IV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA - ANPUH-BA

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IV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA - ANPUH-BA
HISTÓRIA: SUJEITOS, SABERES E PRÁTICAS.
29 de Julho a 1° de Agosto de 2008.
Vitória da Conquista - BA.
ESCRAVIDÃO E LIBERDADE EM SÊNECA
Jurandir da Cruz Rita
Graduando em História pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
E-mail: [email protected]
Palavras-chave: Escravidão. Liberdade. Moral. Metáfora.
As prerrogativas que impulsionaram uma diversidade de estudiosos e especialistas a
estudarem a escravidão são fundamentadas em uma multiplicidade de pressupostos teóricos ,
políticos e metodológicos. Dentre várias perspectivas, o estudo da escravidão leva -nos a
compreender um modelo de produção econômica específico, bem como suas influências nas
relações sociais e seus reflexos na mentalidade e manifestações culturais. Haja vista que as
numerosas análises acerca da escravidão estejam concentradas na sua efetivação na Era
Moderna, podemos indicar, entretanto uma crescente ampliação dos estudos da escravidão na
Antiguidade Clássica. É importante salientar que muito desses estu dos se amparam em
perspectiva comparativa, visto que nas sociedades clássicas, por exemplo, a escravidão se deu
de forma distinta e em conjunturas e contextos diferentes do que ocorreu no Novo Mundo.
Compreendendo a importância dos estudos da escravidão na Antiguidade Clássica
como norteadores para o aprofundamento desse fenômeno histórico, elegemos estudar, a
partir do olhar do filósofo estóico Sêneca, uma fatia da dinâmica social de Roma. É possível
perceber que ao montar um sistema ou modelo de indivíduo ideal para um bom convívio na
sociedade, Sêneca fora influenciado a organizá -lo a partir de uma mentalidade escravista.
Percebe-se também que em suas reflexões há traços de preocupações políticas e sociais que
rondavam as classes e setores aristocráticos de sua época.
Como fonte documental foi privilegiada uma parte de sua obra, precisamente as
Cartas a Lucílio, escritas no século I d.C. , em que estão contidas reflexões filosóficas que
Sêneca dirige a seu amigo aristocrata numa perspectiva pragmática e pedagógica, servindo -se
dos problemas práticos da sociedade para propor uma eficiente política de controle social a
partir dos setores eli tistas.
As Cartas a Lucílio é um importante documento para analisar o processo histórico e
ilustra a vida social e política do mundo romano, sendo estudada para entender as relações e
imagem do poder em Roma (VIZENTIN, 2005), a própria sociedade romana e a forma pela
qual ela constitui suas relações sociais (FAVERSANI, 2000) ou para entender o uso da
escravidão como metáfora e reflexo da mentalidade de uma sociedade escravista, e não como
uma instituição meramente jurídica ou atrelada à produção (JOLY, 2005).
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O nosso ponto de partida foram as análises sobre as idéias de escravidão e liberdade
contida nas Cartas, proveniente das ponderações de Fábio Duarte Joly, que sinaliza que as
relações escravistas eram utilizadas como metáforas e exemplos moralizantes.
A primeira parte do trabalho visa discorrer, em linhas gerais, sobre as definições
conceituais de escravidão e liberdade, a partir do debate historiográfico sobre o tema. A
segunda diz respeito a uma apresentação pontual dos dados biográficos do autor, assim como
sua relação com o estoicismo e suas preocupações políticas e sociais.
O estudo da obra de Sêneca revela que suas exortações tinham um caráter pragmático,
propondo um bom comportamento para as elites como garantia da ausência de caos no meio
social e a forma ideal de manter o status quo. Para tanto buscamos compreender quais as
concepções e definições do próprio Sêneca acerca da escravidão e liberdade. Como este
percebia o escravo no tocante às relações sociais, pois, embora fosse juridicamente apenas
uma posse, aparecia como um problema político e social.
1 Escravidão e liberdade: perspectivas conceituais
A escravidão enquanto fenômeno social e histórico sempre estev e presente, em
algumas sociedades, mas em roupagem e contextos distintos. Em algumas sociedades ela
aparece como instituição fundamental para a dinâmica econômica e de produção, ou
amparada numa legislação e juridicamente legitimada; em outras ela aparece como caráter
punitivo a alguns membros dessas sociedades. Estas gradações e peculiaridades no tocante ao
papel da escravidão em cada sociedade historicamente constituída permitem caracterizar se
tais sociedades são ou não genuinamente escravistas. Acerca d isso Joly (2005, p. 11) discorre:
É quase consenso atualmente, no campo dos estudos históricos, que a Itália
antiga, sobretudo entre os séculos III a.C., fez parte, ao lado da Grécia
clássica, do Brasil, do sul dos Estados Unidos e do Caribe inglês e fran cês
entre os séculos XVI e XIX, do grupo restrito de sociedades escravistas. De
acordo com o historiador Moses Finley [...], uma sociedade se torna
genuinamente escravista quando a escravidão se torna uma instituição
essencial para a sua economia e seu mod o de vida, no sentido de que os
rendimentos que mantém a elite dominante Provêm substancialmente do
trabalho escravo.
Antes de aprofundarmos a respeito dos elementos que caracterizam as sociedades
como escravistas ou não, fazem -se necessárias algumas res postas sobre o que é escravidão.
Qual a definição básica desta? Temos a definição de Davis (2001, p. 42):
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Em geral, costuma -se dizer que o escravo tem três características que o
definem; sua pessoa é propriedade de outro homem, sua vontade está sujeito
à autoridade de seu proprietário e seu trabalho é obtido por meio da coerção.
[...]. Alguns outros atributos derivam de definições do escravo como
propriedade móvel. Seu status não depende de sua relação com o
proprietário particular e não é limitado pelo tem po ou espaço. Sua condição
é hereditária e a propriedade de sua pessoa é alienável.
Portanto a escravidão é definida por esses dois autores como a perda completa da
liberdade do indivíduo, pela força e coerção e sua alienação enquanto força de trabalho e
propriedade. Joly (2005, p. 21) indica que para compreender se uma é sociedade escravista
não basta olhar isoladamente os aspectos econômicos e jurídicos, pois “é preciso considerar a
escravidão como um fenômeno que se inseriu num quadro dinâmico de inter ações sociais, e
que acabou por conformar o universo cultural tanto dos senhores como dos escravos”.
Não basta esboçar pelos critérios econômicos, por exemplo, se uma sociedade é
escravista ou não; pois além das relações escravistas que permeiam a produçã o existem outras
formas de produção em paralelo ao escravismo, como o patronato e o clientelismo no caso de
Roma. A partir desses exemplos não é válido compreender a escravidão apenas como status.
Ela também é um processo. Apesar de o escravo estar juridicamente como propriedade e
socialmente “morto”, há algumas brechas no próprio escravismo para que ele alcance a
liberdade. Sendo assim, ele passa de um estágio que se encontrava apenas como mercador ia e
pode participar do corpo dos cidadãos. Esta mobilidade permite -nos constatar a característica
de processo da escravidão.
Há alternativas que nos levam a entender se determinada sociedade é escravista ou
não, e que estão para além das relações escravis tas de produção ou pelo peso demográfico de
determinada sociedade. Acerca disso, especificamente da Roma antiga, Joly (2005, p. 29) fala
da seguinte forma:
Na Antiguidade romana, a escravidão ocupava um papel essencial em tal
sistema, uma vez que era util izada – especialmente na forma de metáfora –
como um parâmetro para representar outras relações sociais de poder nas
esferas políticas e domésticas, ou seja, a relação senhor -escravo era utilizada
para pensar as relações sociais entre livres: entre imperad or e aristocracia,
entre homens e mulheres, entre pais e filhos etc. Assim, a escravidão atingia
de forma majoritária a ideologia dos grupos sócia na Roma antiga que,
inevitavelmente, interagiam cotidianamente com escravos e liberto.
Portanto, a escravidão também aparece como metáfora para discutir ética e política a
partir do prisma senhorial; a figura do escravo acaba por se tornar uma metáfora ou exemplo
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moral. Exemplo disso são as próprias Cartas, que podemos caracterizá -la, sobretudo, como
um manual moralizante, a partir das análises feitas do próprio cotidiano da sociedade romana
quando foram escritas.
Já a liberdade, no caso da Roma antiga, aparece como o outro lado da moeda. É
permitido abordar que era um bem social e político. Além dos parâmetros jurídicos, a
valorização da liberdade dizia respeito também às possibilidades que esta orquestrava do
ponto de vista econômico, político e social. Econômico por conta da mobilidade e opções de
trocas abertas ao homem livre; político, p orque dos arranjos sociais para se aproximar do
status quo desejado. Do ponto de vista social, as possibilidades abertas eram muito maiores
para quem era livre, em comparação àquelas do escravo, o qual, segundo Patterson (apud
JOLY, 2005, p. 22) , era “morto” socialmente. Para além dos elementos colocados até agora
existe a questão moral que permeava a idéia de liberdade. Para Sêneca (1991), apenas o
“homem ideal” a detinha de forma plena.
Antes de passarmos às abordagens moralizantes da escravidão e liberd ade elaborada
por Sêneca, é necessário pontuar uma breve definição de liberdade seguindo o debate
conceitual de alguns especialistas. Para tanto amparamo -nos na definição de Wolff (2002 , p.
17) que escreveu um artigo intitulado “A invenção materialista da liberdade”:
Resumamos. Temos uma tríplice divisão dicotômica. A liberdade divide -se
em liberdade de direito (política e jurídica) e liberdade de fato; esta divide -se
em liberdade de fazer e liberdade de querer; e esta, por sua vez, divide -se em
liberdade de determinar-se em conformidade com o que quer
verdadeiramente, e liberdade de querer independentemente de todo estado
anterior.
Em linhas gerais, é possível ponderar que a palavra liberdade é bastante ambígua por
conta de suas construções e reconstruçõ es históricas como elucida bem Novaes (2002, p. 7):
Liberdade é uma palavra que tem sido usada de tal maneira que seria
impossível circunscrevê -la a uma referência comum: ao longo da história,
ela foi construída pela teologia, pela metafísica, pela moral e pela política até
chegar ao que é hoje: Liberdade -ídolo, mistificação liberal inscritas nas
bandeiras, nas constituições, na publicidade. [...] Liberdade pode ser,
portanto, um signo enganador “completamente solene” da violência que leva
a defender não homens livres, mas idéias abstratas.
Parece-nos razoável concluir que a escravidão é um fenômeno histórico e social
bastante complexo pela diversidade de modelo e forma como esta foi efetivada nas sociedades
historicamente constituídas, e pela própria mul tiplicidade que se tem de perspectivas
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metodológicas e teóricas para sua explicação. A liberdade também é um problema para os
modelos e quadros explicativos assim como está condicionada a realidade histórica dada.
Portanto, é permitido falar de sua peculia ridade espacial e temporal.
Dada as questões acima, no entanto compreendemos que um recorte razoável, no que
se refere à perspectiva metodológica, bastante satisfatória para analisar as Cartas a Lucílio é a
partir do conceito elaborado e ampliado por Joly (2005) da escravidão como metáfora e forma
de explanar assim como exortar as classes dominantes sobre os problemas políticos e sociais
da Roma antiga. De acordo com Guarinello (1996, p. 58), política e filosofia estão inter relacionadas na obra de Sêneca:
Sêneca produziu, desta maneira, um verdadeiro programa político, que será,
posteriormente, uma das bases da ideologia imperial sob os Antoninos. Este
programa, no entanto, não deve ser entendido como uma reflexão
estritamente pessoal, envolvendo, como es pero mostrar, os grupos estóicos
atuante no Senado, ou na corte do Imperado.
2 Sêneca, estoicismo e sociedade
Lucio Aneu Sêneca nasceu em Córboda, na província então da Bética, Espanha. Sobre
a data de seu nascimento não se tem uma definição concreta (VIZENTIN, 2005, p. 21) .
O conhecimento que se tem de sua vida, família, escritos e carreira pode ser
observado a partir dos testemunhos de escritores de sua época, assim como
de duas próprias obras. Entre os historiadores antigos, Tácito, Suetônio, e
Dião de Cássio são os que fornecem a maioria desses dados, chegando
inclusive a emitir juízo de valor acerca de determinadas atitudes de Sêneca,
não raras vezes contraditórias ( EPICURO, 1980, p. 79).
Sua formação estóica possibilitou uma ampla obra de cará ter moral, sendo as Cartas
uma das mais importantes.
A escola estóica foi fundada por Zenão de Cício (336 -264 a.C.) e continuada
por Cleanto de Assos (331 -232 a.C.). Posteriormente a escola transformou se, tendendo para uma posição eclética. [...] O esto icismo grego propõe uma
imagem do universo segundo a qual tudo o que é corpóreo é semelhante a
um ser vivo (EPICURO, 1980, p. 80).
Segundo Guarinello (1996), o estoicismo foi uma eficiente doutrina política que
circulava entre as elites, na busca de uma economia política que estabelecesse de forma eficaz
as relações de poder constituídas. Para tanto era necessário uma idealização de
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comportamento em relação à riqueza, às relações políticas, ao tratamento com os escravos, o
luxo etc. Este comportamento gar antiria o controle social e a manutenção das relações de
domínio e a inexistência do caos.
Uma ética centrada no autocontrole de si e para a qual a questão da liberdade
se resolve individualmente, pelo controle das paixões e pelo contentamento
com o que se possui, baseando -se, simultaneamente, numa confiança
absoluta na providência divina e no reconhecimento da inelutabilidade do
destino. Essa imagem, verdadeira em linhas gerais, não deve, contudo, fazer nos esquecer que o estoicismo romano, como o dos ele atas, possui também
uma forte dimensão política, estritamente vinculada à sua adoção por parte
significativa da elite política romana desde o final da República
(GUARINELLO, 1996, p. 53 -54).
Por mais que identifiquemos aspectos de uma vida simplória na re tórica estóica
senequiana a partir das recomendações deitas a Lucílio, o que prevalece no pensamento de
Sêneca são exemplos construídos pelo prisma metafórico para construir uma política de
manutenção dos padrões sociais e as relações de domínios pelas eli tes. Elege sempre critérios
da realidade social vivida para discutir o modelo de homem ideal, constituído de virtudes, sem
vícios e com domínio próprio.
Os argumentos de Sêneca sugerem que finda aquela idade de ouro, onde não
existiam ricos ou pobres, sen hores ou escravos, o único denominador
comum a todos os homens, que se situa acima e além de todas as diferenças
sociais, é a posse da alma , que permite uma vida virtuosa (JOLY, 2007, p.
102).
Além do caráter moralizante, há constantes preocupações em preservar a riqueza, o
status e o domínio das relações políticas por parte da aristocracia. As mudanças pensadas por
Sêneca eram direcionadas basicamente para uma parte significativa da elite da R oma
neroniana de manter algum nível de controle, sobre seus escravos, sobre as relações
estratégicas de clientelismo para se assegurar a prosperidade e o posicionamento político.
Por mais critico que o filósofo possa ser da sociedade em que vive, não
postula qualquer transformação social pela supressão das desigualdades
econômicas e sociais, incluindo -se aqui a escravidão. As referências de
Sêneca às relações escravistas revelam que a sua preocupação não é com a
eliminação da desigualdade, mas com sua adm inistração para evitar a
eclosão de revoltas violentas ( JOLY, 2007, p. 102).
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Para fornecer exemplos, utilizava enquanto metáfora a idéia de escravidão. A
liberdade nesse caso esta contida no comportamento do “homem ideal”, ou seja, do sábio. O
homem sábio por sua vez cheio de virtudes pondo em segundo plano uma vida ligada ao luxo,
aos excessos e aos vícios e paixões.
Este modelo de “homem ideal”, livre, diz respeito a um homem de vida superior sem
condicionamentos externos, seguindo apenas os parâmetros d a natureza. Já escravos são
aqueles que estão condicionados a uma vida desregrada, sem controle e com excessos. A
condição de escravos nesse caso é criticada e apontada como inadequada para um espírito
livre e destituído de paixões.
A partir dos exemplos d a dinâmica social é possível juntar os pequenos quadros: do
escravo que se jogou do telhado e do escravo suicida (SÊNECA, 1991, p. 8) , da ira dos
escravos e suas vítimas (p. 9). Percebemos desta forma que as relações escravistas baseadas
na coerção e violê ncia geravam mais violência e o temido caos por Sêneca. Significa que as
recomendações senequianas poderiam ser caracterizadas como mecanismos estratégicos para
manter uma relação mais de negociação do que de conflitos, no tocante as categorias sociais
de senhor e escravo. Pois os escravos usavam desde o suicídio até revoltas como forma de
insatisfação pessoal diante do modelo escravista de produção e da violência senhorial.
2.1 Cartas a Lucílio e aspectos da dinâmica social e política da Roma Antiga
Nas Cartas a Lucílio são recorrentes preocupações no processo de formação do
indivíduo a partir do modelo ideal de homem, que corresponde necessariamente ao homem
sem vícios livres das paixões, da ira, da angústia, do luxo etc. É perceptível também um
número considerável de conselhos direcionados ao bom uso dos bens, que a “fortuna”
proporciona aos homens: o tempo, a vida etc. Para Sêneca (1991, p. 7), a formação moral
sobrepunha todos os outros aspectos da vida.
Prossegui a vida que encetaste, apressa -te quando puderes, para mais tempo
te ser dado usufruir de um espírito correcto e equilibrado. Mesmo enquanto o
corriges e equilibras podes ir usufruindo dele; a contemplação de uma alma
livre de toda mácula e resplandecente, todavia, é um prazer de natureza
superior.
Nesta linha, ele propõe um modelo de indivíduo: “homem ideal”. Escreve com que um
manual de comportamento pautado no autocontrole, direcionado estritamente para a
aristocracia.
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Quando Sêneca discute os problemas morais da sociedade do seu tempo, nã o está
preocupado com os problemas materiais que assolavam os setores subalternos que a
compunha, a exemplo da acentuada desigualdade social e política, assim como o estatuto
jurídico que regia a sociedade. A Roma da época de Sêneca era escravista, baseada na relação
antagônica entre senhores e escravos. Importante salientar que além dessas duas categorias em
pólos distintos, havia uma variedade de categorias que também estavam subordinadas aos
setores que detinham os domínios do poder político e econômico. É a partir dessa relação
polarizada na qual Roma se configurava que o filósofo vai apontar os desregramentos e
excessos das elites e da sociedade como todo.
As paixões, essas, são impulsos da alma condenáveis, súbito e intensos, os
quais, se se tornarem freqüentes e não forem refreados, podem degenerar em
doenças da alma: um pouco à maneira do catarro, que, se apenas
momentâneo, ocasional, se limita a provocar tosse, mas se se tornar
contínuo, crônico, degenera em tuberculose! Em conclusão, os estudiosos
mais avançados já estão libertos das doenças da alma, mas, conquanto
próximos da perfeição, encontram -se ainda sujeitos às paixões.
A segunda classe compreende aqueles que se conseguiram libertar das
principais enfermidades da alma e das paixões, mas não a ponto de gozarem
definitivamente de um estado de perfeita tranqüilidade
A terceira classe já esta liberta de numerosos e consideráveis vícios, mas
ainda não de todos. Está livre da avareza, mas sujeita ainda à ira; já não é
tentada pelo prazer, mas é -o ainda pela ambição; está liberta do desejo, mas
não do temor, e, no que toca aos objecto de temor, pode mostrar -se firme
perante alguns, mas ceder perante outros: por exemplo, não recear a morte,
mas ter medo da dor f ísica (SÊNECA, 1991, p. 309).
Este é um exemplo de como Sêneca ilustra as etapas que o indivíduo pode se encontrar
até alcançar o estágio de “homem ideal”. Apesar de serem etapas e estágios pautados em
questões morais, estes são exemplificados a partir da s relações sociais constituídas na Roma
de seu tempo. É possível perceber que, quando Sêneca aborda a categoria social “escravo”,
coloca-a no estágio inferior da hierarquia proposta por ele. Visto que uma alma doente é uma
escrava dos vícios. O homem livre por sua vez ocupa o grau mais elevado por conta de sua
grandeza.
Nenhum destes homens que as riquezas ou as honras elevam aos píncaros é
verdadeiramente grande. Apenas parecem grandes porque os medimos em
conjunto com a base onde se erguem. Ora nem um an ão é grande se se
empoleirar numa montanha me, um colosso diminuirá de tamanho se estiver
no fundo do poço! Aqui reside o nosso erro, aqui está à origem das nossas
falsas apreciações: não avaliamos as pessoas pelo que são preferindo
observá-las sempre em conjunto com os seus acessórios. Quando quiseres
avaliar as suas qualidades, deves vê -lo sem adornos. Foram com os bens de
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família, fora com as honras e todos os demais embustes da fortuna, fora até
com o próprio corpo: observa sim a sua alma, as suas quali dades, a sua
grandeza, vê se essa grandeza é intrínseca ou extrínseca ( SÊNECA, 1991, p.
320-321).
O filósofo esboça dessa maneira uma classificação moral da sociedade, baseada,
sobretudo, na classificação social, econômica e política; embora haja em suas abordagens um
forte caráter metafórico. Além da trajetória traçada por ele para se alcançar o “status” de
“homem ideal”: a liberdade plena que nesse caso é a liberdade de caráter moral. Pois há livres
que são mais “escravos” do que os próprios escravos. Sê neca (1991) diz que os homens estão
condicionados às imposições naturais (condição de mortal) e sociais (condição de livre,
liberto, escravo, pobre etc.). Portanto, propõe sugestões direcionadas à aristocracia de como
gerir suas riquezas e propriedades e r esponder com eficácia aos problemas de ordem moral.
Mesmo colocando em que consiste a grandeza do “homem ideal” (a grandeza da alma
efetivamente livre), Sêneca, no entanto, não critica o status dos homens ricos do seu tempo,
embora no seu pensamento haja menção de uma vida simples e conforme à natureza. Outra
questão bastante utilizada por Sêneca é a dualidade de homens bons e maus que corresponde
também há uma depreciação a partir dos exemplos dos setores subalternos da sociedade.
Parece válido afirmar qu e as mudanças propostas por Sêneca, são meramente morais e
que não dizem respeito às mudanças na estrutura social ou nas relações políticas constituídas;
a sociedade permanecerá elitista, hierarquizada, baseada na desigualdade política, jurídica,
social e econômica.
A figura abaixo ilustra um dos aspectos da projeção feita por Sêneca (1991). Embora
para o estóico o que prevalece é o caráter moral da hierarquia projetada, deixa escapar, no
entanto, em que se baseia a sociedade de fato.
HOMEM IDEAL (plenamente livre)
“ESCRAVO” (submetido aos vícios)
A figura aponta que, do ponto de vista moral, o “homem ideal” alcança “ em sua alma
a grandeza intrínseca ou extrínseca” . Enquanto o escravo está no fundo do poço. É de
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considerar que a sociedade roman a não se baseava apenas nas duas categorias exposta no
quadro, entretanto estas correspondiam aos extremos em se tratando de prestígios, honras e
riqueza. Embora entendamos que havia possibilidade de ascensão do escravo é importante
colocar que ela se dava a partir de uma política de controle pelos senhores. A partir de um
quadro analítico e explicativo elaborado por Faversani (2000), pudemos perceber que as
construções das hierarquias baseavam -se nos critérios da riqueza, honra e favores. Para
Faversani (2000), havia variações e tipos de interações sociais, e entre elas podemos destacar:
“as relações sociais institucionais” que eram reguladas por formalizações reconhecidas pela
sociedade; “relações sociais de produção” que dizem respeito as que geram bens e meios para
a produção, a exemplo dos proprietários de terras; e as “relações interpessoais”
correspondendo ao nível de intermediações entre os agentes não regulados pelo caráter
institucional ou sócio -econômico das relações.
É notável em Cartas a Lucílio que as classificações morais elaboradas por Sêneca
reflitam este perfil de hierarquia esboçado por Faversani
(2000). Das preocupações
senequianas diz respeito, sobretudo, o seu prestígio e posicionamento político e social. Apesar
de reflexos de uma socied ade baseada no componente como a honra, a riqueza e os favores,
percebemos que as Cartas em certa medida buscavam equacionar um problema recorrente:
manter as relações de domínios nas mãos das elites em detrimento das condições que criavam
para os setores subalternos, não ressurgirem com revoltas e conflitos.
As Cartas a Lucílio, portanto, pode ser caracterizada, também, como um manual para
a formação moral alcançando o status de “homem ideal” Assim como um conjunto de
conselhos representado preocupações po lítica por parte das elites, buscando mecanismos e
estratégias de manterem as relações de domínio. É válido salientar que equacionar conflitos
no seio da própria aristocracia.
3 Conclusão
As perspectivas em que foram escritas as
Cartas dizem respeito a um
acompanhamento de perto por parte do filósofo dos inúmeros problemas que permeavam a
sociedade em que viviam. O que esteve sempre em evidência foi uma proposta de
comportamento diante das adversidades que a própria sociedade poderia pr oporcionar. Sem
esquecer-se do policiamento no tocante ao tratamento com os escravos. Sem abrir mão de
mecanismos que garantissem o status quo e o prestígio diante dos amigos e subordinados.
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Portanto, Cartas a Lucílio representa o objetivo de uma parcela da aristocracia em
compor uma política de controle senhorial e uma mudança, sobretudo no comportamento. Era
o autocontrole destinado ao “homem ideal” sem vícios e livre de qualquer apego material que
garantiria em certa medida que quando se encontrasse (po r obra do acaso) em condições
inferiores não houvesse o desespero. Ao analisarmos as cartas percebemos sua importância
enquanto fonte histórica para compreender alguns aspectos da vida social e política de Roma.
A proposição que levantamos é que uma análi se comparativa entre as Cartas e as
outras obras do autor possibilitaria evidenciarmos com mais precisão sobre as preocupações
das elites em buscar modelos de comportamento e uma política de controle para se estabelecer
enquanto categoria social dominante.
Referências
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