Proteção celular leva Nobel de Medicina

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Proteção celular leva Nobel de Medicina
Ter, 06 de Outubro de 2009 15:51 -
A 100ª edição do Prêmio Nobel de Medicina(1) contemplou no dia 5 uma descoberta que bem
poderia ser classificada como "a proteção da vida". O Instituto Karolinska, com sede em
Estocolmo, agraciou a norte-americana Carol W. Greider, da Universidade Johns Hopkins
(Baltimore); o britânico Jack W. Szostak, da Faculdade de Medicina da Universidade de
Harvard (Boston); e a australiana Elizabeth H. Blackburn, da Universidade da Califórnia, por
terem decifrado um dos grandes enigmas da biologia: como os cromossomos podem ser
copiados de um modo completo durante as divisões celulares e de que modo eles são
protegidos contra a degradação e a morte celular. A resposta está nas extremidades dos
cromossomos, os chamados telômeros, e em seu revestimento (a telomerase). "As
descobertas de Blackburn, Greider e Szostak adicionaram uma nova dimensão à nossa
compreensão da célula, lançaram luz nos mecanismos das doenças e estimularam o
desenvolvimento de potenciais novas terapias", afirmou o comunicado do instituto. As
moléculas de DNA que carregam nossos genes são "empacotadas" nos cromossomos.
Blackburn e Szostak concluíram que uma única sequência de DNA nos telômeros impede a
degradação do cromossomo. Por sua vez, Carol Greider e Elizabeth Blackburn identificaram a
telomerase, substância que fabrica o DNA do telômero. Os três laureados descobriram que, à
medida que os telômeros se encurtam, as células envelhecem. Inversamente, se a atividade de
telomerase é alta, o comprimento do telômero não sofre alteração, atrasando o envelhecimento
celular. O processo ocorre com as células do câncer, que podem ser consideradas "eternas".
Além de ser uma chave para combater a senilidade e tratar o câncer, a pesquisa também ajuda
a explicar doenças hereditárias.
"A telomerase é um mecanismo fundamental e muito importante para preservar os genes e
permitir que as células sobrevivam e se dividam", afirmou ao Correio, por telefone, Göran
Hansson, secretário do Comitê Nobel para Fisiologia ou Medicina. De acordo com ele, a láurea
não buscou contemplar apenas a ligação do telômero com o câncer. "Nós decidimos premiar a
descoberta do telômero e a explicação sobre como a telomerase opera", explicou. No entanto,
o professor sueco lembrou que as células do tumor são marcadas pela alta atividade dos
telômeros. "Talvez seja possível tratar o câncer com uma droga que iniba a telomerase ou
mesmo uma vacina que faça com que nosso sistema imunológico destrua células cancerígenas
com alta atividade de telômeros", acrescentou.
"Vida eterna"
Para o biólogo de telômeros Emmanuel Skordalakes - do The Wistar Institute (Filadélfia), a
telomerase definitivamente pode ser considerada um mecanismo-alvo de terapias contra o
câncer e a "fonte da vida eterna". "A telomerase é um processo biológico extremamente
importante, pois é crítico na proteção de nossos cromossomos. O estudo começou a ser
relacionado com o câncer na década de 1990, quando Jerry Shay mostrou que 90% dos
tumores humanos têm alta atividade de telomerase", comentou o cientista grego, que no ano
passado decifrou a estrutura da telomerase. Segundo ele, o trabalho de Blackburn, Greider e
Szostak permitirá a descoberta de um composto de drogas que podem curar o câncer,
independente do tecido afetado.
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Skordalakes explicou que a relação entre a telomerase e o envelhecimento data da década de
1960. "O processo de envelhecimento, relacionado às múltiplas divisões celulares, também
está associado à ligação dos telômeros, produtos da telomerase. Quando a enzima do
telômero está ativa na célula, e ela continua a se dividir, as extremidades do cromossomo
ficam mais curtas de 50 a 100 bases. Com as múltiplas divisões, o telômero fica tão curto que
não consegue mais proteger o cromossomo e as células param de se dividir, levando à
senilidade", comentou. "Depois de 60 anos em que os telômeros se encurtam sem parar, as
células acabam murchando."
1- Seleção criteriosa
O processo de escolha do Nobel segue um rígido modelo. Primeiro, o Comitê Nobel convida
cientistas de universidades ao redor do mundo para indicarem potenciais vencedores.
"Recebemos centenas de candidaturas todos os anos, de todos os continentes. Após uma
avaliação criteriosa dos nomes, pedimos a ajuda de especialistas para avaliarem a importância
das descobertas", explica Göran Hansson, secretário do Comitê Nobel para Fisiologia ou
Medicina. "Somos meticulosos e precisamos identificar quais pesquisas abriram campo para a
mudança de paradigmas." No estágio final da seleção, uma assembleia de 50 proeminentes
especialistas se reuniu na manhã de ontem e decretou a escolha, por meio de votação.
2- Honras e glória
O cientista e inventor sueco Alfred Nobel (1833-1896), descobridor da dinamite e da pólvora,
pediu em seu testamento a criação de um prêmio anual que seria dividido em cinco partes
iguais. "Uma parte à pessoa que tiver feito a mais importante descoberta ou invenção no
campo da física; uma à que tiver feito mais importante descoberta ou aprimoramento em
química; uma à que tiver feito a mais importante descoberta no domínio da fisiologia ou
medicina; uma à que tiver produzido o mais notável trabalho em uma direção ideal em
literatura; e uma parte à pessoa que tiver feito mais ou o melhor trabalho pela fraternidade
entre nações, pela abolição ou redução dos exércitos e a manutenção e promoção da paz",
afirma o texto assinado em Paris, em 27 de novembro de 1895.
Entrevistas Jack W. Szostak e Carol W. Greider A vitória da curiosidade Eles foram dormir no domingo como cientistas notáveis - e acordaram ontem como imortais.
Receberam uma ligação do Instituto Karolinska ainda de madrugada nos Estados Unidos e,
pouco depois, falaram com exclusividade ao Correio, também por telefone, por volta das 6h40
(hora de Brasília). Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, o britânico
Jack Szostak, 57 anos, ainda parecia se adaptar à nova condição de Nobel de Medicina.
Sonolento, considerou uma "grande honra" ter sido lembrado na 100ª edição do prêmio. "É
realmente fantástico", comemorou, a partir de sua casa em Boston (Massachusetts). Mais ao
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sul, a norte-americana Carol Greider, 48 anos, especialista da Faculdade de Medicina da
Universidade Johns Hopkins (em Baltimore, Maryland), lavava roupa quando soube da notícia.
Ela assegurou que os próximos dias serão de "muita diversão". "Pretendo celebrar com minha
família e falar com pessoas", disse. Os dois ganhadores do Nobel - que dividiram o prêmio com
Elizabeth Blackburn - explicaram como a enzima telomerase ajuda a proteger o código
genético e a explicar o desenvolvimento do câncer.
Quando souberam que foram agraciados com o Nobel de Medicina? De que maneira reagiram
ao anúncio?
Jack Szostak: Eu recebi um telefonema da secretaria da fundação (Nobel). (risos) Eram 4h45
da madrugada. Eles me acordaram, eu estava dormindo. É óbvio que fiquei muito agitado. É
uma grande honra e maravilhoso compartilhar (o prêmio) com Liz e Carol. Foi muito, muito
excitante (risos). Eu não posso dizer que fiquei totalmente surpreso, porque as pessoas
falavam disso há um tempo. Por outro lado... Oh! Eu ainda estou surpreso (risos). É realmente
fantástico. Essa é a máxima honra científica e o maior reconhecimento. Eu suponho que verei
o impacto nos próximos anos (risos).
Carol Greider: Eu recebi um telefonema de Estocolmo pouco antes das 5h. Estava lavando
roupa naquele momento. Meu coração começou a acelerar quando peguei o telefone. E era o
Comitê Nobel.
Qual é a importância da telomerase, especialmente em relação ao câncer e ao
envelhecimento?
Jack Szostak: A telomerase é parte fundamental da replicação do nosso DNA, de nossas
instruções genéticas. Nas células do câncer, esse processo é frequentemente interrompido,
ainda que não devesse sê-lo. Esse parece ser o problema. A maior parte das células de nosso
corpo não se divide. É uma medida segura fazer com que o telômero seja mantido desativado.
Mas as células cancerígenas continuam se dividindo. A questão é que, se você ativa a
telomerase, isso tem implicação sobre as células do câncer. Nós acreditamos que exista um
certo balanceamento entre o envelhecimento e as células do câncer. A telomerase não é uma
solução simples para deter o envelhecimento.
Carol Greider: A telomerase é necessária para manter as ligações entre os cromossomos.
Toda vez que uma célula se divide, os telômeros ficam um pouco mais curtos. E se eles não
tiverem um meio de manter esse elo, quando os telômeros encurtam, as células morrem.
Quando os telômeros mantêm suas ligações, as células podem continuar se dividindo. Isso é
importante porque, no câncer, as células precisam se dividir
muitas e muitas vezes. Nosso pensamento é que, nas células cancerígenas, se arrumarmos
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um modo de bloquear a telomerase, podemos bloquear o crescimento dessas células
cancerígenas. A telomerase também é necessária em vários tecidos do corpo humano, como
as células-tronco e o sangue. Também há um número de condições genéticas humanas nas
quais as pessoas não têm telomerase suficiente e não podem manter seu estoque de sangue.
Então, desenvolvem anemia.
Quando perceberam que sua descoberta ajudaria a compreender o mecanismo da doença?
Jack Szostak: Quando estávamos fazendo o trabalho, na década de 1980, nós realmente
apenas tentávamos compreender um problema ligado à cópia do DNA, à manutenção do DNA.
Mas não tínhamos ideia de que aquilo seria tão importante para o câncer e o envelhecimento.
Isso veio apenas bem mais tarde. Eu comecei minhas pesquisas após uma conversa com
Elizabeth Blackburn em um encontro científico. Isso foi uns 25 anos atrás.
Carol Greider: Isso é algo muito interessante, porque não estávamos tentando entender o
câncer. Nós estávamos fundamentalmente interessados em saber como as células funcionam.
Foi realmente uma ciência básica dirigida pela curiosidade. Nós estudamos o cromossomo em
organismos unicelulares, um protozoário que nada ao redor de esponjas no mar. Nós
estávamos tentando entender como o telômero se mantém nesse organismo, chamado de
Tetrahymena. A Tetrahymena possui 40 mil cromossomos. Ao estudarmos mais esse
organismo, pudemos ter uma visão do que ocorre nos cromossomos e descobrimos o
telômero. Foi uma descoberta muito instigante naquela época, 25 anos atrás. Mas não havia
uma conexão clara com doenças. Isso veio mais tarde.
Que potenciais a telomerase esconde em relação ao avanço da medicina? Pode ser uma saída
para a cura do câncer?
Jack Szostak: Acredito que a telomerase ajuda-nos a compreender um aspecto importante do
câncer. O câncer é uma doença realmente complicada, em muitos aspectos fundamentais. Nós
realmente entendemos agora muito sobre como a célula funciona. E isso é uma parte do
quebra-cabeças.
Carol Greider: Eu acho que há um potencial para a telomerase desempenhar um papel no
câncer, mas não creio que haverá uma única cura para a doença. O câncer é certamente uma
doença entre muitas outras relacionadas à telomerase. Creio que haverá vários métodos para
se tratar o câncer. A disqueratose congênita é uma doença determinada pela telomerase caracterizada pela falha nas células-tronco. O paciente contrai anemia ou falência da medula
óssea, devido à ausência de telômeros.
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De que modo o Nobel deve mudar as pesquisas e a sua própria vida?
Jack Szostak: Eu ainda não pensei sobre como o prêmio pode mudar minha vida ou este
campo de pesquisas. Eu tenho estado bem ocupado fazendo outros tipos de pesquisa. Espero
que o Nobel possa ajudar. O mais importante é que esse tipo de trabalho pode inspirar as
pessoas mais jovens. Atualmente, estamos estudando a origem da vida.
Carol Greider: Eu acho que a coisa mais importante é o reconhecimento de que nossa
descoberta fundamental teve implicações médicas que vieram de uma ciência direcionada pela
curiosidade. Mas é realmente importante apoiar o conhecimento científico geral, porque você
não sabe de onde virão coisas excitantes.
Eu acho que há um potencial para a telomerase desempenhar um papel no câncer, mas não
creio que haverá uma única cura para a doença
Nós estávamos fundamentalmente interessados em saber como as células funcionam. Foi
realmente uma ciência básica dirigida pela curiosidade"
Nós realmente entendemos agora muito sobre como a célula funciona. E isso é uma parte do
quebra-cabeças
(...) não tínhamos ideia de que aquilo seria tão importante para o câncer e o envelhecimento.
Isso veio apenas bem mais tarde"
Fonte Original
http://www.portalmedico.org.br/include/clipping/mostra_clipping.asp?id=569
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