Roteiro de leitura e discussão do 5º encontro do Grupo de Estudo

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GOVERNO DO PARANÁ
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO
SUPERINTENDÊNCIA DE EDUCAÇÃO
DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO BÁSICA
Roteiro de leitura e discussão do 5º encontro do Grupo de Estudo
Geografia
PONTUSCHKA, Nídia Nacib: O Livro Didático de Geografia. In PONTUSCHKA, N.;
PONTUSCHKA, N. N. ; PAGANELLI, T. I. ; CACETE, N. H. . Para ensinar e aprender Geografia.
1ª. ed. São Paulo: Cortez Editora, 2007.
Após a leitura do texto, analise um livro didático de Geografia, adotado em sua escola,
segundo o roteiro a seguir:
a) Discuta a concepção teórica e os conceitos fundamentais da Geografia abordados no
livro didático adotado em sua escola e a relação com as Diretrizes Curriculares de
Geografia do Estado do Paraná.
PONTUSCHKA, Nídia Nacib: O Livro Didático de Geografia. In PONTUSCHKA, N.;
PONTUSCHKA, N. N. ; PAGANELLI, T. I. ; CACETE, N. H. . Para ensinar e aprender Geografia.
1ª. ed. São Paulo: Cortez Editora, 2007.
O livro didático de Geografia
Atualmente, a ampla produção cultural disponibiliza múltiplas linguagens
a ser utilizadas como auxiliares na compreensão e análise do espaço geográfico.
Não obstante, os livros didáticos continuam a ser o grande referencial na sala de aula
para alunos e professores das escolas públicas e privadas do País, embora sejam
utilizados de formas variadas: às vezes, permitindo que o aluno faça uma reflexão sobre o
espaço; muitas vezes, trabalhando com a Geografia
de modo tradicional e não reflexivo.
A variação de usos em sala de aula depende da relação existente entre os vários fatores:
a formação geográfica e pedagógica do professor, o tipo de escola, o público que a
freqüenta e as classes sociais a que atende.
Uma primeira reflexão a ser realizada é sobre o que vem a ser o livro didático. Este
recurso apresenta múltiplos aspectos, sendo uma produção cultural e, ao mesmo tempo,
uma mercadoria, devendo, portanto, atender a determinado mercado. É uma produção
que leva o nome de um ou mais autores, mas tem por trás todo um grupo de pessoas em
seu tratamento industrial antes de sua chegada às escolas e livrarias. Como mercadoria,
o importante para as editoras é que ele seja vendido, e é preciso considerar que o grande
comprador do livro didático é o próprio governo federal. Daí resulta o desejo das editoras
de que seu livro seja escolhido e bem avaliado pelo MEC - do contrário, o governo central
não vai comprá-Io1.
O professor, ao escolher um livro didático, não pode fazê-Io de forma aleatória, pois
alguma reflexão necessita ser realizada se o mestre tiver a consciência de que o alvo é,
no presente caso, o aprendizado geográfico. Cada disciplina tem suas exigências diante
de seu principal objeto de estudo e das linguagens que permitem o entendimento dele. No
ensino e aprendizagem da Geografia, há a linguagem textual, a qual exige que os autores
sejam especialistas, portanto, conhecedores da ciência e de seu ensino, mas é
imprescindível que o livro trabalhe com outras linguagens, para representar melhor o
espaço geográfico. Desse modo, não basta um texto bom, atualizado, se a diagramação
não contribuir para a compreensão daquilo que se quer ensinar.
Na Geografia, as representações gráficas e cartográficas são extremamente
importantes na ampliação de conhecimentos espaciais tanto do cotidiano dos estudantes
como de lugares distantes, sobretudo na atualidade, com o processo de globalização em
curso. Assim, gráficos e cartogramas devem interagir com os textos, complementado-os
ou até mesmo servindo para a organização pedagógica de suas aulas. Não se pode
1
Cf. BITTENCOURT, C. M. F. Livros e materiais didáticos de História. In: Ensino de História. São Paulo: Cortez, 2004. p. 295-234.
estudar Geografia sem essas linguagens.
Em relação aos atuais livros de Geografia, há propostas mais avançadas que
incluem, além de textos dos próprios autores, textos de jornais e revistas e mesmo de
outros autores, o que permite ao aluno o contato com linguagens não exatamente
didáticas que sejam ampliadoras da capacidade de leitura dos estudantes, não os
limitando a uma leitura didática e a somente uma proposta de ensino. Há livros que
inserem textos literários, o que contribui para a formação geral do aluno, ao ter a
oportunidade de conhecer autores como João Cabral de Melo Neto, Castro Alves,
Guimarães Rosa e muitos outros.
Os poemas, as músicas e todos os textos impregnados de poesia são importantes,
porque muitos deles foram construídos com base no conhecimento e na reflexão sobre
realidades locais ou regionais que, em interação com os eixos temáticos da Geografia e
seus conceitos básicos, permitem fazer um trânsito entre diferentes disciplinas.
O significado do livro didático. No Brasil, experiências de professores e de
estagiários dos cursos de licenciatura que freqüentam escolas públicas trazem
informações sobre livros didáticos adotados pelas escolas e, também, sobre a ausência
de livro na sala de aula.
Embora haja professores que não façam uso de livros didáticos, as razões para
esse procedimento são muito variadas. Há um grupo de professores, com boa formação e
grande compromisso com os alunos, capaz de fazer projetos individuais ou
interdisciplinares em suas escolas, usando textos de variados livros didáticos ou não,
filmes e saídas a campo, não se limitando a apenas uma produção didática. Esses
professores, ou se utilizam da sala de leitura de sua própria escola, ou possuem uma
biblioteca pessoal de Geografia que lhes permite "alçar vôos" no interior da sala de aula
com seus alunos. Por outro lado, existe outro grupo, com alunos sem acesso ao livro
didático, em que somente o professor possui o livro, utilizando-o como sua principal
bibliografia; o livro é do professor e não do aluno. O texto inteiro ou um resumo do texto é
escrito na lousa e os alunos passam o tempo da aula copiando a "lição", com explicações
rápidas ou, às vezes, sem explicações. Felizmente, este último caso existe, mas não é a
regra. Entre os dois pólos mencionados, há ampla variedade de usos do livro didático.
O livro didático de Geografia na realidade educacional do Brasil. Na atualidade,
uma conversa comum entre professores tanto do ensino fundamental e médio como do
ensino superior é que os alunos lêem pouco, e muitas vezes atribui-se a culpa por essa
situação aos próprios alunos, como se fossem os únicos responsáveis pela falta de
interesse na leitura. Esse é um dos grandes problemas vividos pelas escolas e,
sobretudo, pelos professores que desejam formar bem seus alunos. Ler bem é um valor
na construção da cidadania.
As temáticas geográficas tratadas na universidade e no ensino fundamental e
médio estão também na mídia, e então se poderia perguntar para que existe a escola,
quando se sabe que a televisão e os canais de maior aceitação do público espectador
atingem os grandes centros, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife e
Manaus, para citar apenas alguns, e também pequenos centros quase rurais de diferentes
regiões do País, do Amapá ao Rio Grande do Sul, do Rio Grande do Norte ao Acre. Essa
questão precisa ser enfrentada, pois a rapidez com que a mídia leva aos lares a
multiplicidade de informações, por vezes com belíssimas imagens da natureza e das
cidades, promove a veiculação de informações parcelares, fragmentadas e facilmente
esquecíveis. A escola, não tendo o ritmo de uma CNN ou mesmo de uma Globo, pode até
aproveitar informações trazidas pela mídia para transformá-Ias em conhecimento, mas
com a ajuda de outras vias de comunicação. As imagens invadem nossos lares e
encantam-nos, mas a criança e o adolescente sozinhos não transformam em
conhecimento tais informações, uma vez que não conseguem contextualizá-Ias nem
estabelecer nexos; é a escola que pode ajudá-Ios nessa tarefa.
O livro didático de Geografia não pode apresentar-se como um conjunto de
informações sem nexos ou correlações. Além de não ter a linguagem atraente da
televisão ou dos sites visualizados na internet - isso para considerar a camada da
população com acesso ao telefone e ao computador -, ele pode não contribuir para a
produção de um conhecimento que ajude o aluno a enriquecer sua visão de mundo
mediante estudos geográficos. Daí surge a importância de que os autores de livros
didáticos também descubram formas atraentes de tratar de assuntos relativos ao
cotidiano dos alunos do ponto de vista espacial e de outras realidades, os quais no mundo
globalizado em que vivemos interferem no cotidiano tanto do aluno quanto do professor.
O livro didático deveria configurar-se de modo que o professor pudesse tê-Io corno
instrumento auxiliar de sua reflexão geográfica com seus alunos, mas existem fatores
limitantes para tal.
O Brasil é um país de grande extensão territorial, constituído por realidades e
culturas muito diferentes, que os conteúdos do livro didático não têm condições de
abarcar. Daí advém a necessidade de um professor bem formado, que saiba relacionar os
conteúdos e as imagens do livro com as diferentes linguagens disponíveis e com o
cotidiano de seus alunos, tornando a sala de aula um lugar de diálogo e de confronto de
idéias diferenciadas. Com esse proceder, foge ao pronto e acabado, que poderia ser
apresentado aos alunos corno verdade absoluta. Nem a proposta de um livro nem as
idéias do professor são infalíveis; portanto, a relatividade do conhecimento precisa estar
sempre presente na análise de qualquer produção didática, a fim de que se trabalhe com
o aluno o dinamismo na construção do saber.
Apesar dessas críticas, dos limites que o livro didático impõe ao processo de
ensino e aprendizagem e do crescente interesse econômico no mercado editorial,
acreditamos ser preferível o aluno ter em mãos um livro de Geografia a não ter nenhum,
principalmente por sabermos que, no que tange a milhares de famílias brasileiras, o livro
não faz parte dos elementos culturais presentes em seus lares.
Critério de avaliação: um exemplo
Na escola, o livro de Geografia, assim como os de outras disciplinas, não costuma
passar por uma análise crítica da parte dos professores. Desse modo, sugere-se aqui um
critério composto de alguns itens básicos para a análise dele ou de outras produções
didáticas.
Capa: Uma das questões a ser verificadas é o conteúdo da capa. O que esse conteúdo
(imagem e texto) diz ao jovem leitor ou à criança sobre o livro? Trata-se de uma capa que
motiva a pessoa a abrir o livro e continuar a examiná-Io? Está adequada aos interesses
das faixas etárias a que se destina? Permite perceber minimamente a atitude teórica com
relação à Geografia por meio de seu título e das imagens? Outras perguntas podem ser
feitas em sua análise.
Autor ou Autores: Quem são os autores? São especialistas da disciplina escolar Geografia
ou não? Há alguns traços biográficos no início ou no fim do livro? Onde estudaram? Onde
lecionaram?
Público: O livro destina-se ao ensino fundamental ou médio? Quais são as diferentes
modalidades do público?
Apresentação do livro: Geralmente o autor faz uma apresentação do livro para os alunos
ou para o professor. O que diz sobre ele? Se o livro é destinado ao aluno, que linguagem
é utilizada, considerando a faixa etária do estudante à qual se destina?
Índice e estrutura do livro: Pelo índice, pode-se realizar uma primeira avaliação da
estrutura e da organização dos conteúdos. Quais são os temas priorizados? Eles
obedecem aos parâmetros curriculares ou às propostas dos órgãos centrais de
educação? É possível ver os conceitos geográficos hoje priorizados, tais como lugar,
região, espaço, território, sociedade, natureza ...?
Diagramação: Um livro pode apresentar um conteúdo bom, sem veicular preconceitos,
mostrando-se compatível com temas da atualidade geográfica. Todavia, se não houver
boa interação entre conteúdo e forma, torna-se difícil a compreensão do próprio conteúdo.
Portanto, esse aspecto precisa ser avaliado. Para uma turma de 5º e 6º ano, os textos
devem ser curtos, com imagens sugestivas e relacionadas ao conteúdo do texto. Para
classes mais velhas, a parte textual pode ser mais densa, mas em Geografia não se pode
prescindir de ilustrações, sobretudo de material cartográfico.
Imagens, representações gráficas e cartográficas: As imagens constituídas por fotos,
pinturas e gravuras são necessárias em um livro de Geografia, porque podem
complementar os textos; podem interagir com eles, sendo parte integrante de seu
conteúdo, e podem ainda ser empregadas em atividades em que sejam solicitadas aos
alunos reflexões sobre paisagens ou localidades quaisquer.
Proposta teórico-metodológica: A trajetória da Geografia como ciência apresenta aos
professores da disciplina vários caminhos teóricos a ser trilhados que vêm servindo de
base para a produção de material didático. São tendências mais tradicionais e outras mais
progressistas, muitas vezes denominadas críticas, que precisam ser detectadas na leitura
dos textos que tratam do espaço geográfico. Dificilmente um livro didático para alunos do
ensino fundamental e médio apresenta apenas uma direção teórica. Do ponto de vista
metodológico também há variações, caminhando desde propostas mais inovadoras,
tratando de temas espaciais com preocupações conceituais e de compreensão e domínio
de linguagens, até livros que ainda persistem na racional idade técnica, não exigindo a
mobilização das várias faculdades mentais do aluno.
Linguagem: Esse aspecto do. livro é de grande importância, porque, se o aluno tiver
diante de si uma linguagem inadequada à sua idade, do ponto de vista de sua
compreensão, ou distante de sua realidade, certamente o livro não será um auxiliar nem
para ele, aluno, nem para o professor na construção do conhecimento geográfico. O autor
que tiver compromisso com o público de estudantes e verdadeiramente desejar contribuir
para que o aluno cresça do ponto de vista de sua compreensão da realidade e de sua
relação no e com o mundo precisa estar atento para que, no livro, não exista apenas a
própria linguagem. Há necessidade da inclusão de poesias, músicas, textos de jornais, de
revistas e de outros autores que escrevam de forma mais erudita.
Atividades: As atividades podem colaborar no avanço da compreensão do conteúdo do
texto desde que tenham essa intenção. No entanto, não podem ser reprodução de
excertos do texto. Há uma série de atividades que podem ser propostas com o uso de
outros textos diferentes, não contidos no corpo do capítulo, com mapas, gráficos, imagens
de satélite e fotografias, constituindo um repertório de linguagens que o aluno precisa
conhecer e analisar para que, com base nesses elementos, desenvolva um processo de
criação, exigência das várias dimensões da vida.
Bibliografia: As fontes bibliográficas precisam ser sempre mencionadas no livro, e o papel
do professor é chamar a atenção e oferecer dados bibliográficos sobre os autores mais
utilizados. É importante que sejam sugeridos livros adequados à faixa etária da classe,
que tenham relação com os respectivos conteúdos e também com a realidade
socioespacial dos alunos.
A avaliação do livro didático. As editoras e os respectivos autores, sabendo que o
grande comprador de livros didáticos no País é o governo federal, têm procurado atender
às avaliações feitas pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), sob a
responsabilidade da Secretaria do Ensino Fundamental do Ministério da Educação e
Cultura, as quais vêm ocorrendo desde 1996 e abrangendo livros e coleções2.
Essa avaliação é constituída por um elenco de critérios que, se não forem
contemplados pelo autor, excluem a obra da lista de compra do MEC.
Maria Encarnação Spósito (2002) afirma que a avaliação diz respeito aos livros, e
não aos autores. Na avaliação, são utilizados dois critérios principais para a exclusão:
presença de erros conceituais ou de informação; presença de preconceito ou de indução
a preconceito. Segundo essa autora, as críticas do MEC e equipe de avaliadores, de um
lado, e das editoras e autores, de outro, produziram mudanças na posição de autores
envolvidos no processo e resultados positivos já começaram a aparecer.
Leituras complementares
BRASIL. Ministério de Educação e Cultura. Programa Nacional do Livro Didático.
Disponível em: <https://www.fnde.gov.br>. Acesso em: 7 fev. 2007.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Tradução de Reginaldo de
Moraes. São Paulo: Unesp: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999.
SP6SITO, Maria Encarnação. As diferentes propostas curriculares e o livro didático. In:
PONTUSCHKA, Nídia Naeib; OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de (Orgs.). Geografia em
perspectiva: ensino e pesquisa. São Paulo: Contexto, 2002.
SUERTEGARAY, Dirce Maria Antunes. Pesquisa e educação de professores. In:
PONTUSCHKA, Nídia Naeib; OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de (Orgs.). Geografia em
perspectiva: ensino e pesquisa. São Paulo: Contexto, 2002.
VESENTINI, José William. Educação e ensino da Geografia: instrumentos de dominação
e/ou libertação. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri. A Geografia na sala de aula. São
Paulo: Contexto, 1999.
2
Segundo o MEC, as escolas estaduais do Estado de São Paulo receberam do PNLD mais de 93 milhões de livros didáticos e mais de
13 milhões de paradidáticos. A escolha dos livros das escolas foi realizada pelos próprios professores, após receberem da
Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (Cenp) subsídios teóricos e metodológicos das respectivas obras.
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