entrevista - Projeto Andar de Novo

entrevista
A humanidade é dominada por três esquizofrêniéos que
ouviam vozes, olhavam para o céu e achavam que
alguém estava falando com eles, afirma um dos maiores
nomes da neurociência contemporânea.
Por Maria da paz Trefaut
O
ta brasileiro da atualidade,
mais renomado
Miguel
Nicolelis,cientisvive entre Brasil, Estados Unidos e Suí-
ça. Às vezes completa essa triangulação em uma semana e nem sabe
em que fuso horário está. Mas isso
não o incomoda. Com projetos nos
três países, o neurocientista paulista, fanático pelo Palmeiras, tem
a ambição de fazer um adolescente brasileiro tetraplégico dar o pontapé inicial na abertura da Copa do
Mundo de Futebol de 2014. Para
isso, usará uma veste robótica controlada pela força do pensamento.
Desvendar a possível interação cérebro-máquina é um dos grandes desafios de Nicolelis, referência na pesquisa com próteses neurais, cujo
trabalho integra a lista das "Dez Tecnologias que Vão Mudar o Mundo",
do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Professor de neuroengenharia da Universidade Duke
(EUA), tem projetos educacionais
igualmente ambiciosos no Brasil. Um
deles é em Macaíba, no Rio Grande
do Norte. Ali deverá ser inaugurado,
no início de 2012, o "Campus
do Cérebro", uma escola em período
integral que beneficiará 5 mil crianças, do berçário ao ensino médio.
Já o "Educação para Toda a Vida",
que começa na barriga da mãe, vai
prestar assistência gratuita para 15
mil gestantes na periferia de Natal.
Uma amostra das ideias de
Nicolelis está no livro Muito
Além do Nosso Eu, recém-lançado
pela Companhia das Letras,
e nesta entrevista.
PLANETA
I
AGOSTO
2011
W
entrevista
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Se um tetraplégico der um pontapé na bola, na abertura da Copa de
2014, será uma revolução na ciência. O que ela tem de essencial?
É uma nova forma de abordar a questão da reabilitação e uma nova forma de entender o cérebro. Sem uma
nova teoria do cérebro a gente não teria conseguido chegar a essa tentativa de fazer uma aplicação clínica. É
também uma revolução tecnológica, porque essas aplicações não vão se
restringir à medicina. As interfaces
cérebro-máquina envolvem interações
com nossos computadores e com as
ferramentas que usamos diariamente
(leia mais na página 40).
Estamos trabalhando
resses próprios ideológicos e políticos.
Qyando você vê o
cérebro por dentro e começa a entender o que acontece, percebe como é fácil ir de um lado
para outro.
Você falou de três símbolos
sos. Você é ateu?
religio-
Sim, mas acho que a religião faz parte do sistema nervoso. Como o cérebro é um simulador da realidade, ele
cria um modelo e uma ilusão de rea-
na ideia
original, brain to brain interfaTrata-se de pegar o sinal de
um cérebro e mandar para outro e ver se ele entende. Se for
ce.
possível com um par de cérebros,
será possível em qualquer combinação. Claro que tecnologicamente isso tem dificuldades enormes: não
basta registrar o sinal, mas entregá-Io
para outro cérebro. Em teoria, a ideia
é factível.
Como você vê o Muro ...
Bem diferente do atual. A gente tem
a tendência de ter medo, porque todos
os sinais do futuro são dramáticos.
Esses tratamentos devem ajudar a
romper o estigma das doenças?
lidade para cada um de nós. Ele precisa de uma história: de onde viemos?
... da máquina humanizada ...
Essa é uma das razões pelas quais escrevi este último livro. Para mostrar
Como começou o universo?
Isso é uma barbaridade científica. Não
que o que a gente chama de normal e
anormal é separado por uma fronteira
muito tênue. É muito rápido um cérebro dito normal evoluir para um dito
patológico. Para um de nós ficar esquizofrênico não é preciso muito.
Materialista
É um processo químico?
Entre outras coisas. No frigir dos
ovos, tudo se resume a uma mudança
de balanço de neurotransmissor e de
atividade elétrica do cérebro. A gente percebe que são pequenas variações
que levam você a ouvir vozes, ter delírios. Nos dias de hoje, aliás, a humanidade curiosamente é dominada por
três esquizofrênicos que ouviam vozes, olhavam para o céu e achavam
que alguém estava falando com eles.
Quem
são?
Jesus Cristo, Maomé e Abraão. Muito provavelmente os três precisavam
de haldol (medicamento para esquizofrenia). É arbitrária qualquer cla~sificação que defina as bordas da
normalidade. Cada vez mais a into:'
V
Esse é o objetivo da brainnet?
lerância e o preconceito esculpem essa
borda com seus inte-
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ou religiosa?
Exatamente. Os pigmeus africanos
acham que a gente saiu do céu, que
havia uma corda e eles foram descendo. Toda cultura tem uma história. O
problema é que algumas são cxcludentes e prejudiciais ao bom convívio
da espécie, na medida em que elegem
os eleitos e os não eleitos.
A questão dos comandos
envolve telepatia?
cerebrais
Não, porque a telepatia pressupõe que
a energia espontânea do cérebro é capaz de transmitir pensamentos.
Há energia no cérebro?
Ele tem um campo elétrico e magnético, mas muito pequeno. Não tem
como um sinal sair do cérebro, passar
pelo crânio e ir da minha cabeça para
a sua. É impossível! Mas você pode
registrar esses sinais, transmiti-Ios
artificialmente - como a gente já faz
- e mandá-Ios para uma máquina ou,
em teoria, para outro cérebro. É nisso
que estamos trabalhando.
há nenhum computador que tenha a
chance de reproduzir atributos humanos. Isso é pura balela, propaganda ideológica. É uma visão capitalista,
de que você não vale nada e pode ser
substituído por um robô. A máquina
consegue executar movimentos repetitivos. Não consegue escrever poesia,
pintar como Picasso, tomar decisões
baseadas na natureza humana. Todas
as características que fazem a gente
ser como é resultam de processos extremamente complexos no cérebro e
são fenômenos não computáveis.
Isso define o limite da tecnologia?
Claro, ela é uma expressão da nossa
capacidade criativa. Por isso são tão
interessantes esses achados neurofisiológicos recentes, que mostram que
todas as ferramentas que criamos são
assimiladas pelo cérebro como uma
extensão do nosso corpo: mouse, caneta, raquete de tênis, bola, carro, bicicleta. O cérebro cria a ilusão do qUI
o nosso corpo é. E tudo o que a gente experimenta é uma ilusão; é um
modelo do mundo.
Tudo
é ilusão?
Sim. Se seu cérebro fosse diferente,
você ia ver o mundo diferente. A sua
história de vida foi diferente da minha; nós dois olhamos uma rosa vermelha e ela evoca memórias peculiares em cada um. Até recentemente a
nucópia de equipamentos, ferramentas e tecnologias que serão controláveis apenas por pensamentos. Antes,
sobrevivia quem caçava bem. Amanhã
será a vez de quem conseguir usar a
mente para controlar 200 equipamentos ao mesmo tempo.
tica é muito fraca, muito pobre, dissociada da realidade. É uma classe que
só pensa no espólio, em como extrair
para si o que for possível. A situação
da população melhorou bastante nos
últimos anos, mas ainda falta muito
para se construir uma cidadania plena.
A educação é o único caminho.
gente achava que a sua experiência e a
minha, ao olhar uma coisa assim, era a
mesma. Hoje a gente sabe que não é:
o cérebro tem uma opinião. Esse ponto de vista foi construído ao longo
da sua vida e da minha e ao longo da
nossa espécie do ponto de vista evolutivo. Nosso cérebro vai ter um papel cada vez mais relevante na ampliação do nosso alcance como espécie. O
nosso corpo vai perder relevância.
Mentira. Na verdade, a gente usa tudo
o que tem. Se tivesse mais, usava também. A gente perde neurônios a partir dos 18 anos, mas é uma perda muito pequena. Num certo ponto da vida
essa perda passa a ser relevante: você
vai esquecendo coisas e não tem mais
a mesma agilidade mental.
E só encontrou espaço para se desenvolver fora?
Mas vivemos o culto do corpo.
Como você cuida dos neurônios?
Por quem?
Pois é, até hoje o culto do corpo dominou nossa espécie. Então, quem
aproveitou, aproveitou. A partir daqui,
quem vai ganhar o embate é a mente.
A seleção natural de quem vai sobreviver privilegiará aqueles capazes de
usar a mente para agir com uma cor-
Pensando. Desafiando a mente a pensar em coisas a que não estou habituado. É como um exercício fisico.
Pelo chefe do departamento que, claramente, tinha seus protegidos e sabia que minha volta ia causar problemas. Era 1991 e a situação brasileira
era muito complicada, com o confisco do governo Collor. Perdi toda a
poupança que tinha e nunca mais recuperei. Mas minha grande crítica é
que acho que grande parte da ciência
brasileira é humilde. As pessoas têm
medo de ousar, têm complexo de que
não se pode fazer coisa grande, ambiciosa. Têm medo.
Diz-se que usamos uma porcentagem ínfima da nossa capacidade.
Não cansa?
Demais. Tem dias que o esforço é
tanto que eu capoto e acordo no outro. Estou ligado o tempo inteiro. Para
mim isso não é trabalho, é prazer.
Vinte anos fora do Brasil modificaram a sua visão?
Ah, o exílio é o maior elixir do patriotismo. Você vê as coisas que não são
boas, mas isso não abate as maravilhas
que existem aqui. Temos muito potencial, que agora começa a aflorar de
forma caótica. Mas temos um grande
desafio pela frente. Nossa classe polí-
Você se considera
ousado?
Sim, desde o futebol na rua. Sempre
me meti onde não era chamado.
Não havia muito espaço para minhas
ideias quando deixei o Brasil. Ao pensar em voltar, fui desencorajado.
Isso prejudica
o Brasil?
A ciência brasileira é muito provinciana. A academia de ciências também, e a maneira de financiar é cartorial. Nosso modelo é um dos mais
perniciosos para um jovem cientista penetrar. Os sujeitos mais seniores
dominam tudo e se você não tem um
padrinho não consegue nada, porque
é clube fechado. Nos Estados Unidos
é o contrário: as possibilidades de financiamento para os jovens são garantidas de forma a assegurar uma renovação contínua de talentos. Aqui, o
negócio é manter o status quo .•
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