CRAZY Entre a Culpa e o Desejo

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Entre a Culpa e o Desejo
C. R. A . Z. Y - Entre a culpa e o desejo
[Esta resenha foi produzida como parte dos requisitos de avaliação do curso de
Antropologia II, ministrado pela professora Larissa Pelúcio, à turma do segundo ano de
Psicologia (turma 2009) da UNESP, campus Bauru. A disciplina teve como pilares a
discussão sobre identidade, corpo, sexualidade e gênero, a partir de um olhar das
Ciências Sociais]
C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor
titulo original: (C.R.A.Z.Y.)
lançamento: 2005 (Canadá)
direção: Jean-Marc Vallée
atores: Michel Côté , Émile Vallée , Marc-André Grondin , Danielle Proulx , Emmanuel Raymond
duração: 127 min
gênero: Drama
Entre a Culpa e o Desejo
Jeffrey Weeks (1999), ao afirmar que a homossexualidade sempre existiu, mas
o homossexual não, provavelmente causa estranheza a muitos. Mas a questão da
orientação sexual não foi desde sempre um tema atentado. Os termos heterossexual e
homossexual foram utilizados pela primeira vez por Karl Kertbeny, em 1869, e a partir
de então criou-se duas categorias, sendo uma tida como normal (que consistia no
intercurso genital), e uma anormal (práticas como o sexo anal, oral, e entre pessoas
do mesmo sexo), e o individuo deve sentir-se pertencente a apenas uma delas.
Criou-se, na sociedade, um padrão aceito pela maioria, por conta disso,
aqueles que não se enquadraram no que é tido como normal, encontram muita
dificuldade de aceitação por parte da sociedade, e consequentemente, de si próprio.
Tal tema é muito bem retratado no filme “C.R.A.Z.Y. Loucos de Amor” dirigido por
Jean-Marc Vallée.
Este filme acompanha por três décadas (60, 70 e 80) o personagem principal e
narrador Zach (Émile Vallée quando Zach tem seis anos e Marc-André Grondin
quando Zach é adolescente), nascido numa família católica canadense, sendo o
quarto de cinco filhos homens. Desde pequeno sentia vontade de ganhar um carrinho
de bonecas, vontade essa que era reprimida por seu pai, substituindo-a por
instrumentos musicais diferentes, dados a ele em todo aniversário. Assim, quando seu
irmão caçula, Yvan, nasce, Zach permanece muito próximo a ele e dedica-se em seus
cuidados. A partir dessa ligação de proximidade construída entre ele e seu irmãozinho,
podemos inferir que Zach conseguia acalmá-lo quando estava chorando. Porém, a
partir desse fato, sua mãe passa a inferir que o garoto possui um dom de curar a
cólica do bebê e, com uma confirmação vinda de uma senhora, considerada
igualmente abençoada, passa a acreditar piamente nisso. Essa crença vai sendo
construída apoiada em aspectos interpretados de forma supersticiosa por ela como o
dia de seu nascimento, 25 de Dezembro, o mesmo dia do nascimento de Jesus, o fato
de ele ter sido o sétimo filho homem (perdeu 3 filhos) e por isso, abençoado,etc. E
assim, essa verdade do garoto possuir um dom para cura é imposta e vai se
fortalecendo embasada na crença das pessoas.
Cada irmão tinha características muito diferentes: o mais velho atingia ao típico
estereótipo de rebelde (cheio de tatuagens, consumia drogas e álcool, estava sempre
se envolvendo com várias moças, e também sempre contribuía para a repressão dos
comportamentos de Zach, chamando-o de maricas e dirigindo-se a ele de forma
grosseira e agressiva. O outro irmão era intelectual, e sempre encontrava-se lendo e
estudando no decorrer do filme. E o terceiro era ligado aos esportes.
Entre a Culpa e o Desejo
Desde criança Zach percebia, de forma sutil, que tinha atitudes diferentes dos
demais meninos. Tais atitudes incomodavam seu pai, um homem que por mais
carinhoso e atencioso que fosse, era machista e não as aceitava. Como o pai era uma
figura importante e admirada por Zach, tal reprovação tinha um peso muito grande, e
era um fator que o impedia de se comportar como realmente desejava. Seu pai
apresentava uma postura rigorosa em relação à masculinidade que seus filhos deviam
ter. Assim, Zach, acaba por transgredir essa medida imposta e quebrar essa grande
expectativa. A cena que pode ser considerada uma metáfora a isso é quando seu pai
coloca todos os meninos sentados no sofá para descobrir quem quebrou seu disco
preferido- Crazy de Patsy Cline, e o responsável havia sido Zach. Como se o disco
quebrado fosse a expectativa rompida. Zach diz que foi um acidente e em todo o
decorrer do filme esforça-se para encontrar um disco igual.
Seu
pai,
percebendo
seus
comportamentos
e
atitudes,
manda-o,
contrariadamente, para um acampamento de meninos. Após essa passagem, há a
cena dele imerso na água, com o crucifixo de sua mãe no pescoço, se debatendo em
atitude de desespero. Logo após, ele aparece , em 1975, com 15 anos, em nossa
leitura esta é uma passagem metafórica. É como se Zach tivesse crescido sufocado
pelas exigências sociais e imposições familiares. O fato de ele ter asma e recorrer
repetidamente ao usa da bombinha também pode ser lido como um índice desse
sufocamento.
É na sua adolescência (anos 70) que Zach passa a perceber que a sua
sexualidade era divergente. Uma cena decisiva, que contribui na tomada de
consciência, foi quando estavam no carro, ele a prima e o namorado e ao dividirem um
trago de um cigarro de maconha, teve sua boca muito próxima da do namorado e
podemos inferir que se sentiu atraído. Esse acontecimento era sempre relembrado e
ao mesmo tempo renegado por ele, dado que ficava incomodado por não parar de
pensar no garoto. Uma prova dessa fixação é o fato de que Zach começa a se vestir
como ele e até mesmo andar de patins, como fazia o namorado da prima.
A partir de então, Zach entra em um processo cada vez mais intenso de
choque entre o seu desejo expresso por caras, e pela repressão sofrida nos lugares
por onde passava, desde a escola até a sua própria casa. Este processo é tão intenso,
ao ponto de Zach recorrer ao suicídio, buscando cessar os seus problemas. A cena
que ilustra esse conflito é a cena em que Zach vai em busca de sua prima, sendo que,
na verdade, tinha o intuito de encontrar o seu namorado. Ao perceber a que tinha ido
atrás de sua prima, Zach entra em desespero, pois não aceita sua condição. Acaba
por jogar sua moto ao encontro de um carro.
Entre a Culpa e o Desejo
Outro fato que o perturba é a homossexualidade de um colega da escola. Tal
garoto percebe o desejo de Zach e começa a persegui-lo. Estabelece-se uma relação
entre eles que, a nosso ver, se caracterizava como uma identificação, uma comunhão
entre os dois, por saberem-se desejosos de outros homens. Zach encontra-se
desejando este colega da escola, porém não quer admitir. Esta tensão o levou ao
extremo de surrá-lo, aparentemente sem motivos, como se estivesse castigando a si
próprio.
O pai, ao pegar Zach masturbando-se com este mesmo colega da escola
algum tempo depois daquela briga, fica furioso, sai de si. E uma das soluções que ele
aponta é a de um acompanhamento de um psicólogo. Tal cena demonstra o quanto o
preconceito era interiorizado em Zach, que mesmo com o método utilizado pelo
terapeuta, percebe que tinha mesmo o desejo sexual por homens, mas não admite e
diz que prefere morrer (sendo que já havia tentado o suicídio por causa de seus
problemas com a sua sexualidade).
Na tentativa de reprimir seus desejos, o garoto apresenta atitudes
contraditórias; como, por exemplo, iniciar um relacionamento com uma garota, a qual
já havia tentado uma aproximação e ele a negou. Durante esse namoro com Michelle,
o ambiente familiar ficou estável e ameno. Há que se notar que, pelo menos
aparentemente, Zach havia parado de usar a sua bombinha. E, assim, pode-se
estabelecer um paralelo entre o uso da bombinha e a expressão dos desejos
(homo)ssexuais do personagem. Este mentia aos seus familiares sobre o uso do
aparelho, e, simultaneamente, era um momento em que Zach escondia ao máximo os
seus desejos, alimentando um relacionamento ilusório na tentativa de afastar a sua
homossexualidade da mente das pessoas que o cercavam e, até mesmo, afastar de si
mesmo tais desejos.
No entanto, esta tranqüilidade dura até a cena do casamento do irmão, o que
era o intelectual da família, em que um dos convidados afirma que Zach havia beijado
o namorado da prima. O pai escuta e resolve tirar satisfação com o filho. No meio da
discussão, Zach afirma que não havia acontecido nada naquele dia, mas que gostaria
que tivesse acontecido, ou seja, assume sua atração por alguém do mesmo sexo,
desafiando a autoridade e a repressão de seu pai, que não o aceita e o manda
embora.
Após essa revelação, Zach resolve se ausentar por um tempo. Faz uma
simbólica viagem a Jerusalém. Nessa viagem ele tem sua primeira relação sexual com
um homem, o que o perturbou muito, tentando, depois disso, o suicídio. Aquela seria
sua terceira tentativa.
Entre a Culpa e o Desejo
No geral, o filme ilustra muito bem o quão é forte a influência da sociedade na
auto-aceitação dos homossexuais. Seja presente na família, ou na escola, a repressão
e o preconceito existem, e direcionam o modo como os indivíduos lidam com a
questão da pluralidade sexual. No filme, por exemplo, os pais preferem lidar com os
problemas do irmão Reynold, que está imerso no mundo das drogas e freqüentemente
com dívidas, do que aceitar a sexualidade de Zach, que trabalha e não oferece
maiores preocupações a eles.
No final do filme, a morte do filho viciado corrobora para que o pai aceite a
condição de Zach, e assim tudo fica bem. Em nosso olhar, esta foi uma solução
romantizada do diretor, uma vez que há muita rigidez e preconceito na sociedade
atual, sendo muito freqüentes os casos de pais que nunca chegam a aceitar seus
filhos, relatos de espancamentos e até mesmo mortes, entre outras violências. O que
evidencia a carência, ainda tão grande, por parte da sociedade, do verdadeiro
exercício dos direitos humanos também como direitos sexuais.
Trabalho redigido por:
Álvaro Zanini, Barbara Gaspar, Natália Magri, Mayara Bichir, Raissa Prado, Sarah
Marins
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