UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO STRICTO-SENSU DISSERTAÇÃO GISLAINE MOURA DO NASCIMENTO A REPRESENTAÇÃO DO LUGAR NO PROJETO DE ARQUITETURA PÓS MODERNO SÃO PAULO 2013 GISLAINE MOURA DO NASCIMENTO A REPRESENTAÇÃO DO LUGAR NO PROJETO DE ARQUITETURA PÓS MODERNO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo Stricto-Sensu da Universidade São Judas Tadeu para obtenção de título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo Orientadora: Prof.ª Dr.ª Kátia Azevedo Teixeira SÃO PAULO 2013 Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca da Universidade São Judas Tadeu Bibliotecário: Ricardo de Lima - CRB 8/7464 N244r Nascimento, Gislaine Moura do A Representação do lugar no projeto de arquitetura pós-moderno / Gislaine Moura do Nascimento. - São Paulo, 2013. 105 f. : il., fig. ; 30 cm. Orientadora: Kátia de Azevedo Teixeira. Dissertação (mestrado) – Universidade São Judas Tadeu, São Paulo, 2013. 1. Arquitetura pós-moderna. 2. Conceito de lugar. 3. Representação arquitetônica. I. Teixeira, Kátia de Azevedo. II. Universidade São Judas Tadeu, Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Arquitetura e Urbanismo. III. Título CDD 22 – 724.91 À minha mãe, Maria de Jesus Moura do Nascimento, sempre. E, aos meus irmãos, Cleiton Moura do Nascimento e Gleison Moura do Nascimento, que me apoiam incondicionalmente. AGRADECIMENTOS À CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e à Universidade São Judas Tadeu o apoio recebido que viabilizou o desenvolvimento deste trabalho. À Instituição Centro Cultural São Paulo a disponibilidade do material gráfico que enriqueceu a pesquisa. A todos os professores da Pós-Graduação Strictu-Sensu em Arquitetura e Urbanismo o aprendizado contínuo proporcionado durante o curso. Às professoras Dr.ª Eneida de Almeida e Dr.ª Myrna de Arruda Nascimento a colaboração imprescindível à qualificação deste trabalho. Aos colegas do curso de pós-graduação pela ajuda fundamental ao compartilharem gentilmente de seus conhecimentos. Por fim, uma gratidão difícil de expressar: à orientadora deste trabalho, Prof. Dr.ª Kátia Azevedo Teixeira, por ter se dedicado a ensinar com tamanha generosidade. SUMÁRIO Introdução .................................................................................................................. 1 1. Fundamentação teórica ............................................................................. 10 1.1. O conceito de lugar e seus distintos aportes disciplinares .................... 10 1.2. O conceito de fenomenologia na arquitetura ......................................... 15 1.3. O período pós moderno: reformulação dos paradigmas do campo da arquitetura e do urbanismo ............................................................................... 17 2. 1.4. O conceito de “lugar” na arquitetura ...................................................... 21 1.5. O Conceito de fatos urbanos: critério das permanências ...................... 29 O projeto e a representação do lugar ....................................................... 34 2.1. Centro Galego de Arte Contemporânea (A. Siza Vieira, 1993) ............. 37 2.1.1. Condicionantes do lugar ........................................................................ 39 2.1.2. Critérios para implantação do edifício.................................................... 42 3. Estudo de caso: Centro Cultural São Paulo ............................................ 47 3.1. O projeto do centro cultural: a representação do lugar na arquitetura ... 59 3.2. O projeto do centro cultural: a concepção da arquitetura como lugar.... 74 3.2.1. Os acessos ............................................................................................ 76 3.2.2. Os percusos internos ............................................................................. 80 3.2.1. A fronteira tênue entre espaço interno e externo ................................... 83 3.2.2. A segmentação da forma principal: o todo e a parte na escala do usuário................................................................................................................85 3.2.3. Identificação e orientação na escala do usuário .................................... 89 4. 5. Considerações finais ................................................................................. 93 4.1. Quanto à representação do lugar na arquitetura ................................... 93 4.1. Quanto à concepção da arquitetura como lugar .................................... 95 4.2. Quanto ao processo do projeto de arquitetura ...................................... 97 Bibliografia ............................................................................................... 101 INDICE DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - Museu Guggenheim de Bilbao: a relação de contraste entre a paisagem urbana e a arquitetura do museu .............................................................................. 14 Figura 2- Espaço representado por área interna, fechada, delimitada e estática. Noção expressa, principalmente, na arquitetura tradicional. ..................................... 22 Figura 3 – Espaço representado por uma área aberta, transparente, contínua e dinâmica. Noção expressa, principalmente, na arquitetura moderna, e percebida claramente nas obras de Mies Van der Rohe ........................................................... 22 Figura 4 – O “espírito do lugar” - Teotihuacan / México. Vista da Calçada dos Mortos e da Pirâmide do Sol. . A disposição da cidade segue os movimentos dos astros. Ali seria o ponto de encontro entre os deuses, o céu, a terra e a humanidade. ............. 24 Figura 5 – localização do Centro Galego de Arte Contemporânea e sua relação com os marcos históricos da Cidade de Santiago de Compostela ................................... 39 Figura 6– localização do Centro Galego de Arte Contemporânea entre edifícios históricos da cidade................................................................................................... 40 Figura 7–Centro Galego de Arte Contemporânea – área de implantação do edifício. .................................................................................................................................. 41 Figura 8 – Centro Galego de Arte Contemporânea – condicionantes para implantação. .............................................................................................................. 42 Figura 9 – Centro Galego de Arte Contemporânea - Delimitação da Rua Ramón del Valle-Inclán pelas construções existentes e pela fachada do bloco (A) do museu à esquerda ................................................................................................................... 43 Figura 10– Centro Galego de Arte Contemporânea - Similaridade entre o volume do bloco (B) do museu e o edifício do Convento. ........................................................... 43 Figura 11- Desnível de 2,50 m entre o terraço do convento e a Rua R. del ValleInclán. ........................................................................................................................ 45 Figura 12 - Escada proposta por Siza para integrar a área do Conjunto Conventual San Domingo com o centro monumental da Cidade. ............................................... 45 Figura 13 - A liberação do térreo, no ponto em que os dois volumes se encontram, contribuiu para o acesso e a integração visual entre os diferentes níveis do terreno45 Figura 14 - A rampa paralela à rua R.del Valle-Inclán diminui a distância percorrida para transpor a quadra, aumentando o fluxo de pedestres na praça de entrada do museu. ...................................................................................................................... 45 Figura 15 - Articulação do espaço urbano: praça da entrada principal. .................... 46 Figura 16 – Vista Centro Cultural São Paulo – edifício destacado ao centro ............ 47 Figura 17 – Mapa da área do Projeto Vergueiro elaborado pela EMURB ................. 48 Figura 18 – Imagem publicada pela Revista Manchete a partir de perspectiva elaborada pela EMURB para divulgação do plano de revitalização Nova Vergueiro. .................................................................................................................................. 49 Figura 19 – Imagem do Projeto vencedor da licitação da Nova Vergueiro, Arquiteto Roger Smekhol, publicado em 1974 ......................................................................... 50 Figura 20 – Em destaque, área destinada à construção da Nova Biblioteca CentralVergueiro, atualmente ocupada pelo Centro Cultural São Paulo .............................. 51 Figura 21 – Imagens do terreno do Centro Cultural São Paulo anteriores à construção do edifício. .............................................................................................. 53 Figura 22 – Imagem da construção do CCSP: vegetação mantida durante as obras do Metro e preservada no novo projeto. .................................................................... 54 Figura 23 – Maquete da primeira proposta para a Biblioteca Central-Vergueiro: projeto identificado pela horizontalidade e uma marcante cobertura de concreto. .... 56 Figura 24 - Croqui da rua interna – 1977. Acervo PLAE ........................................... 57 Figura 25- Localização: terreno em encosta de Vale no limite entre as regiões da Av. Paulista (esq.) e Liberdade (dir.). .............................................................................. 59 Figura 26 – Corte elaborado pela EMURB para o termo de referência da Licitação Nova Vergueiro: torres que permitiam a elevação de adensamento sobre embasamento destinado a serviços. ......................................................................... 61 Figura 27- CCSP: componentes da paisagem considerados no projeto destacados na área de implantação do edifício............................................................................ 62 Figura 28 – CCSP –leitura das condicionantes da implantação: ampla perspectiva do vale e eixo longitudinal predominante do traçado. .................................................... 65 Figura 29 – CCSP –Hipótese de elaboração da forma resultante das condicionantes da implantação. ......................................................................................................... 65 Figura 30 – CCSP –composição da forma: concepção do edifício em patamares que reforçam a ideia de horizontalidade do partido.......................................................... 67 Figura 31 – CCSP –composição da forma: alteração do volume do edifício para incorporar rua interna ao projeto. .............................................................................. 67 Figura 32 - CCSP- Vegetação preservada vista a partir do Jardim Suspenso 23 de maio. ......................................................................................................................... 68 Figura 33 - CCSP- Vegetação preservada vista a partir do Piso 810........................ 68 Figura 34 - CCSP- Vegetação preservada vista a partir da entrada principal pela Rua Vergueiro. .................................................................................................................. 68 Figura 35 – CCSP - Planta do Piso 796: Programa .................................................. 70 Figura 36 – CCSP - Planta do Piso 801: Programa .................................................. 71 Figura 37 – CCSP – Planta do Piso 806: Programa.................................................. 72 Figura 38 – CCSP - Planta do Piso 810: Programa .................................................. 73 Figura 39 ................................................................................................................... 73 Figura 40– CCSP – Acesso principal visto pela calçada da Rua Vergueiro .............. 76 Figura 41 – CCSP – Acesso ao edifício visto pela calçada de ligação com a estação Vergueiro do metrô.................................................................................................... 76 Figura 42 – CCSP –Corte- solução para desnível do terreno os acessos acompanham a inclinação da Rua Vergueiro. ........................................................... 77 Figura 43– CCSP – Acesso ao Piso 810: a sombra projetada pela cobertura caracteriza o espaço de entrada como lugar de transição entre interior e exterior ... 78 Figura 44 – CCSP – Acesso ao Piso 806: a possibilidade de visualizar o espaço interno desde a calçada favorece a curiosidade e atenua a sensação de insegurança proporcionada pelas dimensões................................................................................ 78 Figura 45 – CCSP –Vista da rua do edifício: à direita o jardim original do terreno e ao fundo a entrada da Biblioteca. ................................................................................... 80 Figura 46 – CCSP –Vista da rua do edifício: à esquerda o jardim original do terreno e ao fundo a escada de acesso a um dos jardins suspensos. ..................................... 80 Figura 47 – CCSP –Exemplo de uso espontâneo do espaço da área de convivência: prática de um grupo de dança de rua........................................................................ 82 Figura 48 – CCSP –Exemplo de uso espontâneo do espaço da rua interna, a sensação de segurança proporcionada pela integração e escala dos espaços. ....... 82 Figura 49 e 50 – Imagens da área do foyer das salas de espetáculos, vista interna à esquerda e externa à direita: integração permitida pelas transparencias. ................ 83 Figura 51 e 52– CCSP- Relação de escala dos ambientes. ..................................... 85 Figura 53– CCSP- representação da alteração de escala: a forma do edifício e a cidade (esq.), a rua no edifício (meio) e segmentação da forma para adequá-la a escala do usuário. ..................................................................................................... 87 Figura e 54, 55 e 56 – CCSP- Espaços conectados visualmente. ........................... 88 Figura 57 – CCSP- caráter do espaço dado por elementos da arquitetura: plano gramado que recupera a linha do horizonte da paisagem em meio ao entorno verticalizado. ............................................................................................................. 89 Figura 58 – CCSP- caráter do espaço dado por elementos da arquitetura: sala de espetáculos concebida como arena, o espaço pode ser visto no percurso da rua interna por meio dos fechamentos de vidro. ............................................................. 89 Figura 59 – CCSP- caráter do espaço dado por elementos da arquitetura: escada helicoidal vermelha que funciona como um marco no percurso do usuário. ............. 89 Figura 60 – CCSP- caráter do espaço dado por elementos da arquitetura: enormes rampas suspensas no amplo vazio da biblioteca são referencias que podem ficar na memória do visitante. ................................................................................................ 89 Figura 61– CCSP: a percepção da arquitetura por um usuário do edifício. .............. 95 RESUMO A presente pesquisa procura relacionar as críticas do pensamento pós-moderno que se referem à identidade da arquitetura e do urbanismo, nos aspectos vinculados ao entendimento da ideia de “lugar”, às soluções de projeto produzidas com base nos conceitos desenvolvidos no período. Para tanto, o trabalho identifica o significado que o termo assume na área de arquitetura e, em decorrência, os seus possíveis desdobramentos quanto à representação do “lugar” no projeto, tomam-se como referências principais as reflexões de Christian Norberg-Schulz e Aldo Rossi. Como estudo de caso, o trabalho busca verificar a transposição dos conceitos estudados, na arquitetura do Centro Cultural São Paulo (1976-82) - projetado por Eurico Prado Lopes e Luiz Telles, a partir de critérios de análise construídos para ampliar o entendimento da relação estabelecida entre esse edifício, a paisagem urbana e o cotidiano da população local. Palavras Chaves: arquitetura pós-moderna, conceito de lugar, representação arquitetônica. ABSTRACT This research aims to relate the criticism of postmodern thoughts which refers to architecture and urbanism identity, in the aspects related to knowledge about the idea of “place”, to project solutions produced based in concepts developed in the period. Thus, this work identifies the meaning that the term assumes in architecture area and, consequently, developments regarding the representation of “place” in project, assuming as main references Christian Norberg-Schulz e Aldo Rossi reflections. As case study, the paper intends verify the transpositions of studied concepts in São Paulo Cultural Center (Centro Cultural São Paulo) (1976-82) architecture – designed by Eurico Prado and Luiz Telles - from analysis criteria built to expand knowledge of relation established between this building, the urban landscape and the daily life of local population. Key-words: postmodern arquitectonic representation. arquitecture, concept of place, INTRODUÇÃO MOTIVAÇÕES DA PESQUISA O início da prática profissional do arquiteto urbanista torna possível identificar o afastamento entre atuação cotidiana do projeto e produção do campo teórico e crítico da arquitetura contemporânea. Durante a formação acadêmica do arquiteto há um esforço natural, na maioria dos casos, para transpor o senso comum e incorporar o ideário relacionado à sua área de atuação, mas o exercício diário de projeto inibe, rapidamente, a importância desse ideário, e pode resultar numa produção decorrente de procedimentos arbitrários, portanto, distantes dos princípios desse campo disciplinar, que conduzem a indagações sobre consistência do trabalho realizado enquanto obra de arquitetura. Embora o conhecimento das reflexões teóricas, que fundamentam a noção de síntese e generalização na arquitetura, possa esclarecer a lógica que conduziu os arquitetos ao afastamento de questões relativas à ocupação dos espaços produzidos, talvez não possa justificar a postura puramente idealista, ou a maior atenção Página |1 a critérios de outros campos disciplinares, como os da economia, do desenvolvimento social, da tecnologia de materiais ou, até mesmo, da história e da arte. Essa pesquisa parte da convicção de que a produção profissional da arquitetura deve estar fundamentada nas correntes de pensamento de sua disciplina. aproximação do ideário Contudo, tentou-se realizar a restrito ao campo disciplinar da arquitetura, ao processo de concepção do projeto, com foco, principalmente, na ocupação propriamente dita do espaço construído. Para tanto, desenvolve-se o trabalho de transpor os princípios e critérios elaborados com base nas reflexões de dois teóricos, Aldo Rossi e Christian Norberg-Schulz, cujos trabalhos têm relevância fundamental na formação acadêmica contemporânea do arquiteto urbanista. Nessa análise investiga-se a concepção do projeto a partir da experiência do arquiteto no espaço estudado, processo que permite a revisão de conceitos teóricos que podem melhor orientar e instruir as escolhas de projeto, direcionada pelos questionamentos trazidos durante o conhecimento adquirido na prática profissional. Página |2 A ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO Desde os anos 60 do século XX, o conceito de lugar torna-se parte fundamental da análise crítica e da concepção de uma obra de arquitetura, inicialmente ressaltado nas manifestações de objeção às doutrinas e práticas da arquitetura do Movimento Moderno, em defesa da valorização da história e da memória. Em seu prosseguimento, as restrições abraçam também a necessidade de aproximar a prática da arquitetura às bases teóricas contemporâneas, reconhecendo a complexidade dos fatores que determinam a lógica dos novos espaços produzidos nas cidades. O conceito de lugar na área de arquitetura (e urbanismo) ultrapassa a ideia de uma localização abstrata: na composição dessa identificação está presente uma percepção do local que reúne a presença humana, os elementos construídos e os fatos históricos e culturais que determinam sua qualidade e diferenciação. Como esclarece Norbert-Schulz, o termo lugar faz referência a: (...) uma totalidade constituída de coisas concretas que possuem substância material, forma, textura e cor. Juntas essas coisas determinam uma ‘qualidade ambiental’ que é a essência do lugar. (2006 p. 444) Página |3 Compreendido o termo essência1 não em seu significado de coisa mística, mas na acepção de algo que é imanente à própria coisa, imanente portanto ao lugar, pode-se entender que a obra de arquitetura em si conforma o lugar, ao mesmo tempo em que é parte de um conjunto de fatos e elementos psicológicos, culturais e históricos, assim como propõe Aldo Rossi, outra referência teórica importante para esta pesquisa. O autor define o lugar em arquitetura como “espaço singular e concreto”, esclarece para tanto, o valor do “lócus” como “aquela relação singular mas universal que existe entre certa situação local e as construções que se encontram naquele lugar” (2001 p. 147) O conceito de “locus”, que persevera com mais ou menos ênfase na arquitetura desde os tratados clássicos (ROSSI, 2001 p. 147), ganha maior importância em meados dos anos de 1960, período marcado por uma produção literária significativa de crítica e reformulações de paradigmas da área de arquitetura, respondendo à carência, naquele momento, de uma base teórica mais realista como fundamentação da prática da arquitetura (NESBITT, 2006 p. 22) 1 Imanente (lat. tardio immanentia, de immanens, ficar no lugar): qualidade daquilo que pertence ao interior do ser, que está na realidade ou na natureza. Diz-se que é “imanente” aquilo que é interior ao ser, ao ato, ao objeto de pensamento que consideramos. (Japiassu, et al., 1990 p. 130) Página |4 As críticas radicais aos paradigmas2 da arquitetura moderna, no período citado, contribuíram para o desenvolvimento de outros conceitos que não só flexibilizaram como ampliaram as formas de ver e pensar o espaço e o papel da arquitetura e do urbanismo na construção e vivência das cidades. Tornam, também, de modo crescente, ainda mais complexa a possibilidade de uma doutrina abrangente para fundamentação do projeto contemporâneo, tal como equacionado, com relativa facilidade, conforme os princípios defendidos pelo movimento moderno. Entre essas novas reflexões que, como intenção, pretendem reestabelecer a relação entre a arquitetura, o corpo humano, a natureza, a história, a morfologia construída das cidades e a memória coletiva, permanecem com importância, entre elas as referentes à ideologia do “lugar”. Essa pesquisa tem como principal objetivo relacionar as críticas do pensamento pós-moderno que se referem à identidade da arquitetura e do urbanismo, nos aspectos vinculados ao entendimento da ideia de “lugar”, às soluções de projeto produzidas com base nos conceitos desenvolvidos no período. O estudo tem como fio condutor a convicção de que a produção profissional da arquitetura deva estar fundamentada nas correntes 2 O termo paradigma é aqui utilizado conforme Thomas Khun (1996, p.m): como parâmetros utilizados para “definir implicitamente os problemas e métodos legítimos de um campo de pesquisa para as gerações posteriores de praticantes da ciência”. (KUHN, 1996 p. 30) Página |5 de pensamento de sua disciplina, o que sugere uma busca por obras realizadas, inseridas no debate pós-moderno, que permitam compreender o reflexo das novas formas de pensar o espaço. Enquanto método procurou-se o conceito de “lugar” incluindo, de forma breve, a compreensão que dele se tem em outros campos disciplinares, a partir da contribuição trazida pelo trabalho de Lineu Castello (2007). Em relação ao significado que o termo assume na área de arquitetura e, em decorrência, aos seus possíveis desdobramentos quanto à representação do “lugar” no projeto, tomam-se como referências principais as reflexões de Christian Norberg-Schulz e Aldo Rossi. No prosseguimento, são identificados critérios de análise a partir do entendimento dos conceitos expostos no primeiro capítulo. A construção de tais critérios apoia-se, também, no aprofundamento de leitura anteriormente realizada do projeto do Museu de Santiago de Compostela (1993), do Arqº. Alvaro Siza, para a pesquisa de Iniciação Científica3 (2010), com enfoque redirecionado para alguns elementos do lugar que estão representados pela arquitetura desse edifício. 3 Trabalho de pesquisa desenvolvido pela pesquisadora em 2010, durante a Graduação em Arquitetura e Urbanismo (USJT) sob orientação da Prof.ª Drª. Kátia Azevedo Teixeira com enfoque principal nas relações possíveis entre o projeto de um novo edifício e a arquitetura preexistente, cujo tema foi “Arquitetura: inserção no meio urbano”. Página |6 Por isso, outro momento importante no prosseguimento da pesquisa é aquele que busca identificar a transposição dos conceitos agora estudados, em uma obra concreta, realizada por meio de estudo de caso, uma das abordagens da pesquisa qualitativa4, de base fenomenológica. O estudo de caso, que privilegia a análise em contexto, preocupa-se com o entendimento de um fato singular, uma vez que o objeto estudado é considerado como único, como uma representação singular da realidade, ao mesmo tempo em que deve possibilitar – uma característica importante – experiência vicária5, permitindo generalizações no sentido daquilo que se pode ou não aplicar , do caso estudado, a uma situação particular do leitor (TRIVIÑOS,1987). A obra de arquitetura analisada, o Centro Cultural São Paulo (1976-82), projeto de Eurico Prado Lopez e Luiz Telles, é reconhecida pela relação que estabelece com o usuário, ou com a população local e, conforme comentário de Ruth Verde Zein, no primeiro ano de inauguração da instituição, essa relação foi criada na concepção do espaço: 4 Na pesquisa qualitativa, a idéia de fenômeno amplia o rol das possibilidades a serem investigadas, superando os limites do conceito de fato das ciências naturais e exatas, que restringe o objeto da investigação ao exclusivamente objetivo. (MARTINS, J,BICUDO ,M. A. V. 1994). 5 Vicário (lat. Vicariu= vigário): que faz as vezes de outrem ou de outra coisa. Diz-se do poder exercido por delegação de outrem. (FERREIRA, 2000 p. 710) Página |7 Nesse projeto [Centro Cultural São Paulo], os arquitetos iniciaram a concepção não pelo desenho, mas por pensar e sentir os espaços, colocando- se no lugar do usuário. Assim foi definida uma rua interna na qual os acontecimentos vão se sucedendo, visuais que leem o espaço à distância, momentos contínuos e distintos. (ZEIN, 1983) Trata-se de um edifício de uso público e coletivo, foi o primeiro centro cultural da América Latina, oferece uma programação aberta à população diariamente, é intensamente frequentado por diferentes faixas etárias e estratos sociais. Em sendo o local de trabalho profissional da pesquisadora, permite a observação direta e o registro fotográfico em tempos distintos; permite, principalmente, o direcionamento da vivência que tem no espaço, agora com o olhar e a reflexão instruídos pela fundamentação teórica, para tentar compreender e verificar as questões que a motivaram: Quais critérios podem ser utilizados durante a concepção do projeto para melhor inserção do edifício na paisagem e no cotidiano da população local? Como definir elementos da arquitetura que permitam melhor identificação dos frequentadores com os espaços produzidos? Página |8 Capı́tulo 1 FUNDAMENTAÇÃO Página |9 1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 1.1. O CONCEITO DE LUGAR E SEUS DISTINTOS APORTES DISCIPLINARES A noção de lugar interessa diretamente às áreas de estudos que partem de uma visão físico-territorial como a arquitetura e urbanismo, o planejamento urbano e regional, o paisagismo, a ecologia, a geografia, a antropologia. Interessa, ainda, a outros campos de conhecimento, como filosofia e psicologia. É, portanto, um constructo teórico que recebe contribuições multidisciplinares, conectando fatores humanos, sociais e econômicos, o que não impede que cada área privilegie a abordagem inerente ao seu campo disciplinar, dentro se suas próprias fronteiras. Em um panorama mais geral, algumas interpretações oriundas de outras áreas do conhecimento, são exemplificadas por CASTELLO (2007). No universo da geografia, Yi- Fu Tuan, além de ser um dos pioneiros, é um autor cuja reflexão e entusiasmo com as possibilidades contidas na ideia de lugar levou-o a criar o termo “topofilia”, conceito denso envolvendo a relação entre paisagem, memória e cultura, definido como “o elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou ambiente físico.” Difuso, como reconhece o autor, mas um sentimento “(...) vívido e concreto como experiência pessoal”. (TUAN, Yi-Fu, apud CASTELLO,2007, p.39). Página |10 À área da Psicologia, por meio da psicologia da percepção6, também interessam as relações entre o ambiente físico e os processos perceptivos e cognitivos, aqueles estímulos objetivos que se encontram presentes na definição, no reconhecimento ou na memória de lugares: elementos que impressionam a visão, sensações táteis transmitidas pelo contato com os materiais empregados na construção, aromas que permitem a sua identificação, silêncio ou ruído que caracterizam outros. Influenciados pela fenomenologia, os estudos sobre a percepção dos indivíduos em suas experiências cotidianas nos espaços urbanos, que aparecem por vezes relacionados à corrente denominada percepção ambiental e, em outras ocasiões à geografia da percepção, são uma contribuição aos projetos urbanísticos. Internamente à própria área de arquitetura e urbanismo, o trabalho do urbanista Kevin Lynch, A Imagem da Cidade7, publicado pela primeira vez 1960, é um marco e continua a ser referência de importância pela metodologia que organiza para a leitura de 6 O significado do termo Percepção (lat. perceptio) adotado trata do “Ato de perceber, ação de formar mentalmente representações sobre objetos externos a partir dos dados sensoriais. A sensação seria assim a matéria da percepção. (..) Embora se possa considerar o objeto como causa da percepção, segundo o fenomenalismo na verdade nada sabemos sobre o objeto além dos dados sensoriais que recebemos pela percepção (JAPIASSU, et al., 1990 p. 192). 7 Em Imagem da Cidade (1960) , Kevin Lynch analisa as formas com que as pessoas se orientam na cidade, e identifica os elementos que conferem ordem visual à paisagem, como caminhos, limites, marcos, que servem de referência por serem guardados pela memória do ser humano. A característica empírica de seus estudos, que analisa a cidade fora do entendimento de sua estrutura, motiva o uso de suas ideias por outros autores que tratam a questão do lugar, como Norberg-Schulz e Aldo Rossi. Página |11 ambientes urbanos, a partir das imagens que mais estimulam a percepção dos usuários. As discussões conceituais que se vinculam à ideia de lugar abordam, na sociologia, por exemplo, aspectos sobre a condição de viver na sociedade consumista contemporânea e o quê, para tal sociedade, vem a ser um lugar; reflexões sobre o cotidiano e o lugar onde o ser humano vive esse cotidiano; o entendimento de lugar não somente pela ótica de seu uso social, mas como um agente das representações que são construídas e comunicadas nos lugares urbanos, os quais passam a ser percebidos como adequados ou não para a sua apropriação por estratos sociais diferentes. Na filosofia situam-se as duas aproximações mais antigas existentes para a noção de lugar, que remontam à Antiguidade: uma, a visão platônica, que constrói a ideia de lugar exclusivamente do ponto de vista da geometria; a outra, a visão de Aristóteles, que concebe o espaço como lugar, como a posição de um corpo em relação aos outros (ABBAGNAMO, 2003), isto é, a região que o corpo ocupa, seu contorno externo e o contorno do corpo maior onde o primeiro está contido. Para registrar algumas das novas reflexões sobre a concepção de lugar na filosofia, Castello (2007) apoia-se no trabalho de Edward Página |12 Casey8 para quem o recrudescimento da atenção a esse conceito pode ter sido iniciado por Gaston Bachelard, filósofo francês, com os estudos sobre como as imagens poéticas se situam na mente, publicados no livro A poética do espaço, em 1958. A casa, para Bachelard, sendo o primeiro universo de cada homem, o primeiro lugar depois que se vem ao mundo, guarda um grande número das memórias e devaneios de cada um, lugar a que se retorna inúmeras vezes, em sonhos e lembranças. Na área de economia a noção significa, primeiramente, que se admite “(...) discutir lugar como um bem do repertório imobiliário urbano” (CASTELLO, 2007, p.133). Na atualidade, o lugar de uso e o lugar de mercado9 fundem-se em um único produto que reúne ambas as formas de valor, sendo entendido como um atributo da sociedade de consumo, com empreendimentos pensados e criados com a função de gerar lugares. A maior parte desses novos lugares – shoppings, indústria de serviços como entretenimento, cultura, lazer, turismo - apresenta bons resultados, tanto como instrumento de economia quanto como geração de urbanidade. 8 Edward Casey, professor de filosofia na State University of New York, é autor de The Fate of Place. A Philosophical Story, publicado originalmente enm 1977. Berkeley, CA: 9 A esse respeito, Castello( 2007) lembra as reflexões que integravam a área de planejamento urbano na década de1970, quando as discussões, ao contrário, defendiam “ a diferença entre o uso do bem imóvel urbano para a atividade humana e o seu papel no mercado, sintetizadas na expressão “valor de uso e valor de troca”. Página |13 Nessa perspectiva, é grande a aproximação com o resultado percebido em várias das grandes obras de arquitetura contemporânea internacional, como o Museu Guggenheim, em Bilbao/Espanha (1997), projeto do arquiteto Frank Gehry [Figura 1], concebido como parte de um processo de intervenções para revitalização urbana de Bilbao, em decorrência da perda de seu caráter marcante de cidade industrial consolidado no século XIX, que gerou significativas alterações sociais e econômicas. Figura 1 - Museu Guggenheim de Bilbao: a relação de contraste entre a paisagem urbana e a arquitetura do museu Fonte: http://ptphoto980x880.mnstatic.com/museu-guggenheim_7231676.jpg acesso:19/03/12 Página |14 O museu de Frank Gehry tornou-se um marco que representa esse momento de transformação da cidade. Constitui, atualmente, junto à infraestrutura construída para reurbanização da área, um núcleo econômico e um polo de atração turística, fundamental para desenvolvimento de Bilbao. 1.2. O CONCEITO DE FENOMENOLOGIA NA ARQUITETURA O termo, segundo Bello (2006) é composto por duas palavras gregas: “phainomenon” – fenômeno – que significa aquilo que se mostra, ser visível, brilhar; e “logia”, derivada de logos, definida com vários significados como estudo, ciência, pensamento, palavra. Fenomenologia é então, em um sentido geral, a reflexão, o estudo sobre aquilo que se manifesta ou aparece aos sentidos ou à consciência. Na história da filosofia, a fenomenologia passou por três significados especiais. Ainda na segunda metade do século XVIII, na expressão do filósofo Jean-Henri Lambert10, foi sinônimo de "teoria das aparências", como forma de distinguir a aparência das coisas daquilo que elas são em si mesmas. No início do século 10 Jean-Henri Lambert ( 1728-1777). Matemático e filósofo, nascido na Alsácia, região fronteiriça entre França e Alemanha, então cantão alemão da Suíça. Página |15 XIX, com Hegel11, é uma espécie de história do percurso de aproximações e oposições que o espírito do homem atravessa para se elevar da sensação individual à razão universal. Com o filósofo Edmund Husserl12, nas primeiras décadas do século XX, a fenomenologia é, segundo sua definição, “(...) uma descrição pura do domínio neutro do vivido (experiência como tal) e das essências que aí se apresentam”. (HUSSERL, apud (CHALLAYE, 1978 p. 226) Nessa conceituação, portanto, passa a significar o estudo dos fenômenos em si mesmos, de sua evidência primordial, e a definir um movimento que vai exercer importante influência no pensamento filosófico dessa época. (CHALLAYE, 1978 p. 226) A fenomenologia de Husserl considera que aquilo que é dado à consciência, percebido por ela, é o fenômeno, e é a essa consciência que é necessário interrogar, afastando tudo o que é exterior a ela. Para a sua ampliação, a consciência não pode estar fechada em si mesma, mas deve ser entendida como uma maneira de perceber o mundo e seus objetos. Examinar como a consciência percebe os diversos aspectos dos objetos, como tais aspectos aparecem à consciência, e descrevê-los como conteúdo 11 Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo alemão, uma de suas obras principais é Phänomenologie des Geistes, isto é, Fenomenologia do espírito, publicada em 1807. 12 Edmund Husserl (1859-1938), filósofo alemão, é autor de Investigações Lógicas (1900-1901) e de Ideias sobre uma fenomenologia pura e sobre uma filosofia fenomenológica ( 1913). Página |16 da consciência constitui a preocupação da fenomenologia (BELLO, 2006). Nesse sentido, o fenômeno ocorre essencialmente dentro da consciência, e os objetos exteriores são apenas condições para que a percepção e a vivência do fenômeno interior sejam criadas. A fenomenologia, assim, prescinde da realidade exterior das coisas, situando-se como anterior às crenças e juízos, senso comum ou proposição científica. 1.3. O PERÍODO PÓS MODERNO: REFORMULAÇÃO DOS PARADIGMAS DO CAMPO DA ARQUITETURA E DO URBANISMO Após a Segunda Guerra Mundial, 1945, inicia-se um processo de reformulação da arquitetura especialmente no continente europeu, que se vê diante da necessidade de reparação dos desastres causados pela guerra, incluindo a reconstrução de seus bens históricos e de sua memória. A postura funcionalista da arquitetura que vigorava no Movimento Moderno, no início do século XX, passa por uma radical transformação. As correntes de pensamento, nos diversos contextos culturais, procuram a revisão do conceito de homem tipo13, trazendo a discussão sobre a importância de uma 13 O conceito, segundo Montaner, trata da visão positivista, que vigorou no Modernismo, e fundamentou o pensamento da arquitetura em função de um Página |17 arquitetura pensada para um homem concreto e sobre a humanização dos espaços produzidos a partir da tecnologia. O pensamento urbano do Movimento Moderno é o principal tema a ser revisto na segunda metade do século XX. Os bairros monofuncionais, os edifícios de arquiteturas generalistas, os equipamentos urbanos de grandes escalas, o papel do automóvel e a pretensão de ruptura com a história e a memória, contribuíram para um modelo de cidade capitalista, ávido na especulação do espaço que, em consequência, promove a rarefação da essência da cidade, do encontro coletivo. (MONTANER, 1999 p. 82). Nessa reação, entre outros, ganha importante repercussão a publicação, em 1961, do livro Morte e Vida de Grandes Cidades de Janes Jacobs. Em sua reflexão, a autora defende a valorização dos espaços de convívio coletivo e retoma o caráter qualitativo das ruas e calçadas como locais de encontro da população, diferentemente do pensamento da maior parte dos arquitetos urbanistas que, segundo Janes Jacobs deixavam de lado a realidade para projetar as cidades baseadas em modelos ideais do planejamento urbano Moderno: Eles se aferram a isso [urbanismo moderno ortodoxo] com tal devoção, que, quando uma realidade homem ideal “puro, perfecto, genérico, total (...) El ‘modulor’ de Le Corbusier constituía una tardía explicitación de este usuario idealizado. Según Le Corbusier, todos los hombres tienen el mismo organismo, las mismas funciones, las mismas necesidades” (1999 p. 18) Página |18 contraditória se interpõe, ameaçando destruir o aprendizado adquirido a duras penas, eles colocam a realidade de lado. (JACOBS, 2003 p. 6) A crítica feita à cidade moderna reconhece o problema da desumanização do espaço público, que passa de espaço vazio, livre, para espaço construído. Um exemplo significativo é a preponderância que assumem os espaços destinados ao automóvel - são construídos túneis, pontes, grandes avenidas, etc. – cujos projetos não conseguem “compatibilizar automóveis e cidades” (JACOBS, 2003 p. 6). É nesse contexto que Robert Venturi publica, em 1966, o livro Complexidade e Contradição na Arquitetura. O texto defende a preferência pelo híbrido ao puro, pelo complexo ao simplificado, pelo ambíguo ao claro. Opõe-se, portanto, aos critérios de simplificação e de pureza formal criados pelo Modernismo e celebra em sua teoria o “feio e o ordinário” no meio ambiente. Venturi evidencia em seu texto a necessidade de admitir múltiplas interpretações e diversos pontos de vistas, ao contrário do cenário de hegemonia que prevalecia no período Moderno (NESBITT, 2006 p. 27) Outras importantes publicações - A imagem da Cidade, 1960, de Kevin Lynch, Intenciones en Arquitectura, em 1963, de Christian Página |19 Norberg-Schulz, A Arquitetura da Cidade, em 1966, de Aldo Rossi e, posteriormente, Aprendendo com Las Vegas, 1977, de Denise Scott Brown, Robert Venturi e Steven Izenour - acrescentam instabilidade à supremacia da experiência do modernismo no século XX e transformam radicalmente a forma de ler, pensar e fazer arquitetura. A ideia de abstração, característica da arquitetura moderna, é contestada pelo interesse renovado em diferentes linguagens; a atemporalidade é substituída por uma relação de juízo de valor com a história, o sítio deixa de ser neutro e pode ser entendido como ponto de partida, a identidade é trocada pelo princípio da pluralidade. Mas não somente. As reflexões denominadas de pós-modernas atingem todas as áreas de conhecimento, na tentativa de entender e de refletir o universo da diferença, da pluralidade cultural e da interdisciplinaridade. Essa condição “(...) manifesta-se na multiplicação dos centros de poder e de atividades e na dissolução de toda espécie de narrativa totalizante que afirme governar todo o complexo campo da atividade da representação social” (CONNOR, 1996 p. 16). Página |20 1.4. O CONCEITO DE “LUGAR” NA ARQUITETURA 14 Uma noite de inverno Quando a neve cai pela janela E os sinos noturnos repicam longamente, A mesa, posta para muitos, E a casa está bem preparada. Há quem, na peregrinação, chegue ao portal da senda misteriosa, Florescência dourada da árvore da misericórdia, Da força fria que emana da terra. O peregrino entra, silenciosamente, Na soleira, a dor petrifica-se, Então, resplandecem, na luz incondicional, Pão e vinho sobre a mesa. GEORG TRAKL Relacionados à teoria da arquitetura, os conceitos de “espaço” e “lugar” adquirem abordagens distintas, mas também complementares, que são fundamentais para a interpretação de parte significativa da produção pós-moderna. A ideia de concepção do espaço, como definição da arquitetura, amplia-se a partir dos anos sessenta com a relevância que a noção de lugar adquire na teoria e prática da arquitetura. Mas a transformação na interpretação e representação do espaço marca 14 Poema de Georg Trakl, utilizado por Heidegger para explicar a natureza da linguagem e retomado por Norberg-Schulz por “apresentar uma situação de vida total em que o aspecto do lugar é fortemente sentido” (NORBERGSCHULZ, 2006 p. 445) Página |21 também a transição entre a arquitetura tradicional e moderna conforme retoma, Montaner, o espaço modernista é representado por uma área aberta, transparente, contínua e dinâmica, concebido “em total contraposição ao espaço tradicional que é diferenciado volumetricamente de forma identificável, descontínuo, delimitado, específico, cartesiano e estático” (2001 p. 28) Figura 2- Espaço representado por área interna, fechada, delimitada e estática. Noção expressa, principalmente, na arquitetura tradicional. Figura 3 – Espaço representado por uma área aberta, transparente, contínua e dinâmica. Noção expressa, principalmente, na arquitetura moderna, e percebida claramente nas obras de Mies Van der Rohe Fonte: Croquis elaborados pela pesquisadora a partir do texto Espaço e Anti-espaço do livro A Modernidade Superada de Josep Montaner (2001), Entretanto, é possível verificar em ambas as representações o entendimento do conceito de espaço a partir de seu sentido Página |22 abstrato, que corresponde ao significado geométrico do termo: uma área ou extensão infinita, incomensurável, caracterizada pela continuidade, homogeneidade e tridimensionalidade15 [Figura 2 eFigura 3]. Essa condição totalizadora e genérica do conceito de espaço constitui a diferença em relação ao conceito de lugar, que acrescenta à concepção do espaço dados concretos e específicos que ressaltam a individualidade de cada projeto, conforme esclarece Montaner: (...) os conceitos de espaço e lugar podem-se definir claramente. O primeiro tem uma condição ideal, teórica, genérica e definitiva, e o segundo possui um caráter concreto, empírico, existencial, articulado, definido até os detalhes (MONTANER, 2001). Nesse sentido, é possível ressaltar a interpretação do espaço geométrico identificado por sua condição abstrata, que pressupõe uma concepção a partir do pensamento lógico e científico e, do espaço como lugar, marcado pela situação concreta, concebido em função de dados existentes na paisagem, com base em critérios empíricos e variáveis, condicionados pela existência e condição humana na natureza. 15 JAPIASSU, H. e MARCONDES, D. Dicionário Básico de Filosofia. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1996. Página |23 Chistian Norberg-Schulz16, teórico norueguês, retoma o conceito romano de genius loci, do espírito guardião que protege e é responsável pela essência dos indivíduos e dos lugares, e para quem (romanos) reconhecer o espírito do lugar e viver em consonância com ele, física e psiquicamente, significava encontrar e manter uma ordem intrísica a seu habitat [Figura 4]. Figura 4 – O “espírito do lugar” - Teotihuacan / México. Vista da Calçada dos Mortos e da Pirâmide do Sol. . A disposição da cidade segue os movimentos dos astros. Ali seria o ponto de encontro entre os deuses, o céu, a terra e a humanidade. Fonte: cienciahoje.uol.com.br/view-materia-by-id/117211 - acesso:25/03/12 16 Noberg-Schulz relaciona o conceito de Genius loci ao Daimon dos gregos: “Na filosofia grega, gênio (espírito) bom ou mau, inferior a um deus, mas superior ao homem: o demônio de Sócrates era um gênio que lhe inspirava e dava conselhos.” JAPIASSU, H. e MARCONDES, 1996. Página |24 O entendimento de lugar, para Norberg-Schulz, desenvolvido com base no pensamento de Heidegger17, é oposto à ideia de sítio genérico, de uma localização abstrata e, por isso mesmo, perceber a essência de um lugar, daquilo que é imanente a ele, é uma das questões colocadas pelo autor explicitando a sua aproximação com a fenomenologia: Em geral, um lugar é dado como esse caráter peculiar ou ‘atmosfera’. Portanto, um lugar é um fenômeno qualitativo ‘total’, que não se pode reduzir a nenhuma de suas propriedades, como as relações espaciais, sem que se perca de vista sua natureza concreta. (NORBERG-SCHULZ, 2006 p. 445) O entendimento de “lugar” ou de “ter lugar” adotado, de modo geral, em arquitetura e o planejamento, atém-se principalmente aos dados quantitativos e funcionais que incidem diretamente no dimensionamento, organização e articulação do programa, conceitos analíticos que, segundo o autor, embora necessários, não permitem definir os lugares agregando outras perspectivas. E como a “fenomenologia foi concebida como um ‘retorno às coisas’ 17 Martin Heidegger, do mesmo grupo de Edmund Husserl, estuda sentimentos fundamentais que percorrem a existência em geral. Segundo Challaye ( 1978, p.227) “A conclusão prática da doutrina é uma resolução resignada, na qual a preocupação se torna ‘consciente de sua própria essência’ e na qual a existência se encontra ao compreender-se.” Influenciou o existencialismo de Sartre e de Merleau- Ponty Página |25 em oposição às abstrações e construções mentais” (NORBERGSCHULZ, 2006 p. 445), a construção teórica para sua aplicação à arquitetura, assim como a proposta de uma metodologia de análise é o objetivo desenvolvido pelo autor. Norberg- Schulz extrai do poema “ Uma noite de inverno” de Georg Trakl18 - utilizado por Heidegger para explicar a natureza da linguagem - a ideia de que toda situação é, ao mesmo tempo, local e geral, quando se é capaz de transformar características básicas inerentes e gerais à existência, em uma situação concreta e local. Para a melhor compreensão de genius loci, desenvolve alguns conceitos fundamentais. Um deles é a distinção entre elementos naturais e elementos fabricados pelo homem19. A natureza (os elementos naturais) é uma extensa totalidade, um lugar que, no entanto, e sem dúvida, conforma identidades particulares, com “espíritos do lugar” distintos uns dos outros, de acordo com as circunstâncias locais. Nesse entendimento do autor tem, como categorias principais, o binômio terra-céu, a extensão horizontal e a vertical: “As fronteiras de uma paisagem... consistem no solo, no 18 GEORG TRAKL (1887- 1914), poeta austríaco, nasceu em Salzburgo. É um dos mais importantes nomes da poesia de língua alemã do século XX e considerado, sobretudo pelos poemas escritos em seus dois últimos anos, um dos maiores expressionistas. Deixou dois volumes de versos, Poemas e Sebastião em Sonho. 19 Noberg-Schulz (2008) ao referir-se à distinção entre elementos naturais e elementos criados pelo homem, presente no poema de Trakl, sugere a possibilidade de ser esse um ponto de partida para uma “fenomenologia do ambiente”, mais abrangente que aquela do lugar. Página |26 horizonte e no céu.” (NORBERG-SCHULZ, 2006 p. 450). Essa definição permite uma compreensão importante do conceito de paisagem como designação dos lugares naturais, pois evidencia a percepção do mundo em um interior definido pelos limites da natureza, portanto a paisagem não é interpretada apenas como plano de fundo da condição humana, mas sim, determinante para existência ou condicionante essencial do “habitar” do homem na terra. Os elementos do ambiente criados pelo homem são os assentamentos - em todas as escalas tais como casas, fazendas, aldeias, cidades, metrópoles – e as ligações entre tais assentamentos, os caminhos que estabelecem a conexão. A primeira característica desses lugares construídos é o que o autor denomina de concentração e cercamento e, em consequência, tais lugares são sempre “interiores”: “As fronteiras de um espaço construído são o chão, a parede, o teto.” (NORBERG-SCHULZ, 2006 p. 450). Dessa análise deriva o outro binômio, a categoria fora- dentro e, como somente um interior pode conter uma abertura, aos lugares são acrescentadas as aberturas, por meio das quais são conectados ao exterior. Evidenciadas as propriedades empíricas que a relação entre paisagem e assentamentos pode indicar, a ideia de caráter – de como as coisas são na análise dos fenômenos concretos - junto Página |27 ao conceito de espaço – “aqui não como uma noção essencialmente matemática, mas como uma dimensão existencial” - é apontada como outro dado necessário ao reconhecimento da estrutura do lugar, que segundo o autor . Caráter” é um conceito ao mesmo tempo mais geral e mais concreto do que “espaço”. Por um lado, indica uma atmosfera geral e abrangente e, por outro, a forma e a substância concreta dos elementos definem o espaço. (...) Até certo ponto o caráter de um lugar é uma função do tempo; ele muda com as estações, com o correr do dia e com as situações meteorológicas, fatores que acima de tudo, determinam diferentes condições de luz. (NORBERG-SCHULZ, 2008, p. 451) Como é possível notar, pela definição do autor, as mudanças do caráter de um determinado lugar não estão relacionadas à características dos elementos construídos, são atribuídas às alterações climáticas, decorrentes da natureza. Sugere, assim, que em sua analise Norberg-Schulz retira do homem as relações de domínio sobre a paisagem e, ao contrário, recupera a necessidade de considerar que a sobrevivência está condicionada pelo lugar. Página |28 1.5. O CONCEITO DE FATOS URBANOS: CRITÉRIO DAS PERMANÊNCIAS O teórico e arquiteto italiano Aldo Rossi pertencia à corrente de pensamento pós-moderna neorracionalista, que reconhecia os aspectos positivos do pensamento modernista e propunha sua continuidade, principalmente no que se refere ao raciocínio de pureza formal e experimentação que, marcado pela estratégia de abstração, foi capaz de sintetizar soluções para a problemática cidade industrial. Em seu escrito de maior relevância, o texto Arquitetura da Cidade, publicado em 1966, Rossi apresenta uma leitura sobre alguns preceitos da arquitetura e urbanismo modernos, e ao mesmo tempo propõe uma nova metodologia de projeto para a revisão da postura de ruptura com o passado e melhor entendimento da relação entre a arquitetura e o lugar. Em síntese o autor expõe, assim como Lynch, um novo ponto de vista para a leitura do ambiente urbano. A cidade, objeto deste livro, é nele entendida como uma arquitetura. Ao falar de arquitetura não pretendo referir-me apenas a imagem visível da cidade e ao conjunto das suas arquiteturas, mas antes à arquitetura como construção. Refiro-me à construção da cidade no Página |29 tempo. Considero que independentemente de esse meus ponto de vista, conhecimentos específicos, pode constituir o tipo de análise mais abrangente da cidade; ela remete ao dado último e definitivo da vida da coletividade: a criação do ambiente em que se vive. (Rossi A., 2001, p.01) Como se apreende do texto, Rossi apresenta uma nova lógica para análise da cidade, propondo que a produção contemporânea seja concebida a partir do reconhecimento daqueles elementos urbanos do passado que se fazem presentes e que devem permanecer no futuro. Esses elementos são, nas palavras de Aldo Rossi, permanências que caracterizam um “passado que ainda experimentamos” (ROSSI, 2001 p. 52). Identificar tais elementos – fatos urbanos - constitui a preocupação de quem estiver envolvido com a cidade, com o projeto do novo em continuidade com o espaço urbano existente, questão fundamental, segundo o autor, para o entendimento da paisagem urbana em sua totalidade. Nessa perspectiva, a história e a cultura da sociedade estão registradas na arquitetura, pois são os fatos urbanos, decorrentes da ocupação e da evolução humana, que constituem a cidade. São considerados como fatos urbanos tanto um palácio, uma rua, Página |30 um bairro como qualquer outro elemento da cidade que, significativamente, delineia sua forma. Na análise desses elementos o autor privilegia o entendimento das relações existentes entre os mesmos e as populações que os construíram e viveram em tal lugar, em uma escala de tempo que considera a permanência dos elementos construídos, como significado, como construção e como memória, independentemente das alterações de uso, pois as próprias alterações de uso são testemunhos de sua persistência. No entanto, é importante ressaltar a noção de atemporalidade do pensamento do autor. Para Rossi o entendimento de quem analisa um fato urbano será diferente de quem vive esse mesmo fato. Ou seja, para Rossi a forma como as pessoas usufruem o espaço é um dado variável, imprevisível, que não necessariamente precisa ser considerado na concepção do projeto, já que se modifica diante de diversos fatores sociais e culturais entre gerações. Portanto, o critério para identificação dos fatos urbanos na paisagem, conforme esclarece o autor, é limitado a: (...) definir e classificar uma rua, uma cidade, uma rua na cidade; e o lugar dessa rua, a sua função, a sua arquitetura e, sucessivamente, os sistemas de ruas possíveis na cidade e várias outras coisas semelhantes. (ROSSI, 2001 p. 18) Página |31 Em continuidade, Rossi afirma a importância do traçado urbano na leitura da cidade: dentre as transformações diversas que modificam substancialmente a morfologia, ao longo da história da ocupação humana, o plano persiste na paisagem – ou tende a persistir – por isso mesmo constitui um fato urbano de importância. A partir da rua, “a análise passa ao solo urbano, e o solo urbano, que é um dado natural mas também é uma obra civil, está ligado à composição da cidade” (ROSSI, 2001 p. 38) A cidade é analisada pelo mesmo autor, através de sua forma pois é a morfologia urbana, dada pelas formas de um fato urbano, que permanece ao longo do tempo; ao contrário, a função dos edifícios é considerada com importância secundária, justamente porque é alterada em decorrência das mudanças na sociedade e, assim, todo o valor simbólico e a memória do uso do edifício ficam atrelados à sua forma, são somados e transmitidos às próximas gerações. Página |32 Capı́tulo2 OPROJETOEA REPRESENTAÇÃODOLUGAR Página |33 2. O PROJETO E A REPRESENTAÇÃO DO LUGAR Nesse sentido, o mais complexo é identificar maneiras de representar essas teorias na concepção do projeto. Portanto, é possível compreender a importância de arquitetos como Robert Venturi e Aldo Rossi, que além de estabelecer o pensamento que sintetizava a problemática enfrentada pela Arquitetura e Urbanismo na década de 60, levaram os conceitos recémestudados à construção propriamente dita da arquitetura. Aldo Rossi, em especial, segue um caminho ainda mais oportuno para esse estudo, pois estabelece um possível método de projeto com base no conceito de fatos urbanos, elementos construídos pela coletividade, mas que são identificáveis na forma da arquitetura presente na cidade. Nesse sentido, torna-se fundamental a contribuição que Norberg-Schulz acrescenta à análise e concepção da arquitetura a importância da paisagem natural e da individualidade do projeto, condicionadas ao caráter concreto do lugar. O início do projeto para Aldo Rossi pressupõe, como primeira fase da concepção, a leitura dos elementos urbanos, construídos pelo homem, que persistem através do tempo e, num procedimento lógico de entendimento dos fatos urbanos presentes na área ou na Página |34 região, o desenho proposto é “determinado”, por analogia, pela estrutura específica daquele lugar. Norberg-Schulz sugere, assim como Rossi, a leitura do lugar na etapa inicial do projeto, mas acrescenta maior ênfase aos dados empíricos, inclui nesse procedimento a observação dos “fenômenos” concretos e da relação entre o homem e o lugar, ressaltando, portanto, a individualidade do projeto. O autor identifica, no processo de elaboração do detalhe, a representação do lugar e da evidência de seu caráter. Contudo, o limite entre a individualidade e a coletividade do projeto de arquitetura pode não ser exato, e exige a sobreposição de procedimentos e a elaboração de novos conceitos. Nesse sentido, as reflexões de Aldo Rossi e Norberg-Schulz se complementam e, reforçam a importância das teorias que antecipam o resultado de determinadas decisões de projeto e oferecem soluções alternativas. Página |35 Capı́tulo3 EstudodeCaso Página |36 No prosseguimento, com intuito de verificar a transposição dessas teorias na prática do projeto são identificados critérios de análise a partir do entendimento dos conceitos expostos no primeiro capítulo, na leitura anteriormente realizada do projeto do Museu de Santiago de Compostela (1993), do Arqº. Álvaro Siza, para a pesquisa de Iniciação Científica (2010), em que é possível verificar elementos do lugar que estão representados pela arquitetura desse edifício. 2.1. CENTRO GALEGO DE ARTE CONTEMPORÂNEA (A. SIZA VIEIRA, 1993) Santiago de Compostela, Espanha, 1993. O Centro Galego de Arte Contemporânea foi implantado no antigo jardim do Convento de San Domingo de Bonaval, próximo ao monumental centro do município de Santiago de Compostela, em Galizia, Espanha. Segundo Montaner a solução proposta que partia da indeterminação do programa, “adota a forma de planta triangular que permite fechar-se em si mesma, adaptar-se à memória da cidade incluindo seus muros de pedra e localizar-se no jardim histórico existente, remodelado pelo próprio Siza”. (MONTANER, 2003 p. 82) Portanto, o conhecimento de alguns fatos históricos da Página |37 cidade de Santiago de Compostela tem fundamental importância nesse estudo, e serão brevemente expostos, pois nortearam as decisões do projeto analisado. A cidade recebe, há doze séculos, peregrinos cristãos de toda parte do mundo que chegam à Catedral de Santiago de Compostela para visitar o túmulo de Santiago Maior, um dos apóstolos de Jesus Cristo, o qual, conforme diz a tradição, teve seu corpo encontrado na Espanha e sepultado em Galícia. Os caminhos traçados por essa milenar peregrinação se espalham por toda a Europa e foram reconhecidos em 1998, pela UNESCO, como Patrimônio da Humanidade. Na atualidade, as rotas não são percorridas apenas por motivações religiosas, mas recebem pessoas de toda parte do mundo que perfazem os caminhos também pelo reconhecimento de seu valor artístico e cultural. Página |38 Muralha de Santiago (Século XII) Caminho de Santiago – Itinerário francês Via de ligação entre o centro da cidade e o museu Portas de acesso a cidade, correspondentes com os itinerários de chegada dos peregrinos a Santiago de Compostela Centro Galego de Arte Contemporânea (Álvaro Siza) Catedral de Santiago de Compostela Convento de San Domingo de Bonaval Figura 5 – localização do Centro Galego de Arte Contemporânea e sua relação com os marcos históricos da Cidade de Santiago de Compostela Fonte: Mapa produzido por Gislaine Moura, a partir de informações retiradas do site http://www.caminhodesantiago.com (acesso: 07-08-2009) – sobre foto aérea do Google Earth 2.1.1. CONDICIONANTES DO LUGAR Há diversos elementos históricos que ficaram registrados na arquitetura da cidade, cujo conjunto foram particularmente considerados por Álvaro Siza na concepção do projeto: a elimitação marcante da antiga muralha de proteção à cidade, as “sete portas de acesso” que encerravam as peregrinações, o caminho francês para Santiago, a catedral de Santiago de Página |39 compostela; podem ser observadas, também, as estreitas ruas e traçado irregular, características do período medieval. [Figura 5] Platô contruído para implantação do novo edifício escolar Nova via aberta: Rua Ramón Del ValleInclán Conjunto Conventual de Santa Clara Conjunto Conventual de San Roque Conjunto Conventual San Domingo Bonaval Centro Galego de Arte Contemporânea (Álvaro Siza) Figura 6– localização do Centro Galego de Arte Contemporânea entre edifícios históricos da cidade Fonte: Mapa produzido por Gislaine Moura, a partir de foto aérea do Google Earth O autor do projeto, o arquiteto português Álvaro Siza, adotou como ponto de partida a remodelação do jardim do Convento de San Domingo, situado em uma área triangular ocupada, em cada vértice, por um conjunto conventual [Figura 6]. Essa área foi descaracterizada no final da década de sessenta pela construção de um novo edifício escolar que, alterando a topografia do local, definiu um platô para implantar suas quadras esportivas e, ainda, pela abertura de uma nova rua através da demolição de algumas Página |40 paredes existentes, deixando um espaço inutilizado em frente aos terraços do jardim dominicano. [Figura 6] 1- Jardins do Convento de San Domingo de Bonaval 2- A área corresponde aos terraços dos jardins do Convento de San Domingo de Bonaval, remodelada por Siza com a implantação do Centro de Arte 1 2 Uma das portas do caminho de santiago caminhi francês Figura 7–Centro Galego de Arte Contemporânea – área de implantação do edifício. Croqui:Gislaine Moura Página |41 2.1.2. CRITÉRIOS PARA IMPLANTAÇÃO DO EDIFÍCIO Na busca de um desenho coerente e capaz de reordenar a área antes degradada [Figura 7], Siza concebe o edifício em dois volumes, os quais se alinham aos eixos de referência do entorno. Os blocos são implantados longitudinalmente no sentido norte-sul e convergem entre si para a cota mais baixa do sitio; um deles é paralelo à nova Rua Ramón del Valle-Inclán conferindo-lhe uma fachada; o outro forma, com a fachada do Convento de San Domingo de Bonaval, um ângulo de 21º permitindo visuais que ressaltam a importância histórica e cultural do patrimônio [Figura 8]. 1- Jardins do Convento de San Domingo de Bonaval 2- Área do museu 3- Nova rua Ramón del Valle-Inclán O edifício foi concebido em dois volumes: o primeiro, à esquerda (A), desenhado pararelo à nova Rua Ramón del ValleInclán; o outro (B) cria uma perspectiva em relação à fachada do convento. 3 1 2 B A Uma das portas do caminho de santiago caminhi francês Figura 8 – Centro Galego de Arte Contemporânea – condicionantes para implantação. Croqui:Gislaine Moura Página |42 Os eixos de referência do entorno eleitos pelo arquiteto sintetizam a leitura dos elementos que caracterizam o sítio, e o reconhecimento daqueles elementos permanentes, constituintes da paisagem, de acordo com os conceitos de ROSSI (2001): - ao implantar o edifício (A) paralelo à Rua Ramón del Valle- Inclán, Siza delimita a nova via e, com isso, resgata a principal característica do traçado urbano do período medieval, preponderante em toda cidade de Santiago de Compostela: as ruas, assim como as praças desse período, são resultantes dos vazios deixados pelas construções implantadas na periferia das quadras, constituindo um espaço público caracterizado por estar delimitado pelos edifícios [Figura 9]; Figura 9 – Centro Galego de Arte Contemporânea - Delimitação da Rua Ramón del Valle-Inclán pelas construções existentes e pela fachada do bloco (A) do museu à esquerda Figura 10– Centro Galego de Arte Contemporânea - Similaridade entre o volume do bloco (B) do museu e o edifício do Convento. fonte: El Croquis. Alvaro Siza, 1958-2000. In: El Croquis Editorial, nº 68/69-95. Madri, 2007 o outro volume (B) estabelece com o convento dominicano, datado do século XII, uma relação de analogia, ressaltando a importância Página |43 histórica desse edifício que representa um marco na paisagem do local. Mantém-se, para tanto, o mesmo gabarito e densidade da forma, além de obedecer ao alinhamento da fachada e criar perspectivas de diversos pontos para sua entrada [Figura 10]. É importante ressaltar, ainda na implantação do edifício, que o autor redefine os níveis do entorno, considerando os fluxos de pedestres: implanta cada volume do edifício na cota natural do terreno, o que acarreta um desnível de 2,5 m entre eles e, através de uma rampa de pedestres (paralela à Rua Ramón Del ValleInclán) integra os dois níveis permitindo, com isso, a preservação da vista para a muralha de Santigo ou para o próprio convento dominicano [Figuras 11, 12, 13 e 14]. Página |44 Figura 11- Desnível de 2,50 m entre o terraço do convento e a Rua R. del Valle-Inclán. O gabarito do Museu mantém a mesma altura do edifício do Convento Figura 12 - Escada proposta por Siza para integrar a área do Conjunto Conventual San Domingo com o centro monumental da Cidade. Figura 13 - A liberação do térreo, no ponto em que os dois volumes se encontram, contribuiu para o acesso e a integração visual entre os diferentes níveis do terreno Figura 14 - A rampa paralela à rua R.del Valle-Inclán diminui a distância percorrida para transpor a quadra, aumentando o fluxo de pedestres na praça de entrada do museu. Croqui: Gislaine Moura Página |45 Figura 15 - Articulação do espaço urbano: praça da entrada principal. fonte: El Croquis. Alvaro Siza, 1958-2000. In: El Croquis Editorial, nº 68/69-95. Madri, 2007 Pelo conjunto das características estudadas, o museu projetado por Álvaro Siza em Santiago de Compostela é, claramente, um exemplo de trabalho que adota, como premissa, a integração do edifício à paisagem - física e cultural – da cidade. Nesse sentido, é resultado da criteriosa atenção aos elementos de valor permanente, incluídos tanto a valorização do patrimônio histórico, arquitetônico e cultural existente, a recomposição da malha urbana, através do redesenho das vias e do espaço público circunvizinho, e a preservação de vistas e perspectivas importantes à paisagem da cidade [Figura 15]. Página |46 Figura 16 – Vista Centro Cultural São Paulo – edifício destacado ao centro Fonte: fotografia de Carlos Renno – disponível em https://picasaweb.google.com/ccspsite/CCSP30Anos#5739847888011719714 3. ESTUDO DE CASO: CENTRO CULTURAL SÃO PAULO No período em que se dá a construção da Estação Vergueiro, ao Metrô cabia a responsabilidade do planejamento das linhas e projeto das estações e à Empresa Municipal de Urbanização EMURB competia a elaboração dos planos de reurbanização das áreas envoltórias das estações e linhas, de tal modo, que esses permitissem a comercialização com lucros adequados à amortização dos custos de implantação da rede. Durante a construção da Estação Vergueiro, a longa e estreita faixa de terreno, entre a Avenida 23 de maio, a Rua Vergueiro, Página |47 com cerca de 80.000m² foi destinada à revitalização da área [Figura 17], num projeto nomeado de Nova Vergueiro, objeto de licitação lançada pela Prefeitura de São Paulo em 1974 (ANELLI, 2007). Avenida 23 de Maio . Rua Vergueiro Vd. João Julião/ Beneficiencia Portuguesa Central de Controle Operacional do Metrô Viaduto Paraíso Figura 17 – Mapa da área do Projeto Vergueiro elaborado pela EMURB Fonte: (Serapião, 2012) Página |48 Figura 18 – Imagem publicada pela Revista Manchete a partir de perspectiva elaborada pela EMURB para divulgação do plano de revitalização Nova Vergueiro. Fonte: Imagem disponível em Anelli, 2007 No Termo de Referência preparado pela EMURB demonstravamse em croquis esquemáticos as diretrizes para elaboração dos projetos [Figura 18], conforme esclarece Renato Anelli: Os esquemas de implantação e índices de ocupação e de aproveitamento propõem que o espaço da Rua Vergueiro estendesse através do nível térreo, tornando-se uma praça em plataforma para o vale da 23 de Maio. Acima desse nível seriam erguidas as torres e abaixo ficariam serviços e estacionamento. A Igreja de Santo Agostinho, com seu pequeno largo, Página |49 assumiram o papel de uma referência histórica da região, estruturando a travessia do vale pelo Viaduto Beneficência Portuguesa e Rua João Julião. (ANELLI, 2007 p. s/n) Figura 19 – Imagem do Projeto vencedor da licitação da Nova Vergueiro, Arquiteto Roger Smekhol, publicado em 1974 Fonte: (Serapião, 2012 p. 21) O projeto vencedor, de autoria dos arquitetos Roger Zmekhol e Sidinei Rodrigues, provocou uma série de discussões, tanto em relação ao rumo do aproveitamento das grandes áreas vinculadas aos investimentos de infraestrutura, quanto ao impacto que causaria na paisagem urbana. Em 1975, após determinar a anulação dessa concorrência, Olavo Setúbal, o novo prefeito, doa uma parte de aproximadamente 22.000m² da área utilizada para canteiro de obras do Metrô [Figura 20], ao Departamento de Bibliotecas Públicas do Município de São Paulo, para a construção da Nova Biblioteca Central-Vergueiro. Página |50 A – Área remasnecente às obras do Metrô, destinado inicialmente aos projetos de urbanização da EMURB e posteriormente a construção do CCSP. A 4 B – Estação Vergueiro – Linha Norte/Sul do Metrô B C – Central de Controle Operacional do Metrô. 1 – Via expressa: Avenida 23 de Maio 2 – Rua Vergueiro 3 – Viaduto Paraíso 1 4 – Viaduto Beneficiencia Portuguesa 2 Acessos da atual Estação Vergueiro do Metrô C 3 Figura 20 – Em destaque, área destinada à construção da Nova Biblioteca Central-Vergueiro, atualmente ocupada pelo Centro Cultural São Paulo Fonte: Mapa elaborado pela pesquisadora sobre o GEGRAN de 1972 Para tanto, esse Departamento contratou a equipe de arquitetos da PLAE Arquitetura SC Ltda, liderada pelo arquiteto Eurico Prado Lopes, para acompanhamento e finalização do relatório do Programa Funcional e para a elaboração do projeto de arquitetura, que é entregue em outubro de 1975 (TELLES, 2002). Página |51 O extenso programa, amplamente pesquisado e elaborado, com grande atenção à ideia de que deveria atender a todos os segmentos da população, envolveu, segundo Luiz Telles: (...) questões dimensionamento, de Biblioteconomia, desempenho e de relacionamento entre setores, questões relacionadas à expansão futura e aspirações, à arquitetura – edifício, cidade e edifíciocidade, e questões relacionadas ao usuário e à cidadania, resultando em um trabalho completo e profundo (...). As determinações do projeto e a investigação pormenorizada da realidade foram categorias referenciais para o desenvolvimento do projeto, mas também funcionaram como aberturas para uma reflexão paralela, que nos encaminhou para os questionamentos, as dúvidas e as indagações criativas dessa mesma realidade. (Telles, 2002 p. 207) Página |52 Figura 21 – Imagens do terreno do Centro Cultural São Paulo anteriores à construção do edifício. Fonte: TELLES, 2002, p.210 e 212 Página |53 As características físicas do terreno – longa e estreita faixa com declividade acentuada de cerca de 10m – foram consideradas condicionantes importantes, conduzindo soluções que permitissem a manutenção da conformação da área [Figura 21]. O edifício, sem ostentação, deveria integrar-se perfeitamente à paisagem e, para isso “Fazia-se necessário captar o espírito do lugar (genius loci), sua alma, sua atmosfera” ( TELLES, 2002, p.213). Desde o início, o edifício é pensado com a preocupação de não se impor à paisagem urbana - deveria ser baixo, leve, convidativo – incorporando o formato do terreno e o desnível entre a Rua Vergueiro e a Av. 23 de Maio. Figura 22 – Imagem da construção do CCSP: vegetação mantida durante as obras do Metro e preservada no novo projeto. Fonte: (Bucci, 2003 p. s\n) Praticamente no centro da extensão do terreno ainda permanecia um conjunto de árvores de maior porte [Figura 22], poupado no Página |54 uso do terreno como canteiro de obras do Metrô. Essa vegetação existente, reunida, passou a ser uma referência a ser preservada, em um enfoque que, ainda segundo Telles (2007, p. 217) “distanciava-se da conhecida tabula rasa, comumente proposta pela arquitetura moderna”. O primeiro anteprojeto foi entregue em 1977, mas recusado pelo prefeito com o argumento de que a monumentalidade do edifício não correspondia às propostas políticas de sua gestão (Serapião, 2012, p. 61). Essa questão é reconhecida por um dos autores da proposta, em que pese a preocupação da equipe, já nos primeiros estudos, com um edifício sem ostentação, adequado à paisagem e atento ao bem estar dos usuários, como já mencionado: (...) Não se conseguiu refrear a ‘experiência moderna’, o edifício surgiu como uma grande estrutura em concreto muito marcante, grandes vãos, vigas inclinadas que se encontravam em nós, destes nascendo outros conjuntos de vigas inclinadas – propôs-se um espaço monumental. (Telles, 2002 p. 225) Página |55 Figura 23 – Maquete da primeira proposta para a Biblioteca Central-Vergueiro: projeto identificado pela horizontalidade e uma marcante cobertura de concreto. Fonte: (Serapião, 2012 p. 21) Novos estudos se sucedem. Mas é a proposta, apresentada pelo arquiteto Eurico Prado Lopes, de uma rua interna ao edifício, tendo uma extremidade no viaduto João Julião e a outra junto ao Centro de Controle e Operação do Metrô – CCO, entendida como uma área de transição entre a cidade e o edifício, e da qual se poderia ter acesso a todas as atividades da Biblioteca [Figura 24], que se torna o ponto chave do projeto, a “ideia luminosa” que faltava, capaz de promover “(...) grande salto qualitativo no desenvolvimento do trabalho”, na expressão de Luiz Telles (2002, p. 233; 235). Página |56 Figura 24 - Croqui da rua interna – 1977. Acervo PLAE Fonte: Dissertação de mestrado do autor do projeto: Telles, 2002, p. 232 Em 1978, o novo anteprojeto para a Biblioteca Central foi aprovado e durante a construção, em 1980, na gestão do prefeito Reinaldo de Barros, passa por nova reformulação. Por determinação de Mario Chamie, novo Secretário Municipal da Cultura, o edifício deveria abrigar um Centro Cultural, sob a argumentação principal de que uma nova biblioteca na área central com capacidade para milhões de livros, não estava de acordo com sua política cultural, que propunha a construção de pequenas bibliotecas nas áreas de periferia da cidade, reafirmando a intenção de descentralização da cultura em sua Secretaria (Serapião, 2012 p. 75). Nesse sentido, a criação do Centro Cultural, pelas atividades que contemplaria, “melhor atenderia à carência da população com relação à informação e ao lazer cultural” (Telles, 2002 p. 253). Página |57 Propunha-se, portanto, um espaço multiuso, com programa de necessidades amplo e variado, incluindo instalações do teatro, cinema, exposições, biblioteca e programação que favorecesse a vinculação entre usuário e atividades oferecidas: Não se iria mais somente a um teatro, cinema, exposição, mas a um espaço com transporte urbano fácil, tendo-se opção de participação ativa nas atividades – um lugar em que poder-se-ia ver ou fazer teatro, cinema, música, arte, a cidade representada no projeto. (Telles, 2002, p. 253) Permaneceu, contudo, a forma do edifício que, pelas dimensões favoreceu a ampliação de programa necessária para a construção desse Centro Cultural, e pela natureza da proposta, foi possível dar continuidade com conceito de espaço aberto à população, que até então, havia conduzido a elaboração do projeto. Página |58 3.1. O PROJETO DO CENTRO CULTURAL: A REPRESENTAÇÃO DO LUGAR NA ARQUITETURA Rua Vergueiro Viaduto João Julião (Beneficência Portuguesa) Avenida 23 de Maio Centro Cultural São Paulo Rua Bernardino de Campos / Av. Paulista Viaduto Paraíso Figura 25- Localização: terreno em encosta de Vale no limite entre as regiões da Av. Paulista (esq.) e Liberdade (dir.). Fonte: Mapa produzido por Gislaine Moura sobre foto aérea do Google Earth Conforme visto anteriormente, a localização do lote conferiu ao projeto significativa complexidade: em um trecho da encosta do vale do antigo córrego Itororó20 (Serapião, 2012 pp. 15,16), o 20 Afluente do rio Anhangabaú - assim como os córregos Saracura, Moringuinho e Bexiga - o córrego Itororó (pequena cachoeira ou salto) coincide com a Av. 23 de Maio, saindo da parte alta da mesma, entre a Av Paulista e a Liberdade. Fonte: http://cidadedesaopaulo-historia.blogspot.com.br/2010/01/fundacao-desao-paulo.html Página |59 terreno, de geometria alongada e estreita, encontra-se na separação das regiões da Avenida Paulista e Liberdade, delimitado por vias de alto tráfego [Figura 25]. Tais características destacam a condição de área remanescente à ocupação dos bairros e construção da cidade [Figura 27]. No entanto, verificou-se, a partir dos croquis de orientações da EMURB, a arquitetura resultante da leitura dessas condicionantes sob um primeiro conjunto de critérios, que pode ser identificado pela ideia de funcionalismo21. Ao conjunto de edifícios propostos era estabelecida uma função no reordenamento e desenvolvimento urbano dessa região da cidade, e em consequência a forma projetada representava esse ideal: torres para elevação de adensamento, erguidas sobre um embasamento em que se concentrariam as áreas de serviços e estacionamentos. Também o relevo, condicionante fundamental da implantação, foi representado a partir do programa arquitetônico do edifício, uma área de lazer, como uma praça em plataforma que prolongaria o espaço da Rua Vergueiro e se encerraria como um mirante para o 21 O funcionalismo e o organicismo são duas correntes da arquitetura moderna, baseadas no conceito de função que, segundo Aldo Rossi, foi “tomado de empréstimo da fisiologia, assimila a forma a um órgão cujas funções são as que justificam sua formação e o seu desenvolvimento”. (2001 p. 30). No entanto, no período pós-moderno essa relação entre forma e função é subvertida, em sua posição de Critica ao funcionalismo ingênuo, Aldo Rossi afirma que a função é um aspecto secundário na conformação da constituição da arquitetura, de um fato urbano. Página |60 Vale da Avenida 23 de Maio, relação que pode ser reconhecida entre as duas vias, a partir da leitura do corte transversal do terreno apresentado na proposta. [Figura 26]. Figura 26 – Corte elaborado pela EMURB para o termo de referência da Licitação Nova Vergueiro: torres que permitiam a elevação de adensamento sobre embasamento destinado a serviços. Fonte: Anelli, 2007 Na proposta dos arquitetos Eurico Prado Lopes e Luiz Telles, tanto para a Biblioteca quanto para o Centro Cultural é possível reconhecer um segundo conjunto de critérios, que serão sintetizados, nessa análise, pela noção de continuidade da paisagem urbana, em referência à teoria desenvolvida por Aldo Rossi, com foco principalmente no conceito de fatos urbanos. Página |61 1 - Rua Vergueiro 2 - Av. 23 de Maio 3 – Vd. Beneficencia Portuguesa 4 4 – Vd. Paráiso 5 1 5 - Vegetação existente no terreno 2 6 6 - Estação Vergueiro do Metrô 3 Figura 27- CCSP: componentes da paisagem considerados no projeto destacados na área de implantação do edifício. Fonte: Croqui produzido pela pesquisadora a partir de imagem aérea posterior a construção do edifício [Figura 16] Adotar a continuidade da paisagem urbana como partido arquitetônico pressupõe, no início da concepção do projeto a leitura dos elementos que deram origem a essa paisagem, mas que ainda estão presentes e que se preservados permitirão a apreciação da mesma imagem após a construção da nova arquitetura. Esses elementos são, nas palavras de Aldo Rossi, permanências que caracterizam um “passado que ainda experimentamos” (ROSSI, 2001 p. 52), identificá-los, portanto, constitui o método para explicar os fatos urbanos, que ainda segundo o mesmo autor, é fundamental para o entendimento da paisagem urbana em sua totalidade. Página |62 Nesse sentido, os autores do projeto optaram por preservar e ressaltar duas permanências fundamentais na configuração da área de implantação: o traçado, ou seja, o desenho do plano e, o relevo [Figura 27]. Embora a construção da cidade tenha criado uma relação de interdependência entre o traçado, o relevo e a arquitetura, tornando justo o reconhecimento do conjunto desses elementos como um fato urbano, o método das permanências, que fundamenta essa análise, “é obrigado a considerá-lo fora das ações presentes que o modificam” (ROSSI, 2001 p. 52), ou seja, detectar e analisar separadamente os elementos que compõem esse fato urbano, segundo Aldo Rossi, permite a verificação da relevância efetiva de cada um desses elementos na origem da paisagem para eleger as principais condicionantes durante a elaboração do projeto. Quanto ao traçado, numa abordagem simplificada da área de estudo, as vias e a estação de transporte de massa que cercam o lote, teriam sua importância elevada, pois compõem o sistema de mobilidade urbana em escala metropolitana, portanto, desempenha função essencial no cotidiano da população e dinâmica da cidade. No entanto, o traçado origina-se das características do relevo. Apesar de oculto sob da Avenida 23 de Maio, o afluente do Rio Página |63 Tamanduateí, pode ser verificado como a permanência de maior importância nessa paisagem, pois condiciona a ocupação humana nessa região e, consequentemente, a arquitetura. Nesse contexto, pode-se perceber que a leitura das vias que limitam o lote ultrapassa o caráter funcional, a criação da Rua Vergueiro, por exemplo - que data do início da ocupação da cidade - por acompanhar o antigo curso d’água, pode representar a necessidade de orientação do homem ao se deslocar no espaço, assim como, a criação dos Viadutos João Julião e Paraíso a transposição e ligação entre as duas regiões divididas pelo vale [Figura 27]. O desenho resultante da implantação da Avenida 23 de Maio e da Rua Vergueiro conferem expressão significativa ao sentido longitudinal da paisagem, como pode ser observado no mapa de localização [Figura 25]. Conforme mencionado anteriormente, a proximidade entre as duas vias cria uma estreita faixa de terrenos, com cerca de 70m de largura e 3 km de extensão, iniciada no Bairro Paraíso, zona sul da cidade, até a Sé na área Central. Portanto, o lote aproximadamente estudado 400m ocupa desse apenas recorte da uma parte cidade. de Esse entendimento que pode ser fundamental na elaboração de um projeto de arquitetura, verifica-se na análise da forma do edifício estudado na presente análise. Página |64 1 - Rua Vergueiro 2 - Av. 23 de Maio 3 – Vd. Beneficencia Portuguesa 4 4 – Vd. Paráiso 5 5 – Vegetação existente no terreno 2 1 6 - Estação Vergueiro do Metrô 6 3 Abertura visual da paisagem permitida pela condição de Vale Eixo predominante da implantação, parelelo as vias que limitam o lote Forma resultante dos alinhamentos obtidos a partir dos limites e geometria do terreno 4 5 1 2 6 3 Figura 28 – CCSP –leitura das condicionantes da implantação: ampla perspectiva do vale e eixo longitudinal predominante do traçado. Figura 29 – CCSP –Hipótese de elaboração da forma resultante das condicionantes da implantação. Croquis: Gislaine Moura A ideia de conservação e continuidade da paisagem existente conduziu à elaboração da forma do edifício a partir do mimetismo dos elementos dela predominantes: a situação de encosta, Página |65 reconhecida em toda extensão da Avenida 23 de Maio, e a possibilidade de ampla perspectiva proporcionada pela horizontalidade e dimensão longitudinal do terreno [Figura 28], foram representadas por um volume baixo e estreito marcado por um plano inclinado, como um talude [Figura 29]. Essa leitura da paisagem, observada até aqui no projeto, aproxima- se da reflexão que Rossi desenvolve sobre a arquitetura concebida como parte do sítio, tomando como referência a arquitetura do mundo clássico e do renascimento: Ela ‘conformava’ um sítio; suas próprias formas mudavam na mutação mais geral do sítio, constituíam um ‘todo’ e serviam a um acontecimento, constituindose elas próprias em acontecimento. (ROSSI, 2001, p. 151) Página |66 1 - Rua Vergueiro 2 - Av. 23 de Maio 3 – Vd. Beneficencia Portuguesa 4 5 4 – Vd. Paráiso 5 – Vegetação existente no terreno 6 - Estação Vergueiro do Metrô 2 1 6 3 Piso Nível 796 – Acesso pela Avenida 23 de Maio Piso Nível 801 – Acessos criados por elementos de circulação vertical Piso Nível 810 – Acesso direto pela Rua Vergueiro 4 5 Piso Nível 806 – Acesso direto pela Rua Vergueiro E Viaduto Beneficencia Portuguesa 1 6 2 3 Figura 30 – CCSP –composição da forma: concepção do edifício em patamares que reforçam a ideia de horizontalidade do partido. Figura 31 – CCSP –composição da forma: alteração do volume do edifício para incorporar rua interna ao projeto. Croquis: Gislaine Moura Página |67 Figura 32 - CCSP- Vegetação preservada vista a partir do Jardim Suspenso 23 de maio. Figura 33 - CCSP- Vegetação preservada vista a partir do Piso 810 Figura 34 - CCSP- Vegetação preservada vista a partir da entrada principal pela Rua Vergueiro. Fonte: fotos do arquivo da pesquisadora Nesse mesmo sentido, a decisão de preservar o conjunto de árvores existentes, pouco deslocadas do centro do terreno, perpetua-se no desenho do edifício, evidente no amplo recorte feito no volume [Figura 30]. A presença expressiva dessa vegetação permite ao espaço concebido maior clareza, é possível avistá-la nos diversos pisos do edifício, mesmo nos espaços internos, em função da transparência aplicada aos fechamentos. Define-se, dessa maneira, um marco que orienta os percursos Página |68 pelo edifício e conduz também a organização do programa que, atualmente, em linha gerais, estão ao sul do Jardim Central, as áreas de biblioteca e exposições e, ao norte, as salas de espetáculos e dependências administrativas da Instituição [Figuras 35,36,37 e 38]. Confirma-se nessa análise a importância dada à forma para Aldo Rossi, segundo o autor “esta parece resumir o caráter total dos fatos urbanos, inclusive a origem deles” (ROSSI, 2001 p. 17), Entretanto, a alteração do volume para incorporar ao projeto a rua interna proposta por Eurico Prado Lopes [Figura 31], correspondia à necessidade de atenuar a monumentalidade obtida no primeiro anteprojeto, para que o edifício se aproximasse do cotidiano das pessoas. Acrescentou-se ao projeto, portanto, uma intencionalidade imprecisa, pressupunha-se que à arquitetura competia a criação de um espaço com o qual a população se identificasse. Altera-se, com isso, a escala de elaboração da proposta, ou seja, até esse momento considerava-se em primeiro plano a relação desse edifício com a cidade e passou-se a pensar a seguir na ocupação do espaço dessa arquitetura pelas pessoas. Entendimento que desloca essa análise a admitir a concepção da arquitetura sob um terceiro conjunto de critérios, identificados pela ideia de criação do lugar. Página |69 1 – Sala de Espetáculos Ademar Guerra 5 2 – Áreas de Reserva Técnica 3 – Áreas de Serviços 4 – Acesso a Avenida 23 de maio 5 – Acesso ao Viaduto. João Julião 1 Figura 35 – CCSP - Planta do Piso 796: Programa 2 Fonte: Planta elaborada pela pesquisadora com base em arquivo “as built” de arquitetura cedido pelo Centro Cultural São Paulo. 3 4 3 2 Página |70 1 – Administração 2 – Sala Lima Barreto 3 – Sala Paulo Emílio 4 – Sala Jardel Filho 5 – Sala Adoniran Barbosa 6 – Bibliotecas 7–Circulação de acesso às Rampas 1 Figura 36 – CCSP - Planta do Piso 801: Programa 2 4 3 Fonte: Planta elaborada pela pesquisadora com base em arquivo “as built” de arquitetura cedido pelo Centro Cultural São Paulo. 5 6 6 7 6 Página |71 1 – Rampa de acesso a Estação Vergueiro do Metro 2 – Foyer das Salas de Espetáculo 3 – Sala Adoniran Barbosa 1 4 – Área de Convivência 5 – Jardim Central 6 – Piso Expositivo Flávio de Carvalho 7 – Jardim dos Estudantes 8 2 8 – Acessos à Rua Vergueiro 8 9 – Rampa de acesso às bibliotecas 3 10- Rampas de acesso ao Piso 810 4 Figura 37 – CCSP – Planta do Piso 806: Programa 8 5 Fonte: Planta elaborada pela pesquisadora com base em arquivo “as built” de arquitetura cedido pelo Centro Cultural São Paulo. 9 10 6 7 Página |72 10 1 – Jardim Suspensos 2 – Piso Expositivo Caio Graco 3 – Acesso a Rua Vergueiro 4 – Rampas de acesso ao piso 806 5 – Escadaria de acesso a Avenida 23 de Maio (ponto de ônibus) Figura 38 – CCSP - Planta do Piso 810: Programa Fonte: Planta elaborada pela pesquisadora com base em arquivo “as built” de arquitetura cedido pelo Centro Cultural São Paulo. 1 1 4 2 2 3 2 1 1 5 Página |73 3.2. O PROJETO DO CENTRO CULTURAL: A CONCEPÇÃO DA ARQUITETURA COMO LUGAR As experiências e impressões diversas das pessoas sobre a Arquitetura não estão em primeiro plano no início da concepção do projeto pelo Método das Permanências, por serem estas, variáveis ao longo do tempo e, por não constituírem fatos verificáveis. Segundo Aldo Rossi, “o todo [arquitetura da cidade como construção coletiva] é mais importante do que as partes” (2001 p. 24) na elaboração de um projeto arquitetura. Embora a constatação do autor não exclua a possibilidade de se encontrar “uma legitimidade de expressão numa residência, ou em todo caso, numa obra menor (...)” (ROSSI, 2001 p. 56) ou anule a necessidade da arquitetura contemplar dados do cotidiano, contemporâneos de sua época de construção, entende-se nessa análise que a representação da relação do edifício com cotidiano das pessoas, observado na obra estudada, melhor se aproxima às reflexões de Norberg-Schulz em que defende o retorno ao principio da criação da arquitetura:: El propósito de la arquitectura es dar orden a ciertos aspectos del ambiente, y con ello queremos decir que la arquitectura controla o regula las relaciones entre el home y el ambiente. Participa, por lo tanto, en la creación de un ‘medio’, es decir, de un marco Página |74 significativo para las actividades del hombre. (NORBERG-SCHULZ, 2008 p. 71) A teoria desenvolvida por esse autor reafirma a noção de atenção à função do edifício na cidade, à relação da arquitetura com a paisagem urbana e natural, mas, sobretudo, defende que esses e outros aspectos da criação do arquiteto “estaban unificados originalmente en una necesidad general de protección que asegurase la supervivencia de la especie (...)” (NORBERGSCHULZ, 2008 p. 71), o que sugere a elevação da importância da experiência humana nos espaços produzidos pela arquitetura, por ser esse, o aspecto que constitui seu verdadeiro propósito. Nesse sentido, interessa nessa análise identificar algumas soluções adotadas pelos autores no projeto estudado em que a relação do edifício com o usuário é favorecida. Uma primeira delas refere-se à entrada, à criação de acesso ao edifício capaz de não inibir as pessoas por razões como classe social ou faixa etária ou qualquer outra questão capaz de gerar insegurança, mas que, pelo contrário, possa ser convidativo, agradável, favorecendo a curiosidade do usuário, do transeunte. Página |75 3.2.1. OS ACESSOS Figura 40– CCSP – Acesso principal visto pela calçada da Rua Vergueiro Figura 41 – CCSP – Acesso ao edifício visto pela calçada de ligação com a estação Vergueiro do metrô. Fonte: arquivo da pesquisadora Numa abordagem abstrata e objetiva, que pode ser verificada em cortes do projeto, a solução técnica aplicada ao problema da declividade acentuada do terreno, que determinou a construção do edifício em patamares, esclarece a criação dos acessos a partir da intersecção desses patamares com a inclinação das vias que limitam o lote. Página |76 Piso 810 Altura do Vd. Paraíso Piso 806 Piso 801 Piso 796 Rua Vergueiro Av. 23 de Maio Figura 42 – CCSP –Corte- solução para desnível do terreno os acessos acompanham a inclinação da Rua Vergueiro. Croqui: Gislaine Moura No entanto a análise, a partir desse ponto de vista, por seu caráter científico, não abrange os dados concretos e subjetivos, nas palavras de Norberg-Schulz, “por uma questão de princípio, a ciência “abstrai” o que é dado para chegar a um conhecimento neutro e objetivo” (2006 p. 445), portanto, não permite a verificação da totalidade das questões relacionados à ideia de acesso, entendido nessa pesquisa como lugares específicos que representam o importante momento em que um indivíduo transpõe o limite entre o espaço externo e o interior da arquitetura. Nesse sentido, é possível identificar na arquitetura do projeto estudado as intenções que conduziram a concepção das entradas do edifício: as aberturas sutis, sem ornamentações sofisticadas sugerem a preocupação de eliminar barreiras que gerem insegurança e impeçam qualquer pedestre de acessar o edifício; Página |77 a disposição das entradas ao longo da Rua Vergueiro com espaçamentos de cerca de 50m no máximo, podem representar a preocupação com a escala humana, ou seja, com a distância confortável ao caminhar; o afastamento dessas entradas do limite do lote e, por vezes, seu deslocamento em relação ao nível da calçada, configuram um ganho do ponto de vista do desenho urbano pelo alargamento da calçada, mas também ressaltam e respeitam o momento de transição, de ansiedade ou hesitação que o ingresso ou a saída de um determinado espaço pode proporcionar. [Figuras 43 e 44]. Figura 43– CCSP – Acesso ao Piso 810: a sombra projetada pela cobertura caracteriza o espaço de entrada como lugar de transição entre interior e exterior Figura 44 – CCSP – Acesso ao Piso 806: a possibilidade de visualizar o espaço interno desde a calçada favorece a curiosidade e atenua a sensação de insegurança proporcionada pelas dimensões. Fonte: arquivo da pesquisadora Essas mesmas soluções de concepção dos acessos podem ser explicadas, por exemplo, pela relação da natureza das atividades do programa com as entradas mais próximas, que também, de Página |78 certa forma, indicariam a relevância da ocupação e do comportamento das pessoas em relação ao espaço. Mas sob o método da fenomenologia do lugar, que fundamenta a análise, sugere um “‘retorno às coisas’ em oposição a abstrações e construções mentais” (NORBERG-SCHULZ, 2006 p. 445), portanto, a verificação do programa torna-se uma abordagem funcional que não considera os fenômenos concretos que conferem o caráter aos espaços e indicam sua qualidade: Em geral, um lugar é dado como esse caráter peculiar ou ‘atmosfera’. Portanto, um lugar é um fenômeno qualitativo ‘total’, que não se pode reduzir a nenhuma de suas propriedades, como as relações espaciais, sem que se perca de vista sua natureza concreta”. (NORBERG-SCHULZ, 2006 p. 445) Na definição de fenômenos concretos consistem “nosso mundoda-vida cotidiana” que segundo o autor: (...) compõe-se de pessoas, animais, flores, árvores e florestas, pedra, terra, madeira e água, cidades, ruas e casas, portas janelas e mobílias. E consiste no sol, na lua e nas estrelas, na passagem das nuvens, na noite e no dia, e na mudança das estações. Mas também compreende fenômenos menos tangíveis, como os sentimentos. Isto é, o que nos é ‘dado’ é o ‘conteúdo’ Página |79 de nossa existência. (...) (NORBERG-SCHULZ, 2006 p. 444) Nesse mesmo sentido, compreende-se o objetivo dos apontamentos de dados empíricos e variáveis, na leitura dos acessos, como por exemplo, insegurança, distância confortável ao caminhar, respeito ao momento de ansiedade e hesitação. Aspectos imprecisos, considerados na elaboração do projeto do edifício estudado, que promoveram a aproximação da arquitetura ao cotidiano das pessoas. 3.2.2. OS PERCUSOS INTERNOS Figura 45 – CCSP –Vista da rua do edifício: à direita o jardim original do terreno e ao fundo a entrada da Biblioteca. Figura 46 – CCSP –Vista da rua do edifício: à esquerda o jardim original do terreno e ao fundo a escada de acesso a um dos jardins suspensos. Fonte: arquivo da pesquisadora Página |80 Outro conjunto de soluções identificado por meio dessa análise refere-se ao tratamento conferido a rua interna ao edifício. Esse percurso pode demostrar o entendimento de questões relacionadas ao sítio, pois oferece ao pedestre uma opção de caminho sombreado [Figuras 45 e 46], afastado do ruído do trânsito proporcionado pela via expressa 23 de Maio e a pela rua Vergueiro projetadas primordialmente para deslocamento de automóveis. Entretanto, a possibilidade de convívio entre as pessoas sem comprometer a dinâmica das atividades do cotidiano, imprime o caráter ao espaço dessa rua, que segundo Norberg-Schulz tem importância essencial no reconhecimento da estrutura do lugar: Caráter é um conceito ao mesmo tempo mais geral e mais concreto do que “espaço”. Por um lado, indica uma atmosfera geral e abrangente e, por outro, a forma e a substancia concreta dos elementos definem o espaço. (NORBERG-SCHULZ, 2008 p. 451) Observa-se, portanto, que na rua do Centro Cultural São Paulo, há quem simplesmente atravesse o edifício para chegar até o metrô, ou pare durante percurso para ver rapidamente alguma apresentação artística, ou sempre passe para ver as exposições, Página |81 ou entre para almoçar, ou para descansar nos jardins, ou ler ao final do dia para evitar o caos dos horários de pico na volta para casa. E, há ainda, os que aproveitam toda essa movimentação para praticar suas aptidões artísticas pessoais espontaneamente. Figura 47 – CCSP –Exemplo de uso espontâneo do espaço da área de convivência: prática de um grupo de dança de rua. Figura 48 – CCSP –Exemplo de uso espontâneo do espaço da rua interna, a sensação de segurança proporcionada pela integração e escala dos espaços. Fonte: imagens diponíveis respectivamente em https://fbcdn-sphotos-h-a.akamaihd.net/hphotos-akash3/p480x480/941389_10152857683005643_1397734478_n.jpg e http://f.i.uol.com.br/folha/informatica/images/0910242.jpg, No entanto, foram verificados alguns elementos de arquitetura concebidos durante a elaboração do projeto, que podem ter contribuído de maneira significativa para a atmosfera agradável e qualidade do espaço que observamos, atualmente, pela obra construída: o tratamento dado aos fechamentos que limitam os espaços internos e as áreas descobertas do edifício, a segmentação da forma em atenção à escala dos lugares, a Página |82 integração visual entre os diversos lugares do edifício, mas, sobretudo, a criação de elementos marcantes em cada espaço da arquitetura. 3.2.1. A FRONTEIRA TÊNUE ENTRE ESPAÇO INTERNO E EXTERNO Figura 49 e 50 – Imagens da área do foyer das salas de espetáculos, vista interna à esquerda e externa à direita: integração permitida pelas transparencias. Fonte: foto da pesquisadora Optou-se, na concepção do projeto, pelo uso de transparências nos fechamentos dos diversos espaços para ampliar o alcance da visão do usuário durante o passeio pela rua interna, conforme comenta Telles “O percurso seria mais lento pela possibilidade do usuário – através de transparências da arquitetura – visualizar o desenrolar das atividades nos espaços” (2002 p. 235). Entretanto, essa transparência, aplicada aos fechamentos [Figura 49], revela ao indivíduo o caráter dos espaços internos e externos Página |83 simultaneamente, ou seja, é possível estar presente no espaço interno sem acessa-lo, bem como, conhecer seu exterior sem transpor a fronteira que os cercamentos dessa área delimitam. Nesse sentido, a relevância dos fechamentos dos espaços da arquitetura é abordada por Norberg-Schulz: Todo espaço cercado é definido por uma fronteira, e Heidegger afirma: “A fronteira não é aquilo em que uma coisa termina, mas, como já sabiam os gregos, a fronteira é aquilo de onde algo começa a se fazer presente.” (NORBERG-SCHULZ, 2006 p. 450) Os dois aspectos - ampliar o alcance da visão e eliminar as barreiras visuais entre interior e exterior - parecem argumentos idênticos, mas há diferenças significativas que estão relacionadas à experiência do usuário ao transitar entre um espaço e outro. As áreas internas do edifício estudado, assim como na maioria das construções, estão condicionadas às atividades propostas pela instituição, assim como, aos seus regulamentos de segurança, horários de funcionamento, etc. Os espaços externos, ao contrário, são caracterizados por uma maior liberdade de uso. Portanto, pode-se verificar que os planos de vidro, que delimitam essas áreas, eliminam a tensão que marca a decisão de ingressar, participar, ou pertencer a aquele outro espaço fechado, marcada Página |84 também pela insegurança de não ter a permissão para acessar, ou não ser bem aceito no lugar desconhecido. Acrescenta-se a esse entendimento, que o conjunto dessas transparências, permite o reconhecimento do espaço cercado em sua totalidade, em outras palavras, a sequência de lugares criados pela arquitetura está sempre ao alcance da visão. O momento em que um lugar termina ou outro se inicia não está determinado pela arquitetura por um elemento fixo, considera-se nessa análise, que essa decisão do projeto permitiu a criação de lugares a partir do uso do espaço, da experiência da Arquitetura. 3.2.2. A SEGMENTAÇÃO DA FORMA PRINCIPAL: O TODO E A PARTE NA ESCALA DO USUÁRIO Figura 51 e 52– CCSP- Relação de escala dos ambientes. Fonte: fotos da pesquisadora Página |85 Na análise do projeto como representação da paisagem, elaborada no item anterior, foi possível verificar que o eixo longitudinal predominante da implantação conduziu a concepção da forma do edifício. Como resultante, observa-se um volume que acompanha quase toda extensão do terreno, cujo comprimento em seu maior sentido tem cerca de 400m extensão. Prenominam nessa decisão de projeto os pressupostos de inserção adequada do edifício em relação à paisagem urbana e natural, portanto, a uma escala que privilegia a relação do edifício com a cidade e abrange uma totalidade que está fora do alcance olhar, em outras palavras, está fora do alcance dos sentidos, da percepção humana. No entanto, o entendimento dos arquitetos criadores da obra, quanto à necessidade de adequar a escala do edifício às pessoas [Figura 51], é identificado a partir do gesto de segmentação da forma principal, considerado nessa análise, outro meio de representação do lugar, dada compreensão de que a arquitetura se modifica com objetivo de permitir e facilitar a ocupação do homem, base do pensamento de Norberg-Schulz, que fundamenta esse estudo. Página |86 Figura 53– CCSP- representação da alteração de escala: a forma do edifício e a cidade (esq.), a rua no edifício (meio) e segmentação da forma para adequá-la a escala do usuário. Fonte: croqui da pesquisadora Na prática, o projeto de edifício permite ao usuário a noção clara sobre sua localização em determinado espaço, pela dimensão que a área recortada adquire, mas, sobretudo, pela possibilidade visualizar os diversos outros lugares a partir da integração visual entre os espaços, definida pela “rua interna na qual os acontecimentos vão se sucedendo, visuais que leem o espaço à distância, momentos contínuos e distintos” (ZEIN, 1983) Página |87 Figura e 54, 55 e 56 – CCSP- Espaços conectados visualmente. Fonte: fotos da pesquisadora Página |88 3.2.3. IDENTIFICAÇÃO E ORIENTAÇÃO NA ESCALA DO USUÁRIO Figura 57 – CCSP- caráter do espaço dado por elementos da arquitetura: plano gramado que recupera a linha do horizonte da paisagem em meio ao entorno verticalizado. Fonte: arquivo da pesquisadora Figura 58 – CCSP- caráter do espaço dado por elementos da arquitetura: sala de espetáculos concebida como arena, o espaço pode ser visto no percurso da rua interna por meio dos fechamentos de vidro. Fonte: disponível em http://www.overmundo.com.br/uploads/guia/img/1316373269_dsc_0384.jpg Figura 59 – CCSP- caráter do espaço dado por elementos da arquitetura: escada helicoidal vermelha que funciona como um marco no percurso do usuário. Fonte: arquivo da pesquisadora Figura 60 – CCSP- caráter do espaço dado por elementos da arquitetura: enormes rampas suspensas no amplo vazio da biblioteca são referencias que podem ficar na memória do visitante. Fonte: arquivo da pesquisadora Página |89 A rua com suas variações – rampa descoberta, canteiro central que se modifica tornando-se espaço de atividades, cobertura parcial, filtros visuais, transparências, canteiro das árvores – vai trazendo ao transeunte informação sobre as variações do espaço percorrido, e sobre sua localização urbana, pelas aberturas dosadas para a cidade. (Telles, 2002 p. 280;281) No comentário de Telles, ressalta-se a noção de localização no percurso dos usuários no edifício em relação ao sítio, ou seja, as aberturas e acessos funcionam como um elemento de ligação entre o espaço cercado e a paisagem exterior, a cidade. Mas, maior ênfase será dada, nessa análise, aos elementos que, segundo o autor, configuram as variações do espaço percorrido [Figuras 57, 58, 59 e 60], pois com base nos critérios de NorbergSchulz, são esses elementos que determinam um caráter aos espaços, portanto, instituem os lugares: Usamos a palavra ‘habitar’ para nos referirmos às relações entre o homem e o lugar. Para entender melhor o que esta última palavra significa, vale a pena retomar a distinção entre ‘espaço’ e o ‘caráter’. Quando Página |90 o homem habita, está simultaneamente localizado no espaço e exposto a um determinado caráter ambiental. Denominarei de ‘orientação’ e ‘identificação’ as duas funções psicológicas implicadas nessa condição. (NORBERG-SCHULZ, 2006 p. 455) Compreende-se, no pensamento do autor, a abordagem empírica e subjetiva que a verificação dessas duas funções psicológicas abrange, mas entende-se também que a arquitetura pode contribuir de forma significativa para a identificação e orientação das pessoas em seus espaços, com a criação de elementos que confiram melhor ordem visual. Nesse sentido, podem-se transpor o critério de legibilidade22 desenvolvido por Kevin Lynch para a leitura do ambiente urbano à escala do edifício. Considera-se, para esse estudo, que a proporção do lugar ocupado por uma pessoa é parte do todo que é o edifício, assim como o edifício é a parte do todo que é cidade. Uma boa imagem ambiental oferece a seu possuidor um importante sentimento de segurança emocional. Ele pode estabelecer uma relação harmoniosa entre ele e o mundo a sua volta. (...) Na verdade um 22 O termo, segundo Kevin Lynch, trada da “clareza aparente da paisagem das cidades ... a facilidade com que suas partes podem ser reconhecidas e organizadas num modelo coerente ... uma cidade legível seria aquela cujos bairros, marcos ou vias fossem facilmente reconhecíveis e agrupados num modelo geral. (2011 p. 3) Página |91 ambiente característico e legível não oferece apenas segurança, mas também reforça a profundidade e a intensidade potenciais da experiência humana. (LYNCH, 2011 p. 5) Na arquitetura do Centro Cultural São Paulo, nota-se a intenção de marcar os espaços com elementos de referência, que orientam o deslocamento do visitante, mas também que podem ser registrados em sua memória e, portanto, criar uma identidade desse mesmo usuário com o lugar. Na linguagem e experiência do cotidiano das pessoas, o conjunto desses elementos é o que caracteriza a arquitetura do edifício: o enorme gramado descoberto, a escada curva e vermelha, as grandes rampas azuis, o palco em arena, são exemplo de elementos concebidos no projeto, que tornam secundária a necessidade de recursos gráficos, como placas indicativas ou mapas para orientação do usuário na instituição, e ainda, se sobrepõe a imagem do edifício em sua totalidade, por serem lugares que se pode sentir concretamente, ou seja, ver e ouvir de perto, percorrer, tocar, fato que nos termos de Norbert-Schulz, corresponde ao a definição de habitar. Página |92 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 4.1. QUANTO À REPRESENTAÇÃO DO LUGAR NA ARQUITETURA Dentre o exposto na análise da representação do lugar na arquitetura do Centro Cultural São Paulo, cabe enfatizar, a diferença entre os dois partidos arquitetônicos que conduziram a concepção do projeto realizado (1974) com base nas diretrizes da EMURB, e a primeira proposta do Eurico Prado Lopes e Luiz Telles (1977), para a Biblioteca-Central Vergueiro, já que a relação com a cidade constitui o objetivo principal das duas propostas. No primeiro projeto, entende-se a interação do edifício com a cidade a partir da articulação entre o papel que as funções do novo empreendimento desempenham na complexa estrutura da cidade. A forma projetada representava esse ideal: torres para elevação de adensamento, erguidas sobre um embasamento em que se concentrariam as áreas de serviços e estacionamentos ligados por uma área de lazer, como uma praça em plataforma que prolongaria o espaço da Rua Vergueiro e se encerraria como um mirante para o Vale da Avenida 23 de Maio Página |93 No segundo, a mesma relação se estabelece a partir da leitura da paisagem urbana e representação dessa imagem visível pela arquitetura, por meio de um volume predominantemente horizontal e estreito, que enfatiza o sentido longitudinal do traçado e, ao mesmo tempo, a abertura do vale da Avenida 23 de Maio marcado por um plano inclinado, como um talude, que recupera a ideia de situação de encosta às margens o antigo afluente, hoje oculto na paisagem. Duas estratégias de projeto, para a mesma área e com a mesma intenção - revitalização urbana daquela área da cidade, fundamentadas por critérios distintos, aproximados para o fim dessa análise ao conceito de funcionalismo, que vigorava na arquitetura moderna e, ao o conceito de permanências, introduzido pelo pós-moderno, resultaram em arquiteturas completamente opostas. Página |94 4.1. QUANTO À CONCEPÇÃO DA ARQUITETURA COMO LUGAR Tarde de domingo no Centro Cultural São Paulo. Se eu voltar a ser adolescente, quero passar os meus fins de semana aqui, entre exposições, concertos e sessões de teatro, uma biblioteca imensa, mesas para jogar xadrez, grupos de rapers a dançar break-dance, e no topo uma relvinha para apanhar sol. Para quem vai de metrô, fica uma estação antes do Paraíso. [email protected] 11.Dezembro.2011 São Paulo, Vegetal Figura 61– CCSP: a percepção da arquitetura por um usuário do edifício. Fonte: disponível em http://aquihasabia.wordpress.com/category/vegetal Na análise da concepção da arquitetura como lugar, foram verificados alguns elementos concebidos durante a elaboração do projeto, que podem ter contribuído de maneira significativa para a atmosfera agradável e qualidade do espaço observada atualmente, pelos que frequentam o Centro Cultural São Paulo [Figura 61]. Página |95 Na avaliação foram apontadas as decisões que conduziram ao desenho dos acessos ao edifício, os percursos internos criados para o pedestre, o tratamento dado aos fechamentos que limitam os espaços internos e externos, a segmentação da forma em atenção à escala dos lugares, a integração visual entre os diversos lugares do edifício, mas, sobretudo, a criação de elementos marcantes em cada espaço da arquitetura. Entretanto, tão importante quanto identificar esse conjunto de elementos que explicam a relação de pertencimento que os usuários demonstram no cotidiano da instituição, foi o entendimento dos critérios e pressupostos que podem ter conduzido às soluções. Dentre esses pressupostos, ressaltaram-se critérios embasados em dados empíricos e variáveis, como por exemplo, atmosfera convidativa e agradável, espaço seguro e legível, distâncias confortáveis ao caminhar, respeito, ansiedade, hesitação, etc. Aspectos imprecisos, difíceis de identificar, mas que foram considerados na elaboração do projeto do edifício estudado e, podem ter promovido a aproximação da arquitetura ao cotidiano das pessoas. Página |96 4.2. QUANTO AO PROCESSO DO PROJETO DE ARQUITETURA (...) o que é no fundo a qualidade arquitetônica? É relativamente fácil de responder. A qualidade arquitetônica – para mim – não significa aparecer nos guias arquitetônicos ou na história da arquitetura ou ser publicado, etc. Qualidade arquitetônica só pode significar que sou tocado por uma obra. Mas porque diabos me tocam essas obras? E como posso projetar tal coisa? (ZUMTHOR, 2006 p. 10) A análise do processo de elaboração do edifício do Centro Cultural São Paulo, partiu inicialmente da hipótese de aferir nesse projeto a intenção de promover a apropriação da arquitetura pelos usuários, pois é possível observar ao percorrer o edifício, que é essa apropriação que determina a qualidade da arquitetura identificada nessa pesquisa. A aproximação inicial da análise à teoria dos fatos urbanos de Aldo Rossi segue a conclusão obtida numa primeira abordagem, pela inserção acertada e inovadora - naquele momento e naquela área do edifício na paisagem, entendimento que pressupõe que a noção de continuidade da paisagem existente teve significativa importância no resultado investigado nesse trabalho. Página |97 Conforme exposto anteriormente, o esforço de recuperar e reconstruir a situação de encosta de vale, por meio de um talude ajardinado voltado para a Avenida 23 de Maio, e ainda a relevância do conjunto de árvores existentes no terreno na elaboração do projeto, são decisões que distanciam o projeto “da conhecida tabula rasa, comumente proposta pela arquitetura moderna” (Telles, 2002 p. 217), portanto, reforça a identificação dessa obra dentre os questionamento do período pós-moderno, momento em que emerge o interesse que a retomada da noção de lugar. O prosseguimento da pesquisa revela, outros questionamentos pertinentes relacionados à transposição dos ideais do campo da arquitetura, aferidos pelos arquitetos no exercício de concepção sem considerar a realidade e a individualidade de cada projeto, verificouse o cancelamento da licitação que promoveu o primeiro projeto para área (1974) de Roger Smekhol, pelo impacto que o adensamento da região e verticalidade propostas com o edifício causaria na paisagem. Em outro momento, o projeto proposto por Eurico Prado Lopes e Luiz Telles em 1977 recusado pelo prefeito da época, sob o argumento de que a monumentalidade do edifício dificultaria o acesso de pessoas mais simples, E, em outro momento ainda (1980), a alteração do programa do edifício para adequá-lo, segundo novos gestores da prefeitura, à população local. Página |98 Nesse contexto, iniciou-se pelos arquitetos o aprofundamento em procedimentos que tornassem essa arquitetura adequada aos interesses públicos, da população, portanto, o enfrentamento de questões subjetivas, como percepção, identificação, apropriação dos usuários, que se aproxima, nessa pesquisa, à fenomenologia da arquitetura, desenvolvida por Norberg-Schulz. A reflexão de Norberg-Schulz, de certo modo, complementa o pensamento apresentado por Aldo Rossi. Enquanto este defende o progresso da arquitetura como ciência, e enfatiza a forma urbana e a coletividade como conceitos primordiais do projeto. Norberg-Schulz além de ressaltar o papel da paisagem natural, bem como suas mudanças diárias, como critérios fundamentais às decisões de projetos destaca a importância da menor escala do projeto, no sentido do cuidado a ser observado e valorizado nas soluções mais imediatamente ligadas à percepção do usuário, ao seu cotidiano. A questão apresentada, no inicio desse item, de Peter Zumpthor, compõe parte das dúvidas que motivaram e surgiram ao longo dessa pesquisa, mas a busca pelas respostas, no presente caso, reforça o entendimento de que o processo de aferir puramente um determinado conceito, ou conjunto de critérios teóricos na prática profissional em seu âmbito mais geral, não deve se sobrepor a intencionalidade original da arquitetura, nem isentar o arquiteto do Página |99 aprofundamento às questões específicas relacionadas a cada projeto, a cada lugar, ao mesmo tempo, a teoria permite, entre outros aspectos, a antecipação de resultados de determinadas escolhas de projeto e apresentam soluções alternativas, portanto, pode orientar a criação dos espaços, mesmo que o projeto represente a busca por qualidade arquitetônica impossível de descrever racionalmente. As reflexões apresentadas no desenvolvimento da pesquisa, Aldo Rossi e Norberg-Schulz, especialmente, contribuem para o desenvolvimento de outros conceitos que permitem novas formas de pensar o espaço e de refletir sobre o papel da arquitetura e do urbanismo na construção e vivência das cidades. Página |100 5. BIBLIOGRAFIA ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. - São Paulo : 2003, 2003. ARGAN, Carlo G. A história da arte como a história da cidade . São Paulo : Martins Fontes, 1993. ______________ El concepto del espacio arquitectónico: desde el Barroco a nuestros dias. - Buenos Aires : Ediciones Nueva Visión SAIC, 1984. BELLO, Angela A. Introdução a fenomenologia [Livro]. - Bauru : EDUSC, 2006. CASTELLO, Lineu. A Percepção de Lugar: Repensando o Conceito de Lugar em Arquitetura-Urbanismo. - Porto Alegre : PROPAR-UFRGS, 2007. CHALLAYE, Félicien. Pequena História das Grandes Filosofias. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978. CONNOR, Steven. 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