Rev Pat Tocantins V. 3, n. 03, 2016 SOCIEDADEDE PATOLOGIA DO TOCANTINS REVIEW ARTICLE GLIOMAS IDH-MUTADOS: REVISÃO SOBRE DIAGNÓSTICO, PROGNÓSTICO E TRATAMENTO Camila Gomes¹, Danielle Umbelina Borges de Carvalho¹, Felipe Carvalho Miranda de Lima¹, Virgílio Ribeiro Guedes². RESUMO Gliomas são o tipo de neoplasia intracraniana mais comum e agressiva. Acometem pacientes por volta dos 65 anos de idade. Histopatologicamente, os gliomas podem ser classificados em graus I, II, III e IV. A partir da elucidação das mutações IDH 1 e 2 em 2009, pôde-se observar o aumento da sobrevida em pacientes com IDH-mutado em relação aos pacientes com IDH-selvagem. A espectroscopia de próton por ressonância magnética viabiliza o diagnóstico de gliomas IDH-mutados, influenciando a proposta terapêutica. O tratamento considerado como padrão-ouro consiste na radioterapia pós-cirúrgica em associação com a temozolomida. Palavras-chave: Gliomas; IDH; Mutação; Diagnóstico; Tratamento; Prognóstico. 1 Acadêmicos do Curso de Medicina pela Fundação Universidade Federal do Tocantins; Professor orientador do Curso de Medicina pela Fundação Universidade Federal do Tocantins, Brasil. Camila Gomes. Endereço para correspondência: Palmas – TO, quadra 605 sul, alameda 12, QI 6, lote 19; e-mail: [email protected]. 2 68 Rev Pat Tocantins V. 3, n. 03, 2016 SOCIEDADEDE PATOLOGIA DO TOCANTINS IDH-MUTATED GLIOMAS: REVIEW ABOUT DIAGNOSIS, PROGNOSTIC AND TREATMENT ABSTRACT Gliomas are the most common and aggressive type of intracranial neoplasia. Affect patients over 65 years old. Histopathologically, gliomas can be classified in grades I, II, III and IV. Starting from the discovery of IDH 1 and 2 mutations in 2009, the increase of survival in patients with IDH-mutated can be noticed regarding patients with IDH wild-type. The proton magnetic resonance spectroscopy enables the diagnosis of IDH-mutated gliomas, influencing the therapeutic proposal. The treatment considered as gold-standard is postoperative radiotherapy with temozolomide. Keywords: Gliomas; IDH; Mutation; Diagnosis; Treatment; Prognostic. 69 Rev Pat Tocantins V. 3, n. 03, 2016 SOCIEDADEDE PATOLOGIA DO TOCANTINS INTRODUÇÃO Histopatologia Em Os glioblastomas (GBT), tumores provenientes de células da geral, descobertos glia, tumores em de GBM primáriossão estágios alto tardios. grau Os apresentam correspondem a30% a 40% de todas as diferenças essenciais, o que caracteriza as neoplasias intracranianas, e são os mais variáveis agressivos, entanto, histologicamente, não é possível apresentando um mau respostas terapêuticas. No prognóstico1. Cerca de 90% dos GBT são distinguí-los. primários (não possuem evidências de pesquisadores da área têm lançado seus células precursoras). Acometem pacientes esforços no sentido de conhecer as por volta dos 65 anos de idade e o tempo alterações genéticas e epigenéticas e de vida média após o diagnóstico é de 5 definir subtipos moleculares importantes meses. Os GBT secundários, são oriundos em GBM e gliomas de grau inferiores3. Nesse contexto, de um tumor de grau inferior. Em geral, Conforme a Organização Mundial acometem pacientes jovens, com cerca de de Saúde (OMS), os astrocitomassão 45 anos, sendo a perspectiva de sobrevida classificados, baseados na histopatologia, após a descoberta de 8 meses2. em: Grau I, II e III. Os gliomas com A classificação atual da OMS graduação I e II incluem astrocitomas identifica quatro níveis de GBT baseados pilocítico e astrocitomas difuso. Eles na histopatologia: graus I, II, III e IV. O apresentam diagnóstico histopatológico serve para atipia, porém sem mitoses, proliferação estimar o tempo de sobrevida em meses. endotelial, ou necrose (Figura1). Os Por astrocitomas anaplásicos, de grau III, outro lado, a classificação celularidade porém e imunohistoquímica permite observar o fato apresentam detumores com mutações no gene que proliferação endotelial ou necrose. Os codifica a isocitrato desidrogenase (IDH) glioblastomas são astrocitomas grau IV apresentar influência na sobrevida global com alta atividade mitótica, proliferação dos pacientes acarretando um melhor endotelial e necrose3. prognóstico, ou seja, um aumento da mitoses, aumentada sem Os astrocitomas difusos são o tipo 2 sobrevida . histológico mais comum, subdivididos em três tipos: fibrilar, protoplasmáticos e 70 Rev Pat Tocantins V. 3, n. 03, 2016 SOCIEDADEDE PATOLOGIA DO TOCANTINS gemistocíticos. No entanto, podem ocorrer formas mistas (Figura 2). Figura 1: Astrocitoma difuso de baixo grau, grau II segundo a OMS. As células lembram astrócitos reativos normais (astrócitos gemistocíticos). Apresenta atipias (como perda relação núcleo-citoplasma, células multinucleadas, variação do volume e cromatismo nucleares). A celularidade é baixa e as células se distinguem em uma matriz finamente fibrilar, formada por seus próprios prolongamentos. Não há mitoses, proliferação vascular nem necrose4. Figura 2: Estas figuras ilustram critérios para graduação. Mitoses não precisam ser atípicas. Há uma mitose tetrapolar. Os pseudoglomérulos são vasos tão proliferados que podem imitar glomérulos renais. A áreas de necrose não precisam ter a disposição em paldiça na periferia, embora esta arquitetura seja muito típica dos astrocitomas difusos de alto grau. Exemplos de graduação: atipias (virtualmente sempre presentes) + mitoses = grau III; atipias (virtualmente sempre presentes) + proliferação vascular= grau III; atipias (virtualmente sempre presentes) + necrose= grau III; atipias (virtualmente sempre presentes) + proliferação vascular+ mitose = grau IV; atipias (virtualmente sempre presentes) + mitoses + necrose = grau IV; atipias (virtualmente sempre presentes) + mitoses + proliferação vascular + necrose = grau IV (lembrar que proliferação vascular e necrose valem como um critério só)4. 71 Rev Pat Tocantins V. 3, n. 03, 2016 SOCIEDADEDE PATOLOGIA DO TOCANTINS Bireme foram acessados e os termos Isocitrato desidrogenase (IDH) usados para a busca foram: “gliomas”, A IDH é um grupo composto por cinco proteínas, do qual faz parte a IDH-1 “mutations”, e “diagnosis”, “treatment” e “prognostic”. A a IDH-2. Ambas participam do metabolismo oxidativo do organismo, “IDH1”, “IDH2”, busca foi realizada em Agosto de 2016. através da produção de NADPH, a partir Foram selecionados artigos com da descarboxilação oxidativa do isocitrato base nos seguintes critérios de inclusão: a α-cetoglutarato (αKG), atuando na aqueles publicados nos últimos 5 anos; restauração da glutationa, com funções artigos antioxidantes. A αKG atuana degradação revisões do fator indutor de hipóxia (HIF-lα). Essa escritos em língua portuguesa ou inglesa. enzima promove diminuição da produção Feito isso, os títulos e resumos dos artigos de NADPH e aumento da HIF-1α, inicialmente selecionados foram lidos e relacionados com efeitos pró-oncogênicos. aqueles que não se enquadravam na A alteração da enzima promove maior temática foram excluídos. Dessa forma, conversão do αKG em 2-hidroxiglutarato foram selecionados 8 (oito) artigos para a desidrogenase (2HG). Nos pacientes com execução desta revisão. defeito associado da enzima originais, artigos sistemáticas e de revisão, meta-análises; 2HG desidrogenase, ocorre acúmulo de 2HG, o qual também tem efeitos pró-oncogênicos DISCUSSÃO e pode também ser utilizada com marcador tumoral. Acúmulo excessivo de 2HG foi As mutações em IDH1 e 2 foram relacionado a um elevado risco de tumores elucidadas em 2009. Estas mutações cerebrais malignos em pacientes com erros interferem na função das enzimas e levam inatos do metabolismo¹. a produção de um provável oncometabólito, o 2-hidroxiglutarato, e a não-produção do NADPH. As mutações podem MATERIAIS E MÉTODOS ser vistas por meio de imunohistoquímica e espectroscopia de Esta revisão foi feita através de prótons por ressonância magnética. uma pesquisa em bancos de dados online, buscando sobre o diagnóstico dos gliomas Diagnóstico e o prognóstico dos pacientes que possuem A isocitrato desidrogenase é uma mutações nos genes IDH1 e 2. PubMed e enzima que possui três isoformas, isto é, 72 Rev Pat Tocantins V. 3, n. 03, 2016 SOCIEDADEDE PATOLOGIA DO TOCANTINS IDH1, IDH2, e IDH3. A nível celular, a cirurgias, além de avaliar respostas ao enzima IDH faz papel de catalisador no tratamento de escolha. Como visto na processo de descarboxilação oxidativa do literatura, outro fato que corrobora com o isocitrato a αKG; de tal forma que o IDH1 alto valor prognóstico da espectroscopia é age no citoplasma e em peroxissomas, e o o aumento da sobrevida em pacientes IDH 2 e IDH3 atuam em mitocôndrias. As portadores mutações nos genes IDH1 e IDH2, que quando comparados aos portadores de estão ligadas ao aumento da sobrevida nos gliomas IDH-selvagem. Assim, é possível pacientes portadores, são mais encontradas constatar a relevância do onco-metabólito em gliomas de baixo grau e glioblastomas 2HG em detrimento de outros metabólitos secundários. Estas mutações fazem com cerebrais, que já foram propostos como que biomarcadores de gliomas. haja uma atividade enzimática de gliomas IDH-mutados, alterada.Dessa forma, os IDH’s funcionam O que se espera ainda é que o como catalisador da redução do α- desenvolvimento de métodos, que melhor cetoglutarato 2-hidroxiglutarato explorem a espectroscopia, tragam maior (2HG). O 2HG é tido como um onco- esclarecimento sobre a patogênese e a metabólito de gliomas IDH-mutados. Com evolução das doenças, inclusive se o o aumento da concentração deste onco- processo oncogênico está ligado ao 2HG metabólito no tecido cerebral, eles se ou a alterações metabólicas consequentes tornam visíveis na espectroscopia de deste produto5. prótons por em ressonância magnética, revelando a característica dos gliomas Tratamento IDH-mutados. Sendo assim, o diagnóstico O tratamento medicamentoso dos é feito de forma não-invasiva e é possível gliomas fazer a diferenciação dos gliomas IDH- quimioterápicos: selvagem, bem como do tecido cerebral temozolomida. normal5. alquilantes Segundo Hyeonjin Kim, a é feito através as agentes nitrosureias Tratam-se que de de apresentam e a agentes ação antitumoral e são os mais utilizados espectroscopia de prótons por ressonância atualmente. magnética do 2HG tem importância não As mutações em IDH 1/2 também apenas no diagnóstico de gliomas IDH- podem ser responsáveis pelo aumento das mutados, mas também no tratamento. Esse metilações3. exame pode ser usado para guiar biópsias e metiltransferase (MGMT) é uma proteína 73 A O6-metilguanina-DNA Rev Pat Tocantins V. 3, n. 03, 2016 SOCIEDADEDE PATOLOGIA DO TOCANTINS suicida que realiza o reparo do DNA. radioterapia. A sobrevida pós-cirúrgica Descobriu-se através da quimioterapia gira em torno de 6 meses, e a mesma é com ação alquilante, que a presença da expandida para 12 meses quando há MGMT teria ação reparadora sobre a associação do tratamento radioterápico célula tumoral que sofreu metilação pelo (apud Salazar et al, 1979). Apesar disso, quimioterápico, especificamente sobre seu nem sempre a cirurgia é aventada como DNA, fazendo com que haja resistência tratamento dos gliomas, visto a localização maior à terapia. Assim, a hipermetilação do tumor e o estado geral do paciente. do gene MGMT impediria que a proteína Portanto, para pacientes no qual não é restauradora fosse traduzida, logo, o indicado a cirurgia, é ofertada apenas a fármaco agiria sem obstáculos1. radioterapia7. As nitrosuréias foram pioneiras no No comparativo entre tratamento tratamento de tumores do sistema nervoso cirúrgico/radioterapia central moléculas medicamentoso, observa-se, segundo o lipossolúveis, que possuem o BCNU (1,3- estudo EORTC-NCIC, uma sobrevivência bis(2-chloroethyl)-1-nitrosourea) em sua em 2 anos de 10,9% no grupo que recebeu composição, o que facilita a passagem pela apenas radioterapia, enquanto que o grupo barreira hemato-encefálica6. que usava a droga temozolomida foi de (SNC) e são A temozolomida é usada como e o tratamento 27,2% (apud Stupp, 2009). O tratamento única droga no tratamento de gliomas instituído recorrentes. O agente é administrado por pacientes com glioblastomas consiste na via oral, e é bem aceita pelos pacientes. radioterapia pós-operatória com o uso Além disso, é tida como uma droga segura, diário da temozolomida. É válido ressaltar já que apresenta menos consequências que a radioterapia e a temozolomida são desfavoráveis agentes que danificam o DNA7. quando comparada às nitrosureias6. como padrão-ouro para É sabido que as células tumorais Quanto ao tratamento cirúrgico, é possuem um mecanismo apoptótico, o qual possível realizá-lo quando estamos diante permanece inerte até que haja exposição à de gliomas de baixo grau.No entanto, o quimioterapia glioblastoma é um tumor com alta responsável pela resistência à terapia. Este capacidade infiltrativa, o que dificulta a mecanismo de fuga da apoptose é um remoção cirúrgica completa. Após o fenômeno bem conhecido nos gliomas e procedimento glioblastomas cirúrgico, associa-se a 74 e radioterapia, (apud Krakstad sendo and Rev Pat Tocantins V. 3, n. 03, 2016 SOCIEDADEDE PATOLOGIA DO TOCANTINS Chekenya, 2010). A temozolomida levou à glioblastoma: autofagia prognostic concomitantemente a um 7 aumento da produção de ATP . therapeutic and correlation. Arq. 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