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No que diz respeito ao uso de termos especializados enquanto A Pílula... (com 10
páginas) usa no total somente 33, ocupando o quarto lugar dentro da subcategoria Saúde, O
Cérebro... (com duas páginas a menos) utiliza quase o dobro desse valor (total de 63),
alcançando assim a vice-liderança da categoria no uso desses termos. No que se refere ao total
geral, a matéria de SAB mais que dobra a quantidade (total geral de 173 termos) em relação à
utilizada por A Pílula... (total geral de 70 termos).
Ainda que as duas matérias tenham sido escritas por jornalistas, as especificidades de
cada veículo contribuem para que sejam observadas nítidas diferenciações nas construções
textuais. A matéria de SAB não é indicada para indivíduos que buscam informações de fácil
entendimento sobre o assunto, pois o uso de siglas e termos específicos requer, mesmo do
leitor mais especializado, uma dose de familiaridade com o tema tratado. Este fato pode ser
observado logo no início do texto, como na frase: “o símbolo H+ dos futuristas denomina
uma versão aperfeiçoada da humanidade” (STIX, 2009, p. 36, grifo nosso). Nem todos os
leitores sabem com precisão o que representa esse “símbolo H+” de que fala o texto. A
palavra cognição também é bastante empregada, como se o leitor já possuísse domínio
absoluto sobre o seu significado, e o texto não procura fornecer explicações que contribuam
para facilitar seu entendimento. Palavras e / ou expressões mais complexas, em muitos casos
até tecnicamente bem específicas, também são utilizadas como se fizessem parte do repertório
do leitor, entre elas destacam-se: aprimoradores neuronais, nootrópicos, modafinil, TDAH,
metilfenidato, anfetamina, nanotecnologia, nanorrobôs etc. Explicações, ainda que rápidas e
sucintas, além de facilitar a compreensão, poderiam despertar mais curiosidade para o
aprofundamento do tema ou, simplesmente, mais interesse pela própria leitura, fazendo com
que o leitor comum não tenha vontade de desistir logo nos primeiros parágrafos.
Mesmo tendo sido a segunda matéria que mais utiliza termos específicos, O
Cérebro... consegue, em alguns pontos do texto, assumir uma postura elucidativa,
principalmente quando se dispõe a explicar o termo especializado. É assim no parágrafo em
que fala da “memória de longo prazo”, explicando, entre parêntese, que é “o lugar onde as
lembranças da infância e das férias do ano passado estão” (STIX, 2009, p. 39), e também
quando cita “memória de trabalho”, para em seguida esclarecer que é “o rascunho mental
onde o cérebro guarda temporariamente um número de telefone” (p.39). Ou ainda quando
utiliza a palavra narcolépticos, mas explica que são “vítimas de ataques de sono
incontroláveis” (p. 45).
Já A Pílula... embora use uma quantidade bem menor de termos especializados,
consegue impor objetividade, clareza e fácil entendimento para o leitor em busca de atrativos
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que despertem interesse pelo tema e não o faça desistir da leitura. As explicações, portanto,
além de mais freqüentes no texto da SI, surgem, inclusive, para expressões que parecem de
domínio comum. Por exemplo, quando fala em “medicamentos tarja-preta”, o texto explica
que eles são “desenvolvidos para tratar disfunções neurológicas – mas que em pessoas
saudáveis, podem provocar uma espécie de turbo mental: intensificar a atenção, a
concentração, a memória ou certos tipos de raciocínio” (NOGUEIRA, 2009, p. 64). Em outro
momento, a matéria acrescenta que tais medicamentos são “de venda e uso controlados”.
Palavras como “narcolepsia” (“um distúrbio que causa sonolência excessiva durante o dia e
afeta 0,2 a 0,5% da população mundial”, p. 64); “neurogênese” (“a produção de novos
neurônios no cérebro”, p. 69) e “hipocampo” (“parte do cérebro que – entre outras coisas –
coordena o funcionamento da memória”, p. 70) são utilizadas, mas vem acompanhadas dos
seus devidos esclarecimentos. O texto explica também o surgimento do metilfenidato:
mais conhecido por seu nome comercial, Ritalin. Esse composto químico é
um derivado das anfetaminas, supostamente com efeitos mais leves e
controlados. Os cientistas desenvolveram a droga para tratar distúrbio de
déficit de atenção, depressão e outras condições médicas. (NOGUEIRA,
2009, p. 67).
Enquanto a matéria de SAB cita as doenças de Parkinson e de Alzheimer, mas não as
explica, na matéria de SI até o mal de Alzheimer, doença bastante conhecida entre o público
leigo, recebe explicação técnica detalhada:
É uma doença degenerativa terrível, em que placas de uma substância
chamada beta-amiloide começam a se formar no cérebro. O resultado é uma
perda significativa da capacidade de gerar memórias. Conforme a doença
progride, acaba desembocando na demência e, por fim, na morte.
(NOGUEIRA, 2009, p. 68).
No que se refere aos termos figurados, O Cérebro... os utiliza de modo restrito (12 no
total) e até pouco explícito, pois ao dizer que “o metilfenidato [é] parente próximo das
anfetaminas” (STIX, 2009, p. 40, grifos nossos), o leitor só irá estabelecer essa relação de
“parentesco”, utilizada figurativamente no texto, se souber o que são as anfetaminas.
Enquanto isso, A Pílula... mais que triplica a quantidade (total de 37) desses termos em
relação à matéria de SAB e faz isso através de expressões bem corriqueiras e de uso popular,
como nos seguintes exemplos: “uma xícara de café para ficar mais ligado” (p. 64, grifos
nossos), “[uma droga] que não dá barato e não vicia” (p. 65, grifos nossos). E mais: “basta
ver os exemplos [...] para sacar que, nessa busca desenfreada pelo caminho mais fácil para o
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desenvolvimento mental, muita besteira foi vendida como panacéia (NOGUEIRA, 2009, p.
67, grifos nossos). O texto de SI usa “cachola” (p. 67) para se referir à mente das pessoas, diz
que a droga piracetam auxilia a “lubrificar” (p. 69) o cérebro e ressalta que, mesmo em “passo
de tartaruga” (p. 69), as pesquisas da Helicon (companhia farmacêutica norte-americana)
“darão frutos” (p. 69) no futuro.
A revista SI cria proximidade e familiaridade com o leitor, através de frases e / ou
expressões como: “você deve estar se fazendo algumas perguntas” (p. 65), “você já deve ter
ouvido falar” (p. 67), “quer um exemplo?” (p. 68) e “olha só esta” (p. 69). Isso ratifica o
pensamento de Gonçalves (2009, p. 11), quando sentencia que na SI “é uma constante [...] o
jornalista falar diretamente com o leitor, chamando-o a participar da leitura, a tomar uma
atitude [...]”. Ao falar das ampaquinas, drogas que ajudarão a reduzir o impacto do mal de
Alzheimer, auxiliando no fortalecimento dos sistemas cerebrais ligados à memória, a matéria
A Pílula... fica ainda mais próxima do leitor:
E as mais promissoras [para o tratamento de Alzheimer] são as ampaquinas,
que parecem reforçar as respostas dos neurônios a um neurotransmissor
chamado glutamato (antes que você pergunte: não, não é o mesmo
glutamato do tempero Aji-No-Moto e dos pratos da culinária chinesa).
(NOGUEIRA, 2009, p. 68, grifos nossos).
O texto da SI tem uma maneira bem peculiar de “dialogar” com o leitor: lançando
perguntas e respondendo-as, mas, sobretudo, estimulando-o a refletir sobre o assunto, para
que ele próprio possa emitir conclusões. Percebe-se isso logo no subtítulo da capa: “[...] Será
que devemos tomá-las? Nosso repórter experimentou. E tem a resposta”. Outros
questionamentos surgem ao longo da matéria:
Será que, como acontece em tantos casos que envolvem a indústria
farmacêutica, não existe um exagero nisso tudo? Será que, com o uso
contínuo, a longo prazo, drogas como o modafinil não podem fazer mal? E
será que é uma boa ideia mexer com a química do cérebro? (NOGUEIRA,
2009, p. 65).
Como ficam as pessoas que não têm dinheiro para comprar a droga, ou
simplesmente não querem tomá-la? Como promover uma disputa justa, no
vestibular ou em uma entrevista de emprego, entre pessoas que tomam e não
tomam pílulas para o cérebro? (p. 70).
Tanto a matéria de SAB como a de SI também diversificam quanto ao uso das fontes
de informação, pois ambas utilizam conceituados especialistas no assunto tratado e renomadas
Universidades e Instituições de pesquisa. A diferença entre as matérias surge, portanto, na
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quantidade das fontes utilizadas, bem maior em SAB, e na opção de SI em ouvir pessoas
comuns para relatar experiências com o uso dos aprimoradores cognitivos.
A Pílula... utiliza no total apenas três especialistas, como fonte de informação,
enquanto em O Cérebro... esse número é cinco vezes maior. Em A Pílula... são citadas no
total apenas cinco Universidades / Instituições, já em O Cérebro... esse número mais que
duplica, pois são 12. No que diz respeito a outras fontes utilizadas, no texto da SAB, por
exemplo, a Nature, conceituada publicação de DC no mundo, é citada várias vezes, enquanto
a matéria de SI menciona apenas uma única vez um estudo recém-publicado na Nature em
que “25% dos universitários tomam ou tomaram algum tipo de remédio para tentar aumentar
seu desempenho cognitivo” (NOGUEIRA, 2009, p. 64). A matéria de SI também não utiliza
como fonte nenhum outro prestigiado veículo de DC, porém, O Cérebro... usa, além da
Nature, o British Medical Journal, ao mencionar o comentário do bioeticista da University of
Manchester publicado no referido veículo, bem como as revistas Neuroethics,
Psychopharmacology e Science.
Os argumentos científicos utilizados em O Cérebro... aparecem sob forma de citações
diretas de renomados cientistas, que fazem parte de conceituadas Universidades / Instituições
de pesquisas de referência mundial. Inclusive, sobre a própria experiência no consumo dos
aprimoradores cognitivos a SAB utiliza como fonte o depoimento dos próprios cientistas que
tomaram esses remédios, para relatar o que sentiram. Cita, por exemplo, que o neurocientista
Michael S. Gazzaniga, da University of Califórnia, consumia Benzedrina nos anos 60 para
ajudar nos estudos da faculdade. Utiliza ainda o depoimento de Jamais Cascio, pesquisadorassociado do Institute for the Future em Palo Alto, Califórnia, que comenta sobre sua
experiência com o uso do modafinil.
“A percepção do aumento no foco cognitivo e na clareza foi uma grande
surpresa, mas uma surpresa agradável”, lembra Cascio. “Minha experiência
não foi de ganhar um supercérebro. Em vez disso, eu simplesmente entrava
mais facilmente em um estado de fluxo cognitivo, um estado de ser capaz de
trabalhar sem distinção”. (STIX, 2009, p. 41, grifos nossos).
Ao contrário, A Pílula... prefere ouvir o relato de pessoas comuns, identificadas com
nomes fictícios para preservar as identidades, que utilizaram os aprimoradores. Os três
depoimentos aparecem logo no início do texto, todos eles enaltecendo o uso dessas drogas
para melhorar o desempenho nos estudos e no trabalho:
“[...] O resultado foi incrível. Consegui estudar 12 horas sem parar”.
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“[...] senti um belo aumento na minha concentração [...]”
“Fiquei mais inteligente, tudo o que estudo é mais bem aproveitado [...]”
(NOGUEIRA, 2009, p. 63).
A matéria da SI, assim como a da SAB, ao utilizar argumentos científicos também faz
uso de citações diretas de cientistas que são referência mundial, mas só que faz isso de
maneira menos intensa, pois elas aparecem em menor quantidade, ao longo de um texto com
10 páginas, enquanto na SAB elas são utilizadas em maior quantidade, em matéria com
menos páginas (oito). Ainda assim, O Cérebro... (com 21) e A Pílula... (com 10) ocupam,
dentro da subcategoria Saúde, a liderança e a vice-liderança, respectivamente, no uso de
citações diretas.
A Pílula... também tem a preocupação de tornar as citações diretas assimiláveis para o
leitor comum, ou seja, são afirmações sem muitas palavras técnicas. Em alguns casos, a
revista opta mesmo por esmiuçar a afirmação do cientista:
Um estudo feito no King’s College, em Londres, descobriu que o modafinil
funciona de maneiras diferentes em pessoas diferentes. “Nossos resultados
indicam que o QI alto pode limitar a detecção dos efeitos positivos da
droga”, afirma Delia C. Randall, autora da pesquisa. Traduzindo: ele faz
mais efeito nas pessoas menos inteligentes. (NOGUEIRA, 2009, p. 71, grifo
nosso).
No que tange às ilustrações O Cérebro... e A Pílula... utilizam praticamente a mesma
quantidade, pois a primeira usa nove e a segunda possui apenas uma ilustração a menos. As
duas matérias também diversificam quanto à espécie das ilustrações, pois fazem uso de
desenhos, fotografias, gráficos e quadros. As diferenças surgem, portanto, quanto ao tipo de
conteúdo, pois em A Pílula... todas as ilustrações são do tipo independente, isto é, não foram
citadas no texto, embora esse fato não comprometa o entendimento da matéria. As quatro
fotografias que ilustram o texto de SI, por exemplo, são os recursos gráficos que mais
chamam atenção, por serem bastante sugestivas. Em todas elas há indivíduos, em contextos
específicos, onde apenas um deles se destaca, pela evidente cabeça com tamanho avantajado,
sugerindo ser aquele o que tomou “a pílula da inteligência”. Na primeira fotografia (Figura 8),
que mostra três indivíduos em ambiente de trabalho, apenas um deles possui a cabeça enorme,
justamente aquele que olha para o computador e acha “um relatório lindo e um Excel
encantador” (p. 62). Na segunda fotografia (Figura 9), mesmo em ambiente de descontração,
apenas uma das três mulheres possui a cabeça com proporções avantajadas, logo a que afirma
que “o governo finalmente desindexou a dívida mobiliária federal” (p. 64).
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FIGURA 9
Ilustração da matéria A Pílula da Inteligência
Fonte: NOGUEIRA, S. A pílula da inteligência. Superinteressante,
São Paulo, ed. 271, p. 64, nov. 2009.
A terceira fotografia (Figura 10) também apresenta um rapaz com a cabeça avolumada
emendando a leitura do clássico Ulisses com um DVD do Bergman e que afirma nunca pensar
ser “tão divertido” essa atividade. A quarta e última fotografia (Figura 11) mostra uma sala de
aula em que apenas o aluno da cabeça com tamanho maior que a dos outros é capaz de
responder à pergunta da professora e ainda afirmar que “essa é fácil”. Os recursos gráficos
utilizados pela SI são bem mais simples e de fácil entendimento que aqueles utilizados pela
SAB.
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FIGURA 10
Ilustração da matéria A Pílula da Inteligência
Fonte: NOGUEIRA, S. A pílula da inteligência. Superinteressante,
São Paulo, ed. 271, p. 68, nov. 2009.
FIGURA 11
Ilustração da matéria A Pílula da Inteligência
Fonte: NOGUEIRA, S. A pílula da inteligência. Superinteressante,
São Paulo, ed. 271, p. 70, nov. 2009.
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Em O Cérebro... porém, das nove ilustrações sete são do tipo independente, mas duas
são indicativas, ou seja, trazem esclarecimentos sobre algo já contido no próprio texto. A
primeira ilustração do tipo indicativo, que só aparece na penúltima página da matéria, é um
quadro (p. 44), intitulado O Futuro das Pílulas (Figura 12), que explica a intenção dos
fabricantes em desenvolver medicamentos para combater diversas formas de demência. Dessa
forma, aparecem bem detalhadas quatro classes de medicamentos, como funciona cada uma
delas e quem irá desenvolvê-las.
FIGURA 12
Ilustração da matéria O Cérebro Turbinado
Fonte: STIX, G. O cérebro turbinado. Scientific American Brasil,
São Paulo, n. 90, p. 44, nov. 2009.
A outra ilustração indicativa presente em O Cérebro... também é um quadro, desta
vez com desenhos, localizado na última página da matéria (p. 45), cujo título é Como se
Fosse Ontem (Figura 13), que explana, de forma minuciosa, como atuam no cérebro os
medicamentos que aumentam a cognição, agindo em moléculas envolvidas na memória de
longo prazo.
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FIGURA 13
Ilustração da matéria O Cérebro Turbinado
Fonte: STIX, G. O cérebro turbinado. Scientific American Brasil,
São Paulo, n. 90, p. 45, nov. 2009.
1.1.3 A Energia Escura do Cérebro
O artigo publicado por SAB, A Energia Escura do Cérebro, alcança a terceira
posição, dentro da subcategoria Saúde, no uso de termos especializados. São 50 termos no
total e incluindo as repetições esse número atinge a quantidade de 115. Marcus E. Raichle,
professor de radiologia e neurologia da Escola de Medicina da Washington University, relata
como algumas atividades do cérebro, de caráter ainda não definido pela ciência, podem
esclarecer sobre doenças e também sobre a própria questão da consciência.
No texto, muitas vezes, o uso do termo especializado pode variar em função de um
mesmo foco. O autor cita, por exemplo, seis tipos diferentes de atividades que ocorrem no
cérebro humano: atividade neural, atividade elétrica, atividade neuronal, atividade intrínseca,
atividade de base subjacente e atividade geral. São utilizados também termos bem específicos
da radiologia, área de atuação do autor, entre eles destacam-se: neuroimagem, tomografia por
emissão de pósitrons, ressonância magnética funcional, entre outros.
A compreensão do leitor comum, ainda que esse não seja o público predominante da
SAB, pode ficar comprometida se o jargão técnico não for devidamente explicado. Em alguns
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casos, pode até mesmo contribuir para afastá-lo de um possível interesse pelo tema, visto que
o artigo diz respeito a algo que faz parte do cotidiano de todos indistintamente, especialistas
ou não.
Os elementos explicativos presentes em A Energia Escura... porém, aparecem em
quantidade reduzida, apenas 11, em relação à quantidade de termos especializados. Na
maioria das vezes, as explicações presentes no texto aparecem incluídas por meio de
parênteses, que, com freqüência, trazem a elucidação de siglas. No entanto, como o autor do
artigo é norte-americano, as siglas provêm de expressões da língua inglesa e o esclarecimento
sobre elas, geralmente, é ineficaz para o leitor que não possui o domínio daquela língua. Mas,
até mesmo para o leitor que domina o idioma, as explicações das siglas também podem não se
mostrar eficazes, pois é preciso conseguir associá-las às especificidades da área. Como nos
exemplos que seguem:
Fator fundamental para a compreensão do funcionamento padrão do cérebro
foi a descoberta de um sistema cerebral até então não reconhecido que
recebeu o nome de “rede do modo padrão” desse órgão (DMN, sigla da
expressão em inglês default mode network). (RAICHLE, 2010, p. 22, grifo
nosso).
[...] em 1970, veio a tomografia por emissão de pósitrons (PET, de pósitronemission tomography) [...] (p. 24, grifo nosso).
[...] seguida em 1992 pela captação de imagem por ressonância magnética
funcional (FMRI, de functional magnetic resonance imaging) [...]. (p. 24,
grifo nosso).
Outras vezes, a explicação para o termo especializado, além de não apresentar clareza,
ainda surge acompanhada por uma expressão em inglês. Como no caso em que o autor fala
em “atividade intrínseca” para, logo depois, incluída por meio dos signos de pontuação
travessão e parênteses, aparecer a seguinte explicação: “ – a atividade constante que fica ao
fundo (background activity) – ” (RAICHLE, 2010, p. 24). O autor, no entanto, consegue
deixar o texto mais leve e explicar melhor um fato apenas quando esboça atitude de
aproximação com o leitor, pois “uma maneira utilizada para aproximar o leitor do texto é
situar a temática em acontecimentos do seu cotidiano” (GONÇALVES, 2008, p. 21). Isso
acontece logo na primeira página do artigo, quando o leitor é convidado a imaginar situações
que, de fato, façam parte do seu dia-a-dia:
Imagine que você esteja quase adormecendo numa espreguiçadeira, com
uma revista no colo. De repente, uma mosca pousa em seu braço. Você
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apanha a revista e com ela esmaga o inseto. O que aconteceu em seu
cérebro depois que a mosca assentou? E o que aconteceu pouco antes?
Muitos neurocientistas supõem que boa parte da atividade neural no cérebro
em situação de repouso se equipare ao estado controlado, sonolento, da
pessoa.
[...] enquanto sua mente está em descanso – quando você sonha acordado
em uma cadeira, está adormecido na cama ou anestesiado para cirurgia -,
áreas dispersas do cérebro “tagarelam” entre si.
Na verdade, fazemos a maioria das coisas conscientemente, tanto sentar
para jantar como levantar-se para um discurso [...].
[...] o sistema motor do cérebro tem de estar acelerado e pronto quando você
sente cócegas devido à presença de uma mosca em seu braço.
(RAICHLE, 2010, p. 22, grifos nossos).
Embora o diálogo autor / leitor seja uma constante na revista SI, como visto
anteriormente na análise da matéria A Pílula da Inteligência, em revistas como a SAB esse é
um recurso pouco usual. Isso pode ser explicado pelo fato de que as matérias de SI são
geralmente escritas por jornalistas, enquanto a maioria dos textos da SAB é de autoria dos
próprios cientistas / pesquisadores.
Quando o próprio pesquisador é responsável pela redação, verifica-se um
grande esforço para se fazer entender. O uso de apostos, explicações,
definições e ainda o uso de figuras de linguagem como analogia,
comparação e metáforas são recursos para aproximar a ciência do público
leigo, uma forma de tornar a linguagem científica, carregada de jargões, em
uma linguagem mais facilmente assimilável. (GONÇALVES, 2008, p. 20).
Dessa forma, o uso de termos figurados, no total de 36, em A Energia Escura...
demonstra um esforço do autor para deixar o texto mais inteligível para o leitor não
especializado. Embora seja importante ressaltar que:
[...] a interação por intermédio do texto não depende exclusivamente do
redator e do seu domínio sobre as formas de expressão, mas também do
leitor e do seu grau de informação sobre a matéria e do envolvimento com o
conteúdo, mais próximo ou mais distante dependendo dos seus interesses e
dos objetivos com a leitura. (GONÇALVES, 2008, p. 20).
Assim, nessa tentativa de criar proximidade com o leitor, o autor de A Energia
Escura... utiliza analogias para explicar fatos e / ou situações bem específicos da área, muitas
vezes de difícil entendimento, mas que atingem maior clareza pelo uso desses recursos. A
seguir, alguns exemplos:
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[...] a atividade no cérebro em repouso representa nada mais que ruído
ocasional, semelhante ao padrão de “chuviscos” na tela de TV quando
uma estação não está no ar.
[...] cabe à DMN [“rede do modo padrão”] um papel crítico na sincronização
de todas as partes do cérebro – de modo que, como corredores numa
competição de atletismo, elas estejam no modo adequado de
“preparadas” quando é disparado o tiro de partida. (RAICHLE, 2010, p.
22, grifos nossos).
A orquestra sinfônica proporciona uma metáfora adequada, com sua
integrada “tapeçaria” de sons provenientes de múltiplos instrumentos que
tocam no mesmo ritmo. Os SCP [atividade elétrica cerebral conhecida como
potenciais corticais lentos] equivalem à batuta do regente. (p. 26, grifos
nossos).
Explicar o papel da DMN na sincronia das partes do cérebro, ou ainda como
funcionam os SCP, sigla em inglês sem tradução no texto, já é tarefa complicada, imagine se
o autor não tivesse recorrido à ajuda de termos figurados. Comparar o cérebro a uma
orquestra sinfônica ou relacionar a DMN a corredores de atletismo, por exemplo, demonstra,
sim, uma preocupação do autor de A Energia Escura... com o leitor não especializado.
Porém, tais comparações são feitas em função de um público leitor mais requintado e menos
popular, visto que exige certas noções de uma competição de atletismo e sobre orquestra
sinfônica, pois “quanto mais familiar forem as palavras utilizadas, maior será a possibilidade
de que um texto seja compreendido” (GOMES, 2000, p. 130).
No que diz respeito às fontes de informação o artigo de SAB cita no total: quatro
especialistas, sendo que apenas um deles mereceu a única citação direta utilizada em todo o
texto; três Universidades / Instituições e 19 outros tipos de fontes. Neste último caso, chama
atenção a quantidade de vezes (seis no total) em que o autor de A Energia Escura... faz
referência, ainda que em muitos casos de forma indireta, a si próprio:
[...] nosso grupo deu a essa atividade intrínseca o nome de energia escura do
cérebro [...].
No começo, nossos estudos foram recebidos com ceticismo. Em 1998 até
um ensaio nosso sobre essas descobertas foi rejeitado.
Outros pesquisadores, no entanto, reproduziram nossos resultados.
(RAICHLE, 2010, p. 25, grifos nossos).
Nossa pesquisa determinou que as flutuações espontâneas observadas nas
imagens bold eram idênticas às dos SCP [...] (p. 26, grifos nossos).
Tanto o nosso trabalho quanto o de outros pesquisadores [...]. (p. 25, grifos
nossos).