O escritório do senhor Olusco

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O escritório do senhor Olusco
O casarão ergue-se à margem da rua como uma muralha que ao longo dos seus mais
de duzentos anos sustentou olhares soberanos sobre a cidade, desde suas janelas
escavadas no frontispício decorado com anjos e demônios.
- Eu quero dois sacos plásticos para colocar relíquias que enviarei a parentes
distantes – disse suplicante enquanto varria o ambiente com os olhos semicerrados.
Olhos de quem é míope, sabe como.
- Vamos entrar, está procurando o escritório do senhor Olusco? Sussurrou o zelador,
enquanto sumia na esquina escurecida pela sujeira de mãos antigas e muitas
outras imundícies que os dias acumulam nas paredes.
A escadaria parecia infinita em sua solidão e umidade. Portas entreabertas vomitavam
restos de interrogatórios, gritos e culpas aparentes.
Em flashes, como nos sonhos lembrados com dificuldade ao acordar, enquanto
esticava-se escada acima, sentia a estranheza das coisas, o delírio das emoções
arrastadas ao limite de humanidade daquela gente.
Não sei o que faço aqui! É certo que outras lembranças me ocorrem no crepúsculo
que, lá fora, pinta as paredes e sombreia os buracos do jogo de gude escavados na
terra, como as sombras nas crateras da lua.
Lembro dos barcos submarinos que passavam velozes sob a caravela frágil que,
talvez, não alcançasse o seu destino no azul profundo adiante.
Agora desço no caracol cinza por entre múltiplos ambientes, cores, gentes, sinas,
pragas e presentes sem passado. Não sem passado quantitativo, mas sem histórias
acumuladas como bagagem para o futuro, para as incertezas e circunstâncias da
viagem.
De novo a escuridão molhada que acomoda.
- Êi, eu te conheço. Não és o palhaço que comia fogo no circo de lona verde,
engraxada e remendada? Como está a rumbeira? Diz aí!
O palhaço parecia não ouvir, apesar da pouca distância e ainda me lembro das
partituras para clarineta jogadas sobre a mesa da sala, da lona verde e da dançarina.
Linda era o seu nome. Linda morena.
Não sei mais se subo ou desço. Só a vertigem que me ilude e me leva de volta para o
início ou o fim. Não sei distinguir, apenas supor que vejo o que não veria se meu
ouvido interno se comunicasse direito com o cérebro.
O cérebro da moça da loja. Pelo menos a sua cabeça parecia tão pequena, que diria
quase impossível comportar um cérebro humano. Mas ela me olhou de forma tão
inteligente, que me apaixonei pelos poemas que, com certeza, guarda na gaveta do
seu armário, em velhos cadernos escolares.
A porta. Agora a vejo. A saída desse manicômio ou condomínio. Dá no mesmo. Não é
a insanidade que perturba, mas a excessiva certeza quando tudo é mistério e que se
revela às migalhas, como seguir o pão de João e Maria.
Abro para o vazio das ruas com suas gentes toscas e vou.
por Sérgio Araújo
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