A PECUÁRIA EM ARAGUAÍNA NO CONTEXTO DA FRONTEIRA

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A PECUÁRIA EM ARAGUAÍNA NO CONTEXTO DA FRONTEIRA AGRÍCOLA
(1960-1990)
Reges Sodré da Luz Silva Dias
João Manoel de Vasconcelos Filho
A PECUÁRIA EM ARAGUAÍNA NO CONTEXTO DA FRONTEIRA
AGRÍCOLA (1960-1990)
LIVESTOCK IN ARAGUAÍNA IN THE CONTEXT OF THE AGRICULTURAL
FRONTIER (1960-1990)
Reges Sodré da Luz Silva Dias
Graduado em Geografia pela UFT – Campus de Araguaína
[email protected]
João Manoel de Vasconcelos Filho
Prof. Dr. do Departamento de Geografia UFRN/CERES/CAICÓ
[email protected]
RESUMO
Este trabalho tem por objetivo descrever o crescimento da pecuária em Araguaína tendo
por base o quantitativo de bovinos e a concentração da terra. Buscou-se entender a
expansão da pecuária nesse município no contexto da fronteira agrícola, sob a égide da
atuação do estado e do capital privado nacional. Os dados apontam que Araguaína se
torna grande produtora de bovinos a partir da década de 1980, quando o quantitativo de
cabeças supera os quatrocentos mil, paralelo a isso ocorreu à intensificação da
concentração de terras.
Palavras-chave: Araguaína, pecuária, fronteira agrícola.
ABSTRACT
This paper aims to describe the growth of livestock in Araguaína based on the quantity
Revista Tocantinense de Geografia, Araguaína (TO), Ano 04, n.06, Agost-dez. de 2015.
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of cattle and land cancentration. He sought to understand the livestock expansion in this
municipality in the context of the agricultural frontier, under the domain of the
performance of the state and national private capital. The data show that Araguaína
becomes a major producer of cattle from the 1980s, when the amount of heads exceeds
four hundred thousand, parallel to this was the intensification of land concentration.
Keywords: Araguaína, livestock, frontier agricultural.
Introdução
A situação de fronteira agrícola, com a maciça presença do estado e do grande
capital privado, passou a qualificar Araguaína a partir da construção da rodovia BR-153
na década de 1960. Novas ações e objetos passaram a atuar sobre o território,
modificando e dando novo significado as ações dos agentes produtores. São acelerados
os movimentos, as interações espaciais e as trocas culturais.
Momento crucial dessa formação sócio-espacial situa-se, nesse sentido, no
período de 1960 a 1990, quando as sementes do que hoje essa cidade se constitui foram
lançadas. De um, lado à expansão das atividades urbanas instituíram-se como face da
geopolítica de ocupação da Amazônia, cuja tradução foi os “polos de desenvolvimento”.
Não obstante, foi nesse período que se formou a base produtiva do campo, com
a instauração da produção pecuarista voltada para o mercado, primeiramente nacional,
mas, nos últimos anos alcança a internacionalização, tanto do produto como da
produção. Nesse contexto, esse trabalho vem descrever as bases territoriais e sociais de
algumas nuanças do crescimento da pecuária no município de Araguaína. Além disso,
levanta algumas questões que merecem pesquisa quanto a esse tema, mas que aqui não
foi explorado.
Fronteira agrícola e o crescimento da pecuária em Araguaína
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Martins (2009) vê a fronteira como um lugar do conflito, em que sujeitos com
diferentes temporalidades históricas e sociais entram em conflito, em luta pelo destino
das condições de dominação e apropriação do território – é no extremo a fronteira do
humano. Ele privilegia o lado da vítima na compreensão da fronteira, isto é, os índios,
os camponeses e os pequenos agricultores, os quais são vistos como obstáculos ao lado
de cá, do branco, que visa essencialmente à ampliação da acumulação do capital,
independente do que seja necessário superar, essa condição deve ser atingida. Para ele
“a figura central e sociologicamente reveladora da realidade social da fronteira e de sua
importância histórica não é o chamado pioneiro”. Mais, “a figura central e
metodologicamente explicativa é a vítima” (MARTINS, 2009, p. 10).
Segundo o autor sem essa postura metodológica corre-se o risco de não se
observar e analisar o principal na fronteira, que é o aspecto trágico, esse se manifesta no
genocídio, nos homicídios, no rapto/captura do outro, na expulsão de camponeses de
suas terras e no trabalho escravo.
Essa modalidade de exploração do trabalho se traduz em acumulação
primitiva porque é, em parte, produção de capital no interior do processo de
reprodução ampliada do capital. Isso fica claro se entendermos que,
historicamente, pode-se falar em reprodução capitalista de capital,
reprodução de capital com base em relações formalmente capitalistas de
produção. Mas não se pode falar em produção, capitalista de capital, pois a
produção do capital envolve mecanismos e procedimentos próprios da
acumulação primitiva [...]. O resultado é capital, é capitalista, mas o modo de
obtê-lo não o é (MARTINS, 2009, p. 82. Grifo no original).
Essa é a essência da expansão do capital na fronteira amazônica a partir de
1950, não se configurando como um acidente, mas revelando sua própria estrutura.
Assim, o grande latifúndio expande seu território na Amazônia, através do poder
pessoal que seus proprietários logram – “um poder de vida e de morte” (MARTINS,
2009, p. 76), ainda que camuflado por sistemas de objetos e de ações próprio do meio
técnico-científico-informacional.
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Becker (1974, 1990a, 2007, 2013) não nega os conflitos presentes na fronteira,
mas a perspectiva é diferente da precedente, o olhar é direcionado a fronteira móvel,
fronteira enquanto recurso – frente pioneira, no qual é privilegiada a expansão do capital
e da força de trabalho, produzindo novos usos do território. Seus escritos avaliam, entre
outras coisas, o impacto das ações exógenas, expressos na malha programada – vetor
técnico-político, no desenvolvimento da região.
Redes de circulação rodoviária, de telecomunicações, urbana, etc., subsídios
ao fluxo de capital através de incentivos fiscais e crédito a baixos juros,
indução de fluxos migratórios para povoamento e formação de um mercado
de trabalho regional, inclusive com projetos de colonização, e superposição
de territórios federais sobre os estaduais, compuseram a malha tecno-política
(BECKER, 2007, p. 27).
Tal malha como está implícito na citação, foi comandada pelo Governo
Federal. Este criou em 1953 a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da
Amazônia (SPVA) através da Lei nº 1.806 de 06.01.1953 –Art. 2º, visando o
planejamento econômico e geopolítico, por meio da ocupação da região. A área de
atuação da SPVA incluiu os territórios federais do Acre, Amapá, Guaporé (hoje
Rondônia) e Rio Branco, parte do Mato Grosso (na época o Mato Grosso ainda não
tinha sido dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), Maranhão, e de Goiás a
norte do pararelo 13º, justamente a área que posteriormente seria o Tocantins.
O primeiro meio técnico utilizado a esta ocupação foi à abertura de rodovias,
sendo que “a rodovia Belém-Brasília1 foi à primeira artéria estabelecida para conectar a
Amazônia aos centros dinâmicos do País” (BECKER, 1979, p. 148). A mobilidade da
força de trabalho e de capital por e, no entorno desta rodovia foi notável, levando a
mudanças na forma e nas funções dos espaços por ela cortados. No entanto, alguns
territórios, em que pese outros variáveis (como a situação geográfica), foram melhor
beneficiados pela sua construção.
É importante ressaltar que “a área da Belém-Brasília não é das mais dinâmicas
dentro da fronteira de recursos [...] classifica-se como de ‘colonização em lento
1
Denominação Belém-Brasília é usada por Bertha Becker em vários trabalhos e também por Martins
(2009), entre outros autores de renome nacional. No entanto, será adotada nesse trabalho a nomenclatura
BR-153 de acordo o nome dado pelo DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e o
IBGE à Rodovia Federal que corta Araguaína. Em algumas publicações do DNIT essa rodovia aparece
também com o nome Transbrasiliana.
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crescimento’” (BECKER, 1977, p. 36), o que torna a ajuda do estado elemento vital no
desenvolvimento econômico e social da região. A ação do estado, na verdade, traduziuse pela transferência de mais-valia social para o setor privado nacional, promovendo a
ocupação produtiva desses espaços por meio de interesses individuais.
Os “fazendeiros médios e grandes, pecuaristas do Sul, principalmente de São
Paulo, constituem o novo grupo dominante” (BECKER, 1990b, p. 132), por que essa
atividade foi o principal “agente de ocupação espacial” através de “incentivos fiscais”
(BECKER; BERNARDES, 1976, p. 9) do corredor da rodovia BR-153. Isso indica que
esse grupo passou a influenciar de forma contundente a organização da cidade, nela os
serviços tendem a ser instalados em função do poder aquisitivo e da dinâmica dos
produtores rurais.
Almeida e David (1981, p. 17) ressaltam que esta região “experimentou
crescimento rural intenso” através da expansão espontânea ou subsidiada pelo estado.
Nesse mesmo sentido Machado (1992, p. 39) afirma que “a maior parte dos projetos
pastoris se localizam em áreas marginais da Belém-Brasília”, ainda na sua avaliação,
“dos 950 projetos aprovados pela SUDAM, 631 foram para a pecuária, sendo que o
tamanho médio das fazendas era de 24 000 ha”.
De acordo com Becker (1974, p. 20), “a preferência pela criação de gado se
explica por ser ela a atividade mais rentável para ocupar grandes espaços” sem
dispensar pomposos investimentos “e pela valorização do produto nos mercados do
Sudeste e também, agora, no de Belém, nas Guianas e na Venezuela”. Dessa forma,
parece haver acordo entre os estudiosos quanto a principal atividade utilizada na
ocupação de Araguaína e região e os dados dispostos no quadro 1 confirmam a tese.
Quadro 1 – Ranking dos municípios maiores produtores de bovinos no Tocantins (1960-1990)
Anos
Municípios
Quantidade de bovinos
Posição
97837
Porto Nacional
1º
96286
Cristalândia
2º
72569
1960 Palmeiras de Goiás
3º
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Araguacema
Filadélfia
Formoso do Araguaia
Gurupi
1970 Palmeiras de Goiás
Cristalândia
Gurupi
Araguaína
Araguaçu
1980 Peixe
Porto Nacional
Paranã
Araguaína
1990 Araguaçu
Arapoema
Cristalândia
Peixe
Fonte: IBGE, 1970, 1974. IPEIADATA, 1980, 1990.
60999
59666
90392
77108
70193
65057
58386
322487
166009
154003
115138
113521
480000
212000
196600
128000
127000
4º
5º
1º
2º
3º
4º
5º
1º
2º
3º
4º
5º
1º
2º
3º
4º
5º
Veja que Araguaína surge em nível estadual como uma importante produtora
de bovinos somente em 1980, até então o quantitativo de bovinos no município era
irrisório em relação ao cenário regional, a partir de então ela sempre figurou entre os
principais produtores regionais. A especialização produtiva em Araguaína foi induzida
pelo processo de ocupação planejado pelo estado brasileiro, criando e fortalecendo,
evidentemente uma “cultura pecuarista” nesse município. A presença de Arapoema,
Santa Fé do Araguaia e Filadélfia entre os primeiros colocados acena que se trata de um
processo regional, com proeminência de Araguaína.
Para se ter uma ideia em 1960 dos 36 municípios do norte goiano Araguaína
figurava em trigésimo primeiro na produção de bovinos com apenas 8044 cabeças, isto
representava 0,68 % do total. Em 1970, existiam 52 municípios, ela elevou-se à décima
sexta posição com 45123 mil cabeças, representando 3,60%. Em 1980 ela se torna a
maior produtora de bovinos do estado, com mais de trezentos mil cabeças. Esses
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números demonstram que esse espaço na verdade não era um grande produtor de
bovinos no cenário regional, tal reversão foi induzida por iniciativas privadas e públicas.
Não obstante, houve expressiva expansão da produção de bovinos no Norte
Goiano/Tocantins, cada vez mais, a participação deste grupo dos cincos maiores
produtores foi reduzida em relação ao total regional. Essa atividade, a partir da criação
da BR-153, passou a marcar presença em todos os municípios tocantinenses, ou seja, a
acumulação capitalista a partir de então esteve em grande medida a ela associada.
Outro indicador da expansão da pecuária em Araguaína é encontrado no uso do
solo, o qual apresentou um aumento das pastagens de modo espetacular entre 1960 a
1985 (ver tabela 1). Em 1960 tinha-se escassa expansão das pastagens, com predomínio
das naturais, expressando o caráter pouco intensivo e desenvolvido da atividade. Em
1970 todos os usos do solo passaram por crescimento em sua área, especialmente as
pastagens plantadas que superaram as naturais, a partir da interferência de um novo
modelo de ocupação advindo com a expansão da frente pioneira. Ainda assim, nesse
período os arranjos naturais eram predominantes, é somente nos anos 1985 que a
pecuária se torna hegemônica em termos de área usada, ocupando 63,62% do território,
e as matas e florestas diminuem sua participação no total, ainda que apresentasse
crescimento absoluto.
Tabela 1 – Uso do solo em hectares no município de Araguaína, 1960, 1970, 1985.
1960
%
1970
%
1985
%
196
930
12195
3673
17320
0
0,57
2,71
35,53
10,7
50,47
1734
13354
22786
72763
181389
303
0,59
4,56
7,79
24,89
62,04
0,1
585
11877
40994
461150
274478
36
0,07
1,5
5,19
58,43
34,78
0,004
Total
34314
Fonte: IBGE, 1970, 1974, 1991.
99,98
292329
99,97
789120
99,97
Usos
Lavouras permanentes
Lavouras temporárias
Pastagens naturais
Pastagens plantadas
Matas e florestas naturais
Matas e florestas artificiais
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Houve também significativa retração das lavouras permanentes e temporárias.
O aumento no período de 1970 foi uma situação efêmera no contexto do uso do solo, e
se explica em razão da necessidade, no primeiro momento, de desbravamento do
cerrado e, no segundo, de ceder espaço a pecuária. Dessa forma esses três períodos
elucidam um fato e uma tendência: expansão horizontal da pecuária; e tendência ainda
não materializada à intensificação da mesma com uso de pastagens plantadas em menor
área.
Concentração da terra
A questão da terra sempre esteve ligada a história geográfica brasileira. Desde
o período colonial a contemporaneidade percebe-se sua inserção na questão econômica,
social, política e cultural desse país, ainda que pese as diversidades regionais. Ela
sempre se pautou em mecanismos de inclusão marginal, ou precária, desde o regime de
sesmarias, passando pela Lei de Terras de 1850, Estatuto da Terra e a Constituição de
1988.
Conforme Martins (1994) no regime de sesmarias as terras eram doadas pelo
Rei aos sesmeiros de modo condicional, pois, tinha apenas o direito de posse e de uso,
caso não fosse usada economicamente voltaria à coroa. Tal direito dependia da pureza
de sangue do concessionário, sendo negado o acesso aos mouros, aos judeus, aos negros
e escravos. Quando houve a abolição da escravidão e a criação da Lei de Terras de 1850
esta não teve por finalidade “a liberalização do acesso à terra, ao contrário, o objetivo
foi justamente: instituir bloqueios ao acesso à propriedade por parte dos trabalhadores,
de modo que eles se tornassem compulsoriamente força-de-trabalho” das fazendas
colossais (MARTINS, 1994, p. 76).
A aquisição da terra a partir de então se dera por meio da compra, o que
inviabilizou o acesso por parte dos trabalhadores. A resolução do impasse foi
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relativizada, tendo em vista as relações gestadas entre estado e questão da terra no
Brasil, pois, em diversos momentos da história e, nas distintas regiões houve grilagem
consentida e doação de terras por parte do estado aos latifundiários.
Na análise de Martins (1994) fica evidente como o estado brasileiro sempre
obliterou a questão agrária, no sentido de efetivar a reforma agrária, tanto no momento
de Ditadura Militar quanto na ulterior redemocratização. O que tem ocorrido nos
recentes anos é “a injeção de dinheiro no sistema de propriedade que modernizou
parcialmente o mundo do latifúndio” mantendo-se a propriedade da terra, o que afasta a
“alternativa de uma reforma agrária que levasse a expropriação dos grandes
proprietários de terra com sua consequente substituição por classe de pequenos
proprietários” (MARTINS, 1994, p. 80).
O resultado é a miríade de grandes propriedades nas mãos de poucos
proprietários, negando aos pobres o acesso a terra, fortalecendo a expulsão de
trabalhadores, camponeses e pequenos proprietários, aos centros urbanos. Conforme
Martins (1997) com a mão-de-obra expulsa e excedente agrava-se a miséria no campo,
através da proliferação de uma massa de trabalhadores sazonais e transumantes
submetidos a intensos processos de desmoralização e exclusão social e, gerando
também miséria na cidade (onde o grande crescimento da população das favelas e
cortiços resulta em processos idênticos).
O quadro 2 elucida a questão da concentração da terra2 no município de
Araguaína. Nos dados, que levam em conta o processo de ocupação do município
enquanto frente pioneira (1960), até o ano de 1985, encontra-se a consolidação das
oligarquias rurais locais (a concentração da terra nesse município é processual, de modo
que tem seu pináculo no ano de 2006).
2
A fim de mitigar lacunas, define-se como critério de pequena propriedade àquelas com menos de 100
hectares. Essa definição obedece naturalmente alguns pressupostos, em primeiro lugar a disponibilidade
de dados do IBGE relativo a este grupo de área nos censos aqui analisados. Se levássemos em
consideração o critério oficial adotado pelo INCRA, as pequenas propriedades no Tocantins, conforme
publicação da EMBRAPA (2012) teriam entre 80 e 340 hectares, em conformidade com a lei nº 8.629, de
25 de fevereiro de 1993 em que são considerados pequenas propriedades aquelas que contêm entre 1 e 4
módulo fiscal, estes em Tocantins equivalem a 80 hectares, mas, os dados do IBGE não trazem essa
fragmentação por grupo de área, o que torna impossível tal elaboração. Pelo mesmo critério os grupos de
área acima de 1000 hectares serão considerados como de grandes propriedades, entre 100 e 1000 ficam as
médias propriedades (segundo o critério oficial média propriedade tem entre 4 e 15 módulos ficais,
enquanto as grandes acima de 15 módulos).
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Quadro 2 – Estrutura Fundiária de Araguaína em 1960, 1970, 1985, 1995, 2006.
Anos
Grupos de Área
Até 10
Estabelecimentos
%
Área
%
1
0,77
8
0,02
28
21,7
1024
2,83
67
51,93
15321 42,35
500 a 1000
27
20,93
13624 37,65
1000 a 2000
6
4,65
6200 17,13
Até 10
129
561
100
29,69
36177
2854
10 a 100
917
48,54
40197 18,05
100 a 500
335
17,73
86541 38,87
56
2,96
37046 16,64
1000 a 2000
20
1,05
28326 12,72
2000 a 5000
10
0,52
27627 12,41
1889
100
222591
100
127
11,21
555
0,06
10 a 100
309
27,29
16492
1,98
100 a 500
400
35,33
500 a 1000
111
9,8
10 a 100
1960 100 a 500
Total
1970 500 a 1000
Total
Até 10
1985 1000 a 2000
2000 a 5000
5000 a 10000
10000 a 100000
Total
100
1,28
102669 12,37
78530
9,46
92 8.12
130245
15,7
61 5.38
194597 23,45
24
2,12
169231
20,4
8
0,7
137244 16,54
1132
100
829563 99,96
Fonte: IBGE, 1970, 1974, 1991.
Em 1960 seis proprietários detinham 17,13% das terras. Neste período a
quantidade de estabelecimentos ainda era relativamente pequena, assim como a área
ocupada, o que não impedia uma distribuição assimétrica da terra. Nota-se que desde o
princípio do processo de ocupação de Araguaína essa forma de uso do solo foi
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estabelecida, o que certamente tem diversas implicações para a cidade e município.
Essa produção do espaço agrário araguainense liga-se ao contexto já analisado
da questão da terra no Brasil, mas situa-se especificamente no capítulo da expansão da
fronteira agrícola, ocorrida, sobretudo, a partir do período militar. Martins (1994)
mostra que os militares inviabilizaram a modernização do campo, por meio da reforma
agrária, pois, a ocupação da Amazônia realiza-se a partir da união entre capital
industrial e capital agrário, isto é, diversos empresários e outros sujeitos com alto poder
aquisitivo receberam isenção fiscal para adquirir terras na Amazônia, independente da
origem, enquanto legalidade foi nesse invólucro que ocorreram diversas grilagens.
Na década de 1970 observa-se a maior quantidade de proprietários de terra na
história do município de Araguaína, indicando que houve intenso processo de ocupação
por pequenos proprietários. Cerca de 1478 proprietários ocupavam terras com menos de
100 hectares, embora esse grupo representasse apenas, 19,33% da área total ocupada, ou
seja, o aumento do número de pessoas ocupantes não modificou a estrutura fundiária,
ela se manteve intacta em relação ao padrão inicial da década de 1960. No período
seguinte o que se verificou foi à consolidação do processo de concentração de terras.
Em 1985 apenas 8 fazendeiros detinham 16 % das terras cuja área era de 137244 mil
hectares.
Uma das consequências da concentração de terras pode ser expressa pelos
diversos conflitos na luta por sua posse, advindo dos deserdados deste processo
excludente, que se estabelece no bojo da territorialização do capital no campo. Assim,
são protagonistas da luta pela terra, de um lado, os indígenas, camponeses, sem terra e
posseiros, e de outro, fazendeiros e empresários rurais e urbanos.
As estatísticas divulgadas nos estudos “conflitos no campo Brasil” pela
Comissão Pastoral da Terra (CPT) desde 1995 até 2013 confirmam a premissa. Os
conflitos pela posse da terra envolveram nesse período 2514 famílias, na maioria sob
organização do Movimento dos Sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores do
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A PECUÁRIA EM ARAGUAÍNA NO CONTEXTO DA FRONTEIRA AGRÍCOLA
(1960-1990)
Reges Sodré da Luz Silva Dias
João Manoel de Vasconcelos Filho
Campo (MTC) e Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR). Houve a ocupação de 12
fazendas, sendo apenas uma considerada, pelos critérios aqui estabelecidos, média
propriedade, com 700 hectares, as outras não tinham menos que 2246 hectares, a maior
atingia área de 6000 ha, cuja ocupação procedeu-se por 1600 pessoas, no ano de 2000.
À guisa de conclusão
Esse trabalho procurou trazer uma discussão sobre como se constituiu a
formação da pecuária no município de Araguaína. Os dados apontaram que o
crescimento da pecuária ocorreu orientado por políticas públicas e ações privadas no
contexto da fronteira, foi, portanto, algo imposto de fora. Além disso, verifica-se
crescente concentração da terra, com poucos agentes ocupando grandes espaços. Ao
passo que houve retração das lavouras temporárias e permanentes.
Essa temática continua aberta e merece mais estudos. Nesse sentido algumas
questões se levantam: como tem se comportado a geração de empregos no setor
agropecuário ao longo do tempo (considerando empregos formais e informais)? Qual o
real alcance da Expoara para a economia da cidade? E quais as implicações que essa
festa tem à renovação dos métodos técnicos e organizacionais de reprodução da
pecuária no campo (corroborando para que ela continue hegemônica)? Existe relação
entre fazendeiros e o mercado imobiliário da cidade de Araguaína? Sem dúvida essas
questões ainda permanecem abertas, e tantas outras podem ser levantadas.
Referências
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Revista Tocantinense de Geografia, Araguaína (TO), Ano 04, n.06, Agost-dez. de 2015.
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