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CARTOGRAFANDO LEMBRANÇAS
José Willington Germano –
[email protected]
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Lenina Lopes Soares Silva
[email protected]
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Palavras-chave: Cartografia, lembranças, estratégia de pesquisa.
I INTRODUÇÃO
[...] O modo como imaginamos o real espacial pode vir a tornarse na matriz das referências com que imaginamos todos os
demais aspectos da realidade.
Boaventura de Sousa Santos
As discussões em torno de estratégias de pesquisa e de outros modos de
análise na área de história da educação com enfoque em abordagens qualitativas vêm
sendo feitas como uma tentativa de tornar os conhecimentos produzidos bem mais
sedimentados metodologicamente. Assim, ideamos este relato, considerando que as
estratégias metodológicas em pesquisas no âmbito das Ciências Sociais e Humanas têm
demandado estudos que utilizam procedimentos metodológicos inovadores, dentre os
quais podemos citar, o desenvolvido pelo pensador português Boaventura de Sousa
Santos.
A comunicação que ora apresentamos tem como objetivo relatar a experiência
desenvolvida na análise da pesquisa “Memória da Formação Médica: lembranças de
alunos egressos do Curso de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte”, realizada de 2003 a 2006, na Base de Pesquisa Cultura, Política e Educação, do
Departamento de Ciências Sociais, vinculada também ao Programa de Pós-Graduação
em Ciências Sociais da UFRN. A fundamentação de tal metodologia encontra-se nas
propostas de Santos (2001) sobre os procedimentos de sociologia cartográfica ou
cartografia simbólica como mapas da realidade a ser representada socialmente.
Nessa perspectiva, observamos que Santos (2001, p. 224), tratando da
cartografia simbólica das representações sociais, diz: “os mapas são um campo
estruturado de intencionalidades, uma língua franca que permite a conversa sempre
inacabada entre a representação do que somos e a orientação que buscamos.” A
cartografia também é utilizada por Nobre (2003, p. 69), que a considera como um
procedimento de pesquisa capaz de “apresentar e organizar os resultados obtidos em
atividades de campo [...]” permitindo que o pesquisador mapeie os dados e possa
visualizá-los em conjunto. Para nós os procedimentos de cartografia simbólica
possibilitam que analisemos os dados coletados de forma substantiva – vendo-os no
contexto do espaço histórico, social e cultural no qual ocorreram, portanto, pertinente
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em trabalhos científicos alicerçados na história e na memória da educação em seus mais
diversos campos de aplicação.
Tais reflexões possibilitam compreender que trabalhos que trazem memórias
como fontes de pesquisa talvez sejam formas de respeitar e de construir conhecimentos
portadores de significados para a compreensão das relações humanas e sociais em certo
tempo e lugar, ocorrências do passado que trazem lições para o presente que se faz
futuro, sobretudo, se tiverem como parâmetro atitudes voltadas para a humanização e
para o senso de pertencimento social, cultural e planetário como no caso das pesquisas
que lidam empiricamente com lembranças do processo de escolarização e formação de
sujeitos.
Desse modo, compreendemos que lembranças podem ser traduzidas em
conhecimentos, representadas como fragmentos de memória que chegam ao presente
buriladas pelas experiências da vida, da história do sujeito; carregadas de nostalgia, em
relação ao passado que de certa maneira é conformado socialmente; oferecem assim,
ferramentas para atualizar o já vivido e para acreditarmos em expressões significativas
permeadas de sentimentos que ficaram armazenados, os quais poderão ou não aflorar
quando estimuladas no presente. Nesse sentido, ressalvamos que em pesquisa, as
lembranças devem ser colhidas com os cuidados necessários à estruturação de um
conhecimento que, sendo tradução, seja representativo da realidade e seja também
prudente, como postula Santos (2003) e pertinente, como ensina Morin (2001).
Salientamos que, nesta pesquisa, as lembranças foram analisadas como sinais da
memória da formação médica dos sujeitos, e sendo tal formação parte do processo
educativo/formativo deles, optamos por fazer uma análise, não de tudo que foi lembrado
ou das memórias em si, mas daquelas lembranças, partes da memória, concernentes ao
processo de mediação pedagógica de tal formação. Dessa forma, selecionamos quatro
categorias do conceito de mediação pedagógica formulado por Moraes (2003) que diz:
a mediação pedagógica seria, portanto, um processo comunicacional,
conversacional, de co-construção de significados, cujo objetivo é abrir
e facilitar o diálogo e desenvolver a negociação significativa de
processos e conteúdos a serem trabalhados nos ambientes
educacionais, bem como incentivar a construção de um saber
relacional, contextual, gerado na interação professor/aluno.
(MORAES, 2003, p. 210).
As categorias selecionadas para interpretação foram conteúdos de ensino,
saber relacional, recursos didáticos e saber contextual, compreendidos da forma a
seguir:
a) conteúdos de ensino que compreendem os saberes ensinados na educação
formal, que podem ser conhecimentos científicos, sociais, culturais e atitudinais de
acordo com Libâneo (2004, p. 70);
b) saber relacional aquele concernente a interação entre professores e alunos e
entre alunos e alunos, entendido como o que vai além da autonomia e da emancipação
de alunos e professores em seus processos de auto-organização pessoal e coletiva, nesse
sentido, refere-se a “[...] qualidade da interação, onde os dois são elementos
fundamentalmente importantes, o que nos leva a inferir que não depende somente da
atitude do professor diante do aluno, mas das atitudes e dos comportamentos de ambos,
Moraes (2003, p. 210 - 211),” inserindo-se, dessa maneira, no “aprender a viver” como
sugere Morin (2002, p. 20);
c) recursos didáticos são as estratégias, instrumentos e operadores técnicos e
lingüísticos, utilizadas para as intervenções necessárias à assimilação e à produção do
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conhecimento, à transmissão de informações e ao diálogo entre os saberes, conforme
reflexões de Morin (1999) com a intenção de possibilitar e facilitar as aprendizagens
dos alunos;
d) saber contextual aquele que se refere à compreensão da condição humana e
social e sua convivência planetária que segundo Morin (2005, p. 115), “[...] comporta
não somente a compreensão da complexidade do ser humano, mas também a
compreensão das condições em que são forjadas as mentalidades e praticadas as ações.”
Reconhecemos o caráter arbitrário de tal modelação em categorias, todavia a
interpretação procurou, nas conduções reflexivas, respeitar a narrativa de cada sujeito
pontuando em todos os momentos que
A memória humana é formada por um processo de construção
coletiva, em que seus vestígios, quando expressados por meio da
linguagem, contêm em si outras linguagens e a memória de outros
sujeitos. Embora compreendamos que haja na narrativa de depoentes
expressões particularizadas, próprias de cada sujeito, estas são
tentativas de torná-los específicos. Mas, é nessa seletividade que
vamos encontrar as singularidades e, também, o sentido da memória
coletiva. Aqui, esta é entendida como um processo dinâmico
direcionado pela confluência de vários elementos da composição da
estrutura mental, que se distinguem e ao mesmo tempo são comuns,
presentes em diferentes discursos sobre um determinado tempo,
momento e espaço sociocultural, partes de uma mesma experiência e
de uma mesma história, reconstruída no presente (SILVA, 2006, p.
120).
Sendo assim, as palavras como partes do discurso formaram a base da
interpretação da mediação pedagógica da formação médica dos sujeitos da pesquisa.
Nesse sentido, a pesquisa em relato enquadra-se nas abordagens qualitativas
por sedimentar-se em dados ditos subjetivos –, lembranças de alunos –, sendo estes os
sujeitos. São alunos egressos das turmas que ingressaram em 1956, 1957 e 1958, os
quais concluíram em 1961, 1962 e 1963, na Faculdade de Medicina de Natal/Rio
Grande do Norte. Tal Faculdade foi incorporada à Universidade do Rio Grande do
Norte, em 1958, e posteriormente à Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Do
universo formado por 50 alunos foi retirada uma amostra de seis sujeitos, possibilitada
por ser a pesquisa não paramétrica. A participação se deu por consentimento, conforme
documentação arquivada na Base de Pesquisa Cultura, Política e Educação do Programa
de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte. Essa pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa da UFRN e
aprovada, em junho de 2003.
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II CARTOGRAFANDO LEMBRANÇAS
A incompletude estruturada dos mapas é a condição da
criatividade com que nos movimentamos entre os seus pontos
fixos.
Boaventura de Sousa Santos
Partimos da compreensão de que os mapas nos indicam lugares possíveis,
contudo, são distorções da realidade, assim, as formas como vamos chegar a tais lugares
devem ser planejadas para que os caminhos a serem percorridos tornem-se
possibilidades reais. Assim, a sistematização dos dados e a interpretação das lembranças
durante a pesquisa foram conduzidas através de uma cartografia simbólica como uma
estratégia que envolve a construção de quadros/grelhas interpretativos que configuram
mapas da realidade que se quer representar para ser vista e lida. Para Santos (2001) a
construção de uma cartografia simbólica deve ser conduzida observando-se três
parâmetros ou mecanismos de representação/distorção da realidade articulados entre si
quais sejam a escala que é um mecanismo capaz de demonstrar (no mapa) a relação
entre este, e a distância no terreno, que deve corresponder virtualmente ao que está
sendo representado no mapa; a projeção que procura dar conta de um compromisso do
cartógrafo/pesquisador com o uso específico que pretende dar ao mapa, refere-se as suas
especificidades, singularidades etc; e a simbolização – esse mecanismo que demanda a
compreensão de sinais e símbolos gráficos que estabelecem semelhanças com a
realidade a ser representada – com a preocupação de facilitar a leitura e a visão do
observador/leitor. Desse modo, “os mapas podem ser mais figurativos ou mais abstratos,
assentar em sinais emotivos ou expressivos ou, pelo contrário, em sinais referenciais ou
cognitivos. (SANTOS, 2001, p.205).
A cartografia simbólica sistematizada para o tratamento dos dados da pesquisa
considerou esses três mecanismos, procurando aproximar-se dos mapas que se
delineiam “em sinais referenciais ou cognitivos” de acordo com as palavras de Santos,
tendo como referentes empíricos as falas dos depoentes que deram suporte para a
elaboração de sínteses que foram apresentadas em quadros, os quais tiveram como
unidade de análise as palavras representativas dos elementos constituintes da mediação
pedagógica expressadas nos depoimentos. Foi, portanto, uma estratégia delineada para
elaborar uma cartografia simbólica da formação médica da UFRN de 1956 a 1963.
Assim, o conjunto dos depoimentos foi considerado como o “terreno” a ser
representado, e as palavras representativas das categorias em análise, fizeram a relação
entre a distância de tal conjunto e as palavras no “mapa de lembranças”, mediada pelas
teorias que deram suporte à sistemática de análise, formando a escala; o mecanismo de
projeção demandou a construção de dois tipos de quadros: um de síntese e outro
interpretativo de acordo com a especificidade da análise qual seja, compreender o
processo de mediação pedagógica da formação médica dos sujeitos com base na
fundamentação teórica; o mecanismo de simbolização apresentou-se nos dois quadros,
trazendo para a leitura da pesquisa, tanto as falas do sujeitos, como a interpretação dos
pesquisadores, de forma descritiva e narrativa.
Como já referimos, as lembranças que foram analisadas são frutos da escuta de
depoimentos através de entrevistas temáticas, observando-se durante o processo as
condições de acessibilidade e de enfrentamento do tema pelos sujeitos, em suma, se as
recordações não lhes causariam sofrimento ou rejeição. Isto porque, se fosse constatado,
no primeiro contato, aquele sujeito não seria entrevistado. Esses cuidados foram
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necessários porque a maioria dos sujeitos da pesquisa encontra-se na categoria de
idosos. Ressaltamos que os encontros para a entrevista aconteceram em datas, locais e
horários diferentes, escolhidos de acordo com a disponibilidade dos sujeitos. Os
entrevistados mostraram entusiasmo durante a exposição de momentos das suas vidas
acadêmicas; avaliaram a importância e relevância de alguns dos momentos relatados
para suas vidas pessoais e profissionais; apresentaram estilos narrativos diferentes e se
detiveram para explicar detalhadamente alguns episódios, estabelecendo relações com
situações vividas posteriormente, por eles. A cronologia dos acontecimentos durante os
depoimentos não foi respeitada, contudo, isto não afetou a qualidade e o conteúdo
genérico das informações/lembranças. Todavia, observamos, que os discursos se
mostraram entrecortados, episódicos e fragmentados, no entanto, não são dispersivos,
tendo em vista que a temática proporcionava o ir e vir das lembranças, tornando o
assunto presente; dando-lhe coerência; articulando a narrativa e ao mesmo tempo,
estruturando a coesão e a razoabilidade das narrativas.
2.1 OS PASSOS PARA CONSTRUÇÃO DA CARTOGRAFIA SIMBÓLICA
A sociologia cartográfica ou cartografia simbólica da formação médica da
UFRN (1956-1963), foi configurada em cartogramas de significados para sistematizar
os procedimentos de análise da pesquisa, com apoio teórico apreendido de uma
abordagem metodológica utilizada por Vygotsky (1989). Na referida abordagem esse
autor analisa a relação entre pensamento e linguagem. Desse modo, acreditando nessa
relação no processo de lembrar, tomamos como referência seus posicionamentos sobre
unidade de análise. Nessa pesquisa, escolhemos como unidade de análise - a palavra e
seus significados, no sentido e significado dado por Vygotsky (1989), que conduz à
interpretação de que a palavra é o “microcosmo da consciência humana,” cujo
significado e sentido têm função mediadora, possibilitando que na linguagem assuma
dois movimentos funcionais: o da comunicação e o da representação.
Assim, foi a partir da função comunicativa, encontrada nas narrativas sobre a
formação médica que as palavras foram utilizadas em sua função representativa para
elaborar a cartografia ora demonstrada, de acordo com as palavras expressadas pelos
depoentes.
Observamos que as palavras representativas no contexto de um discurso,
oferecem suporte auto-organizativo à interpretação, carregam em si a representação do
todo, um exemplo é: quando dizemos que os conteúdos de ensino de determinada
disciplina são fundamentais, esta palavra refere-se a todos os conteúdos da disciplina e,
ao reintroduzi-la no contexto, fazendo a relação parte/todo, poderemos dizer que
fizemos uma distinção sem separação, de acordo com o pensamento complexo
(MORIN, 2001). Compreendemos que por essa via – a palavra representativa pode ser
configurada de forma hologramática, quando entendida por seus significados fora do
contexto da narrativa, no entanto, articulada a ele pelos traçados teóricos conduzidos
pelo pesquisador, no caso, conduzida pela temática. Vale salientar que nos reportamos
também a Pesavento (2003, p. 103) que afirma a “cartografia social remete a pensar as
ações dos homens, que se inscrevem, necessariamente, em uma temporalidade”, sendo
assim, foi possível construir a cartografia conforme planejamos para construir a
memória da formação médica da UFRN do período em estudo, tendo como referente as
ações dos professores que lá lecionavam à época.
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Dessa forma, salientamos que corroboramos o posicionamento de Santos
(2001), quando este informa que o procedimento cartográfico consiste no mapeamento
das informações em quadros paralelos que formam uma grelha, e o de Cortesão e Stöer
(2001, p. 391) que analisa esta estratégia de tratamento temático e conclui que, fazer
uma cartografia em uma pesquisa “[...] tem como objetivo produzir uma
intertextualidade entre conceitos e discursos concorrentes, para mostrar que o
conhecimento e a ação se inter-relacionam [...].”
De acordo com todos as reflexões já explicitadas, primeiro, mapeamos nos
depoimentos dos sujeitos, após a transcrição das fitas, as palavras representativas que se
referiam aos elementos da mediação pedagógica, evidenciados como categorias de
análise, dentre os quais, os já referidos: conteúdos de ensino; saber relacional,
observando-se, neste sentido, dois aspectos: interação entre professores e alunos e
interação entre alunos; recursos didáticos; e saber contextual. Feito o mapeamento,
construímos dois tipos de quadros, o primeiro de síntese, observando em sua
estruturação a questão do ano de conclusão de curso de cada turma, inseridos na
vertical e as categorias na horizontal, para que no quadro pudessem ser preenchidos com
as palavras representativas. Isto permitiu visualizarmos de forma panorâmica se havia
diferença de significação sobre os elementos da mediação pedagógica entre elas, no
conjunto das narrativas, este quadro foi denominado de cartografia de significados,
conforme pode ser observado no quadro 01.
Os desafios para a elaboração dessa cartografia que podemos inscrever como de
lembranças, encontram-se na dimensão dos referenciais e da cognição, pois embora
reconhecendo que cada sujeito lembra do passado selecionando, avaliando e
interpretando sua própria vida e não a realidade vivida, mas o que é de certo modo
realidade para ele, assim como pensa Bosi (2003), interpretar as lembranças de forma
lógica foi uma tarefa difícil.
Partindo-se, desta compreensão, entendemos que os sujeitos da pesquisa se
referiram aos elementos constituintes da mediação pedagógica utilizando as mesmas
palavras ou palavras que denotam o mesmo significado, exceto para os recursos
didáticos. Sobre o que foi feita uma re/interpretação, “considerando as mudanças
institucionais da primeira para a segunda e para a terceira turma” (SILVA, 2006, p.
164), geradas também pelas mudanças de dependência administrativa da Faculdade,
talvez, isso tenha provocado a discrepância apresentada sobre recursos didáticos pelas
turmas.
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CARTOGRAFIA DE SIGNIFICADOS
ANOS
PALAVRAS REPRESENTATIVAS DOS ELEMENTOS DE MEDIAÇÃO
PEDAGÓGICA
SABER
SABER
RECURSOS
SABER
RELACION RELACION DIDÁTICOS CONTEXTUA
TURMAS CONTEÚ
AL:
AL:
L
CONCLUI
DO DE
interação
interação
NTES
ENSINO
entre
entre alunos
professores
e alunos
Importantes Amigável
Bom –
Diálogo –
- Básicos
Importante Bom
Assistência à
1961
Confiabilidad
comunidade
e
Importantes
Especial
Bom - Coeso
Precários
Trabalhar para a
1962
sociedade
Proveitosos
Amigo
Bom - Alegre
De sobra
Trabalhar para a
sociedade 1963
Importante
Quadro 01 – Quadro Síntese: CARTOGRAFIA DE SIGNIFICADOS
Fonte: Silva (2006)
Dando continuidade a análise, no segundo momento, a partir deste quadro
síntese foram construídos cinco quadros de acordo com as categorias de análise os quais
foram denominados de cartogramas de significados. Nestes, foi deixado um espaço para
colocar a interpretação, conforme quadros 02, 03, 04, 05 e 06.
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CARTOGRAMA DE SIGNIFICADOS
INTERPRETAÇÃO
ANO
TURMAS
CONCLUINTES
1961
1962
1963
PALAVRAS REPRESENTATIVAS DE CONTEÚDOS DE
ENSINO
Importantes - Básicos
Importantes
Proveitosos
Diante deste conjunto de palavras referidas aos conteúdos de ensino da formação
médica da Faculdade de Medicina da UFRN, podemos entender que os mesmos
foram fundamentais para a vida profissional dos alunos. Neste sentido,
refletimos tendo como base a compreensão de Morin ( 2002, p. 490): ”[...] todo
conhecimento é tradução a partir dos estímulos que recebemos do mundo
exterior e, ao mesmo tempo, reconstrução mental, primeiramente sob forma
perceptiva e depois por palavras, idéias, teorias”. Daí porque, mesmo
entendendo que as palavras expressam apenas o nosso modo de ver, de opinar,
de compreender, de afirmar e de negar, nossa proposição é a de que tudo que é
ensinado, como e porque é ensinado deixa marcas na vida dos sujeitos. Assim,
vemos que essas palavras dão um significado e um sentido valorativo aos
conteúdos ensinados neste processo de formação médica, permitindo o
entendimento da mediação pedagógica em estudo. Esses conteúdos de ensino
tinham não apenas a função de serem ensinados e aprendidos naquele momento,
mas também a de fomentar o uso deles, no futuro, quando do atendimento à
saúde da população pelos profissionais médicos. Sendo o conhecimento tradução
e reconstrução, a visão que temos do que foi ensinado no passado só poderá ser
explicada indicando-se a complexidade do universo pedagógico, com a
multidimensionalidade e multirreferencialidade de suas práticas e relações
sociais, envolvidas na tessitura da vida, a qual encontra-se presente, pela via do
passado, em grande parte para a condução do futuro, como no caso em análise.
Desta maneira, podemos entender que os conteúdos de ensino perpassados
durante a formação médica tiveram seu espaço no futuro da vida dos alunos.
Quadro 02 - CONTEÚDOS DE ENSINO
Fonte: Silva (2006)
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CARTOGRAMA DE SIGNIFICADOS
INTERPRETAÇÃO
ANO
TURMAS
CONCLUINTES
1961
1962
1963
PALAVRAS
REPRESENTATIVAS
DE
SABER
RELACIONAL: INTERAÇÃO ENTRE PROFESSORES E
ALUNOS
Amigável
Especial
Amigo
As palavras representativas direcionadas ao saber relacional, no aspecto interação,
entre professores e alunos, denotam atitudes qualitativas, predominando a amizade
como sentimento em relação aos professores. Rosnay (2002, p. 498) alerta-nos para
uma questão que corrobora esse entendimento numa concepção dessa interação
envolvida pelos dois atos implicados nela entendidos como ação/relação:
“Aprender e ensinar por aprender é uma coisa. Aprender e ensinar para agir é outra.
Aprender e ensinar para compreender os resultados e os objetivos de sua ação é
ainda outra.” Assim ideada, a interação pode ser complementada pela reflexão de
Morin (2002), que nos fala da interação inserida numa aprendizagem de e para a
vida. Será que nos guiando, por esses pensamentos, poderíamos interpretar que a
mediação pedagógica que ocorria na Faculdade de Medicina da UFRN, no período
em estudo pautava-se numa prática dialógica, à medida que os antagonismos da
relação entre professores e alunos eram superados na prática efetiva? Por fim,
ideamos que o reconhecimento dessas atitudes interativas dos professores pelos
alunos, da forma como foram significadas, podem ser a constatação de uma relação
hierárquica sábia entre humanos, um processo que pressupõe uma “sensibilidade
solidária” e um “estabelecimento de vínculos” como pensa Germano (2006). Essa
interação, assim praticada no passado, é hoje confirmada ao ser confrontada com
um ideal que antes era objetivado pelos professores e que, no presente, é
compreendido e reconstruído pelos ex-alunos, tornando-se, assim, uma interação
que ficou alicerçada em sentimentos que fomentam os laços de sociabilidade e
convivência no grupo. Neste sentido, as palavras que foram ditas pelos alunos
egressos traduziram o pensamento deles em relação à qualidade daquilo que eles
viveram com os professores no movimento do processo de ensino e aprendizagem
da formação médica da UFRN.
Quadro 03 - SABER RELACIONAL: INTERAÇÃO ENTRE PROFESSORES E
ALUNOS
Fonte: Silva (2006)
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CARTOGRAMA DE SIGNIFICADOS
INTERPRETAÇÃO
ANO
TURMAS
CONCLUINTES
1961
1962
1963
PALAVRAS REPRESENTATIVAS DE SABER
RELACIONAL: INTERAÇÃO ENTRE ALUNOS
Boa – Importante - Confiabilidade
Bom - Coeso
Bom – Alegre
O conjunto de palavras relacionadas à interação entre os alunos, como um dos
aspectos envolvidos no saber relacional, manifestado pelos alunos egressos da
Faculdade de Medicina da UFRN, sujeitos desta pesquisa, representa fragmentos
do que ficou na memória. Compreendemos assim, pelas palavras ditas, que havia
no grupo de alunos, além da confiança expressada, respeito pelos outros e alegria
nas relações por eles desenvolvidas. Por essa perspectiva, entendemos que essa
interação talvez representasse a maneira de ser, de ver, de perceber, de sentir e de
compreender o mundo desse grupo que assim agia pelo entendimento das
diferenças e das contradições existentes na vida social, observadas naquele
momento de suas vidas. As palavras coeso, alegre e confiabilidade nos fizeram
pensar sobre a proposta de reencantamento da educação de Moraes (2003, p. 198),
na qual seriam integrados: “[...] o sentir, o pensar e o agir, resgatando também a
sensibilidade, a dimensão do coração, a dimensão espiritual e sagrada da vida [...],”
fazendo-nos acreditar que, mesmo tendo os alunos feito uma avaliação qualitativa
da interação, tiveram também a preocupação de reafirmar, usando como suporte as
relações cooperativas entre eles, de que essa interação pressupunha o
reconhecimento de emoções, sentimentos, afetos de uns para com os outros, sem
descartar a ocorrência de conflitos. Assumiam quem sabe? o que Morin (2001)
pensa sobre os princípios do conhecimento pertinente que reconhecem o que já
está posto pela ciência como saber sistematizado e envereda pela apreensão da
condição humana e daquilo que é tecido junto, propondo que “[...] todo
desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto
das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de
pertencer à espécie humana,” Morin (2001, p. 54). Assim, vimos que essa interação
teve um significado relevante para o grupo.
Quadro 04 - SABER RELACIONAL: INTERAÇÃO ENTRE ALUNOS
Fonte: Silva (2006)
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CARTOGRAMA DE SIGNIFICADOS
INTERPRETAÇÃO
ANO
TURMAS
CONCLUINTES
1961
1962
1963
PALAVRAS REPRESENTATIVAS DE RECURSOS
DIDÁTICOS
Diálogo - Bom
Precários
De sobra
As palavras lançadas para recursos didáticos deixam transparecer duas concepções
existentes sobre eles na Faculdade de Medicina da UFRN. A primeira, que havia
naquele processo de mediação pedagógica uma compreensão de recurso didático,
como o conjunto de instrumentos, procedimentos e estratégias de ensino utilizadas
com o objetivo de facilitar a aprendizagem, dentre eles, o diálogo com alunos; e a
outra, que concebia recursos didáticos apenas como materiais concretos,
instrumentos objetivos de ensino, dadas as palavras com as quais a maioria dos
alunos se referiu a esse elemento constituinte da mediação pedagógica.
Depreendemos, desses entendimentos, que nessa mediação eram utilizados, como
recursos para ensinar e aprender tanto instrumentos materiais quanto subjetivos,
como a linguagem e o pensamento presentes na atitude dialogal entre professores e
alunos. Por essa via refletimos que a utilização de recursos didáticos, em certo
sentido, envolve a concepção de conhecimento do professor pois é ele que planeja,
com objetivos e metas a serem alcançados. Sendo assim, podemos supor que quem
usa o diálogo como estratégia de ensino tem uma intencionalidade voltada para a
compreensão e a interação, o que poderá provocar, nos alunos, o desejo de
aprender. Vemos dessa maneira que o diálogo é um instrumento que pode ser
usado pelo professor para fazer a crítica a procedimentos que não se encontrem de
acordo com os princípios éticos. Segundo Masetto (2000), dialogar é uma das
características da mediação pedagógica vista como estratégia na forma de
tratamento de diferentes conteúdos pelo professor, tendo em vista que dialogando é
que se faz a articulação entre os mais diversificados materiais e equipamentos
tecnológicos utilizados no processo de ensino e de aprendizagem.
Quadro 05 - RECURSOS DIDÁTICOS
Fonte: Silva (2006)
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CARTOGRAMA DE SIGNIFICADOS
INTERPRETAÇÃO
ANO
TURMAS
CONCLUINTES
1961
1962
1963
PALAVRAS REPRESENTATIVAS DE SABER
CONTEXTUAL
Assistência à comunidade
Trabalhar para a sociedade
Trabalhar para a sociedade - Importante
As expressões relativas ao saber contextual, ditas pelo grupo de alunos egressos,
mostram o envolvimento deles com a comunidade no sentido de prestação de
serviços médicos. Este era o espírito e o discurso vivido durante a formação médica
da Faculdade de Medicina da UFRN, no período em estudo. Daí advém a idéia de que
essas palavras traduzem o envolvimento do grupo com a sociedade e, talvez, por isso
se explique o engajamento social dos alunos no sentido de assistência à saúde da
população. Torna-se válido lembrar que, seguindo por essa trilha, como não havia à
época a tecnologia médica atual, o paciente era um dos meios e formas de ensino e
de aprendizagem médica, sabendo-se que comumente no discurso oficial não há essa
relação entre prestar assistência médica à sociedade e ao mesmo tempo aprender a
profissão. Depreendemos então das expressões verbalizadas que esse saber, da forma
como foi mediado na formação médica, foi-nos apresentado com significados
depositários do sentido dado tanto pela história como pela memória. Embora
reconheçamos que eles sejam apenas vestígios, lembranças, trazem, em parte,
enquanto tradução, os desejos e intencionalidades inseridos nas ações e relações
sociais do contexto, agora reconstruídos. Desse modo, podemos constatar que o saber
contextual perpassado na mediação pedagógica, em estudo, trazia as marcas de seu
espaço-tempo e também a vinculação com os problemas locais que passavam pela
assunção de compromissos sociais para com a comunidade e a sociedade. Tais
análises nos instigam, assim, a pensar como Morin (2002), quanto à compreensão
das finalidades do ensino, como aquelas que em seu próprio contexto sejam capazes
de provocar nos alunos enraizamento histórico, social e cultural e pertencimento
humano na Terra, gerando dessa forma um conhecimento pertinente.
Quadro 06 - SABER CONTEXTUAL
Fonte: Silva (2006)
III REFLEXÕES FINAIS
Pela via já delineada a cartografia de significados como estratégia para
tratamento de um tema relacionado à memória da formação médica, permitiu diminuir
vários problemas de ordem interpretativa. Isto porque foi traduzida como facilitadora da
análise, à medida que possibilitou a sistematização das derivações da memória e das
lembranças, expressas através das palavras dos sujeitos, como forma de expressão do
pensamento pela linguagem, para a interpretação do pesquisador, como o sujeito que faz
a re/interpretação e mapeia os referenciais; permitindo a facilitação e a compreensão da
leitura. Por tal via se traduz, como significados dos significados, por constituir-se em
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uma forma de produção de conhecimentos que confluíram e se alimentaram de uma
explicação complexa e polissêmica. Apreendida do universo da memória para transitar
do universo reflexivo para o universo da representação, através da discussão sobre o
histórico, o social e o cultural implicados no processo de formação médica.
As trilhas percorridas para buscar um tratamento da temática que desse à
pesquisa uma metodologia de certo modo original, proporcionaram afirmar que na
pesquisa não buscamos conclusões, enfatizamos soluções e registros de pertencimento
social de uma prática educativa vivida em um passado recente. Tornando, assim,
possível confirmarmos as preocupações de Santos sobre conhecimentos prudentes, e de
Morin sobre conhecimentos pertinentes, ao verificarmos, quarenta anos depois, que a
memória dos sujeitos ainda traz ao presente aquilo que ficou retido e deixou suas vidas
marcadas significativamente pelas atitudes positivas que permearam a formação médica
dos sujeitos ouvidos, sendo, portanto, reveladoras de sentimentos de amizade, dedicação
ao ensino e à aprendizagem, deixando-nos com a mesma dúvida de Ítalo Calvino (2000,
p. 72): “por que a rede furada da memória retém certas coisas e não outras.”
As dificuldades dessa estratégia encontram-se em nível pessoal pelo desafio de
estruturar uma pesquisa de caráter histórico significativo, tecendo-a de acordo com os
determinantes do conhecimento científico, mas, tendo que dar alguns nós e laços com
fios da literatura e da arte e de outras áreas de conhecimento para além das Ciências
Sociais e Humanas, sem perder a unidade e a multiplicidade pela falta de lógica entre o
ideado e o concretizado através de lembranças de uma vivencia educativa.
Por fim, esclarecemos que os resultados da pesquisa foram parcialmente
publicados na dissertação de mestrado intitulada “Lembranças de alunos, imagens de
professores: narrativas e diálogos sobre formação médica”, defendida em 2006, no
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN e que os quadros aqui
apresentados foram adaptados do relatório da pesquisa e constam na referida
dissertação.
REFERÊNCIAS
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