Vamos estar soltando o verbo... Formas de futuridade[1] Ana Kelly

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Vamos estar soltando o verbo...
Formas de futuridade1
Ana Kelly Borba da Silva
Patrícia Graciela da Rocha
1 Introdução
Atualmente, o governo federal investe muito no Programa Nacional do Livro Didático
– PNLD. Nas escolas da rede pública de ensino esses livros são distribuídos com certa
freqüência no ensino fundamental, igualmente, parece existir uma preocupação com a qualidade
do material distribuído e alcançado pelas escolas por parte do MEC/PNLD. E, recentemente, há
também investimento nesse Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio
(MEC/PNLEM).
Entretanto, sabemos que os materiais de apoio devem ser utilizados pelos docentes
como uma complementação do trabalho em sala de aula e não como uma via de mão única.
Porém, não é isso que se percebe, pois, na maioria dos casos, os professores utilizam o livro
didático como principal recurso pedagógico; não preparando seus próprios materiais, nem
tampouco se atualizando para preparar suas próprias aulas. Mas essa questão é complicada, pois
envolve uma série de fatores, dentre eles, o fato de os docentes trabalharem várias horas por dia e
em condições precárias.
Com este trabalho tencionamos relacionar, de maneira crítica e reflexiva, diferentes
tratamentos dispensados às formas de futuridade: futuro sintético (forma simples flexionada no
futuro -rei); futuro perifrástico (ir + verbo no infinitivo); ir flexionado no futuro com o verbo
principal no infinitivo (vou + verbo ir) e ir flexionado no futuro com o verbo principal no
infinitivo + gerúndio (ir + verbo + gerúndio), em manuais didáticos e em gramáticas normativas,
com o objetivo de refletir acerca de uma nova proposta de tratamento para esta questão. Além
disso, buscaremos pesquisas sociolingüísticas capazes de descrever os fenômenos a serem
investigados, reunindo, desta forma, o resultado de algumas dessas pesquisas2 a fim de apontar a
ausência/carência de reflexão lingüística dos manuais de ensino que trazem, muitas vezes,
noções agramaticais – não levando em conta o uso real do PB segundo o julgamento dos falantes
reais da nossa língua – e de discutir questões relativas à educação e mais especificamente a
prática docente de professores de língua portuguesa, já que estes estão diante da tradição
1
Artigo apresentado como requisito para a aprovação na disciplina de Seminários Especiais em
Sociolingüística ministrada pelas Profas. Doutoras Edair M. Görski e Izete L. Coelho, na Pós Graduação
em Lingüística da UFSC.
2
Especialmente o que o que foi desenvolvido por Longo (1998) Gibbon (2000), Silva (2002), Silva
(2003), Tafner (2004, 2007), Barbosa (2007) e Nunes (2007).
1
normativa que lhes é imposta como objeto de estudo e, ao mesmo tempo, da variação e mudança
lingüística concretizada na fala dos seus alunos e em todo o seu contexto sociocultural.
A seqüência das obras analisadas será apresentada nessa ordem:

Gramática Descritiva 1, de Evanildo Bechara (2006)

Gramática Normativa 2, de Rocha Lima (1972);

Gramática Didática 1, Gramática didática da Língua Portuguesa, de Hermínio
Sargentim (sem data);

Gramática Didática 2, Estudos de Gramática, Gilio Giacomozzi, Gildete
Valério, Cláudia Redá Fenga (1999);

Livro Didático 1, 5ª sério (6° ano): tudo é linguagem, de Ana Borgatto, Terezinha
Bertin, Vera Marchezi (2006);

Livro Didático 2, 5ª sério (6° ano): Novo Diálogo, de Eliana Santos Beltrão,
Tereza Gordilho (2007).
1.1 Questionamentos
1. Como o fenômeno a ser investigado é apresentado pelas gramáticas?
2. Qual é a concepção de língua e gramática?
3. Em que patamares situam-se as práticas sociais e o contexto histórico social?
4. Até que ponto os estudos lingüísticos efetivaram-se nas abordagens dos manuais
didáticos?
1.2 Objetivo
Esta pesquisa tem como objetivo relacionar, de maneira crítica e reflexiva, diferentes
tratamentos dispensados às formas de futuridade (ir + infinitivo / estar + gerúndio) em manuais
didáticos e em gramáticas, além relatar alguns estudos lingüísticos realizados no Brasil sobre
esse fenômeno no PB e refletir acerca de uma nova proposta de tratamento para esta questão a
partir de estudos sociolingüísticos.
1.3 Justificativa
Interessamo-nos em realizar este estudo, porque de acordo com nossas vivências e
contatos em escolas partimos da seguinte hipótese: os livros didáticos costumam expor textos
didatizados pregando, na maioria das vezes, regras de gramáticas, alienando discentes e docentes
de suas tarefas, apresentando erros e muitas outras... Já as gramáticas costumam apresentar
conceitos cristalizados e anacrônicos em sua abordagem lingüística.
2
Além disso, os professores, rotineiramente, não dispõem de tempo e condições favoráveis
para analisar, atualizar e preparar seu próprio material didático o que muitas vezes os
impossibilita de preparar aulas de qualidade, caracterizando, assim, o ensino de língua em algo
resultante de situações irreais de interação, ou seja, a língua geralmente é vista como um sistema
homogêneo, por conseguinte, social e historicamente descontextualizada uma vez que está
desvinculada de seus usuários reais.
2. Estudos sobre a expressão do Futuro no PB
O objetivo da Educação Básica é assegurar a todos os brasileiros a formação comum
indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhes os meios para progredir no trabalho
e em estudos posteriores (LDBEN, Art. 21 e 22).
Contudo, na maioria das vezes, as atividades de linguagem desempenhadas nas escolas
são desligadas das práticas sociais ou do contexto histórico social do aluno, assim como o estudo
da língua reduzido a meras repetições de exercícios focados para o vestibular e, geralmente,
ausentes/carentes de reflexão. Dessa forma, as atividades de ensino de língua passam a ser
desenvolvidas em sala de aula desprovidas de qualquer relação com uma situação de interação
“real” devido ao não aparato teórico lingüístico e sociolingüístico adequado por parte dos
professores e dos autores dos livros didáticos.
Existe uma imensa gama de variedades de língua, que vão desde as mais informais até as
mais formais e estereotipadas. Além disso, há, principalmente no que se refere ao
coloquial, certo grau de variação regional (a fala espontânea de um gaúcho difere da de
um cearense) e social (um operário não fala da mesma maneira que um médico). Essa
variação (regional, social e individual) é muito mais marcada no caso do coloquial do que
no do padrão. As diferentes variedades da língua são utilizadas em situações
razoavelmente bem definidas. Assim, qualquer pessoa modifica sua maneira de falar
conforme esteja discutindo no bar com os amigos, ou respondendo a uma entrevista para
obter emprego. (PERINI, 1995, p.24)
E é importante ressaltar que a partir do que observamos em vários estudos de descrição
do português do Brasil, o que presenciamos é a existência de uma lacuna entre a prática
pedagógica das escolas e o que dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). O texto de
1998 dos PCNs aborda, como notamos
A variação é constitutiva das línguas humanas, ocorrendo em todos os níveis. Ela
sempre existiu e sempre existirá, independentemente de qualquer ação normativa.
Assim, quando se fala em “Língua Portuguesa” está se falando de uma unidade que se
constitui de muitas variedades. Embora no Brasil haja relativa unidade lingüística e
apenas uma língua nacional, notam-se diferenças de pronúncia, de emprego de palavras,
de morfologia e de construções sintáticas, as quais não somente identificam os falantes
de comunidades lingüísticas em diferentes regiões, como ainda se multiplicam em uma
3
mesma comunidade de fala. Não existem, portanto, variedades fixas: em um mesmo
espaço social convivem mescladas diferentes variedades lingüísticas, geralmente
associadas a diferentes valores sociais. (PCNs de Língua Portuguesa, 1998, p. 29).
Não temos aqui, em nenhum momento, a pretensão de abdicar da norma culta. A
importância desta não se discute, mas o que precisa ser feito nas escolas é uma discussão em
torno dos diversos e possíveis usos da língua nas situações de interações em que os alunos estão
inseridos para que consigam dominar as diversas normas.
O grande perigo é transformar a gramática – uma disciplina já em si um tanto difícil –
em uma doutrina absolutista, dirigida mais ou menos exclusivamente à “correção” e
pretensas impropriedades lingüísticas dos alunos. A cada passo, o aluno que procura
escrever encontra essa arma apontada contra a sua cabeça: “Não é assim que se escreve
(ou se fala)”, “Isso não é português” e assim por diante. Daí só pode surgir aquele
complexo de inferioridade lingüístico tão comum entre nós: ninguém sabe português –
exceto, talvez, alguns poucos privilegiados, como os que se especializam em publicar
livros com listas de centenas ou milhares de “erros de português”. (PERINI, 1995, p
33)
Em relação aos estudos sociolingüísticos sobre o fenômeno estudado, pesquisas
recentes têm observado o baixo uso do Futuro do Presente (flexionada) no Português Brasileiro
(PB). Entre essas pesquisas podemos citar a de Barbosa (2007) que estudou diferentes formas de
expressar o futuro no português brasileiro em um estudo comparativo das modalidades escrita e
falada de linguagem. Nesse estudo verificou-se que os contextos formais e injuntivos favorecem
as formas sintéticas, enquanto no discurso espontâneo, não diretivo, as formas perifrásticas e o
presente futurizado são preferidos.
O corpus dessa pesquisa foi extraído do banco de dados do Laboratório de Lexicografia
da Faculdade de Ciências e Letras (Unesp de Araraquara) e compunha-se de 673 KB distribuídos
entre textos das seguintes modalidades de literatura: oratória, romanesca e dramática (novelas),
escritos a partir da década de 90. Considerou-se que a literatura oratória representaria o grau
máximo de formalidade, a romanesca, o grau neutro e a dramática, a linguagem mais espontânea,
que se aproxima da fala.
O corpus correspondente à literatura oratória constituiu-se dos seguintes discursos: 1)
Discurso de posse do presidente Collor (1990); 2) Discurso de posse do presidente Fernando
Henrique Cardoso (1995); 3) Discurso de abertura do Fórum Nacional sobre a reforma fiscal do
senador Mauro Benevides (1991); 4) Pronunciamento do ex-ministro das Relações Exteriores
Celso Lafer: AInserção Internacional do Brasil (1993); 5) Pronunciamento de Pedro Simon no
Senado (1993); 6) Discurso do senador Pedro Simon dedicado a Ulisses Guimarães; 7) Discurso
de posse do senador Gilberto Miranda no Senado (1990); 8) Carta-discurso do senador Mauro
Benevides em homenagem a Darcy Ribeiro (1993); 9) Carta-discurso de posse de Darcy Ribeiro
na Academia Brasileira de Letras (1993).
4
Por fim, a autora concluiu que, na oratória, utiliza-se o futuro sintético para conferir ao
discurso um tom de solenidade, ou até mesmo de majestade, sinalizando o teor diretivo e
formulaico desse tipo de texto.
No entanto, o mesmo não ocorre na língua falada como mostram os estudos de Silva
(2002) que estudou as formas de futuridade com dados do português falado em um corpus obtido
em aproximadamente seis horas e meia de gravações telefônicas. Essas gravações não tiveram
preocupação com quantidade ou com a distribuição em grupos etários, sexo, origem e
escolaridade já que sua análise foi qualitativa. Sendo assim, seu corpus consta de onze
conversações telefônicas, realizadas sem que os participantes soubessem da gravação, cinco
entrevistas com diálogo entre informantes e documentador, três elocuções formais, um diálogo
interativo entre duas donas-de-casa e uma interação entre vários falantes. Com esse corpus o
autor se viu diante de uma escassez da forma sintética de futuridade, ou seja, /-re/~/-ra/ e decidiu
rastrear essas formas em jornais televisivos e no programa de rádio Voz do Brasil.
Com esse estudo o autor constatou que a forma perifrástica ir + infinitivo é a mais
utilizada para se falar de coisas futuras, nos dados do seu corpus. Silva (2002) menciona que
nesse estruturação parece haver elementos semânticos que dão idéia de futuridade, além do
movimento implícito de ir (pôr-se na direção de, deslocar-se), que sugere posteridade. Além
disso, o autor comenta que o infinitivo possui marca aspectual de prospecção oriunda da
neutralização da oposição existente entre gerúndio e particípio. Como por exemplo em:
Então dá pra aproveitar ir lá levar seu irmão e dar uma olhadinha ali. (SANTOS 2002,
p.97-98)3
Para ele, tais componentes semânticos parecem contribuir para a expressão de
futuridade da perífrase, no entanto, seria na interação, no contexto, que ela se realiza plenamente.
O autor conclui o estudo afirmando que os textos analisados revelam que a combinação
de vários fatores lingüísticos é responsável pela expressão de futuridade no português falado e
que, apesar das marcas, o futuro é tempo verbal, cuja força e produtividade estão nas diversas
formas de que a língua portuguesa se utiliza para expressá-lo.
Além disso, o estudo desse autor revela que as formas futurizadas (perifrástica ir +
infinitivo e presente futuro) são as mais freqüentes, o que revela a supremacia de ir + infinitivo
como marcador de futuridade e um padrão evolutivo que se repete desde o latim4.
Outra conclusão do autor é que o traço marcante da forma perifrástica está na noção
aspectual de relevância do presente, cujo relacionamento com esse momento independe da
3
De acordo com o autor, as formas sublinhadas evidenciam a marca prospectiva orientada para o futuro do
infinitivo.
4
Para o autor, “o futuro sintético segue em sincronia com uma formação analítica de origem aspectual ou modal
durante um longo período, antes de a forma analítica se aglutinar e passar a assumir a função temporal de sua forma
sintética copresente” (SILVA, 2002, p.151).
5
distância ou da proximidade de realização de um determinado evento ou ação futura expressos
por ela. Nas palavras do autor
A relação de tal posteridade com o presente é de natureza mais
psicológica que cronológica, expressando a visão subjetiva do falante no
momento da fala. A sua perspectiva pode até mudar, mas o evento em si,
ocorrendo ou não, permanece fixo no tempo.
Ir + infinitivo e o presente do indicativo têm a mesma função. A escolha
de uma forma ou de outra indica que ações futuras dependem de fatores
presentes (relevância do presente), tidos, muitas vezes, como certos e
avaliativos no momento de fala, o que tem muito a ver com situação
discursiva. (SILVA, 2002, p. 151-152)
Por fim, o autor comenta que apesar de seu declínio na fala informal do português
brasileiro da forma /-re/ ~/-ra/, ela ainda ocorre em alguns contextos mais formais como marca
de status. Além disso, essa forma seria marca de monitoração, decorrente do discurso oficial, ou
seja, enquanto o futuro do presente ocorre em estruturas formulaicas em alguns contextos de fala
espontânea e de fala oficial formal, as formas futurizadas são irrestritamente mais usadas na fala
informal espontânea, na qual a monitoração é zero.
Os resultados do estudo levaram à conclusão de que o contexto de ocorrência das
formas sintéticas se caracteriza pela formalidade e injunção. Os textos injuntivos, como se sabe,
visam à prescrição de comportamentos. A atitude do falante é do querer, desejar, determinar.
Entre as marcas lingüísticas estão modos e tempos verbais específicos, uso de vocativos e verbos
performativos. A partir disso, Silva afirma que a forma sintética de futuro é formulaica. Rompe
com o presente, apresentando-se como psicologicamente neutra, distante e imparcial.
Longo (1998) estudou as perífrases temporais ocorrentes no corpus mínimo do Projeto
NURC (São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador), com o intuito de investigar os seus valores
semânticos, o grau de gramaticalização que atingem, algumas semelhanças e diferenças em
relação aos auxiliares utilizados na modalidade escrita da linguagem, e uma possível correlação
entre o uso de tais auxiliares e o tipo de texto em que ocorrem.
A autora verificou que as perífrases temporais se reduzem de sete, na língua escrita, a
três na modalidade falada - ir + gerúndio, ter + particípio e haver + particípio, tendo ainda sido
registrado um caso de estar + gerúndio com valor de futuro. O tempo mais produtivo,
encontrado por ela, foi o Futuro do Presente, seguido pelo Perfeito Composto e pelo Mais Que
Perfeito.
De acordo com Nunes (2007), todas as perífrases estão sofrendo o processo de
gramaticalização, com ter e haver em estágio mais avançado do que ir. Para a autora, as
evidências que comprovam esse avanço e que, em maior ou menor grau, puderam ser observadas
nas perífrases estudadas são: a redução da variedade de perífrases; a ampliação das
6
possibilidades combinatórias; a recursividade (ter); o esvaziamento semântico; a aquisição de
valores modais derivados do futuro(ir); fixação da ordem; e decategorização sintática.
Gibbon (2000) faz um controle estatístico de três formas verbais de representação do
tempo futuro: presente do indicativo (como em Viajo amanhã para o Rio), futuro do presente
(como em Viajarei amanhã para o Rio) e forma perifrástica (como em Vou viajar amanhã para
o Rio). O corpus analisado é de textos acadêmicos escritos, do gênero teses e dissertações, de
diferentes áreas, pois nesse tipo de texto imagina-se que seja comum a presença de contextos que
propiciam a expressão do futuro na introdução do trabalho e nos parágrafos iniciais de cada
seção, nos quais o usuário da língua flutua entre as três variantes citadas acima. A autora usou o
respaldo da Teoria Variacionista e o Funcionalismo Lingüístico e a metodologia Sociolingüística
Variacionista Quantitativa.
Os resultados da autora atestaram que a representação do tempo futuro sofre influência
de motivações de natureza diversa: semânticas (como, por exemplo, tipo semântico do verbo
principal); discursivas (como pessoa do discurso) e formais (como paralelismo formal). Além
disso, revela-se que o fator social idade atua sobre o fenômeno, apontando para uma possível
mudança em progresso.
Com esse estudo, a autora constatou que a forma futuro do presente está em visível
declínio na língua falada de Florianópolis e que uma forma inovadora, a forma perifrástica,
constituída do verbo auxiliar ir no presente do indicativo + verbo principal no infinitivo, está
tomando seu lugar. Para a autora, essa nova forma assume um papel responsável pela
modalidade e pelo aspecto, permitindo com isso que a forma do presente do indicativo atue mais
na codificação do tempo futuro propriamente dito. Além disso, a autora menciona que a forma
inovadora (forma perifrástica) é condicionada por fatores formais, semântico-discursivos e pela
variável extralingüística idade e, dentre os fatores formais, o paralelismo formal mostrou-se
relevante comprovando que marcas levam a marcas.
Tafner (2004) faz um levantamento de sete formas verbais alternantes para a expressão da
futuridade, a partir de dados das sessões plenárias dos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo,
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que são
1) Futuro sintético: “Porque se trata do projeto mais importante que esta
Casa votará até o final do ano. (PR – 104ord02)”
2) Ir (presente) + verbo principal (infinitivo) – vou –R: “Portanto, o justo,
o correto seria a mobilização da própria reitoria da Udesc e de todos os
que estão participando do movimento para levar a Udesc para o Oeste do
Estado terem Rev. Brasileira de Lingüística Aplicada, v. 7, n. 1, 2007 55
uma conversa muito franca com o Governador eleito, para saber se ele vai
cumprir aquilo que o atual Governador pretende fazer ou deixar para o
outro. (SC – 89ord02)”.
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3) Ir (futuro) + verbo principal (infinitivo) – irei – R:1 “O secretário de
obras irá entregar o relatório esta semana. (PR – 104ord02)”.
4) Estar (futuro) + verbo principal (gerúndio) – estarei – NDO: “[...] na
próxima semana, estarei indo para Brasília, porque são inúmeros os
problemas que o Paraná enfrenta. (PR 101ord02)”.
5) Ir (presente) + estar (infinitivo) + verbo principal (gerúndio) – vou
estar – NDO: “Se votarmos o relatório, vamos estar aprovando 21
secretarias. ( SC – 07ex03)”.
6) Estar (presente) + verbo principal (gerúndio) – estou – NDO: “[...]
gostaria que V. Exa. E o deputado C. assinassem comigo a Comissão de
Segurança: estou encaminhando ao secretário J. T., em 48 horas. (PR –
103ord 02)”.
7) Presente – presente: “Amanhã, a Comissão de Finanças deve apreciar
o Orçamento de 2003. (SC 92ord02)”. (TAFNER, 2004, p. 50)
A autora encontrou nas sessões plenárias pesquisadas 688 dados que expressam
futuridade. A hipótese do estudo era que, dentre as sete formas variantes houvesse uma relativa
predominância do FS já que os parlamentares, em função do caráter público das sessões,
possuem uma certa preocupação com a norma culta, uma vez que sabem que sua fala está sendo
acompanhada tanto por uma platéia atenta e bastante crítica quanto pela consciência de que essa
fala ficará registrada nos anais da Casa ou ainda que está sendo acompanhada via rádio e TV.
Esses fatos contribuíram para que os dados tivessem um caráter relativamente formal.
Os dados de Tafner (2004) coincidem, de certa forma, com os resultados encontrados por
Santos (1997, in TAFNER 2004) e Santos (2000, in TAFNER 2004) que lidaram com dados
portadores de algum traço de formalidade, e assim foi possível fazer a seguinte correlação: “nas
situações de maior formalidade, como nas sessões do Diário, temos o futuro simples e, nas de
menor formalidade, como na revista, temos a perífrase, aqui correspondente a nossa variante vou
– R” (TAFNER, 2004, p. 57). A segunda autora trabalhou com duas amostras, uma de natureza
informal e outra de natureza formal. Nesta última, Santos (2000) encontrou uma distribuição
bastante interessante: 30% de uso do futuro simples equiparado aos 30% de uso da forma
perifrástica. Porém ambos são superados pelo uso do presente com sentido de futuro (saio), 40%.
Com relação à presença das locuções estar – NDO, mostra que, mesmo em pequena escala, essas
formas estão em variação com o FS e com vou – R, e, em determinados contextos, com a forma
verbal de presente, para expressão da futuridade, conforme afirma Henriques (2000, in TAFNER
2004, p 58) “à tradicional substituição de ‘enviaremos’ por ‘vamos enviar’, acrescentam-se hoje
as formas ‘estaremos enviando’ ou ‘vamos estar enviando’, o que representa duas variantes de
idéias em processo, sem contudo a carga semântica de futuro imediato”. Responde-se, assim, a
uma das questões centrais do trabalho de Tafner (2004).
O número reduzido de ocorrências com estar –NDO não era o esperado pela autora, mas
a permitiu observar, de certa forma, qual é o comportamento desse grupo de variantes em
contraste às demais formas de futuro estudadas por ela já que a maioria dos trabalhos sobre o
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tempo verbal futuro do presente nada ou quase nada dizem com relação ao comportamento das
variantes estar – NDO para expressão do futuro.
A autora percebeu também que, no Rio Grande do Sul, principalmente, e no Rio de
Janeiro os parlamentares, para a expressão da futuridade, ainda tendem a empregar com maior
freqüência a variante canônica. Já São Paulo é o local onde o futuro do presente disputa a
expressão da futuridade de forma mais acirrada com as demais variantes. Enquanto os
parlamentares paranaenses e catarinenses, inclinam-se a não empregar a forma verbal canônica
durante suas sessões.
Tafner (2007) pesquisou como os manuais de português para estrangeiros tratam a
expressão da futuridade e examinou quais são as formas verbais apresentados por eles para a
expressão da futuridade.
A autora constatou que os manuais de ensino de português para estrangeiros analisados
por ela referem-se ao estudo do tempo verbal futuro do presente, empregando apenas o futuro
sintético e vou –R, não atentando para as demais formas possíveis e em uso de futuridade. Além
disso, a autora constatou que a descrição sobre o funcionamento dessas formas, quando
comentada, é bastante superficial. Para ela, o confronto entre o conteúdo dos manuais e a
exposição feita por Tafner (2004) mostra como esses manuais precisam ser enriquecidos. Das
sete formas comentadas pela autora, os manuais citam apenas duas, oferecendo pouca ou
nenhuma informação adicional.
No entanto, a autora comenta que o aluno precisa ter contato com o maior número
possível de variedades lingüísticas a fim de poder se expressar da melhor forma possível
conforme a situação. Além disso, a inclusão de informações de natureza sociofuncionalista,
como aquelas encontradas no seu estudo anterior (TAFNER, 2004), poderia contribuir tanto para
o ensino das formas já citadas pelos materiais quanto para a inclusão de outras como irei –R, o
presente como futuro e, principalmente, as locuções estar – NDO, pois não só os manuais para o
ensino de português para estrangeiros como também os livros didáticos raramente citam as
locuções estar – NDO como possibilidade de uso.
Silva (2003) estuda as perífrases verbais a partir de um corpus dividido em duas partes: a
primeira é composta de dois livros de literatura cujo público alvo são adolescentes e a segunda,
de 117 textos de estudantes do segundo ano do Ensino Médio, submetidos à produção da questão
23 da prova de redação do vestibular da UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ/ 2003. Ela
iniciou esse estudo baseada na hipótese de que as perífrases verbais, tidas pela GT (CUNHA
(1984)) como de uso quase que exclusivo da língua falada, estão, atualmente, tendo um uso
muito grande também nos textos escritos, onde imperava, ainda segundo a GT, a forma sintética.
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Porém, a hipótese da autora não foi confirmada pelos dados de língua escrita (textos
produzidos por alunos do 2o ano do ensino médio), pois nesse corpus, a forma sintética de
expressar o futuro mostrou-se muito produtiva, sendo que a forma perifrástica, especialmente a
IR + INFINITIVO, apareceu apenas cinco vezes nestas produções. Destas cinco, quatro foram
produzidas por informantes do sexo feminino. Já o estudo das expressões de futuro dos dois
livros selecionados para análise revelou que a forma perifrástica IR + INFINITIVO é muito
produtiva nestas obras, o que dá uma idéia do que está ocorrendo com a expressão do futuro no
PB.
Assim sendo, procuramos relacionar, de maneira crítica e reflexiva, diferentes
tratamentos dispensados às formas de futuridade (ir + infinitivo / estar + gerúndio) em manuais
didáticos e em gramáticas escolares, além de discutir pesquisas sociolingüísticas capazes de
descrever os fenômenos a serem investigados e refletir acerca de uma nova proposta de
tratamento para esta questão.
A professora democrática, coerente, competente, que testemunha seu gesto de vida, sua
esperança no mundo melhor, que atesta sua capacidade de luta, seu respeito às
diferenças, sabe cada vez mais o valor que tem para a modificação da realidade, a
maneira consistente com que vive sua presença no mundo, de que sua experiência na
escola é apenas um momento, mas um momento importante que precisa ser
autenticamente vivido (FREIRE, 1996, p. 127).
3. Confrontando com a realidade...
Nas gramáticas consultadas aleatoriamente a questão da forma de futuridade é mantida,
via de regra, como uma visão tradicionalista e rígida.
Entre os dois gramáticos consultados para este estudo, Evanildo Bechara (2006) é o que
mais assume uma posição teórica diferenciada enquadrando a posição do falante em relação com
a ação verbal. Para o autor o falante pode ter a ação verbal como “paralela” a si mesmo, antes
deste ponto ou depois dele. Por esse motivo, ela pode ser paralela, retrospectiva ou prospectiva,
conforme os espaços de tempo. Por exemplo: futuro prospectiva atual – farei; futuro prospectiva
inatual – faria. E, Bechara fala ainda, sobre visão que nas palavras dele é a categoria segundo a
qual o falante pode considerar a ação verbal em seu todo ou parcialmente, em fragmentos, entre
dois pontos de seu curso (2006, p. 219 ). Ou seja, as discussões apontadas pelo autor dão indícios
de que há certa preocupação em situar o leitor quanto ao contexto em que uma ou outra forma é
mais utilizada. Um indicativo de que os materiais didáticos e as gramáticas precisam e podem
complementar a descrição das formas que estão apresentando. O autor também concebe o verbo
“ir” como auxiliar de futuro + outro auxiliar (fazer, ter, haver, estar) no infinitivo: vou fazer, fui
fazer e irei fazer. No entanto, não trata a respeito da construção verbo “ir” como auxiliar de
futuro + estar no infinitivo + verbo + -ndo: vou estar enviando, vou estar falando, vou estar
10
resolvendo, sendo que esta estrutura vem ocorrendo freqüentemente na fala vernacular de alguns
falantes do PB. Além disso, Bechara não comenta também sobre a estrutura verbo “ir” como
auxiliar de futuro + ir no infinitivo: vou ir no Shopping. Esta estrutura, às vezes, é considerada
redundante por alguns falantes do PB, se partirmos do sentido primitivo do verbo ir – significaria
ir duas vezes – mas já é usada por muitos falantes do português. Porém, outras sentenças como
vou estar e vou ficar não recebem qualquer avaliação negativa, ainda que tenhamos um suposto
verbo de movimento ir ligado aos verbos estar e ficar (verbos considerados de não-movimento
ou permanência).
No que diz respeito aos verbos auxiliares Rocha Lima (1972, p. 118) afirma que a fim
de melhor se expressarem certos aspectos especiais não traduzíveis pelas formas simples já
estudadas, possuem os verbos alguns tempos compostos, nos quais uma das formas nominais
(infinitivo, particípio ou gerúndio) é acompanhado de outro verbo, chamado AUXILIAR. De
acordo com o autor, os auxiliares em português são numerosos: querer (quero sair), estar (estou
escrevendo), ficar (fiquei a contemplá-la), ir (a tarde ia morrendo), etc... Entretanto, ele não
concebe o verbo –ir como um auxiliar do modo como estamos acostumados a empregá-lo no
dia-a-dia, exemplo: vou dançar amanhã na escola; cada aluno vai trazer um quilo de açúcar
para a comemoração; quieto, ele vai chamar a professora!5
Segundo Lima (1972) a conjugação dos verbos auxiliares que formam o tempo
composto indicando tempo futuro dá-se da seguinte maneira:
Conjugação dos verbos auxiliares fundamentais que formam tempos compostos (ter e
haver) e a voz passiva (ser):
Futuro do presente do indicativo (ibidem, P. 119):
Ex: terei
haverei
serei
Verbos na voz passiva: organiza-se a voz passiva com o verbo auxiliar ser, conjugado
em todas as suas formas, seguido do particípio do verbo que se quer apassivar (ibidem,
P. 123).
Futuro composto do presente ((ibidem, P. 125):
Ex: Terei ou haverei sido louvado
Tereis ou havereis sido louvados...
Verbos na voz reflexiva (ibidem, P. 128): na voz reflexiva, os verbos se conjugam
como na ativa, acompanhados dos pronomes oblíquos de cada pessoa.
Ex: com os pronomes oblíquos antepostos às formas verbais ajoelhar-se.
Futuro simples do presente: eu me ajoelharei.
Futuro composto do presente: eu me terei ou haverei ajoelhado.
Ex: com os pronomes oblíquos pospostos às formas verbais ajoelhar-se.
Futuro simples do presente: ajoelhai-me-ei.
Futuro composto do presente: ter-me-ei ou haver-me-ei ajoelhado.
Diante disso, entendemos que muitos autores de manuais didáticos e gramáticas não
concebem o verbo “ir” como auxiliar de futuro, nem tampouco o mesmo verbo + outro auxiliar
no infinitivo (fazer, ter, haver, estar), no entanto, esta construção ocorre comumente na fala
5
Exemplos nossos.
11
vernacular da maioria dos falantes do PB. Destarte, Lima ainda não segue a mesma linha de
discussão de Silva (1997), Longo (1998), Gibbon (2000), Tafner (2004), Barbosa (2007) e Nunes
(2007), cultivando uma visão tradicionalista e gramatiqueira e apresentando ainda a estrutura de
mesóclise sem fazer nenhuma reflexão quanto ao uso desta.
Hermínio Sargentim (sem data, p.153) em sua Gramática da Língua Portuguesa para o
1º e 2º graus, traz o futuro do presente e o futuro do pretérito ao exibir os tempos do modo
indicativo, mostrando a conjugação dos verbos cantar, vender e partir apenas na forma sintética.
Além disso, os exercícios sugeridos nesse material didático podem ocasionar algum tipo de
dificuldade, à medida que algumas atividades solicitam ao discente que “conjugue em todas as
pessoas, os verbos gritar, bater e discutir nos seguintes tempos: 1) futuro do presente; 2) futuro
do pretérito”. Contudo, não faz nenhum comentário sobre o possível uso do futuro perifrástico
(vou + -r) vou gritar, vou bater, vou discutir. Nem tampouco faz referência ao novo paradigma
pronominal brasileiro, ou seja, menciona somente as pessoas do discurso: eu, tu, ele/a, nós, vós,
eles/as.
Sargentim (sem data, p. 150) observa ainda, que verbo auxiliar é aquele que se junta a
uma das formas nominais de um outro verbo, acrescentando-lhe novas informações. O verbo
auxiliar forma com verbo principal uma unidade de sentido denominada locução verbal. Como
exemplo cita: O dia vem surgindo – locução verbal.
Para o autor, na locução verbal, o verbo principal dá-se em uma das formas nominais
(infinitivo, gerúndio e particípio), e o verbo auxiliar recebe as flexões de tempo, modo, pessoa e
número. Em relação aos verbos auxiliares na língua portuguesa, Sargentim (ibidem, p. 151)
elenca:
1) Ter e haver – servem para formar os tempos compostos: Ela tinha chegado. Ela
havia chegado.
2) Ser, estar, ficar – servem para formar voz passiva: A cidade foi invadida por
turistas. As plantações ficaram cobertas pelas águas.
3) Verbos que indicam o momento da ação verbal:
a) começo da ação (começar, pôr-se a)
Ela começou a falar.
b) desenvolvimento da ação (estar a, andar, vir, ir...):
Ela está falando.
c) término da ação (acabar de, cessar de, deixar de, parar de...):
Ela acabou de falar.
Assim sendo, o autor, tendo demonstrado o conceito de locuções verbais, poderia usálo apresentando a riqueza de formas verbais presentes no PB que operam na função de expressão
de futuridade, permitindo ao discente dar início a um contato com formas alternantes para uma
mesma função e identificar um fenômeno em variação, pois não notamos o verbo ir na
classificação de verbo auxiliar, por exemplo. E quanto ao gerúndio, sua explanação é concisa.
12
Segundo o autor, forma-se o gerúndio pela troca da terminação r do infinitivo impessoal pela
terminação ndo (ibidem, p.155), de acordo com a tabela6 a seguir:
Conjugação
1ª
2ª
3ª
Infinitivo Impessoal
cantar
vender
partir
Gerúndio
cantando
vendendo
partindo
Deste modo, esta gramática didática possui uma visão bastante tradicional, opondo-se
veementemente aos estudos sociolingüísticos Silva (2002), Longo (1998), Gibbon (2000), Silva
(2003), Tafner (2004, 2007), Barbosa (2007) e Nunes (2007) quanto ao estudo do tempo verbal
futuro do presente, empregando apenas o futuro sintético, não atentando para as outras formas
possíveis e em uso de futuridade. Além do mais, o autor não menciona em momento algum a
função dos verbos auxiliares nem a função do gerúndio e tampouco aponta as construções
corriqueiras da fala do século XXI, como: vou estar viajando e vou ir pra casa.
Gilio Giacomozzi, Gildete Valério & Cláudia Redá Fenga (1999), na obra Estudos de
Gramática (volume único de ensino fundamental) trazem uma longa discussão sobre verbos e
abordam a forma sintética de futuro para o futuro do presente, porém o tratamento dado a essas
formas não excede a realização de exercícios de repetição oral de estruturas ou exercícios
escritos. Em relação à forma vou (do verbo –ir como auxiliar) os autores a trazem como flexão
de tempo presente para indicar futuro na linguagem coloquial, no entanto, não trazem o futuro
perifrástico ir + verbo. Eles fazem a divisão dos estudos de verbos em: VERBO I: estrutura do
verbo, flexão verbal, formas nominais, vozes verbais, conjugação verbal, verbo regular, tempos
primitivos e derivados, exercícios. VERBO II: verbo irregular, exercícios. VERBO III: locução
verbal e tempo composto, verbo auxiliar ser, estar, ter, haver, verbo abundante, verbo defectivo,
verbo anômalo, exercícios. Para melhor exemplificar as proposições acima, vejamos os
exemplos fornecidos pelos autores:
Flexão de tempo presente:
Para indicar futuro, na linguagem coloquial.
Amanhã eu vou (irei) ao clube.
Em geral, para indicar o presente, usa-se uma locução verbal.
Estou rindo... estou correndo... estou cantando...
Flexão de tempo Futuro:
O futuro apresenta duas subdivisões. Veja.
Eu apontarei o lápis (futuro do presente)
A ação é posterior ao momento da fala, isto é, será realizada após o momento presente.
O aluno falou ao professor que apontaria o lápis (futuro do pretérito)
A ação de apontar é posterior a uma ação já acontecida no passado (falou). (1999, P.
188-189)
6
Tabela retirada de Gramática didática da Língua Portuguesa, de Hermínio Sargentim. (p. 155)
13
Como se trata de um volume único para o Ensino Fundamental, todas as seções sobre
“verbos” estavam incansavelmente presentes. Os autores apresentam uma cópia fiel de
gramáticas normativas para a realização de um trabalho com verbos no ensino fundamental,
porém diferentemente de outras gramáticas didáticas já consideram, de certa forma, o uso da
forma auxiliar vou (vou a Florianópolis) sem mencionar outros exemplos com a estrutura
perifrástica (vou cantar em Florianópolis). Giacomozzi, Valéria & Fenga não proporcionam
nenhuma reflexão sobre o uso real da língua, e mesmo citando um exemplo de linguagem
“coloquial”, este é descontextualizado e não leva em conta a variação lingüística do PB e a
diversidade lingüística que seguramente medeia as relações de interação em uma sala de aula.
Ana Borgatto, Terezinha Bertin & Vera Marchezi (2006) na obra tudo é linguagem,
destinada ao 6º ano do ensino fundamental (antiga 5ª série) não versam sobre o futuro do
presente na seção de verbos, mostrando somente a distribuição da conjugação verbal em ar, er,
ir, levando em conta apenas os modos Imperativos: negativo e afirmativo. Na unidade
suplementar, cujo título é: Competência Comunicativa – o uso da gramática natural e da
gramática normativa (2006, p. 227), as autoras citam apenas o quadro (completo) tradicional de
conjugação verbal, inclusive apresentando a forma sintética do futuro do presente, sem fazer
nenhuma reflexão. Elas surpreendem, pois abordam “verbos” de forma tradicional, ignorando
uma reflexão sobre o uso real das formas verbais no PB e a diversidade lingüística que, com
certeza, está dentro da sala de aula. Além disso, este livro apresenta o famoso quadro de
conjugação tradicional dos verbos, o que ocorre na maioria dos livros durante todos os anos do
Ensino Fundamental, visando a famosa “decoreba” por parte dos alunos.
Eliana Santos Beltrão & Tereza Gordilho (2007. p. 332) no manual Novo Diálogo
voltado para o público de 5ª série (6ºano) inferem que o Futuro indica que a ocorrência de um
fato será posterior ao momento da fala e que o futuro do presente indica um fato que
certamente irá acontecer. Ex: Quem for a Cachoeira, conhecerá uma linda cidade. E, ainda,
apresentam a forma sintética do futuro do presente e pretérito nas três conjugações eu mudarei,
eu crescerei, eu subirei; eu ensinaria, eu correria, eu cairia (ibidem, p. 333).
Todavia, as autoras (ibidem, p. 333) explicam que:
Na linguagem do dia-a-dia, em situações informais de comunicação, o futuro do presente
e o pretérito-mais-que-perfeito são pouco usados pelo falante, que preferem empregar
construções como as seguintes:
- Amanhã eu vou viajar (em lugar de viajarei) para a região do Recôncavo Baiano.
- Uma equipe de pesquisadores vai estudar (em lugar de estudará) as várias
manifestações culturais existentes no país.
- Quando o turista chegou em7 Cachoeira, a manifestação já tinha acontecido (em lugar
de acontecera).
7
(Grifo nosso) Sobre essa construção O turista chegou em Cachoeira as autoras, possivelmente, nem se deram
conta de que usaram a preposição –em no lugar da preposição –a.
14
Também é freqüente, no português falado, o uso do pretérito imperfeito do indicativo, em
vez do futuro do pretérito. Veja:
- Se os jovens pudessem, ficavam (em lugar de ficariam) na região por mais tempo.
Esse uso é permitido nas situações informais de comunicação. Nas situações formais, em
que o uso do padrão culto é solicitado, deve-se empregar o futuro do pretérito do
indicativo.
Comparando este livro com os demais analisados, percebemos que há certa reflexão
lingüística no que diz respeito às formas verbais mais usadas na língua falada, e não uma visão
puramente tradicional de gramática normativa. Aliás, as autoras (ibidem, p. 334) informam que
no dia-a-dia, a forma verbal tu, de 2ª pessoa, é empregada tanto oralmente quanto por escrito,
pelos usuários da língua de algumas regiões brasileiras, especialmente a Norte e a Sul. Nas
demais essa forma é substituída pelo pronome de tratamento você. Uma abordagem breve, mas
que dificilmente é citada em manuais didáticos e/ou gramáticas normativas. Nesse livro didático,
excepcionalmente, notamos alguma preocupação por parte das autoras em deixar os alunos
situados em relação ao contexto em que determinadas formas são mais habituais. Ainda não é o
satisfatório, entretanto já é um fator positivo e motivador. No entanto, as autoras não dão
exemplos da nova construção vou estar indo e nem de vou ir fazer, conforme as contribuições:
* descrição de uma análise sociofuncionalista do tempo futuro, utilizando dados de
fala, através do controle de grupos de fatores lingüísticos e extralingüísticos;
* proposta para explicar o fenômeno da variação entre o FS, vou –R, o presente e as
locuções estar – NDO ;
* reflexão sobre a possibilidade de se considerar as locuções estar – NDO como formas
regulares na língua portuguesa para expressão tempo verbal futuro do presente.
(TAFNER, 2004 apud TAFNER, 2007, p. 62)
Contudo, para a 5ª série (6º ano) do Ensino Fundamental, talvez seja coerente omitir o
gerúndio das aulas sobre verbos, pois os alunos ainda terão três anos pela frente.
No entanto, constatamos que nenhum dos materiais didáticos pesquisados faz menção
quanto ao uso do verbo ir, quando este é empregado no futuro, dispensando o infinitivo
(apresentando as mesmas formas no presente e no futuro). Como em Eu vou à escola com minha
mãe (presente); Eu vou à escola com minha mão na próxima terça-feira. (futuro)
As discussões sobre o futuro giram, na maioria dos materiais pesquisados, apenas em
torno do futuro sintético que versa sobre o verbo conjugado na forma do futuro do presente:
Maria sairá às 18 horas da escola amanhã.
Sem considerar outras formas de expressão
corriqueiras na fala e escrita do PB e sem informar ao aluno (ou ao leitor) os fatores que
colaboram para o uso de uma ou outra forma. Como em: Maria vai sair às 18 horas da escola
amanhã. O que vai contra os resultados das pesquisas sociolingüísticas mencionadas
anteriormente, pois essas apontam a predominância do uso do futuro perifrástico em detrimento
do futuro sintético.
15
Essa ausência de explanação a respeito de outras possíveis formas lingüísticas para
indicar o tempo verbal futuro do presente pode perturbar o discente na sala de aula quando tiver
que responder a um exercício elaborado pelo professor ou manual didático e quando tiver que
empregar a forma de futuridade na fala em contextos diversos. Pois para representar o tempo
verbal futuro do presente temos, atualmente, no PB a forma sintética (a) farei; e as formas
perifrásticas (b) irei (vou) + r; (c) vamos estar + ndo; (d) estaremos + ndo; (e) vou + ir (lá) ou
ainda, (f) vou + ir + r. Como seguem os exemplos criados pelas autoras8:
a) Farei bagunça na escola hoje.
b) Irei fazer bagunça na escola hoje ou
Vou fazer bagunça na escola hoje.
c) Vamos estar fazendo bagunça na escola hoje.
d) Estaremos fazendo bagunça na escola hoje.
e) Vou ir lá na escola para bagunçar hoje.
f) Vou ir bagunçar na escola hoje.
No que diz respeito à estrutura (c) vamos estar fazendo (...) em que o uso do gerúndio
está vigor, esta é muito comentada e até mesmo ridicularizada entre os falantes do PB. Designouse entre a maioria dos falantes como a linguagem do telemarketing. Tanto que, na revista
eletrônica Língua Portuguesa o editor Luiz Costa Pereira Jr. versa sobre o gerúndio comentando
que ele
chegou furtivo, espalhou-se feito gripe e virou uma compulsão nacional. Em menos de
uma década, o gerundismo cavou pelas bordas seu lugar sob os holofotes do país. É o
Paulo Coelho da linguagem cotidiana. Nas filas de banco, em reuniões de empresas, ao
telefone, nas conversas formais, em e-mails e até nas salas de aula, há sempre alguém
que "vai estar passando" o nosso recado, "vai estar analisando" nosso pedido ou "vai
poder estar procurando" a chave do carro. É fenômeno democrático, sem distinção de
classe, profissão, sexo ou idade. O gerundismo já foi alvo de tantos e calorosos
debates, que mesmo a polêmica em torno dele pode estar virando uma espécie de
esporte de horas vagas, quase uma comichão a que poucos parecem indiferentes.
Embora não haja explicação única para a origem do fenômeno, sua popularidade
chama a atenção não só de especialistas da língua, mas de empresários e ouvidos
sensíveis a saraivadas repetidas do mesmo vício. (PEREIRA JR. 20089.
http://64.233.169.104/search?q=cache:PczqCmiosKYJ:revistalingua.uol.com.br/textos.
asp%3Fcodigo%3D10887+vamos+estar+fazendo&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br)
8
Ver mais sobre os tipos de expressões de futuridade em Tafner (2004).
Essas referências foram tiradas da Revista Língua Portuguesa apresentada no site referido acima, no entanto, a
mesma não contém ano de edição, portanto, consideramos as informações como atuais e deixamos o ano vigente
como referência.
9
16
A popularidade do gerúndio chama tanto a atenção que em 28 de setembro de 2007 ele
foi demitido de todos os órgãos do Distrito Federal por meio do Decreto nº 28.314/07 a fim de
acabar com a típica burocracia dos governos, na declaração do governador José Roberto Arruda.
Em relação a esse uso repetitivo do gerúndio, Pereira Jr diz que ele tem um nome
próprio: endorréia. Acrescenta o editor que esta palavra é parente da diarréia, para alegria dos
humoristas. Mas a vítima do gerundismo não é o gerúndio isolado, in natura, é a estrutura "vou
estar + gerúndio", uma perífrase (locução com duas ou três palavras).
A locução vou estar + gerúndio conforme Pereira Jr. é legítima quando expressa a idéia
de uma ação que acontece no momento de outra. Para ele, a sentença vou estar dormindo na
hora da novela é adequada ao sistema da língua, bem como quando temos verbos que indiquem
ação ou processo duradouros e contínuos como em amanhã vai estar chovendo ou amanhã vou
estar trabalhando o dia todo.
Na explicação do lingüista Sírio Possenti (2008) há um paradoxo semântico porque se
dá a impressão de que a ação prometida é duradoura. Ao adotar o gerúndio numa construção
que não o pedia, a pessoa finge indicar uma ação futura com precisão, quando na verdade não o
faz. Para a professora Maria Helena de Moura Neves10 (2008), o gerundismo faz a informação
pontual (em que o foco está na ação) ser modificada em uma situação em curso (durativa). O
aspecto pontual é aquele em que um fenômeno é flagrado independentemente da passagem de
tempo - o verbo se refere só à ação. São pontuais, por exemplo, expressões como "vou fazer" ou
o futuro do presente, "farei".
De acordo com Neves, é possível obter um efeito pragmático na locução do gerúndio
de atenuar o compromisso com a palavra dada, porque os mecanismos lingüísticos são acionados
pela intenção.
- Quando digo "vou passar seu recado", a referência é a ação em si. Não me atenho à
sua duração. Com isso, amarro um compromisso. A ação é indicada ali, pura e
simplesmente. Garanto que ela se cumprirá. Ao usar o gerúndio, deixo de me referir
puramente à ação e incorpora-se o aspecto verbal durativo. A ênfase passa a ser outra.
Você comunica que até encontrará tempo para fazer a ação, mas seu foco não está mais
nela.
O descompromisso que essa atitude implica pode ser atribuído a uma duração que é
falsa. Permite, por tabela, que qualquer um drible seu interlocutor, sem parecer
ofensivo
nem
indelicado.
(http://64.233.169.104/search?q=cache:PczqCmiosKYJ:revistalingua.uol.com.br/textos
.asp%3Fcodigo%3D10887+vamos+estar+fazendo&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br)
No julgamento de Francisco Platão Savioli (2008), o gerundismo se disseminou como
traço de quem se ocupa em procurar formas de polidez para relacionar-se. Como não tem
10
Professora da Unesp e do Mackenzie e autora da Gramática de Usos do Português.
17
versatilidade de uso da língua, essa pessoa aposta na fórmula ritualizada, na presunção de que
aquilo é uma gentileza chique. No fundo, é um desperdício de gerúndio.
Acrescenta ainda, que o fato é que o gerundismo se trata de uma expressão que não
circula na língua culta escrita e, mesmo na língua popular, ela não circula com espontaneidade.
Parece ser mais uma forma artificial e planejada.
Por fim, nas palavras do gramático Evanildo Bechara (2008), o que está em jogo pode
ser a própria concepção de certeza num diálogo. Ele exemplifica que o presente escrevo, nos dá
idéia de certeza e com escreverei, o futuro, pode ocorrer ou não. Porém com a construção vou
estar escrevendo é acrescentada a idéia de promessa, de não compromisso. O gramático avalia
que o gerundismo marca a oposição entre promessa e esperança. E nas palavras de Sírio Possenti
(2008), se a relação de compromisso entre pessoas e entre empresas e clientes não for
modificada é possível que o gerundismo se torne mais regular do que já é. As pessoas garantem
que “vão estar providenciando”, mas não providenciam, e isso é terreno fértil para a expressão
fortalecer-se.
Portanto, as discussões sobre a construção vou estar + gerúndio são muitas, porém há
muito que se estudar sobre este fenômeno que é recente nas construções do PB. Entretanto, a
designação de vício de linguagem determinada por alguns gramáticos nos parece estranha,
porque essa construção é empregada nas situações do cotidiano pelos falantes do português
brasileiro como forma de indicar que haverá um contínuo daquela ação, por exemplo na frase:
vou estar anotando os recados quer dizer que aquela ação terá uma continuidade, ou seja, por
algum tempo a pessoa estará realizando aquela tarefa sem que haja uma culminação imediata.
No entanto, os vícios de linguagem são, segundo Napoleão Mendes de Almeida11,
palavras ou construções que deturpam, desvirtuam ou dificultam a manifestação do pensamento,
seja pelo desconhecimento das normas cultas, seja pelo descuido do emissor.
Sendo assim, Pereira Jr. conclui seu texto e fala em combater o gerúndio vicioso:
O gerundismo pode não passar de moda e, tal como veio, desmanchar-se no ar, como
outros vícios de ocasião. O movimento recente contrário à sua aceitação pode indicar
que o fenômeno está longe de generalizar-se. Mas, se ele corresponder mesmo a uma
necessidade nem sempre consciente da comunidade, erradicá-lo vai demorar muito
mais do que se imagina. Ainda é cedo para garantir, com firmeza, o futuro do combate
ao gerúndio vicioso. Se tal esforço "vai estar surtindo efeito", só o tempo "vai poder
estar
dizendo".
(http://64.233.169.104/search?q=cache:PczqCmiosKYJ:revistalingua.uol.com.br/textos
.asp%3Fcodigo%3D10887+vamos+estar+fazendo&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br)
11
Wikipédia, a enciclopédia livre. Vícios de linguagem. Disponível em:
http://64.233.169.104/search?q=cache:zdvZYZ8BbAsJ:pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%ADcio_de_linguagem+v%C3
%ADcio+de+linguagem&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br, acesso em 12 de abril de 2008.
18
Mas será que esta estrutura se caracteriza em ser viciosa? Ou é uma maneira de que as
pessoas se utilizam para amenizar o compromisso com a palavra dada, já que os mecanismos
lingüísticos são acionados pela intenção, como afirma Neves?
Voltando à discussão da forma sintética de futuro -rei (cantarei), de acordo com alguns
estudos Silva (2002), Longo (1998), Gibbon (2000), Silva (2003), Tafner (2004, 2007), Barbosa
(2007) e Nunes (2007), notamos que ela está desaparecendo gradualmente, em especial na fala
informal, isto é, a forma inovadora (forma perifrástica) ir + verbo começa a ocupar esse espaço
na fala informal.
De maneira geral, as reflexões efetuadas a respeito do ensino da produtividade das
formas futurizadas na língua portuguesa ressaltam a importância dos estudos sociolingüísticos
destinados a uma prática de ensino que se almeja focalizada em aspectos da realidade,
corroboradas nos diversificados contextos de uso da língua.
Partindo dos objetivos centrais que devem permear o ensino de Língua Portuguesa,
temos que promover o pensamento analítico do aluno, com embasamentos em atividades
reflexivas para que ele amplie as informações acerca das formas de futuro e permaneça
consciente da valoração sociolingüística da forma sintética ou da forma perifrástica, a fim de
realizar opções lingüísticas conscientes na produção de textos orais e escritos.
4. Considerações finais
Os manuais analisados para este estudo das formas de futuridade empregaram, em
especial, o futuro sintético e o perifrástico vou + -r, não comentando as outras formas possíveis e
em uso no português brasileiro. Do mesmo modo, a descrição a respeito dessas formas é
superficialmente explanada e, em relação à forma perifrástica podemos observar que ela tem
pouca atenção no ensino de língua portuguesa, bem como a reflexão em torno do tempo verbal
do presente do indicativo que pode expressar tempo futuro. O paralelo entre o conteúdo dos
manuais e a exposição feita por estudos sociolingüísticos comprova o fato de que esses manuais
carecem de alimentação sociolingüística. O discente deve se relacionar com o maior número de
variedades lingüísticas para poder interagir da melhor maneira de acordo com a situação. A
inserção de informações sociolingüísticas, como as expostas em Longo (1998), Gibbon (2000),
Silva (2002), Silva (2003), Tafner (2004, 2007), Barbosa (2007) e Nunes (2007), poderiam
contribuir para um ensino mais apropriado das formas de futuridade na sala de aula, incluindo as
seguintes formas: futuro sintético (forma simples flexionada no futuro -rei); futuro perifrástico
(ir + verbo no infinitivo); ir flexionado no futuro com o verbo principal no infinitivo (vou +
verbo ir) e ir flexionado no futuro com o verbo principal no infinitivo + gerúndio (ir + verbo +
gerúndio = locução vamos estar fazendo), embora ainda carecemos de pesquisas nesta área
19
quanto a esta última. Enfim, as reflexões realizadas sobre as formas de futuridade resultam de
diversos trabalhos e segundo a nossa opinião ainda há muito que se estudar.
O conhecimento do funcionamento da língua só tende a desenvolver o conjunto de
informações que o aluno recebe na escola e, posteriormente, na sua vida profissional. Este nosso
estudo é um apelo, em especial, aos professores, alunos e autores de livros didáticos a consultar
estudos na área de sociolingüística, pois a língua humana é repleta de peculiaridades e não pode
ser tratada apenas sob o ponto de vista classificatório.
Nos dias de hoje, em que se escuta falar tanto da dificuldade em obter o interesse dos
alunos, pensamos ser necessário que o professor seja instrumentalizado (busque motivações de
natureza lingüística e social, abolindo os preconceitos em sala de aula); conheça o seu grupo
social (sua (s) turma (s) de alunos) a fim de propor textos adequados aos seus interesses e
necessidades; seja claro no momento de expor o conteúdo, bem como seja versátil, praticando
sua criatividade e a do aluno e acima de tudo, realize sua docência com paixão (elemento
fundamental motivador para o seu sucesso inter-pessoal e grupal).
Em relação à língua é preciso que o professor trabalhe com textos escritos e orais, pois
estes se diferem quanto ao uso de expressões lingüísticas (como é o caso da forma sintética e
perifrástica) e denotam as maneiras de se impor nas diferentes situações de interações diárias. O
discente deve ainda analisar as estruturas dos períodos em seu texto, com o objetivo de contrapor
os processos de fala e escrita, já que muitas vezes ele faz uso de uma ou outra construção tanto
na fala quanto na escrita, dependendo dos eventos comunicativos em que está inserido.
Sendo assim, vamos estar soltando o verbo até que professores, alunos e autores de
livros didáticos falem: Vamos ir atrás dos estudos (sócio) lingüísticos! e os discutam na sala de
aula.
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