Chegar a um lugar desconhecido utilizando um mapa ou

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Paola Gentile
Chegar a um lugar desconhecido utilizando um mapa ou abrir o guia de ruas para traçar um
bom caminho é uma tortura para muita gente. Embora essas ações pareçam banais, realizá-las
com desenvoltura envolve uma série de conhecimentos que só são adquiridos num processo de
alfabetização diferente. Ele não envolve letras, palavras e pontuação, mas linhas, cores e
formas. É a aprendizagem da linguagem cartográfica.
Considerada essencial para o ensino da Geografia, a cartografia tornou-se importante na
educação contemporânea não somente para o aluno poder atender às necessidades que
aparecerão no seu cotidiano, como nos exemplos dados acima, mas para estudar o ambiente
em que vive. Aprendendo sobre suas características físicas, econômicas, sociais e humanas, ele
pode entender as transformações causadas pela ação do homem e dos fenômenos naturais ao
longo do tempo.
"Saber ler mapas faz com que a pessoa consiga pensar sobre territórios e regiões que não
conhece", afirma Rosângela Doin de Almeida, professora da Universidade Estadual Paulista,
membro do Grupo de Pesquisa em Cartografia Escolar e representante brasileira da
International Cartography Association (ICA). Ela afirma ainda que a tecnologia tem produzido
representações cartográficas cada vez mais sofisticadas. Sua linguagem é usada no ensino não
só da Geografia, mas também da História e das Ciências em geral. "Conhecê-la significa
adquirir boa parte do suporte necessário para a construção do conhecimento", enfatiza.
De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais de História e Geografia, todo aluno
precisa terminar o Ensino Fundamental sabendo interpretar cartas geográficas e capaz de
produzir representações próprias do espaço. São habilidades que se formam de maneira
gradual e, por isso, quanto antes começarem a ser desenvolvidas, maiores as chances de atingir
essas competências básicas.
Tema: Cartografia nos primeiros anos de escolaridade
Objetivo: Ler, interpretar e representar espaços físicos conhecidos, como a casa, a
escola e o bairro. Criar e ler símbolos e legendas. Adquirir noções de direção, sentido,
projeção, proporção, paisagem, escalas gráficas e numéricas
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Como chegar lá: Use brincadeiras e jogos infantis, proponha a construção de maquetes
e desenhos de mapas de trajetos familiares às crianças, mas não deixe de ensinar, a cada
etapa, os conceitos cartográficos envolvidos
Dica: O aprendizado da cartografia pode começar na Educação Infantil, mas vai
estender-se até o final do Ensino Médio. Portanto, introduza os conceitos com atividades
adequadas ao nível de desenvolvimento da turma
O vocabulário cartográfico é formado pelos mais diversos símbolos, que se
relacionam entre si. Eles são usados para representar no papel um espaço
reduzido, com apenas duas dimensões informações sobre o relevo, o clima, a
vegetação, a população e muitos outros dados sobre as mais variadas regiões.
Para compreender essa linguagem, o estudante necessita aprender, por exemplo, conceitos de
lateralidade e direção, habilidades que devem ser trabalhadas desde a Educação Infantil. São
estratégias importantes para, mais tarde, entender o posicionamento do espaço ilustrado pelo
mapa. Um outro passo é entender os sinais gráficos utilizados e os significados que eles podem
ter. Mais do que interpretar esses símbolos, a criança pode e deve criar sinais. O próximo passo
será imaginar legendas, para que outras pessoas possam "traduzir" essa representação.
Ao produzir maquetes e mapas com a turma, o professor tem a oportunidade de ensinar
conceitos de proporção, projeção, escalas gráficas e numéricas, mostrando todas as estratégias
que podem ser utilizadas quando se quer recriar uma paisagem.
Para um ensino eficiente, a maioria dessas habilidades precisa ser desenvolvida em maior ou
menor grau de dificuldade nas diversas séries. "A constância e a continuidade do aprendizado é
importante na apreensão do conhecimento cartográfico", afirma Diamantino Pereira, professor
do Departamento de Geografia e Coordenador do curso de especialização em Geografia da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O Colégio Monteiro Lobato, também na capital
paulista, introduz o ensino da cartografia nas turminhas de 4 anos e segue até o Ensino Médio.
Nas próximas páginas, você vai conhecer atividades bem-sucedidas na Educação Infantil e nas
primeiras séries do Ensino Fundamental.
Na Educação Infantil, o esboço dos primeiros ensaios cartográficos pode estar ligado ao
desenvolvimento de outras habilidades, como a atenção, a coordenação motora e a percepção
auditiva. É o caso da atividade batizada de O Som que Passeia.
A professora Martha Guimarães Rainho arruma a classe em quatro blocos de carteiras, cada
um coberto com tecido ou papel de cores diferentes, esquema que é reproduzido pelas crianças
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em folhas individuais. Todos devem ficar de olhos
fechados enquanto um colega passa por entre os grupos
tocando um instrumento musical. Martha pede para a
turma mentalizar o percurso feito pelo som e depois
fazer o traçado no papel. "O importante é trabalhar a
noção de lateralidade e direção de cada um", afirma.
Com isso, as crianças aprendem que direita, esquerda,
atrás e à frente são relativos o que introduz a
necessidade de definir pontos de referência. Ao final, a
professora discute os registros e executa novamente a
atividade, para as estudantes checarem e corrigirem os
mapas.
Uma vez por semana, os alunos de
Martha mudam os brinquedos
do parquinho de lugar e refazem a
maquete do pátio: observação detalhada
Para aguçar a percepção visual das crianças, Martha
promove a construção e a atualização da maquete do
que a ação humana modifica o ambiente
parquinho da escola. Com sucata, os alunos
confeccionam miniaturas dos brinquedos e as
distribuem sobre uma placa de cartão, madeira ou isopor, identificando cada peça com uma
legenda. Pelo menos uma vez por semana os próprios estudantes mudam os brinquedos de
lugar, o que os obriga a refazer, no pátio, a maquete. É uma introdução para o aprendizado de
escala: as crianças começam a perceber que a representação é diferente do real, mas obedece a
regras de proporção e localização. Martha aproveita para ensinar também o significado de
paisagem, que é tudo aquilo que o olhar pode apreender.
da paisagem e capacidade de perceber
"Desenvolver esse tipo de observação vai permitir, mais tarde, que o aluno identifique
elementos naturais e sociais como parte da realidade, e perceba que ela pode ser alterada por
fenômenos naturais ou pela intervenção humana", explica Diamantino Pereira.
No início do Ensino Fundamental, os alunos tornam-se produtores de mapas. Eles são
estimulados a observar e a representar espaços mais detalhados, como a escola e a própria
casa. Podem até iniciar o mapeamento do bairro, como fez a turma de 1ª série de Valéria
Tomaz. Com o traçado das ruas nas mãos, as crianças assinalam a da escola e a da casa com
cores diferentes. Elas têm de observar o percurso feito para ir à aula e anotar as referências do
caminho (casas comerciais, praças, áreas de lazer). Os trabalhos são avaliados em grupo,
comparando o que há em comum entre os trajetos.
Michelle Uliana, professora da 3ª série, sofistica o ensino de legendas iniciado na Educação
Infantil usando a brincadeira da Caça ao Tesouro. Ela apresenta à turma rótulos, logotipos e
sinais familiares para que eles os interpretem. Dessa forma, todos percebem que uma imagem
pode ser a representação de um local ou de uma palavra ou sentença.
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As equipes escondem um "tesouro" e criam símbolos para os espaços da escola. A cantina vira
hambúrguer ou garrafa; o pátio, escorregador ou balanço. Na criação do roteiro de orientação
para a equipe adversária, os alunos tomam contato com medidas e escalas. Valem mãos, braços
abertos, corpos e pulos para sair do ponto de partida e atingir o objetivo. Os alunos notam que
essas medidas incertas causam confusão. É aí que Michelle introduz o sistema métrico oficial,
mostrando a necessidade de padronização das medidas. Durante a disputa, ela segue as
equipes, observando os conceitos a reforçar em classe.
O primeiro contato com mapas reais é feito com o da cidade de São Paulo. Um cartaz com o
perímetro é colocado na parede da classe. Ele é abastecido de símbolos e legendas pelas
próprias crianças, estimuladas a representar os lugares da cidade que conhecem (parques,
praças, shopping centers etc). Na 4ª série, a turma vai poder elaborar um mapa mais completo
do bairro e do município.
Com a ampliação do universo de estudo geográfico, surge uma dúvida: por que a planificação
tem distorções? A professora Cristiane Zandoná, da 4ª série, usa uma laranja para ilustrar. Ela
desenha na casca o traçado dos continentes, faz dois cortes em forma de cruz na parte de cima
e de baixo da fruta e começa a descascá-la com paciência, para que não se rasgue. "Com a
casca esticada, todos compreendem que o desenhos sofreram ligeira modificação ao ser
planificados e que essa distorção está presente em todos os mapas com que eles tomarão
contato", afirma Cristiane.
Colégio Monteiro Lobato, Av. Zumkeller, 400, CEP 02405-000, São Paulo, SP, tel. (11) 6231-3473
BIBLIOGRAFIA
A Sala de Aula de Geografia e História, Celso Antunes, 192 págs., Ed. Papirus, tel. (19) 3272-7578,
22 reais
Do Desenho ao Mapa, Rosângela Doin de Almeida, 120 pág., Ed. Contexto, tel. (11) 3832-5838, 16,50
reais
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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 150, Maio 2003,
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