica). A partir destas duas perspectivas e tomando o
espaço enquanto produto da uma fusão entre meio geográfico e técnica, Santos articula
a ideia de uma história do espaço.
No começo era a natureza selvagem, formada por objetos naturais, que ao longo da história
vão sendo substituídos por objetos fabricados, por objetos técnicos, mecanizados e, depois,
cibernéticos, fazendo com que natureza artificial tenda a funcionar como máquina.
(SANTOS, 1996, p. 39).
Do espaço natural chega-se ao espaço artificial, tal como vimos acima, isto é,
análogo à máquina, inaugurando um tempo denominado de período tecnológico:
A técnica, esse intermediário entre a natureza e o homem desde os tempos mais inocentes
da história, converteu-se no objeto de uma elaboração científica sofisticada que acabou por
subverter as relações do homem com o meio, do homem com homem, do homem com as
coisas, bem como a relações de classes sociais entre si e as relações entre as nações.
(SANTOS, 2009, p. 16).
Ainda segundo Santos, no período tecnológico, as formas artificiais e coisas
sociais – matéria trabalhada – adquirem autonomia em relação à sociedade, por fim,
dominando-a. Esta analogia à máquina permitiu a Santos (1994) definir o espaço como
sistema de objetos e sistema de ação, ou, mais precisamente, meio técnico-cientificoinformacional. Seu pressuposto parte de um sistema de ações (fluxos), expresso no
trabalho e instrumentos de trabalho, que transforma o meio, cristalizando, através dos
tempos, formas (fixos) que re-significam (função) as relações sociais. O sistema, que
ganha dimensões próprias, é uma segunda natureza, tendo na sua forma mais acabada a
cidade10. “Esse novo tema de estudo não é apenas útil para compreender o
funcionamento da cidade como máquina viva, mas também para explicar, sob uma nova
10
Henri Lefebvre tem uma compreensão muito semelhante a esse respeito sobre o autômato, a cidade, o
“cibernantropo”. Em nossa tese de doutorado “Ocupar, Resistir, Construir, Morar” (2012), fizemos uma
longa discussão do tema no âmbito da produção do espaço.
luz, as relações externas da cidade, seja com sua região de influência, seja com outras
cidades” (SANTOS, p. 30).
Esta concepção tecnicista é completamente fetichista e dissimula o aspecto
fundamental da economia capitalista, que é o trabalho e a mais-valia, pois pressupõe um
equilíbrio das trocas por circuitos de comutação. O espaço da técnica, como bem tem
consciência Milton Santos, nada mais é do que expressão da reificação das relações
humanas. Tomá-lo como objeto de estudo é reafirmar sua alienação. Aliás, Santos tinha
perfeita clareza a esse respeito quando escreveu:
Devemos nos preparar para estabelecer os alicerces de um espaço verdadeiramente
humano, de um espaço que possa unir os homens para e por seu trabalho, mas não para em
seguida dividi-los em classes, exploradores e explorados; um espaço matéria-inerte que seja
trabalhada pelo homem mas não se volte contra ele; um espaço Natureza social aberta à
contemplação direta dos seres humanos, e não um fetiche; um espaço instrumento de
reprodução da vida, e não uma mercadoria trabalhada por outra mercadoria, o homem
fetichizado. (SANTOS, 2009, p.41).
O espaço como organismo autônomo não é novidade na geografia, remonta,
como vimos, a Ratzel e seu espaço vital, ou ao Estado, considerado um organismo em
constante estado guerra com outros Estados, e que para subsistir deve invadir, espoliar,
anexar e expandir o território.
GEOGRAFIA: UMA CIÊNCIA ATUAL?
O físico e filósofo Paul Feyerabend (1977) refuta, tal como Kuhn, a ideia de progresso
cumulativo nas ciências, porém, vai mais longe. Demonstra, tendo na figura de Galileu
seu exemplo mais ilustrativo, que o desenvolvimento científico pautado por uma
metodologia normativa, racional e condicionada pela experimentação rigorosa não passa
de uma construção a posteriori da história da ciência. Segundo Feyerabend, descobertas
científicas se realizaram de modo muito pouco ortodoxo, no sentido do imaginário
clássico da ciência. Na verdade, elementos irracionais, casuais, formulação de hipóteses
ad hoc, recursos retóricos e até propagandistas também participam do repertório da
investigação científica, embora escamoteados posteriormente pelo filtro do historiador
da ciência. Enfim, o ideal de pureza do método é bem pouco realista quando se examina
de perto a grande liberdade metodológica com que trabalha os grandes cientistas em
suas descobertas; procedimento, aliás, bem pouco metódico e que mais se assemelha, de
acordo com Feyerabend, a um “vale tudo” de idéias, um anarquismo epistemológico.
Não obstante, a criação ideológica de um modelo infalível de racionalidade na ciência
autoriza-a à condição totalitária de interlocutora exclusiva da sociedade. O
corporativismo dos profissionais ligados à ciência também não admite outras visões de
mundo não ocidentais e, obviamente, suas implicações políticas são das mais evidentes
(e por vezes nefastas). Logo, a unidade de método não é senão um mito, chegando às
raias do absurdo – para não dizer do ridículo – quando as ciências humanas copiam e
imitam as ciências exatas acreditando na ilusão de que estas são, em última instância, as
detentoras da verdade.
Feitas estas breves considerações, apesar dos textos de geografia reivindicarem
exaustivamente a definição do método geográfico, de sua identidade epistemológica
etc., basta apenas uma observação superficial em sua prática de pesquisa na geografia
para constatar que estas aspirações são meras quimeras. O próprio “objeto” da geografia
apresenta, como vimos acima, problemas de limitação e não será por um decreto
baixado pela vontade (de ciência) que se colocará termo na questão. Permita-nos contar
mais dois episódios ocorridos à boca miúda na universidade e que bem podem ser
interpretados como extraoficiais. Certa vez, um professor de um curso de geografia
física comentou que a sua matéria poderia ser ministrada em qualquer outro
departamento, como o de geologia, de oceanografia, de ciências da terra etc., e só não o
era por motivos históricos e corporativos. E sabe, ele tem razão. Diante da dificuldade
de pensar um tema de pesquisa, colegas afirmaram que qualquer temática era passível
de ser estudado pela geografia, desde que se introduzisse um mapa nos anexos finais. E
eles também têm razão. O mapa, na prática, é o selo de garantia de qualquer estudo
como o de geografia, embora não é de hoje que a cartografia se dissociou da ciência
geográfica como disciplina autônoma. De fato, estas opiniões expressam a realidade de
pesquisa em geografia, o resto é retórica vazia.
Sendo assim, pergunta-se: a geografia é uma ciência atual, ainda merece um
lugar ao sol? Sim. Basta, em primeiro lugar, abandonar o pesado fardo, expresso no
desejo obsessivo, de querer ser ciência. Pois, por mais que os geógrafos teimem na
importância do espaço, no seu caráter pedagógico etc. para a sociedade, esta mesma
sociedade insiste em não lhe dar importância alguma! O discurso geográfico deveria isto
sim se justificar por si só mais pela questão urgente e fundamental das relações da
sociedade e da natureza; ainda mais no momento atual, em que a natureza tornou-se
uma categoria histórica. Outro ponto importante é o de retomar, ao desatar de uma vez
por todas os laços cientificistas, as questões de ordem estéticas (Humboldt) na
geografia, assim como a música, poesia, pintura etc. A ênfase na técnica, reflexo mais
puro e acabado do niilismo, destruiu as nuances do grande estilo que permeavam o que
havia de melhor no conceito de gênero de vida. Vejamos:
A mão do oleiro indígena, na Guiana assim como no Peru, molda a matéria ao sabor de sua
fantasia e das suas necessidades. (...) Assim, através dos materiais que a natureza lhes
fornecia, e, por sua vez, a despeito da rebelião ou da insuficiência, o homem procurou
realizar certas intenções, fez arte. (...) Estas civilizações rudimentares, que nos reportam aos
períodos arcaicos das nossas próprias civilizações, são já, não obstante, um ponto de
chagada, um resultado de progresso, para os quais contribuem visivelmente a iniciativa, a
vontade e o sentimento artístico. (LA BLACHE, pp. 275 e 276).
Este resgate jamais pode eclipsar a verdadeira vocação das ciências humanas,
que é a de melhorar a sociedade. Por isso, a geografia não pode nunca deixar de ter um
compromisso com a transformação radical da sociedade e deve trabalhar duro para
mudar a vida das pessoas.
CONCLUSÃO
A geografia não é a ciência do espaço. Estabelecer o espaço como objeto da geografia é
apenas uma questão terminológica e não resolve o problema da imprecisão conceitual
que o termo remete, dada sua polissemia, tampouco outorga unidade metodológica de
uma ciência específica. Afinal, que espaço? O Universo? A distância entre dois pontos?
A essas perguntas, poderiam ser acrescentadas n outras. Logo, que espaço? O modo às
vezes irrefletido com que é tratado o espaço na geografia suscita mais obscurecimento
do que esclarecimento. Muitas vezes o espaço na geografia cumpre a mesma função de
um código que só tem sentido dentro da corporação. Mas esta solução é puramente
escolástica. As definições de espaço pela geografia são completamente idiossincráticas
e jamais conheceram paralelo na história do pensamento filosófico e científico. Mas o
pior é justamente quando se transpõe simplesmente uma definição da filosofia, da física,
da matemática para a geografia sem a menor consideração crítica.
Isto significa que a geografia devia abandonar o conceito de espaço? Sim e não.
Durante muito tempo a geografia fez uso do termo espaço no sentido acrítico e
naturalista de objetividade exterior. E não havia nada de errado com isso. O problema é
que se perdia a dimensão dialética ao hispostasiar natureza e sociedade em esferas
justapostas. A geografia também empregou o termo espaço no uso coloquial da
linguagem, supondo sua inteligibilidade imediata. E também não havia nada de errado
com isso. Mas quando, em nome da ciência, buscou-se definir espaço como objeto de
estudo, a geografia caiu num obscurantismo, pois omitiu que o espaço de que trata a
geografia é o espaço geográfico. Portanto, não é qualquer espaço. Todavia, não é um
conceito em si, dissociado das definições correntes de espaço. É um espaço constituído
historicamente, em relação à paisagem, e que data da constituição dos Estadosnacionais. Assim, é possível pensar a “matéria” do espaço em geografia como uma
“substância geográfica”, expressão resgatada por Hartshorne. Todavia, se o espaço
geográfico se torna abstrato e autômato, enquanto expressão da alienação e do fetiche,
trata-se então não de afirmá-lo mas de aboli-lo.
BIBLIOGRAFIA:
COELHO, T. T. C., “Uma viagem na consciência ‘inconsciente’: modernização,
geografia e relação sugjeito-objeto”, USP-FFLC-GEOG. Monografia (mimeo), 2013.
DAMIANI, A. L., “A geografia que queremos”, in Boletim Paulista de Geografia, no.
83, São Paulo: AGB-Paulista, 2005.
FALCON, F., “Mercantilismo e transição”, São Paulo: Brasiliense, 1996.
FEBVRE, L., “La terre et l’évolution humaine: introduction geographique a l’Histoire”,
Paris: Albin Michel, 1979.
FEYERABEND, P. K., “Contra o método”, Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves,
1977.
GEORGE, P., “Os métodos da geografia”, São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1972.
GLEICK, J., “Caos: a criação de uma nova ciência”, Rio de Janeiro, Elsevier Campus,
2008.
HARTSHORNE, R., “Questões sobre a natureza da geografia”, Rio de Janeiro: Instituto
Panamericano de Geografia e História, Comissão de Geografia, 1969.
HARVEY, D., “A justiça social e a cidade”, São Paulo: Hucitec, 1980.
HARVEY, D., “Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança
cultural”, São Paulo: Loyola, 1994.
KUHN, T. S., “A estrutura das revoluções científicas”, São Paulo: Perspectiva, 1982.
LACOSTE, Y., “A geografia : isso serve, em primeiro lugar para fazer a guerra”,
Campinas : Papirus, 2005.
MARX, K., “Crítica da filosofia do direito de Hegel”, São Paulo: Boitempo, 2013.
MARX, K., “Manuscritos econômico-filosóficos”, São Paulo: Boitempo, 2008.
MORAES, A. C. R., “Geografia: pequena história crítica”, São Paulo: Annablume, 2005.
PIRENNE, H., “História econômica e social da idade média”, São Paulo: Mestre Jou, 1982.
POINCARÉ, H., “Valor da ciência”, Rio de Janeiro: Contraponto, 1995.
RATZEL, F., “Ratzel: Geografia”, São Paulo: Ática, 1990.
SANTOS, M., “A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção”, São Paulo:
Edusp, 2004.
SANTOS, M., “O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países
subdesenvolvidos”, São Paulo: Edusp, 2004.
SANTOS, M., “Pensando o espaço homem”, São Paulo: Edusp, 2009.
SANTOS, M., “Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científicoinformacional”, São Paulo: Hucitec, 1996.
SODRÉ, N. W., “Introdução à geografia: geografia e ideologia”, Petrópolis: Vozes,
1982.
VIDAL DE LA BLACHE, P., “Princípios de geografia humana”, Lisboa: Cosmos,
1954.
WIERNER, N., “Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos”, São Paulo:
Cultrix, 1968.
WIESER, W., “Organismos, estruturas, máquinas: para uma teoria do organismo”, São
Paulo: Cultrix, 1972.
http://geografiaissonaoserveparafazernada.blogspot.com.br/
http://proporock.blogspot.com.br/
http://ufomaquiaxxi.blogspot.com.br/
Download